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terça-feira, maio 23, 2017

50 anos, caraças!

Por Nuno Miguel Silva



50 anos, caraças!
Entrados, entrudos,
Talvez sortudos…
100 trapaças
100 2 caras!
50, 100 máscaras
50 a fundo
Nunca 2º!
50, 1º!
100, depois
Amizade para 2
A gosto ou janeiro
50, caramba!
Carambola…
Na corda bamba,
Na nossa bola,
50, Paixão!
Sempre a pulsar
Muito a viver
50, meu irmão!
Espero por ti
Aguenta por mim
Tanto que vivi
100 ti, seria assim?

domingo, abril 09, 2017

Um Lehane lunar.

Por Nuno Miguel Silva
Texto publicado a 24/02/17 no Jornal Económico

O último livro do escritor norte-americano Dennis Lehane publicado em Portugal surgiu nas livrarias nacionais no verão do ano passado, com o título ‘Moonlight Mile – A Última Causa’, mas data de 2010. O escritor que traçou inesquecíveis retratos da sua cidade-fétiche, e de centenas de personagens com que a povoou nas diversas obras, regressa ao thriller psicológico, terreno em que é um dos melhores escribas da atualidade. E retorna ao par de detetives que criou ao longo da sua profícua carreira literária: Patrick Kenzie e Angie Gennaro.
Boston volta a ser protagonista num tortuoso regresso ao passado, outra imagem de marca do autor. Uma mulher pediu para lhe encontrarem a sobrinha de quatro anos, que havia desaparecido. Os detetives conseguiram esse intento. A menina foi devolvida, mas a uma mãe negligente e alcoólica. Agora, 12 anos depois, Amanda volta a sair do radar e os detetives de Lehane voltam a entrar em cena.
Há um minucioso destrinçar dos laços familiares e sociais enquanto a cidade de Boston fervilha em pano de fundo. Lehane tem estilo, muito e bom; tem ritmo. É preciso, conciso, destila poesia, enaltece a amizade e o amor, desmascara a violência e alguns bastidores de poder. Há uma queda pelo gótico, pela ficção ‘pulp’, pelos filmes de série B, pelas noites negras. Há tensão e vingança, um bisturi manobrado com precisão.Tudo isso é verdade, certamente bem acolhida para quem com este livro se estreou na obra de Dennis Lehane. Mas para quem já leu grandes livros deste escritor – também autor do guião da série televisiva ‘Boardwalk Empire’ – como ‘Um Copo Antes da Batalha’, ‘Mystic River’ ou ‘Shutter Island’, ou mesmo a monumental ‘biografia’ de Boston, traduzida para português como ‘Terra de Sonhos (’A Given Day’ no original norte-americano), fica a desilusão de perceber que há pouco de novo na estrutura ficional em relação a essas obras incontornáveis. Há mais Lua e menos Sol. Mas vale sempre a pena lê-lo porque é um autor brilhante. E pelos diálogos deliciosos.

quinta-feira, março 30, 2017

Desenho da vida no lago

Por Nuno Miguel Silva
Texto publicado a 10/02/17 no Jornal Económico

Em boa hora decidiu a Quetzal, insígnia da Bertrand, reeditar em Portugal, no final de 2016, o belíssimo ‘Seda’, de Alessandro Baricco, estreado 20 anos antes e editado pela primeira em Portugal pela extinta Difel. Mario Vargas Llosa, prémio Nobel da Literatura em 2010, sintetiza este best seller assim: “É uma história misteriosa, lacónica, perfeita”. Em mais um exemplo do fascínio do Ocidente pelo Oriente, o autor de Turim traça-nos aqui a intrigante vida de Hervé Joncour, cujo pai lhe idealizava “um brilhante futuro no Exército”, mas que acabaria por ganhar a vida com um ofício insólito.

“Hervé viveu numa determinada região do sul de França, numa vila de nome Lavilledieu. Hélène era o nome da sua mulher”. Com as epidemias a grassar, viu-se obrigado a procurar os ovos dos bichos-da-seda, na Síria ou no Egito. Numa noite “sincopada por periódicos tragos de Pernod”, Balbadiou, seu amigo de idade incerta, amante de golfinhos, convence-o que, para sobreviver, “temos de conseguir chegar lá acima”. Ao Japão, “ao fim do mundo”.

A obra de Baricco retrata o fascínio pela viagem – na prática, quatro viagens ao longo da vidade Hervé Joncour entre o Sul de França e o Japão – do fascínio pelo outro, pelo contraste de culturas. E, por isso, se torna amigo do “mais inalcançável homem do Japão”, Hara Kei, “dono e senhor de tudo aquilo que o mundo conseguia levar para fora daquela ilha”. Hervé conta a sua vida a Hara Kei. O comércio dos bichos-da-seda entre os dois continentes está garantido. Mas não a paz de espírito do personagem principal deste livro porque se intromete na vida de Hervé uma jovem rapariga. Real, diáfana, mudou tudo. E Hervé volta cada vez mais depressa ao Japão, consumido pelo amor e pela paixão, mas regressa sempre a França e a Helène, senhora de pacientes esperas.

