sábado, agosto 20, 2011

Rocketville #0_Código Postal ou o elogio do foguetão.





Sonho com o dia em que deuses astronautas me elevem da terra,
À boleia de um opiário sideral.
Não me importa o destino nem o improvável regresso ao planetário natal.
Não quero saber das saudades:
Nas profundezas do espaço hei-de encontrar Portugal.
Anseio por que me raptem lagartos indígenas de galáxias obscuras,
Mestres e divindades e imperadores das alturas,
Almirantes rendidos às forças do mal,
Astronautas que me elevem da terra, numa boleia sideral.
Sacrifico-me às piores torturas, à agonia das imponderabilidades
E ao esquecimento final;
Quero é partir foguetão, com tonturas e fatalidades de inércia astral!
E não me venham com as saudades:
Há um cosmos de localidades
E eu, com mil diabos, hei-de encontrar Portugal.

domingo, agosto 07, 2011

No Reino de Artur

FICÇÃO CRIADA A PARTIR DOS HABITANTES DAS ESTÓRIAS DE ARTUR PAIXÃO

Floriano do Ó roda nos dedos a pastilha para a azia
Que traz na alma,
Enquanto o Homem das Massas
Disserta sobre conteúdos e audiências e emborca um escocês de 12 anos
Como se no guião do destino não houvesse amanhã.
Não fosse já bastante o martírio, entra p'lo escritório,
De litrada em punho no desabrigo da sua filosofia,
Malaquias da Saudade, cambaleando numa gritada infernal
Sobre a falência de Deus.
Atrás dele, como um paparazzi na perseguição do escândalo,
Vem o Rúben Perdigoto;
E atrás dele, como um inquisidor na urgência da fogueira,
Vem o padre Tristão.

Está instalado o bordel.

Floriano do Ó aguenta-se, cada vez mais pequenino
Na sua cadeira de tédio.
Para enganar o ruído trauteia para dentro,
Num inglês inventado, acordes sinceros:
Ai gotchiú ander mai sequine
Não há Francisco Alberto, como o Francisco Alberto Sinatra.

O escritório tem cinco lugares sentados, apenasmente
E já se dá pelo incómodo da polifonia abundante por metro quadrado
Quando chega Segismundo d'Ávila, artista plástico.
Traz o fumo do seu cigarro francês e a pretensão indefinida
De quem fuma tabaco estrangeiro.
Traz sarilhos e promete um pontapé bem acertado
No complexo genital de Rúben Perdigoto,
"Que é por causa das tosses, e da Hortense Luz,
Essa viúva impoluta que ousaste corromper,
Seminarista do diabo!"
Ao apelo das primeiras porradas, responde Anacleto Gadelhas,
Gorila de serviço e pistoleiro do pôr do sol,
Rompendo pela sala como o Jonh Calmeirão no seu cavalo branco,
Mas na verdade apeado de todo, até de bom senso e, acto contínuo,
Sai um pontapé na boca do Padre Tristão
E mais um estaladão na bochecha vermelhusca de Malaquias e

Fica a questão da metafísica mais que resolvida.

Floriano do Ó resiste, cada vez mais diminuto
No seu banquinho de sonhos.
Pesam-lhe os olhos interruptores
Enquanto entre o céu e o inferno
Se plasma a corrente alternada:
Agora nos braços da Gervásia, agora na tasca do Azambrino.

Uma coisa é certa no universo e essa coisa
É o caos e o caos tem uma gravidade própria e por isso
Atrai mais confusão ainda, numa espiral esfomeada de factores exponenciais.
Agora é a Anástácia dos Cogumelos,
A fiel e farta secretária do Homem das Massas
(E que lhe dá secretaria de todas as maneiras
Que se podem imaginar)
Que cai histericamente em cena, anunciando o apocalipse:
"Patrãozinho, patrãozinho, é melhor raspar-se que o meu Farturas
Vem aí para o matar!"
Nem tempo para o pânico, nem instante
Para a presença de espírito,
Eis o Farturas enraivecido que surge disparado
Pela janela panorâmica
(Com vista para o centro histórico de Mem Martins
E a ria da Bobadela).

É a cegada total.

Floriano do Ó sobrevive, cada vez mais ínfimo
No seu periclitante tripé de fantasias.
Vai-se encolhendo para dentro da orquestra
Do sono, numa beatitude de falsete:
Ai gotchiú dipe ine da arte ove mi
Não há Francisco Alberto, como o Francisco Alberto Sinatra.

