terça-feira, agosto 21, 2007

Interpol e o mundo natural.


Heinrich Maneuver - Interpol

 
I "How are things on the West Coast?!
hear you movin' real fine
You wear those shoes like a dove
Now strut those shoes
We'll go roaming in the night

Well how are things on the West Coast?!
You keep it movin' to your soul's delight
Now I've tried the brakes
I've tried but you know it's a lonely ride
How are things on the West Coast?
Oh and move heaven behind those eyes...

Today my heart swings
Yeah, today my heart swings"





Diz-se por aí que este magnífico "Our Love to Admire" é uma pena. É uma pena porque os Interpol não foram gravar outro "Antics", é o que se argumenta. É uma pena, afirmam sobranceiros, que uma banda assim desiluda com um disco diferente. Pois eu, que não chego a ser melómano, que nem passo bem de um groupie sedentário, devo dizer que este último disquinho dos Interpol é uma maravilha das grandes precisamente porque houve muita coragem dos senhores, ao decidirem fazer diferente. Bravo.





Interpol é uma banda que devia simplesmente ser canonizada, levada ao altar, fundir-se com deus, para terapia deste último. Não me lembro de um acorde que não seja merecedor de uma missa e, caramba, até Bach iria por certo direitinho à Fnac comprar os discos, caso a imortalidade se corporizasse em excesso.





Metafísica à parte, a música dos Interpol é sobretudo uma força da natureza. Uma manifestação telúrica ligada ao amplificador.






Já estou só a escrever para meter texto entre as imagens magníficas, retiradas do Digital Booklet de "Our Love to Admire", esplêndido objecto gráfico a que a malta do eMule não tem direito. Bem feita.



quinta-feira, agosto 16, 2007

Os filhos da meia-noite.

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1 - O Mistério de Estocolmo
Confesso envergonhado que foi preciso viver 40 anos para abrir pela primeira vez um livro escrito por Salman Rushdie. Não sei se existe redenção para isto, já que se trata para aí de um dos 5 autores mais importantes do Século XX. Mas se eu não tenho desculpa, que dizer daquela academiazeca nórdica que distribui anualmente, por desgraça moral e para triunfo dos maus costumes, o tristemente célebre troféu fiduciário que conhecemos por Nobel? O facto de Rushdie nunca ter ganho este pestilento prémio só lhe fica bem (o mesmo aconteceu com Borges e Joyce), mas, por todos os deuses da lucidez estética, expliquem-me então o mérito maluco dos seguintes ganhadores que, aparentemente, são merecedores da posteridadezinha que lhe é recusada:
Theodor Mommsen, Bjørnstjerne Bjørnson, Henryk Sienkiewicz, Giosuè Carducci, Rudolf Christoph Eucken, Selma Lagerlöf, Paul Johann Ludwig von Heyse, Sir Rabindranath Tagore, Carl Gustaf Verner von Heidenstam, Karl Adolph Gjellerup, Henrik Pontoppidan, Carl Spitteler, Jacinto Benavente, Wladyslaw Reymont, Grazia Deledda, Henri Bergson, Sigrid Undset, Erik Axel Karlfeldt, John Galsworthy, Frans Eemil Sillanpää, Johannes Vilhelm Jensen, Pär Lagerkvist, Halldór Laxness, Salvatore Quasimodo, Saint-John Perse, Ivo Andric, Miguel Ángel Asturias, Yasunari Kawabata, Patrick White, Eyvind Johnson, Harry Martinson, Vicente Aleixandre, Odysseas Elytis, Czeslaw Milosz, Elias Canetti, Jaroslav Seifert, Wole Soyinka, Toni Morrison, Kenzaburo Oe, Wislawa Szymborska, Gao Xingjian, Imre Kertész e Elfriede Jelinek.
A resolução do mistério é elementar: nenhum destes ilustres teve a coragem de tratar os persas pelos filhos da puta que são. E a academia sueca que, na sua sabedoria de clube recreativo, se acomoda nesta cobardia, não percebe que Salman Rushdie nem embirra especialmente com os persas. Do que ele não gosta mesmo é do fascismo de deus.

2 - Maomé e o Pato Donald
O canal de televisão da magnífica e humanista organização chamada Hamas tem um programa infantil cujo guião inclui a morte por espancamento do Rato Mickey às mãos de um polícia israelita e a ressurreição da Abelha Maia como mártir do islão. Eu estou a falar a sério. Sei que é difícil de acreditar mas, neste programa, as crianças são explicitamente convidadas ao ódio, ao fanatismo étnico e religioso e à prática terrorista através do recurso aos ícones do imaginário infantil ocidental. É uma coisa absolutamente terrível, garanto-vos, uma barbaridade da cair para o lado, mas eu vi-a, com estes dois olhos que, seguramente, a terra irá devorar. E se não acreditam em mim, podem fazer como S. Tomé, aqui. Agora, por favor, não me fodam mais a paciência com os palestinianos!

3 - Uma prova
Sobre a revolução filosófica que advém das conclusões alucinantes da Mecânica Quântica já eu estou para aqui fartinho de escrevinhar e mais me fartarei, claro está, no futuro. Mas por agora fica só o episódio das minas de Utah. A pressão gerada pelos media e pela opinião pública americana no sentido de encontrar vivos os mineiros encurralados, levou os responsáveis pela operação de salvamento a correrem enormes riscos de segurança. Como resultado temos mais gente a morrer. O observador tem implicação directa nos resultados. Eis, portanto, o famoso Princípio de Werner Karl Heisenberg: o produto da incerteza associada ao valor de uma coordenada xi e a incerteza associada ao seu correspondente momento linear pi não pode ser inferior, em grandeza, à constante de Planck normalizada.

Edições Blogville #6

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Como roubar quatro milhões de euros (and get away with it).

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A Câmara Municipal de Lisboa decidiu resolver o seu vergonhoso problema financeiro com o golpe do século. Num só mês, roubou os Lisboetas 64.000 vezes. O crime perfeito é, inclusivamente, anunciado com mal disfarçado orgulho, com comunicados à imprensa e tudo. Se os lisboetas não fossem um lastimável rebanho de gado estéril, recusavam-se simplesmente a pagar estas multas e deixavam que os radares entupissem os tribunais de processos pueris. Assim sendo, o exemplo sertá rapidamente seguido por outras autarquias e o radar depressa se transformará num exemplar instrumento tributário de escala nacional. O Ministério das Finanças já não está sózinho na refinada arte de roubar os portugueses.

quarta-feira, agosto 08, 2007

Porque é que o Senhor Fernando Santos é uma besta quadrada?

Porque não sabe sequer fazer contas: se jogamos com dois centrais, dois laterais e três trincos, temos 7 bonecos a defender, certo? Mais o guarda-redes, são 8 marretas. Assim sendo, ficamos com 3 marionetes para preencher de mau futebol o meio campo e o ataque. Como, este ano, o terrível plantel obrigará a ter constantemente dois palhaços là à frente, sobra um cromo para fazer o jogo todo. E dado que os cromos disponíveis para preencher este iato na grande caderneta da estupidez humana são, nem mais nem menos que o Campeão do Mundo de Ping Pong Nuno Assis e o Bom do Ruca Avô Cantigas, eu pergunto, com a necessária delicadeza: uma revoluçãozinha Khmer vinha mesmo a calhar, não vinha?

