segunda-feira, janeiro 21, 2013

No dope, no hope.

Em Defesa de Lance Armstrong em particular e do ciclismo em geral.



A comunicação social tem participado activamente e, como sempre, com alegria apocalíptica e total irresponsabilidade na crucificação pública de Lance Armstrong. Nesta circunstância está bem acompanhada pelas altas instâncias do ciclismo internacional e por um movimento de fundo de refinada hipocrisia que reúne as sensibilidades anti-americanas do costume à mistura com a tradicional xenofobia e pesporrência dos franceses. 
Como admirador do atleta norte americano e fã do ciclismo profissional, devo prestar à gentil audiência os seguintes esclarecimentos que me parecem determinantes para um claro entendimento do fenómeno do doping nesta modalidade.


1 - A maior parte dos ciclistas de topo dopam-se ou doparam-se. 
É um facto.

Casos recentes.
O sucessor natural de Lance Armstrong e actual ídolo da modalidade - o espanhol Alberto Contador - não correu a última Volta à França por envolvimento no caso de doping conhecido por Operación Puerto.

O vencedor do Tour de 2011 e por muitos considerado o melhor ciclista australiano de sempre, Cadel Evans, reuniu-se em 2000 com Michelle Ferrari, o tristemente célebre médico/guru considerado um dos pioneiros do uso de EPO no desporto.
 Em sua defesa, Evans afirma que se reuniu com o médico apenas para saber se tinha condições de transitar de ciclista BTT para ciclista de estrada, desculpa que não convence ninguém. Até porque Michele Scarponi, vencedor da Volta a Itália 2011, foi suspenso em Dezembro último por três meses pelo Comité Olímpico Italiano (CONI), devido às suas reuniões com o mesmo médico.
Alexander Vinokourov, bandeira do desporto do Azerbeijão, bravo campeão olímpico de estrada em Londres/2012, protagonista de alguns dos mais belos momentos do Tour nos últimos dez anos, foi afastado da edição de 2007 por uso de EPO.
Frank Schleck, o prodígio luxemburguês e um dos poucos ciclistas capazes de dar luta a Alberto Contador, retirou-se de forma muito suspeita da última edição da Volta a França, depois de ter acusado um diurético (Xipamide), que está contemplado na lista das "substâncias especificadas".
Alejandro Valverde, o actual líder da equipa Movistar (onde corre Rui Costa), foi punido
por 2 anos, em Maio de 2010, por uso ilegal de substância dopante.

O ciclista escocês David Millar esteve detido durante três dias na sequência de uma investigação judicial ao consumo e tráfico de dopantes na Cofidis. No interrogatório, o campeão mundial do contra-relógio terá confessado que consumiu Eprex, um medicamento à base de eritropoietina (EPO).

Riccardo Riccó, uma promessa do ciclismo italiano, foi afastado do Tour em 2008 por uso de substância dopante. Suspenso por dois anos voltou à competição em 2010, mas em 2011 foi despedido pela sua equipa depois de ter adoecido por ter administrado a si próprio uma transfusão de glóbulos vermelhos. Em consequência deste episódio foi suspenso até 2024.
Rémy di Grégorio, outro ciclista da Codifis,  foi detido em pleno Tour do ano passado, para se explicar à polícia sobre a suspeita de utilizar substâncias ilícitas.

Richard Virenque, rei da montanha no Tour por sete vezes e o melhor ciclista francês da última década, foi detido em Maio de 2011 depois de ter reconhecido a administração de produtos dopantes.
Em 2009, Danilo Di Luca, segundo classificado na Volta a Itália desse ano, acusou Eritropoietina.
Em 2007, Michael Rasmussen, rei da montanha nos Tours de 2005 e 2006, não compareceu para a recolha de urina e foi afastado da competição.
 
Ivan Basso, vencedor da Vuelta por duas vezes e um habitual nos dez primeiros do Tour, admitiu a intenção de usar EPO e foi suspenso por dois anos.
Oscar Pereiro confirmou o uso de doping na Volta à França de 2006 onde foi segundo classificado. Floyd Landis, o ciclista norte americano vencedor dessa edição, acusou níveis elevados de testosterona na 17ª etapa e foi considerado culpado pela Justiça Desportiva dos Estados Unidos. 
Ainda nesse ano, os italianos Alessandro Petacchi e Leonardo Piepoli, bem como o espanhol Iban Mayo testaram positivo no Giro.
Em 2005, Roberto Heras acusou EPO dois meses depois de ter ganho a sua quarta Vuelta. Foi desclassificado e a vitória foi atribuída a Denis Menchov. Este mesmo Denis Menchov que, em Outubro de 2012, admitiu ter trabalhado com o tal senhor Ferrari...
Quanto a casos recentes é melhor parar por aqui, em 2005, por razões de economia.
Lembro-me apenas de um ciclista importante que não foi ainda envolvido nestas teias e que é o vencedor da última edição do Tour: Bradley Wiggins. E, muito sinceramente, até acredito que o rapaz está limpo (sou muito ingénuo).

Lendas do ciclismo contemporâneo.
O mais notável ciclista italiano das últimas décadas, vencedor das edições de 1998 do Giro e do Tour, Marco Pantani, foi expulso da modalidade por uso de EPO e morreu com uma overdose de cocaína.

Em 1997, Laurent Brochard e Christophe Moreau foram expulsos da Volta à França por uso de substâncias não divulgadas.
Jan Ulrich, muito provavelmente o melhor ciclista alemão de todos os tempos, vencedor do Tour em 97 e da Vuelta em 99,  eterno rival de Lance Armstrong, foi suspenso 2 anos por envolvimento no escândalo Operación Puerto.

Laurent Jalabert, campeão do mundo de Contra-relógio em 97, vencedor de Vuelta de 95, vencedor da classificação por pontos do Tour em 92 e 95, rei da montanha desta prova em 2001 e 2002, outro grande ciclista francês, único na história do Tour a ganhar a classificação por pontos e da montanhaviu-se envolvido no "Cahors Affair" e acusado de organizar verdadeiras orgias de droga.    
Laurent Fignon, vencedor do Tour em 1986 e 1987 e do Giro em 1989, admitiu em 2009, um ano antes de morrer vítima de cancro, que usou anfetaminas e cortisona.
Joaquim Agostinho perdeu duas voltas a Portugal, das cinco que conquistou na estrada, por abuso de substâncias dopantes e no Tour de 1973 foi penalizado com dez minutos na corrida e dois meses de suspensão, pelas mesmas razões.
Eddy Merckx, considerado o melhor ciclista profissional de todos os tempos, cinco vezes vencedor da volta a França e outras cinco vezes vencedor do Giro ("só" ganhou uma Vuelta) acusou por três vezes substâncias dopantes no sangue.
Deste relato de heróis drogados, salvam-se apenas Bernard Hinault e Miguel Indurain. Mas as excepções não servem sequer para confirmar a regra: Hinault correu nos anos 70 e 80, quando o controlo anti-doping era raro e deficiente. E Miguel Indurain competiu durante os anos 90, quando o consumo de EPO já era generalizado no pelotão internacional, mas não existia simplesmente qualquer controlo sobre a sua utilização. 

História do doping na Volta a França.
O doping no Tour tem a idade do Tour e os atletas drogaram-se livremente ao logo de décadas com as substâncias mais perigosas que se possa imaginar: nitroglicerina, estricnina, cocaína, cortisona, esteroides, mezinhas cozinhadas por feiticeiros africanos, hormonas de toda a ordem, analgésicos de todo o género, etc., etc., etc.
Nos anos 40, o doping era aceite como um recurso normal e só na segunda metade dos anos sessenta é que certas drogas começaram a ser proibidas.
No entretanto, há histórias absolutamente arrepiantes que contam casos em que os ciclistas colapsavam e, já caídos no asfalto, continuavam a pedalar. Ou que estavam simplesmente demasiado drogados para conseguir apertar os travões e, nas descidas, caiam pela montanha a baixo.
Para um conhecimento um pouco mais profundo de toda a história do doping no Tour, a Wikipédia tem uma entrada bastante razoável, aqui.

