segunda-feira, agosto 25, 2014

Tudo o que é preciso para fazer a guerra (Sécs. XI - XXI)


Mercenário escandinavo - Batalha de Hastings - 1066


Cavaleiro Cruzado - Cerco de Jerusalém - 1244


Arqueiro - Batalha de Agincourt - 1415


Mestre de Armas - Batalha de Bowsworth - 1485 



Mosqueteiro - Batalha de Tilbury - 1588 



Sentinela - Batalha de Malplaquet - 1709 



Soldado Raso - Batalha de Waterloo - 1815 



Fuzileiro - Batalha de Alma - 1854 



Soldado Raso - Batalha de Somme - 1916 



Cabo Pára-quedista - Batalha de Arnhem - 1944 



Comando - Conflito das Maldivas - 1982


Sapador - Afeganistão - 2014


Thom Atkinson teve a excelente ideia de fotografar o equipamento dos soldados ingleses desde 1066 até aos dias de hoje. O resultado é uma espécie de ensaio sobre a etnografia da guerra.
À medida que as armas vão ficando mais leves, a quantidade de artigos aumenta. O soldado da batalha de Hastings não trazia consigo muito mais que as armas, o escudo e o capacete. O Sapador do Afeganistão até um ipad traz na mochila.
A progressiva necessidade de camuflagem é também evidente: as cores dos uniformes vão sendo cada vez menos garridas, de forma a proteger os soldados da crescente autonomia e precisão das armas de fogo.
O conjunto de fotos transcende a sua missão iconográfica: há aqui uma narrativa, uma história da guerra, um relato de horrores, um exercício de síntese sobre a natureza humana.

terça-feira, agosto 19, 2014

Relatório minoritário.

Juan Luis Ney Sotomayor, cirurgião integrado numa missão humanitária no Iraque, denuncia no El Mundo as boas práticas dos jihadistas do Estado Islâmico: a população civil vive num inferno de “matanças horríveis", decapitações públicas, fuzilamentos em massa e crucificação de “infiéis”. Mulheres e crianças são enterradas vivas e, em Mossul, os postes elétricos estão cheios de cabeças cortadas. “É o terror pelo terror”, relata o médico, acrescentando que o pior que podíamos imaginar “foi ultrapassado pela realidade”.
Sim, como sempre, a realidade supera a ficção, mas, perante a selvajaria mais absoluta e recordista, por onde andam os indignados das manifestações à porta das embaixadas? E a ONU, o que faz? E a União Europeia? E a NATO? Por muito que me desagrade dizer isto, parece que só a Administração Obama (que tem culpas no cartório) parece decidida a fazer alguma coisa. É inacreditável.
E vergonhoso.

domingo, agosto 17, 2014

Da Esquizofrenia: razões e contradições.

Enquanto no Iraque e na Síria os bons rapazes do Estado Islâmico se dedicam com brio e alegria a fuzilar civis a um ritmo orgíaco, há por toda a infeliz Europa quem vá incomodar os seguranças das embaixadas com paixões pela Palestina e ódios por Israel.
Este texto de João Marques de Almeida sintetiza perfeitamente as razões da esquizofrenia da esquerda europeia em relação ao conflito israelo-árabe: a simpatia pelos islamitas e o ódio aos israelitas é só mais uma maneira da combater os valores do Ocidente. Só faltam, na minha modesta opinião, as inacreditáveis contradições: é no mínimo estranho que a esquerda – mesmo que revolucionária – “simpatize” com organizações como o Hamas ou o ISIS. Afinal, estamos a falar de ultra-fanatizados fascistas de deus, conservadores e tradicionalistas impenitentes, homens de gatilho fácil que tratam as mulheres com a mais recordista desconsideração que se pode imaginar e que instalam sociedades fortemente hierarquizadas e brutalizadas, de inspiração medieval. Ora, os fundamentos laicos, humanistas, libertários, igualitaristas, pacifistas e progressistas – mesmo que insuportáveis – da esquerda contemporânea são dificilmente compatíveis com a barbárie islâmica, que é um horror completamente fora da escala. É impressionante como se deixam cair todos os edifícios filosóficos em nome da vantagem táctica. E é isto moral?

quinta-feira, agosto 14, 2014

Ramones deste século.



Dead Stars | Someone Else

O mapa dos filhos da puta.





















Este é o sonho dos rapazes jihadistas do ISIS, responsáveis pela grande chacina que está, neste preciso momento, a ocorrer no Iraque (cortesia de Barak Obama): um simpático califado que se estende generosamente dos Himalais a Lisboa.
Se acham que o radicalismo islâmico não tem nada a ver connosco, portugueses, pensem outra vez. É que a ambição não é de agora. Desde o tempo dos Abássidas (750-1299 D.C) que o imperialismo islâmico projecta a Península Ibérica como um lebensraum.
É claro que, neste momento, este pesadelo fascista parece ridículo. Mas a história está carregada de pesadelos ridículos que, de repente, se transferiram para a porca realidade da vida. Principalmente quando não há lideranças capazes. Principalmente quando a cobardia, mascarada de pacifismo, reina sobre as mentalidades.
Uma coisa é certa: estes facínoras filhos da puta só vão parar quando forem parados. Enquanto puderem fazer merda, vão fazê-la da grossa.