Ainda assim, ia correndo a vida muito bem,
Entre facadas e desmaios, com sangue na alcatifa
E vinho tinto nos cortinados,
Com dentadas de última ceia e promessas
De "como-te vivo!",
Se não marcasse inesperada, infeliz e truculenta presença
O bom do Serafino Condesso
E toda a respectiva tropa testamentária, a saber:
Leopoldina - sua consorte,
Fagundes - seu primo,
Felismina da Vacaria - seu consolo,
Ti Timóteo - seu taberneiro e
Gamito da Pá - seu coveiro.
Claro está, é tudo apanhado no fogo cruzado
Dos cornos postos a nú e tirados a limpo e, claro está:

É o faroeste completo.

Floriano do Ó adormece, quântica silhueta
No abismo do seu trapézio de acrobata
Sinistrado. Mandem vir os palhaços!
E entre o circo, o sono e o sonho,
A corrente alternada continua a bombar:
Agora nos braços da Gervásia, agora na tasca do Azambrino.

E entre o circo, o sono e o sonho,
Há uma voz que vem do fundo do poço da vida:
Sou dipine mai arte déte iúar aparte ove mi.

quarta-feira, julho 20, 2011

Obra prima do momento - Artes plásticas


Christina's World - Andrew Wyeth (1917-2009)
The woman crawling through the tawny grass was the artist's neighbor in Maine, who, crippled by polio, "was limited physically but by no means spiritually." Wyeth further explained, "The challenge to me was to do justice to her extraordinary conquest of a life which most people would consider hopeless." He recorded the arid landscape, rural house, and shacks with great detail, painting minute blades of grass, individual strands of hair, and nuances of light and shadow. In this style of painting, known as magic realism, everyday scenes are imbued with poetic mystery.

O Testamento

POR ARTUR PAIXÃO

Serafino Condesso, natural de Bordaleja de Baixo, portador do B.I. 222771, casado, em pleno uso das suas faculdades mentais, declara como é de usança e seu direito, expressar as suas últimas vontades, porque não tarda um fósforo estão por aí os abutres do costume para medir o caixote que a coisa está mesmo por um fio, o que, francamente não me chateia mesmo nada.
Estou farto de reumatóides, artroses, artrites, dificuldades respiratórias, prisão de ventre e uma outra data de chatices que me injectam e cápsulas esquisitas com que me atulham as goelas já faz uma quantidade de luas e suas fases. Recuso-me admitir mais clisteres, transfusões de sangue e, sobretudo, aquela maldita vara que segura o saco do soro.
Assim, cedo a quem interessar a Leopoldina, minha consorte, sem quaisquer condições, bem como a minha sogra, veneno puro, velha gaiteira de costumes inclassificáveis. Em pleno uso dos meus direitos de cidadania como claramente determina a Constituição, lego parte do jardim da minha freguesia, urinol incluído, um décimo da sua superfície a bem da comunidade porque, se bem entendo, é espaço de minha e vossa propriedade. Ao Tesouro Público, aos glutões da Fiscalidade que sempre ignorei, deixo-lhes gostosamente a hipoteca a que não liguei peva e, evidentemente, os quinze ou vinte IRS por liquidar. Dos poucos terrenos circundantes do casebre, aproveitem os rabanetes e as urtigas que dão excelentes sopas.
À Nação, enquanto isso mesmo, à politica e aos Srs. Políticos que a vão destruindo pedra sobre pedra segundo li no jornal O Diabo até ao último pelintra, não deixo coisa nenhuma senão as pesadas despesas de que haverá gordo registo nas contas finais do hospital.
Órfão e sem descendência – A Leopoldina é uma ribeira seca conforme foi certificado cientificamente – resta-me um monte de ossos e um canto do olho que vislumbra, ainda, o excelente par de mamas da enfermeira Adozinda – que Deus a proteja – que se vai arrastando em torno da minha maca com sofrida ternura.
Ao meu único primo, o Anacleto, deixo-lhe a incumbência de liquidar as últimas quotas ao Bordalegense que não satisfiz por absoluta insuficiência de fundos como justa compensação dos dinheiros em que não pus o olho aquando da última poda de que me encarregou e também como paga das indecências que acamou com a Leopoldina enquanto me derreava a cavar-lhe a vinha. Não deve ter safado um único cochicho de prazer, o coitado, com aquela espécie de vagem seca, mas cá se fazem cá se pagam.
Não interessará a ninguém mas deixo, contudo, o testemunho da minha miserável incapacidade de ter sido alguém – dizem que por ter tido convulsões em pequeno e muita tosse convulsa - não passar duma besta quadrada, não ter sabido amar senão o meu gatito a quem a Leopoldina já deve ter torcido o pescoço e não entender isso que tanto ouvi dizer que a vida é bela quando em todo o tempo sempre me senti uma inutilidade, um tronco nodoso à deriva na Ribeira Grande.
É verdade que vivi alguns pequenos prazeres com a boa da D. Felismina na vacaria onde me pedia para a ajudar a mungir a Florbela, um amor de vaca tal qual a sua dona e o pôr do sol da ponta do casebre enquanto me regalava com uma lata de sardinhas com o gatito e um garrafão de tinto verde que não paguei ao Ti Timóteo, que certamente não vai ralar-se um copo que seja com o desaforo.
Vêm aí os Srs. Doutores, solenemente cabisbaixos para o que deve ser o seu último veredicto. Vou fazer o impossível para lhes abrir um sorriso amigo, grato com as atenções que me dispensaram apesar da imposição dos malditos clisteres.
Por último, ficaria também muito grato a alguma boa alma que fizesse o favor de repor num dos oratórios da capela de S. Gervásio uma imagem barroca que dali subtraí sem intuitos criminosos, num momento de devoção inexplicável que o patrono da freguesia de certo me perdoará e a quem prestarei contas senão já saldadas.
Devem existir ainda alguns trocos debaixo do meu travesseiro que gostava fossem entregues aos coveiros. Isto se a puta da minha sogra não os trocou por tinto do Dão por que sempre manifestou comovente predilecção.
O porteiro do hospital, o Sr. Gamito, um gajo impecável e a querida mulher da limpeza fizeram-me o subido favor de testemunhar esta tristeza por obrigatória e estúpida exigência legal. Assina Serafino Condesso que vai desta para melhor, ex-vassoureiro da Junta de Freguesia de Bordaleja de Baixo, com todo o respeito pelo Sr. Presidente da mesma, um péssimo cantoneiro mas um copo do antigos.

