sexta-feira, março 06, 2015

A impossibilidade do alcoolismo em Fernando Pessoa: um ensaio em cinco tragos.

 Crónica publicada a 26/02/15




“Conta-se que um poeta maldito do segundo império, Theodore Pelloquet, vagabundo e bêbedo que ficou afásico, ao tentar no seu leito de morte exprimir aos seus próximos a sua última vontade só conseguiu pronunciar a primeira sílaba: abs…, sem que se conseguisse saber se queria um copo de absinto ou a absolvição dos seus pecados por um padre.” 
Robert Bréchon . Estranho Estrangeiro - Uma biografia de Fernando Pessoa


I – Tantas páginas em branco e tão pouco tempo.
Fernando Pessoa. Nascido a 13 de Junho de 1888, morrido a 30 de Novembro de 1935. Tendo vivido, assim, 47 anos, 5 meses e 17 dias, criou, nesse lapso, qualquer coisa como cerca de 130 autores fictícios (1). Dezenas desses autores fictícios deixaram obra que chegue para ocupar as academias de todo o mundo com séculos de pós-graduações, mestrados e doutoramentos. A sua vasta, complexa e inspirada obra heteronímica não tem paralelo na história da literatura universal, mas apenas como hortónimo já é o poeta mais importante do século XX português, rivalizando com Camões para o título nacional absoluto. A obra que Pessoa construiu no breve percurso da sua existência não está ainda, 80 anos depois da sua morte, inteiramente publicada. Inteiramente estudada. Inteiramente lida. A célebre arca não parece ter um fundo e o bom do Virgem Negra, para além do poeta-milagre que foi, também foi editor, dramaturgo, novelista, crítico literário, ensaísta, filósofo, politólogo e economista, tendo deixado à posteridade incontável obra sobre uma imensa pluralidade de temas, em português, inglês e francês.
Para além desta carga de trabalhos, o poeta da “Mensagem” escrevia cartas como se não houvesse amanhã. Correspondia-se com Mário de Sá Carneiro, com Jorge Luís Borges, com Adolfo Casais Monteiro, com Gaspar Simões (que viria a ser o seu primeiro editor e biógrafo), com António Botto, com Jaime Cortesão, com José Régio, com Camilo Pessanha, com Almada Negreiros, com Santa Rita Pintor, com os directores dos jornais que o irritavam e com os directores dos jornais que não o irritavam, com os seus professores de Durban, com astrólogos de Londres, com psiquiatras de Paris, com editores em toda a parte, com a Ofélia (correspondia-se imenso com a Ofélia!) e com mais uma quantidade inquietante de gente, só para falar das cartas que enviou, porque entretanto escreveu muitas que se esqueceu de levar aos serviços postais. O Fernando era aquele tipo de sujeito educado que mandava uma carta só para avisar que ia chegar meia hora atrasado (2).
A somar a esta quantidade devastadora de cartas assinadas com nome próprio, também criou bastante correspondência em nome de autores fictícios e heteronímicos. Umas vezes escreviam uns para os outros, outras vezes escreviam para gente de carne e osso e, outras ainda, escreviam para personagens imaginários, criados para efeitos meramente cenográficos fora do âmbito da criação literária (talvez a mais prodigiosa carta de amor jamais escrita na língua portuguesa é aquela que a Corcunda escreve ao Serralheiro).
Como eminência parda do modernismo português e co-fundador da Orpheu, Fernando Pessoa produzia com regularidade, em seu nome e em nome da multidão que o habitava, uma variedade enorme de conteúdos para os media da altura (manifestos, textos de intervenção política e social, poemas, ensaios, etc., etc.) e, claro, sempre sobre os assuntos mais díspares que podemos imaginar. Alguns destes textos são de grande fôlego literário e dizem-nos muito sobre o Modernismo português em geral e o pensamento do autor em particular. Só Álvaro de Campos escreveu dois dos manifestos mais espectaculares já registados pela história da literatura portuguesa: Aviso por Causa da Moral e Ultimatum.
Como a sua caligrafia, também a sua pena era perfeitamente transversal. Até um roteiro de Lisboa em Inglês, o senhor se lembrou de escrever (para ser editado apenas em 1992) (3).



Pessoa com costa Brochado, a beber... café.



II – Actividades curriculares e extra-curriculares
Pessoa era, também e por isso mesmo, um estudioso obsessivo. Erudito em autores tão diversos como Shakespeare, Edgar Allan Poe, John Milton, Lord Byron, John Keats, Percy Shelley, Alfred Tennyson, Baudelaire, Camões, Cesário Verde, Padre António Vieira e… Bandarra; refundador do mito do Quinto Império, zeloso leitor de filósofos clássicos e modernos, astrólogo amador, filatelista até um certo ponto, ocultista perito e conhecedor profundo das ciências e das artes do seu tempo, o santo homem teve que ler por ele e, no mínimo, por mais uma mão cheia de tipos que viajavam dentro dele (a sua biblioteca está cheia de edições assinadas por autores fictícios e heteronímicos). Mais a mais, é imperativo acrescentar a esta equação o deprimente facto de que Pessoa sempre precisou de trabalhar para ganhar a vida. Com esse fim, foi correspondente comercial a tempo inteiro, na maior parte da sua existência adulta, e tradutor, jornalista e publicitário em part-time.
Por cima disto tudo, e para concluir esta muito extensa lista de afazeres, sabe-se que era um tio dedicado e um daqueles solteirões que têm um jeito meio irritante com as crianças, não regateando o tempo que consumia com elas em brincadeiras, charadas e jogos mímicos (4).





































Fernando Pessoa descendo o Chiado sem trocar o passo.


