Na imagem, Jason Terry, o mágico base dos Dallas, passa pelo MVP da época regular e Senhor Mãozinhas - Steve Nash - para afundar mais dois pontos, no jogo de Sexta-Feira.
Estamos em finais de conferência e a NBA mostra o que vale: é tudo jogadinho hoje como se não houvesse mais bola amanhã. Os play-of deste ano passaram a lenda, depois das séries serem disputadas com unhas e dentes, quase todas, a sete jogos. Tenho visto coisas que desafiam a física, a lógica e a filosofia, na NBA. Mas este ano, isto está mesmo muito próximo da transcendência.
Na blogosfera, como na vida, percebe-se que os parvos sabem bem que são parvos. Têm a verdadeira e dolorosa consciência do facto e envergonham-se. É por isso que nunca assinam as idiotias com que, em má hora, infestam os blogs alheios (que espertos!).
É muito raro ler um comentário inteligente deixado por um anónimo, não é?
quarta-feira, maio 24, 2006
"Não tem muito que saber. É apenas necessário tocar as notas certas no tempo exacto que o instrumento faz o resto."
Johann Sabastian Bach, quando cumprimentado pelo seu virtuoso domínio do cravo.
Confesso que me sinto bastante culpado de um delito que é partilhado pela multidão: no que diz respeito à epistemologia da música, a ideia comum é a de que Barroco é Bach primeiro e Vivaldi depois. Ora, sucede que hoje à noite fui conduzido por um querido amigo à impressionante aventura dos Tafelmusik, uma entidade sonora que se dedica a avisar os incautos acerca da falibilidade dos preconceitos com que interpretamos a música criada nos sécs. XVII e XVIII, ao mesmo tempo que performa um espectáculo verdadeiramente único por uma montanhada de razões, a saber:
• O CCB resolveu presentear Lisboa com um só espectáculo. Este de que falo.
• O Grande Auditório não estava apinhado com os pequeno-burgueses-ávidos-das-festas-da-música. Nem estava apinhado, ponto. Respirava-se!
• Tafelmusik é uma feliz, consagrada e competentíssima orquestra constituída por 18 humanóides absolutamente geniais, que estão alegremente empenhados em que a malta perceba - e valorize - a componente lúdica da música barroca.
• O espectáculo desta noite teve como estrela do norte as maravilhosas "Metamorfoses" de Ovídio, o que só por si é contar bastante, mas, ainda assim, que dizer disto: "Tenho cavernas no flanco da montanha / onde o sol nunca te afligirá."
No entretanto das encantatórias rábulas de Ovídio, estive muito contente e em puro deleite a ouvir obras-primas de Jean-Philipe Rameau, Jean Baptiste Lully, Marian Marais e Alessando Marcello. Vivaldi também constava do reportório, mas Bach, ironicamente, não.
A "Tempestade" de Marais é um momento extra-terráqueo de glória e arte, tanto como a história quasi-homérica de Céix e Alcione para a qual a peça foi escrita. Mas momentos como este, encheram cheinha uma noite perfeita de Barroco.
Hoje, posso dizer que fiquei um bocadinho menos ignorante.
quinta-feira, maio 18, 2006
Dr. House. Excêntrico Jesus Cristo do serviço nacional de saúde americano. Um gajo lindo e visceral. Um herói moderno. Um actor a sério. Todo ele é líder das audiências da minha inteligência emocional. E agora, que comprou uma moto de cair para o lado (250 cv/140 kg com suporte de titânio para a bengala), compete com Homero na corrida para a história sagrada. House não é um humanista. Salva vidas apenas porque é integro para com o destino a que foi condenado. Mais nada do que brio profissional. Rigorosamente mais nada.
quarta-feira, maio 10, 2006
"I am actually not at all a man of science."
Sigmund Freud, carta a Wilhelm Fliess - 1900.
Provavelmente, o maior impostor da história moderna, Sigmund Freud infectou a mentalidade ocidental de uma catrefada de falsidades de tal forma inacreditáveis que só podemos chegar a uma conclusão: a ciência humana está ainda na sua fase embrionária, e somos todos quase tão crédulos e ignorantes como aquele velhote desgrenhado da Macedónia que dividia o universo em três ou quatro esferas celestes, aqui há uns dois mil e quinhentos anos atrás.
Iniciando a sua carreira com uma grandiloquente defesa das qualidades terapêuticas da cocaína, e indicando-a abundantemente aos desgraçados que lhe chegavam ao consultório (alguns morreram da receita), Freud é o engenhoso fundador de patologias inexistentes como a Histeria ou o "Reflexo Neurótico Nasal", estigmas derivados, segundo este ilustre falsificador, de uma tendência excessiva para a masturbação e curáveis com recurso à dita droga ou a intervenções cirúrgicas de masmorra medieval.