Obra prima do momento - Pop


Walking Disasters - The Wombats

sábado, julho 16, 2011

Tortour de France.



Eles sobem, eles malham, eles suam, gemem, ralham,
perseguem e são perseguidos,
escapam do pelotão como da prisão os bandidos.
E há sempre um infeliz que a dois metros da meta
acaba por ser apanhado,
e há sempre um desgraçado que dá de fuças com a sarjeta
ou vai em frente contra o arame farpado.
Puta de vida montada no selim,
toca de trepar Pirinéus acima e pelos Alpes de seguida e até ao fim!

Eles drogam-se, alteram-se, injectam-se e é muito natural:
quem pedala assim não está no seu estado normal
e quem corre por sobressalto muito se cansa
na tortura de asfalto, na loucura do alto do Tour de França.

Obra prima do momento - Biografia



"O desconforto de Lamsdorff - que era considerável - foi partilhado por toda a comitiva imperial [russa] que considerava os encontros com o kaiser um completo martírio. Guilherme dava-lhes lições sobre bailado russo, colocava-lhes questões pessoais bruscas, trocava-lhes deliberadamente os nomes e ria-se ruidosamente. Pior ainda, pregava partidas humilhantes ao seu próprio séquito diante deles - dando palmadas no traseiro do seu chefe do Estado-Maior ou cortando os suspensórios de alguém - de modo que os russos ficavam sem saber para onde olhar. O ministro da corte, Fredericks, disse que cada encontro com o kaiser o deixava completamente destroçado."

Os Três Imperadores - Miranda Carter

A febre da velocidade segundo Almada Negreiros.



A velocidade parou em absoluto todos os significados.



A velocidade desloca-se por entusiasmo e nunca descarrila da felicidade.



A minha amante é a velocidade que eu monto.



O meu cérebro é que me arrasta a mim atrás dele no galope vitória da velocidade maior!



Viva a velocidade aceleradamente prémio!



Viva o verbo ganhar sempre por correr demais!



A eternidade existe sim mas não é tão devagar.




Texto: José de Almada Negreiros in K4 - O Quadrado Azul | 1917
Fotografia: Carina Wiesner
Lay-out Slot ScalexTrick: Paulo Hasse Paixão

Elogio do autoclismo.

Vieram do corno de África despejados 
ordenados numa tribo de mecanismos,
vieram - Voom! - da lama merda e de alma lerda,
escatológicas figurinhas, anúncio de cataclismos.

Vieram e infestaram o cenário com um corolário
de costumes manias, negócios almoços,

sopas de pacote,
deuses de chicote,
contra-sinfonias desalegrias de moedas atonais nos bolsos.


Desceram porventura p'la aventura de um inferno de celofane
e pararam - Stop! - só a mando dos semáforos

que instalaram pelos desertos, pesadelos abertos,
mortos dispertos desde a invenção dos fósforos.