III – Velocidade furiosa.
Se o prezado leitor ficou enfartado com os dois primeiros tragos deste ensaio, tem boas razões para isso. A vida e a obra de Fernando Pessoa resultam necessariamente num ataque cardíaco, dada a azáfama danada e exaustiva. Como é que o santo homem teve tempo para tudo isto?
É verdade que Pessoa é conhecido pelos seus episódios de criatividade frenética e velocista,dos quais o mais conhecido – e lendário – é o da Noite Triunfal de 8 de Março de 1914, em que redige de uma assentada os 49 poemas que cumprem “O Guardador de Rebanhos”, do mestre Caeiro (5). Mas ainda assim, só um sujeito altamente disciplinado, fortemente determinado e tendencialmente sóbrio é que consegue produzir toda esta quantidade delirante de obras primas, entre outras papeladas.
Ora, é precisamente neste ponto que a versão oficial dos biógrafos do insigne poeta não faz sentido nenhum. É que, de uma maneira geral, de Robert Bréchon a Cavalcanti Filho, todos constroem a imagem de uma figura diletante, melancólica e anémica, quase preguiçosa, que se arrasta entre o Martinho e o Chiado, numa ociosidade ébria. Gaspar Simões, que o conheceu muito bem em vida, é, curiosamente, o mais prudente nas alegações sobre os hábitos de consumo de bebidas alcoólicas do seu amigo (6), mas o alcoolismo é uma referência constante nos estudos biográficos que lhe são dedicados. Cavalcanti Filho chega a enumerar, na sua recente biografia-tipo-lista-de-compras, todos os vinhos e espirituosos que Pessoa emborcava, segundo o autor brasileiro, em quantidades industriais (7).
Pois bem, entre o copo de vinho aqui, a aguardente ali, a justa ressaca, o namorar da Ofélia, o deambular parasita pelas ruas da Baixa e o necessário cumprimento das obrigações profissionais, é pertinente perguntar sobre o elefante verde que está sentado no sofá magenta desta sala de espera: então e quando é que o Fernando Pessoa está a escrever, afinal?




 No Martinho da Arcada, entre amigos e cervejas.


IV – Da tasca ao opiário.
Como o Sócrates de Platão, o autor da Tabacaria nunca se dá por bêbado. Segundo os seus biógrafos, aguenta bem o álcool. Bebe, bebe, bebe, mas vai direitinho pela Rua do Carmo a baixo. Ninguém o vê trocar o passo. Não se lhe conhece uma infâmia por mau vinho, nem uma gritaria de taberna. Esta estoicidade do poeta perante a influência da bebida é bastante conveniente para a sua reputação de seca adegas, embora na verdade se saiba que os alcoólatras são os primeiros a cederem ao poder etílico, na medida em que têm permanentemente um nível de álcool muito elevado no sangue.
O Absinto é outro dos assuntos preferidos dos biógrafos e pseudo-biógrafos do génio da Ode Triunfal. É impossível saber se o paciente leitor tem ideia do que falamos quando falamos de uma bebedeira de Absinto, mas é algo de muito pouco recomendável. A bebida, destilada da planta medicinal que lhe dá o nome, é altamente aditiva e tem poderes alucinogénios. É talvez a beberagem alcoólica mais parecida com uma droga dura que podemos imaginar.
Para se perceber o poder destrutivo do absinto, basta revisitar as aflições que do seu consumo resultaram em personagens como Charles Baudelaire, Paul Verlaine, Arthur Rimbaud, Van Gogh, Oscar Wilde, Henri de Toulouse-Lautrec e Edgar Allan Poe. Uma boa geração de impressionistas da Belle Époque foram criativamente anulados pelo vício do Absinto. Consumida em excesso, esta não é uma bebida que permita a funcionalidade social ou intelectual e não se percebe, mais uma vez, como é que Fernando Pessoa podia abusar regularmente do Absinto e manter a proficiência lírica e ensaística no seu regular nível olímpico.
Para piorar ainda mais as coisas, nas últimas décadas tem pegado muito a conversa de que Pessoa se dedicava ao consumo do ópio. Esta tese é ainda mais radical, já que o ópio é uma droga que exige e implica largos períodos de letargia, agravando ainda mais a escassez de tempo dedicado à escrita na agenda do poeta. Sim é verdade: Pessoa escreveu que “tomava” ópio. Sim, é verdade: escreveu que o vinho é o melhor da vida. Mas estamos a falar do mais fingidor dos poetas alguma vez paridos. Álvaro de Campos, por exemplo, projectava navios enquanto se embriagava, se drogava loucamente e fazia sexo com máquinas. Lá no mundo imaginário de Álvaro de Campos, claro. Ricardo Reis deliciou-se com as prostitutas de Lisboa e Bernardo Soares era um amante impetuoso, lascivo e competente, que deixava a balzaquiana Olga exaurida de prazeres (8). Apesar disto, há muita gente mais ou menos respeitável que acredita que Fernando Pessoa morreu virgem (4,7).
Sim, é verdade: o homem visitava tabernas, casas de pasto, botequins. Sim, bebia uns copos sózinho ou na companhia boémia dos modernistas com que se dava. Sim, embriagava-se normalmente, como convinha aos personagens da sua ficção íntima e do ecossistema social que habitava. Mas há uma diferença grande, que toda a gente compreende bem, entre a episódica copofonia e a constante alcoolemia. Uma diferença tão grande como entre a ficção e a realidade.





































Em flagrante delitro no Abel Pereira da Fonseca.