Ediçoes Blogville #5

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Som de Verão é assim:


Mario Biondi - "This is what you are"

sexta-feira, agosto 03, 2007

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1. UMA IDEIA DE DEUS

A aranha aventura-se numa velocidade rasteira, pelo alcatrão incendidado. Quer chegar ao outro lado da rua, metade certa do seu universo incerto e, por deus, leva pressa! O asfalto vulcânico queima-lhe a lógica do trajecto (ai, ui, ai, ui, chiça!) e a distância prolonga-se numa eternidade de Odisseia, mas a aranha lá vai, como Livingstone à procura da nascente primordial. Não se detém por coisa alguma, danado bicho com uma causa de travessia. Entretanto, Ulisses passa de mercedes benz e acena um sorriso. Para trás deixa uma vaga sensação de divino e uma aranha esmagada, fundida sobre a escuridão escaldante da estrada.


2. BODY TALK

Para além do umbigo, Cleópatra só desvendou a sua beleza grega perante imperadores romanos. Madalena, mesmo apedrejada, não desnudou o seio e Joana d’Arc nunca mostrou o cú ao inimigo. A Rainha Isabel andou a vida toda com um fecho éclair até ao pescoço (que não a favorecia nada) e Catarina a Grande vestia demasiadas saias para se poder despir convenientemente. Não é por acaso que até a lua, essa velha meretriz, tem um lado escondido. Exibicionistas são as flores. Por isso acalma-te e apaga a luz.


3. PRAIA MAR

O que fazer perante a voz do atlântico, o rugido
da falésia em espasmo, o barulho, o bramido?

Era gajo para ficar até sempre aqui, exilado
entre a fúria do mar e a praia do amado.

Mas o que pensar do azul, o que fazer da disputa
que respira na orla, que grita, que luta?

Era capaz de nascer outra vez para voltar a ter fé
no triunfo do atlântico e na glória da maré.


4. TERRA VERMELHA

Esta terra vermelha que pariu Adão à imagem de Deus, esta terra enrugada, palco da História Universal do Horror, receptáculo cenográfico de delícias e profecias; esta Terra Mãe, esta terra mártir que nos suporta a angústia pedestre, que nos alivia o peso da vida; esta terra queimada, adubada de almas e minérios; esta terra prometida de desertos de dor; esta terra, boa e velha, há-de consumir-nos a todos, no fim.


5. BUDA BAR

Espanta-me a tua metafísica de nenúfar. O teu ponto g é um lago zen, feito perfeito ainda antes da criação. O sorriso de buda abre-se sobre o teu pântano de lilazes e de lótus: deixas de acreditar no tempo e és enfim imortal sobre a decadência celular do cosmos.


6. TOUR DE FORCE

Dia sim, dia não, trepam cinco montanhas à procura das barbas de deus e a ver quem chega primeiro. Êmbolos no pedal e é de zuca, zuca, zuca por ali acima numa alegria de vitaminas e xaropes. Ah glória pedrada e suada, olímpica, sobretudo sobre-humana, de rins à mostra em cima da bicicleta, animal indolente que não quer já sair dali, onde chegou com supremo esforço mecânico de correntes e cremalheiras, insultando Newton a cada torre geodésica que fica para trás no alívio da descida em curva contra curva contra o tempo. Parece que estes homens locomotiva, estes bravos do pelotão, tomam drogas. Ora, que remédio!

quinta-feira, julho 05, 2007

Uma pauta não é um calendário.

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Devia ser para aí 1984. Ou 85. Eu e o B. matávamos o tempo que um preguiçoso 12º ano fazia sobrar em abundância com uns charros e uns discos. Umas conversas sobre isto e aquilo e umas tardes tranquilas, que nunca mais acabavam. Estávamos para ali sentados em frente à estereofonia, como gente feliz. Ouvíamos imenso um disquinho raro, Steeltown, de uma banda escocesa - nesse tempo ainda mais ou menos incógnita - chamada Big Country. A coisa soava assim como se os Duran Duran fossem trabalhar para as minas e saissem de lá só para gravar uma obra prima num pub escondido da mais alta terra das terras altas. Aquilo sim era rock de barba rija. Masculino e ferrugento, com palito na boca e camisola de alças, suada. Aquilo sim era algo de novo que não vinha a saber a plástico, ou a FM americano. Aquilo sim, caramba.
Um quarto de século depois, oiço Editors (e também, de certa maneira, Interpol), e só me vem à memória do ouvido o som puro daquelas tardes infindáveis na companhia do meu amigo e das guitarras durinhas e cruas, dos versos desesperados, rurais, dos Big Country. Há aqui uma convergência de sensibilidades que não tem só a ver com o aparente regresso do rock desencantado de outros tempos. Que tem a ver sobretudo com uma visão lírica da vida que, não sendo de todo a minha, faz parte de mim.
Infelizmente não encontrei os clips deste último disco dos Editors que mais têm a ver com esta conversa (provavelmente porque ainda não existem, o albúm saiu a 25 de Junho), mas junto mais um tema ao "Smokers Outside the Hospital Doors" que já editei no outro dia, na esperança de que me percebam. Isto, muito embora tenha plena consciência de que só realmente o B. é que vai entender alguma coisa do que para aqui estou a escrevinhar, não é, amigo?


Big Country - Just a Shadow - 1984


Editors - The Racing Rats - 2007

quarta-feira, julho 04, 2007

Se não gostarem desta música, ouçam outra vez, por favor.

(não estranhem os primeiros segundos de silêncio)

Editors - "Smokers Outside The Hospital Doors"
Se não gostarem à terceira vez, não é preciso voltarem a este blog. É que não vale mesmo a pena. Estamos a viver por antípodas. Antecipadamente grato pela atenção e etc.

Verdade, verdadinha.

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"Tudo o que é preciso para fazer um filme é uma arma e uma rapariga."
Jean-Luc Godard

domingo, junho 24, 2007

A Síndrome do Infante.


Não é por acaso que aquele que foi, muito provavelmente, o mais inteligente dos portugueses, tenha dedicado grande parte da sua vida a esgalhar um plano de fuga. Como o desditoso Henrique, todo o português que se preze tem o secreto ou aberto sonho de se evadir de Portugal. Sempre achámos e continuamos a achar que o sétimo céu se esconde num canto recôndito do mundo. Como a D. João II, inquieta-nos esta pequenez marginal, esta solidão perante o mar. Como Milton, sonhamos com a queda de Lúcifer, desde que Lúcifer não faça a desfeita de cair em território nacional. O paraíso perdido está algures do outro lado da fronteira. Ou do outro lado da praia. Devo advertir a audiência que este postal não encontra razões na wikipédia nem conta com argumentos google. A partir daqui falo só de experiência humana minha: conheço gente vária que viveu em áfrica e que nunca conseguiu recuperar à infâmia do regresso. Conheço gente outra que foi acampar para a escócia e inventar utopias hippies na catalunha, que se escapou para negócios complicados em moçambique, que foi trabalhar para frança, que foi vender vinho para angola, que foi estudar para os estados unidos, que foi ganhar dinheiro para a áfrica do sul. Conheço pessoas muitas que seguiram pelo ancestral êxodo de macau e que, retornados também, sonham e anseiam por voltar àquele bocadinho chinês de terra portuguesa (este caso é mesmo muito estranho). Conheço malta com família em sidney, newark, ontário, instambul, que trabalhou em roma, que viveu em liverpool, que desapareceu para o deserto a propósito de ir comprar tabaco (só um português poderia chegar a marrocos com o pretexto dos cigarros). Conheço por excesso pessoas da minha terra, do meu bairro, da minha vida que deram de fuga. Foram para madrid, foram para londres, foram para boston, foram por onde as estradas do mundo esquecem o seu destino. E o que não me falta de gente em trânsito é gente que foi para o brasil, claro. Mas também para a argentina. Para o chile. Para a venezuela(!). A diáspora é de tal forma o quinto império deste meu bom povo que de portugueses está o mundo repleto. A acontecer, num determinado momento, num qualquer lugar tirado à sorte pela lotaria dos deuses, um desastre grande ou um supremo momento de júbilo, estará lá - asseguro-vos - pelo menos um tuga por testemunha! Kuala lumpur, nairobi, cidade do méxico, genebra, copenhaga, cairo, kathmandu. Não interessa a toponimia, há-de por deus encontrar-se por lá um zé, um antónio, um francisco e, com toda a certeza, uma maria. A verdade é que o português não gosta de Portugal. É até alérgico: porque raio de amor à pátria vai o Vasco contra ventos e correntes, contra a lógica e o bom senso, inventar um caminho marítimo para a índia? Porque, convenhamos, devia já estar fartinho de Portugal. Como Eça de Queiroz (ele próprio um diplomata), os portugueses acham que o seu país é mal frequentado e doentio. Os que partem sentem-se melhor, os que ficam são condenados aos serviços públicos de saúde, o que também não é nada bom. Reparem: eu conheço portugueses que preferem morar em nova deli. Que defendem a gastronomia de manchester. Que movem influências por um emprego do outro lado do mundo, o mais distante que seja possível por cartografia, o mais antípoda que poderá permitir a ciência geográfica e a criatividade do emigrante. É preciso sair daqui. A todo o custo. Qualquer lugar obscuro e suspeito, qualquer bocado de terra infernal e selvagem, qualquer quimera de supermercado serve de combustível ao motor desta incontornável, permanente e obsessiva volição.
Um dia destes fico para aqui sózinho.