Vieram e multiplicaram-se - Zás - com o cio de comunistas,
corja de alpinistas na montanha horizontal,
 

pulularam - pop! - populistas, maus soldados, zoom turistas
pela geografia política do atraso mental.

Na sua febre amarela descobriram - hurra! - a caravela,
a direcção assistida e o artifício e o comício da arca congeladora,

enquanto cavavam a trincheira fogueira mangedoura
que havia de guardar no final juízo as cinzas do paraíso.


Arrasaram montanhas - Puf! - e entre outras façanhas
de ecologista ginecologista ainda foram violar o útero da lua;

arrastaram o fardo da história sem honra nem glória
e chutam cavalo selvagem - Hiá! - ao fim da viagem no jardim da minha rua.

É por estas e por outras rábulas vãs, que todas as manhãs
uma precaução sempre tenho:
expelir o humanismo do organismo,
santa purga de virtude e autoclismo - na casa-de-banho.

sexta-feira, março 04, 2011

Jeremy Clarkson, eat your heart out.




Dedico parte do meu tempo a um lay out de slot Scalex Tric com 20 metros quadrados onde cabem 2 pistas: Gran Prix e Rally (fotos aqui, para a semana). No entretanto sigo no nível 34 do Granturismo 5.
Escusado será dizer que já não preciso de estar ligado às acrobacias do Sr. Clarkson no Top Gear. E percebe-se assim melhor porque não escrevo no blog.


Planta das 2 pistas instaladas na Areosa - Porto

quarta-feira, dezembro 22, 2010



Muito deve a Portugal a História Universal.

O romano desdenhava do povo
Que não sabia ser gerido.
E o castelhano deu sempre um novo
Alento ao ódio mantido.

Mas que diria o vil cronista,
Se este Portugal de nobres reis
Tivesse demorado a reconquista
Até ao Século Dezasseis?

Muito deve a Portugal a História Universal.

Imaginem que Camões, equivocado,
Por desgraça nascia em Zurique,
Ou que o Pessoa, azarado,
Visse primeira luz em Reijkiavic.

Nem espanto haveria no fado
Ou consolação no alambique,
Se Vasco da Gama caísse naufragado
Ao largo de Moçambique.

Muito deve a Portugal a História Universal.

Considerem por momentos o efeito
Caótico, o preceito imundo:
Leopoldo o belga, Príncipe Perfeito,
na vez de D. João Segundo.

Outrossim, o Brasil do índio e da minhota,
País tropical, informal em calção,
Trocando piropos na língua de Goethe,
Trauteando, por deus, o samba em alemão!

Muito deve a Portugal a História Universal.

Não houvera o santo português navegado
Até àquela última e antípoda milha
E o japonês nem saberia dizer obrigado,
Eterno mal criado no exílio de sua ilha.

Sem Portugal, não teria quem espoliar
O britânico, nem digestivo p'ra depois do coito.
Ao francês, faria falta quem fosse limpar
O vomitado do Maio de Sessenta e Oito.

Muito deve a Portugal a História Universal.

Como se não bastasse dar guarida
Aos conhecedores da boa mesa
(Não seria bem mais triste a vida
Sem o cozido à portuguesa?),

Ainda fomos salvar a Europa
Da constipação ética
De ter a Oeste o martelo e a tropa
De uma república soviética.

Muito deve a Portugal a História Universal.

E não será oneroso para todos nós,
Não será até um dispêndio alarve,
Aturar godos, bifes e esquimós
Nas praias do Algarve?

Feitas as contas, o saldo analítico
Demonstra por resultado esta penhora:
Estamos a pagar desde o Paleolítico
O que pedimos ao FMI agora.

Muito deve a Portugal a História Universal.

Vista a filosofia sob o prisma rotundo
Do nosso maravilhoso umbigo,
Para além de dar mundos ao mundo,
Convenhamos, Portugal é amigo.

Pensem nisto vossas mercês,
Se não há razão no que digo:
O Pai Natal é Português
E o Português é amigo.

segunda-feira, novembro 01, 2010

As actuais prioridades da NASA, ou outro contributo para o entendimento do declínio da civilização ocidental.


Tenho contado este episódio a amigos meus e ninguém acredita em mim. Pois bem, o testemunho do actual director da NASA, que, muito bem mandado por Obama, estabelece como primeira prioridade desta instituição a partilha da tecnologia aeroespacial com o mundo árabe, está aqui, para todos verem que não minto (são só dois minutinhos de uma experiência aterradora):

Como é que é possível termos chegado a este ponto?

quinta-feira, outubro 28, 2010

A deserção como virtude #3


A deserção como virtude #2

Tenho a declarar que desisti do meu país.
Sou agora e para sempre um homem sem nação, razão e raiz.
Quero lá saber, desertei, desisti de vez
de carregar e trazer comigo a história e o perigo de ser português.

