"Platão e Aristóteles nunca consideraram a política como algo separado, independente da moral. A separação entre ambas teve lugar mais tarde (...), com a aparição do individualismo. Para Platão e Aristóteles, o homem não é indivíduo, por um lado, e cidadão, por outro. O homem é cidadão e é precisamente no seio da cidade, do Estado, da polis, que se desenvolve como homem e, portanto, se moraliza."
J. M. Navarro Cordon, T. Calvo Martinez - História da Filosofia.
segunda-feira, dezembro 05, 2011
sábado, dezembro 03, 2011
sexta-feira, dezembro 02, 2011
O apocalipse é isto aqui:
Na Holanda - só neste país esquizofrénico é que isto podia acontecer - o vilão Ron Fouchier e a sua incrivelmente estúpida equipa de aprendizes de feiticeiro conseguiram a duvidosa proeza de pegar no vírus H5N1 - o agente patogénico da gripe das aves - e manipulá-lo geneticamente para matar pessoas. O H5N1 original já era altamente letal para os humanos - cerca de seis em cada 10 vítimas sucumbiram à doença, mas, desde que foi identificado, este vírus infectou menos de 600 pessoas e sempre por contacto directo com aves infectadas. A nossa defesa contra a praga estava no facto do vírus ser dificilmente transmissível. A porta que se abre agora ao bio-terrorismo coloca porém a hipótese de um armagedão à séria, através da aniquilação de mais de metade da população humana. Enquanto Fouchier já tem garantido um lugar eterno na galeria da infâmia - ou nos anais da imbecilidade humana - a revista Science está a considerar se deve ou não publicar o seu trabalho. Afinal, é bastante necessário e até pertinente que os terroristas de todo o mundo fiquem a saber como é que se mata gente assim à fartazana.
Mais um dia de glória para a ciência.
quarta-feira, novembro 30, 2011
Anti-Facebook: a justa destruição.
"A geração dos seres existentes tem lugar a partir daquilo a que conduz a sua destruição, como é justo e necessário. E indemnizam-se e pagam o seu castigo uns aos outros por sua ofensa, segundo a ordem do tempo."
Anaximandro - Sec. VII a.C.
Anaximandro - Sec. VII a.C.
The :Kubrik Experience
Esta música inicia a apresentação do albúm "Dance Poetry". Este trabalho tem por base o registo de voz do PodCast "A Poem a Day", apenas com duas exepções, que publicarei mais tarde.
O conceito passa por criar música para alguns dos poemas e dos autores que me perseguem a existência. E assim sendo, tinha mesmo que começar com uma pequenina pérola do James Joyce:
Alone (feat. James Joyce) de :kubrik Alone, de James Joyce :kubrik
The noon's greygolden meshes make
All night a veil,
The shorelamps in the sleeping lake
Laburnum tendrils trail.
The sly reeds whisper to the night
A name-- her name-
And all my soul is a delight,
A swoon of shame.
Tão bonito que até dói (à brava).
Esta versão de Hurt, um original dos Nine Inch Nails aqui levado à perfeição estética e ao clímax dramático por Johnny Cash, pouco antes de morrer, é de uma beleza transcendental. Sempre que vejo este clip sou esmagado por uma onda de emoção, uma espécie de contentamento infeliz que me invade o corpo todo. Trata-se, muito simplesmente, de um momento de eternidade. Comparado com isto, até o My Way, do Sinatra, parece uma musiquinha para adormecer bebés.
Johnny Cash | Hurt
I hurt myself today
To see if I still feel
I focus on the pain
The only thing that's real
The needle tears a hole
The old familiar sting
Try to kill it all away
But I remember, everything
What have I become
My sweetest friend
Everyone I know,
goes away
In the end
And you could have it all
My empire of dirt
I will let you down
I will make you hurt
I wear this crown of thorns
Upon my liar's chair
Full of broken thoughts
I cannot repair
Beneath the stains of time
The feelings disappear
You are someone else
I am still right here
What have I become
My sweetest friend
Everyone I know
goes away
In the end
And you could have it all
My empire of dirt
I will let you down
I will make you hurt
If I could start again
A million miles away
I would keep myself
I would find a way
Johnny Cash | Hurt
I hurt myself today
To see if I still feel
I focus on the pain
The only thing that's real
The needle tears a hole
The old familiar sting
Try to kill it all away
But I remember, everything
What have I become
My sweetest friend
Everyone I know,
goes away
In the end
And you could have it all
My empire of dirt
I will let you down
I will make you hurt
I wear this crown of thorns
Upon my liar's chair
Full of broken thoughts
I cannot repair
Beneath the stains of time
The feelings disappear
You are someone else
I am still right here
What have I become
My sweetest friend
Everyone I know
goes away
In the end
And you could have it all
My empire of dirt
I will let you down
I will make you hurt
If I could start again
A million miles away
I would keep myself
I would find a way
The :Kubrik Experience
Este é o primeiro tema retirado do álbum "The Soul Soundtrack" que reúne composições orquestrais e bandas sonoras de sites. Para ouvir ao fim da tarde.
Soul Search de :kubrik Soul Search :Kubrik
terça-feira, novembro 29, 2011
O (glorioso) regresso das Teclas Pretas.