“Em Takaoka, Hervé Joncour embarcou num navio de contrabandistas holandeses que o levavam até Sabirk. Dali, percorreu a fronteira até ao lago Baical, atravessou quatro mil quilómetros de terra siberiana, transpôs os Urales, alcançou Kiev e percorreu de comboio toda a Europa de leste a oeste, até chegar, após três meses de viagem, a França. No primeiro domingo de abril - a tempo da grande missa - chegou às portas de Lavilledieu”. Foi sempre assim, menos na última viagem. Os bichos apodrecem no caminho e Hervé, vindo da guerra e da desilusão, perde a grande missa na terra-natal. O princípio do fim, enquanto o mundo acelera.

Um sobrescrito que Hervé recebe com carimbo da Flandres vai surpreender, mas, no final, ficam as imagens de uma luva e de um vestido laranja, e o afogar da solidão junto à campa de Hèléne, entretanto falecida. Ver a vida desenhada no lago e “morrer de saudade de uma coisa que nunca se irá viver”.

terça-feira, março 07, 2017

O detetive impassível, a femme fatale e a estatueta de ouro de Carlos V

Por Nuno Miguel Silva
Texto publicado a 20/01/17 no Jornal Económico

1523. A Ordem dos Hospitalários de São João Jerusalém, uma organização que foi contribuinte líquida para as Cruzadas, é expulsa da ilha de Rodes pelo sultão otomano Solimão, o Magnífico. A Ordem muda-se com armas e bagagens para a ilha de Creta, onde permanece sete anos.
Em 1530, convencem o imperador Carlos V, líder do Sacro Império Romano-Germânico, a ceder-lhes as ilhas de Malta, Gozo e Trípoli. O imperador aceita com uma condição: todos os anos, a Ordem teria de lhe pagar o tributo de um falcão, fazendo sentir-lhes que Malta fazia parte de Espanha.
Com recursos vastos decorrentes dos saques sistemáticos a que se dedicava, a Ordem aceita o trato. E como prova da sua gratidão a Carlos V, em vez de lhe entregar um simples falcão, em versão natural, oferece ao imperador um maciço falcão de ouro, com 30 centímetros de altura, incrustado com as mais preciosas pedras.
Quatrocentos anos e inúmeras peripécias depois, ninguém sabe onde pára o valioso
falcão. Ninguém, não é bem o caso, como poderão descobrir depois de lerem a trama arquitetada por Dashiel Hammett no delicioso “O Falcão de Malta”, também conhe- cido por “A Relíquia Macabra”.
No desenrolar do enredo, surge-nos um dos detetives com a história mais fulminante da ficção policial (Miles Archer), uma verdadeira femme fatale (Miss Wonderly, aliás, Miss O’Shaughnessy) e um detetive impassível (Sam Spade).
Na procura da centenária estatueta andam ainda criminosos de diversos recortes. E não podia faltar um célebre par de polícias (o bom e o mau) que tentam investigar os assassinatos que vão pingando no decorrer da genial ação engendrada por Hammett, tendo São Francisco por pano de fundo.
O suspense vai subindo à medida que estas e outras personagens se vão cruzando, sendo surpreendente o desenlace, como convém.  Sam Spade foi poupado, na trama, para nosso deleite em outras aventuras.
“O Falcão de Malta” regressou recentemente às livrarias portuguesas pelas mãos da Livros do Brasil, uma chancela que agora pertence à Porto Editora, numa coleção que replica a famosa Coleção Vampiro, que encantou leitores desde o final dos anos 40 do século passado até 2010.
Esta referência da literatura policial universal foi publicada pela primeira vez em 1930 e logo no ano seguinte foi passada ao cinema, mas só 10 anos mais tarde gerou outra obra-prima na tela: Sam Spade terá para sempre a pose e a voz de Humphrey Bogart, a femme fatale foi encarnada por Maryh Astor, Peter Lorre fez a sua estreia, assim como o realizador, um tal de John Houston. É considerado um dos melhores filmes de sempre.

sexta-feira, fevereiro 24, 2017

O humor segundo RAP: ofício belo, nobre, indispensável e inútil.

Por Nuno Miguel Silva
Texto publicado a 27/01/17 no Jornal Económico

Não esperem anedotas, nem chistes. Este senhor, já o sabemos, leva o humor muito a sério. Ainda bem, dizemos nós...  Em pouco mais de cem pagininhas, Ricardo Araújo Pereira (RAP) embarca-nos numa fabulosa viagem à volta do humor, no livro editado no final do ano passado pela Tinta da China, com o sugestivo título “A doença, o sofrimento e a morte entram num bar”.