V – Entre o namoro e a morte, um epílogo.
Um dos fenómenos mais tristes do mito de Fernando Pessoa é o que foi montado à volta da sua morte, tantas e tantas vezes erradamente atribuída a uma “cólica hepática” associada à cirrose. É necessário afirmar que este diagnóstico é falso. Fernando Pessoa foi vítima de uma pancreatite aguda e não evidenciou à altura da sua morte quaisquer sinais distintivos de cirrose hepática (9).
Esta persistente falácia ilustra com rigor a qualidade do modelo argumentativo da tese do alcoolismo, que é realmente fraquinha em factos, mas nem seria preciso mencioná-la. Ou o Virgem Negra era imune aos efeitos destrutivos da embriaguez crónica – o mais funcional dos alcoólatras desde que Baco organizou a primeira orgia – ou simplesmente não bebia tanto como toda a gente que é perita nele afirma que ele bebia. A vastidão assombrosa e múltipla da obra que desenvolveu não deixa muita margem de manobra para uma vida de vício. E, no belo, pungente e extenso relato que Ofélia Queiroz partilhou com a sua sobrinha-neta Maria da Graça Queiroz (10), a única menção que o grande amor de Fernando Pessoa faz a este assunto refere-se ao famoso retrato do poeta a beber vinho no Abel Pereira da Fonseca (com a legenda: “Fernando Pessoa em flagrante delitro”), que lhe foi parar às mãos através do seu sobrinho Carlos Queiroz e que deu lugar a um reatar do namoro, 9 anos depois da sua primeira conclusão. De resto, nada, rigorosamente nenhuma referência ao que Pessoa bebia, muito ou pouco. Se Ofélia Queiroz algum dia o viu embriagado, não quis deixar essa memória para a posteridade. Isto embora a ilustre senhora não mostre a mesma parcimónia sobre outras excentricidades, manias e fraquezas do namorado.
E para concluir, uma perguntinha só: se Pessoa era um amante assim desvairado do vinho, porque diabo é que o bom do Almada Negreiros o imortalizou a beber café?



1 – Jerónimo Pizarro e Patricio Ferrari – Fernando Pessoa – Eu sou uma Antologia – 136 Autores Fictícios, Tinta da
China, Lisboa 2013
2 – Fernando Pessoa, Correspondência (1905-1922), Relógio d’Água; Fernando Pessoa, Correspondência (1923-
1935), Assírio & Alvim
3 – arquivopessoa.net
4 – Robert Bréchon, Estranho Estrangeiro, Quetzal, Lisboa, 1996
5 – casafernandopessoa.cm-lisboa.pt
6 – João Gaspar Simões, Vida e Obra de Fernando Pessoa – História duma Geração, Bertrand, Lisboa, 1950
7 – José Paulo Cavalcanti Filho, Fernando Pessoa, Uma Quase Autobiografia, Porto, 2012
8- Salomó Dori, A Vida Sexual de Fernando Pessoa, Palimpsesto, 2009
9 – Francisco Fonseca Ferreira, A Penumbra do Génio, Livros Horizonte, Lisboa, 2002
10 – O Fernando e eu, Relato da Ex.mª Senhora Dona Ophélia Queiroz, destinatária destas Cartas de Fernando

quinta-feira, fevereiro 26, 2015

Pessoa em movimento.

 photo Fernando Pessoa descendo o Chiado com Augusto Ferreira Gomes.gif

Fernando Pessoa com Augusto Ferreira, no Chiado.

Condensado de solo de guitarra.



André Antunes, de 23 anos, reuniu alguns monstros sagrados da guitarra num medley eléctrico sobre a simpática base harmónica de "Get Lucky", dos Daft Punk.
O resultado é brilhante. Simplesmente brilhante.

terça-feira, fevereiro 24, 2015

Viagem à floresta do folk.

Crónica Publicada a 19/02/15.

 


De uma maneira ou de outra, a tradição folk anglo-saxónica tem sobrevivido bem à voracidade das épocas e à inconstância das manias, integrando-se transversalmente e com profundidade melódica em fenómenos de vastidão antípoda como os The Magnetic Fields do fim de século XX, os Wilco do princípio do século XXI ou os Manchester Orchestra de agora.
Apóstolos desta seita prolixa e interminável, os Bear’s Den lançaram no fim de 2014 um primeiro trabalho que soa como um décimo sexto. Maturo, parcimonioso mas quase fundamentalista na obsessão com as harmonias, carregado com um conjunto de poemas inspirados e convenientemente sorumbáticos, “Islands” (Communion Records, 2014) é um disco que deixa outras bandas menos convictas da sua inerente herança folk, como os The Lumineers, a milhas de distância, no caminho da floresta.
 


Logo no primeiro minuto de “Agape”, o tema de abertura, está uma espécie de manifesto. Se o gentil leitor ouvir apenas estes acordes iniciais ficará razoavelmente informado sobre a odisseia que os três músicos de West London têm para lhe propor. Um tema forte como o raio.
“The Love You Stole” transporta algo dos paleolíticos Big Country para uma redefinição da balada. Saltando de uma viagem psico-revivalista a Pompeia (“Above The Clouds Of Pompeii”), para uma trova de gentil-homem que evoca com brilhantismo algumas experiências sónicas do grande Stephin Merritt (“Isaac”), o audiente é confrontado mais à frente com o poder épico de “Think of England”, uma canção que dá vontade de apanhar imediatamente uma boleia do Mayflower ou qualquer coisa aventurosa e marítima deste género. O banjo, que é a peça lírica por excelência dos Bear’s Den, tem reinado até aqui mas, aqui chegados, é imperador.Em “Magdalene” já estamos completamente imersos pelo arvoredo do folclore celta e, no trilho sombrio que se estende entre “When You Brake” e “Elysium”, ficamos cada vez mais próximos do grande deus-urso. 
O disco vai num crescendo indie-folk assumidíssimo, quase sem rock nenhum, até ao apogeu estético que os seus ouvidos, paciente leitor, vão consumir com deleite. “Bad Blood” é o fim do trilho, o triunfo do mato, o covil de todas as coisas. A razão da música no coração da floresta.

Mais uma pérola.


sexta-feira, fevereiro 20, 2015

Isto começa a ser viciante:



Bear's Den . Think Of England

You're not drinking as much as you used to.
I'm the same old, same old.
 

quarta-feira, fevereiro 18, 2015

Só para quem gosta de corridas.



