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quarta-feira, junho 23, 2021

Fazer batota para acabar com a democracia. Breve manual de normas. Parte 1.

Há muitas maneiras de tentar aniquilar a democracia. As maneiras antigas têm sido geralmente contrariadas pelo sangue dos povos e pela sabedoria dos fundadores dos regimes ocidentais que, nos séculos XVII e XVII, em Inglaterra, na América e em França, estabeleceram os cânones que iriam funcionar esplendidamente até ao fim do Século XX. As maneiras modernas, infelizmente, nunca foram sonhadas ou previstas por esses sábios. E os povos ocidentais da actualidade não estão interessados em derramar uma gota que seja do sue plasma vital para defenderem o mais nobre legado da história da humanidade.

Para sermos justos, seria impossível que Cromwell antecipasse o niilismo ideológico da BBC, a decadência de Oxford ou a esquizofrenia de Boris Johnson; que Jefferson conseguisse prever os golpes baixos do actual Supremo Tribunal americano, os truques sujos de Silicon Valley e a vilania da CNN, e que Montesquieu pudesse imaginar que a sua república fosse partilhada com milhões de muçulmanos que subscreveriam uma boa parte dos preceitos regimentais do Ancient Régime.

Ainda assim, para destruir essas ideias constituintes do ideal democrático e humanista do Ocidente, foi preciso fazer batota, porque os legisladores do iluminismo sabiam bem o que estavam a edificar e contra que forças históricas batalhavam. Este post destina-se precisamente a enunciar alguns desses métodos trafulhas, esses preceitos bandidos que levaram à falência, nos últimos 10 a 20 anos, a boa, previdente e duradoura filosofia política desses pais fundadores.

Como há muito para escrever sobre este assunto, o post será dividido em dois ou três segmentos.

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Caso de estudo #01
Jurisprudência da destruição: os vira casacas do Supremo Tribunal Americano.

O Supremo Tribunal Americano é, para todos os efeitos, um tribunal constitucional, com poderes para alterar radicalmente a leitura jurídica do documento fundamental da federação. É por isso de importância transcendente que o colectivo de juízes que o compõem seja ideologicamente equilibrado. Assim sendo e segundo a Constituição, os Juízes são nomeados pelo Presidente e confirmados ou rejeitados pelo Senado, de forma a que exista um constante exercício de compromisso entre os poderes instituídos. Mais a mais, um juiz que seja confirmado para o Supremo fica por lá até que se queira reformar ou que morra, pelo que as oportunidades de nomear novos magistrados não abundam e a hipótese de criar maiorias ideológicas no colectivo são, em teoria, muito reduzidas.

Acontece porém que, nos últimos anos, tem-se registado um fenómeno de ilusionismo que rompe completamente com a lógica constitucional: os juízes nomeados pelos republicanos, por terem um perfil de jurisprudência conservador, chegam ao Supremo e começam a actuar como liberais.

Nos últimos 30 anos, os republicanos colocaram 6 juízes no Supremo. Destes, apenas um, Clarence Thomas (por acaso o primeiro desta sequência de três décadas, confirmado em 1991) tem votado consistentemente como um conservador em áreas tão diversas como o aborto (contra), a posse de armas (a favor), a livre iniciativa económica (a favor), os monopólios (contra), a liberdade de expressão (a favor), o serviço público de saúde (contra) e etc.

Todos os outros, com especial destaque para os 3 juízes que Trump conseguiu confirmar, têm traído da forma mais escandalosa possível as expectativas criadas aquando da sua nomeação, votando quase invariavelmente com os juízes democratas nas questões fundamentais que dividem hoje a América e os americanos. O recente caso do acordão sobre o Obama Care é um exemplo típico desta situação.

Ora, o espírito constitucional que preside á formação do Supremo Tribunal americano não tem obviamente em linha de conta este abstruso comportamento dos magistrados, que manifestam um perfil conservador durante toda a carreira, só para o traírem quando chegam ao seu topo. Assim, é impossível manter a integridade do primeiro órgão judicial da nação. E sem essa integridade, todo o sistema político americano fica seriamente ameaçado.