sábado, junho 23, 2007

quinta-feira, junho 21, 2007

Alfredo, amigo, o Prost foi um granda mago, man.

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"Posso ser considerado herético, mas sempre suspeitei que Alain tinha uma habilidade maior."
Frank Williams - ex-patrão dos dois pilotos - comparando Alain Prost com Ayrton Senna

Deixou-me um divertídissimo recado, o meu querido amigo A.F., a propósito das curtas palavras que editei sobre Prost, no postal em que faço o elogio de Hamilton. Ora acontece que o A.F. não tem consideração nenhuma pelo grande campeão francês, o que é comum em Portugal e não só. Eu bem sei que o personagem não é simpático. Que toda a gente gostava era do Senna, ou do Piquet (deuses, que pezudo!), ou do Alan Jones, ou do Nigel Mansell (há gostos para tudo) ou de muitos outros que nem um lugarzinho pequenino na história do automobilismo internacional souberam conquistar: os alboretos deste mundo.
E porque me recuso a aceitar a validade dos argumentos do A.F. - que reduz Prost à categoria de condutor de carrinha limpa neves; e porque, mais a mais, o A. F. queixa-se deveras que eu nunca dou resposta aos comentários da sua lavra que tenho a honra de receber aqui neste blog, decidi-me ao contraditório. Principalmente, confesso, porque é facílimo contradizer o A.F. nesta matéria (deve ser a única). Basta enumerar os factos.
Por ser muito desajeitado, Alain Prost correu para as 4 principais equipas da F1 contemporânea: Renault, McLaren, Ferrari e Williams. Como não prestava para nada só ganhou títulos mundiais para duas dessas marcas. Na Renault, de que foi o grande responsável pelo futuro sucesso, venceu apenas 8 grandes prémios pilotando umas caranguejolas turbolentas que só ele mesmo conseguia levar até ao fim das corridas (René Arnoux sempre foi excelente a partir motores e Jean Pierre Jaboille deve ter terminado para aí duas provas na sua vidinha de azarado profissional). Na Ferrari então foi o desatre total: nos dois anos que lá esteve foi vice-campeão em 1990 e quinto em 1991. É claro que a Ferrari desses dias não era a Ferrari de hoje (a Scuderia não conseguiu ser campeã com ninguém entre 1983 e 1999), mas isso é um detalhe: o francês é que não presta. Aliás, foi precisamente pela sua falta de habilidade que Alain Prost foi 4 vezes campeão do mundo, sendo um dos mais bem sucedidos pilotos de Fórmula 1 de todos os tempos. E justamente por ser muito inferior a Ayrton Senna e nem ter comparação com Niki Lauda é que dois dos seus títulos foram conquistados com estes senhores como colegas de equipa, na Mclaren. O preconceito com este desajeitado condutor é tal que, apesar de ter sido tantas vezes campeão do mundo como vice-campeão, os seus detractores lá lhe inventaram a deselegante alcunha de "eterno segundo". A ter o epíteto alguma coisa de razoável, seria simetricamente justo que lhe chamássemos o "eterno primeiro", certo?
Na sua carreira de piloto lento e pouco competitivo, Prost disputou 200 grandes prémios, ganhando 51, subindo ao pódio por 106 sortudas ocasiões, partindo em primeiro lugar da grelha da partida por 33 vezes e batendo o record de volta em 41 corridas. Convenhamos que estes números são uma vergonha. Só um inapto consegue ganhar um em cada quatro grandes prémios disputados. E se houve coisa que Prost nunca soube fazer foi ultrapassar: certa vez, no Grande Prémio da África do Sul de 1986, o rapaz saiu em último, das boxes. Chegou em primeiro, efectuando nessa corrida a incrível quantidade recordista de 16 (dezasseis) ultrapassagens. Pura sorte, claro. Aliás, para quem não sabia sequer ultrapassar retardatários, o homem fartava-se de fazer corridas de trás para a frente, embora isso se deva provavelmente a alguns truques de prestidigitação levados a cabo por comissários de pista mal intencionados. Alain Prost foi eleito o desportista mundial do século XX, na categoria dos desportos motorizados, precisamente por ser um azelha e o tal Lauda, que também não percebia nada disto, referia-se-lhe por "fast sun of a bitch", mas deve ter sido sempre depois de ingerir uns valentes copázios de schnaps.
Alain Prost, é certo, não corria riscos desnecessários (um cobardolas!). Deve ser por isso que está vivinho da silva. Não fazia fitas nem armava aos cucos (um sonso!). Estava mais interessado em afinar o carrinho (um calculista!), tarefa em que, muito provavelmente, não terá par na história da competição. A sua condução era de uma precisão absolutamente extraterrestre, apesar da falta de jeito, e o seu entendimento dos limites do carro e da pista, bem como o seu sentido estratégico, davam, por si só, para alimentar a substância teórica e prática de vinte e três mestrados e quarenta e tal MBA's. Desgraçadamente, era baixinho e desinteressante e ainda por cima francês, que é coisa que não fica bem a ninguém. Mas, por favor, não vale a pena entrarmos em niilismos de algibeira. O homem era um génio do volante, Alfredo, cai na real, meu.
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quarta-feira, junho 13, 2007

Vini, Vidi, Vinci.