Em vez de ser rapidamente encarcerado no hospício mais radical de Viena, Freud sobreviveu aos desastres com a persistência dos aprendizes de feiticeiro e, escapando para a frente, cria a sua segunda grande invenção: o líbido imparável das crianças. Para Freud, cada alminha já nasce de pau feito, lamentavelmente apontado para a mãe, em cujos seios encontra desde logo a redenção orgásmica. A história, a política, a economia e a religião explicar-se-iam assim à sombra de um cartoon grego: inclinado desde logo para o sexo que o pariu, o menino fundamenta os seus dias primevos - e o seu ego estrutural - num ódio surdo de ciúmes para com o seu pai. Isto, claro está, é apenas nojento e fica distante de qualquer rigor científico como a Terra está longe do centro da sua galáxia.
Fazendo uma imaginativa e quase poética, mas absolutamente não científica, interpretação dos sonhos que convenientemente fundamentavam as suas teorias mais delirantes, publicando terapias revolucionárias que, na verdade, não curavam ninguém, Freud foi alegremente ignorando o conhecimento mais disciplinado do seu tempo: genética e cultura eram factores menosprezáveis e o positivismo não mais que um tique de ratos de laboratório. O homem, segundo Sigmund, não passa de um escravo do seu inconsciente, essa massa oculta, imaterial e brejeira, sempre disponível para lançar o indivíduo nos mais perversos conflitos. Tudo o resto é preconceito de gente moralista ou preciosismo de académicos destituídos do pantone da criatividade.
Sobre este montão de imbecilidades, Freud cria até um aparelho filosófico multi-dimensional, que compreende toda a fenomenologia humana, aniquila a metafísica e eleva ao altar/divã uma espécie de super-homem/mega-falo; sapiens niilista que conquista a salvação pela transferência de todos os traumas para o colo paternal e semi-divino do psicanalista. Charlatão maior entre os grandes vendedores de tónico capilar, imaginativo e teimoso profeta da falácia, Sigmund Freud é uma vergonha para a epistemologia. E um embaraço enorme para todos nós, que comprámos, baratinho, os seus dogmas de algibeira no supermercado da desinformação.
Bem sei que parece ficção, mas é realidade da grossa: depois da dissolução da antiga Comissão para os Direitos Humanos da ONU - precisamente por causa de ser constituída por nações que não os respeitavam (o último país a presidir este infame organismo foi a Líbia!) - eis que surge agora uma Comissão novinha em folha, de tal forma correctora dos erros anteriores que até dá assento a países como a China, a Arábia Saudita e Cuba, proverbiais paladinos da dignidade humana e das liberdades individuais.
No dia em que acabarem com a Organização das Nações Unidas eu vou ser um homem feliz.
terça-feira, maio 02, 2006
"As pessoas são capazes de matar por um lugar para estacionar em Nova Iorque porque pensam: se não conseguir este lugar, posso não arranjar outro. Vou ficar meses à procura até que alguém saia do Hamptons. Porque toda a gente sabe que em Nova Iorque há muitos mais carros do que lugares para estacionar. Vemos carros a andar por Nova Iorque a noite inteira. Parece aquele jogo das cadeiras, só que toda a gente se sentou por volta de 1964."
Camões, grande Camões, quão semelhante
Acho teu fado ao meu, quando os cotejo!
Igual causa nos fez perdendo o Tejo
Arrostar co'o sacrílego gigante:
Como tu, junto ao Ganges sussurrante
Da penúria cruel no horror me vejo;
Como tu, gostos vãos, que em vão desejo,
Também carpindo estou, saudoso amante:
Ludíbrio, como tu, da sorte dura
Meu fim demando ao Céu, pela certeza
De que só terei paz na sepultura:
Modelo meu tu és... Mas, oh tristeza!...
Se te imito nos transes da ventura,
Não te imito nos dons da Natureza.
quarta-feira, abril 26, 2006
ELES ANDAM AÍ.
Vêm lá dos confins do espaço
em busca dos desertos americanos.
Aconchegados em discos de aço
vão chegando os marcianos.
Olhos espirais, antenas telepatas
e espertas orelhas pontiagudas:
são assim p'ró feinho os piratas
do Triângulo das Bermudas.
Uns vêm e deixam saudades,
outros por fome de carne humana.
Contra todas as probabilidades
visitam-nos uma vez por semana.
