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domingo, abril 19, 2020

André Dias: um testemunho central sobre o Covid-19.


"A pressão normalizadora que existe (sobre o Covid-19) é absolutamente dantesca".
André Dias . 11/04/20

Por esta altura já muita gente conhece a entrevista que André Dias, o jovem doutorado em Modelação de Doenças Pulmonares pela Universidade de Tromso, na Noruega, concedeu à QI News, sobre o Covid-19 e as medidas de quarentena que estão a ser implementadas por todo o mundo, pelo que não estou a dar novidade nenhuma.
É importante frisar que André Dias não é um epidemiologista, embora a sua área de doutoramento lhe tenha proporcionado vários anos de conhecimento teórico e prático nesta disciplina. Pelo que consegui perceber, a sua área de especialização relaciona-se com ciências computacionais ligadas à investigação médica. Não tenho capacidade intelectual nem técnica para dar conta do rigor científico de tudo o que ele diz, obviamente, mas há nesta entrevista de uma hora muito conteúdo que deve ser discutido.

Aliás, uma das questões que é mais preocupante neste intenso testemunho é a constatação que há muito pouca latitude para que os cientistas que discordam da opinião dominante possam expor os seus pontos de vista, mesmo que errados (a ciência progride com o erro). André Dias está visivelmente nervoso e parece até emocionalmente afectado durante toda a duração do vídeo, porque desde que publicou um artigo discordante da narrativa oficial, no jornal ECO, foi aviltado pessoalmente, insultado profissionalmente e ameaçado de todas as maneiras. No processo de fazer pública a sua opinião técnica perdeu amigos e a solidariedade dos colegas. 

Ora, isto não faz qualquer sentido até porque, como se observa mais à frente na entrevista e é hoje já bem nítido para quem estiver a prestar atenção e souber pensar pela própria cabeça, o André está longe de ser, no panorama nacional ou internacional, o único a questionar todo o processo que levou ao lockdown global. 

O facto do Covid-19 ceifar a vida de milhares e de milhares de pessoas, não obriga a sociedade a um silêncio uníssono. Pelo contrário: é precisamente pela sua gravidade que deve ser discutido, porque não há razão política, sem contraditório. Nem conhecimento objectivo, sem dialéctica. Pelo menos dentro dos cânones do direito público e da metodologia científica do Ocidente, de que somos herdeiros e que devemos honrar. 
E muitos dos factos, bem como as fontes que o cientista português enuncia merecem pelo menos que a sua voz seja ouvida e que meditemos sobre este assunto. É que há uma forte possibilidade de não termos lidado com este vírus da melhor maneira. E mesmo que essa possibilidade possa ser posta de parte, vale a pena discutir as razões do erro. Para referência futura.

Recomendo, claro, a quem ainda não viu a entrevista, que a veja. Mas não posso deixar de destacar alguns pontos essenciais nela expressos, a saber:

0'12'' - Logo a abrir, o argumento para mim mais convincente de que o Covid-19 não tem a implicação na mortalidade que foi inicialmente projectada, nem pouco mais ou menos. No gráfico em baixo, vemos as curvas de mortalidade em vários países da Europa desde a primeira semana de 2016 à décima de 2020. Notamos logo que a mortalidade deste ano não está a sair da média de outros anos. A gripe está a matar menos do que em anos anteriores, mas o índice é normalizado pelo pico de óbitos resultantes do C-19. O saldo, porém, parece ser neutro.

Fonte: Euromomo.eu


Em Portugal, os dados de mortalidade em tempo real também estão disponíveis no site do ministério da Saúde. E também aqui, percebemos que a curva deste ano (a negro) está completamente dentro da média, desde 2009.

O André fala de um terrível dia, 2 de Janeiro de 2017, em que um especialmente mortífero vírus da gripe matou 217 pessoas. Cerca de metade das que morreram de C-19 até agora, só em 24 horas. Não encontrei maneira de confirmar isto, mas o Público noticiou em Outubro desse ano 4500 óbitos decorrentes do virús da influenza, em Portugal. 
Acresce que a média etária das pessoas que foram vitimadas pelo C-19 é, se bem que ligeiramente, superior à esperança média de vida no nosso país.


Os números são estes e parecem-me pelo menos eloquentes. Cada um que tire a sua conclusão sobre se, assim sendo, a mortalidade por C-19 justifica as medidas de isolamento implementadas em todo o mundo. Que têm - elas próprias - um preço muito alto, desde a suspensão dos direitos e das liberdades constitucionais aos terríveis efeitos psicológicos do isolamento nos mais velhos e às consequências da recessão que seguramente se seguirá aos estados de quarentena.

8'36'' - A julgar pelo que aconteceu na China, as medidas de isolamento não desviaram a curva de infectados do seu desenho teórico, de distribuição normal de infecção em roda livre. Este ponto é polémico. O Professor Jorge Buescu, por exemplo, discorda desta conclusão.

15'50''
- As taxas de mortalidade que têm sido propagadas pela comunicação social e pelas autoridades sanitárias e políticas são completamente falaciosas e descem muito substancialmente a cada revisão.

18
'42'' - O mecanismo pelo qual os líderes políticos optaram pelo lockdown tem muito menos a ver com a informação científica que receberam do que com a pressão social arrasadora causada pelo medo. Foi o medo - e não a razão, segundo André Dias, que levou a mudança de políticas que tinham por base sólidos dados científicos, como foi o caso do Reino Unido. (Também a partir de 22'40'')

20'45'' - O entrevistado demonstra retoricamente como os modelos matemáticos se têm mostrado falaciosos na prevenção da mortalidade do vírus.