O traidor patriota.

A Wired é uma revista espectacular, que tem sido referência constante neste blog, desde que este blog existe. É, também e como convém, uma publicação perversa. Tenho mantido alguma tolerância com a perversidade da Wired porque me parece que o "cool" dos tempos tem que ter um bocadinho disso. Mas este último ataque de mau gosto e de mau senso fez-me uma insuportável comichão na espinha. A Wired quer convencer o seu público que Snowden é, na verdade, um patriota.
Hã?
Snowden é, na verdade, um traidor da pior espécie. Da espécie dos traidores que deviam ser sumariamente fuzilados. Snowden não ama o seu país, por amor de deus. Snowden é responsável directo pela falência de todo um sistema de recolha de informação que tinha como objectivo a segurança do seu país. Snowden é responsável directo pela morte de milhares de pessoas que sacrificavam e sacrificaram a sua vida para proteger os interesses dos Estados Unidos da América. Snowden é um vendido, é um crápula, é um imbecil, é um fraco, é um erro de casting, mas não é um patriota. E, o que é mais, nem sequer está arrependido. No seu arrepiante esquema moral, Snowden acha que está cheio de razão e que está a defender a Constituição dos Estados Unidos da América (!).
E a Wired deixa passar isto. Promove isto. É cúmplice disto. Vai ser, também e seguramente, um dia, vítima disto. E é bem feito. O problema é que todos seremos um dia vítimas desta horrorosa complacência perante o inimigo. E isso é que já não tem piada nenhuma.

quarta-feira, agosto 13, 2014

Realidade e percepção.


As guerras na Síria e no Iraque estão a matar muito mais gente do que os conflitos na Faixa de Gaza e na Ucrânia. Mas as pesquisas do Google indicam que as pessoas se interessam mais pelo que se passa nos países onde morre menos gente. O fenómeno não deixa de ser preocupante e traduz de forma bem eloquente a manipulação política da opinião pública, bem como o estado global de desinformação a que chegámos.

Fonte: The Economist - Daily Chart - Comparing conflicts

sexta-feira, agosto 08, 2014

Rock de barba rija.



Manchester Orchestra | Top Notch

Declínio, queda e coma da civilização ocidental.



Após seis anos na Casa Branca e dois anos depois da vergonhosa retirarada militar do Iraque, Barak Obama conseguiu finalmente perceber com que espécie de inimigos é que estava a lidar. Agora já são bárbaros. Agora já são fanáticos. Agora já são genocidas. Agora que Obama pode gerir o caos com drones e black ops, agora que pode fazer a guerra por controlo remoto, à distância, sem sujar a mãos de sangue americano, já tem lucidez, já tem coragem. O que lhe continua a faltar é carácter.

Enquanto este lamentável líder do mundo livre abana a sua narrativa entre o teleponto da direita e o teleponto da esquerda, os islamitas vão chacinando os cristãos que restam no Iraque à velocidade de duas ou três tribos por dia. Obama teve pelo menos a decência de alertar para o facto, já que a União Europeia não parece nada preocupada com o assunto. É interessante - e deprimente, também - verificar como o processo de extinção da cristandade no Iraque não parece ter impacto no sistema político e mediático do velho continente. Está toda a gente demasiado preocupada com os muçulmanos da Palestina para que os cristãos do Iraque tenham uma pequena hipótese de sobrevivência.

É muito, muito triste o fim do Ocidente.

domingo, agosto 03, 2014

Jornal de Letras | Janeiro/Julho 2014

A Conquista da Terra. A Nova História da Evolução Humana - Edward O. Wilson - Clube do Autor

Um dos mais aclamados professores de Harvard, autor de obras basilares da sociobiologia como "O Fogo de Prometeu", Wilson teoriza aqui sobre as origens genéticas e ambientais do comportamento social e sua influência determinante na evolução humana e no seu destino.
O extenso estudo de campo que Wilson desenvolveu com as formigas eusociais (organizadas em grupos pela divisão altruísta do trabalho), permite-lhe apresentar argumentos concludentes que sustentam a sua arrojada tese evolucionista: a selecção natural premeia a complexidade social, sendo esta determinante na equação da origem das espécies.
Uma obra de fundo, profundamente académica, mas que consegue ser também um excelente ensaio de divulgação científica.