Ciência.
Um recente estudo realizado por matemáticos franceses sobre a performance dos atletas nas principais competições do ciclismo internacional nos últimos 116 anos, revela que a rapidez dos ciclistas disparou desde a década passada, sem qualquer explicação fisiológica ou tecnológica, precisamente na altura em que a dopagem com EPO se disseminou pelo pelotão de elite.

Abrangência.
Há muitos, mas mesmo muitos mais casos de doping no ciclismo. Mas o doping não é um problema do ciclismo apenas. Lamento muito, mas se os critérios anti-doping aplicados no ciclismo fossem extensivos, por exemplo, ao Hóquei no Gelo, ao Futebol Americano, ao Futebol ou à Esgrima, estou certo que estas modalidades já teriam desaparecido por falência moral. Nem vale a pena estar aqui a enumerar muitos exemplos. Todos sabemos que os jogadores de futebol jogam muitas vezes "infiltrados" e outras vezes "vitaminados". E seria impossível aos atletas da NFL competirem sem estarem medicamentados contra a dor. Pelo contrário, muitos deles estão de tal forma medicamentados contra a dor que chegam a jogar com ossos partidos (pode parecer estranho para nós europeus, mas garanto-vos que é uma situação comum).
Uma lista bem extensa do fenómeno do doping nas mais diversas modalidades encontra-se aqui para consulta.


2 - As três provas rainhas do ciclismo internacional constituem um desafio sobre-humano.
Quem segue as peripécias do Giro, do Tour ou da Vuelta, sabe bem que estas provas são criadas por sádicos. Há etapas no Tour de France em que os ciclistas sobem aos Alpes por cinco vezes em duzentos quilómetros. Etapas com quatro prémios de primeira categoria que terminam num quinto de categoria especial. Etapas que são desenhadas para serem cumpridas por extra-terrestres. Ou por seres humanos sujeitos a uma variada dieta de medicamentos, regimes alimentares e métodos dopantes como o EPO.
Lembro que aqui não se trata de ciclo-turismo, mas de alta competição. Os atletas de topo cumprem estas etapas num ritmo alucinante, debaixo de uma pressão enorme, perante milhões e milhões de espectadores. E não são só as subidas que dramatizam a corrida a níveis desumanos. Nas descidas, acontece frequentemente que as motas que transportam os operadores de câmara não conseguem muito simplesmente acompanhar o ritmo vertiginoso dos ciclistas. Os que caem nestas circunstâncias, e são bastantes, correm geralmente risco de vida.
A Volta à França é, na minha opinião, o mais duro desafio do desporto mundial, e os homens que a terminam nos primeiros 20 lugares da classificação são verdadeiros heróis do nosso tempo, mesmo que dopados até aos cabelos.
A propósito do EPO: o processo destina-se a aumentar os glóbulos vermelhos no sangue, de forma a que o atleta disponha de mais oxigénio disponível no organismo, o que lhe permite índices de eficácia respiratória e de resistência física muito superiores ao comum dos mortais. Este método é proibido, mas há outros que o não são, apesar de perseguirem os mesmo objectivos no organismo: por exemplo, o de colocar os ciclistas em câmaras hiperbáricas durante a noite. Ora, não se percebe porque raio existem formas de batota que valem e outras que não valem.


3 - Lance Armstrong foi, por sete vezes, primeiro entre iguais.
Conhecedor das suas capacidades e dos seus limites, Lance Armstrong não quis ser, nem seria nunca, o melhor ciclista da história do desporto. Em vez disso estabeleceu como meta ser o melhor ciclista da história da Volta à França. E a verdade é que o conseguiu. Com coragem, determinação, elegância e fair play. Sim, fair play. Porque jogando fora das regras da Union Cycliste Internationale, Armstrong correu dentro da lei do resto do pelotão: drogado como os outros todos. E ainda assim, melhor do que todos os outros. Retirar-lhe agora os títulos é um disparate enorme, até porque esses títulos serão entregues a outros atletas que se dopavam mais ou menos com a mesma constância, mais ou menos com o mesmo profissionalismo. E se retiramos aos ciclistas contemporâneos os seus títulos, porque estes se doparam, que fazer com a os campeões de outras eras, em que o controlo anti-doping nem sequer fazia parte da rábula?
Lance Armstrong é, provavelmente, o ciclista mais controlado de sempre. Estava constantemente a fazer xi-xi para o penico da organização. Mas nunca foi apanhado no decorrer de uma prova. Onde estão os responsáveis por esta escandalosa incompetência?


4 - Os jornalistas são os palhaços deste circo.
Como sempre, os jornalistas não ajudam à festa. Quando, numa etapa de montanha, se dá o caso de nenhuma das figuras de proa do pelotão estar disposto a atacar,  os comentaristas são os primeiros a qualificar esta passividade como cobardia, calculismo e cinismo, entre outras virtudes do género. Isto quando as razões pelas quais os atletas não atacam nas etapas de montanha são bem conhecidas, a saber:

Razões Tácticas - Leiam-se por razões tácticas todas aquelas relacionadas com o conhecimento antecipado que o ciclista tem de que vai ser controlado nesse dia, tendo evitado, por conseguinte, a normal dosagem da sua droga favorita.  

Razões Físicas - Entendam-se por razões de ordem física as que dizem respeito à administração de uma solução de Eritropoietina com um escasso grau de pureza, que resulta apenas no inconveniente de uma arritmia.

Razões psicológicas - Leiam-se por razões psicológicas aquelas que derivam do senso comum. O atleta não pode estar sempre a atacar, ou será rapidamente suspeito de utilização de substâncias ilícitas, pelo que a probabilidade de ser controlado à chegada vai aumentar exponencialmente.

É claro que os jornalistas que aviltam os atletas por não atacarem nas etapas de montanha são os mesmos que aviltam os atletas que se dopam para poderem atacar nessas etapas. Por isso, eu acho que a Volta à França deveria ser antecedida por uma "Volta à França da Imprensa". Esta volta só precisava de ter uma etapa com, digamos, cem quilómetros de extensão e duas contagens de alta montanha. Os senhores jornalistas punham-se em cima de uma bicicleta e faziam-se ao caminho. Quem baixasse a média horária de, digamos, 25 km/h, era apanhado pelo carro vassoura. O carro vassoura estaria equipado com um lança chamas.


5 - Os maus da fita.
Neste grande pelotão de vilões que é o ciclismo profissional, os ciclistas são os intérpretes mais honrados. São eles que dão espectáculo. São eles que sofrem os horrores da corrida e das drogas a que se submetem. Os outros bandidos estão lá só para ganhar dinheiro e ganhar dinheiro, por si só, não garante glória nenhuma. Os vilões que nos devem preocupar são os traficantes, que ganham fortunas a vender drogas caras a equipas ricas; são os médicos, que administram estas drogas; são os directores técnicos, que permitem e promovem o uso das drogas, são as multinacionais que dão nome e fôlego financeiro a estas equipas de drogados, de forma a conseguirem recuperar o elevado investimento; são os organizadores das competições, que engendram provas impossíveis; são os comissários que fazem as análises e que, por corrupção ou incompetência, não detectam coisa alguma.
Os ciclistas, sujeitos à voragem da opinião pública, pagos principescamente para ganhar provas impossíveis, confrontados com equipas que permitem ou promovem o uso de drogas que tornam as provas possíveis, com médicos que auxiliam a posologia e com um controlo deficitário ou cúmplice, cedem naturalmente a uma tentação inescapável. No dope, no hope. É a vida.