Ron Howard é um cineasta absolutamente imprevísivel, que está sempre a oscilar entre a competência e a mediocridade. É tão capaz de realizar objectos fílmicos decentes e com peso na cultura pop contemporânea, como Apollo 13, Frost/Nixon, Cinderella Man ou A Beautiful Mind, como de dirigir verdadeiros cataclismos do bom senso e do bom gosto, como Far And Way, Backdraft ou o lamentável Da Vinci Code (é difícil fazer de Tom Hanks um actor medíocre, mas Ron Howard conseguiu cumprir a desgraça).
Por sorte, em Rush, uma espécie de biopic dedicada à célebre rivalidade entre Nikki Lauda e James Hunt, Ron mostra o seu melhor lado. Para quem gosta de corridas de automóveis, das boas e velhas corridas de automóveis, o filme enche as medidas e mata muitas saudades. É que a acção centra-se no ano paleolítico de 1976, altura em que a Fórmula 1 era um espectáculo operático de alta intensidade ontológica e antológica, que colocava na arena uns monolugares monstruosos, completamente analógicos, que faziam um barulho do escafandro, gastavam que nem doidos e assassinavam recorrentemente os seus domesticadores. Lauda e Hunt eram excelentes domesticadores. E enquanto o inglês escapou incólume da aventura, o austríaco pagou caro pela glória, como toda a gente sabe. Howard conta a história com desenvoltura técnica (a coerência estética e dinâmica entre as sequências digitais e a imagem real é um ponto forte da fita), sentido épico e fluência dramática, os actores são convincentes na transfiguração, e a história é, na sua maior parte, contada como aconteceu realmente, o que é raro num filme produzido pela máquina de debitar mentiras que é Hollywood e de que Ron Howard, para o bem e para o mal, é indefectível campeão.
Já quem não gosta assim tanto de automobilismo, se calhar o melhor é ver as cinquenta sombras de grey ou uma outra merda qualquer.

sexta-feira, fevereiro 13, 2015

Pura combustão.



Desde que foi colocado em órbita, em 2010, o Observatório de Dinâmica Solar da NASA tirou 200 milhões de imagens à estrela que nos aquece. O resultado são estes quatro minutos e meio de deslumbramento.

Momento de rara beleza. Mesmo.



Bear's Den . Bad Blood

Sever the ties,
Cut me out,
And fill up the hole
That I tied and I tried and I tried to fill
Oh but I lied and I'll lie at will
Just to keep your feet off the floor
And to keep my wolves from your door

Forgive me for I am not acting myself
But these bees in my breath have to come out
Well you give me no reason to doubt your word
But I still somehow still have my reasons
And I'm sorry I don't mean to scare you at all
I'm just trying to drain all this bad blood
All this bad blood
All my bad blood

Well I slashed your tires
And I locked your doors
So no one gets out
But there's a rupture to the structure
Of this house that we built
And I fucked it yeah I fucked it and I fucked it until
Those wolves they took all they could

Forgive me for I am not acting myself
But these bees in my breath have to come out
Well you give me no reason to doubt your word
But I still somehow still have my reasons
I'm sorry, I don't mean to scare you at all
I'm just trying to drain all this bad blood
All this bad blood
All my bad blood
All my bad blood
All my bad blood
All my bad blood

As I walk down he road of old St. Augustine
I recall a choir singing in some orchard
Well the tighter you hold, yeah they're still gonna go
Until all you remember is the courtship
Well I know I was far from perfect
But I was just dying to drain all my bad blood
All my bad blood
All my bad blood 

quinta-feira, fevereiro 12, 2015

A quem é que os alemães vão pedir uma indemenização por isto aqui:


Há 70 anos atrás, a 13 de Fevereiro de 1945, os aliados conduziram aquele que é, talvez, o mais infame bombardeamento da história da II Guerra Mundial. Infame, porque a guerra estava já ganha. Infame, porque foram despejadas sobre Dresden cerca de 4.000 toneladas de bombas incendiárias. Infame porque morreram 25.000 civis numa noite apenas. Infame porque a razão para a chacina se deveu apenas à vontade de aniquilar a estrutura industrial alemã.
Infame enfim, ainda hoje, porque, entre cineastas, romancistas, jornalistas, historiadores e políticos, há muito poucas almas com coragem para documentar o apocalipse de Dresden. Kurt Vonnegut escreveu, a propósito da sua experiência "ao vivo" da terrível noite de Dresden, a caleidoscópica obra prima "Matadouro Cinco", e, na literatura, que eu saiba, é tudo. Hoje, os senhores que conduzem a redacção do The Atlantic, lembraram-se. Mas é pouco, muito pouco para tanto horror.
No momento em que os gregos "exigem" algo tardiamente indemenizações à Alemanha pelos estragos da guerra (lembro que o governo grego vigente no momento da ocupação pelas forças do eixo era fascista e que a guerra civil que se seguiu à libertação do país só terminou em 1949), eu pergunto: e que a quem é que os alemães vão pedir compensação por esta atrocidade perfeitamente evitável?

Rocketville #15 Retro_Spaceships


quinta-feira, fevereiro 05, 2015

No jardim do bem e do mal.

Ontem li na Sábado um artigo do José Pacheco Pereira que me deixou com o queixo ao nível do mar. Reparem só neste meio parágrafo:

"Ouvindo estas vozes, exigindo que a única política europeia seja "levar o Syriza à derrota" para evitar o contágio, sem transigências e com toda a dureza, eu penso como nestes últimos anos nós não tivemos só discussões políticas e ideológicas (poucas aliás, a sério), alimentámos o mal. O mal. Nalguns sítios da nossa sociedade gerámos, alimentámos, engordámos, trouxemos à luz do dia gente má, muito má, que mandou e manda em nós, instilando arrogância, desprezo pelos mais fracos, insensibilidade face à miséria, gente que olha os gregos como se fossem untermenschen." 