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Para quem nunca guiou um kart, ou um F1 na Playstation 3 (as variáveis disparatadas são, no entanto, equivalentes), pode parecer que conduzir um Fórmula 1 nos mais tortuosos percursos que se possa imaginar, a trezentos à hora, é uma brincadeira de crianças. Não é. Conduzir estes automóves de ficção científica é um dos mais exigentes desafios que a civilização humana já inventou. É mais ou menos como meter um gajo num foguetão com destino à lua. A diferença (literalmente) é que a viagem dura apenas hora e meia. Ao contrário do que muito boa gente pensa, um piloto de Fórmula 1 tem que ser um predestinado, independentemente do patrocínio milionário. Basicamente, tem que ser um gajo do caraças para se aguentar à bronca. E quando eu digo bronca digo o Fernando Alonso todo borrado com este rookie chamado Lewis Hamilton que, nos primeiros seis grandes pémios da sua vida de vencedor, fez apenasmente um terceiro lugar, quatro segundos e uma excelente vitória de raposa.
Lewis Hamilton, convenhamos, é mesmo um daqueles heróis de que a Europa está deveras precisada. Pretinho primeiro a ascender à máxima categoria do automobilismo internacional, nascido na muito britânica santa terra de Hertfordshire, o homem é um campeão por natureza. Só um exemplo eloquente: enquanto piloto de F3, disputou 20 corridinhas. Ganhou só 15. Uma vez chegado à F1, por mão real do mago Ron Dennis, tem deixado a plateia global de queixo caído: é competitivo que se farta desde o primeiro centésimo de segundo, não comete um filho da puta de um erro, não parece nada afectado pela pressão e lidera, com alguma naturalidade, o campeonato do mundo de pilotos, com 8 pontinhos de avanço sobre o seu colega de equipa, que por acaso até é o bicampeão mundial da categoria.
Hamilton conduz de forma a lembrar-me muito o meu querido Alain Prost, cujos dois defeitos principais seriam, talvez, o de ser francês e o de ser antipático para todo o planeta. Eu adorava a inteligência, o cinismo, a confiança, a consistência do homem. Tudo qualidades que identifico neste novo maluco, embora este novo maluco até exiba algumas qualidades extra. No seu segundo grande prémio, Hamilton deu duas rabetas de levantar o estádio ao mesmo adversário, Felipe Massa, sendo que a última das rabetas deixou o brasileiro nas couves. Na conferência de imprensa posterior à corrida, Hamilton - nervoso e humilde - pediu desculpa por ser uma raposa e eu fiquei logo a gostar imenso dele.
O rapaz vai fazer história.

sábado, junho 09, 2007

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Não é a mais velha profissão do mundo, mas o infame ofício da publicidade tem mais séculos do que se imagina. Agora vendemos plástico e políticos. Mas já vendemos carne humana entre outras mercadorias de baixa indústria. Razão tinha o outro "criativo", que não queria que contassem à mãezinha do seu triste ganha pão, porque a pobre criatura pensava que o filho era pianista num bordel. Já ando nisto vai para vinte anos e cada vez me arrependo mais.

segunda-feira, junho 04, 2007

Vala comum.

Nascem os homens apenas para a decomposição do futuro
e é somente justo que esta espada que seguro
sirva ao meu carrasco de guilhotina.
Tudo está certo neste mundo quando a vida termina
e não há tipo mais porreiro, que o meu amigo coveiro.

Os deuses, graças a deus, também sabem morrer danados,
esquecidos, banhados em sangue e humilhados,
incapazes de sobreviver à criação.
A imortalidade não dura mais que uns dias de ramadão
e caem que nem folhas como todos os trolhas.

Cometas, planetas e estrelas, galáxias verdes e maduras
apodrecem outrossim em quânticas curvaturas.
Quanto mais curioso o telescópio mais defuntas as realidades:
o universo é um belo cemitério de eternidades
em decadência formal, até ao último funeral.

Enquanto há morte, há esperança - um sonho de redenção;
só faz sentido a vida enquanto dura o ramadão.
E não há tipo mais porreiro, que o meu amigo coveiro.

terça-feira, maio 29, 2007

segunda-feira, maio 21, 2007

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Três tristes tigres*

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Não, o seu monitor não está avariado. O problema técnico é que estes três bonecos do contra-informação juntos resumem não só toda a fealdade masculina, mas também grande parte da estupidez, da incompetência e da ignomínia do bicho homem. Não há reprodução rgb que sobreviva a estas fronhas. O meu problema com o Benfica é ser adepto incondicional de um clube que detesto. De um clube que tem história, base sociológica e massa crítica para estar no top ten mundial e não passa, bem vistas as coisas, de uma colectividade de quintal.
O sr. Filipe Vieira seria, talvez, um razoável presidente da junta de freguesia de alguidares de baixo, mas para presidente do Sport Lisboa e Benfica faltam-lhe, literalmente, alguns centímetros de testa, dois ou três mil quilómetros de preparação técnica e, convenhamos, uns litros valentes do bom e velho chá que distingue o homem civilizado dos restantes selvagens. Se ao menos o infeliz conseguisse parar de arregaçar as mangas do casaco, eu - juro-vos - seria um benfiquista mais realizado.
Já o sr. José Veiga é um personagem de tal forma infame que imagino ser possível ter um blog com o único objectivo de lhe dar na cabeça. Este homenzinho que tem o passado que toda a gente está obrigada a conhecer usa, com notável descaramento, o bom do SLB como batoteira redenção para a sua vida de bandido. Lava a cara e continua a roubar. O Benfica é o lavatório de onde as suas mãos sujas saem sem mácula, suaves e hidratadas. O serviço prestado é, para mais, pago pelo fornecedor em generoso ordenado e chorudas comissões pelos jogadores fantásticos que o dito artista tem a astúcia desavergonhada de fazer contratar, todos eles verdadeiros génios da bola que têm oferecido ao clube resultados significativos como, um exemplo por mil, a eliminação nos oitavos de final da taça uefa. Como é que é possível?
At last and altogether the least, o sr. Fernando Santos, que é um absoluto paralelo funcional do amigalhaço Filipe: uma nulidade a sério. Não se percebe porque raio é que um técnico nitidamente incapaz consegue manter o emprego, depois de uma época em que não ganha nada, em que não convence nada. Ele próprio, se é assim tão benfiquista, deveria ter a decência de se retirar. Mas isso, claro, seria pedir demais a um triste tigre. Que afinal, coitadinho, está ali - como os outros - para serviço próprio. O homem tem a família para sustentar e isso tudo.
Ora merda!

*Obviamente, não podiam ser águias; para leões falta-lhes nitidamente o porte aristocrata e só é dragão quem sabe cuspir fogo como o Jorge Nuno (o que não é a mesma coisa que escarrar, arte que estes senhores dominam na perfeição). De qualquer forma, que me perdoem os tigres que não são tristes.

terça-feira, maio 15, 2007

A televisão é competitiva.

Às segundas-feiras não vale a pena marcar programa de copos. Nem desatar a editar o blog. Nem procurar motivos de espanto no you tube. É só jantar bem, abancar alarvemente no sofá e ligar a caixa que mudou um dia o mundo antigo. Pelas 21h30 temos a terceira temporada do House na Fox e sobre este assunto nem é preciso dizer mais nada. Logo que o Sr. Dr. acaba o diagnóstico é mudar para a 2 onde ao telespectador são oferecidos 45 minutos de êxtase. Qualquer ser humano que leu o Asterix quando miúdo, há-de tirar algum prazer da segunda temporada de "Roma", o melhor objecto televisivo desde o glorioso "Eu, Cláudio". Sobre esta série, também já editei para aqui algum post, mas devo repetir-me: trata-se de um soberbo mecanismo de cultura e de um esplêndido produto de entretenimento. Ainda por cima, e logo depois, no mesmo canal público (!), passa uma série documental absolutamente imperdível e singelamente designada por "A História de Deus". São só três episódios mas a coisa promete. Logo à partida, explica-se: a complexidade do sistema de transcendência evolui com a passagem do homem caçador para o homem agricultor, porque o caçador reza em função do acto isolado da caçada, o agricultor roga pela complexidade anual do clima. Lindo. O facto de esta série estar a passar num canal público português em pleno 90º aniversário de Fátima - um fenómeno que transcende a minha compreensão - é uma das razões pelas quais ainda me orgulho de ser cidadão europeu no século XXI. Porque se a ignorância humana é de lamentar, a inteligência e a coragem do bicho homem merece bem ser festejada. Há que ler Nietzsche todas as vezes que forem necessárias até deixar de acreditar em Deus.

terça-feira, maio 08, 2007

Estes senhores têm balanço.


