sexta-feira, junho 24, 2016

Brexit e os limites da União.






















O resultado do referendo de ontem não devia surpreender ninguém. O que surpreende é o facto de se ter colocado esta responsabilidade sobre os ombros de um eleitorado que não faz a mais pequena ideia de quais serão as consequências, para as ilhas britânicas, para a Europa e para o mundo, desta secessão. E não, não estou a ser snob. O operário de Birminghan sabe exactamente o mesmo sobre este assunto que o burocrata em Bruxelas ou o corretor da City londrina. As variáveis em jogo são de tal forma complexas que não há uma alma no universo capaz de determinar o aftermath deste triste episódio.
Suspeito que o Brexit vai prejudicar mais a Inglaterra (até porque coloca em risco, no imediato, a coesão e existência do Reino Unido), do que as nações continentais. Mas não deixa de constituir uma excelente espécie de despertador histriónico para os atrasados mentais que lideram a União Europeia. Alguma coisa tem de mudar. E, se calhar, é de menos Europa que precisamos, para continuarmos a ter uma União minimamente credível. Se calhar, é com menos leis, com menos burocracia, com menos tribunais, com menos apparatchics, com menos compromissos, com menos instituições, com menos mandatos, com menos fascismos e, claro, com menos nações, que será possível sobreviver a este aparente colapso.
A Europa não é una. É diversa, é conflituosa, é, muitas vezes, antípoda. Não vale a pena forçar a federação que não existe de todo no terreno geofísico, psíquico e cultural. Mas isso não quer dizer que a comunidade esteja condenada à extinção. Há muitas e gordas vantagens em estabelecermos uma espaço comum em matéria económica e civilizacional, a primeira das quais: 70 anos sem guerra.
Há muitas e gordas razões para permanecermos ligados a um projecto Europeu que garanta a paz e a prosperidade num continente historicamente massacrado por pequenos ódios. Talvez o caminho a seguir seja menos ambicioso. Mas será com certeza muito mais sensato.

domingo, junho 19, 2016

Albânia: um Portugal inverso.


Não vi os dois jogos da Selecção Nacional e, pelos vistos, fiz bem.
Vi, até agora, apenas três jogos do Europeu, pela simples razão de que acho o futebol - como é jogado hoje - um aborrecimento tremendo.
Mas o último jogo desses três que vi foi bom de ver, e estou a referir-me, por incrível que pareça, ao encontro que opôs hoje a Roménia e a Albânia. A Roménia é uma selecção muito fraquinha, convenhamos, e ninguém pode dizer que a Albânia é uma excelente equipa de futebol. Porém, há uma inocência na interpretação da modalidade por parte dos albaneses, há um querer tão grande, uma vontade de transcendência tão incendiária, uma ingenuidade tão maravilhosa, que é impossível a uma pessoa de senso evitar apaixonar-se por estes rapazes e pelos ruidosos milhares de concidadãos que estavam presentes no Stade des Lumières.
Na segunda parte, a química entre os albaneses e a sua selecção atingiu níveis poltergeist e foi mesmo emocionante ver como a equipa estendia o esforço hercúleo em função da intensidade quase histérica do seu público.
Se este europeu de futebol tivesse mais equipas como a Albânia e menos aglomerados humanos como aqueles que são treinados por Fernando Santos, eu talvez visse mais jogos.
Se este europeu contasse com mais ilustres desconhecidos como Armando Sadiku e menos "cidadãos do mundo" como Cristiano Ronaldo, eu era capaz de sintonizar com outra frequência a porcaria da RTP.
Assim sendo, prefiro ver o Stephen Curry falhar lançamentos de 3 pontos (o que é raro).

Velhos amigos.



O Blogville já é amigo destes rapazes há uns anos largos. E eles, fiéis a esta amizade, continuam a cumprir com bombas que nunca mais acabam de explodir dentro da parte acústica do meu cérebro.

Frightened Rabbit . Woke Up Hurting

Gary Lineker a 300 à hora.