Não há como negar o facto:
eles andam aí e são apanhados
a construir aeroportos no mato
e a ceifar o trigo dos prados.
Arriscam-se à bestial pestilência
dos encontros de grau terceiro.
Amiúde, deixam descendência,
são fornicadores em passeio.
Habitam há que tempos a História,
deixaram-nos príncipes e faraós,
(as pirâmides são prova e memória
de que nunca estivemos sós).
Escreveram tábuas e pautas
para mitos, cultos e religiões:
são os deuses astronautas
que aterram aos trambolhões.
Ou, em vez dos antigos mundos
(quem sabe desta aventura?),
discos e seres são oriundos
de uma qualquer era futura.
Podem até ser sapiens em férias,
do século D.C. quarenta e tal.
Tiram fotografias, trocam pilhérias,
vêem em safari temporal.
Na verdade nem me interessa
de onde vêem e para onde vão.
Gosto é de os ver assim com pressa
em imagens de baixa resolução.
sábado, abril 22, 2006
"Tenho um telefone sem-fios, mas não gosto muito dele porque não se pode pousar ruidosamente um telefone sem-fios. Quando ficamos furiosos com alguém num telefone normal podemos dizer: não te admito que fales assim comigo! e PUM, acabou-se. Mas num telefone sem-fios - Não te admito que fales assim comigo! Agora, espera que eu tenho de procurar o botão onde se desliga esta porcaria... Espera só um bocadinho para eu te desligar o telefone na cara..."
Mais conhecido por Ronda Nocturna (Sir Joshua Reynolds encontrou o quadro de tal forma degradado e enegrecido que pensou - erradamente - tratar-se de uma cena nocturna) esta é uma das mais famosas obras de Rembrandt, muito pelo seu proverbial jogo de luz e sombras, mas também porque o autor opta por fugir à norma da pose estática nas representações militares, optando por introduzir uma nota de movimento ao retratar um momento de partida para uma missão, cuja natureza se desconhece. Apesar da obra ter sido encomendada por um ramo da milícia civil (Mosqueteiros), Rembrandt opta por esconder os seus membros na escuridão e - não fosse o quadro ter sido literalmente mutilado no século XVII, com o intuito de caber numa parede (!) - poderíamos registar que até o homem do tambor colocado à direita (que não fazia parte da mílicia e tinha sido pago para estar ali a compôr a cena) surge com mais protagonismo que o pessoal miliciano. Não admira pois, que Rembrandt esperasse três anos até receber o pagamento pelo trabalho.
«Estamos prontos a atacar alvos sensíveis norte-americanos e britânicos» Mahmoud Ahmadinejad
Enquanto estou embrenhado na deliciosa leitura de GUERREIROS DE DEUS - RICARDO CORAÇÃO DE LEÃO E SALADINO de James Reston Jr. - obra em que, desde já vos digo, Saladino surge como um santo e Ricardo como um facínora - este animal que dá pelo nome literalmente indizível de Mahmoud Ahmadinejad ameaça o mundo livre com brutalidade atómica e niilismo de algibeira. A incompetência americana e a cobardia europeia dão nisto: o Irão anuncia-se solenemente como uma potência nuclear e os seus caciques discursam com a hostilidade de quem se prepara para a guerra; dizem do holocausto o que nem certos amigos meus de uma certa direita que não é a minha seriam capazes de segredar em blog; disparam impropérios à Hugo Chavez; rebolam-se alarvemente na sua infâmia e a malta aqui deste lado reúne-se na ONU, de bracinho cruzado, forçando-se a uma ou outra mais aborrecida conferência de imprensa, momento em que (muito a contra gosto) lá se proferem umas acusações de papelaria, como se afinal não fosse nada assim tão de especial; por todos os deuses da diplomacia civilizada (que é como que diz: francesa), não vamos agora perder a temperança por causa destes bárbaros que não sabem o que fazem, quanto mais saber fazer algo parecido com uma pistola nuclear. É assim, caríssimas damas, que se desloca para secundaríssimo plano o ex-mau da fita, Bin Laden. É desta precisa e descarada maneira-afronta, distintos cavalheiros, que se reduz a cinzas o sacrossanto império do Ocidente.
Acho que já é a segunda vez que faço isto neste blog, mas insisto com a certeza de quem-sabe-que-tem-que-ir-à-casa-de-banho: a 26 de Novembro de 2003 - quando ElBaradei ainda convencia meio mundo de uma das maiores falácias da história da diplomacia contemporânea* - escrevi o que se segue, no extinto Ocidental Praia.