Deuses. Parece que, para JPP, quem acha apenas justo e prudente que os gregos paguem o que devem é uma espécie de acólito de satã. E quem, como eu, não vê de ânimo leve a ascensão do Syriza aos círculos mais altos do poder na Europa, não passa de um sádico. O maniqueísmo escandaloso e, de certa forma, doentio, que JPP usa abundantemente como figura de estilo neste texto, não está à altura do seu perfil intelectual, é estranhíssimo e, sobretudo, preocupante.
Percebo que JPP se sinta nostálgico de uma revolução qualquer e a qualquer custo, mas não é de certeza o Syriza que a vai fazer, porque a Grécia precisa de dinheiro muito antes de precisar de revoluções.
Percebo que defenda os cidadãos europeus que fazem sacrifícios e passam mal e perdem empregos e caem na miséria. Mas, caramba, porque raio é que o distinto historiador e opinion maker decidiu acreditar que Tsipras e Varoufakis e companhia vão conseguir inverter a tendência de descida na qualidade de vida dos gregos? No preciso momento em que escrevo este texto, Wolfgang Schäuble, o inflexível ministro das finanças alemão, acabou de deixar o seu congénere grego com um sorriso amarelo de todo o tamanho ao anunciar em conferência de imprensa conjunta que "concorda em discordar" com o seu congénere, assumindo a ausência de qualquer acordo e reiterando que a Alemanha já ajudou a Grécia mais do que seria razoável. As perspectivas de curto e médio prazo para uma redução da austeridade na península helénica não podem ser optimistas. Ao invés, as coisas podem começar a correr mesmo muito mal. Se a Grécia sair do Euro, o que é que o JPP pensa que vai acontecer ao povo grego? Os actuais e sofríveis níveis de vida vão cair rapidamente, de tal forma que o actual período de austeridade trará lendária nostalgia àqueles que JPP agora defende: os pobres vão ficar mais pobres, os remediados vão ficar menos remediados e assim sucessivamente até ao caos absoluto da economia e da nação.
Isto já para não falar do conjunto de valores niilistas e absolutamente anti-civilizacionais que estão escarrapachados no programa político do Syriza e que transporta o entusiasmo retórico de José Pacheco Pereira para um patamar de non-sense só admissível numa rábula dos Monty. Tenho a certeza que o notável autor não tem qualquer simpatia pelos fundamentos ideológicos desta gente. E que os acha tão perigosos como eu.
Mas, assim sendo, a que se deve este recurso aos abismos do bem e do mal, esta insidiosa arquitectura moral, este fascismo ético?
Sinceramente, há coisas que não se percebem. E eu cada vez percebo menos das razões que movem Pacheco Pereira.

Bomba eléctrica.



The Hobbes Fan Club. Uma banda com um nome destes só pode dar em algo de excepcional. Algo como o solo de guitarra desta música, que não podia debitar mais conteúdo lírico, sob o risco de implosão voltaica.

segunda-feira, fevereiro 02, 2015

Super Bowl Drama #2


É muito raro termos um Super Bowl sem drama, mas os últimos minutos do duelo de hoje, entre os New England Patriots e os Seatle Seahawks, foram completamente insanos.
A perder por dez pontos no final do terceiro quarter, Tom Brady, com dois passes para touchdown, conseguiu levar os rapazes de Foxborough a uma vantagem de 4 pontos, deixando apenas dois minutos ao adversário para reagir. Acontece que os Seahawks não são propriamente uma equipa de maricas, e, a vinte segundos do fim, estavam a uma jarda do título, depois de um catch acrobático e surreal de Jermaine Kearse. Com dois downs para jogar, tudo o que Russell Wilson tinha que fazer era dar a bola ao melhor running back da liga, o imparável Marshawn Lynch, a.k.a. The Beast Mode, e somar o título. Ao invés, numa decisão absolutamente inacreditável que deixou toda a gente de queixo caído, o quarterback dos Seahawks lançou disparatadamente a bola para a end zone, só para ser interceptada por Malcom Butler, o rookie cornerback de New England, oferecendo assim a glória aos Patriots e a Tom Brady, que se junta ao restrito grupo dos quarterbacks sagrados do futebol americano, com 4 títulos conquistados.
Na América, hoje, só se faz uma pergunta: What the hell were they thinking?

Super Bowl XLIX highlights on Youtube

Super Bowl Drama #1


Da queda do homem.

"Caí pela escada abaixo subitamente,
E até o som de cair era a gargalhada da queda.
Cada degrau era a testemunha importuna e dura
Do ridículo que fiz de mim."
 

Álvaro de Campos


A pior queda que Deus inventou não é aquela bíblica, do Homem Original. A pior queda, a queda livre e absoluta, é a de malhar no ridículo.
Convenhamos: o gajo que come a maçã proíbida na perspectiva de uma pinocada gratuita é tão trágico como um pomar. Mas o gajo que dá uma trinca no fruto seminal sem perspectiva de pinocada alguma é trágico como Wagner. A intensidade da tragédia não tem comparação por causa do índíce de ridicularia: Adão tinha uma razão para a queda aparatosa - uma razão sensata e válida que toda a gente dotada de orgãos genitais percebe perfeitamente. Acabou por fazer má figura. Mas não fez figura triste. E não há pior tortura para o homem moral que o suplício de fazer triste figura. Daí Cervantes: o Adão que cumpre a asneira histórica de trincar a maçã sem sequer ter a intenção de dar a queca na gaja é completamente quixotesco. E cai rapidamente na pior espécie de teatro grego que pode existir na história universal da literatura: o circo do ridículo.
A tragédia, como é claro, não advém da realidade; é, ao invés e invariavelmente, o produto de uma ilusão ou o resultado de um equívoco. É que não há tragédia sem farsa e não há existência sem a presença do ridículo. Na verdade, é precisamente com o rídiculo da existência que os deuses se vingam de nós.

quinta-feira, janeiro 29, 2015

Quem são os gregos?

O mito de que estes gregos que temos hoje são da mesma espécie dos gregos que tivemos na antiguidade clássica, e que serve para fazer o paralelo manhoso de que a Grécia contemporânea está a outra vez a ensinar a democracia ao mundo, é uma coisa completamente absurda.
Macedónios, bizantinos e otomanos (estes últimos durante 4 séculos) ocuparam, colonizaram e infestaram o território grego com material genético mais que suficiente para que entre Platão e Alexis Tsipras não exista mais em comum que a terra que pisam.
Toda a gente devia saber isto e principalmente aquela gente que opina.
E a propósito de opinião, esta aqui do Paulo Tunhas está certa a trezentos por cento. E é bastante recomendável.