Para piorar as coisas, os democratas, que neste momento habitam a Casa Branca e dominam as duas câmaras do Congresso, querem aproveitar para colocar mais 4 juízes no Supremo, mesmo sem que nenhum dos que lá está se reforme ou morra. Escusado será dizer que esta iniciativa ("Packing the Court") é completamente inconstitucional, apesar de ser organicamente possível, pelo que a radicalização ideológica do primeiro tribunal americano está hoje completamente no horizonte de possibilidades.

E se isto não é fazer batota, um baralho de cartas com cinco ases é perfeitamente aceitável.

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Caso de estudo #02
Esvaziar a Direita: a traição dos mandatos eleitorais.

Um fenómeno muito parecido com o do primeiro caso de estudo tem acontecido nos últimos dez a vinte anos com os representantes políticos, um pouco por todo o Ocidente. O paradigma que nos está mais próximo é interpretado por Rui Rio que, independentemente do eleitorado do PSD, que é basicamente o mesmo desde 1975, decidiu que o partido que lidera não é um parido de direita. Ora considerando que o CDS não existe e que o Chega, mais tarde ou mais cedo, será ilegalizado, a manobra de Rui Rio, que nunca perguntou aos seus eleitores coisa nenhuma sobre o assunto, deixa a república Portuguesa numa situação de deficit democrático que é absolutamente assustadora. Se só tivermos partidos ideologicamente localizados entre o centro e a extrema esquerda, podemos continuar a afirmar de cara alegre que a Terceira República é uma democracia?

Outro exemplo típico deste caso de estudo é Boris Johnson. Eleito com uma maioria esmagadora constituída por uma inédita aliança de conservadores e trabalhistas, que rejeitaram o radicalismo neo-marxista e woke de Jeremy Corbyn, Boris Johnson alterou o seu perfil político do dia para a noite mal tomou posse como primeiro-ministro, posicionando-se, neste surreal momento, à esquerda de Theresa May, por exemplo, e insistindo numa sacrílega aliança com o establishment britânico contra o qual os ingleses se tinham manifestado veementemente, ao elegê-lo. Com esta desonesta e desleal manobra, apoiada em larga medida pela bancada conservadora no Parlamento, Boris esvaziou em grande medida as hipóteses de, a curto e médio prazo, o eleitorado liberal (centro-esquerda) e conservador ter um candidato que defenda com rigor as suas aspirações. Também em Inglaterra, pelos vistos, teremos que nos perguntar onde fica a democracia, num regime sem intérpretes para a prossecução da vontade popular.



Voltando aos Estados Unidos, é hoje proverbial o ódio que o eleitorado republicano alimenta pelos seus representantes no Capitólio, com excepção de quatro ou cinco ilustres. Mas este desamor é correspondido: é um facto que os congressistas republicanos, escandalosamente comprometidos com os dinheiros dos grandes grupos de interesse, indisfarçavelmente incomodados com as opiniões e os valores dos seus eleitores, convenientemente embrulhados numa bolha de privilégios e devidamente acomodados ao corrupto e elitista ambiente da pantanosa capital, estão tão distantes da realidade dos seus constituintes, são tão indiferentes perante as suas aspirações e necessidades, que até podiam viver em Marte, privados de contacto com os seus círculos eleitorais. E nem sequer escondem alguma hostilidade para com aqueles que os elegeram, como a reacção que tiveram aos acontecimentos de 6 de Janeiro ilustra na perfeição.

Ora, se os cidadãos de direita da federação americana não sentem que os seus valores são representados nas câmaras de Washington, muito antes pelo contrário, a democracia americana só funciona para metade da população.

E se estes três exemplos, entre outros muitos que podia recolher, não constituem jogo sujo, qualquer roleta viciada será de bons costumes.

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Caso de estudo #03

Capitalismo Ideológico: a economia de consumo como manifesto comunista.

Se há 20 anos atrás alguém tivesse previsto que o capitalismo ocidental ia derivar para um sistema ideológico de modelo soviético, esse alguém seria rapidamente internado num ninho de cucos de alta segurança.