É SÓ MAIS UM PARQUE INFANTIL. Mohamed ElBaradei e a sua hilariante Agência Internacional da Energia Atómica ainda acreditam que as instalações nucleares iranianas estão a ser desenvolvidas com um fim pacífico. A ingenuidade ou cumplicidade deste senhor não tem paralelo: O Irão, riqíssimo em petróleo e em carvão, não precisa de criar formas subsidiárias e comparativamente dispendiosas para acender a luz e é evidente que o regime iraniano - um dos mais perigosos, ferozes, fanáticos e totalitários do mapa político - pretende aumentar a pressão nuclear sobre o Médio Oriente. Quando em boa hora os americanos não tiverem outro remédio que o de entrarem por ali a dentro e partirem aquilo tudo, os marretas do Conselho de Segurança das Nações Unidas, que inacreditavemente se recusam a condenar a política nuclear dos ayhatolas, vão ficar muito surpreendidos e de pronto votar não sei quantas resoluções em favor da paz mundial e contra a arrogância da Administração Bush. Citando Pessoa: Ora bolas para a gente ter que aturar isto!
Escusado será dizer que, caso a administração Bush tivesse um pinguinho de talento estratégico, esta pequena profecia teria sido concretizada em tempo recorde. Assim, como estamos, é difícil entrar pelo Irão a dentro e partir aquilo tudo. Mas é pena. Porque o senhor Ahmadinejad, que não é nenhum Saladino, está-se mesmo a pôr a jeito. E porque o mundo árabe - cuja fé sempre triunfou pela espada - está mesmo a pedir uma cruzada a sério. Como a primeira.
Nota de rodapé: James Reston Jr., que é um verdadeiro herói americano, espécie de Indiana Jones da Academia historicista americana, escreve um belo e competentíssimo manual de propaganda árabe, reduzindo os cruzados a bárbaros e os seus motivos às mais baixas volições da ordem da política instrumental. Quem é que imagina ser possível a um académico árabe, exercendo ciência no seu país, interpretar a terceira cruzada de forma oposta? É bem fixe, a liberdade, não é? Agora a pergunta difícil: é assim tão fixe que valha a pena morrer por ela?
* Comparativamente, o Caso do Misterioso Desaparecimento das Armas Iraquianas de Destruição Maciça perderia todo o interesse, até para Erle Stanley Gardner.
Apercebi-me agora que, sobre o soneto do Barbosa alguém postou um comentário extensíssimo e absolutamente a despropósito sobre a monogamia ou coisa que o valha. Só li duas ou três linhas e percebi logo que até poderia concordar com alguns dos princípios, mas nem se trata de concordar ou discordar: O QUE É QUE O SACANA DO ASSUNTO TEM A VER COM O BOCAGE? É preciso perceber que, quando defendemos valores morais, devemos proceder com ÉTICA. Não é bom, seja para que causa for, entrar numa lógica terrorista de descarregar manifestos nos blogues alheios, certo?
Só me apetece dizer palavrões, por isso, dedico apenasmente ao fanático mal criado que me fez a desfeita este gentil termo: BARDAMERDA.
Meu ser evaporei na lida insana
Do tropel de paixões, que me arrastava;
Ah! cego eu cria, ah! mísero eu sonhava
Em mim quase imortal a essência humana.
De que inúmeros sóis a mente ufana
Existência falaz me não dourava!
Mas eis sucumbe a Natureza escrava
Ao mal, que a vida em sua orgia dana.
Prazeres, sócios meus, e meus tiranos!
Esta alma, que sedenta em si não coube,
No abismo vos sumiu dos desenganos.
Deus, oh Deus!... Quando a morte à luz me roube,
Ganhe um momento o que perderam anos,
Saiba morrer o que viver não soube.
Terminou hoje, com o assassinato mais célebre da história - o de Júlio César na arena do Senado romano - uma das mais brilhantes séries dos últimos anos (largos): Rome é - apesar de uma produção financeiramente deficitária para as ambições do projecto - um espectacular fresco sobre a antiguidade, com visão académica, rigor histórico e intriga a condizer. Felizmente, os senhores da HBO já prometeram uma segunda temporada. Eu cá espero que produzam 12. É que, nestas coisas do Império Romano, é sempre de bom tom seguir a lógica de Gaio Suetónio.
segunda-feira, abril 17, 2006
"As mulheres precisam de gostar do emprego do tipo com quem saem. Se não gostarem do emprego, também não gostam do tipo. Os homens sabem-no, e é por isso que inventamos nomes falsos e sonantes para os empregos que temos - Bem, agora sou supervisor da direcção regional. Estou no desenvolvimento, na produção, na consultoria...