26'50'' - André Dias apresenta algumas variáveis que podem ter contribuído para os altos níveis de incidência do C-19 em Itália (qualidade do ar no Vale do Pó, por exemplo).

44'17'' - Não subscrevendo de todo o comentário deselegante sobre Jorge Buescu, há nesta fase do discurso muita verdade: a opinião divergente tem sido de facto suprimida da comunicação social, como é caso flagrante - e deprimente - o do reputado epidemiologista e Professor Jorge Turgal que nunca concordou com o fecho das escolas mas foi silenciado logo após essas primeiras declarações.

44'52'' - A OMS usa as redes sociais para rastrear a epidemia globalmente, apesar de ter sido várias vezes informada sobre os problemas de credibilidade deste tipo de inputs, que são corrompidos por bots e pelo ruído próprio dessas redes.

49'00'' - Fechar as escolas pode ter sido um erro, impedindo que as crianças saudáveis, que não correm qualquer risco, criassem imunidade ao vírus e ajudassem a dissipar a sua presença nas sociedades. A própria OMS concorda com este argumento. 

52'36" - Corremos o risco de que as medidas de isolamento matem mais pessoas, por suicídio, do que o C-19. Esta afirmação foi feita na televisão pública alemã por Gérard Krauser, epidemiologista da Helmholtz, uma reputada e gigantesca associação dedicada à investigação científica. 

53'25"
- O volume de testes anti-corpos que já estão disponíveis parecem apontar para o surpreendente facto de que a infecção estava já instalada nas populações muitos meses antes que as autoridades tomassem consciência da epidemia e das políticas de isolamento serem implementadas. Se tal fenómeno se confirmar, podemos retirar duas conclusões: que a eficácia das políticas de combate ao C-19 vai ser muito difícil de mensurar e que os índices de internamento e mortalidade do vírus poderão ser, afinal, residuais.

terça-feira, março 19, 2019

Jornal de Letras - 2016/2018 - #03

Maquiavel e a Dama . Somerset Maugham . Livros do Brasil
Uma obra meio biográfica, meio ficcional, que relata uma paixoneta que Maquiavel entretém em Imola, enquanto procura desesperadamente convencer César Bórgia a não incluir Florença nos seus planos de conquista. Sendo escrito por quem é, um dos grandes mestres da novela, não admira que o leitor esteja perante um bocado magistral de literatura. Acresce que a tradução desta edição dos anos cinquenta é assinada por Erico Veríssimo, o que transforma este livrinho numa rara e preciosa jóia. Cinco estrelas.


Fanny Owen . Augustina Bessa-Luís . Guimarães Editores
Nunca tinha lido nada da Augustina e pensava que isso era uma lacuna grave. Depois de ler este enfadonho romance, percebi que fiz muitíssimo bem em ingorá-la durante tantos anos. Até Camilo Castelo Branco, um dos protagonista da rábula e que seria a todos os títulos um personagem literário de grande potencial, se torna um chato irrecuperável. Sendo que a obra, se assim lhe podemos chamar, tem como génese uma encomenda do Manuel de Oliveira para o seu filme "Francisca", não é de estranhar que se trate de uma estopada das antigas, mas ainda assim acho que não vou repetir o erro de voltar a pegar num livro escrito por esta senhora.


Mistérios de Lisboa . Camilo Castelo Branco . 3 vols . Parceria A. M. Ferreira Lda.
A propósito do Camilo, desde que descobri que tinha na cave as obras completas desta figura monumental (a propriedade da colecção é do meu sogro), tenho procurado ler alguma coisa para além d'O Judeu e da Queda de um Anjo, que já tinha lido há muitos anos, embora, claro está, tenha perfeita consciência que morrerei sem consumir nem um terço da coisa, porque o homem escreveu muito para lá daquilo que é admissível dar conta. Comecei por esta trilogia, que é deliciosa: um vasto conjunto de pequenas novelas sobre os intestinos emocionais, psicológicos e sociais da Lisboa do Século XIX, naquele registo ultra-romântico e meio decadente que caracteriza o imortal autor. Adorei, para dizer a verdade.


A Lógica do Dinheiro . Niall Ferguson . Temas e Debates
Este é um autor que sigo com zelo de discípulo porque se trata claramente de um dos mais brilhantes intelectuais ingleses da sua geração. Fiz a recensão crítica do seu "Colosso" aqui há uns três anos atrás, para o Deus Me Livro, e esta obra também merecia semelhante dedicação, para a qual não tenho vagar neste momento. Fica em vez disso - e se calhar melhor do que isso - um documentário poderoso que Ferguson realizou em 2016 sobre o tema do dinheiro. E uma nota só: alguma vez te passou pela cabeça, gentil leitor, que o dinheiro é o único elo de confiança verdadeiramente unânime que é possível estabelecer entre todos os povos da Terra? Sobre o dinheiro, e o seu valor não nominal, parecemos estar todos de acordo. É, na verdade, a única coisa sobre a qual todos concordamos no correr da história universal.




O Pátio Maldito . Ivo Andric . Cavalo de Ferro
Ivo Andric é um dos poucos Nobel que de facto mereceram o prémio nos últimos 70 anos. É claro que este Pátio Maldito não está no patamar olímpico de Uma Ponte Sobre o Drina, mas não deixa de ser uma novela intensa, saborosa e multi-dimensional sobre um monge cristão que é enfiado, por erro judicial, na pior prisão de Instambul. Excelente bocadinho de literatura.