Tenho a declarar que desisti de Portugal.
Já não forço o falso orgulho, já não separo do entulho o mito viral
que outrora deu mundos ao mundo.
Escapei apátrida do calabouço, ascendi deste poço sem fundo.

Tenho a declarar que desisti do meu país.
Vomitei toda a vergonha e lavei-me da peçonha, não dá para ser feliz
neste rectângulo mal frequentado,
bordel do inferno, pesadelo moderno à beira-mar plantado.

Tenho a declarar que desisti de Portugal.
As fronteiras antigas desta Europa de brigas guardam um lamaçal
habitado por filhos da puta e foras da lei.
Afonsos, sanchos e ramalhos, ide chupar caralhos: eu desertei.

terça-feira, setembro 28, 2010

Uma preciosidade vinda directamente do paleolítico inferior:



A Whiter Shade of Pale, dos Procul Harum. Este sintetizador analógico é de veludo. E o poema está sob o efeito de uns ácidos muito poderosos. Seja como for, grande som, mesmo.

quinta-feira, setembro 23, 2010

Jornalismo transformista.

É certo que o jornalismo em Portugal é a miséria que é e toda a gente sabe que o Jornal de Notícias é uma coisa desaconselhável à brava, mas esta notícia sobre um acidente rodoviário na A4 bate todos os recordes da imbecilidade. Reparem bem no estilo rigoroso e objectivo deste parágrafo:

"Como ficou, todo estampado de costas, o atrelado tombado de lado na encosta, carga espalhada e os 12 rodados indignamente virados ao ar, o grande Scania R440, um muito possante semi-reboque, vermelho vivo, novo, parecia um Transformer que correu horrivelmente mal. Bastava ver-lhe a cara que é a sua cabina - pareceu ter levado um soco do céu: testa de vidro partida, grelha metida pelas fuças adentro, todo amarrotado como papel, um sem-número de fios e mecânicas vísceras, a escorrer, à mostra de todos. Metia dó, como um escaravelho que capota e não se pode levantar. Mas, mais do que isso, metia medo."
Custa a acreditar, mas este é o ponto a que chegámos. A notícia vem orgulhosamente assinada por um tal José Miguel Gaspar, que é certamente uma besta, embora na verdade não seja completamente culpado do dislate, na medida em que os atrasados mentais não têm culpa de serem atrasados mentais. O que pergunto é o seguinte: que raio de editor permite a publicação de um texto destes? O Jornal de Notícias é um pasquim, mas até os pasquins devem estabelecer os seus limites e é para isso que existem editores e sub-editores e coordenadores e supervisores e revisores e o diabo que os carregue, que deviam estar todos a dormir quando o triste Gaspar decidiu partilhar a sua insanidade com a triste audiência.

Anti-telejornal | Famous Last Words

"Conta-se que um poeta maldito do segundo império, Theodore Pelloquet, vagabundo e bêbedo que ficou afásico, ao tentar no seu leito de morte exprimir aos seus próximos a sua última vontade só conseguiu pronunciar a primeira sílaba: abs..., sem que se conseguisse saber se queria um copo de absinto ou a absolvição dos seus pecados por um padre."
Robert Bréchon - Estranho Estrangeiro - Uma Biografia de Fernando Pessoa
Photobucket

segunda-feira, setembro 20, 2010

Anti-telejornal | Declínio e Queda da Civilização Ocidental.



Um grande momento de televisão, carregadinho de poesia, vindo directamente de um dos poucos programas de prime time que deixam as balelas do discurso politicamente correcto para os telejornais. Grande Jeremy Clarckson, estás, infelizmente, cheio de razão. Depois de abandonado o programa espacial, depois de terminado o sonho do Concorde, resta ainda aos imbecis que estão mandatados para acabar com toda a glória da civilização ocidental, a morte do automóvel.

domingo, setembro 19, 2010

Pequena e Funerária História do Canal do Panamá.



Tudo começou com a desfaçatez
da geológica deriva

que separou os continentes de vez

na era primitiva.

Para inventar a danada longitude

dos meridianos,

a Pangeia - ousada atitude -

acabou por separar os oceanos

e isso não é justo, não é certo

nem é direito.

Mesmo depois de um esperto

Magalhães passar pelo seu estreito,

ninguém se deu por satisfeito
e três anos passados, o primeiro Carlos de Espanha
encomendou aos soldados a manha

de uma passagem pelo istmo mais ao meio,
de cá para lá;
e assim nasceu, segundo creio,

a história do Canal do Panamá.


