sábado, março 11, 2006

Um pequeno milagre.


Um dos mais intrincados problemas da astrobiologia contemporânea é este: a vida, como a conhecemos, precisa de água como um cortador de relva necessita de gasóleo. E é apenas sensato pensar que, onde há água, haverá um qualquer bichinho vivo, nem que seja a porcaria de uma bactéria. Mas, por fatalidade, a água corre apenas num infinitésimo intervalo de temperaturas: abaixo dos 0ºC transforma-se em gelo, acima dos 100ºC passa ao estado gasoso. Ora, tendo em conta as abissais amplitudes térmicas dos sistemas cósmicos, as hipóteses de dar de caras com um diabo de um planeta onde se verifique a existência de água são ainda mais improváveis do que descobrir a agulha logo à entrada do palheiro, certo? Errado. A Cassini acaba de registar a erupção daquilo que tem todas as possibilidades de ser, nada mais, nada menos, um excelente geiser no polo sul de uma geladíssima e quase irrelevante lua de Saturno. A notícia surge como uma chapadona sonora, pesadinha e certeira na cara macilenta da comunidade científica mundial. Se existe água em Enceladus, é porque, mesmo em sistemas dominados por condições ambientais extremas, são criadas condições para o evento de temperaturas amenas, do género das que conhecemos na Terra. Se existe água em Enceladus não é nada imbecil supor que, de facto, a vida orgânica manifesta-se para além do que temos por garantido no terceiro calhau a contar do sol. Se existe água em Enceladus, é justo especular sobre a existência de condições propícias à vida noutros locais do sistema solar, como por exemplo em Io, uma exótica lua de Júpiter que tem dasafiado a imaginação, até agora delirante, de um bom número de astrofísicos. Se existe água em Enceladus, podemos finalmente respirar de alívio: não somos os exclusivos detentores do impulso biológico no universo. Se existe água em Enceladus, deus esqueceu-se de nos dizer a verdade.

Mais (e melhor) informação sobre esta notícia absolutamente boa aqui.

sexta-feira, março 10, 2006

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Sem legendas.

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Columbano Bordalo Pinheiro. Quatro e picos da tarde. Um negócio de manequins para o retalho de pronto-a-vestir, exibe, desnudados, os seus modelos em acrílico, polipropileno, fibra de vidro e esferovite. Estáticas, as estátuas lançam um olhar provocador para um homem de meia idade e barba cerrada que interrompe seu caminho e, atónito, fixa o rosto alvo e imaculado de um destes magníficos exemplares. Passo por ele e oiço-o: "És mesmo tu, Odette?" E depois, resignado à realidade de um mundo sem fantasia, enquanto reinicia a caminhada: "Que Diacho, não podes ser tu."
Não estou a inventar nada. Na verdade, continuei no sentido oposto do amigo da Odette, até que este se afastou para fora do horizonte da percepção. Voltei para trás e acabei por ficar ali uns minutos, contemplando a Odette (era mesmo ela), o Gismundo (que reconheci logo depois), o Alberto (que não via há que tempos) e a Rosário (que permaneceu indiferente aos piropos que lhe dirigi). Todos eles - os manequins - estavam assustados e incrédulos. A Odette era capaz de jurar que tinha acabado de ver o seu Júlio do outro lado da montra. O Gismundo pensou logo em voltar à chatice dos tratamentos psiquiátricos, o Alberto insistia que se tratava de uma experiência religiosa e a Rosário, altiva, repetia as leis da termodinâmica, acentuando o disparate impossível que registava a contragosto. "Toda a gente sabe - e a ciência está aí para o demonstrar - que os humanos não falam, nem sentem, nem são atrevidos. Está mais que provado que esta gente só sabe subir e descer calçadas. Isto é apenas uma alucinação colectiva e já passa, vão ver." Como detesto arruinar os sistemas metafísicos dos outros, fui à minha vida.
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quinta-feira, março 09, 2006

O futebol é lindo.

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O golo de Simão Sabrosa em Anfield Road é uma obra prima de calibre estético renascentista. Este é um daqueles momentos em que gostar de futebol (e ser benfiquista) compensa à brava. Toda a expressão plástica do animal humano que dá beleza aos desportos de alta competição cabe nestes escassos segundos de prazer onírico. A coisa é tão bem feita que tem algo de irreal; há um certa transcendência quando a bola entra redondinha no canto superior direito da baliza. Para além da noite histórica, para além da alegria brutal da vitória limpinha sobre o campeão europeu, para além do júbilo imenso de ver, mais uma vez, o futebol português afirmar-se no quadro da alta competição europeia; fica este golo-maravilha. Este golo-prodígio. Este épico pontapé no rabo dos deuses do futebol (que, como toda a gente sabe, são ingleses).

terça-feira, março 07, 2006

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A saudade inevitável.

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À medida que o passar dos dias me vai corroendo o corpo, a alma e a consciência - essa santíssima trindade de sonhos traídos - agigantam-se mais e mais certos fotogramas de uma existência remota, retratos que permaneceram semi-ocultos na cortina do fumo estupefaciente da memória e que agora flasham, pretéritos, sobre o cenário concreto do presente do indicativo, ganhando dimensões sobre o relevo das horas, penetrando com tenacidade nos labores da razão prática, alterando policromaticamente a tela do mundo. As aventuras que deixei para trás, as pessoas que perdi no trajecto alucinante da vida, a pólvora genomática da juventude que fiz por rebentar sem cerimónias - explosivo que já não tenho em arsenal - certos caminhos da floresta que partilhei com outros lobos, determinados minutos de transcendência e fé, vastos calendários de promessas e episódios de redenção: tem-me subido tudo isto à cabeça e estou ébrio desse vinho sagrado com que fui matando a sede de viver.
Ontem, enquanto gozava a companhia quente de um amigo antigo, morreu o avô de uma velha amiga. No entretanto disto, o fotomaton recessivo do passado exibia-se em reposição de 88mm para os meus olhos de dentro. Volto a escrever isto: o que me intriga, o que me assusta na condição humana, não é a inevitabilidade da morte. É a inevitabilidade da vida.