6 - Conclusão e sugestões.
A mentalidade reinante actualmente na Union Cycliste Internationale é a da fuga para a frente. Mesmo quando o abismo é tão visível como assustador. A versão oficial é a de que a culpa é dos atletas e de dois ou três diabos que por aí andam a tentar os atletas. E assim, os grandes campeões continuam a ser injustiçados e criminalizados e humilhados em praça pública, sem que o desporto ganhe com isso coisa alguma. Uma federação não pode transformar os seus heróis em criminosos. É contraproducente.
Não defendo aqui, obviamente, que a UCI permita o uso de drogas no ciclismo. Tal seria abstruso e perigoso. Nem tenho a pretensão de dominar um conjunto de soluções absolutas para o problema. Mas defendo que se assuma, de uma vez por todas, que o método pelo qual se tem tentado combater o doping no circuito profissional não serve os interesses do desporto. E defendo mais: a implementação urgente de uma filosofia de "Estaca-Zero" que inclua:
- Indulto para todos os atletas acusados de doping. 
- Re-atribuição dos seus títulos.
- Reavaliação dos critérios que definem o que é doping do que não o é; 
- Estabelecimento de normas a partir do efeito criado no atleta e não pelo método como esse efeito é induzido (a câmara hiperbárica e o uso de EPO procuram o mesmo objectivo, mas o primeiro método não é considerado doping).
- Diminuição dos dias de prova, da extensão das etapas e do número de etapas de montanha, bem como do número de prémios de primeira categoria e de categoria especial em cada etapa, nas 3 competições principais do circuito internacional (Giro, Tour, Vuelta). 
- Criação de uma comissão de controlo anti-doping independente das instâncias desportivas, fazendo recurso, por exemplo, às universidades.

quinta-feira, janeiro 10, 2013

Aviso e apologia.

O Blogville sempre foi um átomo anónimo de curta audiência e eu sempre o tratei como uma gaveta.
Tenho plena consciência - e até uma certa vaidade - que os assuntos que me interessam não interessam a muita gente. Tenho plena consciência que as minhas opiniões sobre isto ou aquilo não são partilhadas pelas massas (deus é grande), que os meus gostos não são os gostos da maioria (deus não dorme) e que os meus poemas não encantam ninguém e que os meus ódios são clandestinos e que as minhas paixões são, digamos, esquisitas.
De vez em quando, porém, sou surpreendido por uma ou outra alma curiosa (mórbida?) que ainda visita este blog. E o facto é, geralmente, muito embaraçoso para mim. É muito embaraçoso porque o que escrevo aqui não tem em consideração a visita de alguém.
Esta desconsideração não é obviamente intencional, até porque, com o tempo, tenho observado que as pessoas que aqui chegam são pessoas pelas quais, regra geral, tenho imensa consideração. Mas lá porque a desconsideração não é intencional, não deixa de ser desconsiderada. Devo, assim, um largo, alto e profundo pedido de desculpa aos meus queridos leitores, esporádicos, ocasionais ou rotineiros.
Peço desculpa por não ter em conta a vossa sensibilidade. Peço desculpa por não ir de encontro às vossas expectativas, aos vossos interesses, às vossas ansiedades. Peço desculpa por não me explicar completamente, por ser intrincado, amargurado e difícil. Peço desculpa por insultar o vosso bom senso e por vos deixar constrangidos com a minha virulência. Peço desculpa por ser violento, egoísta, maníaco, depressivo e deprimente. Peço desculpa por revelar um Paulo Hasse Paixão que vocês nunca conheceram, e que - sejamos honestos - não querem realmente conhecer. Peço desculpa pelos textos que vocês não precisavam objectivamente de ler, peço desculpa pela informação a mais e pela informação a menos. Peço desculpa por expor as minhas misérias e por vos expor ao horror das minhas misérias. E curvo-me, humilde, perante o vosso juízo crítico e a hipótese remota de um perdão.
Não posso prometer porém, que a filosofia editorial do Blogville sofra, a partir daqui, qualquer alteração significativa. Os meus queridos amigos serão sempre bem-vindos a esta gaveta onde enfio a alma e eu serei sempre grato pela vossa gentil visita. E sobretudo serei, invariavelmente, consciente das dificuldades de digestão que a gaveta oferece, pelo que aceitarei com naturalidade que desistam da gentileza. Mais que isto, não consigo nem sei, em boa verdade, oferecer.

domingo, janeiro 06, 2013

Bullshit Blues (a punk song)

There's a guy on tv warning
about global warming
and the ice meltdown
and how we all in town
should be very afraid
of the future that we've made.

This is the bullshit blues,
this is the bullshit blues, 
this is the devil in the news.
This is the bullshit blues,
this is the bullshit blues, 
this is the prime time booze.

For the love of shopping malls
we go for the commercials.
As you worry about
the great drought
you'll buy Armani ties
and you'll believe these lies.

This is the bullshit blues,
this is the bullshit blues, 
this is the devil in the news.
This is the bullshit blues,
this is the bullshit blues, 
this is the prime time booze.

There's nothing wrong, mate, 
with the planet or the climate.
And I'll bet this punk song
That there's nothing wrong 
with the atmosphere,
but nothing sells like fear.

This is the bullshit blues,
this is the bullshit blues, 
this is the devil in the news.
This is the bullshit blues,
this is the bullshit blues, 
this is the prime time booze.

Greenhouse effect, my ass,
we are all gonna die, unless
you watch the channell
or you smell like Chanel.
Fuck you cnn and abc
your truth won't set me free.

This is the bullshit blues,
this is the bullshit blues, 
this is the devil in the news.
This is the bullshit blues,
this is the bullshit blues, 
this is the prime time booze.

This is the bullshit blues,
this is the bullshit blues, 
this is the devil in the news.

sexta-feira, janeiro 04, 2013

quarta-feira, janeiro 02, 2013

Jornal de Letras | Setembro/Dezembro 2012

Como Proust Pode Mudar a Sua Vida - Alain de Botton - D. Quixote 
Este livo é uma preciosidade e o seu autor é um dos grandes pensadores europeus contemporâneos (sim, ainda há alguns). Botton pega na obra prima de Proust e explica, de forma absolutamente brilhante, como é que o Tempo Perdido nos pode ajudar no trajecto da existência. "Como Proust Pode Mudar a Sua Vida" é, sem dúvida, um dos melhores ensaios que tive o privilégio de ler na minha vida.

Como o Soldado Conserta o Gramofone - Sasa Stanisic - Quetzal
Não, não é mais um romance sobre os horrores da guerra dos Balcãs. É um bocadinho mais do que isso, porque Sasa Stanisic é um prosador genial, que nos eleva para inusitados patamares da linguagem, que nos transporta para uma espécie de literatura nova, exuberante e criativa, a transbordar de sensibilidade por todos os lados. Muito, muito, muito bonito, este livrinho.

Sputnik, Meu Amor - Haruki Murakami - Casa das Letras
Este foi o título que lançou Murakami como romancista universal, mas, muito sinceramente, fiquei um bocado desiludido. É uma daquelas novelas que não aquece nem arrefece. Aliás, depois do fantástico "Kafka à Beira-Mar" nunca mais li nada de Murakami de que realmente gostasse.