O capitalismo sempre foi ideológico, no sentido em que resultava de uma perspectiva liberal da sociedade, que incentivava a criação de riqueza, a livre iniciativa, o acesso meritocrata à prosperidade e o direito à ascensão social. Mas nunca, em 500 ou 600 anos de operação, misturou a política com a mercadoria. John Ford podia votar republicano, mas estava completamente disposto a vender modelos T aos democratas. E não lhe passava pela cabeça amaldiçoar os seus clientes pelas suas opiniões políticas ou inserir propaganda ideológica na comunicação da companhia, ou censurar a imprensa com a qual discordava.

A democracia funcionou muito bem assim, no contexto de mercados liberais e produção apolítica. Mas agora que os grandes conglemorados industriais e informacionais descobriram que os mercados liberais não são favoráveis aos seus projectos de domínio global; agora que o capitalismo adoptou um ideário neo-marxista que promove o conflito identitário, a aniquilação dos pequenos negócios e a extinção da livre iniciativa; agora que as empresas accionadas anonimamente mas dirigidas por bilionários niilistas decidiram intervir de forma a promover o seu nefasto ideário político; agora que os produtos de consumo chegam ao consumidor infestados de conteúdo ideológico; agora que as corporações, em conluio com os estados que as salvam dos seus dispendiosos erros e orgíacos excessos, praticam sabotagem sobre o discurso público, através da censura pura e dura ou retirando as campanhas publicitárias de programas televisivos ou de projectos jornalísticos cujo perfil ideológico foge ao cânone soviético que adoptaram, a democracia corre sérios riscos de se converter numa oligarquia.

Um exemplo característico e deprimente deste estado de coisas, entre tantos outros, é o do muito recente canal televisivo por cabo GB News, a única estação de notícias no Reino Unido de registo conservador (até há dois meses atrás, não existia nenhuma). Apenas com uns dias de emissão, o canal foi logo cancelado pelos grandes grupos económicos, que nem têm problema algum em explicar porquê: não concordam com a sua linha editorial.



Ora, a democracia ocidental só funciona com mercados liberais, separação entre o sector público e privado e livre circulação da informação e da opinião. Quando o poder económico se torna inimigo declarado desses pressupostos está nitidamente a recalibrar, de forma fraudulenta e com intenção manhosa, os dados do jogo civilizacional.


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Caso de Estudo #04
Pandemias e apocalipses climáticos; quando o medo suspende as regras do jogo.

Porque viviam tempos muito mais violentos, em sociedades diametralmente menos securitárias e num mundo desprovido de todos, mas todos, os confortos materiais que temos hoje, os fundadores da democracia ocidental eram homens habituados à doença, ao sofrimento, à violência, à severidade dos elementos e às dificuldades, por vezes extremas, da existência. Não seriam assim e necessariamente capazes de projectar um momento no futuro em que, a propósito de uma gripe com taxa de mortalidade marginal ou de um alegado e ligeiro aquecimento da temperatura média do planeta que na verdade ninguém sente na pele dos dias, fossem retiradas aos cidadãos liberdades e direitos fundamentais, sem os quais os equilibrados parâmetros regimentais que estabeleceram e as sociedades livres e participadas que imaginaram não podem de todo funcionar.

A batota aqui é a injecção do medo, em quantidades industriais, nas populações que de qualquer forma são facilmente aterrorizadas porque foram programadas nas ultimas gerações, errada e criminosamente, para uma vida fácil e realizada, cumprida em paz e prosperidade, independentemente do desempenho ontológico de cada um e das circunstâncias imprevisíveis da História.

Constatando que as medidas de confinamento implementadas pelo governo americano a propósito do Covid-19 foram acolhidas com obediência bovina e resignação aparvalhada por parte dos cidadãos em geral, a administração democrata prepara-se para experimentar um novo sequestro das liberdades individuais com um outro pacote infernal de confinamentos, justificados agora pelas alterações climáticas:



Por outro lado, em Inglaterra, as medidas draconianas tomadas pelo governo de Boris Johnson são historicamente inéditas e chocam frontalmente com o único documento formal que a monarquia parlamentar britânica, consuetudinária em tudo o resto, tem  para mostrar ao mundo: a Magna Carta.



Usar o medo, sem substância que o justifique, como instrumento de obliteração de direitos e liberdades constitucionalmente garantidas é um golpe baixo.
A não ser que aches legítimo que Myke Tyson arranque orelhas aos seus adversários.
Parte 3
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Parte 2
Parte 3

terça-feira, junho 29, 2021

Fazer batota para acabar com a democracia. Breve manual de normas. Parte 2.