"A eusociabilidade, foi uma das maiores inovações na história da vida. Criou superorganismos, o nível seguinte de complexidade biológica acima do nível dos organismos. É comparável no impacto ao da conquista da terra pelos animais anfíbios que respiravam o ar. É equivalente em importância à invenção do voo por insectos e vertebrados."


A Boca da Verdade - Lawrence Ferlinghetti - Edição do Autor e do Tradutor

Lawrence Ferlinghetti será, talvez, o mais inspirado dos poetas beatnick, mesmos se considerarmos a poesia do seu grande amigo Keroac. Não sou um fã natural desta geração, mas abro excepções, é claro e esta é uma delas. Trata-se de um magífico livrinho de poemas que comprei quando trabalhava na livraria Castil de Alvalade, lá pelos distantes anos de 1988 e 89. Está bastante gasto, porque eu repito bastante esta visita. Fica o meu poema preferido, que já aqui tinha deixado uma marca.


I Am Waiting

I am waiting for my case to come up   
and I am waiting
for a rebirth of wonder
and I am waiting for someone
to really discover America
and wail
and I am waiting   
for the discovery
of a new symbolic western frontier   
and I am waiting   
for the American Eagle
to really spread its wings
and straighten up and fly right
and I am waiting
for the Age of Anxiety
to drop dead
and I am waiting
for the war to be fought
which will make the world safe
for anarchy
and I am waiting
for the final withering away
of all governments
and I am perpetually awaiting
a rebirth of wonder


I am waiting for the Second Coming   
and I am waiting
for a religious revival
to sweep thru the state of Arizona   
and I am waiting
for the Grapes of Wrath to be stored   
and I am waiting
for them to prove
that God is really American
and I am waiting
to see God on television
piped onto church altars
if only they can find   
the right channel   
to tune in on
and I am waiting
for the Last Supper to be served again
with a strange new appetizer
and I am perpetually awaiting
a rebirth of wonder


I am waiting for my number to be called
and I am waiting
for the Salvation Army to take over
and I am waiting
for the meek to be blessed
and inherit the earth   
without taxes
and I am waiting
for forests and animals
to reclaim the earth as theirs
and I am waiting
for a way to be devised
to destroy all nationalisms
without killing anybody
and I am waiting
for linnets and planets to fall like rain
and I am waiting for lovers and weepers
to lie down together again
in a new rebirth of wonder


I am waiting for the Great Divide to be crossed   
and I am anxiously waiting
for the secret of eternal life to be discovered   
by an obscure general practitioner
and I am waiting
for the storms of life
to be over
and I am waiting
to set sail for happiness
and I am waiting
for a reconstructed Mayflower
to reach America
with its picture story and tv rights
sold in advance to the natives
and I am waiting
for the lost music to sound again
in the Lost Continent
in a new rebirth of wonder


I am waiting for the day
that maketh all things clear
and I am awaiting retribution
for what America did   
to Tom Sawyer   
and I am waiting
for Alice in Wonderland
to retransmit to me
her total dream of innocence
and I am waiting
for Childe Roland to come
to the final darkest tower
and I am waiting   
for Aphrodite
to grow live arms
at a final disarmament conference
in a new rebirth of wonder


I am waiting
to get some intimations
of immortality
by recollecting my early childhood
and I am waiting
for the green mornings to come again   
youth’s dumb green fields come back again
and I am waiting
for some strains of unpremeditated art
to shake my typewriter
and I am waiting to write
the great indelible poem
and I am waiting
for the last long careless rapture
and I am perpetually waiting
for the fleeing lovers on the Grecian Urn   
to catch each other up at last
and embrace
and I am awaiting   
perpetually and forever
a renaissance of wonder


Para Onde Vão os Guarda-Chuvas? - AFonso Cruz - Alfaguara


Afonso Cruz é um géniozinho à solta. Este romance, mosaico orientalista onde o tempo não é um continuum, espécie de mil e uma noites ao contrário, tapete voador que faz rir e faz chorar e que nos redime dos dias de chuva, é a prova de que a literatura portuguesa tem poder para dar e vender. Apesar do folclore anti-americano do costume (o protagonista é um muçulmano que vê o seu filho morto por soldados americanos, como se no mundo islâmico precisassem de soldados estrangeiros para se matarem uns aos outros), apesar da simpatia que Afonso Cruz dedica à cultura islâmica e que, para mim, será sempre suspeita e desagradável, a verdade é que se trata de uma novela maravilha. Reparem bem neste excerto:

- A minha mãe, Sr. Elahi, interrogava-se para onde vão os guarda-chuvas. Sempre que ela saía à rua, perdia um. E durante toda a sua vida nunca encontrou nenhum. Para onde iriam os guarda-chuvas? Eu ouvia-a interrogar-se tantas vezes, que aquele mistério, tão insondável, teria de ser explicado. Quando era jovem pensei que haveria um país, talvez um monte sagrado, para onde iam os guarda-chuvas todos. E os pares perdidos de meias e de luvas. E a nossa infância e os nossos antepassados. E também os brinquedos de lata com que brincávamos. E os nossos amigos que desapareceram debaixo das bombas. Haveriam de estar todos num país distante, cheio de objectos perdidos. Então, nessa altura da minha vida, era ainda um adolescente, decidi ser padre. Precisava de saber para onde vão os guarda-chuvas.
– E já sabe? – perguntou Fazal Elahi.
– Não faço a mais pequena ideia, mas tenho fé de encontrar um dia a minha mãe, cheia de guarda-chuvas à sua volta.