Isto vai acabar mal.

A bazuca de Mario Dragui afinal sempre tem serventia: percebe-se agora que a estratégia de Alexis Tsipras é a de colocar pressão sobre os mercados, de tal forma que a súbida dos juros das dívidas soberanas venha a afectar também outras nações da União (Portugal, Espanha, Itália e assim sucessivamente). Acontece que, dada a disponibilidade do BCE para comprar a dívida desses países, os investidores só vão mesmo desistir de comprar a dívida grega.
Tsipras também deve ter feito contas à generosidade de Vladimir Putin, mas neste momento parece-me que não há tesouraria em Moscovo para calar a dívida grega.
Manietado pela decisão do banco central e vítima indirecta da queda dos preços energéticos, Tsipras tem muito pouca margem de manobra. Neste momento, a única saída para o primeiro ministro grego é de uma perigosidade assustadora: um tratado económico e estratégico com os chineses que instaure no sul da Europa e no coração do Mediterrâneo uma espécie de protectorado euro-asiático.
E eis instalado mais um cenário de pesadelo.

quarta-feira, janeiro 28, 2015

segunda-feira, janeiro 26, 2015

37 pontos num instantinho.



Clay Thompson, um dos magníficos atiradores dos Golden State Warriors - a equipa com melhor média concretizadora nesta época da NBA (111,1 por jogo) - fez ontem, contra os Sacramento Kings, 37 pontos no inacreditável espaço de nove minutos, batendo o recorde da liga para pontos marcados num quarter.
No (breve) processo, o artista fez 13 lançamentos de campo sem falhar um só que fosse, incluindo 9 lançamentos de 3 pontos (!), batendo também o recorde da NBA em concretizações sucessivas da zona exterior.
Incrível. Se não fosse o Youtube a fornecer a prova, ninguém ia acreditar em mim, certo?

sexta-feira, janeiro 23, 2015

Como simplificar o que não é simplificável.



Mesmo quando se tenta explicar o mundo atómico e sub-atómico de uma forma simples, o resultado é complicado. Mas se calhar até é por isso que a quântica é uma sedutora bestial. A complicação é de tal forma transcendente que toda a gente pode ter uma opinião (simples) a respeito.

Horrível para os olhos, excelente para os ouvidos.



Walk The Moon . Shut Up And Dance

Os anos 80, vistos do século XXI, são de facto muito duros para a vista. Mas continuam a imperar sublimes no que diz respeito ao sentido da audição.
A este propósito e por causa da sua última opus popus, confesso a fraqueza de ser fan dos Walk The Moon. Uma banda tão popezinha, mas tão popezinha que deve ser a mais popezinha banda que consigo ouvir. Este último disco então, meu deus, que coragem popezinha foi necessária para o criar! Mas lá que nos deixa aflitinhos por uma pista de dança, ah isso deixa, caramba. E, nem que seja por isso; e, desde que não seja por nostalgia (ser nostálgico dos anos 80 é como ter saudades de um Fiat 127); vale a pena ouvir "Talking is hard".

América autofágica.

Os Estados Unidos já não são bem uma nação. Trata-se de uma espécie de bordel em decaimento, mas sem o glamour da decadência imperial.
O caso Ferguson, sobre o qual recomendo vivamente este excelente texto do "The Federalist", é um bom exemplo do estado a que a esquerda levou a América. Depois dos riots, do vandalismo, da hostilidade viral contra os polícias, do escandaloso aproveitamento político e da histeria mediática, o que sobrou? Nada. O Grande Jurí não viu provas para levar Darren Wilson, o polícia que matou Michael Brown, a tribunal. E a comissão de inquérito do Departamento de Justiça federal também não. O que não surpreende nada. Darren Wilson é um pacato agente da autoridade local, sem qualquer mancha ou evento digno de nota no seu currículo. Michael Brown, por outro lado, era suspeito de ter acabado de cometer um crime e, como se veio a saber mais tarde, tinha um cadastro como deliquente juvenil verdadeiramente assustador. E tudo o que Darren Wilson testemunhou sobre o acidente foi comprovado pelas evidências forenses (DNA incluído).
Mais um triste momento de manipulação mediática. Mais um deprimente fotograma da América contemporânea.

sábado, janeiro 17, 2015

Rocketville #13_Fail to succeed

A Space X está a apostar tudo na reutilização dos seus foguetões para tornar comercialmente viável a exploração espacial. A ideia é fácil de perceber: se puderes recuperar integralmente a nave que lanças para o espaço, gentil leitor, da próxima vez que quiseres lá ir só tens, basicamente, que pagar o combustível. Por isso, a empresa de Elon Musk construiu uma mega plataforma flutuante para servir de aeroporto (convém que a operação se dê no oceano, por óbvias razões de segurança) e testou ontem a primeira aterragem.


SpaceX Spaceport Drone Ship

Claro, tudo correu mal (velocidade de aproximação e grau de inclinação). O sistema hidráulico de apoio aerodinâmico foi com os porcos e o Falcon 9 espetou-se com estrondo na plataforma. Mas considerando que esta gigantesca jangada é um pontinho mesmo muito pequenino na escala da aventura sideral, e que o Falcon já tinha cumprido a sua missão de apoio à Estação Espacial Internacional, já não foi nada mau que o foguetão tenha acertado na mouche. Não se perdeu tudo. E é assim que se aprende, no negócio da engenharia espacial.
Tarda nada, a Space X está lançar foguetões reutilizáveis. É só uma questão de tempo e não de muito tempo. E eu concordo com Musk: tudo vai ser diferente a partir daí.