Black Keys. A banda do momento, que sinto como a banda de sempre, está de volta. E em grande forma. Começo a ouvir estes dois e fico logo super bem disposto. E a culpa disto tudo é deste meu amigo aqui.
Fado de Santo Anselmo
É claro: já não há paciência para o Bono Vox
Nem para a sua música de supermercado,
Mas o rapaz estava certo, quando escreveu
Que tudo o que sabemos está errado.
Eu por exemplo, um caso ao acaso,
Pensava saber umas verdades, entre as pielas,
Eram minhas e eram-me queridas
E agora custa-me andar pela vida sem elas.
Uma dessas verdades que amava convicto
E de que sinto agora falta, foi um achado
Do Nietszche, que inventou a morte de Deus
Antes de se passar para o outro lado.
Mas depois de ler que o bom do Godel
Provou a errática dos sistemas aritméticos
E que o Heisenberg descobriu a incerteza,
Acho todos os cientistas patéticos
E comecei a pensar para comigo
Que o Demócrito é que tinha razão:
O cosmos mais não é que o produto caótico
De átomos tontos em rota de colisão
E comecei a pensar para comigo
Que Santo Anselmo, nos tempos saudosos
Em que a Terra era ainda plana,
Bem advertia os hereges teimosos:
Olhem que há qualquer coisa mais
No universo, amigos e amigas,
Do que pode em boa verdade admitir
O vosso entendimento de formigas.
Aliás, até Hamlet, que não era nenhum
Génio, sabia o que dizia:
Há fenómenos no céu e na terra, Hórácio,
Que não cabem na tua filosofia.
E mesmo Platão, que era tão assertivo,
Nunca conseguiu explicar com mestria
Porque raio é que até um carrasco
Pode ser fã da Nona Sinfonia.
E mesmo Stirner, que era tão esperto,
Ignorou a evidência dos factos por uma vez:
Ser dono de mim apenas não chega
Para pagar as contas ao fim do mês.
Por estas e outras é que me consola agora
Um certo agnosticismo religioso e desordenado.
Já ateu não sou e confesso que acredito
na imponderabilidade do fado.
Mais a mais, a cada dia que passa,
Fico com esta sensação triste e má
Que é um brincalhão que está sentado
Na cadeira olímpica de Jeová.
Nem para a sua música de supermercado,
Mas o rapaz estava certo, quando escreveu
Que tudo o que sabemos está errado.
Eu por exemplo, um caso ao acaso,
Pensava saber umas verdades, entre as pielas,
Eram minhas e eram-me queridas
E agora custa-me andar pela vida sem elas.
Uma dessas verdades que amava convicto
E de que sinto agora falta, foi um achado
Do Nietszche, que inventou a morte de Deus
Antes de se passar para o outro lado.
Mas depois de ler que o bom do Godel
Provou a errática dos sistemas aritméticos
E que o Heisenberg descobriu a incerteza,
Acho todos os cientistas patéticos
E comecei a pensar para comigo
Que o Demócrito é que tinha razão:
O cosmos mais não é que o produto caótico
De átomos tontos em rota de colisão
E comecei a pensar para comigo
Que Santo Anselmo, nos tempos saudosos
Em que a Terra era ainda plana,
Bem advertia os hereges teimosos:
Olhem que há qualquer coisa mais
No universo, amigos e amigas,
Do que pode em boa verdade admitir
O vosso entendimento de formigas.
Aliás, até Hamlet, que não era nenhum
Génio, sabia o que dizia:
Há fenómenos no céu e na terra, Hórácio,
Que não cabem na tua filosofia.
E mesmo Platão, que era tão assertivo,
Nunca conseguiu explicar com mestria
Porque raio é que até um carrasco
Pode ser fã da Nona Sinfonia.
E mesmo Stirner, que era tão esperto,
Ignorou a evidência dos factos por uma vez:
Ser dono de mim apenas não chega
Para pagar as contas ao fim do mês.
Por estas e outras é que me consola agora
Um certo agnosticismo religioso e desordenado.
Já ateu não sou e confesso que acredito
na imponderabilidade do fado.
Mais a mais, a cada dia que passa,
Fico com esta sensação triste e má
Que é um brincalhão que está sentado
Na cadeira olímpica de Jeová.
segunda-feira, novembro 28, 2011
The :Kubrik Experience
Depois de anos a tentar fazer qualquer coisa que se aproxime daquilo a que convencionalmente chamamos música, abri uma página aqui, com alguns dos temas que acho menos indecentes.
É claro que se trata de um registo amador, tanto no que respeita à produção como à prestação artística, mas estão todos convidados a ir lá vaiar ou patear, ou seja lá o que for que se faz hoje em dia, quando o ouvido protesta. No entretanto, fica já aqui uma amostra ruidosa:
Canção do Vento de :kubrikCanção do Vento :Kubrik
O meu verso é fechado,
não tem rima, não tem fado.
Eu sou quem não se encontrou,
tu vais onde eu nunca vou.
Não sei o que te diga, se te cante esta cantiga:
tu és a estrela e eu o cometa, planeta desfeito.