Economia, Moral e Política - Vitor Bento - Relógio D'Água Editores, Fundação Francisco Manuel dos Santos

Em 2011, Vitor Bento publicava este opúsculo sobre o tema da moralidade e da política na economia. Três anos depois, na sequência do maior escândalo financeiro da história da Terceira República, é escolhido para dirigir os destinos do BES. A coincidência é a forma como Deus permanece anónimo.
O ensaio em si não consegue sair da esfera da previsibilidade e do politicamente correcto, mas é esclarecido no que diz respeito à relação epistemológica existente entre o ethos e a ciência económica, pertinente na análise que faz à influência da ciência política e crítico o que baste para com os agentes do mercado financeiro. A ideia de responsabilizar criminalmente os quadros de decisão e não apenas as empresas que os empregam parece-me, por exemplo, muy justa.


Contos Espantosos - Alexandre Dumas, Guy de Maupassant, Honoré de Balzac, Edgar Allan Poe - Rosto Editora

Breve colectânea de literatura fantástica do século XIX, em que se destaca, claro, o texto de Poe, que é uma notável elegia da vingança. Um livrinho simpático, para levar para a praia.


Agosto, 1914 - Alexander Soljenítsin - Publicações D. Quixote

Obra inacabada que retrata a desastrada e incauta invasão da Prússia pelos russos, no princípio da Primeira Grande Guerra, Agosto, 1914 é mais um grande romance de guerra para o glorioso espólio da literatura russa. E testemunho eloquente do grande talento de Soljenítsin para o formato épico.


A Identidade Cultural Europeia - Vasco Graça Moura - Relógio D'Água Editores, Fundação Francisco Manuel dos Santos

Uma das últimas obras escritas pelo grande vulto da cultura nacional, este ensaio procura e consegue condensar a essência da identidade ocidental. Vasco Graça Moura conduz o leitor pelo labirinto da cultura europeia com a erudição e a elegância que lhe são absolutamente naturais, demonstrando que os valores filosóficos, artísticos, político s e sociais que presidem à Europa do pós-guerra não são relativos nem insignificantes e assentam num processo de transcendência único na história da humanidade. Um tratado para sobreviver ao tempo.


Sobre o Café, o Tabaco e o Álcool - Honoré de Balzac - Padrões Culturais Editora

Mais interessante pela viagem aos costumes e às mentalidades do Século XIX do que propriamente sobre a opinião que o autor tem em relação aos temas a que se propõe, este ensaio de Balzac não deixa de ser divertido. Por exemplo, o autor conta que, depois de beber, na companhia de um amigo, dezassete garrafas de vinho (!), acaba por ficar mal disposto ao rematar a épica bebedeira com um charuto, partindo deste magnífica prova laboratorial para demonstrar os malefícios do tabaco.
Todo o texto está recheado de pseudo-ciência (mesmo segundo os critérios do tempo) e de conceitos espúrios, que Balzac utiliza para sustentar a ideia de que as três substâncias (na verdade são 4, porque o autor também acha que o chá é um perigo para a saúde pública) são altamente nocivas para o ser humano.
Enfim, um texto moderadamente cómico, e não mais que isso.


Os Portugueses Descobriram a Austrália? 100 Perguntas Sobre factos, Dúvidas e Curiosidades dos Descobrimentos - Paulo Jorge de Sousa Pinto - A Esfera dos Livros