O Arquipélago Gulag . Aleksandr Soljenítsin . Sextante Editora 
Sempre tive uma enorme admiração por Soljenítsin, depois de ter lido O Pavilhão dos Cancerosos na adolescência. Mas, tendo absorvido posteriormente muita informação sobre a vida e a obra deste grande herói russo, este enorme guerreiro da liberdade, nunca mais li nada escrito por ele. Isso aconteceu só agora com este monumental documento que constitui factualmente um dos mais importantes contributos para a queda do Império Soviético.
Soljenítsin relata, com fôlego enciclopédico e coragem épica, todo o indiscriminado e absoluto horror dos campos de trabalho do regime dos sovietes. E fá-lo graças à recolha de milhares de casos concretos, de pessoas reais apanhadas na teia da mais sinistra aranha do século XX: a do totalitarismo comunista.
Testemunho impressionante da brutalidade e do niilismo a que chegou o poder soviético, O Arquipélago Gulag devia ser leitura obrigatória para os millenials deste mundo (e outros parvos mais velhos), que encaram o socialismo como uma receita plausível para os males da civilização.

Jordan B. Peterson redigiu o prefácio para uma recente edição em Inglês desta obra imortal. Aqui fica esse prefácio, lido por ele mesmo:




Curvas Ideais, Relações Desconhecidas e Outras Histórias da Matemática . Jorge Buescu . Gradiva
O meu estimado amigo Jorge Buesco é sem qualquer dúvida o grande divulgador da Matemática e da Física no nosso país e já aqui muito escrevi a propósito dos volumes que o emérito professor da FCUL tem editado pela Gradiva. Este novo conjunto de ensaios não foge à boa regra de ensinar ciência a leigos através do recurso às histórias que estão por trás das descobertas, dos cálculos e dos teoremas. Das ondas gravitacionais (e respectivas hesitações de Einstein) aos problemas do tráfego automóvel, da geometria de Almada Negreiros ao Bitcoin, mergulhamos com o Professor num universo de charadas e enigmas, de falhanços e de glórias, de ideias terra-transformadoras e episódios recambulescos para ficarmos um bocadinho mais sábios.
Se gostas de ler sobre ciência, gentil leitor, compra e lê todos os livros do Professor Buescu.


Cem Provérbios Chineses . Recolha e comentários de Fan Wixin . Instituto cultural de Macau
Os proverbios chineses não são bem um equivalente dos provérbios como os entendemos em Portugal. Os nossos provérbios têm origem na sabedoria popular. Os provérbios chieneses tâm origem na erudição histórica. O que os torna bem mais interessantes.
Por exemplo, para dizer que não se deve julgar ninguém de forma definitiva, sem ter em conta a sua capacidade de evoluir no tempo, um chinês recorre ao seguinte provérbio: "ao fim de três dias sem ser visto, um homem deve ser olhado com outros olhos". A máxima tem origem numa história que decorre entre os anos 20 e 80 da nossa era, no chamado Período dos Três Reinos. Um general analfabeto, Lu Mong, valente mas intelectualmente desconsiderado, é destacado pelo seu rei para um palco operacional de grande complexidade. Três anos depois é visitado por Lu Su, o Ministro da Guerra, que verifica, espantado, que Lu Mong tinha resolvido os problemas militares com mestria táctica, inovando sobre a doutrina da guerra. Perante o pasmo do ministro, Lu Mong contrapõe a frase proverbial, que fica para a posteridade.
Este livro é uma verdadeira montanha de sabedoria e erudição oriental, cuja leitura me deu um prazer enorme.