 Toyota's Kazuki Nakajima is led away, distraught, after his TS050 Hybrid failed. The Telegraph


Ainda não acredito no que vi hoje, à hora de almoço.
As 24 Horas de Le Mans são 60 carros à partida, uma directa em cima e no fim ganha a Alemanha.

Número de títulos desde 1970:
Porsche - 18
Audi - 13
Mercedes-Benz - 1
BMW - 1

33 títulos em 46 anos.

Le Mans, ou o suplício nipónico.



As 24 horas de Le Mans são, nos tempos que correm e em definitivo, o maior espectáculo automobilístico do mundo. Ao contrário do que acontecia há 20 ou 30 anos atrás, a corrida é disputada ao sprint na sua total duração e a incerteza quanto aos vencedores (nas 4 classes em competição) tem sido a regra e não a excepção.
Mais a mais, os automóveis da LMP1 são mais bonitos, mais rápidos e tecnologicamente mais impressionantes que os carros da Fórmula 1 e não precisam de truques manhosos do género RDS para se ultrapassarem alegremente uns aos outros.
O que aconteceu este ano não tem comparação com nada que possa ter acontecido na história do desporto automóvel. A 6 minutos do fim, sim, 6 míseros minutos, o carro nº 5 da Toyota, que tinha a corrida ganha (o Porsche que vinha imediatamente atrás estava a cerca de um minuto) e que ia garantir a primeira vitória do gigante industrial japonês ao fim de décadas de tentativas frustradas, encosta à parede exterior das boxes e imobiliza-se em plena recta da meta para nunca mais dali sair. Ninguém queria acreditar, mas o Porsche 919 tripulado por Dumas / Jani / Lieb acabava de vencer a 83ª edição das 24 horas de Le Mans.
Se há momentos em que a realidade supera a inventiva do mais fantasioso dos novelistas, este é um deles. O que aconteceu hoje no eterno circuíto de La Sarthe é mesmo, mesmo, inacreditável. E super cruel para os desgraçados dos japoneses.

quinta-feira, junho 16, 2016

Remédio contra o Euro 2016.



Ou uma espécie de consolação para os horrores da tribo do futebol e as desilusões da selecção nacional. Funciona.

A nomenclatura de Orlando.

Um islamita filho de meretriz pega numa metralhadora e começa a matar homossexuais como se não houvesse amanhã. Mas parece que ele não matou aqueles homossexuais todos porque era um islamita filho de meretriz. Parece que ele matou os homossexuais porque não gostava de homossexuais. Eis uma nuance tão subtil como um elefante numa ourivesaria.
Bom, é preciso dizer primeiro que o Alcorão odeia da mesma maneira bíblica e com a mesma intensidade todos os homossexuais. Isto é verdade. O que não é verdade é tentarem comparar uma civilização que tem a Bíblia como referência literária a uma multidão de bárbaros que leva o Alcorão à letra.
Os muçulmanos do nosso tempo são uma tribo muito mais fascistóide do que era há uns séculos atrás, quando, por exemplo, habitou a Península Ibérica. Essa raça apoteótica de poetas-guerreiros não tem nada a ver com os rapazinhos de agora.
Mais a mais, um católico muito conservador e chato que pura e simplesmente odeia homossexuais não sai para a rua com uma metralhadora e a intenção de matar cinquenta homossexuais porque foi ensinado por Cristo e pelos seus pais que o facto de não se gostar de alguém não implica necessariamente o recurso à metralha. Muito antes pelo contrário. Jesus salvou Barrabás da cruz sem uma palavra de protesto, sabendo bem que iria tomar a justa vez do facínora. Digam-me onde é que no Alcorão há uma história de amor assim, que eu revejo a minha tese.
E a minha tese é muito simples, até: nem todo o maometano é um assassino. Mas a grande parte dos maometanos acredita e serve valores que são inimigos absolutos dos valores em que fui educado e cresci e que fizeram de mim o gajo que sou hoje (bom ou mau, não interessa porque a biologia mandata-me à defesa de quem sou). Mas também e sobretudo inimigos absolutos dos valores que elevaram a civilização ocidental à proa da História. Os valores da razão moral em Platão e em Kant, os valores da tolerância e da piedade em Jesus Cristo e em Thomas More; os valores de justiça social em Karl Marx e de prosperidade colectiva em Herbert Spencer, os valores da virtude em Juvenal e da probidade em Marco Aurélio, os valores de superação em Nietzsche e da universalidade em Voltaire e assim sucessivamente até que se entenda o óbvio: o rapaz que matou os tais 50 homossexuais não os matou por causa de serem homossexuais. Matou-os porque adora um profeta demoníaco. Mas atenção: Maomé não é um profeta demoníaco. O homem era um comerciante e era um guerreiro (uma coisa, no contexto histórico, implicava a outra). Só não era de certeza um tipo que se insurgisse contra a primeira pedra lançada à bela e triste tromba da cortesã de taberna. E é muito mais fácil interpretar torto o texto do profeta das barbas do que errar na validação do discurso do crucificado, que é, convenhamos e basicamente, um Buda magrinho.
Revelando abertamente o ignorante que é, Obama argumentou que os recursos sofistas que usa para não chamar ao terrorismo islâmco terrorismo islâmico não são pertinentes para a resolução da violência. A desvalorização da nomenclatura nem sequer é própria de um político minimamente competente, mas vindo de quem vem não surpreende. Tem é o problema de decorrer de uma lógica absolutamente falaciosa. Antes de tudo, temos que dar substantivos às coisas e aos fenómenos. Foi aliás para isso que se inventou a linguagem. É, até, uma das missões transcendentais do homem: o acto de nomear. Fulano é meu amigo. Beltrano é meu inimigo. Obama devia ler menos Marx e mais Homero. Ou Confúcio.
Vamos por favor chamar os bois pelos nomes. O massacre de Orlando é de fé islâmica. Ponto final, parágrafo.