The Battle for Spain - The Spanish Civil War 1936-39 - Antony Beevor - Weidenfeld & Nicolson
As guerras civis destacam-se quase invariavelmente por serem extremamente sangrentas, e a Guerra Civil Espanhola concorre com a americana para o prémio do conflito fraticida mais virulento da história universal do ódio. Durante 4 anos, os espanhóis atiraram-se uns aos outros com ganas de extermínio, numa espécie de ensaio bárbaro da guerra mundial que viria a seguir. De um lado tanto como do outro, o mais incrível desdém pela vida humana triunfou loucamente. Tanto mais, que as facções inimigas teimaram na autofagia, consumindo energias imensas e vidas inumeráveis em intrigas intestinas que acabavam inevitavelmente na rotina dos pelotões de fuzilamento. Antony Beevor faz-nos um relato lúcido e detalhado da espiral de violência e da complexidade ideológica, com a imparcialidade e o rigor que se exige a um distinto académico. A qualidade da prosa e da estrutura da narrativa ajudam muito. Uma obra de referência.

História da Filosofia - 2º Volume - Do Renascimento à Idade Moderna - Juan Manuel Navarro Cordon e Tomas Calvo Martinez - Edições 70
Como sou cabeça de vento, volta não volta releio esta obra. Para não morrer completamente ignorante.

sexta-feira, dezembro 28, 2012

Nascido para a pancadaria #3

Mais uma obra prima de Steven Spielberg. Mais uma interpretação escolástica de Daniel Day Lewis. Mais uma grande banda sonora de John Williams. Magnífico.

quarta-feira, dezembro 26, 2012

Nascido para a pancadaria #2

Call of Duty - Black Ops II: um explosivo presente de Natal.

Nascido para a pancadaria.


Um estudo conduzido por David Carrier, da universidade do Utah, e publicado pelo The Journal Of Experimental Biology, sugere que a mão humana tem evoluído para se tornar um instrumento de violência mais eficaz. Ao contrário do que acontece com os símios, as mãos do homem fecham-se num punho letal, que maximiza a força no ponto de impacto. Na comparação com a estalada, solução muito utilizada pelos chimpanzés, os resultados do estudo mostraram que quando o polegar apoia os dedos, a rigidez dos nós dos dedos quadruplica e a força transmitida durante o soco duplica.
Estamos programados para a violência. Evoluímos no sentido do combate. Sobrevivemos pelo recurso à agressão. E o resto é conversa.

quinta-feira, dezembro 20, 2012

O que preocupa o Público?

No jornal Público - edição online - podemos hoje aprender como falar do Natal às "crianças ateias e de outras religiões". Este assunto preocupa o Público. Para o público é de pedagógica importância sabermos explicar muito bem  às crianças ateias e de outras religiões o que é isto do Natal.
Mais: é pertinente sabermos muito bem como é que os pais dessas crianças lhes explicam o evento.
Seria bom, embora isto escape às prioridades ecuménicas do Público, que soubéssemos explicar o Natal às crianças cristãs, antes de nos dedicarmos a explicá-lo às outras crianças.
E seria óptimo que a jornalista Bárbara Wong, que assina esta didáctica peça, percebesse que um ateu pode ser, e no mundo ocidental geralmente é, concomitantemente um cristão. Para se ser cristão não é preciso acreditar em deus. É preciso acreditar num sistema de valores que se enquadram essencialmente no pensamento de três valentes: Platão, Cristo e Kant.
O Público preocupa-se com este género de coisas, que é para não se preocupar com as coisas que são realmente importantes. É muito mais fácil - e mais barato, claro - deixar essas coisas realmente importantes para outros malucos. Afinal, o Público não edita para mudar o mundo. O Público edita para não dar assim tanto prejuízo como isso.

Cântico de Natal



Truth (Acoustic BBC Radio 1 Version) | Bloc Party

Disto é que já não há.



Um dos melhores jogos de futebol que vi na minha vida, senão mesmo o melhor. Algo que, certamente, não se vai repetir agora. Basta pensar que no onze inicial do Benfica estavam os seguintes cavalheiros: Schwarz, Kulkov, Vítor Paneira, João Pinto, Rui Costa e Isaías.
Uma partida vibrante e inesquecível, com grandes artistas em campo, só com um golo nos primeiros 45 minutos (embora com inúmeras oportunidades para os dois lados) e também só com sete golos na segunda parte.
Deuses, que saudades.

terça-feira, dezembro 18, 2012

Telejornal de hoje.

- Hoje comemora-se o Dia Internacional Contra a Violência sobre os Trabalhadores do Sexo. Os Trabalhadores do Sexo fazem parte de uma classe profissional muito antiga. Quiçá a mais antiga da história do trabalho. E é por isso que devem ter direitos, como os outros têm, os outros das classes profissionais muito antigas, mas não tão antigas como o labor de engatar. Os assassinos a soldo, que também exercem uma profissão muito antiga e que também são vítimas de violência, volta não volta, também devem ter direitos. E não se percebe porque raio é que os traficantes de opiáceos, operários de um ofício ancestral e extremamente violento, não têm também um dia internacional. Já quanto aos traficantes de anfetaminas, percebe-se que não sejam devidamente apoiados e homenageados, porque afinal, fazem parte de uma sindicância relativamente recente.

- Hoje os leilões das casas dos magistrados não correram lá muito bem. Principalmente em Gouveia. As casas dos magistrados em Gouveia estão muito degradadas e ninguém apareceu para licitar. A senhora do primeiro andar do prédio dos magistrados diz que ali no andar dos magistrados é capaz de não viver ninguém há coisa de cerca de dez anos, mais ou menos, se a memória não lhe falha - que ela não quer estar a mentir. Mas, 20 segundos depois, em off, a repórter diz que a mesma senhora tem a certeza absoluta que são dez anos certos. Os magistrados de Gouveia agora arrendam umas residências que ficam mais perto do tribunal e que foram recuperadas. A senhora do prédio dos magistrados, insuspeita líder de opinião em matéria de alojamento dos funcionários da justiça, diz que não devia ser assim. Diz que o Estado devia fazer obras no prédio dos magistrados, onde, por acaso, ela também vive. E que os magistrados deviam viver ali e não nas residências alugadas.

- Hoje o Presidente da República foi alvo de Media-Bulling. Isto porque, segundo o Professor Marcelo Rebelo de Sousa, o Primeiro Ministro, quando disse ontem que certos aposentados recebem mais dinheiro do que aquele que descontaram, quis dar uma canelada no Presidente da República. Vai daí, hoje o Presidente levou logo com o seguinte pontapé na boca, diligentemente acertado por uma repórter super esperta: "Está de acordo que existem aposentados que recebem mais do que descontaram?".  

- Hoje o Passos Coelho voltou a falar sobre o assunto, mas como estava rouco não se percebeu bem o que ele disse.

- Hoje o Mourinho estava tristonho, coitado. É muito difícil a vida do Mourinho, coitado. Mas o Presidente do Real Madrid foi um gajo porreiro com o Mourinho e até disse que ele era o melhor treinador do mundo e que sofria muitos atentados à dignidade, coitado.

- Hoje ficámos ainda mais certos de que os americanos são umas verdadeiras cavalgaduras. É um país de imbecis, pronto, está visto. Gente que se deixa matar assim, tem que ser saloia do Texas. A América é um país de texanos armados até aos dentes que gostam de matar crianças e, se não fosse o Obama, morriam ainda mais crianças e, se não fosse o Obama, ainda existiam mais texanos na América.

- Hoje foi o dia santo em que o Ayatollah Ali Khamenei, Supremo Líder do Irão, subscreveu finalmente uma página no Facebook, de tal forma que pode agora "exprimir no ciberespaço as suas ideias e personalidade".

- Hoje a Polícia Judiciária apreendeu 307 aves exóticas, constituindo 17 arguidos, alegadamente culpados da negociata de milhões que é vender aves exóticas sem pagar impostos por isso.