Sobre direitos de autor.

Já não é a primeira vez que surgem equívocos sobre a autoria de algumas das imagens que edito neste blog e eu não gosto de equívocos. Explico-me: utilizo, ali e aqui, algumas imagens que não são minhas. Vou buscá-las ao banco royalty free da getty-images ou da wikipedia e não as credito da mesma forma que também não credito as fotografias minhas que vou editando pelo correr dos dias. No que respeita a imagens de figuras públicas, uso o que vem à rede sem problema nenhum. Ficam de qualquer forma avisados os ilustres visitantes que as rúbricas que se fundamentam na imagem são, para o bem e para o mal, obviamente, da minha inteirinha autoria (exceptuando o retrato de obras de arte que é originário de museus virtuais explicitamente rights-free).
Dito isto, que não me tomem, por favor, como um gajo de gostos piratas. Pago a minha música. Pago os meus filmes. Pago os meus livros. Não pago para estar aqui. E, assim sendo, entendo a blogosfera como uma causa comum sem fins lucrativos, nem legitimidade para rigores jurídicos deste irritante género. Obrigado pela atenção.

domingo, março 05, 2006

À escuta das Vozes da Poesia Europeia - V

Celebrando a feliz edição da revista Colóquio Letras - que traz à estampa, em três cuidados volumes, as traduções que David Mourão-Ferreira fez da poesia europeia.

MARCIAL E A MÁ LÍNGUA.

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Nascido na Ibéria ao tempo insano de Calígula e chegado a Roma em pleno inferno de Nero, Marco Valério Marcial (86-103 D.C) testemunhou in loco toda a demência ontológica inerente ao início do declínio do Império, incluindo o grande incêndio, as orgias de sexo e morte, as intrigas da corte, os assassinatos políticos, o regabofe absoluto na moral e nos costumes, o descrédito dos rituais e das instituições e, claro está, o triunfo da má língua.
Poeta da calúnia, ácido comentador das fraquezas mundanas, Marcial é um sobrevivente: exibindo despreocupadamente flagrantes falhas de carácter, o poeta mostrou-se sempre servil e pressuroso para com os seus péssimos reis, mas apenas até ao momento da morte destes, altura em que tratava de lhes corroer e enxovalhar alarvemente a memória. Mantendo-se cuidadosamente silencioso sob a poderosa protecção de Séneca, enquanto duraram os tempos bárbaros dos imperadores com atraso mental, inicia a publicação dos seus imortais Epigramas apenas com a subida ao poder de Tito Flávio e depois, de Domiciano, sumos pontífices igualmente incompetentes, embora mais tolerantes para com bobos e trovadores. Marcial também não era reconhecido pelos seus escrúpulos: vivia literalmente à custa de patronos de quem dependia até no que se refere ao vestuário, traía frequentemente amizades e segredos pela pertinácia de um verso e não revelava qualquer vestígio de pudor ao escrever sobre a ausência de pelos púbicos de um nobre, os trajes de quarto de uma cortesã ou a veneranda impotência de um senador. Mais a mais, fazia questão de os referenciar, nos versos, pelos seus nomes próprios.
A sua reputação até poderá ser algo injusta, dado o contexto psico-social da época, mas a verdade estará concerteza no que nos deixa de literatura e essa é, em paralelo, ordinária e genial, vulgar e brilhante; formalmente perfeita (o epigrama é um género grego que exige altos recursos estilísticos e impõe um regime métrico de complexidade quântica) mas com virulentos ataques de mau gosto e de maus fígados.
David Mourão Ferreira respeita bem a memória polémica de Marcial e opta por traduzir precisamente alguns dos mais picantes e mal criados epigramas, onde porém se expressa em tom sublime o humor, o virtuosismo, o sensacionalismo colunista do pai de todos os poetas de escárnio e mal-dizer que a humanidade em boa hora soube parir.
Deixo-vos pois, com Marco Valério Marcial e o desvario estético do esgoto sociológico de Roma.


Passam por teus os versos que recitas,
e que afinal são meus.
Tão mal, porém, tu os recitas
que passam a ser teus...

Epigramas - Livro I


Se depilas o peito, as pernas mais os braços,
se teu pénis também em torno é depilado,
é porque à tua amante assim melhor agradas...
Mas em quem pensas tu, ao depilar o rabo?

Epigramas - Livro II


"Não custa nada, não é nada",
dizes-me sempre, Cina,
de cada vez que me fazes algum pedido...
Se não é nada Cina,
nada então te recuso, meu amigo.

Epigramas - Livro III


Já sessenta anos tem o Orador Cascélio:
e já começa a dar vidas de ter talento...
Quando será, enfim, um orador a sério?

Epigramas - Livro VII


De seu membro viril 'stá doente o teu escravo;
tu, Névolo, do rabo.
Adivinho não sou; mas presumo o que fazes.

Epigramas - Livro VII


Não te envio, Pontiliano, os livros meus,
para que tu, assim, me não envies os teus.

Epigramas - Livro VII


A Partos, a Germanos, a Dácios dás-te Célia;
nem os da Capadócia, ou Cilícia recusas;
vêem mesmo de Mênfis para te fornicar,
e os negros indianos, pelo Vermelho Mar;
aos judeus circuncisos tão-pouco o leito negas;
e à tua porta apeia-se o cavaleiro alano...

Então por que motivo, moça romana sendo,
só enfim não te agradam as piças dos romanos?

Epigramas - Livro VII

Ontem descobri este senhor.

"Como compreender psicologicamente, socialmente, a capacidade dos seres humanos de interpretarem e serem sensíveis, por exemplo, a Bach ou Schubert, à noite, e de torturarem outros seres humanos na manhã seguinte?”