Caso de Estudo #05
Propaganda e censura de natureza totalitária: Imprensa e Redes Sociais.

A visão ocidental da democracia passa obrigatoriamente por integrar na sua mecânica interna um aparelho jornalístico independente, com valores deontológicos mais ou menos saudáveis. Digo mais ou menos porque parte da imprensa do século XX era bastante sensacionalista, o que não é assim tão saudável como isso, embora o sensacionalismo nunca tenha na verdade colocado em causa as estruturas civilizacionais e até porque, há que dizê-lo, na origem da imprensa não está a seriedade e a sobriedade, mas a viabilidade comercial. Entre a segunda metade do século XIX e o pós Segunda Guerra Mundial, a generalidade dos jornais privilegiava o impacto da parangona sobre a objectividade da reportagem.

Nas últimas décadas do Século XX criou-se porém a convicção generalizada que era possível ganhar dinheiro e fazer jornalismo sério, inquisitivo e regulador, que funcionasse mais ou menos como referência objectiva (ou pelo menos como relato verosimilhante) das realidades políticas, sociais e económicas das nações. Uma espécie de fiel da balança, que mantinha os poderes instituídos sobre bom escrutínio e os cidadãos defendidos no que diz respeito ao acesso a informação credível.

Desgraçadamente, a Internet, primeiro e o activismo político, depois, vieram destruir este belo conceito.

Colocando uma pressão imensa sobre a imprensa, tanto no aspecto financeiro como na sua capacidade de influenciar a opinião pública, a web (e as suas inéditas consequências ao nível da livre criação e circulação de conteúdos informacionais) deram génese a um fenómeno deveras surpreendente: em vez do jornalimso profissional ter apostado na integridade deontológica e no rigor técnico para contrariar e vencer o diletantismo opinante das redes sociais, foi precisamente o contrário que se passou. A imprensa cedeu à tentação do clickbait e iniciou um processo suicidário de descida aos infernos da desinformação, concorrendo em idiotia e delírio ficcional com as piores páginas de Facebook que podes encontrar nos primeiros dez minutos de navegação; cedendo também e ainda por cima aos poderes instituídos, tornando-se o arauto propagandista dos estados e dos grandes grupos de interesse, de forma a deles obter as receitas que anteriormente conseguia realizar de forma independente e que agora perdia para a web.  

Para que a tempestade fosse perfeitinha, perfeitinha, um conjunto de fenómenos à escala global, como a a transferência de poderes, riquezas e centros de produção para fora do âmbito do Ocidente, as irresponsáveis políticas de imigração europeias e americanas, a radicalização ideológica das universidades, as restrições à liberdade de expressão cada vez mais intensas e efectivas nas sociedades ocidentais e um certo niilismo que se instalou nas suas elites, infectou terminalmente as escolas jornalísticas, que substituíram rapidamente o altar do facto pelo templo do activismo político. E do activismo político não em favor dos povos ou dos próprios consumidores do produto publicado, mas sim de um activismo político do género soviético, que defende exclusivamente, até à falência da moral e ao falecimento da razão, os interesses das super-estruturas oligárquicas.

Simetricamente, os poderosos e perigosamente escassos donos das redes sociais, uma vez confrontados com o potencial libertário dos fóruns que criaram e temendo-o deveras, reagiram, com determinação obsessiva e alérgico zelo, da pior forma possível: através da censura sobre a opinião desviada do cânone de Silicon Valley, da omissão de factos inconvenientes e da manipulação política dos algoritmos.

Sem referência de verdade nem instrumentos credíveis de esclarecimento sobre as dinâmicas presentes nos ecossistemas em que vivem mergulhados, submersos por uma contraditória, ruidosa e contraproducente sobredose de informação, impedidos de proferir opiniões incómodas e de aceder a todo o espectro de ideias do caldo cultural em que foram criados, os cidadão não podem produzir escolhas válidas, que criem prosperidade sem sacrifício da justiça e igualdade de oportunidades sem prejuízo da liberdade individual, nas suas sociedades. A democracia assim, não funciona, ou funciona de forma destrutiva.