Os homens, por seu lado, quando fisicamente atraídos por uma mulher, não querem saber do emprego dela. Dizemos apenas: A sério? É aí que trabalhas? Deve ser interessante. Tens um cutelo grande e cortas-lhes a cabeça, é isso? Deve ser bestial. Olha, e se te fosses arranjar para irmos comer um hambúrguer e ver um filme?"
Celebrando a feliz edição da revista Colóquio Letras - que traz à estampa, em três cuidados volumes, as traduções que David Mourão-Ferreira fez da poesia europeia.
RUTEBEUF E OS DILEMAS DA MISÉRIA
Nascido em pleno pesadelo medieval, autor maduro aos 15 anos e corpo cadáver aos quarenta, Rutebeuf sofreu a vida inteira de miséria crónica e anonimato agudo. Isto, claro está, apesar de ter sido ele que praticamente inaugurou a dramaturgia francesa. Não admira pois que encontremos frequentemente nos seus versos os lamentos prolixos, as queixas de má sorte e algumas frágeis e vãs tentativas de conformismo. Na sua lírica de jogral vagabundo, pungente e sincera, denuncia a fealdade e a brutal natureza da sua mulher, a abstinência financeira, as dificuldades criativas, as falhas de memória, o flagelo da velhice (na agreste Europa do Século XIII, as alminhas caducavam mais cedo). No famoso Complainte de Rutebeuf, o poeta partilha com o leitor uma interminável lista de complicações existenciais, penitências do destino, desagravos intestinais, agruras de espírito e penas de amor (um amor sublimado e platónico, bem dentro do imaginário da época). Valente inimigo do triste papa Alexandre VI e da Inquisição francesa, grandessíssimo campeão da Universidade de Paris, autor fundamental na génese da francofonia, peregrino druida do teatro místico europeu, satírico empedernido e competentíssimo trovador, Rutebeuf - o pobre - deixa afinal à posteridade uma herança opulenta:
O JOGO DO INVERNO
Contra o tempo em que as árvores se desfolham
e nos ramos não há nenhuma folha
que não caia por terra;
contra a grande pobreza que me aterra
e que de toda a parte me faz guerra;
Contra o tempo do Inverno
que até me altera o tom dos próprios versos,
começo por caminhos bem diversos
a narrar esta história.
Pobre de senso e pobre de memória,
foi como Deus me quis, pra sua glória...
E quanto a rendimentos
apenas me entregou todos os ventos
que sopram e me gelam neste tempo...
Pobreza foi somente a sua oferta;
e nem tenho outra porta sempre aberta...
Mas no fundo sou rico,
pois Deus me dá o tempo que é preciso;
assim, durante o Verão lá vou cantando,
como a ave no ramo,
e depois, no Inverno, se choro e me lamento,
tenho por companheiro o próprio vento...
De que mais necessito?
Depois de muito dar à perna, o despudorado Villepin tem agora tudo à mostra: a ambição, a cobardia e uma enorme falta de carácter. Entrementes, a França passeia-se, nua de virtudes, pelo boulevard da história. O cenário é constrangedor.
O miserável ladrão que terá sido condenado à morte por ter roubado uma bolsa é submetido à perícia forense do aristocrático Dr. Tulb, para iluminação dos seus aristocráticos aprendizes sobre os mistérios da fábrica do corpo humano. Rembrandt tem 26 anos, este é o primeiro quadro que assina por extenso (os anteriores são rubricados com as inicias RHL) e esta é a parábola que inicia de verdade o seu percurso de génio.
O meu amiguinho Shark predispôs-se atenciosamente a pegar num excerto do que eu aqui escrevi sobre a questão das quotas de acesso aos cargos partidários para dissertar sobre o assunto, o que me apraz deveras, apesar das desavenças de opinião, já que o meu interlocutor se acha hesitante na sua superior equação do caso.