A imbecilidade, a boçalidade, o xico-espertismo, a ignorância, a condescendência, a incompetência, o cinismo, o oportunismo, a irresponsabilidade, a banalidade, a pesporrência, a jactância, a mais profunda estupidez, a insuportável pretensão do jornalismo nacional  - ou de 95% dos jornalismo nacional, que é dizer o mesmo - é, muito provavelmente, a grande patologia da Terceira República. Tanto mais, que é uma patologia não diagnosticada.
Em Portugal, estamos sempre a condenar os políticos, o que é um excelente método de gerar maus políticos.  Mas mesmo quando são maus - e costumam ser maus, não são piores que nós, os que não "estão na política". São portugueses e comportam-se como os juízes portugueses se comportam. Comportam-se como os banqueiros portugueses se comportam. Comportam-se como os estivadores portugueses se comportam. Comportam-se como os advogados portugueses se comportam e como os mestres de obras portugueses se comportam e como os médicos portugueses se comportam e os pilotos da TAP se comportam e assim sucessivamente até ao vómito de toda a gente se portar bastante mal, embora sempre dentro do contexto da condição humana, que é uma tragédia de enganos.
Os jornalistas, por outro lado, são geralmente poupados ao juízo mais áspero. Vá-se lá saber porquê, na medida em que não há gente assim vil, neste país, que se lhes compare. Os jornalistas descem a um patamar ontológico tão baixinho, mas tão baixinho, que não chegam à cave mais escura da indignidade humana. 
Devíamos gostar mais dos políticos e menos dos jornalistas. Devíamos criar, talvez, o Dia Internacional do Político Vítima da Violência Pidesca do Jornalista Ignorante. Devíamos proteger a espécie contra as ameaças do ecossistema e dos predadores que caçam com a arma branca de um microfone na mão.
Até porque, afinal, quem reporta os repórteres?

sexta-feira, dezembro 14, 2012

Pop Poetry



"You can’t love me
I’m unloveable
But baby you could try"


Babybird | Unloveable

O meu dedo polegar para cima.



"If I die tomorrow, 
Would you love me for the rest of my life? 
(...) Wish love was like that."

BabyBird - A.K.A. Stephen Jones. Se esta fosse a página no Facebook que não tenho, diria: gosto disto. Assim sendo, explico só um bocadinho. Não sei porque raio é que gosto disto. Por exemplo; as letras são lamechas. Por exemplo; os acordes são clichés. Por exemplo; o Stephen só escreve músicas de amor.
Ok, tudo isto parece aborrecido, mas, caramba, faz-me lembrar o outro maluco dos Magnetic Fields (també Stephen, mas com i no Stephin Merritt). Há aqui qualquer coisa de génio, ainda assim. Ainda assim, há aqui qualquer coisa de único. Polegar para cima e acabou.

quinta-feira, dezembro 06, 2012

Directo


Wool on Wolves | Midnight Avenue
Primeira vez que oiço. Gosto. Mas como vem de quem vem, faço mais do que gostar. Publico.

segunda-feira, dezembro 03, 2012

Anti-CSI.



Breaking Bad. Esta série é altamente aditiva. É um ópiáceo valente. É um fármaco sublime. É uma droga dura. É uma pedrada no charco da televisão por cabo. Literal e metaforicamente: Heisenberg Rocks!

domingo, dezembro 02, 2012

Os outros

Um gajo que tem agora 45 anos, um gajo que nasceu em 1967,
nasceu para sofrer o inferno do Século XXI - e isso é líquido.
Porém, um gajo que tem agora 45 anos, um gajo que nasceu em 1967
e que quer, na verdade, apenas viver em paz,
viver em paz com as suas pequenas e baratas rotinas de sempre,
viver pacificamente com os seus modestos gostos,
viver tranquilo com a sua parcimoniosa sensibilidade,
viver com a possibilidade prosaica - e a vontade suicida - de se foder a trabalhar;
um gajo assim nascido num século só para ser condenado no outro,
merece, pelo menos, o diabo de uma folga.

Pedir pelo diabo de uma folga, em 45 anos, é pedir muito?
Digamos, uma semana sem que ninguém se zangue comigo.
Um mês só sem desiludir alguém.
Digamos, um ano sem perder um amigo
ou 24 horas sem que alguém se lembre de arquitectar
um juízo moral sobre o Paulo Hasse Paixão.
Digamos, um dia sem culpa.
Digamos, três meses sem perder um cliente.

Um gajo que tem agora 45 anos, um gajo que nasceu em 1967,
nasceu para sofrer o inferno do Século XXI.
Isto é certo como é certo que os outros milhões da minha geração
sofrem, como eu sofro, o inferno do Século XXI.
E todos também são, como eu, abjectos na conversa social,
mesmo antes do primeiro Famous Grouse.
E todos também são parcimoniosos de sensibilidade e senhores das suas rotinas
e todos também se fodem a trabalhar e perdem clientes
e todos também têm gostos modestos.

A diferença está em mim.
Eu trato aqui, de mim. Os outros tratarão ali, de si.

Puta que pariu os outros, ali.

sábado, novembro 24, 2012

Meu deus, que malha.



Where to begin?
This snake has left us with last years skin
Eyeless diamonds of a life that's been and done
Memory is blind!

Where did it end?
We fell together like an accident
Two lives colliding like continents
There be mountains between us and time!

Low slung and highly strung she said run with that
Low slung and highly strung she said run with that
Oh lie you can take me for a long ride
My heart is high like a returning tide
Highlight your body like a coast line

Hey miss
I always said I wouldn't reminiscence
Become too busy with regrets to create a kiss
Oh but I was unwise

Once I thought
I was the hero they were waiting for
And with my words I would change the law
And remake it as mine!

Low slung and highly strung she said run with that
Low slung and highly strung she said run with that
Oh lie you can take me for a long ride
My heart is high like the returning tide
Highlight your body like a coast line

When you were born, the golden apple
Tell them I'll answer instead!
You are my one my only Salome
Go and present my head
Go and present my head
Go and present my head

Oh lie you can take me for a long ride
My heart is high like a returning tide
Highlight your body like a coast line, coast line

Oh lie you can take me for a long ride
My heart is high like a returning tide
Highlight your body like a coast line, coast line

Chapel Club | Blind

quinta-feira, novembro 22, 2012

Gosto de escrever cartas de amor aos amigos.

Gosto de escrever cartas de amor aos meus amigos.
Não sei se sou entendido, porque, bem entendido,
Já ninguém escreve cartas de amor aos amigos.

Gosto de escrever cartas de amor aos meus amigos.
Não sei, pelo que escrevo, porque gosto deste enlevo;
Mas as cartas que escrevo são ritos antigos.

Gosto de escrever cartas de amor aos meus amigos.
O Yahoo tem serviço postal e, até ao Natal,
Não escrevo cartas para salvar os mendigos.

Gosto de escrever cartas de amor aos meus amigos.
Não sei, pelo que escrevo, se à calúnia me atrevo
E as cartas não são cartas, são abrigos.

Gosto de escrever cartas de amor aos meus amigos.
Não sou entendido porque a minha vida tem sido
Como um Diário da República sem artigos.

Gosto de escrever cartas de amor aos meus amigos.
O que escrevo é do Homero que transcrevo
E as cartas não são cartas, são jazigos.

Gosto de escrever cartas de amor aos meus amigos.
Não sei se sou entendido, porque, bem entendido, 
Já ninguém escreve cartas de amor aos amigos.


quarta-feira, novembro 21, 2012

domingo, novembro 18, 2012

2084


Na Gare de Lançamento de Alfragide
Não há mães que se despeçam dos filhos que partem para a guerra nas Colónias de Marte.
Há muito que cessaram as pessoas de morrer e,
por decreto unânime do Movimento de Intervenção para o Controlo Demográfico,
Há muito que cessaram as pessoas de nascer.
No Programa Universal dos Direitos dos Mamíferos Superiores está escrito:
"A gravidez é a suprema humilhação da mulher.
O mandato supremo da Revolução é libertar a condição feminina do seu jugo
Criador."