Porque me foi recomendado por uma amigo cuja análise crítica e cultura livresca muito respeito, foi com alguma entusiasmo que peguei nesta espécie de perguntário. A desilusão foi enorme. Paulo Jorge de Sousa Pinto tem a intenção de desmistificar tudo, mesmo o que não é desmistificável, de tal forma que ficamos com a sensação de que os descobrimentos não passam de um mito urbano, inventado por uma seita de historiadores do Estado Novo. Mas o que é realmente lamentável nesta obra é o facto de não trazer realmente nada de novo para o património documental da gesta marítima, apesar da intenção iluminista. Muito porque o autor se esconde num relativismo miserável, sempre que a sua prosa - e muito contra a sua vontade - corre o risco de poder ser minimamente interessante. Dou só um exemplo: a resposta à pergunta nº 65, que dá o título ao livro, é esta: não sabemos se foram os portugueses que descobriram a Austrália mas, mesmo que tenham sido, conforme o mapeamento de um tal Godinho de Erédia e graças à gesta de Cristovão de Mendonça, isso não interessa nada, porque o facto não teve dimensão mediática nem histórica, nem foi oficializado. O que interessa é o facto histórico e o facto histórico diz-nos que o descobrimento oficial é o de 1606, com a chegada do holandês Willem Janszoon. Ora, se a questão é tão pouco pertinente, porque é que o autor decidiu pegar nela para título do seu livro? Jorge de Sousa Pinto chega a observar que, na verdade, nenhum Europeu descobriu a Austrália, porque alguns povos do pacífico já sabiam da existência deste território. Repare-se que, neste caso, o autor já não se importa que esse conhecimento não tenha um "facto histórico oficializado" que lhe dê validade. Só os europeus é que precisam de se sujeitar a isso. Os outros povos podem criar factos históricos à vontade, que não precisam de oficializar nada. Para que os seus livros deixem de ser uma enorme perda de tempo, Paulo Jorge de Sousa Pinto precisa de se aliviar um pouco do fardo do homem branco. Desconfio que isso será lago difícil para ele, pelo que este será para mim, um autor a evitar.


Eu, Borges. Imagens, Memórias, Diálogos - Maria Esther Vazquez - Editorial Labirinto

"Eu fui Homero. Em breve serei ninguém como Ulisses; em breve serei todos: estarei morto."
Jorge Luís Borges

Edição que regista as conversas que a jornalista Maria Esther encetou com o génio argentino, e com alguns dos seus amigos, Eu, Borges constituirá, para qualquer  pessoa com gosto pela literatura, uma fonte inesgotável de prazer. Grandiloquente, omnisciente e encantador, Borges não tem medo do espelho e fala de si e dos outros com o à vontade dos imortais. Uma peça de culto.


O Império de Hitler. O Domínio Nazi na Europa Ocupada - Mark Mazower - Edições 70


Este é daqueles livros de História que constituem um verdadeiro desafio. Volumoso, tipografado para olhos de adolescente, angustiante, arrepiante, repleto de números deprimentes e ainda assim, uma experiência gratificante. É que estamos perante de um trabalho de pesquisa e tratamento de conteúdos de dimensões recordistas. Mazower traça, com mestria, rigor académico e inacreditável erudição, uma longa aguarela de horrores, num retrato lúcido da administração do império que, de repente, o estado nacional socialista tinha que governar, independentemente ou não, da gestão do esforço de guerra.
Uma das grandes contradições da praxis administrativa nazi que atravessa estas páginas é precisamente a que decorre no leste da Europa: entre a imperativa e radical implementação das políticas raciais (leia-se, extermínio de judeus, polacos, russos, homossexuais, ciganos etc.), acerrimamente defendida por Hitler e Himmler, e a necessidade de mão de obra escrava para alimentar a indústria militar, bem como da manutenção de alguma boa vontade das populações conquistadas, constantemente apregoadas pelos estrategas de Wehrmacht e pelos arquitectos da burocracia imperial, como Rosenberg e Speer, há um conflito decisivo. No triunfo último do fanatismo racial, encontram-se muitas das razões para a derrocada alemã na frente russa.
A importância dada à raça continha até, dentro do seu próprio racioncínio, motivos de falência técnica: os alemães quiseram germanizar completamente alguns dos territórios conquistados aos polacos e aos checos (e que lhes tinham sido retirados no Tratado de Versalhes), mas o seu critério racial era de tal forma exclusivista, que nunca conseguiram dar consistência demográfica ao sonho de recolonização ariana.
Outra das milhares de análises pertinentes que este livro encerra, é a de que nem todo o extermínio étnico se deveu directamente ao delírio alemão. Em França, na Ucrânia, na Checoslováquia, na Roménia e na Grécia, os locais não precisaram das SS para levar a cabo perseguições e chacinas de generosa dimensão. Principalmente no Leste, não foi necessário muito mais que rédea solta para que se começassem a matar todos uns aos outros.
No seu todo, a obra descobre ainda uma faceta que não costumamos associar aos alemães: a incompetência. Os territórios foram mal geridos, as suas potencialidades económicas foram subaproveitadas, nunca houve uma filosofia de administração consistente, não há registo de uma ideia para a Europa, um conceito de civilização para o império; nada. Apenas uma lógica de violência nacionalista.
Prémio LA Times para o melhor livro de História de 2008.