Tu vens de berço eleito, eu careta, provenho da proveta
e prisioneiro no nevoeiro, não sei se chego inteiro ao fim da cançoneta.
Tu és demais, voas p'las cartas astrais, sabes p'ra onde vais.
Eu sou de menos, reduzido a átomos pequenos, serenos locais.
É do inferno que eu sou. Tu chegas ao céu e ao cais.
Tu vais onde eu nunca vou.
O meu mundo é quadrado,
é um prisma só de um lado.
Eu sou quem não se encontrou,
tu vais onde eu nunca vou.
Para dizer a verdade, majestade, sou mais baixo de que a idade
e mais velho do que a medida. Tu és a minha vida e eu sou só metade
do que prometo, cometo o pecado de não ser suficiente e de repente,
tu deixas-me cair lento, com o vento.
Vou afogar a solidão nos copos da taberna,
caverna da servidão moderna, aberta para nunca mais.
É do inferno que eu sou. Tu chegas ao céu, chegas ao cais,
tu vais onde eu nunca vou.
O meu sonho sabe a pouco,
o destino não dá troco.
Eu sou quem não se encontrou,
Sou quem o vento levou.
Tu vais onde eu nunca vou.
Não chego para ti, já vi, fico curto aquém do bem e é melhor assim,
sem a erva ruim que envenena o teu jardim,
sem o mal que te faço, sem o ferro e sem o aço.
É melhor para o teu percurso, longo curso, linha aérea sobre o espaço.
Deixa-me por aqui de repente, monge doente no labirinto.
Vou afogar a solidão com uns copos de absinto,
no bar aberto para nunca mais. É do inferno que eu sou.
Tu chegas ao céu, chegas ao cais, tu vais onde eu nunca vou.
O meu verso é fechado,
não tem rima, não tem fado.
Eu sou quem não se encontrou
tu vais onde eu nunca vou.
O meu mundo é quadrado,
é um prisma só de um lado.
Eu sou quem não se encontrou,
sou quem o vento levou.
O meu sonho sabe a pouco,
o destino não dá troco.
Tu vais onde eu nunca vou
e tudo o vento levou.
quarta-feira, novembro 23, 2011
domingo, novembro 13, 2011
Geocashing
Dizem-me que eu não viajo e perguntam-me porque é que não viajo.
Afinal, não sou um ignorante:
Devo concerteza perceber as vantagens e as glórias do turismo.
Querem que eu vá andar de bicicleta com eles
Ou que, pelo menos, vá ao ginásio suar com as multidões.
Dizem-me que é o preço a pagar pelo que fumo, pelo que como, pelo que bebo.
Sugerem o prazer de apanhar caixinhas
Que foram cuidadosamente escondidas
Algures nos interstícios do mundo.
Mandam-me para o médico com a mesma leveza insustentável
Com que me convidam para passear quilómetros sobre caminhos de ferro.
Fazem-me propostas irrecusáveis, tentadoras, fascinantes, exóticas, saudáveis!
Mostram-me clubes de desconto e restaurantes vegetarianos,
Roteiros e spas, resorts e pousadas e bares gay
E estrelas da mtv e youtubers e vídeos engraçados e fotografias pornográficas
E smart-phones e ipads e aplicações para processar os terabites disto tudo.
Recomendam-me vivamente, de olhos brilhantes, a dieta, a natação e o Nespresso,
Fazem planos para mim e por mim, sonham alto com a minha vida.
Parecem sinceramente preocupados comigo,
Como se me faltasse algo de fundamental,
Como se tivesse sido expulso de um qualquer e suspeito paraíso
E ainda nem tivesse dado por ela.
Ora, eu que acho simplesmente que tenho aquilo que mereço;
Eu que habito paraísos perdidos e não sei trabalhar com gps
E que por isso mesmo não podia nunca ser aceite no tal clube
Das pessoas que procuram caixinhas;
Eu que já faço desporto bastante, considerando o que me cansa;
Eu que acho, como o outro, que a Austrália é um país lindíssimo,
Desde que não me arrastem para lá;
Eu que não quero saber onde é que podia estar neste fim de semana
Porque na verdade só queria estar aqui, no carinho do meu escritório
A escrever precisamente estas palavras;
Eu que não tenho paciência nenhuma para o que a maior parte das pessoas
Acha que é engraçado ou divertido ou interessante ou saudável;
Eu, logo eu, que fico super constrangido com os gostos dos outros;
Eu que quero apenas ficar aqui quieto, no embalo do Steve Reich
E da trovoada que anuncia o Inverno;
Eu quero lá saber.
Todos vamos morrer e vocês também.
Vocês que andam pela vida de bicicleta e que fazem caminhadas,
Vocês que já encontraram cinquenta caixinhas no labirinto do inferno,
Vocês que têm assinatura no Holmes Place e que fazem a dieta da Primavera,
Sim, sim, sim,
Vocês vão morrer na mesma e - calhando - alguns até vão morrer primeiro que eu,
Porque a ciência é uma fraude,
O corpo humano é um mistério
E Deus não é um estilo de vida.
Afinal, não sou um ignorante:
Devo concerteza perceber as vantagens e as glórias do turismo.