Por muito que pusesse e dispusesse

o Rei espanhol,

não havia quem rompesse

a terra por debaixo do sol

e até ao Século XIX foram defeituososos esforços forçados:
Pacífico e Atlântico permaneceram teimosos

e separados.

Houve entrementes um senhor

que inventou a máquina a vapor

para o desterro
-
- e com ela a ideia de rachar o continente

com o chiar estridente

de um caminho de ferro.

A coisa não foi para a frente
,
talvez por parecer demente

resolver a geológica deriva

com os trabalhos de uma locomotiva.

Fosse como fosse, aqui e acolá,

andava meio mundo na perspectiva

de abrir um Canal no Panamá.


Em 1878 chegaram os franceses,

esse povo ilustre de aristocratas e burgueses
,
sob a batuta de um tal Lesseps Ferdinand,

homem virtuoso e grande

que já tinha aberto, como Moisés
,
as águas no Suez.

Começaram os trabalhos e concorrentes

chegaram a mortandade e a desgraça:

A chuva corria em torrentes

e as enchentes em devassa.

Se a morte não era esta era aquela,

morriam de malária

ou de febre amarela

o operário e o pária,
o capataz e o engenheiro;
e até o cangalheiro

acabava na grande urna funerária

dos vinte mil supliciados

que por lá ficaram sepultados.

Oito anos depois de serem chegados,
os franceses que ainda estavam vivos
retiraram ateus,
retiraram necessitados
,
do vinho de Bordéus
e de anti-depressivos.

E assim continuou ao deus dará

o sonho de abrir um Canal no Panamá.

Rompe o Século XX, e com ele os americanos

iniciam a sua interminável rábula de enganos.
Theodore Roosevelt, que era um estratega,

queria por viva força retomar o escorrega

que entre os dois mares faria a união.

A Colômbia, que era na altura

quem mandava na região,

não estava porém na quadratura

dessa astuta ambição.

Perante a colombiana nega
,
Theodore Roosevelt, que era um estratega,

Convenceu uns poucos palermas panamianos

a fazerem a revolução.

E porque a Colômbia quase não ofereceu resistência

(talvez porque a americana armada
no Golfo do México se fez estacionada),

o Panamá teve a sua independência

e os Estados Unidos a sua concessão.

Assim sendo, deu-se início em 1904 à remoção
dos primeiros calhaus
para benefício das futuras naus
em trânsito comercial
e do turismo humano
à escala global.
O primeiro engenheiro-chefe desertou passado um ano,
porque estava a morrer desta vez
tanto americano
como tinha morrido o francês.
O segundo engenheiro-chefe demitiu-se passados dois,
porque o danado do mosquito
mordia homens e bois
num esvoaçar aflito
de mortes e mais mortes e depois
veio o terceiro, que acabou com o conflito,
ao drenar as águas e o atrito
da melga fatal,
agente empedernido
que infestava de insucessos o maldito canal.
No entretanto, já tinham falecido
mais uns milhares de desgraçados,
trabalhadores honestos e bandidos condenados
ao pesadelo tropical.
Ao quarto engenheiro-chefe estava a obra
em conclusão de manobra:
eclusas e comportas, elevadores e represas
contornavam as incertezas
de relevos e correntes,
se exceptuarmos os acidentes
que mataram cinco mil nativos,
mais dez mil cativos
que chegavam dos cinco continentes.
Ao rebentar das últimas cargas de dinamite
ainda morria gente de hepatite
ou de diarreia, aos contingentes
caiam todos de febre má -
muitos mais do que a história admite -
no Canal do Panamá.
A 15 de Agosto de 1914 foi inaugurado
enfim o famoso tubo ousado,
triunfo da engenharia humana sobre a força da terra
e mesmo a tempo da grande guerra!
Para fazer passar a civilização e a sua glória,
para reduzir o tamanho do mundo
e da memória,
foi preciso escavar fundo,
até à escuridão da história.
Deste então têm passado aos milhões
contratorpedeiros, cruzeiros,
paquetes e galeões;
Traineiras, escunas, petroleiros,
submarinos, fragatas, cargueiros
e porta-aviões.
É uma maravilha do mundo moderno,
é uma artéria no frémito eterno
da passagem de cá para lá;
o Canal do Panamá.

terça-feira, setembro 14, 2010

Anti-telejornal | Confúcio e os Analectos



13.25
O Mestre disse: "É fácil servir um homem de bem, mas não é fácil agradar-lhe. Tenta agradar-lhe por meios imorais, e ele não ficará satisfeito; mas nunca te exigirá nada que esteja para além das tuas capacidades. Não é fácil servir um homem vulgar, mas é fácil agradar-lhe. Tenta agradar-lhe, mesmo por meios imorais, e ele ficará satisfeito; mas as suas exigências não têm limites."