terça-feira, junho 14, 2016

domingo, junho 12, 2016

Mais um poema inédito do Fernandinho.

Cada palavra dita é a voz de um morto.
Aniquilou-se quem se não velou
Quem na voz, não em si, viveu absorto.
Se ser Homem é pouco, e grande só
Em dar voz ao valor das nossas penas
E ao que de sonho e nosso fica em nós
Do universo que por nós roçou
Se é maior ser um Deus, que diz apenas
Com a vida o que o Homem com a voz:
Maior ainda é ser como o Destino
Que tem o silêncio por seu hino
E cuja face nunca se mostrou.


Fernando Pessoa

quarta-feira, maio 18, 2016

Carlos Rafael: tens toda a razão.



O meu querido amigo é que sabe. E sempre que insiste numa banda, tem razões fortes para isso. Esta até podia muito bem ter-me entrado por um lado e saído pelo outro se não fosse o aviso dele. Grande banda, grande disquinho e, por uma vez, um clip razoável. Não está nada mal.

De Rosa . Spectres

Cognac: now open


Cognac is now open for business and you can pay us a visit anytime, from sunrise to sunrise. Chances are there is always someone here and the bar never closes. Location graphics available soon.

terça-feira, maio 17, 2016

O Guilherme Cabral diz tudo.



Excelente manifesto de um tricampeão: sem insultos, sem rancores, sem revanchismos. Apenas a alegria e o orgulho de ser benfiquista. Bravo.

segunda-feira, maio 16, 2016

Dedicatória.

Na qualidade de adepto do Sport Lisboa e Benfica, dedico o 35º título nacional ao sr. Bruno de Carvalho.

sábado, maio 07, 2016

Mais crónicas do mundo ao contrário.

Os londrinos elegeram hoje um muçulmano para a presidência do seu município. Sim, caro leitor, um muçulmano, ainda para mais paquistanês, ainda para mais suspeito de manter relações cordatas (é dizer pouco) com extremistas islâmicos.

Enquanto o socialista Bernie continua a dar muitas dores de cabeça a Hillary Clinton, Trump vai ser mesmo o candidato republicano nas eleições para a presidência da grande potência mundial. É verdade.