!!! (Chk Chk Chk) - Heart Of Hearts
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Enquanto a extrema esquerda, sempre muitíssimo democrática e tolerante, mostra o que vale em França, o Paulo Dentinho (que é um daqueles tipos que merecia que um contentor lhe caísse em cima num directo qualquer daqueles directos em que fica para ali a dizer aquelas lamentáveis coisas que ele diz) acha natural que ardam, em média e mais coisa menos coisa, 150 automóveis por fim de semana, nos arrabaldes de Paris. O dito parodiante argumenta que os franceses já aceitaram o facto como uma rotina. Se esta malta trouxesse uma suástica na manga a coisa já não era nada natural nem rotineira, claro está. Eu continuo sem perceber a diferença. E quanto a Sarkozy, acho que tinha toda a razão em tratar a escumalha pelo nome próprio. 53 por cento dos franceses também concordam. Suspeito porém que o homem não vá longe. Esta triste, enfadonha, gorda e condenada Europa ainda tolera uns bonecos do género Blairiano. Mas não mais do que isso.

domingo, abril 29, 2007

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5 - A vida sem rede.

Lembram-se de viver sem net? Digam lá, lembram-se? Lembram-se de utilizar os Correios para enviar uma carta? Lembram-se de não ter acesso imediato à Biblioteca do Congresso? Recordam ainda a civilização sem email, sem msn, sem homebanking, sem chats, sem blogs, sem pods, sem tubes, sem nada? Têm ideia da dificuldade que consistia em ser curioso nos idos A. G.?* Sim, façam um esforço e tragam à memória os tempos antes da rede. Porque a revolução não foi existir um computador pessoal em cada domicílio. Foi ligar essas máquinas todas umas às outras. E isto de termos em casa uma máquina ligada às outras todas é realmente de ficção científica. Lembram-se do tempo em que Gutenberg ainda era o deus da comunicação humana? Foi só há 16 anos que o paradigma mudou. Mas imaginem agora a vossa vidinha sem isto. Imaginem que o vosso mundo vai crescer enorme outra vez. Que se instala de novo o silêncio. Pensem bem na coisa louca que é existir este cabo eléctrico e dêem graças por Sir Timothy John Berners-Lee.

*Antes de Google

sábado, abril 28, 2007

Give me no reason.

Já nem me lembro do que é escrever um post sem motivo nem razão, aparente ou equívoca. Já nem sei o que é isto de escrevinhar por escrevinhar, como quem vai levar o saco do lixo à conduta, sem ter lixo no saco. Discorrer só. Não estar para aqui com merdas. Tentar ser Bernardo Soares mas em sossego. Ah, que súbtil e encantadora liberdade, a do post despreocupado. Do post mal parido pelo blogger lesionado que não tem nada assim de especial para editar e que se envergonha por causa disso. Ah, blogger de baixa indústria, sem assunto nem virtude, preguiça narrativa de existires! Tecla para aí qualquer coisa, homem de deus, despacha-te lá com isso. Relaxa. E curte o barulho que faz o mundo, esse eloquente silêncio de histéricos.

São americanos, graças a deus.



Oh oh oh
oh i don't know, i don't know, oh, where to begin
we are north americans
and for those of you who still think we're from england
we're not, no.
we build our planes and our trains till we think we might die,
far from North America,
where the buildings are old and you might have lots of mimes.
aha, oh, oh.
i hate the feelin' when you're looking at me that way
cause we're north americans
but if we act all shy, it’ll make it ok
makes it go away.

oh I don't know, I don't know, oh, where to begin
when we're north american
but in the end we make the same mistakes all over again
come on north americans

we are north american scum
we’re from north america

and all the kids all the kids that want to make the scene
here in north america
when our young kids get to read it in your magazines
we don't have those
so where's the love where's the love where's the love where's the love where's the love tonight?

but there's no love man there's no love and the kids are uptight
so throw a party till the cops come in and bust it up
let's go north americans
oh you were planning it i didn't mean to interrupt
sorry
i did it once and my parents got pretty upset
freaked out in north america
but then i said the more i do it the better it gets

let's rock north america

we are north american scum
we're from north america
we are north american scum
we are north american

new york's the greatest if you get someone to pay the rent
wahoo north america
and it's the furthest you can live from the government un huh huh
some proud american christians might disagree
here in north america
but new york's the only place we're keepin them off the street
boo boo now we can't have parties like in spain where they go all night
shut down in north america
or like berlin where they go another night, alright, un huh un huh

you see i love this place that i have grown to know
alright, north america.
and yeah, I know you wouldn’t touch us with a ten-foot pole
‘cause we’re north americans.

we are north american scum
we are north americans
we are north american scum
we love north america

take me back to the states man
north american scum
where we can be ????
north american
where the dj ????
here in north american scum
don't blame the canadians
let go north america

LCD Sound System - North American Scum

quarta-feira, abril 25, 2007

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Vai para uns anos que me assalta esta convicção de que, por trás do espírito criador, está a pulsão obsessiva de desenvolver as tentativas necessárias para realizar uma grande Obra Única. A preocupação nítida do génio não é a diversidade estética, é a unicidade semântica. Nesse sentido, todo o autor imortal se repete e repete na tentativa de atingir, dentro do seu registo eleito, um estado de graça purinho e deleitoso. A tese que defendo é a de que o romancista imortal aspira somente pela redacção de uma história absoluta. O cineasta monstro sagrado só deseja captar uma sequência perfeita. O génio renascentista não pede mais que autorização para decorar aquele específico tecto da capela onde o Papa vai à confissão. O mestre do barroco pretende apenas chegar à plenitude de saber compor um andamento que entre na frequência modulada de Deus.

O primeiro ministro desta tese é, obviamente, o Senhor Homero. Num livro só (não foi ele que dividiu a história) contam-se a totalidade das rábulas possíveis e imaginárias e estão lá integralmente os personagens que foram ser o barro da literatura como a conhecemos hoje. Por exemplo, todo o vilão é por natureza literária um Agámemnom e podemos facilmente identificar um Ulisses ou um Aquiles nos personagens mais distantes de Ítaca que pudermos conceber: Astérix é Ulisses em baixinho, Obelix é Aquiles em gordalhucho. Toda a estrela de Hollywood é uma Helena e é talvez por isso que a duração média dos casamentos em Los Angeles não excede as 24 horas.

Seria impossível defender este teorema sem a preciosa ajudinha de Jorge Luís Borges. Gostava que algém me explicasse em que é que o Aleph é diferente da História Universal da Infâmia, por exemplo. É a mesma maravilhosa coisa, vezes sem conta: corredores e corredores de literatura no caminho para o mistério. Lá chegados ganharemos a imortalidade se soubermos voltar para trás. Imaginem que Hegel nasce em Buenos Aires com queda para a matemática e vai todos os dias à biblioteca municipal para fazer musculação. Mas ao contrário.
A cartografia um por um dos impérios de Borges corrobora que se farta aquilo que estou para aqui a escrevinhar.

Goethe também não me falha com argumentos: Werther - um Páris sem tirar nem por - é um fantasma omnipresente que emsombra toda a literatura alemã, mas caramba, eu tenho cá em casa as obras completas do bom Wolfgang, já li quase tudo e o desgraçado adolescente percorre o portfólio inteiro de fio a pavio. Werther é Goethe enquanto Rousseau. Werther é a filosofia liberal a levar a necessária porrada da vida. O encanto estético e o desencanto político. E isso está sempre lá.

Outro grande campeão desta minha rábula é Kafka. Franz esteve sempre a esgalhar um livro apenas, ponto final. A história é esta: o homem é impotente perante o seu destino trágico. Será uma barata, será um escravo, será um burocrata, será pequeno perante a amurada, não interessa. O que é importante é o fado e o facto do fado escapar à responsabilidade individual. Todos os heróis de Kafka são Heitor.