sábado, janeiro 03, 2015

Jornal de Letras | Agosto/Dezembro 2014

O Império Marítimo Português 1415-1825 - C. R. Boxer - Edições 70 
Talvez a mais emblemática obra sobre a gesta marítima portuguesa, este tratado não dá porém solução ao mistério que se propõe resolver. Na introdução, Boxer manifesta a sua perplexidade: como é que um país pobre, marginal e insignificante como Portugal consegue o milagre de dominar o mundo, fundando o primeiro império colonial de sempre; frágil, caótico, demograficamente impossível, mas de tal forma bem sucedido que acaba, pasme-se, por durar sobre todos os que lhe seguiram, sendo paradoxalmente o último império colonial a cair? A verdade é que o autor acaba por não encontrar resposta para as suas perplexidades. Apanhado pelos ventos da história (o livro foi usado por detractores do império colonial português, tanto como pela propaganda do Estado Novo), C. R. Boxer cai num erro de colegial que compromete, no meu entender, a virtude da sua erudição: recusa-se a perceber que ao historiador não compete ser juíz. O contexto social, ético e cultural dos descobrimentos portugueses não pode ser avaliado à luz da moral do século XX. E assim, erradamente, os portugueses são-nos apresentados como um povo ferozmente anti-semita e alegremente esclavagista, constituído em grande parte por fanáticos religiosos. Na verdade, os portugueses não eram seguramente católicos mais fanáticos que os espanhóis, não eram mais anti-semitas que a maior parte dos povos europeus da sua altura, nem viam o comércio de carne humana com melhores ou piores olhos que os seus adversários directos na corrida pela liderança do comércio no Atlântico setecentista. Acresce que a mentalidade WASP do autor está sempre presente: quando os ingleses e os holandeses roubam, trata-se de corso. Quando são os portugueses a pilhar, trata-se de decadência, corrupção e de um inevitável decaimento latino para a desonestidade.
Toda a obra, mas principalmente a sua segunda parte, é de tal forma deprimente e eloquente sobre a desorganização e disfunção do império que o autor não consegue perceber como é os descobrimentos foram sequer possíveis. Os reis são sem glória nem visão (até D. João II é um incompetente e o único que escapa é Filipe II, que é de qualquer forma grandemente ignorado durante toda a obra) e basicamente nunca houve soldados, marinheiros, geógrafos, barcos e capitalistas cujo número e qualidade chegasse para uma aventura destas. No caso da qualidade dos soldados portugueses, Boxer parece ignorar que a tradição militar lusitana teria, à altura dos descobrimentos, uma herança de combatividade e competência muito assinalável, com vitórias épicas nas guerras fronteiriças e de reconquista. Na verdade, não há qualquer indício que a performance bélica fosse uma fraqueza do império. Dada a escala geográfica da gesta marítima, os parcos recursos demográficos da metrópole e o valor e a diversidade dos inimigos que enfrentámos, tudo indica, ao contrário, que as forças militares portuguesas se distinguiam pela sua eficiência, superioridade tecnológica e acutilância em combate.
As contradições entre os factos históricos e as conclusões do historiador são uma constante, à grande e à pequena escala. Por exemplo: nas páginas de Boxer constatamos supreendentemente que a Companhia do Brasil foi um fracassso, cujo sucesso colocou enormes problemas de sobrevivência aos portos portugueses, que sofriam como o monopólio (!). Outro exemplo: quando os padres jesuítas dão, na China, sólidos indícios de tolerância racial, fazem-no exclusivamente por pragmatismo. Mas quando em Goa recusam a equalização étnica das carreiras eclesiásticas imposta por Pombal já não são apenas ambiciosos. São racistas da pior espécie, mesmo.
É também recorrente a afirmação de que os portugueses eram um povo ignorante, conservador,  alérgico à mudança, ficando o leitor sem perceber, mais uma vez, como é que este povo assim atrasado consegui inaugurar uma época de inovação técnica e de aventura cosmopolita sem grandes precedentes na história da humanidade.
Perdido dentro dos seus próprios mal entendidos, C. R. Boxer, acaba o seu manual de história-para-inglês-ver explicando ao leitor que o Império Marítimo Português só foi possível dada a fé irracional em dois mitos inter-relacionados e alimentados por uma inexpugável fé católica: o do retorno sebastiânico e o do Quinto-Império.
Sinceramente, que tese tão fraquinha.


A Cidade Impura - Andrew Miller - Editorial Presença
Autor de "A Dor Industriosa" - um dos mais poderosos romances históriocos que li neste século (apesar do livro ser de 1997) - Andrew Miller voltou ao meu convívio com "A Cidade Impura", a história de um jovem engenheiro setecentista a quem a coroa atribui a desagradável tarefa de trasladar todos os cadáveres de um cemitério decrépito de Paris, quando a cidade está à beira da Revolução e transpira decadência por todos os lados. O resultado cede à tentação do imaginário gótico que a sinopse sugere e consegue ser elegante e sóbrio e de leitura extremamente saborosa. Mais uma pérola.


Cenas da Vida Diplomática - Lawrence Durrel - Ulisseia
Não é comum que a leitura me faça rir à gargalhada. É mesmo muito raro. Mas Lawrence Durell e as suas aventuras (contadas pelo impagável Antrobus) como diplomata na embaixada britânica em Belgrado são um fartote completo. Uma figura de vulto das letras do Século XX, poeta, ensaísta, dramaturgo e novelista, Lawrence Durrel tem uma obra que não é para brincadeiras e é por isso que ainda mais notável se mostra este livro de contos, onde o célebre humor inglês se manifesta numa espécie de crítica de costumes cínica e hilariante. Ninguém imagina o que me divertiu a leitura deste livro.


O Franco Atirador Paciente - Arturo Pérez-Reverte - ASA
Uma novela menor de Arturo Pérez-Reverte, na minha humilde opinião. E eu gosto muito dele. Mas esta viagem ao mundo secreto das tribos do graffiti não aquece nem arrefece, sinceramente, nem está especialmente bem prosada, o que não é de todo um costume deste excelente autor espanhol.


História Virtual - Coordenação de Niall Ferguson - Tinta da China
Como apaixonado da História Contrafactual, logo que vi este livro na banca da Tinta da China, na Feira do Livro deste ano, abriu-se-me um apetite imenso. Que não foi de todo defraudado por esta suculenta refeição de ensaios que exploram a probabilidade de certos episódios históricos com grande peso epistemológico não terem sucedido de todo, ou terem sucedido de forma diversa. A história é muitas vezes contingencial e muito menos determinista do que somos levados a pensar e nem tudo o que foi terá necessariamente que ter sido exactamente assim...
No final, o coordenador escreve um dos mais originais posfácios que já li na minha vida (sem nenhum exagero), ao redigir um tratado de história contrafactual em nome de um historiador que vive num mundo onde os Estados Unidos nunca foram independentes da coroa inglesa, a Europa ocidental permanece ocupada pelos nazis (com excepção das ilhas britânicas) e o bloco soviético ainda existe.
Livrinho e-s-p-e-c-t-a-c-u-l-a-r.


A Irmã - Sándor Márai - D. Quixote
Não sei bem explicar porquê, mas desta vez, e contra o que é costume nele, Sándor Márai não me levou ao céu da literatura. Trata-se, claro, de um romance competente e intenso, característico deste ilustre romancista húngaro, mas a triste história do pianista Z., espécie de Montanha Mágica em formato de bolso, deixou-me um bocadinho indiferente.