Esta é, claro, uma batota grande e descarada. Até porque não pode caber ao estado, ou aos conglomerados económicos, o controlo da informação que circula nas sociedades (esse é o modelo dos fascismo corporativo ou do comunismo soviético). Como não cabe ao jogador de Poker trazer reis escondidos nas mangas.


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Caso de Estudo #06

Doutrinar em vez de educar: O reset niilista nas escolas e nas universidades.

Não há maneira de uma democracia mostrar solidez e contribuir para o bem estar material e imaterial dos cidadãos se não tiver uma sistema de ensino qualificado. Um sistema de ensino que tenha como preocupação fundamental a formação técnica das populações. Digo formação e não educação porque é importante discernir três conceitos fundamentais: a formação é do âmbito das escolas, a educação é do âmbito das famílias e a doutrinação é do âmbito das igrejas ou dos partidos políticos.

Escolas e universidades não têm que ser máquinas de condicionamento ético ou de propaganda ideológica. Escolas e universidades devem disponibilizar conhecimento sobre o leque histórico das opções morais ao dispor do indivíduo e sobre todo o espectro da filosofia política, de forma a que seja o formando e não o formador a escolher que ensinamentos são válidos para si. Só assim poderá cumprir o seu destino em liberdade.

Acontece que a partir dos anos 60 do Século XX, por uma miríade de razões que seria extenuante enumerar, mas que na origem estão relacionadas com um caso freudiano de marxismo mal resolvido, as universidades primeiro e depois, progressivamente, a totalidade das estruturas pedagógicas, assumiram como papel fundamental a doutrinação ideológica e o condicionamento ético. Este fenómeno não só levou a um uníssono intelectual das elites, que é extremamente perigoso e tendencialmente condutor a oligarquias de base totalitária, como à insidiosa corrupção moral de crianças e adolescentes a que assistimos hoje em dia.

O que se passa actualmente nas universidades anglo-saxónicas é paradigmático: os alunos endividam-se para a vida toda não em favor de um currículo formador que lhes possibilite a realização do seu potencial e a prosperidade material (até de forma a que o investimento na formação seja rentável), mas sim em nome de um programa político que os ensina a odiar o seu próprio país, a reduzir drasticamente o nível de exigência que têm consigo próprios enquanto aumentam desmesuradamente a exigência que mantêm com o meio envolvente, no contexto de uma crítica da ocidentalidade que é historicamente falsa e moralmente falaciosa. Que consegue apenas despejar na sociedade indivíduos revoltados, radicalizados, disfuncionais e por isso condenados a dificuldades financeiras que em grande parte dos casos os conduz à dependência dos respectivos sistemas de segurança social.

Mais a mais, também por razões múltiplas de que destaco a desagregação dos núcleos familiares clássicos e a opção de milhões de mulheres pela carreira profissional em detrimento da maternidade, os pais desistiram de educar os filhos e entregaram essa primeira e primária tarefa às escolas. O que na maior parte dos casos é o mesmo que dizer: entregaram essa primeira e primária tarefa ao Estado.

Não há maneira das pessoas perceberem isto mas entregar a educação (não esquecer que não estou aqui a falar de formação) dos seus filhos ao Estado é uma enorme irresponsabilidade. Eu diria até que é uma manifestação de desamor.

O Estado, como entidade formadora, é regra geral medíocre (há excepções). Mas como educador, é um desastre (sem excepções). É um desastre porque não foi criado com essa missão. É um desastre porque não pode ser responsabilizado pelos seus erros monumentais, dada a volatilidade dos agentes políticos e dos legisladores que é própria da democracia. É um desastre porque promoverá sempre as suas ambições materiais e os seus tiques colectivistas sobre os interesses morais e individuais dos cidadãos. É um desastre porque será sempre incapaz de transmitir os valores e os princípios que só a família está qualificada para oferecer.

Como pode o Estado ensinar a ternura, a cortesia, o respeito pelos mais velhos, a generosidade, a responsabilidade, o voluntarismo ou a ética profissional? Não pode. São valores que lhe são alheios.

E assim sendo, vivemos, neste lado do mundo, com famílias que não educam e escolas que preferem doutrinar a formar. Assim, não dá. Assim, é como jogar Monopólio com letras de Scrabble.