José Sócrates vai inaugurar o Túnel do Marão. Não, não estou a brincar. António Costa teve a gentileza de o convidar para o corte da fita. A sério.

A realidade, por estes dias, é um autocarro que ultrapassa pela direita, a uma velocidade estonteante, o Fiat 127 da ficção.

Se isto não é o mundo ao contrário, não sei que volta mais radical pode acontecer.

Clip horrível. Mas esta música...



... deixa-me num estado saltitante.

Young Galaxy . Ready to Shine

quarta-feira, maio 04, 2016

Muse ou a compensação cenográfica.

Por causa do gentil convite de um amigo meu, o Carlos Fernandes, fui na segunda-feira ver um concerto de uma banda de que não gosto nada. Mas, ainda assim, não saí de lá triste. Os rapazes mostraram um espectáculo visual que não tem comparação com nada do que tinha visto até aqui - e já vi muitos, mas mesmo muitos concertos na vida.
O Carlos, ainda por cima, conseguiu uma excelente edição das imagens que captou com o telemóvel, pelo que tinha mesmo que postar isto:


Novo elogio da porrada.

Os senhores deputados do parlamento Turco reconhecem o valor da violência física na resolução dos conflitos próprios da democracia. E fazem eles se não bem. Dão um espectáculo divertidíssimo e condicente com os princípios da república que representam , enquanto resolvem (em definitivo, calculo eu) as suas disputas nuns minutinhos apenas e com a cómica selvajaria que é prototípica das sociedades muçulmanas.
Senão vejam:



A pancadaria é de tal ordem, que até os representantes da Câmara dos Deputados do Brasil e da Assembleia Regional da Madeira são capazes de ficar envergonhados. Ou invejosos.
Brilhante.

sexta-feira, abril 29, 2016

Marte numa voltinha.



O Curiosity tirou os bonecos e a NASA fez a composição de 360º.
Às vezes, o engenho humana tem muita pinta. Para ver em full screen e em 4K.

Mas-que-malha.



 Beat Connection . Another Go Round

Não consigo parar de trautear esta música. Não me sai da cabeça. Não me sai da pele nem dos pés, nem do ritmo da vida. Estou agarrado.

quinta-feira, abril 28, 2016

Trabalho é Cognac.


Na boa companhia do João Lagido e do Rui Canas, estou por estes dias alegremente subjugado à carga de trabalhos de levantar um estúdio de comunicação num recanto sossegado de Telheiras. Vou dando notícias do projecto aqui no blog e na página facebook da marca. Desejem-me sorte.

terça-feira, abril 19, 2016

Beat do momento.



Beat Connection . So Good

Esta música está destinada a fazer subir o botão do volume. Ouvi-la baixinho é trair o espírito da coisa. Depois, no elevador, peça desculpa ao vizinho.

segunda-feira, abril 18, 2016

Impedimento: tchau querida.



Já está. Ao Deputado Bruno Araújo, do PSDB de Pernambuco, saiu a sorte grande de jurar o sim que garante o início do processo de impeachment da presidenta Dilma (em brasileiro). O homem cumpre o seu voto com eloquência e emoção e leva a Câmara ao delírio. A casa não vibraria mais com um golo do escrete na final de um mundial de futebol.
Há qualquer coisa de animalesco e caótico na democracia brasileira que exerce um fascínio difícil de contornar. Nem que seja porque é muito divertida de ver em acção.
E até que o Brasil se veja livre de Dilma teremos muitos episódios, tão ou mais recambulescos do que este, para apreciar.
Viva a República.

Impedimento: Wladimir, o profissional.



O deputado Wladimir Costa leva a coisa a sério e traz adereços para dar ao espectáculo a sua devida dimensão circense.
Isto é ou não é um produto televisivo de excelência?

Impedimento: os valores herdados.

Muitos deputados falam, com indisfarçável orgulho, dos valores que os seus pais lhes incutiram. Ora, considerando que destes 517 deputados, há mais de 130 metidos em grandes e graves problemas com a justiça, não se percebe bem a vaidade. Das duas uma: ou os pais destes senhores não foram efectivos na educação que deram aos filhos ou estavam bastante equivocados sobre o conjunto de valores que é aceitável pela lei e pelos bons costumes.