George Steiner, Errata.

quarta-feira, março 01, 2006

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"Há alguns dias levei um macho de Mantis Carolina a um amigo que possuía uma fêmea solitária como animal de estimação. Uma vez colocados no mesmo boião, o macho, alarmado, tentou escapar. Em poucos minutos a fêmea conseguiu imobilizá-lo. Ela começou por lhe arrancar o tarso anterior esquerdo e devorou a tíbia e o fémur. Em seguida arrancou-lhe o olho esquerdo. Neste momento, o macho pareceu aperceber-se da proximidade de um insecto do sexo oposto e iniciou uma série de vãs tentativas de acasalar. A fêmea, entretanto, comeu-lhe a pata anterior direita e em seguida decapitou-o completamente, devorando-lhe a cabeça e abrindo caminho para o interior do tórax. Apenas se deteve para repousar quando já havia comido todo o tórax do macho, à excepção de 3mm. Tudo se passou enquanto o macho tentava obter entrada nas válvulas, o que acabou por conseguir, uma vez que a fêmea voluntariamente a isso se dispôs, e o acasalamento consumou-se. Ela permaneceu sossegada durante 4 horas, enquanto os restos do macho, ocasionalmente, davam sinais de vida por meio de movimentos de um dos restantes tarsos. Na manhã seguinte, a fêmea tinha-se desembaraçado completamente do seu esposo e dele só sobraram as asas."

L. O. Howards - 1886
In "O Sorriso do Flamingo" - Stephen Jay Gould - 1985

terça-feira, fevereiro 28, 2006

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Logo à primeira audição de "First Impressions of Earth", a terceira pérola dos Strokes, percebe-se que as notícias da morte do rock, que tantos jornais venderam nos anos 90, eram bastante exageradas. Aquela que é hoje, na minha arrogante opinião, a melhor banda do universo, faz questão em demonstrar cientificamente, mais uma vez, que o género ainda vai parindo a modernidade e que está aqui para o que der e vier: com pontapés na boca e arrepios na espinha, com erecções e espasmos e ressacas de cavalo, com certeza no cagar e poesia da boa. "Sweetheart, my feelings are more important than yours / Oh, drop dead, I don't care, I won't worry / Let it go". Isto sim, é ser de boa companhia para uma guitarra eléctrica. O segredo dos Strokes é a inacreditável frontalidade conceptual com que abordam a Coisa. Uns riffs durinhos e redondos, o compasso rítmico de precisão escolástica (assim para o acelerado) e um sentido melódico que, mesmo quando implode a atitude punk-é-que-é-cool-vamos-lá-partir-a-loja, transforma a música num prazer imenso, onírico, penetrante. A banda está sempre com aquela pose porreira de não querer saber, esconde-se de glórias imagéticas e faustos cenográficos, rejeita o glamour MTV e chuta para a frente: "I've got nothing to say / I've got nothing to give / I've got no reason to live / But I will kill to survive / I've got nothing to hide". Boa onda. Muito boa onda. E está a rebentar aqui.
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quinta-feira, fevereiro 23, 2006

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Reencontros.

Uma noite difusa de 1989. Ritz Club. Três gajos de aspecto suspeito e barba por fazer embebedam-se na mesa do canto. E escrevinham à vez, no mesmo pedacinho martirizado de papel. E que raio escrevinham? Insultos, contos de ficção científica, crónicas de alcova, novelas da meia noite, pesadelos de Boris Vian, cadáveres esquisitos de toda a ordem, relatórios da sexta cerveja, anedotas do terror da vida. Dão os três, neste ofício de cinzas, pelo mesmo nome de José de Ícaro e vão acabar por se perder pelos interstícios da vida.
17 anos depois, o alado e trifásico personagem literário reencontra-se na blogosfera. O Pedro Barros, esotérico e inspirado, pan-demónio à solta sobre o aborrecimentro da vida, já não escrevinha insultos porque deu com o crânio no poste e depurou-se assim de vilanias. O Jorge Silva, que consegue fazer literatura com as contra-indicações de um antibiótico, queixa-se dos rins e venera o Zeca Afonso, num verdadeiro desenterro mitológico. E eu, Paulo Hasse Paixão, estou para aqui encostado à minha sombra, com saudades de quando éramos pequeninos e divinos, e procuravámos o sol com asas de cera.

quinta-feira, fevereiro 16, 2006

À escuta das Vozes da Poesia Europeia - IV

Celebrando a feliz edição da revista Colóquio Letras - que traz à estampa, em três cuidados volumes, as traduções que David Mourão-Ferreira fez da poesia europeia.

JUVENAL E AS QUEIXAS DE ROMA.

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É realmente uma chatice, mas sabe-se muito pouco sobre a vida de Decimus Lunius Luvenalis, o mais indignado e moralista dos poetas satíricos da história do Império Romano. Nascido no primeiro e morrido no segundo século da era cristã, Juvenal deixa à posteridade um vasto discorrer de protestos, críticas, censuras, lamentos, vitupérios, acusações, conselhos, imperativos categóricos, grandes máximas de tom paternalista e algumas saídas de génio proverbial, entre as quais a célebre equação retórica "Quis custodiet ipsos custodes?" (Quem guarda os guardiões?), a propósito da inutilidade de usar eunucos para guardar as mulheres dos nobres. A expressão "panem et circenses" (pão e circo) - utilizada para definir os instintos primários da populaça - é também da sua pertinaz autoria.
Juvenal viveu numa Roma mal criada, indigesta, perigosa e barulhenta; uma Roma pobre e imunda e caótica, emaranhado de ruas estreitas, calçadas esburacadas, telhados periclitantes e engarrafamentos de carroças; a rebentar pelas costuras de bêbados e bandidos, de putas e soldados, de escravos insolentes e fidalgos avarentos e senadores corruptos e matronas promíscuas. De tudo isto, muito se queixa o autor, nas 16 sátiras que sobreviveram às eras. Davida Mourão Ferreira escolheu traduzir precisamente alguns fragmentos bem elucidativos do tom choroso embora constestatário, hipocondríaco mas sardónico, do grande poeta.
Façam o favor de ficar pois, com o livro de reclamações de Juvenal, uma eloquente vítima da barbárie romana.