Uma Viagem à India - Gonçalo M. Tavares - Caminho
Não é sem embaraço que confesso que este foi o primeiro e até agora único livro que li deste autor. Apesar disso, não me importo nada de afirmar já aqui que Gonçalo M. Tavares é um génio das letras do meu país. Poema épico em dez cantos, de estrutura clássica e verso livre, a odisseia de Bloom é um prodígio lírico de vanguarda, de tal forma que nem me atrevo a mais que isto:  "Uma Viagem à Índia" é uma obra prima, ponto final, parágrafo.


Paris Após a Libertação 1944 -1949 - Antony Beevor e Artemis Cooper - Bertrand Editora
Este é daqueles livros de história do Século XX que nos ajudam a perceber a Europa do Século XXI e um bocadinho do futuro que nos aguarda no Ocidente.
Retrato nú e crú da França na altura da libertação, poderosa e veeemente aguarela de uma cidade em tempo de glórias e misérias, o trabalho de Antony Beevor (de quem já tinha lido esta competentíssima história da Gerra Civil Espanhola) e Artemis Cooper vai muito fundo na análise psicológica dos protagonistas em particular e dos franceses no geral. A forma como se determinou quem era um bom francês e quem era um mau francês nestes anos do Governo Provisório e da Quarta República dependeu sempre muito da forças que exerciam o poder e durante a grata leitura da obra, ficamos a saber detalhes bem sugestivos da praxis libertadora, como por exemplo: os julgamentos a que se sujeitaram os colaborocionistas tinham como jurados elementos da resistência e familiares das vítimas da ocupação nazi. Os procedimentos do tribunal eram constantemente interrompidos por membros do júri que gritavam ameaças e insultos aos acusados. Mas ficamos também a saber factos de relevância geo-estratégica deste género: contra a vontade do Partido Comunista Francês, Estaline escusou-se à sovietização da França.  
Sobre os personagens principais, destaca-se, claro, o carácter arrogante e paradoxal de Charles de Gaulle, "o homem que sem dúvida amava a França, mas não os franceses!" e que no célebre discurso da libertação, proferido na noite de 25 de Agosto de 1944 no l'Hôtel de Ville, não foi capaz de uma palavra de agradecimento aos aliados.
Adorei este livro.


África - A Vitória Traída - J da Cruz Cunha, Kaúlza de Arriaga, Bethencourt Rodrigues, Silvino Silvério Marques - Editorial Intervenção
Documento assinado pelos governadores militares das colónias ao tempo da Revolução de Abril, este conjunto de ensaios, onde a prosa é, geralmente, pobre mas os conteúdos estatísticos são de uma riqueza extraordinária, procura demonstrar que as guerras coloniais não estavam perdidas de todo.
Por um lado, a guerra não era cara para o Estado Português: os custos militares dos diversos conflitos só acrescentavam 6 a 8 milhões de contos por ano àquilo que o orçamento geral do estado previa em tempo de paz. No treze anos em que decorreram, as guerras coloniais custaram apenas 90 milhões de contos, valor pouco significativo para um PIB anual que em 1970 era de 160 milhões de contos e que em 73 era já quase o dobro.
Nas colónias, as economias prosperavam (correspondendo ao período de crescimento recordista do PIB na metrópole: 1967-73) e a administração pública (governos civis, tribunais, escolas e hospitais) funcionava normalmente sobre os extensos territórios ultramarinos, com excepção de algumas áreas fronteiriças localizadas, onde os movimentos rebeldes tinham uma maior penetração territorial, dada a protecção e o apoio logístico que encontravam em certos países vizinhos.
Em 13 anos de guerra a permilagem de mortos anual nunca ultrapassou os 2,6, valor baixo e impressionante, principalmente se comparado com outros números de guerras coloniais em África. Um exemplo: portugal perdeu 8.131 militares nas suas várias guerras coloniais. A França perdeu 14.000 só na guerra de libertação da Argélia. Esta baixa permilagem também é significativa sobre a competência e o moral das tropas em África, que nos dois parâmetros era mais alta do que comummente se supõe.
Os autores concluem que a entrega das colónias às forças inimigas foi assim um acto político apenas, não condicionado por uma inevitabilidade militar que nunca exisitiu e que só o carácter revolucionário do evento de Abril de 1974 determinou.
Só mais um facto curioso: alguns dos generais consideram Nixon um amigo de Portugal e Kennedy um inimigo, o que só suporta uma tese que já desenvolvi aqui no blog (ponto 3 deste post).


A Invenção de Morel - Adolfo Bioy Casares - Antígona
A Invenção de Morel é um obra basilar da escola argentina e é com embaraço que confesso a sua primeira leitura, que muito tardou. Estranha novela de carácter fantástico e borgiano (Bioy Casares e Jorge Luís Borges foram amigos a vida toda e o livro é dedicado ao biliotecário de Buenos Aires, que é também o autor do prólogo), é uma pièce de résistance que se estrutura à volta de uma ideia de eternidade que é simultaneamente romântica e perturbadora. Romance de digestão filosófica muito complicada, para voltar a ler, daqui a dois ou três anos.


A Tarde Azul - William Boyd - Relógio de Água
A história de um amor perdidio no tempo e na geografia, entrecortada pela muitas vezes esquecida guerra Filipo-Americana (1899-1902), contada por Salvador Carriscant, um médico romântico muito bem esgalhado e narrada pela sua filha. Um bom romance do autor de "Any Human Heart".