Os Nús e os Mortos - Norman Mailer - D. Quixote


“The natural role of the twentieth-century man is anxiety.” 
Norman Mayler | The Naked and the Dead

O romance nú e crú que pôs a América a pensar duas vezes sobre o entusiasmo com que entregava os seus filhos ao horror da guerra é uma obra-prima, talvez a única, de Norman Mailer. Retratando a tomada da ilha de Anopopei, nas Filipinas,  o livro não tem mais que cinquenta páginas dedicadas à acção de combate, mas é devastador. Os personagens vivem mergulhados num inferno indescritível, entre os rigores da selva equatorial e o desespero da condição humana. Odeiam-se furiosamente e odeiam a criação.
A obra, que é um ponto de convergência entre Dos Passos e Tolstoi, integra para cima de 16 personagens principais e os seus labirínticos e abissais diálogos interiores cheguam a ser excruciantes. A leitura deste livro é simultaneamente dolorosa e prazerosa.
Mailer escreveu esta novela espantosa, visceral e aterradora com 25 anos, logo depois de ter voltado do Pacífico, onde cumpriu serviço militar durante a II Grande Guerra, embora nunca tenha disparado um tiro. Ainda assim, há muita verdade nestas páginas angustiadas.


Enciclopédia da Estória Universal. Recolha de Alexandria - AFonso Cruz - Alfaguara


Este projecto de Afonso Cruz, de inspiração completamente Borgiana, é uma jóia incontornável no actual panorama editorial. A enciclopédia tem já 3 volumes editados e esta Recolha de Alexandria é simplesmente um deleite. Principalmente para quem gosta de Borges. Só a bibliografia é uma coisa notável, que cruza referências milenares e reais com autores fictícios e obras imaginadas. As entradas da Enciclopédia são um verdadeiro labirinto de registos e estórias e citações, onde a filosofia, a religião e a literatura encontram um único caminho de saída. Algumas pérolas:

"A maldição de Babel não foi os homens desentenderem-se por falarem línguas diferentes, mas sim desentenderem-se falando a mesma língua."
Dovev RozenKrantz

" O ócio não é o contrário de trabalho.

A felicidade é que é o contrário de trabalho."
Marian Bibin

"Imagine-se um hotel com quartos infinitos. Um dia, chega uma excursão de infinitos excursionistas. O recepcionista coloca cada pessoa em cada quarto. Mas no dia seguinte (porque é Agosto no Sul de Espanha) chega mais uma excursão de infinitos turistas. O recepcionista fica baralhado, mas há várias soluções simples, esta é uma delas: os turistas infinitos da primeira excursão ficam nos quartos pares e os da segunda excursão nos quartos ímpares. Assim, caberiam pelo menos dois infinitos no mesmo hotel."

Arseny Bobrov, Extracção Craniana da Arte

sexta-feira, agosto 01, 2014

Black Friday Pandemic



Video created by Patrick Clair as a teaser for Tom Clancy's The Division, a new apocalyptical multiplayer online game.

quinta-feira, julho 31, 2014

A guerra no mundo - Julho de 2014


Neste dia 31 de Julho de 2014, há 11 nações em guerra e 23 países que se debatem com conflitos armados. Este é o resultado do pacifismo europeu (para não lhe chamar cobardia) e da total incompetência dos Estados Unidos da América, cuja vocação para a liderança mundial parece ter sido pulverizada. Esta é, muito especialmente, a herança da Administração Obama. É verdade histórica incontestável que os presidentes norte-americanos eleitos pelo Partido Democrata deixam, regra geral, o mundo num caos (ver alínea III deste post de 2008), mas Barak Obama bate todos os recordes. 
Uma coisa é certa: alguém tem que pôr ordem nisto.
WARS (1000+ battle-related deaths in year): 
Syria
Afghanistan
Iraq
Pakistan
Nigeria
D.R. Congo
South Sudan
Israel/Gaza
Ukraine
Libya
SERIOUS ARMED CONFLICTS (200-999 battle-deaths in year):
Central African Republic
India
Mali
The Philippines
Russia
Somalia
Sudan
Yemen
OTHER ARMED CONFLICTS (fewer than 200 battle-deaths in year):
Algeria
Colombia
D.R. Congo (Katanga, in addition to conflict listed above)
Ethiopia (2 conflicts)
India (2 others in addition to Maoist conflict listed above)
Malaysia
Mozambique
Burma (Myanmar) (3 conflicts)
Pakistan (Balochistan, in addition to conflict listed above)
Philippines (second armed group in addition to the conflict listed above)
Thailand
Turkey
Uganda
United States (global war on terror)
Sources: 
internationalrelations.com - War In Progress
warsintheworld.com

quarta-feira, julho 30, 2014

Entrevista com o Demónio.