“O que a pobreza tem afinal de mais duro:
dar a qualquer pessoa um aspecto ridículo.”

“Morre-se aqui de insónia. E fica-se doente
com as más digestões, que nos deixam o estômago
em acidez ardendo... Onde encontrar um sítio
propício para o sono? É que só os mais ricos
poderão afinal dormir nesta cidade.
E é isto que nos mata. E que dizer do aperto
p’los carros provocados em as ruas estreitas,
do rebanho ruidoso e que não mais avança,
capazes de acordar mesmo aqueles que sofrem
da doença do sono? Apenas quem é rico
é que pode sem custo, em liteira fechada,
aí ler, e escrever, e dormir à vontade,
chegar aonde quer antes de toda a gente...
Nós, que vamos a pé, temos que suportar
a torrente de quem caminha à nossa frente
e a torrente de quem nos empurra p’las costas:
aqui, um cotovelo; ali, uma fasquia;
este me dá c’um pau, aquele com um vaso;
e tenho as pernas já salpicadas de lama;
e ora esmagado o pé por uma sapatorra,
ora fendido o pé p’lo ferro de um soldado!

Agora considera outra ordem de p’rigos
aos quais principalmente a noite nos expõe:
se uma telha cair destes altos telhados,
em que estado nos deixa o crânio, em que estado!”

Sátiras 3


“Quando a casa é maior, Mais insolente o escravo.
Repara nesse, aí que a resmungar te impinge
um duríssimo pão, de miolo empastado,
que sabe já a mofo e a teus dentes resiste!
Do alvo como a neve, inda por cima fofo,
só o dono da casa é que pode ingeri-lo...
E não penses sequer que vais tomar-lhe o gosto.
Retira lá as mãos! Refreia o apetite.”

Sátiras 5


“Há que um risco sofrer por uma justa causa?
Geladas de pavor ficam logo as mulheres...
Só pra desonrar é que mostram audácia,
pois não há nada, então, que as faça estremecer.

Enjoam no alto mar, tudo lhes causa náusea,
se têm que embarcar por ordem dos maridos...
Co’os amantes, porém, fazem boa viagem,
e tudo lhes agrada a bordo dos navios...”

Sátiras 6

segunda-feira, fevereiro 13, 2006

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Um mouro na cidade.

O Porto é uma cidade estranha. Viramos uma esquina e passamos da miséria urbana ao fausto burguês. Dobramos uma ruela - vindos da opressão caótica e suja e parda e sem horizonte - e abre-se um cenário irreal de metrópole rebelde, altiva e sensual. É o inverno cosmogónico que faz implodir a luz. É das trevas que provém o brilho intenso, a vaidade.

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O Porto é uma cidade estranha. Fechada dentro de si, mostra ao Douro apenas a roupa interior da Ribeira, as masmorras do carvão e os tentáculos das pontes breves. A baixa esconde-se por detrás de ruínas e decadências, de neblinas e cercos e muralhas tão antigas como o medo dos homens.

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O Porto é uma cidade estranha. As fachadas têm um peso específico para além das leis da física e amontoam-se entre um grafismo lúgubre e o chic burguês da virtude comercial. Há qualquer coisa aqui que não faz sentido, mas que me seduz. Há uma arquitectura que apodrece com magnificência. Há um respeitável modernismo entre o bolor das eras.

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O Porto é uma cidade estranha. As igrejas amarram-se ao chão como se estendessem raízes à procura de Deus no centro da terra. As torres quiméricas que apontam ao céu; rasgando, desafiadoras, o horizonte monolítico; são enrugadas e rendilhadas pela gravidade e o ar é de uma densidade alienígena: doem-me as costas da carga que trago por não ser daqui.

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O Porto é uma cidade estranha. Na Foz, a urbe confronta-se serenamente com a ferocidade do Atlântico, sacrificando às ondas a alegria do Sol. Em S. Bento, escoa-se a vida pelo fluxo ferroviário do mistério. No Paço Episcopal, passa-se droga e trocam-se anedotas. As formas e as funções incompletam-se e confundem-se na paisagem como uma aguarela que não foi acabada porque o génio morreu. E quem sou eu para perceber isto?

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quarta-feira, fevereiro 08, 2006

Façam o favor de incendiar mais embaixadas.

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A "Declaração do Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros sobre a crise dos cartoons" é de uma vilania incalculável, mesmo para este abismo da moral que é o sr. prof. dr. Diogo Freitas do Amaral.
Falando em nome dos portugueses - o que me deixa enojado - o sr. prof. dr. "lamenta e discorda da publicação de desenhos e/ou caricaturas que ofendem as crenças ou a sensibilidade religiosa dos povos muçulmanos." Na Declaração, nem uma nota solidária para com os seus congéneres dinamarqueses em Teerão (por exemplo), nem um desviozinho para condenar a violência abstrusa, despropositada e bárbara com que os povos árabes estão a tratar a questão. Nem uma palavra em nome da civilização ocidental, que sacrificou gerações e gerações em guerras, revoluções, reformas e outros mil santos ofícios, para que agora qualquer cartoonista tenha a suprema liberdade de enfiar preservativos no nariz dos papas ou bombásticas chapeladas na cabeça dos profetas. Felizmente, algum destes génios se lembrará de certeza de caricaturar o Ministro dos Negócios Estrangeiros, que se está a pôr muito a jeito; e também para que esse prazer nos seja dado, outros mais milhões de almas pereceram em trincheiras e fogueiras, em levantamentos e convulsões, campos de concentração e salas de tortura; sempre em nome daquilo a que chamamos direitos humanos, liberdades fundamentais ou - muito simplesmente - Civilização. Diz ainda o sr. prof. dr. esta coisa fantástica de que "a liberdade sem limites não é liberdade, mas licenciosidade." O sr. prof. dr., pelos vistos, acha que é licencioso relacionar, para fins de sátira, a fé maometana com o terrorismo internacional. E acha assim porque:

a) Não percebe nada de história;
b) Não percebe nada de história das civilizações;
c) Não percebe nada de história das religiões;
c) nunca ouviu Bin Laden a falar de guerra santa;
d) ainda não conseguiu entender que os estados islâmicos não são laicos;
e) ainda acredita que a política nuclear iraniana se destina à produção de energia para consumo doméstico;
f) É um bruto e não tem sentido de humor.