Bom, não que tenha maluca paixão por polémicas, não que entenda que os meus amigos devem pensar politicamente como eu seja sobre o que for, mas por todos os deuses da individualidade humana, acho pertinaz esclarecer certas minudências, a saber:
a) Não tenho qualquer dúvida que as mulheres têm capacidade mais que bastante para cumprir tão bem ou melhor que os homens qualquer tarefa do âmbito político ou público. Ao invés, desconfio imenso da nossa capacidade para levar a cabo algumas muitas das missões que a mãe natureza (essa santa mulher de competências indiscutíveis) escolheu para atribuir ao género feminino. A minha oposição a esta coisa maluca de se obrigar a mulher a cumprir um determinado papel (sem se perceber bem se esta o deseja ou não) está explicada num post que escrevi em Outubro de 2005 e que, a certo momento, rezava assim:
Em vez da discriminação positiva, da gramática revisionista e do moralismo abjecto e arcaico das comunas de Paris, o que se deve dar às mulheres são direitos e oportunidades iguais. Ponto final. Tudo o mais é lamechice insuportável, ou pior ainda, tudo o mais é querer tranformá-las. É querer alterar a sua antropologia. Tudo o mais é que é ser paternalista, fascizóide, segregacionista. Tudo o mais é não perceber coisa nenhuma de biologia, é não saber aceitar que homem e mulher cumprem papeis diferentes no quadro da mecânica natural da sua espécie. É não conseguir compreender que o Homo Sapiens é um produto relativamente bem sucedido dessas diferenças simbióticas, dessa multiplicidade diversa, que também é responsável pelo género que têm as palavras, tanto como pela ordem semântica da linguagem. Tudo o mais é querer transformar mulheres em homens.
b) Podemos bem percorrer a história do sapiens com zelo enciclopedista que só encontramos uma evidência: sendo a política a ciência da obtenção e manutenção do poder social, o conceito que traz atachado é substantivamente masculino. A questão, porém, é de ordem antropológica: o animal humano escolheu diferentes formas de assegurar a sobrevivência através dos seus modelos de organização social e política, que não são decorrentes da abstracção dos filósofos nem da crueldade dos revolucionários. Se exceptuarmos 3 ou 4 obscuros casos conhecidos e devidamente estudados, mesmo nas sociedades matriciais o exercício do poder - e da guerra - decorre da ambição, da pulsão predadora, da sede de conquista do sapiens macho.
c) No seu texto, o Shark fala das disparidades e injustiças que ocorrem não tanto nos centros urbanos do país, mas sobretudo no interior. Este argumento, porém, parece ignorar que a esmagadora maioria dos quadros partidários nacionais provêm precisamente do litoral urbano (reflectindo naturalmente as estruturas sócio-demográficas) e que - de qualquer forma - muito pouco poderá a nova lei contra realidades biológicas, culturais, étnicas e históricas desta antiga raça humana e deste velho país Portugal. O ilustre blogger, justamente preocupado com o desperdício de mais uma geração de mulheres capazes, evita interrogar-se sobre a vontade das mulheres capazes desta geração, que até podem não ter desejo algum em demonstrar a sua valia nos palcos institucionais do governo da nação. Isto, independentemente de serem as raparigas o género estatisticamente dominador no país universitário (outro facto que o Shark prefere descartar). Hoje em dia, sejam homens, sejam mulheres, há pouca gente com juízo e inteligência que se queira dedicar à profissão. Basta olhar para o deprimente cenário humano das elites partidárias que temos. E além disto: uma mulher capaz não pode simplesmente preferir dedicar-se mais aos seus filhos e menos à servidão da causa pública?
d) O meu caro amigo disserta também sobre o handicap que a maternidade implica para a performance profissional das mulheres. Ora este facto, por felicidade rara, não pode mesmo ser alterado por decreto-lei. Até ver, são as mulheres que têm filhos. São também elas que os amamentam. E, quem sabe por essa mesma razão, são substancialmente elas que os amam, que os educam, que os guiam, que os protegem, que os entendem e que os aturam.
É verdade que a mulher se deixou governar pelo homem em 99% dos casos da história regimental das sociedades. Mas que hipóteses de sobrevivência teria um regime que lhe retirasse o direito de cuidar dos seus filhos? Eva sabe bem das suas prioridades e eu cá, que até não sou dotado de progenitura, acho que a maternidade, por deus, não é um handicap. A maternidade é, ao contrário, a mais sagrada missão que um ser humano pode realizar à superfície deste calhau. E bem vistas as coisas, são os homens que se podem queixar do respectivo criador, dada a suprema discriminação: o bicho Adão foi nitidamente condenado a tarefas menores.
e) Só para terminar, que já estou a esticar o post para além dos limites do suportável: o quadro mental e filosófico desta lei, insere-se num novo tipo de fascismo manipulador, quase eugénico, sobre as sociedades ocidentais, que é característico de uma certa esquerda europeia e que muito me desagrada. Como liberalzito perneta que sou, acho que não cabem ao legislador/aprendiz de feiticeiro a prossecução de certo tipo de engenharias, cuja complexidade e amplitude ontológica ele não dominará nunca.