“Those who are fighting with the Ukrainian army, we keep as prisoners. Those who are fighting with volunteer battalions, we question them and then shoot them on the spot. Why should we show any pity to them?” Igor Bezler

Honrando a proverbial ingenuidade dos jornalistas ocidentais, Shaun Walker - o correspondente do Guardian em Moscovo - deciciu que havia de conseguir por força uma entrevista com Igor Bezler, infame líder separatista, sinistro agente de Putin para a carnificina na Ucrânia e muito provavelmente o responsável pelo desgraçado destino do Malaysia Airlines MH117. 
O resultado desta tentativa de entrevista é trágico-cómico. Antes que lhes fosse dada a possibilidade de uma pergunta, Shaun Braun e um colega russo não identificado tiveram a oportunidade de se borrarem todos. Ao primeiro sinal de que estariam a gravar ou anotar as barbaridades inacreditáveis com que Bezler iniciava a visita guiada ao inferno, foram de imediato expoliados de qualquer utensílio do seu ofício e cordatamente ameaçados com o pelotão de fuzilamento. Depois de submeter os jornalistas a uma minuciosa revista, Bezler acaba por se mostrar clemente, optando pela misericordiosa expulsão das duas andorinhas que, tenho disto certeza absoluta, não ganharam para o que perderam em líquidos. 
A história do grande cagaço é eloquente sobre muitos equívocos, recomenda-se por isso vivamente e está aqui relatada (The Guardian). 
Aqui há um resumo em português (Observador).

segunda-feira, julho 28, 2014

Aquecimento global e moralidade.



Cientistas (em vez de activistas) falam sobre a fraude do aquecimento global e da imoralidade dos que assumem a superioridade moral em nome de falsos pressupostos ambientais e alarmismos fictícios. Nos últimos segundos o Dr. Fred Singer faz uma previsão que eu já tinha aqui feito também (embora relacionada com a longevidade do IPCC, mas vai dar no mesmo). Daqui a 10 ou 20 anos, toda a gente vai estar a perguntar-se como é que foi possível mentir durante tanto tempo, a tanta gente.

Game of Bloopers

sábado, julho 26, 2014

Isto é que é brutal.



O último andamento da Quadragésima. É melhor que qualquer outra coisa. Até ouvir mais que isto sou crente da fé de Mozart. Sou religioso.

Encore le Tourture.



No momento em que estou a escrever isto, a 101ª edição do Tour de France tem já definida a sua coroa de glória: Vicenzo Nibali é um ciclista prodigioso que não tem culpa nenhuma que Froome e Contador tenham caído da bicicleta abaixo. Pelo que vi, se Froome e Contador não tivessem caído da bicicleta abaixo, o italiano ganhava na mesma. Para validar esta minha opinião especulativa, basta observar os 36 segundos de vídeo que aqui servem perfeitamente como ilustração da 18ºa etapa (Pirinéus). Vicenzo passa por Nieve como se tivesse um motor a gasóleo instalado na bicicleta, para arrecadar a quarta vitória nesta edição. Quem pedala para cima de três ou quatro Turmalets como se na verdade voasse baixinho e ainda por cima mantém aquela calma de super-herói é precisamente o gajo que vai um dia ganhar a volta à França. Glória para ele e ponto final. Parágrafo.
No momento em que estou a escrever isto, há para aí uns 20 segundos que separam 3 rapazes que não são super-heróis como Nibali é um, mas que lutam bravamente por dois lugares no pódium. Pinot e Péraut, que estão a tentar que os franceses se recordem da sensação de ter compatriotas a lutar por um lugar decente na classificação geral, e o inevitável espanhol, Valverde, que seria quarto classificado em condições normais e que vai ser quarto classificado nas condições malucas em que este Tour tem evoluído.
O início em Inglaterra foi fenomenal: três dias, três milhões de pessoas na estrada (!) e duas grandes etapas, disputadas como se não houvesse amanhã, imprevistas, no balanço.
Logo depois de um dia de transição, já em França, também ele bastante movimentado, veio a quinta etapa que tinha 16 curtos quilómetros em pavée normando, lendário piso de paralelepípedo irregular, estreito e com muita terra, que estilhaçou o pelotão completamente. No fim desse dia, a lista de assistências médicas ultrapassou os 40 ciclistas. Curiosamente, a maior parte deles cairam antes dos sectores em pavée, por causa do mau tempo e da alta velocidade e dos nervos. Um dos que caiu para não se levantar mais foi Froome.
Cinco etapas depois e com o Tour ainda virgem de alta montanha, Contador dá, também, o grande malho. Umas poucas etapas mais à frente, Rui Costa, que tinha feito até aqui uma prova sofrível, abandona, por causa de uma bronquite (versão oficial).
Com bronquite ou sem ela, o cabeça de fila da Lampre nunca esteve à altura das expectativas em geral e da ambição da equipa que liderava em particular. Rui Costa foi uma sombra do atleta que é. Mas, mais preocupante ainda, assistimos a uma recessão do atleta que ele pode ser um dia. Convém recordar que Rui Costa tem ainda a possibilidade de competir uns bons 8 anos ao mais alto nível, porque os vencedores das voltas com três semanas de duração - Giro, Tour e Vuelta - encontram a sua média etária entre os 26 e os 35 anos. O Rui tem 27. Mas a Lampre não é uma equipa promissora (Horner, o americano que deveria proteger Rui Costa e único ciclista de topo na equipa, para além do seu líder, correu muitas etapas como um free lancer) e o campeão do mundo assinou até 2016. Esta é uma fase decisiva na carreira do Rui. Pode dar para a glória. Pode dar para o esquecimento. Tudo vai depender de como o atleta reage à humilhação e de como a equipa o vai proteger. Ou queimar.
O resto do Tour foi uma estória de espanto e oportunidade, porque de repente os dois principais favoritos (e, já agora, o campeão do mundo) estavam fora da corrida e tudo seria, assim, possível. Isto e mais um dia lindo de Tiago Machado, seguido por um dia horrível de Tiago Machado, seguido pela incrível durabilidade-duracell de Péraut (37 anos de idade, seis como profissional de ciclismo de estrada), a magnífica performance em alta montanha do polaco Majca e, claro, o domínio absoluto, total, esmagador e descontraído do monarca Vicenzo I.
Contas feitas: foi mais um Tour verdadeiramente  e s p e c t a c u l a r .