Mais uma vez em bicos dos pés, mais uma vez infame e ridículo, mais uma vez desastradamente irresponsável, o sr. prof. dr. Diogo Freitas do Amaral perdeu uma enorme oportunidade de estar caladíssimo. E, mais uma vez, prestou um péssimo serviço ao País, à Europa e ao Ocidente.

quinta-feira, fevereiro 02, 2006

Manias*

Tenho a mania de tirar macacos do nariz
e de ficar pelo discorrer da madrugada acordado;
é um hábito maluco que me faz feliz
e dorme bem de dia quem tem o sono pesado.

Tenho a mania maleita que sou de direita,
é o que me dizem os amigos de esquerda.
(De vez em quando também faço a desfeita
de mandar certos amigos à merda).

Tenho a mania disto de ser ateu,
é já bastante ter fé na religião da gramática
e servem bem ao céptico que sou eu
as leis sagradas da matemática.

Tenho a terrível mania de desesperar.
Chateia-me na vida o seu trajecto imperfeito
e de alguma maneira terei de exorcisar
a puta da maldição a que sou sujeito.

Tenho esta mania perneta que sou dotado
para certas artes de onírico tema.
Na verdade sou muitíssimo desastrado
como bem se ilustra neste poema.

Enfim, confesso, a mania dos brinquedos.
Mas o mal de que mais tenho sofrido,
a fobia sobre todos os medos,
é, no fim das contas, ir a morrer falido.


* Ao desafio com o blogger Viriato.

domingo, janeiro 29, 2006

Koeman outra vez.

Para além da vergonha gorda de levar um banho de bola de uma equipa medíocre como é medíocre a equipa do Sporting (e a sério que digo isto com o devido respeito para com o meu clube rival), ficou a incompetência de Ronald Koeman demonstrada por mais uma cansativa vez. Direi até que os treinadores holandeses presentes na Liga são tão fraquinhos como o futebol da nação que os pariu. Ou, no mínimo, uns furos abaixo da realidade competitiva deste pequenóide país Portugal, onde até se joga mais ou menos à bola. O inqualificável Beto será bom jogador para o Ajax. Para o Benfica é apenasmente ofensivo. Resta-me a alegria triste de ter um blog com melhor memória do que alguma vez sonhei para mim. E, assim sendo, aqui fica o que já editei com referência ao atraso mental deste senhor treinador da equipa de futebol do meu querido Sport Lisboa e Benfica. No primeiro replay sobre o jogo em Alvalade (os erros foram os mesmos), no segundo sobre aquela estupidíssima noite em Old Trafford.

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sábado, janeiro 28, 2006

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Da Wikipédia, com amor:

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"Quer saber como eu componho? Posso dizer-lhe apenas isto: quando me sinto bem disposto, seja na carruagem quando viajo, seja de noite quando durmo, ocorrem-me idéias aos jorros, soberbamente. Como e donde, não sei. As que me agradam, guardo-as como se tivessem sido trazidas por outras pessoas, retenho-as bem na memória e, uma após a outra, delas tomo a parte necessária, para fazer um pastel segundo as regras do contraponto, da harmonia, dos instrumentos, etc. Então, em profundo sossêgo, sinto aquilo crescer, crescer para a claridade de tal forma que a obra mesmo extensa se completa na minha cabeça e posso abrangê-la de um só relance, como um belo retrato ou uma bela mulher... Quando chego neste ponto, nada mais esqueço, porque boa memória é o maior dom que Deus me deu."

Wolfgang Amadeus Mozart

sexta-feira, janeiro 27, 2006

Caravaggio ou o drama humano.



Michelangelo Merisi, nascido no Ano do Nosso Senhor Jesus Cristo de 1571 em Caravaggio - código postal Bérgamo - é um daqueles super heróis que dão mesmo prazer a um qualquer tipo que tenha um qualquer blog.
Nem sei se tenho pinta para escrever sobre esta monstruosidade sapiens-sapiens, que por abstruso desígnio teve de conviver aos pontapés com os neandertais de um renascimento maduro e hostil para com tamanha valentia; vítima de ter nascido à morte de Leonardo e criança ainda no apogeu de Michelangelo Buonarroti (azar dos azares pelo qual trocou o seu nome de baptismo pela onomástica da pequena aldeia Lombarda que o pariu), Caravaggio é - certificadamente - um animal eleito pelos céus!


Eu explico: enquanto Roma - como qualquer outra cidade estado da península - fervia ainda em lume brando o espanto de ter Renascido esteticamente das cinzas de mil e quinhentos anos, já o Desmancha Prazeres contradizia e disputava. Cristo não viveu, nem morreu, por entre anjos e aristocratas, querubins e pontífices, demónios e magistrados, santos e príncipes. Toda a gente sabe disso porque está escrito no Novo Testamento que o Filho Primogénito do Senhor preferia - para o bem e para o mal - a companhia de putas e pescadores, bandidos e facínoras, feirantes e músicos de feira, soldados e verdugos, vagabundos e agiotas. E, o que é mais, tanto igual se pode dizer de profetas e iniciados do Antigo Testamento.