James Joyce, esse grande pirata, vem aqui ao caso e não só por causa de Ulisses, que é um mero conteúdo. Joyce é um formalista. E todos os seus escritos sagrados são essencialmente de virtude técnica. É muito nítido à minha percepção que mais lhe importava o contar a história do que a história em si própria. É essa a sua singularidade. É essa a sua mensagem sobre o tempo.

Mas virando o disco: que raio fez Bach pela história da arte senão repetir o princípio básico de que a música é um elemento de transcendência? Toda a pauta do homem é uma oração. Tenho aliás a certeza humilde mas firme de que o Kapelmeister concordaria com este post. Ele mesmo tratou de informar a posteridade que certos prodígios como o Cravo Bem Temperado ou as Variações de Goldberg não passam de meros exercícios de oficina e que os concertos de Brandeburgo não vão para além da ciência política. Não era por coisas pequenas como estas pequenas coisas que o meu querido Johann queria ser lembrado, não. Os ouvidos de Deus são mais exigentes que todos os caprichos do Príncipe de Dresden.

O bem amado Stephen Merrit vem a este propósito porque dedicou uns anos da sua gloriosa vidinha a compor 69 músicas de amor. A repetição ad nauseam do mesmo tema como fundamento estético está na base do grande feito criativo. Não se pode eleger um tema neste albúm pela simples razão que as 69 cantigas são só uma. E eis algo de alquímico.

E Hopper, bom deus, que evidência! O homem limitou-se a seguir por uma variação única. A substância cenográfica é invariavelmente a da mais intensa solidão humana; tela sobre tela, os personagens iguais, as cidades indiferentes, as sombras cópias. Basta olhar para um quadro de Hopper para ler a sua ambição estética.

Quanto a Picasso, qualquer pessoa que conheça a obra levantada previamente para atingir a grandiosidade narrativa de Guernica percebe que o homem só quis na vida conseguir pintar, por uma vez, algo assim.

Outro maluco, Warhol nunca deixou por um momento que fosse de aperfeiçoar um mesmo retrato do mundo. Os bonecos dele são nitidamente ensaios para uma obra una e conceptual e os filmes são experiências desse laboratório. A arte é uma filosofia, é uma ideia de Feuerbach. Nasce para que se repita até ao zen absoluto. O primeiro filme de Andy dura para aí umas sete horas. É o registo fílmico de uma noite bem dormida pelo poeta John Giorno. Nem vale a pena dizer mais nada.

A propósito de película, o grande mestre Howard Hawks, que é um valente campeão desta tese, fez a mesma fita três vezes. Em três filmes um único enredo reescrito sempre pelo mesmo guionista. John Wayne é por 3 vezes o mesmo herói e Robert Mitchum é em duas das tentativas o lamentável bêbado que encontra a redenção. Falo, claro, de Rio Bravo, Eldorado e Rio Lobo. Hawks quis esgotar o modelo até à perfeição e não importa nada se o primeiro filme é ou não, de facto, o melhor pedaço de cinema. A arte não é uma qualidade, é uma perseguição.

E já agora: Kubrick passou a vida à procura do mesmo mistério e o Tom Cruise é igualzinho ao Peter Sellers. Ambos são Aquiles. Os dois são Ulisses. Spielberg fez só um filme, porque todos os filmes de Spielberg são os necessários volumes de um manual de normas para a Boa Estética Popular. E no que ao Senhor Lars Von Trier diz respeito, ainda não consegui detectar as diferenças entre Dog Ville e Europa. E acho difícil que alguém me faça ver para além das semelhanças.

Podia, também eu, entrar na espiral divina da repetição e ficar para aqui horas e horas nisto de vos prometer que Shakespeare só desejava criar uma peça de teatro, que Velasquez trocaria todas as suas telas por uma tonalidade de vermelho, que Pessoa só escreveu a Tabacaria, que Steinbeck não valorizava a imaginação tanto como a repetição, que Mozart nunca rezou por mais que um refrão divino ou que Hitchcock morreira satisfeito na mesma, se só tivesse dirigido aqueles segundos em que os corvos desatam a mordiscar a Tippi Hedren, mas já basta o que basta. Pelo menos por agora.

sexta-feira, abril 20, 2007

O aquecimento global está mal.

A histeria é de tal forma virulenta e a indústria mediática do medo é tão eficaz que eu já nem sei se alguém tem interesse em saber a verdade científica. De qualquer forma, ela está aqui, para quem quiser saber como funciona a grande fraude do século XXI. A sério que vale mesmo a pena ler este post do Professor Jorge Buescu.

Está visto que o rapazinho é um génio da bola.


Leonel Messi Vs Getafe - Meias Finais da Taça do Rei - 18 de Abril de 2007

quarta-feira, abril 18, 2007

Um replay para Elsinore.

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Bela, sensível, criativa e apaixonada, Alma Schindler (1879-1964) seria a mulher perfeita se não tivesse esta tendência suicida para se perder de amores por homens do seu nível intelectual. Logo aos 22 anos cometeu o erro da sua vida, ao casar com o puritano Gustav Mahler, que lhe disse isto assim: “Doravante terás uma única vocação: fazer-me feliz”. Com esta máxima lapidar, pretendia o ajuízado maestro impedir que a sua mulher se transformasse numa rival, e desatasse para ali a escrever música da boa - humilhação suprema para o director da Ópera de Viena. Alma, claro está, nunca deixou de compor, e tudo o que o fascismo colérico do marido conseguiu obter foi um valente par de cornos (o arquitecto Gropius - um dos fundadores da “Bauhaus” - não se importava nada com as partituras da sua bela amante), e uma separação dolorosa que o tornou cliente habitual de Sigmund Freud. Com a morte do marido, em 1911, Alma casa com Walter Gropius, para dele se separar logo de seguida e de pronto fazer vida comum com o pintor Oskar Kokoschka. Ainda assim, a bela musa não concluía o seu espólio de corações destroçados. Rompe com Oskar e casa com o poeta e novelista Franz Werfel. Entrementes, envolve-se em amizades mais ou menos coloridas com outros génios do século XX como Gustave Klimt, Bruno Walther ou Arnold Schönberg.
É claro que no meio de todos estes romances com todos estes monstros da cultura europeia, ficou difícil deixar obra, mas Alma vingou-se afinal do machismo medieval destes homens que nunca reconheceram nela mais do que a ninfa danada das suas paixões, e podemos hoje considerar que sem a sua tentacular presença algo ficaria a faltar à história da música, da arquitectura, da psicologia e das artes plásticas do Século XX.

In Ocidental Praia - 2003

terça-feira, abril 03, 2007

Mais uma cantiga eterna do sr. Merritt.

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THE BOOK OF LOVE

The book of love is long and boring
No one can lift the damn thing
It's full of charts and facts and figures
And instructions for dancing
But I...I love it when you read to me
And you...you can read me anything

The book of love has music in it
In fact that's where music comes from
Some of it is just transcendental
Some of it is just really dumb
But I...I love it when you sing to me
And you...you can sing me anything

The book of love is long and boring
And written very long ago
It's full of flowers and heart-shaped boxes
And things were all too young to know
But I...I love it when you give me things
And you...you ought to give me wedding rings
I...I love it when you give me things
And you...you ought to give me wedding rings

The Magnetic Fields - 69 Love Songs

sexta-feira, março 30, 2007

Mil desculpas.