sexta-feira, julho 25, 2014

Zero must equals one hundred per cent.


The Zero Theorem | Dir. Terry Gilliam

A vida é um vírus que impede a morte de reinar absoluta. E todo o cosmos é apenas um glitch - caos que se dirige para o fim. Para o nada. Logo, o zero terá que equivaler a cem por cento. Nunca os delírios de Terry Gilliam o tinham levado tão para dentro da condição humana, numa espécie de existencialismo cósmico em formato sci-fi-épico-pitoresco-kafkiano que deriva directamente dos conflitos filosóficos de The Meaning Of Life (1983) e dos pressupostos estéticos de Brazil (1985). Aos setenta e quatro anos, Gilliam filma com um frenesim angustiado que nem mesmo o humor pythoniano parece redimir. E agarra-se desesperadamente à cenografia operática para disfarçar a inquietude.
Uma fita que deixa um género de comichão na nuca. Para ver e rever.


terça-feira, julho 22, 2014

Antínoo em Delfos






























POR SUSANA BAPTISTA

A propósito do desafio para celebrar uma década de vida do Blogville, ocorre-me uma experiência única de vida. Uma das viagens da minha vida.
Ao fundo de um longo corredor uma sala rectangular, fechada, sem luz natural. Uma única estátua.
Os meus dezasseis anos foram esmagados com tanta beleza, perfeição; com a emoção de uma estória de amor; com a incredulidade de como um dos mais aguerridos imperadores “cedeu” perante a beleza física. Nenhum visitante falava, quase nem respirava. O esmagamento era avassalador.

Esta descoberta de vida acontece numa etapa da viagem Lisboa-Grécia-Delfos-bebamos a cultura grega-Lisboa, no Museu Arqueológico de Delfos, nas encostas do Monte Parnaso, no Templo de Apolo.

É considerada uma das mais belas estátuas alguma vez esculpidas. A perfeição foi incutida pelo escultor grego a quem o amante destroçado encomendou o “endeusamento” em pedra do jovem Antínoo.
Começava aqui a deificação de Antínoo. Estátuas, templos, cidades, foram erigidos em sua honra; até uma constelação foi nomeada em sua homenagem; tudo serviu para celebrar este amor eterno.
As referências literárias perduraram no tempo. Marguerite Yourcenar e Fernando Pessoa não resistiram à tentação; felizmente para nós meros mortais.


It rained outside right into Hadrian's soul.

The boy lay dead
On the low couch, on whose denuded whole,
To Hadrian's eyes, that at their seeing bled,
The shadowy light of Death's eclipse was shed.

The boy lay dead and the day seemed a night
Outside. The rain fell like a sick affright
Of Nature at her work in killing him.
Through the mind's galleries of their past delight
The very light of memory was dim.

O hands that clasped erewhile Hadrian's warm hands,
That now found them but cold!
O hair bound erstwhile with the pressing bands!
O eyes too diffidently bold!
O bare female male-body like
A god that dawns into humanity!
O lips whose opening redness erst could strike
Lust's seats with a soiled art's variety!
O fingers skilled in things not to be named!
O tongue which, counter-tongued, the throbbed brows flamed!
O glory of a wrong lust pillowed on
Raged conciousness's spilled suspension!
These things are things that now must be no more.
The rain is silent, and the Emperor
Sinks by the couch. His grief is like a rage,
For the gods take away the life they give
And spoil the beauty they made live.
He weeps and knows that every future age
Is staring at him out of the to-be.
His love is on a universal stage.
A thousand unborn eyes weep with his misery.
(…)


Antinous (1918) - F. Pessoa