Mais sobre este assunto aqui.

terça-feira, janeiro 13, 2015

Blake Griffin ou o erro de Newton.



Este senhor, na minha modesta opinião e dada a fraca prestação de Kevin Durant na presente época, é actualmente o melhor jogador da NBA. Neste segmento pode parecer que tudo o que Griffin faz é afundar, mas desenganem-se. O power forward dos Clippers é um excelente atirador, tanto de 2 como de 3 pontos, e dribla com tal à vontade que, de forma a confundir as defesas adversárias, é muitas vezes ele e não o base Chris Paul que conduz as transições para o ataque. Dá gosto ver este monstro de 2,08 metros e 113 quilos jogar à bola como se Newton estivesse equivocado: a gravidade, afinal, não é uma constante. Não para Blake Griffin.

Rocketville #12 Retro_Spaceships


domingo, janeiro 11, 2015

É triste, mas é mesmo assim.

As crónicas da Helena Matos no Observador têm tanto de brilhante como de lapidar. Esta última, diz tudo o que é preciso dizer sobre o que aconteceu em Paris. E as conclusões são assustadoras e deprimentes. Mas bem reais. O inferno somos nós.

sábado, janeiro 10, 2015

A Ana Gomes deve ter uma desculpa para isto.

Hoje, em Maiduguri, a capital do estado nigeriano de Borno, os animais do Boko Haram fizeram explodir uma criança de dez anos num mercado apinhado de gente, assassinando 19 pessoas. Os ataques com crianças-bomba são recorrentemente utilizados por este grupo islamita em atentados na Nigéria.

sexta-feira, janeiro 09, 2015

Danos colaterais.


Guerra aberta.


Enquanto Paris não sai dos monitores das televisões, os rapazinhos do Boko Haram, outro bando altamente organizado e feroz de assassinos islamitas, liquidou nos últimos dias cerca de duas mil pessoas, arrasando 15 vilas e conquistando a cidade de Baga, no nordeste da Nigéria. O grupo terrorista domina agora uma extensa área na região norte do país africano.
É assim que se faz a guerra, no Século XXI. Em Paris, em Sidney, em Peshawar, em Baga, em Aleppo, em tempo real, com alta eficácia militar, baixas marginais e uma capacidade incrível de manipulação mediática: enquanto os atentados cirúrgicos nos países do Ocidente (incluo Austrália) preenchem dias inteiros dos canais noticiosos, as chacinas étnicas e os massacres religiosos que estão em curso no Iraque, na Síria e na Nigéria vão passando mais ou menos despercebidos. Tudo sai na perfeição ao inimigo.
Aguardam-se desenvolvimentos.

quinta-feira, janeiro 08, 2015


Dormir com o inimigo. E acordar para o caos.

O acto inominável de ontem, no coração de Paris, é o resultado de décadas de equívocos e absurdos, interpretados por líderes europeus incompetentes e irresponsáveis, em nome de valores humanistas que não se adequam de todo aos animais das tribos da jihad. Os perpetradores deste crime contra a civilização ocidental (e não apenas contra a liberdade de expressão), são, tudo indica, de nacionalidade francesa. Pertencem a uma comunidade islâmica em França que só muito relutantemente condenará o atentado bárbaro. Têm cadastro por crimes cometidos em nome do radicalismo islâmico. São muito nitidamente soldados profissionais, preparados para acções de assalto de máxima violência e intensidade mediática. Se fizeram o que fizeram foi porque o puderam fazer. Foi porque a França em particular e os países da União Europeia em geral, criaram condições políticas e sociais para que isto acontecesse.  
Hollande, que correu para aparecer na cena do crime ainda os corpos das vítimas estavam a ser colocados nas ambulâncias, todo pressuroso e ávido da oportunidade imperdível de uma excelente photo-op, é o exemplo máximo da incapacidade e da hipocrisia e da cobardia com que se tem gerido o grave problema das numerosas e populosas comunidades islâmicas acampadas nos territórios da União Europeia. Mas quando a sinistra e inenarrável Ana Gomes responsabiliza as políticas de austeridade de certos governos europeus pelo crime hediondo de ontem; quando Paulo Magalhães - o lamentável moderador do "Política Mesmo" (TVI24) - pergunta a um convidado do programa se os cartoonistas do Charlie Hebdo não "se puseram a jeito" de serem fuzilados, procurando assim justificar o injustificável; quando por todo o lado e por toda a aprte o que vemos e ouvimos é gente cheia de escrúpulos étnicos, preocupada acima de tudo com a necessidade de poupar as comunidades islâmicas à justa crítica social; quando aqueles que se manifestam contra a islamização dos subúrbios de Paris, de Marselha, de Hamburgo, de Londres, são imediatamente rotulados de xenófobos e fascistas; quando as notícias de chacinas cometidas pelos demónios do profeta a nível global são relegadas para notas de rodapé, porque se trata de uma escola no Paquistão, de uma embaixada na Nigéria, de um mercado nas Filipinas - lugares cuja geografia remota nos ajuda a gerir o medo; quando nos recusamos a encarar o fenómeno do extremismo islâmico como algo mais que um conjunto de actos interpretados por um punhado de fanáticos amadores; quando perdemos de tal forma a noção completa da realidade - e da história - que não nos apercebemos da terrível ameaça que esse extremismo representa para a sobrevivência da nossa maneira de viver; quando somos os nossos primeiros e piores inimigos, tudo parece estar perdido.
Ontem, durante umas horas largas, tudo me pareceu perdido.

terça-feira, janeiro 06, 2015

Porque é que a história não se repete ou um outro erro de Einstein.