Querem que eu vá andar de bicicleta com eles
Ou que, pelo menos, vá ao ginásio suar com as multidões.
Dizem-me que é o preço a pagar pelo que fumo, pelo que como, pelo que bebo.
Sugerem o prazer de apanhar caixinhas
Que foram cuidadosamente escondidas
Algures nos interstícios do mundo.
Mandam-me para o médico com a mesma leveza insustentável
Com que me convidam para passear quilómetros sobre caminhos de ferro.
Fazem-me propostas irrecusáveis, tentadoras, fascinantes, exóticas, saudáveis!
Mostram-me clubes de desconto e restaurantes vegetarianos,
Roteiros e spas, resorts e pousadas e bares gay
E estrelas da mtv e youtubers e vídeos engraçados e fotografias pornográficas
E smart-phones e ipads e aplicações para processar os terabites disto tudo.
Recomendam-me vivamente, de olhos brilhantes, a dieta, a natação e o Nespresso,
Fazem planos para mim e por mim, sonham alto com a minha vida.
Parecem sinceramente preocupados comigo,
Como se me faltasse algo de fundamental,
Como se tivesse sido expulso de um qualquer e suspeito paraíso
E ainda nem tivesse dado por ela.
Ora, eu que acho simplesmente que tenho aquilo que mereço;
Eu que habito paraísos perdidos e não sei trabalhar com gps
E que por isso mesmo não podia nunca ser aceite no tal clube
Das pessoas que procuram caixinhas;
Eu que já faço desporto bastante, considerando o que me cansa;
Eu que acho, como o outro, que a Austrália é um país lindíssimo,
Desde que não me arrastem para lá;
Eu que não quero saber onde é que podia estar neste fim de semana
Porque na verdade só queria estar aqui, no carinho do meu escritório
A escrever precisamente estas palavras;
Eu que não tenho paciência nenhuma para o que a maior parte das pessoas
Acha que é engraçado ou divertido ou interessante ou saudável;
Eu, logo eu, que fico super constrangido com os gostos dos outros;
Eu que quero apenas ficar aqui quieto, no embalo do Steve Reich
E da trovoada que anuncia o Inverno;
Eu quero lá saber.
Todos vamos morrer e vocês também.
Vocês que andam pela vida de bicicleta e que fazem caminhadas,
Vocês que já encontraram cinquenta caixinhas no labirinto do inferno,
Vocês que têm assinatura no Holmes Place e que fazem a dieta da Primavera,
Sim, sim, sim,
Vocês vão morrer na mesma e - calhando - alguns até vão morrer primeiro que eu,
Porque a ciência é uma fraude,
O corpo humano é um mistério
E Deus não é um estilo de vida.
sexta-feira, novembro 04, 2011
Obra prima do momento x2
Depois de uma noite com o meu amigo Zé Aguiar, fiquei a ganhar dois momentos-obras-primas que desconhecia por completo (o abismo da minha ignorância é aterrador).
Music for 18 Musicians (Primeira Secção) - Steve Reich
Jesus' Blood Never Failed Me Yet - Gavin Bryars, Tramp & Tom Waits
Por estas e por outras é que ter amigos compensa.
Music for 18 Musicians (Primeira Secção) - Steve Reich
Jesus' Blood Never Failed Me Yet - Gavin Bryars, Tramp & Tom Waits
Por estas e por outras é que ter amigos compensa.
sábado, outubro 29, 2011
Göbekli Tepe e a razão da religião.
Göbekli Tepe. Fixa este nome, caro leitor. Aqui, numa colina do sudeste da Turquia, prova-se que tudo o que julgávamos saber sobre as origens da religião, da arte e do engenho humano estava errado.
Göbekli Tepe é uma área de culto com onze mil anos. O templo que vemos nas imagens tem cerca de oito mil anos e foi erigido - cinco milénios antes das primeiras fundações de Stonehenge - por gente nómada, caçadores recolectores que não dominavam a escrita, a metalurgia ou a roda. As magníficas colunas aqui representadas, que pesam cerca de cinco toneladas e ascendem a seis metros de altura, são delicadamente decoradas com figuras de animais, deuses e sacerdotes, numa inaudita manifestação espiritual e artística. É que este é o primeiro templo conhecido que antecede o Neolítico e é aqui que tudo se complica.
Até agora, acreditava-se que fora a revolução do Neolítico - ou seja, a invenção da agricultura e a sedentarização - que teria levado ao desenvolvimento estrutural da religião e isto parecia fazer todo o sentido: aqui há coisa de 9600 anos, o fim da idade do gelo teria proporcionado, pela proliferação da fauna e da flora, condições para a domesticação de plantas e animais e a respectiva povoação em permanência de certos locais. Depois da fixação humana em aldeias agrícolas, a religião surgia naturalmente como resposta a uma actividade profundamente dependente dos factores climatéricos não dominados pelo agricultor, que ficava à mercê dos caprichos dos deuses para obter uma boa colheita. Dentro desta linha de pensamento, a criação de locais de culto implicava a pre-existência de uma sociedade sedentária com níveis elementares de especialização profissional e cooperação social.