Ora se os dois almanaques de Deus são deveras explícitos, que raio, seremos de tal forma snobs e pudibundos, botas de elástico e armados em bons que nos recusamos a pintar a mitologia como ela foi de facto experimentada no campo? Herético é aquele que ignora a escumalha porque a escumalha é o fruto favorito e massificado do criador. Não se louva a deus com cosméticas de sacristia nem se serve Jesus se pintarmos os lábios do seu carrasco. E é com esta valentia, senhores, é com esta determinação, senhoras, que nasce o Naturalismo. Caravaggio excomunga a onírica renascentista e as suas referências mainstream da arte clássica para colocar as pessoas da rua na iconografia cristã. Mas - muito importante - vai mais além e preocupa-se esencialmente em capturar o sofrimento implícito nos episódios biblícos. A dor, a impotência, a humilhação, a escravidão, a brutalidade, a tortura, o intenso esgoto da vida humana.

Ele mesmo sabia daquilo que estava a pintar: Inimigo dos clássicos, mas personagem de tragédia, homem de porradas e duelos, de confrontações e bengaladas, Caravaggio envolve-se durante a sua curta vidinha num turbilhão de violência e ódio e perseguição e desventura. Preso frequentemente por pancadarias em bordeis - que deixavam vítimas muitas - e por desafouros à arte sacra - que perturbavam a glória dos tempos - este verdadeiro forcado da existência nunca se cansou de segurar a vida pela pega mais afiada.



É claro que quem vive no gume acaba por se cortar e em 1606 Caravaggio - num gesto socialmente desastrado - assassina um nobre por causa de um jogo de pallacorda. Uma coisa era matar um gajo qualquer numa tasca imunda. Outra era espancar um aristocrata até ao fim num elegante court de ténis. Expulso de Roma e proscrito em grande parte da cartografia, os quatro anos que lhe faltam cumprir são dignos de Homero: de fuga em escapadela, de perdão em traição, de desilusão em desespero, Caravaggio vai correndo a Itália em direcção à morte.


Ainda pinta à brava, mas sobretudo foge. E quando finalmente é perdoado e convidado a deixar o exílio, dá-se um daqueles equívocos de Odisseia que deitam tudo a perder, para que ganhe apenas o diabo um companheiro mais: por uma questão de saias ou por outra de vinganças, comparece lamentavelmente tarde demais ao barco da libertação; de tal forma que chegam a Roma somente os seus haveres (que serão confiscados) e as notícias, nada exageradas, de que o peregrino cineasta do grande plano, o druída entre magos do enquadramento fechado e gráfico, o sumo patriarca da luz e das sombras (aqui já há Rembrandt), o primeiro ministro de todos os realismos, Michelangelo Merisi, conhecido por amigos e inimigos pelo nome da aldeia em que nasceu, morre, com 39 venerandos anos, numa praia deserta em Porto Ercole - Código Postal Grosseto - no Ano da Graça do Nosso Senhor de 1610.


segunda-feira, janeiro 23, 2006

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Acabou-se!

Depois de uma eternidade de lugares comuns, calou-se enfim a fanfarra esdruxúla das presidenciais. Espanta-me o facto de ainda haver gente para comícios. De ainda se levantarem bandeiras (oficiais) e de se ouvirem mesmo assim clamores de uma massa idólatra de baixo culto, que geme, mandatada pelos brasileiros da produção, aliterações de manada, cuja inspiração remonta ao paleolítico inferior da Terceira República.

Cavaco Silva aprendeu a lição de Sócrates: quanto menos se disser, melhor. Afinal, o que se pode dizer de verdadeiro é tão deprimente que se perde sempre uma lindíssima oportunidade para estar calado. O mudismo ideológico e a invalidez personalística dos líderes é fatal para a democracia, porém - dado o contexto histórico - a estratégia é de uma eficácia devastadora. Acho que o homem merecia o emprego, mas lamento dizer que votei sem esperança.
Manuel Alegre desceu pelas escadas da Assembleia da República mascarado de cidadão e dois em cada dez cidadãos não perceberam o carnaval. O incorrigível primeiro ministro (sob o alto patrocínio das estações de televisão) cortou-lhe a palavra. E o que é que se perdeu com isso? nadinha, zero. O senhor também não tinha nada de especial para dizer e, convenhamos, ainda não lhe tinha sido aplicado o justo punitivo.
Mário Soares perdeu duas coisas, hoje: a eleição e a glória.
Jerónimo de Sousa é um político brilhante e merece, folha por folha, os louros de mais uma vitória moral do Partido Comunista Português. Infelizmente para ele e felizmente para o País, o partido continua sem uma saída ideológica para a contemporaneidade. O homem é excelente, mas os argumentos são do século XIX. Assim, não dá para mais que isto.
Francisco Louçã já está a sofrer as dores da vida: o partido vale agora mais do que ele e o facto do Bloco ficar com um líder fragilizado é algo que me deixa bastante feliz, confesso.

Tudo isto junto é, apesar do barulho, de muito pouca substância. E,sinceramente, uma semaninha bem medida chegava e sobrava para a cacafonia ritual.

terça-feira, janeiro 17, 2006

À escuta das Vozes da Poesia Europeia - III

Celebrando a feliz edição da revista Colóquio Letras - que traz à estampa, em três cuidados volumes, as traduções que David Mourão-Ferreira fez da poesia europeia.