Impedimento: poesia, revolução e netos.

Há deputados que manifestam o seu voto em verso. Outros prometem a revolução do proleteriado com a veemência que envergonharia Lenine. Mas sempre em nome dos filhos e dos netos, claro. A câmara dos deputados está repleta de avôs enternecedores.

Impedimento: o Irmão Lázaro e a soberba.



O Irmão Lázaro (estrela da música gospel e deputado federal), jura o seu voto:
 - "É preciso muita soberba para abrir rombos bilionários nos cofres públicos e achar que não vai acontecer nada. É muita soberba. (...) E a soberba precede a queda."
Convenhamos, a política assim é encantadora.

Impedimento: pura comédia.



Estou a seguir, no livefeed da Folha de S. Paulo, a votação do Impeachment, na Câmara dos Deputados da república federal do Brasil. É das coisas mais cómicas que podes imaginar, gentil leitor.
Os deputados manifestam publicamente o voto evocando os seus filhos, os seus netos, as mulheres e as sogras. Rebolam-se, durante este breve e espalhafatoso momento de prime time, num exercício acrobático de egotismos emocionados, acusações vibrantes e histriónicas declarações de paixão patriótica. No momento da expressão do voto, estão literalmente cercados por outros deputados que gritam apupos e apoios, mostram cartazes, vociferam ameaças, pressionam, apressam, demoram, aviltam. É o bordel, na sua mais espectacular plenitude. Espero sinceramente que isto dê em porrada.

segunda-feira, abril 11, 2016

Para o que lhes havia de dar.



Os meus queridos amigos errantes tiveram a ideia tresloucada de passarem 15 dias entre o Vietname e o Cambodja. Há gente para tudo e estes dois, que até são umas pessoas que dão bom nome à raça humana, têm tanto direito a ensandecer como qualquer mortal. A vantagem, para mim, é que regressam sempre com uns vídeos muita giros para eu publicar alegremente aqui no blog.

quinta-feira, abril 07, 2016

Elogio da bengalada.

Sinceramente, não percebo qual é o mal das pessoas resolverem os seus problemas à bofetada. Inclusivamente ministros: um ministro não tem culpa de ser ministro no mesmo sentido em que um idiota é inocente da sua condição, e deve usufruir dos mesmos direitos que as pessoas normais. Qual é o escândalo do Ministro da Cultura querer dar uns tabefes neste ou naquele? Bem vistas as coisas, a violência física é um problem solver milenar e de eficácia assegurada. Um estaladão é higiénico, honesto, rápido e eloquente sem ser retórico. É uma excelente ferramenta política.

Quando muito podemos talvez aconselhar João Soares a evitar o anúncio da porrada, na medida em prepara antecipadamente o adversário para o combate. Este último, avisado, pode muito bem munir-se de uma boa e queirosiana bengala de cabo de aço e escangalhar o ajuste de contas do ministro, bem como algumas áreas estrategicamente seleccionadas do seu magnífico corpo. 

Não há muito tempo atrás, as elites europeias resolviam as suas desavenças em duelo. Era um outro método deontologicamente correcto e, acima de tudo, definitivo. Depois de se envolverem num cavalheiresco tiroteio, os honoráveis adversários não voltavam, regra geral, à mesma teima. Até porque, de vez em quando, um dos teimosos ficava logo ali mudo e frio para toda a eternidade. Ora, se este ritual permaneceu vivo e recomendável durante uns séculos, porque raio é que a bofetada agora cria alergias a tanta gente?

A pancadaria é o mais antigo, o mais usado e o mais útil instrumento da civilização.

De resto, parece-me excelente que as soberanas questões da cultura nacional (e outras, muitas) sejam resolvidas desta forma limpinha. Afinal, digam-me: conhecem uma melhor solução para o João Soares do que um enxerto de porrada à antiga?