(Cont.)
Parte 1
Parte 3

terça-feira, junho 07, 2022

A democracia em queda livre.

O Congresso americano manda prender inimigos políticos, agora. Substituiu-se aos tribunais: é juiz, júri e carrasco, com desplante totalitário e a ajuda do State Department. Tal e qual como se faz numa ditadura asiática ou sul americana. Tal e qual.

Mais: o aparelho judicial e o FBI parecem agora totalmente controlados por democratas (e alguns republicanos que deviam na verdade estar registados como democratas), que não têm qualquer problema em usar estas instituições para perseguir os seus adversários e absolver os seus camaradas. A dualidade de critérios é tão assustadora como é draconiana a vontade de exercer repressão política.



Neste contexto, considerar que os Estados Unidos da América da actualidade cumprem os requisitos de uma democracia ou de um estado de direito é viver alienado dos factos.


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E a propósito de alienação: de tanto falsificar a realidade, os meios de comunicação social, as indústrias de entretenimento e as redes sociais conseguiram transportar os ingleses para um universo paralelo. Como já aconteceu com a percepção das baixas resultantes do Covid-19, altamente inflaccionadas na consciência dos cidadãos, a ideia que têm da composição demográfica e social do seu país está completamente adulterada.

Minorias de zero ponto qualquer coisa por cento passam, na versão distorcida dos britânicos, a ter significado demográfico, enquanto a população de origem africana é multiplicada por 7 e a muçulmana é multiplicada por 4. Confundido a verdade com a publicidade, o cinema e as notícias que consomem, os britânicos pensam que vivem num país com muito menos população branca do que aquela que factualmente se regista.

Além disso, calculam que 15% dos seus compatriotas são homossexuais, dez vezes mais do que realmente foi recenseado, e que 5% são transexuais, quando o percentual correcto é de 0,3%. Redondamente enganados sobre a substância humana do seu próprio país, como podem os ingleses eleger políticos competentes?



 

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Um dos mais deprimentes resultados desta distorção dos factos - e da consequente dificuldade em tomar boas decisões políticas - é Boris Johnson, que ainda hoje sobreviveu a uma moção de desconfiança originária no seu próprio partido e que três anos depois de ter sido eleito com histórica maioria é hoje um dos homens mais odiados no seu país à deriva.

Qualquer súbdito de Sua Majestade que tenha um mínimo de lucidez não tem neste momento em quem votar. O sistema que foi instalado sobre a velha monarquia consuetudinária não lhe proporciona sequer um só candidato que defenda os seus interesses e a sua cidadania.

Sobre o estado da ala esquerda já disse o que tinha a dizer aqui, e a bancada conservadora de Westminster está tão longe do seu eleitorado como os republicanos no Capitólio estão distantes daqueles que representam. Eis o regresso da velha "taxação sem representação" que ironicamente (a história é sempre mordaz) está na origem da revolução americana. 

Neste contexto, considerar que o Reino Unido da actualidade cumpre os requisitos de uma democracia ou de um estado de direito é viver alienado dos factos.


 

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O drama sócio-político a que assistimos por estes dias é o do fim do dever de representação e do direito a ser representado. Os regimes ocidentais já não servem os interesses e os direitos dos cidadãos. Pelo contrário, as suas transcendentais agendas vão precisamente contra os interesses e os direitos dos cidadãos. Mas como o sistema partidário não integra facções alheias ao cumprimento dessas agendas, o processo eleitoral não dará voz ao protesto dos eleitores, tornado assim imutáveis as estruturas de poder e as suas (más) práticas executivas. 

Pelos vistos é muito fácil fazer batota para acabar com a democracia.

Este fenómeno de não representação acontece há muitos anos na Europa, é verdade, e isso tem sido expresso na problemática figura da abstenção, que é sempre alta no Ocidente e que sempre foi ignorada. Mas nos últimos anos percebemos que o movimento de levar as massas à sua irrelevância está a ser intencionalmente conduzido pelas altas eferas do poder político e económico e rigorosamente orquestrado pelos media, de forma a fechar as elites num intocável e inquestionável círculo de poder.