HORÁCIO E A VITAMINA DO DIA.
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Ilustre poeta clássico, Quinto Horácio Flaco (65 A.C - 8 A.C.) é célebre pelo que deu à lírica, tanto em versos como em conselhos. Uns e outros produto pródigo de um talento imenso e de uma existência atribulada. Na convulsão política e militar que decorre do assassinato de Júlio César, Horácio decide desgraçadamente alistar-se nas fileiras de Brutos, uma tropa de improvisos, condenada pela providência a ser esmagada por Augusto, que se apressa a deportar o infeliz. Perdoado pelo estado mas castigado pelos deuses, regressa a Roma para encontrar o pai morto e a propriedade confiscada. Reduzido à miséria conhece Virgílio e depois - algo mais importante - ganha a amizade de Mecenas, generoso aristocrata que financiará as suas notáveis Odes, Sátiras e Epístolas.
Talvez por tudo isto - ou nem por isso - David Mourão Ferreira escolhe a magnífica e imortal Ode a Leucónoe, um elogio da existência como uma experiência intensa e despreocupada do momento presente. Por razões que podemos adivinhar facilmente, Horácio apela à sua ninfa para que se deixe arrebatar pela vertigem de um imediatismo hedonista. O futuro aos deuses pertence e nem vale a pena frequentar oráculos: se o que temos é o aqui e o agora, o melhor é aproveitar. Não sei se Horácio inventou este irresponsavelmente lindo paradigma (a Epicuro devem estar reservardos os direitos de autor), mas pelo menos tem o mérito de ser o primeiro a lançá-lo para a combustão da poesia. Eis, pois, nas suas próprias e eternas palavras, um conselho que, afinal, já todos seguimos um dia.

CARPE DIEM
Ode a Leucónoe

Não procures, Leucónoe - Ímpio será sabê-lo -,
que fim a nós os dois os deuses destinaram;
Não consultes sequer os números babilónicos:
melhor é aceitar! E venha o que vier!
Quer Júpiter te dê inda muitos Invernos,
quer seja o derradeiro este que ora desfaz
nos rochedos hostis ondas do mar Tirreno,
vive com sensatez destilando o teu vinho
e, como a vida é breve, encurta a longa espr’ança.
De inveja o tempo voa enquanto nós falamos:
trata pois de colher o dia, o dia de hoje,
Que nunca o de amanhã merece confiança.

sexta-feira, janeiro 13, 2006

O umbigo dos deuses.

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O Centro da Via-láctea, a 26.000 anos luz da terra. Imagem capturada pelo telescópio espacial de infra-vermelhos Spitzer. As áreas a vermelho vivo estão associadas a estrelas muito jovens e quentes, que se desenvolvem em berçários estelares. Aparentemente, o vórtice da nossa galáxia é muito concorrido: esta imagem abrange um horizonte cósmico de apenas 900 anos luz.

sexta-feira, dezembro 30, 2005

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Insónia na Amazónia.

No dicionário de rimas
do Senhor Visconde de Castelões
(Editorial Domingos Barreira),
as palavras passam a palavrões
e reduzem o Português a poeira.

Insónia, por fatalidade,
rima com Paflagónia,
com adansónia,
com escalónia.
E com santimónia, é verdade.

Esta minha vontade de não dormir
por força terá que admitir
a troca de favores com bolónia,
com sidónia
e com plutónia;
palavras sábias, sem dúvida nenhuma,
para todos e cada uma;
excepto para o infeliz desgraçado
que permanece acordado.

Excepto para o versador de fim-de-semana
de pesada pestana que:
não tem sono nem harmónia;
não gosta de banhar a lírica em água de colónia;
não sabe onde é que fica a Esclavónia;
não acerta na estirpe do vírús da monocotiledónea
e acha excessivamente excessivo levar o verso até Semprónia.

Não encontrei a cachimónia
mas tenho a certeza que o mestre da rima
sabendo dela, a colocaria logo por cima
de cassidónia.

Porque, sim, temos a estética
da ordem alfabética!

Ora, o Senhor Visconde de Castelões, que é um artista,
podia era ir à fava, com o seu dicionário surrealista!

terça-feira, dezembro 13, 2005

À escuta das Vozes da Poesia Europeia - II

Celebrando a feliz edição da revista Colóquio Letras - que traz à estampa, em três cuidados volumes, as traduções que David Mourão-Ferreira fez da poesia europeia.

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CATULO, IPSITILA, LÉSBIA E O MARIDO DELA.

Gaio Valério Catulo (84 A.C.- 55 A.C.) foi um dos mais influentes poetas romanos do seu tempo e por muitas e saborosas razões. Vanguardista doido, teve a coragem de mandar às urtigas o cânone homérico, trazendo para a poética as coisas mais pequenas e saborosas da vida quotidiana. Nada de telenovelas divinas ou da improvável glória dos guerreiros facínoras, maiores que a própria vida: a verdade é não haver heróis que se aguentem à bronca do dia-a-dia, nem força na multidão que transcenda o egotismo, e a poesia precisa é da humanidade corriqueira, do individualismo e da pilhéria, da contestação e do escândalo. Em vez do sal épico, a pimenta erótica. Por oposição ao formalismo estético, a diatribe lírica.
David Mourão Ferreira escolhe 3 obras deliciosas que reflectem bem o espírito desta romanesca figura, imparável beijoqueiro e valente fornicador. Lésbia, personagem que inspirou frequentemente o líbido e a veia do poeta, será muito provavelmente a mulher de um infame contemporâneo (Cláudio Pulcher), embora o seu nome decorra da alusão à poetisa Sappho de Lesbos (séc. VII A.C.). Sobre Ipsitila, não encontrei referências, mas perante a natureza do Convite, é ajuízado deixar que a memória da musa permaneça no anonimato. Eis portanto Catulo, o menino terrível da Grande Alcova do Império Romano.


CONVITE A IPSITILA

Como eu queria, ò doce Ipsitila,
que me fazes arder, delícia amada,
fazer contigo a sesta neste dia!
Se te apetece o mesmo, se te agrada,
a porta deixa então só encostada...
E não saias de casa. E me convida...
Prometo que serás bem fornicada
ao todo nove vezes de seguida!


A LÉSBIA

Vivamos, Lésbia, amando,
e que não nos perturbe
o cansado murmúrio
de quem envelheceu.
Podem morrer, nascer
seguidamente os sóis:
a nós porém, assim
que a breve luz nos foge,
logo nos é forçoso
dormir a inteira noite.
Beija-me cem, mil vezes,
inda mais cem, mais mil,
agora mil, e cem...
Depois, quando fizermos
tantos milhares que nem
os possamos contar,
baralhemos a conta,
para evitar que alguém,
sabendo o número exacto,
nos venha a invejar.