Exercício 1 - Para além de ser um infeliz, o Sr. Manuel Serrão é um crápula da pior espécie e alguém devia criar uma lei que proibisse aos crápulas de qualquer espécie o articulismo obsceno na imprensa portuguesa. Nem que seja por uma questão de higiene pública.
Exercício 2 - As mulheres não são uma etnia. Por todos os deuses do número, as mulheres não são uma minoria. E todos os homens de sã masculinidade sabem que as mulheres não precisam de ajuda. As mulheres valem-se. As mulheres não carecem de préstimos insuflados e justificações de coxa estatísitca para seguirem a carreira da política. As mulheres não são maioritárias na política como não são minoritárias nas maternidades. As mulheres têm competências! Esticando a mentalidade de má sacristia do sr. Sócrates, estamos aqui estamos a obrigar a República ao seguinte logaritmo/decreto lei:
- 8% dos militantes partidários - e dos quadros políticos do estado - têm que ser pretos (são uma etnia);
- 3% dos militantes partidários - e dos quadros políticos do estado - têm que ser monhés (são outra etnia);
- 2% dos militantes partidários - e dos quadros políticos do estado - têm que ser chineses (são mais uma etnia e servem comidinha porreira a preços do caraças e foram nascidos no país mais poderoso do mundo contemporâneo);
- 20% dos militantes partidários - e dos quadros políticos do estado - têm que ser paneleiros (são uma espécie selvagem);
- 63% dos militantes partidários - e dos quadros políticos do estado - têm que ser imbecis (apesar de constituirem uma maioria absoluta, são objecto de perseguição);
- 1% dos militantes partidários - e dos quadros políticos do estado - têm que ser originários genéticos de um prime-time da TVI;
- 3% dos militantes partidários - e dos quadros políticos do estado - deverão ser gente capaz de gerir a causa pública.
Toda a discriminação é negativa. Especialmente a positiva, porque é irritantemente estúpida. E, geralmente, desnecessária.
Exercício 3 - The number 0.000013 ± .000002 contains two significant figures. The zeros to the left of the number are never significant. Scientific notation makes life easier for the reader and reporting the number as 1.3 x 10-5 ± 0.2 x 10-5 is preferred in some circles.
Exercício 5 - Só há duas razões para que os portugueses emigrantes no Canadá recorram despudoradamente ao estatuto de refugiados: ou são de tal forma ignaros e miseráveis que merecem a absolvição dos deuses (que nunca a da lei dos homens) ou são culpados de infâmia pura e dura, caso em que, para ruína do meu país-destino, deverão rapidamente ser devolvidos à procedência. Já nem me lembrava de como era horrível estar de acordo com o Freitas do amaral.
Exercício 6 - You purchase a standard solution that is certified to contain 10,000 ± 3 ppm boron prepared by weight using a 5-place analytical balance. This number contains 5 significant figures. However, the atomic weight of boron is 10.811 ± 5. It is, therefore, difficult to believe the data reported in consideration of this fact alone.
Exercício 8 - "SER GOVERNADO é ser guardado à vista, inspecionado, espionado, dirigido, legislado, regulamentado, parqueado, endoutrinado, predicado, controlado, calculado, apreciado, censurado, comandado, por seres que não têm nem o título, nem a ciência, nem a virtude. Ser governado é ser, a cada operação, a cada transação, a cada movimento, notado, registrado, recenseado, tarifado, selado, medido, cotado, avaliado, patenteado, licenciado, autorizado, rotulado, admoestado, impedido, reformado, reenviado, corrigido. É, sob o pretexto da utilidade pública e em nome do interesse geral, ser submetido à contribuição, utilizado, resgatado, explorado, monopolizado, extorquido, pressionado, mistificado, roubado; e depois, à menor resistência, à primeira palavra de queixa, reprimido, multado, vilipendiado, vexado, acossado, maltratado, espancado, desarmado, garroteado, aprisionado, fuzilado, metralhado, julgado, condenado, deportado, sacrificado, vendido, traído e, no máximo grau, jogado, ridicularizado, ultrajado, desonrado. Eis o governo, eis a justiça, eis a sua moral!" - PROUDHON
Exercício 9 - A number reported as 10,300 is considered to have five significant figures. Reporting it as 1.03 x 104 implies only three significant figures, meaning an uncertainty of ± 100. Reporting an uncertainty of 0.05 x 104 does not leave the impression that the uncertainty is ± 0.01 x 104, i.e., ± 100.
Exercício 10 - O hilarioso, o gargalhador, o comicista, o piadético, o fantasticolente, o risofalante, o genialmutante Gato Fedorento, no Canal Público.