Ora, o que Göbekli Tepe demonstra é que o processo pode ter sido inverso. Senão em todas as circunstâncias da evolução humana, pelo menos em algumas terá sido a religião que gerou o desenvolvimento agrícola e não o inverso: com o degelo, o espanto por um novo mundo natural que se revelava, a reverência pela capacidade de mudança e regeneração de um ecossistema que passa a enquadrar as 4 estações do ano conduz à prática religiosa. A criação de locais de culto megalíticos, onde são celebrados rituais periódicos por milhares de pessoas terá implicado a necessidade de um pensamento logístico que providenciasse alimentação e abrigo para as multidões reverentes. O fenómeno religioso cria assim condições para a invenção da agricultura e da domesticação dos animais, a sedentarização, a manifestação artística e a complexidade dos papéis sociais.
A noção de que a capacidade de transcendência do Sapiens é a sua primeira ferramenta no caminho para a modernidade seria ainda hoje herética, se a evidência arqueológica em Göbekli Tepe não surgisse com esta notável eloquência, com esta arrogante elegância, com esta irónica magnitude. Isto embora o bom senso nos ensine - de caras - que a religião é resultado da imaginação humana e que a criatividade tem sido - a par com a agressividade e a ganância - um dos grandes motores da história. O problema da ciência, como de qualquer outra actividade humana, é que vive de dogmas. E os dogmas, mais tarde ou mais cedo, demonstram-se incapazes de explicar a natureza do cosmos. E é assim que aprendemos, todos os dias, que aquilo que pensamos saber está errado. E é assim que aprendemos, todos os dias, como somos ignorantes de tudo.
domingo, outubro 16, 2011
Indignada ou invejosa?
Ontem eram a geração à rasca, hoje são os indignados. A extrema esquerda está sempre a esconder-se por dentro de eufemismos deste género. Os ideais não mudam, são os de sempre, mas a nomenclatura está em perpétua metamorfose. O PSR - Partido Socialista Revolucionário - passou rapidamente a Bloco de Esquerda, para ganhar legitimidade eleitoral através da cosmética e quando o Partido Comunista vai a votos não é PC, é APU, é CDU, é um outro acrónimo qualquer inventado à pressão para aliviar os incautos do peso da ideologia paleolítica e dos equívocos históricos.
Ora, eu acho que esta gente devia, em boa verdade, assumir a sua indigência e declarar apenas isto: "olá, sou contra a propriedade privada e estou aqui para ver se convenço a malta a ir roubar um plasma à Worten." Seria talvez mais eficaz mas, sobretudo, seria concerteza mais honesto.
domingo, outubro 09, 2011
Obra prima do momento - Tchaikovsky e a comédia humana.
"Le Concert" de Radu Mihaileanu
Tchaikovsky | Violin Concerto - I - Allegro moderato
terça-feira, outubro 04, 2011
Em desacordo com o silêncio.
Tempos houve em que aqui no blog se escrevia fartamente, bem e mal. Escreve-se quase nada, nos tempos de agora. Escrevo cada vez menos que é como quem diz: penso cada vez menos.
Não tenho vagar para pensar. Não porque me escasseie o tempo, mas porque me falta o tesão. Mantenho-me neste silêncio que é um silêncio resultado da dificuldade de entender o mundo. E da humildade a que os anos obrigam. E da arrogância que os anos exigem. Limito-me a alguns, moderados, hábitos de sempre: a música a bombar, os livros a sério, as corridas virtuais. Este blog transformou-se num registo de costumes. Sim, coitado do Blogville, tão vulgar de existências! Sim coitado do seu autor, tão despejado de inspiração que consegue apenas um ou dois poemetas por trimestre, se tanto! E sim, outrossim, coitado do Hasse Paixão que está agora mesmo a rebolar-se convulsivamente por saudades da inocência do outro maluco que dissertava aqui sobre a heteronímia de Platão, o erro de Einstein, as Variações de Goldberg, a herança de Homero, as Vozes da Poesia Europeia ou a Mitologia da Saudade.
Pobre blogger sem musas, que é feito de ti, tagarela?
Não tenho vagar para pensar. Não porque me escasseie o tempo, mas porque me falta o tesão. Mantenho-me neste silêncio que é um silêncio resultado da dificuldade de entender o mundo. E da humildade a que os anos obrigam. E da arrogância que os anos exigem. Limito-me a alguns, moderados, hábitos de sempre: a música a bombar, os livros a sério, as corridas virtuais. Este blog transformou-se num registo de costumes. Sim, coitado do Blogville, tão vulgar de existências! Sim coitado do seu autor, tão despejado de inspiração que consegue apenas um ou dois poemetas por trimestre, se tanto! E sim, outrossim, coitado do Hasse Paixão que está agora mesmo a rebolar-se convulsivamente por saudades da inocência do outro maluco que dissertava aqui sobre a heteronímia de Platão, o erro de Einstein, as Variações de Goldberg, a herança de Homero, as Vozes da Poesia Europeia ou a Mitologia da Saudade.
Pobre blogger sem musas, que é feito de ti, tagarela?
sábado, outubro 01, 2011
Obra prima do momento - o ataque dos nerds.