Neste contexto, considerar que o Ocidente da actualidade cumpre os requisitos da democracia ou do estado de direito é viver alienado dos factos.

sexta-feira, julho 23, 2021

Fazer batota para acabar com a democracia. Breve manual de normas. Parte 3.

Caso de Estudo #07
Engenharia demográfica: abolir as fronteiras para aceder a mão de obra barata e alterar os equilíbrios políticos.


As democracias ocidentais foram edificadas para servirem os povos eficazmente no contexto de um dado território geográfico e cultural. A maior parte delas foram também circunscritas a realidades religiosas e étnicas, mas, por razões de economia do teu tempo e do meu, prezado leitor, vamos calibrar o foco essencialmente nos primeiros dois critérios (os outros virão por acréscimo).

O cálculo constitucional dos fundadores teria assim que integrar as seguintes premissas:
- Um perímetro com fronteiras fechadas, mesmo que aceitando de bom grado fluxos imigrantes, em função do território disponível e da capacidade da economia em criar novos postos de trabalho.
- Um corpo demográfico com valores culturais comuns, mesmo que relativamente receptivo a novos inputs, embora restritivo no que respeita à língua e aos objectivos últimos do projecto social em causa, que no caso das democracias ocidentais são a liberdade, a prosperidade e a dignidade como motores da felicidade humana.

Ora, o trend globalista que triunfou no Século XXI entende que as fronteiras são, para além de caducas, imorais. E para além de imorais, ineficientes.

Numa primeira fase, ainda no fim do Século XX, Os conglomerados económicos, cujo capital anónimo não conhece outro valor que o do lucro, aperceberam-se das vantagens da actividade a nível planetário, procurando a mão de obra não qualificada e, por isso, muito menos onerosa, fora da esfera ocidental.

Para além de empobrecer dramaticamente as classes médias e médias-baixa dos seus próprios países, a deslocação industrial não teve sequer o efeito de enriquecer as populações dos países não ocidentais. A única vantagem que trouxe esta globalização "de dentro para fora", foi a de enriquecer os accionistas das grandes multinacionais.

Mais recentemente, porém, assistimos à globalização "de fora para dentro". Na Europa, já sujeita às pressões do espaço Schengen, nem sempre tão pacíficas como a doutrina de Bruxelas quer fazer crer, a fragilidade da segurança social alemã, resultante de uma muito baixa taxa de natalidade entre os seus cidadãos nativos, em conjunto com outras variáveis como a ideologia semi-marxista das elites, o complexo de culpa que domina a psico-sociologia germânica desde o fim da Segunda-Guerra Mundial e a necessidade de mão de obra não qualificada num país com altos índices de formação, levaram a uma abertura à imigração massiva de povos de culturas muito diferentes, provindos do Médio-Oriente, do Magreb, da África Oriental e de uma multiplicidade de localidades antípodas como o Paquistão ou o Bangladeche.

Dado o contexto normativo da União, que implica a livre circulação de pessoas, esta política alemã impactou demograficamente toda a Europa, com especial incidência, naturalmente, nos países mais ricos, como a França, a Inglaterra e a Espanha, que já tinham os seus próprios fluxos imigrantes estabelecidos pela conexão com países que faziam parte do seu legado colonial, ou como a Suécia e a Dinamarca, que se viram confrontados com um fenómeno para o qual não tinham referência operacional.

Nos Estados Unidos, por pressão de Silicon Valley, primeiro, e depois por clara intenção do Partido Democrata em alterar o equilíbrio ideológico do eleitorado, o controlo de fronteiras foi sendo progressivamente relaxado, ao ponto máximo que testemunhamos hoje: a administração Biden já não faz diferença entre imigração legal ou ilegal, acolhendo sem critério as multidões vindas de todo o planeta, atraídas pela promessa de uma vida melhor à caótica fronteira com o México. A situação é de tal forma abstrusa, que o Pentágono está neste momento a transportar milhares de imigrantes ilegais por dia, da fronteira para o interior da federação.


Ora, este descontrolado abrir de portas à imigração a que assistimos quotidianamente na Europa e nos Estados Unidos, tem consequências profundas no tecido demográfico e social e cultural do Ocidente porque os povos que são integrados no esquema constitucional não são antropológica, psicológica, económica e politicamente aptos à prossecução das lógicas civilizacionais que os povos nativos dão como naturais.