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Paladino seguidor da triste doutrina em má hora inaugurada por João Paulo II, Tony Blair decidiu pedir desculpa retroactiva aos povos de Gaia pelos horrores esclavagistas do Império Britânico. Esta vergonha da história, que é, no fundo, uma ignorância da história (dos seus enquadramentos económicos e sociais, das suas texturas políticas e demográficas, dos seus contornos militares e étnicos) está muito em voga na Europa e é de uma cobardia franciscana que me irrita solenemente!
Irrita-me solenemente porque pedir desculpa por ter havido um império inglês (é disso que se trata) é simultaneamente vazio de sentido redentor e perigoso para a saúde da civilização. Até ao século XX (e se pensarmos na Bélgica colonial de Leopoldo podemos até incluir este século) é praticamente impensável construir um império sem escravos. Aliás, é praticamente impensável construir uma economia sem escravos. O esclavagismo foi, durante 90% do percurso político e económico da humanidade, um factor operacional penta-essencial, estratégico e - acima de tudo - simbólico.
Adoptando a cartilha de vistas curtas do Sr. Blair, uma imensa parte dos estados do planeta tinham que se desunhar em apologias redondas para atingirem este zen moral de trazer por casa: Putin ver-se-ia na obrigação categórica de pedir desculpa pelos gulags de Estaline; Angela Merkel teria que se consumir em preces pelos sucessivos pecadilhos que os alemães foram sucessivamente cometendo desde que um tal de Bismark se lembrou de unificar esta irrequieta nação de gente industriosa; os egípcios deveriam já retractar-se perante os egípcios e arrependerem-se muito das pirâmides, das maravilhas de Tebas e dos mistérios do Vale dos Reis, que obviamente não teriam sido possíveis se fosse necessário pagar salários aos trabalhadores e negociar com os sindicatos. Outrossim para os Gregos, gente esperta que fundou uma forma de vida baseada primeiramente na guerra - a primeira arte helénica - e cujo conteúdo ontológico deixaria simplesmente de fazer sentido se os exércitos vencidos não pudessem depois servir a custo zero, já que, como é sabido, ao guerreiro/poeta/filósofo não competia a limpeza das latrinas de Atenas, dos balneários de Tróia ou das casernas de Esparta. Neste muito especial e divertido caso, assistir-se-ia a um formal pedido de desculpas à humanidade por ter sido possível a Anaxágoras, Platão e Aristóteles a fundação do pensamento sistemático. A propósito, o Presidente da Câmara de Roma também tem muitas explicações a dar a todos os povos do Mediterrâneo e mais além. Sim, sim, ponha-se lá de joelhos V. Exa. por ter levantado a civilização à custa do chicote, da corrente, da galé, do circo máximo, da faxina doméstica e dos trabalhos forçados de variadíssimo género que aqui há dois mil anos o seu povo teve a infâmia de inventar. E mais digo: pela desagradável tradição de acorrentar e sacrificar infelizes de toda a espécie, Aztecas e Maias, Incas e derivados devem ser publicamente condenados pelos chefes de estado do Perú e da Bolívia, do México e da Guatemala, do Panamá e arredores. Toca a pedir penitência e a agradecer a libertação aos espanhóis, sendo que o Senhor Zapatero não escapa também de uma apresentação pública e universal de má consciência, apesar do nítido paradoxo. Já os chineses, bom deus, podiam passar anos e anos a desculpar-se que não se safavam facilmente da condenação de sacristia. Só pela existência daqueles bonecos da Terracota são catorze dúzias de pais nossos e trinta mil avé marias, if you please. Quanto aos árabes proponho apenas que comecem por apresentar todas as desculpas que conseguirem encontrar no código de Maomé às suas infelizes mulheres, tarefa que os ocuparia seguramente durante as próximas décadas, para santo alívio dos restantes tripulantes da grande barca do caos. Uma palavra ainda de censura para o comportamento inqualificável de zulus e tuaregues, núbios e númidas, sumérios e assírios, cartagineses e fenícios, godos, bretões, normandos e habsburgos, holandeses, franceses, polacos e suecos e austríacos e o raio que os parta que não mostraram nas suas aventuras e desventuras qualquer vestígio de consideração pela versão 2000.7 mega pack da carta sagrada do direitos humanos.
Seria conveniente além disso que se sujeitassem ao tribunal dos bons costumes diplomáticos os actuais descendentes ou responsáveis contemporâneos pelos actos desviados do Sétimo de Cavalaria e do exército Confederado. Dos califas e dos marajás. Dos corsários e dos vice-reis. Já agora: os macedónios têm que cumprir pena por causa de Alexandre o Grande. Não se pode admitir sem repulsa institucional que um exército conquistador do mundo conhecido em 350 A.C. utilizasse com descaramento bárbaro mão de obra de recrutamento compulsivo, privada de subsídio de férias. Quanto a Adriano: abaixo com ele. O senhor Maquievel? Um cínico. Francis Drake? Um pirata! De Carlos Magno é melhor nem falar - é um filha da puta - e no que a Jefferson diz respeito, sabemos bem que o sacana tinha escravos na cozinha.
É claro que podia prolongar esta lista de queixumes até ao ponto em que, acreditando em Borges, ela se escreveria sózinha, mas fico-me só por uma última nota para o consciencioso e solícito Engenheiro Sócrates: faça o favor de convocar com carácter de urgência uma sessão extraordinária da Assembleia das Nações Unidas, de forma a que possa justificar com a costumada solenidade e o usual sentido de estado, a baixa moral dos Descobrimentos!

O clip é manhoso, mas o som é Groove Armada.


Groove Armada - Hands of Time - 2002

sábado, março 03, 2007

1 - O cálice sagrado por um soporífero.

A história oficial da mais bela obra alguma vez escrita para o teclado começa no Inverno de 1741. Aproveitando uma das suas fastidiosas deslocações a Leipzig, o conde Hermann Karl von Keyserling - embaixador russo na corte eleitoral da Saxónia - traz desta feita consigo o jovem cravista Johann Gottlieb Goldberg, seu dotado criado, e encomenda-o às lições do mais reputado dos compositores do barroco.
Por esta altura, Johan Sebastian Bach anda às voltas com um exercício que, de certa forma, desconsidera: as variações. A tarefa ingrata de repetir ad nauseum o mesmo fundamento harmónico dá-lhe dores na imaginação e o trabalho não progride.
O conde Keyserling assiste frequentemente às lições que está a pagar ao imberbe virtuoso e num desses momentos a três, sugere a Bach que lhe componha uma peça musical para que Goldberg a possa tocar nas noites de insónia de que sofre regularmente.
Empenhado em contribuir com a sua arte para o bom estado de saúde do distinto diplomata, Bach cogita sobre o paradoxo: como é que alguém poderá estar desesperado ao ponto de adormecer com a sua música? E como poderá ele alguma vez criar música que adormeça alguém? A arte alemã do barroco destina-se a elevar os espíritos e não a entorpecer a audiência. A solução, porém, estava mesmo à sua frente: uma obra-prima cuja geometria permita em simultâneo a monótona repetição e um chilrrear de criatividade. Dizendo de outra maneira: as variações. Entusiasmado, Bach entrega-se à sua sagrada missão e em dois meses conclui uma peça de música cuja dimensão olímpica não tem absolutamente explicação possível.
Nunca se percebeu se o santo remédio curou o Duque, mas a verdade é que o aristocrata teve o bom senso e o bom gosto de se dar à generosidade, oferecendo a Bach um milionário e lendário cálice de 100 luíses de ouro. Keyserling mostrava-se até bastante orgulhoso da obra que pagara afinal a bom preço (não há luíses suficientes nas fortunas do mundo que valham metade desta pérola), tanto mais que estas foram as únicas variações alguma vez compostas por Bach.


2 - Especulação de blog e ficção literária.