Two Door Cinema Club | Undercover Martyn
Estes irlandeses são bastante esquisitóides, mas o som até manda ventania.
quinta-feira, setembro 29, 2011
Speed Freak (1)
De acordo com o silêncio:
"Não é possível eu dizer para alguém: Fale mais alto, berre, pois sou surdo. Como pode abandonar-me o único dos sentidos que em mim deveria ser maior que nos outros?
Ludwig van Beethoven
Ai, meus irmãos! Sabemos talvez um pouco demasiado sobre todos nós! E muitos há que se nos tornam transparentes, mas ainda assim não o suficiente para que os consigamos penetrar. É difícil viver entre os homens: é tão difícil o silêncio.
Friedrich Nietzsche
Oh, eu morro, Horácio. O potente veneno já vence o meu espírito. Não posso viver para ouvir as notícias da Inglaterra, mas eu deveras prevejo que a eleição brilha sobre Fortinbras. Ele tem meu voto moribundo; diga-se-lhe isso, com os incidentes, grandes e pequenos, que serviram de motivação. O resto é... silêncio. (Morre).
Hamlet - William Shakespeare
Obra prima do momento ou a banda das cento e cinquenta malhas (3)
The Pigeon Detectives | Everybody Wants Me
Obra prima do momento ou a banda das cento e cinquenta malhas (2)
The Pigeon Detectives | I'm Not Sorry
terça-feira, setembro 27, 2011
Obra prima do momento ou a banda das cento e cinquenta malhas (1)
The Pigeon Detectives | Take Her Back
Destes rapazinhos aqui conheço três discos. Destes 3 discos seleccionei "apenas" 30 músicas para a playlist do itunes onde só coloco grandes malhas. Impressionante. É um heat atrás do outro. Pinguins Detectives. Sim, senhor. Uma banda que recomendo vivamente para aliviar o aborrecimento da existência.
sexta-feira, setembro 23, 2011
Anti-Facebook: admoestação à Terceira República.
"Apóstolo do erro, moralistas e políticos! Depois de tantos indícios da vossa cegueira, pretendeis esclarecer o género humano? Se as vossas ciências ditadas pela sabedoria só serviram para perpetuar a indigência e os sofrimentos, dai-nos antes ciências ditadas pela loucura, conquanto elas acalmem os furores e aliviem a miséria dos povos. Eis filósofos, os frutos amargos das vossas ciências; indigência e mais indigência: entretanto afirmais ter aperfeiçoado a razão, quando soubestes apenas conduzir-nos de abismo em abismo."
Charles Fourier | Teoria dos Quatro Movimentos | 1808
Charles Fourier | Teoria dos Quatro Movimentos | 1808
terça-feira, setembro 20, 2011
Da natureza do riso.
Na imagem, Torres agoniza, após ter falhado um golo de baliza aberta. E os malucos do Man United mal se aguentam de felicidade. Um dos meus novelistas preferidos - Stendhal - diria: "Rimo-nos pelo prazer do amor-próprio."* E diria muito acertadamente. O humor é uma arma de nós contra os outros, de mim contra ti; uma espécie de tique tribal, um instrumento de afirmação pessoal.
Agradecimentos: Futebol Veteranos de Tremez
* Do Riso - Um Ensaio Filosófico Sobre um Tema Difícil
sábado, setembro 17, 2011
Uma cosmogonia na Casa da Música.
Wagner demorou 26 anos a escrever o Anel do Nibelungo, uma obra para mais de cem músicos com cerca de quinze horas de duração, que estabelece um cânone supremo sobre a cultura alemã. Este fim-de-semana, na Casa da Música, desenrola-se uma feliz adaptação sintetizada para 20 músicos (Remix Ensemble) e 9 horas de comprimento. Estou neste momento, saído da segunda jornada - A Valquíria, a meio da aventura. Às 21h00 volto para lá. E amanhã lá estarei outra vez, até ao fim do sonho mítico de Wagner. E, na expectativa da vingança de Siegfried, sinto-me neste momento um ser humano verdadeiramente privilegiado.
sexta-feira, setembro 16, 2011
Obra prima do momento - A bombar com aparato sinfónico.
The Airborn Toxic Event | All I Ever Wanted (Live from Walt Disney concert Hall)
Anti-Facebook: a opinião das massas.
Não submeta as suas ideias ao voto popular. A opinião das massas raramente é inocente e muitas vezes está errada. Maioria não é sinónimo de certo, nem tão pouco dá qualquer garantia.
In "Dez Mandamentos da Universidade Criativa" - IADE - 2011
In "Dez Mandamentos da Universidade Criativa" - IADE - 2011
quarta-feira, setembro 14, 2011
O rosto da depressão.
Depressão é a incapacidade de construir um futuro. Rollo May
O rumor em Washington é que Barack Obama sofre de um grave caso de depressão.
Tem boas razões para isso. Tem boas razões para estar deprimido aquele que vai ficar para a posteridade como o pior presidente da história dos Estados Unidos da América.