É que eu não estou a ver outro remédio.

segunda-feira, abril 04, 2016

O dinheiro, essa igreja universal.

Há, na história dos homens, apenas um elo sagrado que os une a todos: a ganância.
O dinheiro é a única religião, o singular valor absoluto que transcende todas as discórdias e que reúne no mesmo altar crentes e ateus, muçulmanos e cristãos, revolucionários e conservadores, gregos e troianos, castelhanos e catalães, argentinos e brasileiros, judeus e palestinianos, indianos e paquistaneses, flamengos e valões, russos e polacos, alemães e franceses, islandeses e suecos, albaneses e italianos, sérvios e turcos, russos e ucranianos, coreanos do norte e do sul, vilões e heróis, profissionais de golfe e amadores de futebol de salão, pretos e brancos, homens e mulheres, índios e cowboys, polícias e ladrões, juízes e criminosos, patrões e operários, ministros e funcionários, políticos e jornalistas, sindicatos e empresas, ambientalistas e industriais, professores e alunos, associações desportivas e organizações humanitárias: enfim, não há conflito sem resolução, não há inimizade sem cura, não há guerra que não seja aplacada pela paz dos milhões.
Os papéis do Panamá não dizem nada de novo. Qualquer pessoa que tenha lido um único livro de história na vida, sabe muito bem que as coisas são como são. O que surpreende é o tom escandalizado da imprensa. Nesta fuga de informação, há de certeza gente que detém capital em orgãos de comunicação social. De certa forma, hoje em dia, todo o grande capital é sujo. Mas, se não houvesse capital sujo, não havia imprensa, porque, de uma forma geral, o negócio das notícias dá prejuízo e, por isso, a única forma de capitalizar estas empresas cronicamente deficitárias é aproveitá-las para lavar a sujidade que todo o dinheiro traz consigo.
Aliás, nos tempos que correm, parece que todos os negócios dão prejuízo. Até o petróleo dá prejuízo. Até a indústria do armamento dá prejuízo. Os únicos negócios que não dão prejuízo são o da fuga ao fisco (em grande escala, porque a pequena evasão fiscal também está pela hora da morte) e o da corrupção (a generalizada, porque a ocasional não tem futuro).
O mundo todo é um Brasil enorme ou um imenso Portugal. Todos estamos metidos até ao pescoço na mesma lama da ganância e da mais absoluta ausência de princípios. Não somos do Benfica ou do Sporting. Não somos de esquerda ou de direita. Não somos da mesquita ou da paróquia. Não somos de Platão ou de Aristóteles. Somos todos, em uníssono, do clube do cifrão. Ámen.



Pink Floyd . Money

domingo, abril 03, 2016

Mais vale tarde.

Estou a reagir ao facto demasiado tarde, mas tenho que dizer o que penso na mesma: a rejeição pelo parlamento do voto de condenação à prisão dos 17 activistas em Angola é simplesmente nojenta. Do PCP tudo se espera. Mas ver CDS e PSD neste papel infame é realmente penoso. Penoso ainda por cima porque a miserável posição que foi tomada só tem a ver com a salvaguarda dos negócios entre os grandes escritórios de advogados portugueses (cujos sócios infestam as bancadas da Assembleia da República) e o Estado Angolano.

Triste, cobarde, disfuncional, imoral, gananciosa Terceira República.

Pura e dura censura.

A Casa Branca ensandeceu de vez. Agora censuram até as declarações de chefes de estado. No caso, o infeliz Hollande teve a ousadia de dizer em Washington estas duas palavras que, quando juntas, são tabu para Obama: terrorismo islamita. Pressurosos e diligentes, os funcionários da administração americana logo calaram o Presidente francês (tradução e pista de áudio, para não haver confusões). Reparem bem no escândalo que é vídeo oficial da Casa Branca (o corte dá-se ao minuto 4'50"):



O que disse Hollande e o que foi censurado (a bold):

... but we’re also well aware that the roots of terrorism, islamist terrorism, is in Syria and in Iraq. We therefore have to act both in Syria and in Iraq, and this is what we're doing within the framework of the coalition.  And we note that Daesh is losing ground thanks to the strikes we’ve been able to launch with the coalition...