Um exemplo claro, entre dezenas que podia enumerar é o da ascensão social. O capitalismo de base liberal implica um potencial de mobilidade sócio-económica, que é mais ou menos efectivo em cada localidade da geografia política do Ocidente, mas que faz parte do patamar de aspirações dos seus cidadãos. Os imigrantes hindus, na sua maior parte, nunca aceitarão esta premissa, na medida em que transportam para os países de destino uma estruturação social por castas, geneticamente determinada, que é a referência na Índia.

Paralelamente, as tradições helénicas e judaico-cristãs que deram origem à ciência política do Ocidente esbatem-se e diluem-se na multiplicidade de outras tradições religiosas e filosóficas dos povos imigrantes, que são frequentemente incompatíveis ou até avessas ao modelo implementado deste lado do mundo.

Daí os diferentes graus de aplicabilidade do quadro jurídico e constitucional das repúblicas e das monarquias europeias, em função de etnias e credos. Daí as "No Go Zones", guetos onde a lei não incide e aos quais as forças de segurança dos estados não acedem. Daí a discriminação e objectificação das mulheres em países que se orgulham do seu histórico percurso de emancipação feminina. Daí o decaimento dos níveis de alfabetização em sociedades que obrigam a um longo período de escolaridade. Daí as bolsas de miséria um pouco por todo o lado e o aumento dramático dos índices de criminalidade em nações que até há muito pouco tempo eram dos territórios mais seguros do mundo, de que é claro exemplo a Suécia. Daí o novo normal dos números de desemprego absolutamente anormais. Daí os custos galopantes da assistência social e dos serviços universais de saúde que levam à falência técnica das contas públicas e ao perpétuo e incomensurável endividamento dos Estados. Daí as tensões sociais, dramáticas, que se vivem hoje em França e que ameaçam a guerra civil. Daí a eleição de autarcas como Sadiq Khan, o Mayor de Londres, que é declaradamente um inimigo dos valores ocidentais. Daí a alteração de cor ideológica em estados da federação americana que eram tradicionalmente republicanos, rompendo lógicas centenárias de alternância de poder, estabilidade dos sistemas sócio-políticos e coerência dos órgãos judiciais. Daí a queda das identidades nacionais num inferno tribal. Daí o trambolhão moral dos indivíduos num relativismo sem referências de virtude, dever, honra e dignidade.

Daí a fragilidade económica, cultural e operacional do Ocidente.

Daí o viciar do jogo democrático, em que a vontade das maiorias não prevalece sobre certas minorias, em que o velho equilíbrio das forças políticas em presença é adulterado pela entrada no mercado eleitoral de populações que não entendem nem se revêm nos valores e nas premissas que fundamentam o sistema e que são facilmente manipuladas pela ideologia que lhes abriu as fronteiras.

E se achas que isto não é fazer batota, paciente leitor, não contes comigo para um jogo de cartas.


(Cont.)
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Parte 1
Parte 2

sexta-feira, junho 17, 2022

A pretexto dos males da "desinformação", servem-se às massas os benefícios da ditadura.

Depois da ideia de um Ministério da Verdade não ter ganho tracção nos Estados Unidos (o colégio de censores foi cancelado antes de ter entrado em acção), no Brasil encontraram uma maneira super prática de normalizar o discurso político e marginalizar candidatos a cargos públicos que se desviem da narrativa globalista/woke: o Supremo Tribunal Eleitoral do país resolveu decidir que qualquer candidato responsável por actos de "desinformação" será automaticamente desqualificado do sufrágio a que se submeta.

E o que é "desinformação"? O Tribunal não explica. E que critérios ideológicos presidem à definição de "desinformação"? O Tribunal não esclarece. E será a pena por "desinformação" aplicada com isenção, independentemente da cor política dos candidatos? O Tribunal garante que sim, mas percebemos claramente que não, porque esta vaga, subjectiva e perversa lei eleitoral foi desenhada para acabar de vez com qualquer expectativa de reeleição que Bolsonaro possa ter.


Mais um caso em que se faz batota para acabar com a democracia. E daquele género de batota escandalosa, que no velho oeste dava direito a alcatrão e penas.