Primos Gémeos, Triângulos Curvos e Outras Histórias da Matemática - Jorge Buescu - Gradiva
Mais um condensado de pequenos ensaios que fazem uma excelente pedagogia da matemática, escrito pelo incontornável Professor Jorge Buescu, que muito contribui para o cenário positivo da divulgação científica em língua portuguesa. Muitos dos temas escolhidos desta vez são extremamente pertinentes para os tempos que correm (o caso da distância máxima entre números primos e o estado caótico em que se encontra a publicação online de artigos científcos, só para dar dois exemplos) e o livro lê-se melhor que um romance de aventuras. É provável que os assuntos tratados nesta obra regressem aqui ao blog, como já aconteceu anteriormente com outros textos do Professor.

segunda-feira, agosto 19, 2013

Apocalipse Not.



Hoje em dia já é mais frequente encontrar nos media quem não tenha medo nenhum de desmascarar a grande fraude ambientalista, mas em 2003, 2004 e 2005, quando primeiro no Ocidental Praia e depois aqui no Blogville eu já barafustava bastante, o assunto ainda era quase uma heresia.

Este aliás é um antigo cavalo de batalha do blog. Os links para os textos que resumem o meu pensamento sobre o tema e que escrevi em 2005, estão aqui:


E São Pedro, não manda nada?


A Frande Ambientalista: introdução.

Camada de Ozono
Florestas
Energia
Poluição Atmosférica
Aquecimento Global

Vem tudo isto a propósito do maravilhoso tema de capa da Wired de Setembro de 2012, que descobri, por acaso, ontem.
A reportagem reforça os argumentos que tenho vindo a repetir ad nauseam, mas como foi redigida por um cientista que nasceu para isto, a coisa é mais abrangente, mais rigorosa e sobretudo mais divertida, de tal forma que me parece obrigatório ler o que lá está escrito. O magnífico texto de Matt Ridley é construído de forma dialéctica - antes de contestar com os factos, que desmentem invariavelmente a possibilidade das mais terríveis profecias, o autor de "The Rational Optimist" integra uma colecção de disparates super alarmistas, do género Livro do Apocalipse, que ilustram bem o carácter dogmático, radical e absolutamente não científico do evangelho ambientalista. Por exemplo:


"The battle to feed all of humanity is over. In the 1970s ["and 1980s" was added in a later edition] the world will undergo famines—hundreds of millions of people are going to starve to death in spite of any crash programs embarked on now … nothing can prevent a substantial increase in the world death rate.”
Paul Ehrlich - 1968

“Scientists have solid experimental and theoretical evidence to support … the following predictions: In a decade, urban dwellers will have to wear gas masks to survive air pollution … by 1985 air pollution will have reduced the amount of sunlight reaching earth by one half.”

Life Magazine - January 1970 
“We could use up all of the proven reserves of oil in the entire world by the end of the next decade (...) World oil production can probably keep going up for another six or eight years. But sometime in the 1980s, it can’t go up anymore. Demand will overtake production.”
Jimmy Carter - televised speech - 1977
"THE FOREST DIES.” 
Der Spiegel - November 1981 
“An increase inTwilight Zone-type reports of sheep and rabbits with cataracts"
The New York Times - Report on the threat to the ozone layer 
“We need to radically and intelligently reduce human populations to fewer than one billion … Curing a body of cancer requires radical and invasive therapy, and therefore, curing the biosphere of the human virus will also require a radical and invasive approach.”
Paul Watson - The Sea Shepherd Conservation Society

Para além desta edição da Wired, é muito significativo o conjunto de vozes que nos últimos cinco anos se têm levantado para desmascarar a ciência fantasiosa de Al Gore e de um grupo de interesses com raízes profundas no establishment político, universitário e mediático, um pouco por todo o mundo. Quatro exemplos recentes desta agradável tendência 
podem ser encontrados aqui:

The Resilient Earth (site)

The Great Global Warming Swindle (documentário britânico)
The Rerum Natura  (Prof. Jorge Buescu)
Climate Depot

Uma coisa boa que tem a idade, é que nos dá a quantidade de tempo suficiente para ver nascer e ver morrer certos mitos. E eu estou a apreciar a queda deste, muito especialmente.


domingo, abril 12, 2020

Contra a narrativa #02

O Imperial College publicou recentemente um paper que faz estimativas credíveis sobre o número real de infectados em 10 países da Europa. Neste quadro que retirei do paper, mostram-se as projecções (com intervalo de credibilidade de 95%).
Daqui podemos fazer contas para chegar a taxas de mortalidade do C-19 bastante mais fidedignas. Assim:

Alemanha
População - 82 milhões
Infectados - 0,72% - 590.400
Óbitos C-19 - 2.719
Taxa de mortalidade C-19 - 0,46%

Bélgica
População - 11 milhões
Infectados - 3,7% - 407.000
Óbitos C-19 - 3.346
Taxa de mortalidade C-19 - 0,82%

Espanha
População - 46 milhões
Infectados - 15% - 6,9 milhões
Óbitos C-19 - 16.480
Taxa de mortalidade C-19 - 0,23%

França
População - 67 milhões
Infectados - 3% - 2,01 milhões
Óbitos C-19 - 13.832
Taxa de mortalidade C-19 - 0,68%

Dinamarca
População - 5,7 milhões
Infectados - 1,1% - 62.700
Óbitos C-19 - 260
Taxa de mortalidade C-19 - 0,41%

Itália
População - 60 milhões
Infectados - 9,8% - 5,8 milhões
Óbitos C-19 - 19.468
Taxa de mortalidade C-19 - 0,33%

Noruega
População - 5,3 milhões
Infectados - 0,41% - 21.730
Óbitos C-19 - 119
Taxa de mortalidade C-19 - 0,54%