A história não oficial que agora estou a inventar é só ligeiramente diferente: não desconfio nada da insónia do Duque, e até a acho esteticamente coerente. Concordo que a ideia das variações é anterior à sugestão de Keyserling e que o sábio do Sebastião se limitou a fazer render o peixe que já estava a cozinhar. Agora, parece-me bem que as motivações de Bach transcendiam a sua cristã preocupação com o justo sono de Keyserling. E muito me admiraria que o Capellmeister de Leipzig considerasse, à partida, digna da sua posição a encomenda de uma peça musical estupefaciente.
Acho muito simplesmente que Bach se deu a esta trabalheira a pensar nas vantagens de agradar a uma figura política de relevo, que podia meter um cunha na corte real saxónica.
Para eliminar equívocos, devo dizer que Bach foi um dos poucos génios da história da humanidade que não morreu sem reconhecimento e nunca lhe faltaram respeitáveis empregos. Neste preciso momento de Leipzig, já com 56 anos, Bach é o mais apreciado músico da elite prussa, desempenhando em simultâneo 3 prestigiadas e bem pagas posições. Mas nada disto lhe cansa a ambição: um cargo de mestre na corte de Frederico II ajustava-se melhor às suas pretensões. E talvez um certo diplomata bem dormido, pudesse fazer o favor de interceder. Digo eu.

Outra coisa que me faz imensa confusão é a estranha figura de Johann Gottlieb Goldberg nesta história. Figura translúcida e eminentemente literária, o jovem virtuoso tem apenasmente 14 aninhos quando começa a sua aprendizagem com o Bach cinquentão. Por muito maravilhoso que fosse o seu talendo de teclista clearasil, o Mestre capelão - ele também um virtuoso - dificilmente se deixaria encantar ao ponto de aceitar que o seu trabalho fosse asim baptizado. Estas Variações BWV 988, são constituídas por 2 árias e 30 variações para teclado que manifestam o talento divino de Bach, mas também a sua erudição e o seu virtuosismo. A Coisa forma um todo logarítmico de tom iniciático que tem excitado a imaginação dos matemáticos, a inspiração dos filósofos e o vernáculo dos críticos. Por prodígios destes é que Beethoven, contra a ilustrada opinião do seu tempo, dizia que Bach era o pai da harmonia. Quero eu dizer: o que é que Goldberg - um simples criado cuja fama advém afinal deste único episódio - tem a ver com a obra-prima?
O primeiro biógrafo de Bach, Johann Nikolaus Forkel, fonte mais ou menos credível de grande parte do que conhecemos sobre esta rábula, também não explica lá muito bem o assunto, sugerindo que existia de facto um elo de afecto meio paternalista entre o professor e o seu pupilo. Ora, o maestro teve sete filhos, quatro chegaram a adultos e dois deles foram conceituados compositores e maestros do seu tempo. Apesar disso, nenhuma obra de Bach tem o nome de qualquer deles. Porque raio haveria agora o mestre de se dar a esta simpatia? Para mim, trata-se de um mistério a sério.
Deixo-vos porém com a descontraída explicação do próprio Bach (perdoem-me por não acreditar nela):

“I had a chance to hear the rumor that Goldberg was doing excellent performance of that set of variations not only at the waiting room next to the bedroom for the Count's sleep assistance but also in front of the audience of the Count's intimate friends for enjoyment. It was said that the Count called it as 'my variations', but the world became to call it as 'the Goldberg Variations'. Anyway I would allow that that work might be called as the 'G's Variations' or 'the Goldberg Variations' in the future.”


3 - Gould, ou o segundo Goetlib.

De Glenn Herbert Gould (1932-1982) há tanto para dizer que, provavelmente, o melhor é estar quieto e calado e a ouvir a música que saiu daqueles dedinhos espertos, mas enfim, se um gajo tem um blog é para inventar ruídos.
Genial e excêntrico virtuoso canadiano, Gould conquista a glória com 17 aninhos apenas, quando dá o seu primeiro concerto numa bela noite em Washington. Através das suas precoces e epilépticas interpretações de Bach, principalmente do Cravo Bem Temperado e, claro, das Variações de Goldberg, o menino louco que sofreu toda a vida de uma forma menor de autismo - a sídrome de Asperge - arrebata os críticos mais empedernidos e as audiências mais escolásticas durante uma década, para desaparecer de cena antes de fazer 30 anos.
Esta autêntica pérola documental da BBC que tenho a honra, a felicidade, o delírio e a vaidade de incluir neste post - e que nos revela a interpretação integral da obra - mostra-nos um Gould regressado, cinquentão, com uma nova interpretação das Variações, muito crítica da sua juventude exibicionista e irreverente, mas ainda assim divina, literalmente divina. Obrigado, Youtube.


Gould plays Goldberg Variations - Aria & var. 1-7

As razões da paixão de Gould pelas Variações são quase místicas e, melhor que ninguém, ele explica-as na introdução do documentário e já a seguir, no ponto 4 desta rábula. Apesar de desconfiar da funcionalidade terapêutica das Variações, Glenn Gould expressa um sentimento misto de rivalidade e de cumplicidade para com o estranho personagem e gémeo onomástico Goetlib Goldberg (não é por acaso que as variações são também conhecidas por Variações G). Para todos os efeitos, Gould identifica-se com o jovem aprendiz: os dois são devotos, os dois são escravos, os dois são messias de Bach, esse deus ex machina.


Gould plays Goldberg Variations - var. 8-14


4 - As Variações segundo Gould.

“Nobody Knows the reason why I chose the Goldberg Variations as the work for my recording debut. I have never told anything about it. The reason was too simple for me to explain it by pretending to be thoughtful. I should have been ashamed of saying it an enigma or a secret. Apart from superficial aspects, it has so profound meanings, like the way the Art of Fuge has principle four notes (B A C H) at the end of its unfinished work."

Gould plays Goldberg Variations var. 15-19

"More than thirty years ago, at the moment I saw the score of the Goldberg Variations for the first time for me, I screamed in my mind 'Oh! This is My Variations.' right away. Surprisingly my initials were caved on the first two notes and the last two. Not only starting two notes but also ending two notes are G and G. I thought that J. S. Bach had prepared this kind of work especially for me, only for me. It was more than two hundred years before. The way it starts and lasts with the notes G and G should be related with an unknown secrets.
But according to the documents, the title 'Goldberg' was from a name. John Godlieb Goldberg was one of the private students of J. S. Bach, and this work was named after him as a popular name."

"I felt a moving sense of rivalry toward Goldberg although he was only a historical existence, nothing more. On the contrary I could not ignore something similar which lies between me and him. Goldberg seemed to be born in Gudanisk, the northern part of Poland, I was raised in Toronto, the northern part of Canada. Those places may have some resemblance. He moved to Dresden the center of musical activities at that time, to be a musician. I did my debut in New York. Accidentally facial looks might be nearly the same. Unfortunately his portrait was never found, so it is impossible to identify this fact. As far as I know, he died in his 20s. His name has two Gs in initials. His initials are J.G.G. and mine is G.G. Actually I have ignored my middle name. But it is not the point. My name is Glenn Gould. So G.G. are my initials. Based on these two initials, I should be the due performer for the Goldberg Variations. He was only Jr.G.G. Anyway I am going to make this matter concealed. Ah! if Goldberg was not a name of a person but indicated a gold mine, I could have fully felt satisfied with the history of this work because of its musical richness."


Gould plays Goldberg Variations - Aria Da Capo

"If this work made a hit as a lullaby, it is very much suspicious that 'Maestro' Goldberg performed faithfully this sensational and bitter work.' That is somehow exaggerated, but is what I thought about during my first recording. The sense of rivalry towards Goldberg was so strong. What can I do to be a due performer of this work? This question lead me to the realm of performing artists."