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sábado, março 27, 2021

Jornal de Letras - 2019/2020 - #01

Obras Completas . Jorge Luís Borges . Vol. IV . Editorial Teorema
Terminei finalmente a leitura daquele que é um dos meus autores favoritos de todos os tempos, um clássico entre clássicos, monstruoso vulto de erudição e sensibilidade, mestre cego no labirinto da história universal. Os quatro volumes desta edição da Teorema ofereceram-me textos que não conhecia, claro, principalmente poemas e ensaios, mas antes de pegar neles já tinha lido muita coisa do Borges, pelo que esta leitura foi mais uma revisitação que uma descoberta.
Já aqui escrevi sobre o bibliotecário de Buenos Aires tantas vezes e tanto, que não vale a pena a repetição. Deixo só os primeiros cinco versos de "Insónia", para abrir o apetite de alguém que aqui venha parar e que esteja a pensar em ler ou reler o mago argentino:

De ferro,
de encurvadas vigas de enorme ferro tem de ser a noite,
para que não a rebentem e a desentranhem
as muitas coisas que os meus olhos repletos já viram,
as duras coisas que insuportavelmente a povoam.

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O Livro Aberto: Leituras da Bíblia . Frederico Lourenço . Cotovia

Muito devo a Frederico Lourenço: trouxe-me a voz de Homero. Trouxe-me a voz de Cristo. Como tradutor e ensaísta, é uma figura de proa da cultura portuguesa e nestas "Leituras" percebemos porquê. As questões que este breve conjunto ensaístico traz a lume, ardem intensamente. Por exemplo: Os evangelhos foram escritos numa língua - o Grego - que, muito provavelmente, Cristo não dominava. É necessária pois a devida cautela na análise do texto original, e tentar paralelos entre o grego e o aramaico, à procura de soluções de compromisso, que façam melhor luz sobre as mais enigmáticas palavras do nazareno.
Outro exemplo: A Bíblia, nos dois testamentos, reconhece que os homens não são iguais entre si, mas apenas perante Deus. E nem sequer considera a escravatura ou a servidão males em si mesmos, porque a equalização final só ocorre depois da vida e em função de um julgamento final. Porque um escravo pode ser um filho da crápula da pior espécie, que acaba eternamente no inferno e um esclavagista pode ser um santo com lugar vitalício no paraíso, apesar das probabilidades da lógica evangélica apontarem para um resultado inverso. O que importa é percebermos que os contextos históricos dominam os preceitos morais, e assim são mais importantes do que as modas do bem pensar académico para a exegese lúcida e honesta.
E ainda outro exemplo, dos muitos e interessantíssimos assuntos que este fascinante ensaio coloca em debate: de uma maneira geral, as igrejas cristãs fizeram da família a pedra de toque da sua teologia e, em muitos casos, de Maria uma figura central do seu palco sagrado. Jesus, porém e nos quatro evangelhos, parece extremamente desinteressado e distante do seu núcleo familiar, desvalorizando o papel da sua mãe, evitando os irmãos e chegando até ao ponto de recusar seguidores e discípulos que não odeiem os seus familiares directos. Esta última questão tem muito que se lhe diga e nos próximos tempos vou desenvolvê-la aqui no blog com mais profundidade.
Há no entanto que ler Frederico Lourenço com uma salvaguarda: trata-se substancialmente de um autor laico. Ainda por cima, e por razões de ordem pessoal (a homossexualidade que não se cansa de revelar), um laico que considera a Igreja Católica como uma espécie de inimigo existencial. Aqui e ali, este detalhe é de manifesta pertinência e apesar de todo o genial e volumoso trabalho que tem feito até aqui, não podemos simplesmente recusar a dúvida e o justo inquérito sobre tudo o que Frederico Lourenço crie ou traduza em relação com os texto bíblicos.

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Princípio de Karenina . Afonso Cruz . Companhia das Letras
"Todas as famílias felizes se parecem umas com as outras, cada família infeliz é infeliz à sua maneira." É assim que começa o célebre Anna Karenina, de Tolstoi. Afonso Cruz pega neste discutível axioma para mais um romance que não o envergonha, mas que também não me parece constituir a sua obra de referência. É claro que o talento criativo deste senhor, tanto como a sua tendência borgiana para a literatura entretecida em vários layers de complexidade psicológica e cenográfica, estão mais que presentes, neste romance. Mas, aqui e ali, aborreci-me. E não foi o imaginário exótico da Indochina que me despertou do aborrecimento, pelo contrário.
Uma nota para as ilustrações fotográficas da capa e dos separadores, que são da autoria do escritor (que também sabe muito de artes gráficas): cinco estrelas.