Reino Unido
População - 63 milhões
Infectados - 2,7% - 1,7 milhões
Óbitos C-19 - 9.875
Taxa de mortalidade C-19 - 0,58%

Suécia 
População - 10 milhões
Infectados - 3,1% - 310.000
Óbitos C-19 - 887
Taxa de mortalidade C-19 - 0,28%

Suíça
População - 8,5 milhões
Infectados - 3,2% - 272.000
Óbitos C-19 - 1.036
Taxa de mortalidade C-19 - 0,38%

O estudo não inclui Portugal. Mas o Professor Jorge Buescu, que está a fazer um trabalho de tratamento estatístico da epidemia em Portugal verdadeiramente exemplar, calculou que estão infectados cerca de 1 em cada 30 portugueses. Assim sendo:

Portugal
População - 10 milhões
Infectados - 3,3% - 330,000
Óbitos C-19 - 504
Taxa de mortalidade C-19 - 0,15%

A taxa de mortalidade nestes 11 países europeus oscilará portanto entre um máximo de 0,82% na Bélgica e um mínimo de 0,15% em Portugal. A média dos 11 países é de 0,44%.

Mas se consultarmos os dados que circulam na comunicação social ou os que são apresentados pela Organização Mundial de Saúde, os números disparam loucamente
. Fala-se em taxas de mortalidade de 9% em Itália, por exemplo. Porquê? Porque a taxa está a ser calculada apenas sobre o número de pessoas testadas, como é óbvio. E também porque a estratégia do susto é conveniente a alguns sectores do panorama político e geo-estratégico global, claro. O que é dramático é que são os números mais assustadores - e rotundamente falsos - que determinam as políticas de lockdown. E com elas, a falência técnica, a curto prazo, do Ocidente.

sexta-feira, maio 22, 2020

Tagarela de serviço.

Por princípio de responsabilidade sobre o que digo e escrevo (e digo e escrevo bastante, como sabem), acho que devo deixar aqui registo de um comentário que fiz na página do grupo criado no Facebook pelo Professor Jorge Buescu, dedicado à análise dos números do Covid-19 em Portugal, que é séria e rigorosa e que é produto honorável da generosidade de um mestre da matemática e da divulgação científica, mas onde todos parecem ter a mesma opinião e eu sou alérgico às situações em que as pessoas têm todas a mesma opinião. O comentário reza assim:

Não pretendo de todo armar espúria polémica nesta exemplar e civilizadíssima página de Facebook, mas é claro que é natural (e saudável) que as pessoas procurem neste momento um regresso à sua vida normal. E é também líquido que o número de infectados vai aumentar. E, se calhar, que a curva da mortalidade volte um pouco a registos anteriores. Mas o que fazer? Vamos continuar confinados até que não exista um mundo para o qual regressar? Vamos abdicar, por causa do medo e em nome da vida vazia de tudo menos de medo, ao direito à plenitude da existência? A vida é um risco. E o elogio da vida pela vida não faz sentido nenhum. Quem é que quer viver sem um abraço de um amigo? Ou sem poder beijar um neto? Ou sem poder confortar um filho? Ou acompanhar os pais, na sua velhice, que é sempre solitária? Ou sem o sabor de uma imperial numa esplanada junto ao mar? Ou sem a realização fundamental que o trabalho nos traz (de que é viva prova o labor do Professor, que nem todos podem neste momento exercer)? Sem a liberdade de movimentos e de iniciativa e de opinião, sem o aleatório e indomável arbítrio que é próprio da condição humana, o que é que nos resta? Um jugo inútil que é a ausência de significado.
Vá lá. Vamos ser sensatos e responsáveis e cuidadosos, sim. Mas vamos ser livres para perseguir o nosso destino, também.
Obrigado e desculpem qualquer coisa.

terça-feira, março 17, 2020

Da quarentena à recessão.

Hoje fiz uma coisa que não faço há décadas: assisti aos primeiros segundos de uma conferência de imprensa de um ministro da República Portuguesa (foi por acaso). Quando sintonizei a coisa (ao calhas) a senhora Ministra da Saúde apresentava as condolências do seu governo à família da primeira vítima mortal do Covid-19 em Portugal. A voluntariosa e ingénua demonstração de pesar, fez-me pensar. Será que a senhora ministra vai apresentar condolências a todas as famílias dos falecidos, quando no fim do mês de março já somar 160 a 460 defuntos?* E quando contabilizar milhares de mortos, o que é mais que certo, vai estar ali com aquele ar sereno de quem está a controlar a situação completamente?

Mas não é só a ministra - um ser demissionário em potência e a muito breve prazo - que vai ver a sua figura de estilo transformada pela brutalidade dos factos. Por exemplo: será o entusiástico apoio aos profissionais da saúde, que, pontual, desperta com aplausos o silêncio deste temeroso recolhimento, pelas dez da noite, exactamente o mesmo entusiasmado tributo quando os médicos começarem a decidir quem vive e quem morre em função das camas e dos ventiladores disponíveis?
 
E os burocratas de Bruxelas, serão assim tão prestimosos com subsídios se isto durar, digamos, 3 meses?
 
E os portugueses, serão assim tão obedientes no seu acolhimento das ordens superiores, no seu recolhimento tele-trabalhoso, na sua pronta prestação eremita, quando entretanto foram despedidos dos seus empregos, quando entretanto virem os seus pequenos negócios caírem na falência; quando entretanto perceberem que a estratégia para combater o Covid-19 é um disparate medonho e os efeitos da recessão económica que virá depois forem bem mais assustadores - e se calhar - bem mais fatalistas do que a imaginação dos políticos e dos directores dos jornais e dos gestores das grandes empresas consegue projectar?
 