Na Gare de Lançamento de Alfragide
Há mais drones que soldados - A República Popular dos Estados Italo-Iberos
É constitucionalmente obrigada
A manter os seus soldados vivos,
Como no início do Século
Ainda existiam nações constitucionalmente obrigadas
À despesa.

Na Gare de Lançamento de Alfragide
Também lançam mineiros para Io e arquitectos para a Lua e engenheiros para Enceladus.
O Comité para a Gestão da República (CGR) pretende enviar para o espaço,
Nos quinze anos do seu mandato,
Vinte e cinco milhões de Cidadãos.
Mas a Autoridade Autónoma de Lisboa-Amadora gasta mais
Quarenta e cinco mil Castros por passageiro
Do que aquilo que foi previsto no Plano Quinquenal.
O CGR já destacou uma Comissão Liquidatária.
O Directório Para a Informação Independente informará sobre as Resoluções.

Na Gare de Lançamento de Alfragide
Foram instaladas as devidas estruturas comerciais,
De acordo com o Plano de Governação Para o Distrito Autónomo de Lisboa-Amadora
Aprovado on-live por 0.8% do Colégio Eleitoral Revolucionário e a saber:
Um Estação de Lotaria da Carne de Vaca.
Uma Estação de Degustação Virtual de Delícias do Mar.
Uma Loja do Cidadão Minoritário;
Uma Loja Tributária da Revolução
(Que incorpora o novo sistema de detecção remota de desertores fiscais
E rebeldes do Racionamento Sistemático);
Um Mercado Municipal Para a Livre Troca de Denúncias
(Que oferece 10 digidomésticos por dia);
Uma Unidade de Saúde Sigmund;
Um Lar de Acolhimento Para Mamíferos de Líbido Incontrolável;
Um Arsenal Alimentar Para a Cidadania;
O Centro de Jogos Para Cidadãos Sem Ocupação Profissional;
O Sindicato dos Jornalistas e da Mensagem Revolucionária;
O Complexo Abortador da Sub-Região Damaia-Sintra;
A Embaixada do Império Sino-Soviete (Renovado);
Três Notários da Solidariedade Pública;
A Vigésima Quarta Eco-Esquadra;
A Décima Segunda Unidade de Esterilização do Distrito Autónomo de Lisboa-Amadora
E a Quinta Adega Oficial das Farmácias,
Com estrutura anexa para fornecimento gratuito de Cloridrato de Fluoxetina (1200 mlgs.).

Na Gare de Lançamento de Alfragide
Há uma Universidade Para a Afirmação Trans-sexual;
Uma Escola Prática Para o Aperfeiçoamento das Técnicas Anti-Policiais;
Um Teatro Geral de Expressão Muçulmana,
Com Centro de Estudos Palestinianos Aplicados À Luta Contra os Valores Judaico-Cristãos
E um Politécnico Para a Re-educação e Erradicação do Enriquecimento Individual.
Está ainda prevista a edificação no local de:
Quatro Quiosques Quânticos de apoio a utentes com Perda Total de Identidade;
Dois monumentos virtuais que prestam homenagem ao Terrorista Desconhecido
E às Vítimas da Heroína;
Uma Delegação do Ministério para a Erradicação da Diferença entre Géneros,
Com bloco cirúrgico e gabinete de apoio psicológico.

Na Gare de Lançamento de Alfragide
Cumpre-se com rigor a Lex Naturalis Reciclae do Ultimato Sueco
E as normas ambientais do Tratado Quioto/Vladivostok de 2032 (aumentado)
Foram aplicadas exemplarmente.
A concessão de superfície a organizações que comercializam
Produtos agrícolas e/ou pecuários
É estritamente proibida, de acordo com Acto Popular de 2065,
Ratificado pelo Parlamento Solidário da Revolução, em 2072.

Na Gare de Lançamento de Alfragide
Respeita-se o Concílio Ortográfico dos Idiomas Nativos da América do Sul
E o Protocolo de Obediência Às Práticas Culturais do Império Sino-Soviete (Renovado).
Estão em prática todas as recomendações 
Do Conselho da Revolução Para a Discriminação Positiva.

Na Gare de Lançamento de Alfragide
Foi reservada uma área de 26 novos-metros de largura 
Por 14 novos-metros de altura,
Onde a Neo-Realista Radical Maria Eisenstein, Prémio La Passionaria da Paz Igual,
Denuncia, em mural inspirado, os vícios do modelo familiar arcaico-reaccionário
E as virtudes da masturbação on-live.

Na Gare de Lançamento de Alfragide
Tudo foi realizado em nome do capitalismo público, do bem-estar social,
Do anarco-sindicalismo (revisto), da igualdade entre povos e cidadãos
e dos ideais revolucionários.
E é por isso que a Organização Sindical da Opinião Pública Instituída em Tempo Real,
Tanto como o Banco da Revolução, Desenvolvimento e Emprego
Já manifestaram, em sede de CGR, o seu repugno pela acção criminosa
Dos primeiros, últimos e únicos responsáveis pela falência técnica da Operação -
Agentes-não-gratos da classe média, traidores, corruptos e fornicadores da carne,
Que têm usurpado com malícia burguesa a direcção sustentável
Da Brigada Para a Governação Logística da Plataforma de Lançamento de Lisboa-Amadora.
O CGR já destacou uma Comissão Liquidatária.
O Directório Para o Desenvolvimento Igualitário das Regiões implementará as Directivas.

Na Gare de Lançamento de Alfragide
Os cães que estacionam as pulgas e a fome nas plataformas de embarque
Não são incomodados, ao abrigo da Lei Protectora de Animais e Homens de 2030.
E os gatos selvagens devoram os turistas que restam
Depois do Acto Popular Contra o Turismo Cósmico de 2051.

Na Gare de Lançamento de Alfragide
Os problemas de segurança pública foram resolvidos ao abrigo
Do Artigo Sexto do Código de Despenalização e Cidadania de 2082,
Que reduz, controla e tributa
O trânsito de utentes portadores de bens de valor acrescentado,
De forma a eliminar situações de conflito social.
Esta lei veio complementar o Acto Popular de 2074 e o Decreto Solidário de 2079
Que estipularam normas de traje em espaço público,
Com a finalidade de corrigir excessos na indumentária
Dos cidadãos de religião cristã e raça branca (latinos, eslavos e caucasianos).

Na Gare de Lançamento de Alfragide
Embarcam os renegados, os condenados, os impenitentes,
Os inadaptados e os inadaptáveis, os párias da Revolução.
Embarcam para o exílio-odisseia da condição individual.
Partem iguais para penitenciárias diferentes.
Partem do zero para os números de um destino inumerável,
Partem para nunca mais,
Os que vão para não voltar,
Os que vão finalmente morrer,
Os que vão enfim ter filhos
E prosperar
Para outro mundo.
Para a possibilidade de um mundo novo.

E não há mães, com lenços brancos e saudades
E não há impérios, com monstrengos e tempestades
E não há epopeias nem há restelos
E não há jovens nem velhos
E não há esperança nem fé.
Com o regresso da maré,
Projecta-se para fora de órbita o mal que aqui reside.
E não há glória nem memória na Gare de Lançamento de Alfragide.

segunda-feira, novembro 12, 2012

sexta-feira, novembro 09, 2012

Cidades como museus ao ar livre.