“Esta é a minha hipótese: humor, ou sentido de humor, é, na verdade, um modo especial de olhar para as coisas e de pensar sobre elas. É raro, não porque se trate de um dom oferecido apenas a alguns escolhidos, mas porque esse modo de olhar e de raciocinar é bastante diferente do convencional (às vezes, é precisamente o oposto), e a maior parte das pessoas não tem interesse em relacionar-se com o mundo dessa forma, ou não pode dar-se a esse luxo”, alerta RAP no texto escolhido pela editora para a contracapa da obra. Onde se aprende ainda que “somos treinados para saber o que as coisas são, não para perder tempo a investigar o que parecem ou o que poderiam ser”, pelo que este último livro de RAP, segundo o próprio, “procura identificar e discutir algumas características dessa maneira de ver e de pensar”.

E há pérolas cristalinas neste ensaio despretensioso de RAP. Aqui vai um exemplo: “O riso subverte o medo. Corrói-o, domina-o, torna-o mais pequeno”. É o que o autor faz como leitor, para depois lhe dar a graça de conviver nesta jornada com alguns dos cérebros mais fulminantes da espécie humana. Platão, Hobbes, Dickens, Chaplin, Machado de Assis, Eça de Queiroz, Quentin Tarantino, Goethe, Cervantes, Vasco Graça Moura, James Joyce, Oscar Wilde, Lewis Carroll, Woody Allen, Camilo
Castelo Branco, Kant, Mark Twain, Monty Phython,Voltaire, Chico Buarque, Buñuel, Ricky Gervais, Fernando Pessoa, David Lodge, Alberto Pimenta, Samuel Beckett, Jacques Tati, Schopenhauer, Chesterton, Kafka, Freud, Jerome K. Jerome, Manuel António Pina, Jerry Lewis, Barão de Munchhausen, Miguel Esteves Cardoso, Dean Martin, Brueghel, Kevin Costner, Henri Bergson, Diderot, Aristóteles e muitos outros são alguns crânios que RAP coloca em diálogo com o leitor, com ritmo e assertividade a toda a prova. Para não falar de referências à Bíblia, ao Livro de Pantagruel ou mesmo às energias do Super-Homem, Muhammad Ali ou George Foreman...

Um deleite. RAP socorre-se de Shakespeare, no ‘Hamlet’ incontornável. Diz o protagonista, com tradução de Sophia de Mello Breyner Andresen: “Onde estão agora as tuas troças, as tuas cabriolas, os brilhos da tua alegria que faziam romper na mesa um longo riso? Nada te resta agora para troçares da tua própria careta! Não tens beiços nem língua. Vai agora ao quarto da dama da corte e diz-lhe que, mesmo que ela ponha uma camada de pintura da grossura de umdedo, esta há de ser um dia a sua imagem. Faz que ela se ria disto”.

E o autor remata: “Não conheço melhor definição do trabalho do humorista. Fazer com que as pessoas se riam desta ideia: por mais que façam, vão morrer. Fornecer-lhes uma espécie de anestesia para esse pensamento. É um ofício belo, nobre, indispensável e inútil: sim, o riso tem o poder de esconjurar o medo, mas só durante algum tempo, talvez apenas durante o tempo que dura a gargalhada. Às vezes, nem tanto”.

Mais um exemplo da teoria bem arquitetada de RAP sobre o que é o humor, ou seja, “uma estratégia para reagir ao sofrimento”, “uma espécie de mau perder que leva o humorista, não a adaptar-se ao mundo, mas a afeiçoá-lo a si - mesmo que, para isso, tenha de dobrá-lo, torcê-lo, virá-lo do avesso”.

Conclui RAP que “na verdade, é quase nada, mas é o que há”. Será que a culpa é do Benfica?...

segunda-feira, maio 25, 2015

Da promessa e da conquista.

Toda a gente que me conhece sabe perfeitamente que o actual presidente do Sport Lisboa e Benfica não é propriamente um personagem que me seja simpático, mas, de facto, devo reconhecer que, com o tempo, o homem tem mostrado resultados, quer ao nível desportivo quer no que diz respeito à estrutura instalada. O meu querido amigo Nuno Miguel Silva faz a redenção por mim, num texto que recebi dele por SMS e que se refere a um muito pertinente artigo do Jornal i, da autoria de Rui Pedro Silva.


O SLB NÃO É UM CLUBE PARA TANSOS!

Há três anos, quando Luís Filipe Vieira se recandidatou à presidência do glorioso - o mandato acaba no final da época de 2016 - prometeu três campeonatos nacionais e uma final europeia para o futebol, e 50 títulos nas restantes modalidades. Na altura terá soado a bazófia ou mera loucura. Agora até parece fácil. O Benfica somou, desde 2012, 56 títulos nas modalidades e a terceira época ainda não acabou. Objectivo mais que superado. A equipa de futebol, esteve em duas finais europeias. Objectivo superado. E ganhou dois campeonatos, perdendo um à risca. Mas ainda falta um ano de mandato. Num país em que nenhum responsável cumpre o que promete, diria que é obra, não civil, mas civilizacional. 
O Sport Lisboa e Benfica, com Luís Filipe Vieira, voltou a voar ao grande estilo da águia.