Livro do momento:



Das estreias escandalosas das obras de Schoenberg e Stravinsky, com pateadas frenéticas e cenas de pancadaria, aos ataques de mau feitio de Mahler; do triunfo do jazz às bandas sonoras de Hollywood, esta é a história da música do Século XX. Para quem quer fazer as pazes com a composição dissonante e a harmonia atonal, recomendo este grande, enorme tratado, que é de leitura muito entretida, apesar da esmagadora erudição do autor e da ambição do tema. Absolutamente imperdível.

sábado, setembro 11, 2010

Anti-telejornal | Almada segundo Viegas

A Cena do Ódio é, na minha triste interpretação da literatura portuguesa, o segundo melhor texto alguma vez escrito neste pesadelo à beira-mar. Mário Viegas leva aqui o grito de Almada Negreiros à última análise. São dez minutos, aviso. Mas são dez minutos que valem por sempre:

Da vida curta e do tamanho do tempo.

Tão curta é a vida, tão pequena
é a glória, que nem mesmo Atena
foi eterna nos dez anos de expresso
em que Ulisses fez o seu regresso.

Tão curta é a vida e tão extenso
É o espaço, que nem no imenso
Poema de Aquiles cabe o verso
Da vastidão ridícula do universo.

Tão curta é a vida, tão minimal
É o fado, que não há animal
Que viva sob a estrela do norte,
Liberto enfim da lei da morte.

Tão curta é a vida, tão fugaz
É a história, que para fazer a paz
Não chegam os dias do calendário
Nem sobram rimas ao poemário.

Tão curta é a vida, tão breve
A existência, que até a neve
D'Inverno é o orvalho de Agosto
E a lua passa como sol posto.

Tão curta é a vida, tão vasto
O caminho, que é nefasto
Percorrê-lo: ao fim da estrada
Não há deus, não há nada.

Som Bom.



Iglu & Hartly - "Violent & Young"

sexta-feira, setembro 10, 2010

Anti-telejornal | Confúcio e os Analectos



13.3 Zilu perguntou: "Se o soberano de Wei te confiasse o governo do país, qual seria a tua primeira iniciativa?" O Mestre disse: "Rectificar os nomes, sem sombra de dúvida!" Zilu disse: "A sério? Não seria um pouco exagerado? Rectificá-los para quê?" O Mestre disse: "Não passas de um rústico, Zilu! Um homem de bem nunca se pronuncia sobre aquilo que ignora. Se os nomes não estiverem correctos, a linguagem não tem objecto. Quando a linguagem não tem objecto, nenhum assunto pode ser resolvido. quando nenhum assunto pode ser resolvido, os ritos e a música definham. Quando os ritos e a música definham, os castigos e as sanções falham o alvo. Quando os castigos e as sanções falham o alvo o povo não sabe porque linhas se há-de coser. Por isso, tudo aquilo que o homem de bem concebe, deve poder dizê-lo; e tudo aquilo que diz deve poder fazê-lo. Em matéria de linguagem, o homem de bem não deixa nada ao acaso."
Photobucket

Anti-telejornal | Confúcio e os Analectos



5.7. O Mestre disse: "O Caminho não prevalece. Vou meter-me numa jangada e fazer-me ao largo. Tenho a certeza que Zilu me acompanhará." Ao ouvir isto, Zilu ficou contentíssimo. O Mestre disse: "Zilu é mais audacioso do que eu. Mas onde encontraremos madeira para a nossa embarcação?"

Elegia do Manuel Maria



Ah Bocage, doce cruel menino,
Ébrio patife por destino,
Profeta versicular da tua
Desgraça:
Com uma puta nua
Nos braços, percorres os passos
Da praça.

Ah Bocage, que ainda o és,
poeta maldito da cabeça aos pés;
Azar dos azares teres nascido
Em Portugal:
Com o berço benzido
Noutro país serias mais feliz,
Animal.

Ah Bocage, saudade de Camões,
Os teus poemas são os colhões
De um filho bastardo do Homero
insano:
Tinhas talento fero
e a tua morte deu no desnorte
lusitano.

quinta-feira, setembro 09, 2010

Blogville Variações | Alfred, Lord Tennyson


The Charge of the Light Brigade at Balaklava by William Simpson (1855), illustrating the Light Brigade's charge into the "Valley of Death" from the Russian perspective.