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Poemas de Li Bai . Tradução de António Graça de Abreu . Instituto Cultural de Macau
Ler poesia chinesa não é ler apenas o que escreveu o autor dos poemas. É também ler o que o tradutor ocidental interpreta, como expliquei aqui no blog já há uns anos atrás:
Ninguém que não domina a língua dos mandarins pode realmente compreender a sua literatura. Qualquer tradução para português será sempre uma versão e não uma tradução, porque os chineses não têm alfabeto, mas sim uma escrita fundada em ícones (lologramas) que podem encerrar vários vocábulos e vários significados. Além disso, um poeta do período clássico chinês teria também que ser um mestre das artes gráficas, sendo que a componente visual dos poemas chineses, que também cumpre uma espécie de métrica, não tem expressão possível nos idiomas ocidentais.
Posto isto, e para além do que também já escrevi sobre este magnífico poeta, devo dizer que gosto cada vez mais de poesia oriental e admiro cada vez mais a cultura clássica chinesa (não confundir com a sua cultura contemporânea, que é multidimensionalmente espúria e retém do património clássico apenas aquilo que interessa ao comité central).
Li Bai (701-762 DC), o aventureiro romântico, o intrépido bebedor, o rebelde temperamental, mestre de todos os sarilhos, o poeta aclamado e maldito que rebola pela colina da vida abaixo, entre triunfos e perseguições, mostra-se, na tradução de Graça de Abreu, ainda assim, surpreendentemente equilibrado e sóbrio e contemplativo. Poeta do que é belo porque é através daquilo que é belo que capturamos ao mundo alguma consolação filosófica, Li Bai caminha no sentido da imortalidade com graça e espírito e veia prolixa.
Este livro, que conta umas boas e largas centenas de poemas, é uma verdadeira delícia.

Um jarro de vinho entre as flores,
bebo sozinho, sem amigos.
Levanto o copo e convido o luar,
com a minha sombra somos três.

sábado, novembro 24, 2018

Da Poesia chinesa: Li Bai a sós com a montanha.

Sobre o inumerável, monstruoso e monumental corpo da poesia chinesa, já aqui foram postadas algumas pequenas coisas e hei-de, talvez, na reforma dos meus dias, escrever sobre o assunto mais aprofundadas linhas, sempre insignificantes, sempre necessárias para mim.
Por enquanto, tudo o que consigo produzir é uma pobre versão muito livre e muito minha de uma pérola do mestre Li Bai.

Caracteres originais e tradução literal:


独坐敬亭山     Sentado sozinho na montanha Jingting
众鸟高飞尽     As aves voam alto
孤云独去闲。 Nuvem solitária sozinho
相看两不厌, Não me importa o olhar de um para o outro
只有敬亭山。 Apenas a montanha Jingting


Versão Blogville:

Sento-me a sós contigo, Jingting.
Do céu passaram os pássaros já
E a única nuvem voou também.
Não me canso de te olhar e só há
uma montanha que me olha, Jingtin.

quinta-feira, janeiro 31, 2019

Jornal de Letras - 2016/2018 - #02

As 48 Leis do Poder . Robert Greene e Jost Elfers . Escolar Editora
Este livro lindíssimo, com um trabalho de tipografia notável, foi-me oferecido por um querido amigo e devorado num instante. São 3000 anos da história do poder em 500 belas páginas de erudição, pragmatismo e boa ciência política. Leis como "finja ser amigo, aja como espião" ou como "despreze o que vier de graça" parecem cínicas e excessivamente draconianas, mas estão todas muito bem fundamentadas pela lógica, pela história e por um anedotário que é eloquente e muito divertido.
Uma edição de luxo de uma pequena editora cuja leitura recomendo vivamente.

Purity . Jonathan Franzen . D. Quixote
Este romance de Jonhnatan Frazen é tão fraquinho e desinteressante que ilustra bem o meu pessimismo em relação à ficção contemporânea. Leio cada vez menos romances porque os rmances que se escrevem hoje em dia são, em 95% dos casos, como este aqui: dispensáveis.

Conde Belissário . Robert Graves . Estúdios Cor
A propósito de novelas contemporâneas que não prestam para nada, eis um maravilhoso romance histórico publicado em 1938 de um grande romancista, poeta e ensaísta irlandês, autor crónico de  obras primas de que o célebre "Eu, Cláudio" será o melhor exemplo. O livro, que descobri recentemente na cave a ganhar bolor, conta a história do General Belissário, lendário conquistador do império romano do oriente e súbdito do imperador bizantino Justiniano. Trata-se de excelente literatura e a excelente literatura tem, pelo menos, uma coisa boa: dá um enorme prazer ao leitor.

A Cartuxa de Parma . Stendhal . Estúdios Cor
Apesar de ser um apaixonado por "O Vermelho e o Negro", que já li 3 vezes, nunca até aqui tinha lido esta outra obra prima de Stendhal. Por uma razão ou por outra, não me deu este clássico tanto prazer como o outro. Mas a história de amor e traição protagonizada por Fabricio del Dongo e Sanseverina não deixa de ser arrebatadora. Stendhal não sabia fazer nada que não fosse grande literatura.