Não é difícil encontrarmos gente inteligente, culta e sensível que não consegue admitir sequer a hipótese de que existe arte na arte contemporânea. Arne Quinze, porém, trata de reduzir essa opinião à escala subatómica da insignificância. A Obra de Arne materializa-se num longo ensaio de prodígios gráficos, fragmentos surpreendentes de uma construção visual que é devidamente enquadrada na cenografia dos dias, que é devidamente submetida à encenação da vida. Que é moderna no sentido virtuoso da palavra. E que é um banquete para o olhar. Ponto.

sábado, outubro 27, 2012

Tom Hanks be bop slam poetry



Full House
House full of men
Daddy, Jesse, Joey, father, uncle, friend
Uncle Jesse whose hair is never messy
"Watch the hair, huh?"
Have mercy on Uncle Jesse
Three men raising three girls
Or are the girls raising them?
"Wake up San Francisco" Danny Tanner screams
Through the TV screen
His three girls watch by themselves
No women in this full house
This house full of men
DJ Tanner, "Oh my Lanta!"
Stephanie, "How rude!"
Little Michelle, "You got it, dude"
One day, DJ listens to the radio
DJ "Be the ninth caller" he says
And win two free tickets to a Beach Boys concert
The men listening downstairs leap for the phone
A groan
There's a voice on the line and it stammers
"Hello this is DJ Tanner"
"Just name the Beach Boys song, DJ, and the tickets are yours"
As the strains of "Help Me, Rhonda" blare
DJ stares
"Help me Gibbler?" she says
Turning to Kimmy Gibbler, the neighbor helpless in silence
She does her no favor
Pressure mounting, mounting, mounting, time ticking
"Help me, who?"
"RHONDA!" shout the men
The men of this, full house
And the men become boys, beach boys
As they go to the show where they sing
"Kokomo, Kokomo, that's where I want to go
To get away from it all"
From what?
From this male-dominated world, this testosterone-soaked full house
This house full of...men
As we sit on the bed, get patted on the head
Our sins we confess and we learn a life less-on
From the men
The men of this full house
This house full of men
Cut it out 

sexta-feira, outubro 26, 2012

quinta-feira, outubro 18, 2012

Terceira Aguardente Escocesa

Amo os meus primos
Nesta noite em que nos rimos
Depois da terceira aguardente escocesa.
Amo-os de certeza.

Amo o meu pai sofrido
Como ele amava o irmão querido.
À terceira aguardente, sou eu que mando:
Bebo ao meu tio Fernando.

Amo a minha família Paixão,
Somos iguais de genes e coração.
E depois da terceira aguardente escocesa,
Amo-os à portuguesa.

Amo esta gente gémea minha
Que dá, que sente, confia e alinha
Na aguardente seguinte - fado nefando
De ter morrido o tio Fernando.

Amo o meu tio defunto
E o velório sem falta de assunto.
Antes da terceira aguardente escocesa,
Já eu o amava de certeza.

Já amava o génio que ali vivia
(A veia, a verve, o que ele sabia!)
Antes da invenção da aguardente, quando
Era sobrinho do meu tio Fernando.

quarta-feira, outubro 10, 2012

A Pauta de Vivaldi



O vento barroco inventa a paisagem.
Deus abre a partitura, agita a batuta e iniciam-se as gaivotas
em coro de trompetes.
As traineiras que chegam à doca,
arrastadas pela maré e pela combustão percurssiva do diesel,
não desafinam.
A montanha que se debruça ondulante
traz até à enseada a escala cromática de 36 violinos madrigais,
despertadores alegres do sono do mundo.
O Atlântico acorda em sereníssima majestade,
contribuindo com atonalidade eterna para a virtude sinfónica.
Enquanto o disco solar encontra o seu timbre de verão tardio,
duas ou três nuvens equívocas trauteiam a frase violoncelista da esfera celeste,
vibrando, melódicas, em azuis de Si Maior.
Consigo até ouvir as rosas em decaimento bemol,
por entre o zumbido concertado das abelhas e o murmúrio da terra,
que repete incansavelmente o seu refrão primordial.
O horizonte ergue-se enfim em uníssono orquestral para me saudar,
e eu - plateia de plebeus - levanto-me para a ovação redentora.

Na pauta de Vivaldi está a última palavra de Deus.


sábado, outubro 06, 2012

O contrário de um país.


Nem rei nem lei, nem paz nem guerra, 

define com perfil e ser 
este fulgor baço da terra 
que é Portugal a entristecer 
– brilho sem luz e sem arder, 
como o que o fogo-fátuo encerra. 

Ninguém sabe que coisa quere. 
Ninguém conhece que alma tem, 
nem o que é mal nem o que é bem. 
(Que ância distante perto chora?) 
Tudo é incerto e derradeiro. 
Tudo é disperso, nada é inteiro. 
Ó Portugal, hoje és nevoeiro... 

É a Hora! 

Fernando Pessoa | Mensagem | Nevoeiro 


Começo pelo fim e digo ao contrário: mais lixem me não que, deuses os mim de rir se de parem que!
Porque eu começo já a ficar deveras exaurido e por demais fartinho desta comédia tragédia, de que este eterno 5 de Outubro de 2012 não podia ter sido melhor logotipo. Este eterno 5 de Outubro de 2012 não podia ter sido mais transparente sobre o esqueleto do regime. Este eterno 5 de Outubro de 2012 vai ser recordado como o dia do Raio X. Nunca se tirou, como hoje, um negativo tão eloquente ao regime que nos escraviza a dignidade: a cenografia pomposa e de acesso reservado a uma elite envergonhada, perplexa, incapaz; a senhora que fura pelos gorilas e que vem do meio do "povo" (e que é o "povo"!), implorando e acusando e conseguindo, na sua profissional competência de amadora, encenar em dois minutos um drama que Mário Soares (mesmo a levar todas as noites com pedras na cabeça em directo para o telejornal) não saberia realizar em cinquenta anos; a rapariga, muito solene e com nervos, disparando as atonias de Lopes-Graça e as atonias de Lopes- Graça soarem precisamente a uma rajada de metralhadora, sobre a audiência gelada; a bandeira colocada ao contrário, e ainda assim hasteada por Sua Excelência o Presidente da República, que finge, sorridente, não se dar pelo desastre ou que ignora, sorridente, a iconografia da nação; Sua Excelência o Presidente da Câmara de Lisboa a fazer campanha para Primeiro Ministro; os ministros a fugirem da idiotia da imprensa; a imprensa exultante de tanta miséria. Está tudo no boneco. Toda a decadência, toda a presunção, toda a miséria material, toda a falência intelectual, toda a ausência de ideias e de valor, todo o menos que zero da República, exposto, nú, crú, pornográfico, em alta definição e super slow motion.
Correu mesmo muito mal à organização, este dia eterno, mas na verdade é justo que assim seja porque não existe qualquer coisa de parecido com uma República digna de ser celebrada. Nas suas três tristes trevas, não se encontra luz nenhuma. A Primeira República foi o que foi: um concubinato infame de assassinos, ladrões, caciques, oportunistas, diletantes, destituídos, irresponsáveis, lunáticos e outros bem falantes. A Segunda República foi o que foi: uma orgia de um homem só, um império em Santa Comba Dão, uma deprimente, avarenta e envergonhada coisinha regimental, estado novo com reumático, nacionalista de sacristia, que, se durou só meio século, foi porque o homenzinho lá fez o favor de cair do banco abaixo e porque toda a gente com juízo tinha medo da Terceira República, que é o que é: um outro e um mesmo concubinato infame de assassinos, ladrões, caciques, oportunistas, diletantes, destituídos, irresponsáveis, lunáticos e outros bem falantes.
O problema é que - antes das três trevas da República - o que tivemos foram mais escuridão, as trevas das quatro desgraçadas dinastias que desafortunadamente completaram a monarquia. Sim, porque até Filipe II - provavelmente o mais poderoso rei da história da humanidade - foi aqui, reduzido a Filipe I, um medíocre governante.
Portugal resiste com rara risiliência a uma remota possibilidade de sucesso dos regimes, das constituições, dos estadistas, dos governos e dos programas políticos. E assim, é tão ridículo ser-se republicano como monárquico. É tão ridículo ser-se fascista, como social-democrata. É tão ridículo ser-se miguelista como liberal. É tão ridículo ser-se revolucionário como conservador. Escolha-se o clube ideológico que se escolher, é-se ridículo. Ser português é ser ridículo. A ridicularia está na raíz da nossa identidade. Se não nos achássemos todos ridículos em Portugal, D. João II teria tido mais dificuldades em recrutar marinheiros para dobrar o cabo, na justa medida em que o português acredita infantilmente que, saindo de Portugal, se torna menos ridículo. E também não é por acaso que se diz que somos um país de poetas. Os poetas, mais que fingidores, têm forçosamente que ser ridículos como uma carta de amor.
O actual governo constitucional, como os outros todos que o procederam, não foge à regra esmagadora da estupidez e da ignomínia históricas e multiplica-se em incompetências, numa sequência explosiva de dislates e disparates, numa roda viva de cobardias e equívocos, numa procissão de hesitações e mãos-na-cabeça, num festival de pânico, numa exibição constrangedora da mais absoluta impreparação, da mais escandalosa incapacidade que podemos conceber num dado momento (a não ser, claro, que recordemos outro qualquer momento do género, interpretado por outro qualquer governo constitucional).
Afinal, Portugal é o contrário do que deve ser um país e o engenheiro que arranjou maneira da bandeira ser içada de pernas para o ar sabia bem o que estava a fazer e fez ele muito bem. Palmas para o engenheiro! O engenheiro que arranjou esta maneira gráfica e genial de dizer que Portugal é o contrário do que deve ser um país, de dizer que Portugal é um território ocupado pelo inimigo, é o herói do Dia do Raio X!
Devo confessar porém que tudo isto começa a cansar-me até à flor da inconsciência e este dia eterno de 5 de Outubro de 2012 foi ensandecedor por demais.
E acabo no princípio, mas ao contrário: deuses os lixam me porque?