Sei que o pior está para vir. E desconfio que o pior que está para vir não tem nada a ver com o vírus chinês. Deriva antes de uma doença antiga, também endémica mas sobretudo crónica no Sapiens: a mais espúria estupidez.


* Projecção do Professor Jorge Buescu, num artigo de fundo para o Observador.

sexta-feira, abril 20, 2007

O aquecimento global está mal.

A histeria é de tal forma virulenta e a indústria mediática do medo é tão eficaz que eu já nem sei se alguém tem interesse em saber a verdade científica. De qualquer forma, ela está aqui, para quem quiser saber como funciona a grande fraude do século XXI. A sério que vale mesmo a pena ler este post do Professor Jorge Buescu.

quinta-feira, maio 21, 2020

De liberal a subsidiado: crónica de um jornaleco manhoso.

Acho que a Secretaria de Estado do Cinema, Audiovisual e Media é uma coisa obscena e desnecessária, e até meio salazarenta, para dizer a verdade inteira; tanto como penso que o sr. Nuno Artur Silva não passa de um estupor e de um embuste que é empregado pela República porque a República é uma ignomínia de clientelas inúteis e estuporadas. Mas o que me incomoda mais nem é isso dos servicinhos entre camaradas (as coisas são como são e até Cícero se deu à corruptela). O que me incomoda de sobremaneira nesta notícia é a avidez torpe - e moralista - com que o Observador se faz pedinte dos dinheiros públicos. Que prejuízo pode ter tido este triste e glorificado blog que justifique o gratuito subsídio? Enquanto fomos aprisionados em casa, o negócio destes senhores deve ter tido mais cliques do que em toda a sua fraudulenta e infame história. Se ainda assim perderam investimento publicitário ou não captaram assinantes é porque a gestão financeira, comercial e de marketing se mostrou altamente incompetente ou porque já há uns anos bons que andam a trair o seu público original ou porque simplesmente tiveram azar. Devem portanto aguentar-se à bronca como os outros todos que foram incompetentes ou que defraudaram as expectativas dos seus clientes ou que tiveram azar. O que é que faz do Observador uma entidade assim tão especial? Nadinha. Zero. Nicles. Niente. Rien de rien ou, como dizia o Redentor da Luz: bola. Trata-se de uma empresa como as outras (e já estou a ser super, hiper, mega simpático). Mais a mais, informou o jornaleco miserável, com credibilidade e rigor jornalístico (já para não dizer científico), o seu respeitável público sobre a natureza do Covid-19 ou a realidade da ameaça que representava? Não. De todo em todo e nem pouco mais ou menos. Salvo um recente e deveras tardio artigo de opinião do seu publisher - e o facto de ter sido dada voz a Jorge Buescu (com cujo pensamento no caso concreto do C-19 eu não concordo, mas que respeito imenso como cientista e ser humano) - a adolescente redacção limitou-se ao que faz melhor: propagar sem escrúpulos éticos ou receios de inteligência a contraditória e muitíssimo frágil propaganda do Estado Português, do Estado Chinês, da União Europeia e das Nações Unidas. O serviço público do Observador nos últimos 3 meses tem sido absolutamente nulo. E nos últimos anos também.

Acresce dramaticamente o facto de que um jornal que se apresentava na sua fundação com ideais liberais (ideais esses que foram entretanto completamente anulados por uma quantidade de razões entre as quais a mais espúria aldrabice) e que agora estica os calcanhares histericamente para encaixar uns milhares de euros do nosso dinheiro é, pura e simplesmente, uma vergonha axiomática. E exemplo gritante da imprensa que temos e porque é que já ninguém confia na imprensa que temos.

Mas se é verdade que, salvo a comunicação social de âmbito desportivo, que foi mesmo apanhada em contrapé, ninguém escapa à vilania, porque é que eu estou sempre a malhar no Observador? Esta é fácil: porque teclar sobre a restante imprensa mainstream, portuguesa ou não, deixa-me enojado dos meus próprios dedos.

domingo, fevereiro 20, 2005

A fraude ambientalista - Introdução

Graças à inspirada sugestão do Viriato, estou mergulhado na leitura saborosa de “Da Falsificação de Euros aos Pequenos Mundos - Novas Crónicas das Fronteiras da Ciência”, um trabalho notável de desmistificação generalizada, da autoria do Professor Doutor Jorge Buescu, do IST.
Entre as incontáveis pérolas de esclarecimento científico que preenchem as 200 páginas deste livro, é difícil escolher um assunto de que se possa fazer post.
Mas como tudo veio a propósito da fraude ambientalista, vou deixar no blogville, de vez em quando, testemunho dos factos disponíveis à luz da ciência actual e referidos na obra do Professor.
Por caprichosa ironia, grande parte destes dados foi coligida por um antigo militante do Greenpeace - Bjorn Lomborg - que ao tentar demonstrar estatísticamente e de uma vez por todas que os ambientalistas estavam certos nos seus alarmes, ameaças e histerias - e fazendo recurso enciclopédico a todos os números fornecidos pelas comissões da insuspeita ONU - acabou por provar precisamente o oposto.

Para começar, uma citação lapidar sobre o mito do crescimento demográfico exponencial, baseado na fertilidade descontrolada:

“É falso que estejamos a reproduzir-nos como coelhos. O que se passa é que deixámos de morrer como moscas.”