"I didn't want to harm the man. I thought he was a very nice gentleman. I thought so right up to the moment I cut his throat." Perry Smith
Não deixa de ser uma coincidência do diabo, mas ao iniciar um novo género de romance - a que chamou non-fiction novel - Truman Capote deparou logo com dois dos mais intrincados problemas da epistemologia da literatura. O problema número um foi ter-se apaixonado pelo personagem central da sua história, coisa indigna de um romancista direito e fraqueza que lhe tolheu a criatividade para nunca mais (In Cold Blood foi a última coisa que conseguiu terminar). O problema número dois foi Perry Smith não estar disposto a morrer exactamente quando Capote precisava que ele morresse. De tal forma que a obra-prima estava pronta, sem que, lamentavelmente, se lhe pudesse dar um fim. É claro que uma dor de cabeça derivou da outra, já que foi a imprudente paixão do autor que possibilitou ao condenado os recursos para ir protelando a inevitabilidade da forca. Mas a moral da rábula é mais paradoxal que prosaica: no limite da transcendência novelesca encontramos um conflito de interesses entre o amor e a morte. Que é como quem diz: entre a literatura e a vida.
Não é um documentário nem percebo a lógica desta classificação. A Marcha dos Pinguins é só um dos mais prodigiosos filmes da história do cinema e a demonstração inequívoca de que a inteligência, o amor, a elegância, a determinação, a dedicação, o altruísmo e a sensibilidade não são algoritmos exclusivos da equação humana. A vida épica do Pinguim Imperador deixou-me envergonhado de ser este estúpido, este mesquinho, este abstruso bicho sapiens. Na mais bonita cena de amor explícito que já vi, uma sequência que implode de sensualidade e ternura, saltaram-me lágrimas e, por um momento quântico, senti profundamente a razão divina da mãe natureza. A grandiosidade cenográfica da Antártida, a graciosidade transcendental da caminhada, a comoção pura da narrativa: Bravo, mil vezes bravo, Luc Jacquet!
O PINGUIM IMPERADOR NA WIKIPEDIA
"O pinguim imperador (Aptenodytes forsteri) é a maior ave da família Spheniscidae dos pinguins; os adultos podem medir até 1,1 metros de altura e pesar até 30 kg. Os machos desta espécie são dos poucos animais que passam o Inverno na Antártida.
O pinguim imperador caracteriza-se pela plumagem multicolorida: cinzento azulado nas costas, branco no abdómen, preto na cabeça e barbatanas. Esta espécie apresenta uma faixa alaranjada em torno dos ouvidos. A sua alimentação baseia-se em pequenos peixes, krill e lulas, que pescam em profundidades até aos 250 metros. O pinguim imperador pode estar cerca de vinte minutos sem respirar. Os predadores naturais do pinguim imperador inclui a orca, foca leopardo e tubarões.
O padrão reprodutivo desta espécie é bastante característico. As fémeas põem um único ovo em Maio-Junho, no fim do Outono, que abandonam imediatamente para passar o Inverno no mar. O ovo é incubado pelo macho durante os cerca de 65 dias seguintes que correspondem ao Inverno antártico. Para superar temperaturas de -40 °C e ventos de 200 km/h, os machos amontoam-se juntos e passam a maior parte do tempo a dormir para poupar energia. Eles nunca abandonam o ovo, que morreria de frio se o fizessem, e sobrevivem à base da camada de gordura acumulada durante o Verão. A fémea substitui o macho apenas quando regressa no princípio da Primavera. Se a cria choca antes do regresso da mãe, o macho do pinguim imperador alimenta o filho com secrecções de uma glândula especial existente no seu esófago."
O éternet nacional não sofre de faltas na qualidade. Então à direita do espectro ideológico, caramba, há para aí blogues danados de competentes que nunca mais acabam. Por paradoxo infeliz, esta massa crítica de valor intelectual que surge na blogosfera não tem ressonância no Portugal concreto, absolutamente carenciado de uma mecânica partidária que actue para além do Centrão entediante. Discute-se com erudição nestes blogues se o liberalismo é uma direita, quando o País não tem nem uma coisa nem outra. Afina-se a filosofia e a escolástica de ideais que o País não pensa. Dão-se catedráticas lições de história, de economia, de ciência política e o País permanece ignorante. Servem-se verdadeiros banquetes de cultura e o País passa fome disso. Pois eu cá acho o seguinte: quem tem valor assim, tem responsabilidades acrescidas. Até porque o sistema regimental que temos, não é vulnerável por fora. Mas está a cair de podre por dentro.