Tem boas razões para cair numa tristeza patológica quem finalmente, tardiamente, conclui que não está minimamente preparado para o mais exigente emprego que o império tem para oferecer. Tem boas razões para não querer sair da cama o infiel que quis fazer da América uma grande Islândia, com serviço Nacional de Saúde e tudo. Tem boas razões para se sentir baixo, inútil, incapaz, o senhor que prometeu dois milhões e meio de empregos inexistentes e que se limitou a perder quatro vírgula nove milhões de empregos existentes. Tem razões para encarar seriamente o suicídio o irresponsável que elevou a dívida federal de 3 para 11 por cento do produto interno bruto. Sim, é natural que precise desesperadamente de uma dose farta de fluoxetina o infame que praticamente mandou fechar a NASA. O palerma que gastou não sei quantos biliões de dólares da bolsa do contribuinte para estimular um programa de "green jobs" que, só na Califórnia gerou o número astronómico de setecentos empregos e em toda a federação, menos de trinta mil. O mesmo palerma não tem, de facto, razões para sorrir quando pensa que foi anunciar o falso triunfo da mesma política nas instalações da Solyndra, empresa exemplo, financiada pela sua administração, que entretanto já tinha gasto todo o dinheiro e que anunciou a falência um ano depois do triunfante discurso. Um fraquinho incompetente que usou o desastre do Golfo para vender o seu abstruso plano ecológico e que falhou até em trazer os jogos olímpicos para Chicago, tem mesmo que estar com graves problemas de auto-estima.
Um tagarela que gosta de reinventar a história com discursos adolescentes que, sem deixarem de ser pomposos, são prolixos em referências inexactas e equívocos de colegial; um mãos largas que tornou os apparatchiks do estado nos funcionários mais bem pagos do país; um estarolas que fez crescer a dívida federal de dez triliões de dólares em 2008 para catorze triliões de dólares em 2010; um gastador crónico que está sempre a querer sacar mais dinheiro aos outros para continuar a alimentar o vício de gastar, convenhamos, não pode estar feliz.
E sim, sim, tem excelentes razões para sucumbir ao insustentável peso da existência o desgraçado do pedante que devolve aos ingleses o busto de Churchill; o ignorante que casou com outra ignorante que não sabe que lhe é interdito o contacto físico com a Rainha de Inglaterra; a criatura que é Nobel da Paz sem saber ler nem escrever e que mesmo assim não conseguiu fechar Guantanamo (Deus é grande, não é?) nem deixar de bombardear a Líbia sem o famoso beneplácito do Conselho de Segurança das Nações Unidas (só aos presidentes eleitos pelo democratas é concedido o livre arbítrio em relação a possíveis agressões internacionais); o miserável maometano que se verga perante os príncipes sauditas como um vulgar e bom súbdito, que vai permitindo ao Irão elevar-se como uma potência nuclear, que prefere a diplomacia com terroristas do que defender o seu aliado natural, o seu aliado de sempre no médio oriente: Israel.
Percebe-se bem que esteja nas lonas, sem ânimo e sem energia, o homenzinho que, sem apelo nem aviso, desactivou o escudo nuclear que protegia a Polónia, que mandou retirar do Iraque com o trabalho a meio, desonrando assim as vidas dos soldados americanos que lá se perderam; que mandou retirar do Afeganistão com o trabalho a meio, desonrando assim as vidas dos soldados americanos que lá se perderam e garantindo um triunfo de profundo alcance geo-estratégico aos radicais islâmicos.
É natural que precise de se esticar no divã do psicólogo o atrasado mental que tem feito tudo, mas tudo, para apequenar o que um dia constituiu a grandeza da América: o individualismo e a liberdade de iniciativa, a imaginação e a capacidade industrial, o voluntarismo e a volição civilizadora, a ideia de um estado de direito, magro, decente, criado pelos cidadãos para servir os cidadãos, tímido nos impostos e valente nas guerras, altruísta nos valores e imperialista na diplomacia.
Barack Obama tem boas razões para ter vergonha e tem boas razões para desistir e tem boas razões para pedir perdão aos pais fundadores, semi-deuses cuja herança veio usurpar. Em apenas 3 anos, o feiticeiro que vendia esperança aos crédulos, revelou-se o logótipo humano da desilusão global, o falso profeta, o vil herói, a promessa de polipropileno que realmente sempre foi. A cara chapada deste deprimente início de século.
Obama e Israel:
Obama e o escândalo Solyndra:
Obama em negação:
A herança de Obama:
sábado, setembro 10, 2011
Anti-Facebook: a queda.
"Caí pela escada abaixo subitamente,
E até o som de cair era a gargalhada da queda.
Cada degrau era a testemunha importuna e dura
Do ridículo que fiz de mim."
Álvaro de Campos
E até o som de cair era a gargalhada da queda.
Cada degrau era a testemunha importuna e dura
Do ridículo que fiz de mim."
Álvaro de Campos
Vêm aí os hunos.
O maior espectáculo do mundo está de volta. Deste fim-de-semana até ao fim de Fevereiro, é porrada que ferve, à mistura com alguns ataques de brilhantismo. As long as the Devil plays quarterback, may God Bless America.
quarta-feira, setembro 07, 2011
Anti-Facebook: um recado de Gibbon.