AO MARIDO DE LÉSBIA

Se Lésbia me difama em frente do marido,
eis logo o imbecil no auge da alegria!
Pois não entendes, burro? O silêncio, o olvido
seriam bem melhor... E se ela me injuria
é não só por se recordar ainda
mas porque no seu peito a chama não se extingue!

sábado, dezembro 03, 2005

I was a punk before you were a punk.

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"You want some action? I'll put your ass in traction baby,
I was a punk before you were,
I was a punk before you."

Spooner/Evans/Waybill - 1977

É apenas justo que eu diga assim: a front cover que vêem na imagem apresenta aquele que é, na minha envergonhada/orgulhosa opinião, o melhor disco de rock de todos os tempos. The Tubes é uma banda que nunca consegui deixar de ouvir e este foi o segundo álbum que comprei na minha vida e esta gravação ao vivo, para além de ser precursora dos grandes e multimediáticos concertos como os conhecemos hoje, é uma verdadeira ópera. Passou no Dramático de Cascais, com a pompa e a circunstância e a logística louca que os Tubes colocavam em palco. Não sei como é que foi possível não encontrar na net uma foto que seja da magnificência cénica dos concertos desta banda que - em 1978 - arrasava a cultura musical do mundo. Mas lembro-me das parangonas dos jornais ingleses perguntarem ao burguês se achava que a sua filha devia ver este concerto. Mas lembro-me do Fee Waybil com rolos de papel higiénico nas virilhas antes de saber quem eram esses tais de Sex Pistols. Mas lembro-me muitíssimo bem de ser punk antes que os Clash dessem um peido que fosse. Aliás, os Beatles existiram só para que os Tubes pudessem interpretar a canção "I Saw Her Standing There". Estou a falar de uma banda que não ficou para a história senão para a minha história. E estou, por isso, muito contente comigo e muito contente com eles.

quinta-feira, dezembro 01, 2005

Caso passes por aqui um dia.

Faz hoje setenta anos que morreste
e - como já era tua previsão -
é quando faz anos a tua morte que se lembram de ti.

Faz hoje setenta anos que morreste
e não deve ter sido lá muito agradável
ir a enterrar com tantos gajos na mesma urna

(O Álvaro, tu dizes que não, mas devia ser gordo,
o Ricardo por certo que não tomava banho,
o Bernardo tinha mau dormir e o Alberto,

Que passou a vida doente dos olhos,
não estava ainda preparado psicologicamente
para aquilo). A propósito,

Em que hospital internaste o Alexander Search?
Faz hoje setenta anos que morreste
e eu acho até que te enterraram vivo.

Porque - mesmo com a televisão a dizer
que faz hoje setenta anos que morreste,
não me cheira.

Tu enganaste-os bem, Fernandinho meu querido,
que ainda andas por aí aos pulos por dentro,
à procura do mistério. Que ainda

Brincas com a metafísica e inventas horóscopos
para deus. Que ainda trocas correspondência
com aquele inglês tresloucado e vigarista

(Nunca foste grande coisa a escolher os amigos),
que ainda andas por aí a fingir que és tu
e mascarado de ti, para que ninguém te reconheça.

Tu levaste-os foi com a conversa pagã do Caeeiro
e os ateísmos naturalistas do Reis, (tiveste olho!)
pois juro-te que foi contigo que em Portugal

Se desacreditou a imortalidade.
Só para que agora possas andar em Lisboa
à tua vontade, para cá e para lá.

Porque se faz hoje setenta anos que morreste,
eu sei que só de virgindade contas tu
mais de um século, meu grande maricas.

(Que diabo, Fernando, faz hoje
117 anos que nasceste,
e ainda não foste um animal, pá.)

Sim, Romeu de papel de carta,
que trocaste a eterna Ofélia pelo trans-sexual
do Álvaro de Campos! Um engenheiro!

Mais a mais com essa tua veia,
e as confissões queriduchas que lhe escrevias,
encantadoras para ti, mas que pensaria realmente

ela, Ofélia, Atena de olhos garços,
que provavelmente ia buscar a Ulisses
o que não tirava do teu corpo imaterial?

Faz hoje 70 anos que foste a enterrar, isso sim.
No velório a malta de que falavas estava lá,
inconsolável e contando anedotas.

O funeral foi lacónico e havia crianças
a chorar por birra. Não pelo tio Fernando,
mas pela ausência do cavalinho de pau.

E quando todos se retiraram, já predispostos
a celebrar-te duas vezes por ano:
à data do teu nascimento e à data da tua morte,

Continuaste estranhamente espertíssimo
e bem acompanhado; sacudiste a poeira do cadáver
que afinal sempre tinhas sido e foste à tua vida,

Malandro. Afinal, não podias entregar a alma
assim de borla. Não sem que primeiro fizesses
o devido comércio com o diabo, coisa proveitosa

Para toda a gente de bom senso e especialmente
proveitosa seria para ti se a vendesses
em troca de mais uma mascarilha

ou de qualquer outro adereço de prestidigitador.
Faz hoje setenta anos que morreste?
Nem pensar, por esta altura deves estar

Enfiado num quarto qualquer do chiado
encharcado em absinto e a pregar aos rebanhos,
e a escrever odes industriais e a fumar

Cigarros americanos. Sim a esta hora, deves
estar a fabricar mais não sei quantas maneiras
de ser imortal, que é isso que tu fazes melhor

E que é isso que tu não explicas a ninguém;
também não és parvo nem romancista russo.
Faz hoje setenta anos que morreste, uma ova!

Está-se mesmo a ver: logo tu, que em vida
te comprazias a enganar toda a gente,
ias agora ser um morto de verdade...

Mas nem por isso julgues, mestre querido,
que te quero mal. Só pela graça de te parir
valeu a pena fazer Portugal.