Só visto. Se fosse eu a contar, ninguém acreditava, claro.
A notícia toda está aqui. Leiam-na.

sábado, abril 02, 2016

Um Pinóquio na Casa Branca.



Barak Obama é um incansável mentiroso. Mente com quantos dentes tem e em todas as oportunidades que lhe são dadas. É muito simples: se não está a mentir, está a dormir. Eis aqui um breve apanhado do seu reportório de falsidades.

Political Fact
. Meias verdades
. Afirmações maioritariamente falsas.
. Afirmações completamente falsas.
. Afirmações escandalosamente falsas.

The Washigton Post 
. Afirmações falsas de Barak Obama.

Politico
. Obama, o grande hipócrita.

Freedom Outpost
. 1063 mentiras documentadas.

Breitbart
. 10 maiores mentiras no discurso sobre o Estado da Nação 2106.

The Political Insider
. Reacção do Pentágono às mentiras de Obama.

Young conservatives
. 68 mentiras gordas.

Fox News
. 11 mentiras num discurso apenas.

The Horn Newss
. As mentiras sobre o atentado de San Bernardino.

Glenn Beck destrói a falsa biografia de Barak Obama:

sexta-feira, abril 01, 2016

Era completamente capaz de me suicidar, agora.

Eutanásia para aqui, eutanásia para ali, mas
ninguém fala das pessoas que não estão terminalmente doentes e que,
mesmo assim,
gostariam bastante de morrer.

E ainda bem que ninguém fala disso.
Imaginem o Paulo Hasse Paixão na capa da Caras a dizer:
Quero morrer mas não tenho coragem.

Que infinita desgraça.

A felicidade aqui é a de ninguém ter interesse no interesse de morte
do Paulo Hasse Paixão.

Morrer deve ser das coisas mais bonitas que a vida tem.
Só que, para morrer limpinho, em batalha contra os outros ou em batalha contra nós próprios,
é preciso ter uns tomates do catano.

E os meus tomates não são tão grandes como a minha vontade de fim.
Nem pouco mais ou menos.
E não há guerras no mundo que aguentem um tipo de 49 anos e que nunca fez tropa.

Quem tiver por aí uma pistola que queira vender a preço módico
(é necessária apenas uma bala),
Por favor queira contactar o autor deste texto pelo email:
hassepaixao@yahoo.com

Muito e muito obrigado.

segunda-feira, março 28, 2016

Atenção: momento Borges.

 Ao correr das lembranças

Lembrança minha do jardim de casa:
vida benigna das plantas,
vida cortês e misteriosa
e lisonjeada pelos homens.


A mais alta palmeira daquele céu
e estância de pardais;
videira firmamental de uva negra,

dias do verão dormiam à tua sombra.

Moinho colorido:
remota roda a laborar no vento,
honra de nossa casa, porque nas outras
corria rio abaixo o sino do aguadeiro.


Cave circular da base,
tornava vertiginoso o jardim,
fazia medo ver por uma frincha
o teu cárcere de água subtil.


Jardim, frente à cancela se cumpriram
os agrestes carreiros
e aturdiu-nos o carnaval berrante
de insolentes fanfarras.


O armazém, padrinho do malévolo,
dominava a esquina;
mas tinhas canaviais p'ra fazer lanças
e pardais para a oração.


O sonho de tuas árvores e o meu
ainda se confundem na noite
e a extinção das gralhas
deixou um medo antigo no meu sangue.


As tuas poucas varas de profundidade
tornaram-se a nossa geografia;
um alto seria "a montanha de terra"
e uma temeridade o seu declive.


Jardim, encurtarei a oração
para continuar sempre a lembrar-me:
a vontade ou o acaso de dar sombra
foram as tuas árvores.



Jorge Luís Borges . Caderno de San Martín . 1929 

Música remédio.



Gang of Youths . Benevolence Riots.

Estes cinco minutos são mais bonitos que um dia de verão. Ou assim parecem, num frio dia de Março.