"Os Godos reuniram os livros de todas as bibliotecas e estavam prestes a incendiar esta pilha funerária da sabedoria grega, se um dos seus chefes, dotado de um sentido político mais refinado que os compatriotas, não os tivesse dissuadido de tal desígnio com a profunda observação de que, enquanto os gregos estivessem ocupados com o estudo dos livros, jamais se dedicariam ao exercício das armas. O sagaz conselheiro raciocinou como um bárbaro ignorante. Nas mais civilizadas e poderosas nações, génios de todos os géneros têm-se desenvolvido quase ao mesmo tempo, e a idade da razão foi, regra geral, a idade da virtude e do sucesso militar."
Edward Gibbon | Declínio e Queda do Império Romano
Edward Gibbon | Declínio e Queda do Império Romano
Auto-Retrato como Apóstolo Paulo - 1661
De todos os auto-retratos de Rembrandt (e são uns quantos), este é o que mais me fascina. Não pelo tema do apóstolo que considero de importância marginal, mas talvez pela autenticidade com que o mestre se mostra, sem esconder a fraca figura e a usura dos anos. Mas talvez pelo olhar resignado e sábio de quem sabe já da vida o que a vida permite que se saiba, mas talvez pelas sobrancelhas arqueadas, interrogativas, num feitiço de mago antigo. Mas talvez porque sempre que vejo Rembrandt assim, pelos olhos dele, o oiço a perguntar-se: "afinal, porque raio andei para aqui metido em trabalhos?" A obra deste homem prodigioso está toda ela envolta num manto de sinceridade pungente, de verdade indomável. Mas este retrato em especial arrepia-me até ao fundo da alma. Mesmo.
terça-feira, setembro 06, 2011
Anti-Facebook: famous last words.
"Conta-se que um poeta maldito do segundo império, Theodore Pelloquet, vagabundo e bêbedo que ficou afásico, ao tentar no seu leito de morte exprimir aos seus próximos a sua última vontade só conseguiu pronunciar a primeira sílaba: abs..., sem que se conseguisse saber se queria um copo de absinto ou a absolvição dos seus pecados por um padre."
Robert Bréchon - Estranho Estrangeiro - Uma biografia de Fernando Pessoa
Robert Bréchon - Estranho Estrangeiro - Uma biografia de Fernando Pessoa
quinta-feira, setembro 01, 2011
Davidoff Lights
No último cigarro é que está o mistério.
A desfocada presença dos deuses ajuda ao entendimento do mundo e
há glória grande no derradeiro sopro nicotoíde
que se esfuma em sonhos brancos de solidão e desespero.
Não importa que falem os filósofos sobre a angústia sem filtro,
que protestem as multidões em baforadas de despeito:
no último cigarro é que está o mistério.
Fumar vale a pena por causa disso.
Disso de podermos consumir os deuses enevoados,
génios efervescentes à procura de uma saída da lamparina da história
que é um maço de tabaco.
Fumar faz bem aos pulmões da razão
e é com tristeza imensa e saudade grande
que nos despedimos da beata derradeira na gare mundana e ferroviária
de um cinzeiro.
Adeus, adeus, cilindro-falo, muleta da existência,
companheiro dos nervos e das insónias,
fiel depositário da confiança nenhuma, cinza pura no chão do Inverno.
Aspiro, inspiro, recebo a bênção e a libertação no carvão em fogo,
por dentro da mortalha:
no último cigarro é que está o mistério.
terça-feira, agosto 30, 2011
segunda-feira, agosto 29, 2011
Há um buraco no céu.
Há um buraco no tempo e eu entro.
Há um paradoxo pela memória adentro,
Um negativo inverso que se faz tarde e eu vou.
Há um epicírculo, um centro, um vórtice que se fechou,
Por onde o vácuo se esgota e a morte se dissemina.
Há um buraco escancarado na consciência assassina,
Um autismo elíptico, sinusoidal, genomático,
Um síndroma celular de gatilho automático,
Uma singularidade voraz, uma convocatória,
Uma doença de cadáveres na peste fotográfica da história.
Olho lá para o fundo e afundo-me:
É ao diabo que dedico esta dedicatória.
Regresso ao inferno com febre de me perder,
Dou-me para ser esquecido e esqueço-me de me esquecer.
Há um buraco no céu com rugas de sangue e eu entro e eu sou
Esse apocalipse que me chama para onde estou,
De volta e sem retorno, de vez e eu vou.
Há um buraco no céu e eu entro,
Há um paradoxo pela memória adentro.
Há um vórtice que me devora e a vertigem cresceu.
Há um buraco anti-matéria na súplica de Orpheu,
Um fantasma anónimo que desapareceu.
Há uma fonte que secou e não sei de que nascente nasceu.
Há uma súbita ausência de tudo o que aconteceu.
Há um um iato, um silêncio, um vazio redondo no estrondo que se deu,
Há um poço sem fundo no fim do mundo,
Há um buraco sem véu nas velas do céu,
Há um vento que beija o deserto que ardeu,
Há tanto para ganhar como o que se perdeu
E eu já não sei se a vida que existe é a vingança de Prometeu
Ou uma cratera lunar no azul que amanheceu.
Há um buraco no céu e a alegria morreu
E a alegria morreu.
sábado, agosto 20, 2011
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