Stoner . John Williams. D. Quixote
Esta novela aqui, que segundo o New Yorker é "o melhor romance americano de que nunca ouvimos falar", foi originalmente publicada em 1965, mas só agora está a ser mais publicada e conhecida. Vá-se lá saber porquê: trata-se de um belo, embora soturno, manifesto existencialista que retrata a vida de um obscuro professor de literatura do midwest americano. Gostei imenso, por acaso.

Quinhentos Poemas Chineses . Coordenação de António Graça de Abreu e Carlos Morais José . Vega
A propósito desta livro, já postei aqui no blog algumas notas. Vale a pena dizer que esta edição da Vega foi importante para a minha descoberta da poesia chinesa, que deveras aprecio. Isto apesar de ninguém que não domina a língua dos mandarins poder realmente compreender a sua literatura. Qualquer tradução para português será sempre uma versão e não uma tradução, porque os chineses não têm alfabeto, mas sim uma escrita fundada em ícones (lologramas) que podem encerrar vários vocábulos e vários significados. Além disso, um poeta do período clássico chinês teria também que ser um mestre das artes gráficas, sendo que a componente visual dos poemas chineses, que também cumpre uma espécie de métrica, não tem expressão possível nos idiomas ocidentais. Voltarei a este assunto quando falar de um livro de poemas do grande Li Bai, que estou a ler agora.
Seja como for, quem gosta de poesia deve comprar este livro e lê-lo. Abre-se aqui uma janela para a infindável beleza da literatura oriental.

12 rules For Life - An Antidote to Chaos . Jordan B. Peterson . Allen Lane
Como não tive paciência para esperar pela edição portuguesa, mandei vir a versão original deste brilhante manual de sobrevivência, cuja recensão nã é necessária, já que tenho escrito, nos últimos meses, bastante sobre este livro. Se calhar o texto mais pertinente dos que postei, é este aqui, que foi escrito a propósito da visita do mestre a Portugal, precisamente com o objectivo de lançar este livro.

O império Imóvel ou o Choque dos Mundos . Alain Peyrefite . Gradiva
Um calhamaço de história como deve ser, esta odisseia da primeira embaixada britânica no Império do Meio é absolutamente fascinante. É a história de um fracasso tremendo, claro. Ingleses e chineses recusam entender-se. Esforçam-se até por se desentenderem. Do protocolo à geo-estratégia, há um mundo que os divide. O livro está magnificamente escrito, é extremamente fiel às fontes históricas e leva-nos por um percurso rocambolesco de equívocos e glórias, cumprido por homens que nem sempre tinham consciência do que estava em causa, mas que tinham claras ideias de dever, de honra e de sentido de estado. Homens que já não encontramos hoje. Histórias que já não acontecem.
Este livro de Peyrefite fica para mim como uma obra de referência, no contexto da disciplina da História. Mas também como uma lição de vida: os chineses recusaram as pretensões do esforço diplomático dos ingleses porque não conseguiram simplesmente imaginar que uma nação bárbara e tão mais insignificante na escala geográfica, demográfica e ontológica das coisas, pudesse realmente representar uma ameaça. Décadas mais tarde, aprenderam não pela diplomacia, mas pela eficácia dos canhões, que um império imóvel não tem grandeza. E foram humilhados por uma só frota britânica. Desse erro, velho de 230 anos, só agora estão a recuperar.

terça-feira, outubro 20, 2015

Da poesia chinesa.

Wang Yuchon

Wang Yuchon não se importava com as coisas do mundo,
mas gostava de patos.
Um dia encontrou um velho taoista 
que o convidou para sua casa.
Entregou-lhe um rolo de papel branco
e pediu-lhe que caligrafasse o Tao Te Ching.
O mestre utilizou o pincel com o talento dos imortais,
acabou, recebeu uns patos como recompensa,
meteu-os no seu cesto e foi-se embora.
Esqueceu-se de dizer adeus.

Li Bai (701-762)
Trad. António Graça de Abreu


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Da guerra

Apeio-me do cavalo num antigo campo de batalha.
Cobrem-me inteiramente as ervas selvagens,
o vento geme, as nuvens deslizam,
em torno de mim tombam as folhas ressequidas.
As formigas correm céleres sobre as ossadas.
As plantas trepadeiras enlaçam os crânios vazios.
Caminho longo tempo e suspiro a cada passo
perante o horizonte desolado.
Que sejam malditas as guerras e os combates,
terror dos jovens e dos velhos.
Aqui jazem no mesmo pó
tanto os generais como os soldados.
Diz-se: tiraremos a desforra,
havemos de vencê-los amanhã.
Mas nos campos desertos vagueiam, sós,
velhos cobertos de farrapos e a morrer de fome.

Du Fu (712-770)
Trad. António Ramos Rosa

sábado, junho 22, 2024

Li Bai e a poesia intraduzível.



Para um tradutor ocidental, não deve haver desafio maior do que verter um poema chinês para a sua língua natal. E porquê? Porque os chineses não usam vocábulos. Usam logogramas, símbolos conceptuais que condenam invariavelmente o tradutor à contingência da recriação.