quarta-feira, setembro 26, 2012

Marcha Fúnebre

I

Não sou nenhum génio e não engano ninguém:
Nem vou morrer cedo nem nunca fui amado pelos deuses.
Não, nem, nunca, nenhum: sou eu.
Não, nem, nunca, ninguém: e é tudo.


II

Toda a gente é pequenina e eu também sou minúsculo como gente grande.
Talvez por causa disso de se ser canina dentro de um inferno do tamanho do universo,
A minha mãe sempre me avisou a navegação,
A minha mãe sempre me disse da vida ser infiel puta.
E eu acreditei nela e foi desse acreditar que fiz o meu destino triste,
Foi disso que fiz a minha desgraça de pobre diabo,
A minha absoluta desgraça de pobre diabo que afinal nada tem que ver com a puta da vida;
Que é exterior a esse facto igualmente absoluto, objectivo e lamentável
Que a minha mãe tinha gosto de me ensinar.

Porque se a vida é assim comercial, é assim comercial para todos
E se assim é infiel, assim infiel é para todos
E se eu sou mais infeliz e desgraçado que a maioria,
É porque transcendi a miséria que é comum;
Fui mais fundo, enlouqueci mais, errei excessivamente,
Fui vil para além da vilania que é suposta nos homens.

Porque se toda a gente é pequena e eu, que também sou diminuto,
Quântico no pântano incontável da macro-física,
Sigo ainda assim para além das estrelas,
Sigo ainda assim para além da noite e dos pesadelos;
É porque vou a caminho de um fim imenso, com fome.
É porque a morte é o meu prometido momento de grandeza.


III

A minha vida é um velório de 45 anos.
As pessoas entram, prestam os seus respeitos e saem aliviadas,
Como quem retira a máscara incómoda que o baile entediante exigia de regra.
No entretanto, fazem o possível para encontrar algo de agradável e apropriado
Para dizer do cadáver - tarefa ingrata;
Fazem o possível - e o impossível - para escaparem incólumes
Ao breve confronto com a morte.


IV

Há muito que já não devia andar por aqui,
Bípede periclitante sobre a instável curvatura da Terra.
Há muito que já devia ter sido raptado por extra-terrestres, morrido num acidente de viação;
Há muito que já devia ter sido assassinado por um psicopata, desaparecido em combate;
Que já devia ter sido carbonizado numa manifestação, ceifado pela cirrose,
Interrompido pelo cancro, terminado pelas drogas, enforcado no sótão,
Suicidado da ponte abaixo ou por baixo da locomotiva ou a tiro de pistola.

Mas eu, que não guardo no genoma nada que possa interessar aos astronautas do mistério;
Eu, que respeito os limites de velocidade e já poucas vezes levo a bebedeira ao volante;
Eu, que vivo num país com escassez de psicopatas e medo das guerras;
Eu, que não sei como dar o nó à forca, nem nunca vivi numa casa com sótão;
Eu, que não tenho tomates para me jogar da ponte abaixo ou para baixo do comboio,
Nem causa que justifique a imolação em praça pública;
Sim, eu, que não tenho imaginação para suicídios criativos
E que vivo num país de burocratas, onde possuir uma arma é complicado e oneroso;
Eu, que nem bebo assim tanto para poder morrer com pressa,
Que nem chego a fumar 3 maços por dia,
Que não chuto cavalo nem dependo da cocaína;
Eu, que sou tão modesto de vícios como de virtudes, que sou de moderados excessos,
Que não sei oferecer-me em sacrifício, que não tenho fé que chegue para ser mártir;
Eu, que tanto desejo a morte, vou devagar apodrecendo.
Eu, que tanto desejo a paz última, vou em primeira velocidade,
Vou sem saber do ponto de embraiagem, aos solavancos, aos sobressaltos,
Percorrendo lentamente a inviável estrada da existência.


V

A minha vida é um velório de 45 anos e por mais anos ainda velório será,
Até porque, mais que provavelmente, vou precisar de pedir dinheiro emprestado
Para pagar a conta do funeral.

Equinócio da Lua


Os deuses decretam o Outono
E publicam em opúsculo:
Que se dê o Atlântico ao abandono,
Que a orla se esconda em crepúsculo.

Atrás da montanha, o sol ainda arde
Em equinócio-capicua.
O Verão desfalece com a fuga da tarde,
A noite começa com o cair da lua.

Os deuses obrigam ao Outono
E publicam no firmamento:
Que o Atlântico cederá ao sono,
Que a orla calará o movimento.

O espectáculo é dramático, faz alarde
De astrofísica-falcatrua:
O Verão cessa com o fugir da tarde,
A noite avança com a morte da lua.

quinta-feira, setembro 20, 2012

Sobre a difícil arte do regresso.

Tenho os ouvidos embrulhados por 5 novos discos de retorno. É muito difícil fazer melhor que os respectivos 5 discos anteriores, mas eles bem que tentam. Mas eles bem que lutam contra a maldição do brilhantismo efémero. E eu respeito isso.


Metric - Synthetica


The Killers - Battle Born


The Vaccines - Come of Age


Two Door Cinema Club - Beacon


Fanfarlo - Rooms Filled With Light

sexta-feira, setembro 14, 2012

Algumas achas para a fogueira.

Maomé era homossexual. Tenho o direito de dizer isto.
Eu acho, posso achar; eu digo, posso dizer o seguinte:
Maomé, o profeta, levava no cú.
É minha esta liberdade. E quero que os islamitas-facínoras, espécie sub-sapiens dos esgotos da ontologia, filhos enjeitados do sudão que é o mundo muçulmano todo, vão fazer exactamente como o seu desgraçado profeta gostava imenso de fazer e que era: levar na bilha. Pegar por trás. Enrabar e ser enrabado.
Podem queimar bandeiras e incendiar embaixadas à vontade. Preferia morrer a ser calado por vós, gentinha miserável, produto infecto, gonorreico, dos intestinos de Deus.