A Carga da Brigada Ligeira


Meia légua, meia légua,
Meia légua contra os ventos
Sobre o vale da morte
Cavalgaram os seiscentos.
“Avante, Brigada Ligeira!”
"Contra os canhões!" ordenaram,
Ao encontro do vale da morte cavalgaram
Todos os seiscentos.

“Avante, Brigada Ligeira!”
Houve desânimo na fileira?
Não, mesmo sabendo que alguém
disparatara os regimentos,
Não há que levantar protesto,
Não há pensamento imodesto,
Há que dar o corpo ao manifesto:
Sobre o vale da morte
Cavalgaram os seiscentos.

Canhões à direita deles,
Canhões à esquerda deles,
Canhões em frente deles
Descarregam trovões e sofrimentos,
Ferro e fogo de mil invernos;
Corajosos cavalgaram e eternos,
Para a garganta da morte,
Para a boca dos infernos,
Todos os seiscentos.

Relampejaram os sabres descobertos,
Relampejaram todos no ar abertos,
Trespassando os canhoneiros certos,
Carregando sobre um exército
Perante o mundo de olhos atentos:
Mergulhando no fogo da bateria
Sobre as linhas rompeu a cavalaria;
Cossacos e Russos
Desbaratados pela força dos sabres
Foram separados em fragmentos.
E então podiam ter retirado, mas não,
Não os seiscentos.

Canhões à direita deles,
Canhões à esquerda deles,
Canhões atrás deles
descarregaram trovões e sofrimentos,
ferro e fogo de mil invernos,
Dos cavalos brancos caíram eternos,
Os que combateram fraternos
Atravessaram a garganta da morte,
Regressaram da boca dos infernos
Todos aqueles heróis
Que restavam dos seiscentos.

Como pode a sua glória ser passageira?
Ah, a brava carga cavaleira!
Perante o mundo de olhos atentos.
Honrem a carga cavaleira,
Honrem a Brigada Ligeira,
Nobres seiscentos.


Charge of the Light Brigade by Richard Caton Woodville (1825-1855)


The Charge of the Light Brigade


Half a league, half a league,
Half a league onward,
All in the valley of Death
Rode the six hundred.
"Forward, the Light Brigade!
"Charge for the guns!" he said:
Into the valley of Death
Rode the six hundred.

"Forward, the Light Brigade!"
Was there a man dismay'd?
Not tho' the soldier knew
Someone had blunder'd:
Theirs not to make reply,
Theirs not to reason why,
Theirs but to do and die:
Into the valley of Death
Rode the six hundred.

Cannon to right of them,
Cannon to left of them,
Cannon in front of them
Volley'd and thunder'd;
Storm'd at with shot and shell,
Boldly they rode and well,
Into the jaws of Death,
Into the mouth of Hell
Rode the six hundred.

Flash'd all their sabres bare,
Flash'd as they turn'd in air,
Sabring the gunners there,
Charging an army, while
All the world wonder'd:
Plunged in the battery-smoke
Right thro' the line they broke;
Cossack and Russian
Reel'd from the sabre stroke
Shatter'd and sunder'd.
Then they rode back, but not
Not the six hundred.

Cannon to right of them,
Cannon to left of them,
Cannon behind them
Volley'd and thunder'd;
Storm'd at with shot and shell,
While horse and hero fell,
They that had fought so well
Came thro' the jaws of Death
Back from the mouth of Hell,
All that was left of them,
Left of six hundred.

When can their glory fade?
O the wild charge they made!
All the world wondered.
Honor the charge they made,
Honor the Light Brigade,
Noble six hundred.


Officers and men of the 13th Light Dragoons who were the survivors of the charge, photographed by Roger Fenton.

Tema musical para o poema de Lord Tennison, por Kubrik. Fonte da voz off: sonibyte.com

segunda-feira, setembro 06, 2010

Anti-telejornal | A arte de ir ao teatro



"Que o arrumador não passe na frente dos outros
nem vá levar ao lugar, enquanto um actor estiver em cena.
Os que estiveram em casa que tempos a dormir, sem nada fazer,
têm que aguentar agora de pé com coragem, ou de cortar ao sono.
Os escravos que não ocupem os lugares, para que os tenha quem é livre,
Ou então que paguem o seu resgate.
As amas que tratem das criancinhas pequeninas
em casa, e não as tragam para o espectáculo.
Assim nem elas têm sede, nem as criancinhas morrem de fome,
nem vêm para aqui berrar como se fossem cabritos.
As matronas que vejam em silêncio, que riam em silêncio,
que moderem o retinir da sua voz esganiçada,
que levem para casa as suas conversas,
para não maçarem os seus maridos aqui e em casa."

Tito Mácio Plauto
(254-184 a.C.)