Porque raio é que o passado é sempre diferente do futuro (e vice-versa)? Desde Heraclito que o bom senso no diz que não nos podemos banhar duas vezes no mesmo rio, na medida auto-evidente de que as águas do primeiro banho não são as águas do segundo, mas a verdade é que a física sempre teve uma enorme dificuldade em demonstrar esse facto trivial e empirico. Isto, até que a cosmóloga portuguesa Marina Cortês, do Observatório Real de Edimburgo e do Centro de Astronomia e Astrofísica da Universidade de Lisboa, em colaboração com o físico teórico norte-americano Lee Smolin, do Instituto Perimeter, viraram o espaço-tempo newton-einsteiniano ao contrário para explicar, num trabalho que acaba de ganhar o Prémio Buchalter de Cosmologia, porque é que as coisas são como são e não de outra maneira, aproveitando também para aproximar, no processo, os desavindos universos da macrofísica e da mecânica quântica.
E nada melhor que as palavras de Marina Cortês, em duas entrevistas ao Público, para uma boa síntese do trabalho:

"Queremos descobrir por que é que o tempo está sempre a avançar e nunca recua. É uma pergunta muito razoável. O Universo no seu conjunto evolui de uma forma que é irreversível.
A física é a única ciência em que todas as leis funcionam tanto para a frente como para trás, porque as nossas equações não incluem a direcção do tempo e essa é uma das razões por que é tão difícil desenvolver uma teoria da gravidade quântica, que é o Santo Graal da física.
Na física tradicional, quarks e electrões são partículas fundamentais no sentido em que não se podem dividir em partes mais pequenas.  Ora, se usássemos uma lupa para ver o espaço-tempo de muito – muito – perto, veríamos que é feito de elementos (que nós chamamos eventos no nosso artigo) que não são nem espaço nem tempo. Portanto, o espaço-tempo pode ser ainda dividido em partes mais pequenas.
Estes eventos fundamentais do Universo são instantes de tempo. Tal como um relógio faz tique-taque, podemos imaginar que o tempo é uma máquina que produz instantes de tempo, um após o outro, após o outro... Cada instante é um desses eventos. E o que nós dizemos é que não é possível usar uma lupa para decompor os instantes de tempo em partes mais pequenas. São a coisa mais simples que existe e são a parte mais importante do Universo. E tudo o que nós vemos e observamos é feito destes instantes de tempo."

Esta atomização do tempo - e consequente despromoção do espaço para a categoria da ilusão - pode resolver alguns problemas fundamentais aos físicos teóricos contemporâneos. É elegante, faz sentido e confirma, com belíssimas equações, um conselho de amigo: nunca tentes voltar àquele sítio onde foste feliz.

Pdf do paper premiado aqui: The Universe as a Process of Unique Events - Cornell University Library

Rocketville #11 Retro_Spaceships


A constipação e suas implicações na metafísica #2

Estou constipado e quando estou constipado ainda sou mais ateu
do que nos outros dias.
O universo é algo de extremamente desinteressante
quando temos o nariz tapado.
E o grande mistério cósmico não passa de uma reles novela venezuelana
quando não paramos de tossir.

Estou cansado de tanto assoar a alma
e fartinho de espirrar a inteligência!
O deus católico pode ir dar uma volta ao bilhar grande
e levar os deuses pagãos todos com ele:
estou constipado,
não quero nada com a metafísica!

A constipação e suas implicações na metafísica #1

Tenho uma grande constipação,
E toda a gente sabe como as grandes constipações
Alteram todo o sistema do universo,
Zangam-nos contra a vida,
E fazem espirrar até à metafísica.
Tenho o dia perdido cheio de me assoar.
Dói-me a cabeça indistintamente.
Triste condição para um poeta menor!
Hoje sou verdadeiramente um poeta menor.
O que fui outrora foi um desejo; partiu-se.

Adeus para sempre, rainha das fadas!
As tuas asas eram de sol, e eu cá vou andando.
Não estarei bem se não me deitar na cama.
Nunca estive bem senão deitando-me no universo.

Excusez un peu... Que grande constipação física!
Preciso de verdade e da aspirina.


Álvaro de Campos

segunda-feira, janeiro 05, 2015

Resultados práticos do governo marxista na Venezuela.


Enquanto o preço do barril do petróleo permaneceu altamente inflaccionado, a utopia manhosa de Chavez lá ia dando de comer ao povo. Mas agora que a OPEP deixou de roubar, os resultados estão à vista. Nem sabão há. Eis o milagre económico do socialismo sul-americano, em todo o seu esplendor.

sábado, janeiro 03, 2015

Jornal de Letras | Agosto/Dezembro 2014

O Império Marítimo Português 1415-1825 - C. R. Boxer - Edições 70 
Talvez a mais emblemática obra sobre a gesta marítima portuguesa, este tratado não dá porém solução ao mistério que se propõe resolver. Na introdução, Boxer manifesta a sua perplexidade: como é que um país pobre, marginal e insignificante como Portugal consegue o milagre de dominar o mundo, fundando o primeiro império colonial de sempre; frágil, caótico, demograficamente impossível, mas de tal forma bem sucedido que acaba, pasme-se, por durar sobre todos os que lhe seguiram, sendo paradoxalmente o último império colonial a cair? A verdade é que o autor acaba por não encontrar resposta para as suas perplexidades. Apanhado pelos ventos da história (o livro foi usado por detractores do império colonial português, tanto como pela propaganda do Estado Novo), C. R. Boxer cai num erro de colegial que compromete, no meu entender, a virtude da sua erudição: recusa-se a perceber que ao historiador não compete ser juíz. O contexto social, ético e cultural dos descobrimentos portugueses não pode ser avaliado à luz da moral do século XX. E assim, erradamente, os portugueses são-nos apresentados como um povo ferozmente anti-semita e alegremente esclavagista, constituído em grande parte por fanáticos religiosos. Na verdade, os portugueses não eram seguramente católicos mais fanáticos que os espanhóis, não eram mais anti-semitas que a maior parte dos povos europeus da sua altura, nem viam o comércio de carne humana com melhores ou piores olhos que os seus adversários directos na corrida pela liderança do comércio no Atlântico setecentista. Acresce que a mentalidade WASP do autor está sempre presente: quando os ingleses e os holandeses roubam, trata-se de corso. Quando são os portugueses a pilhar, trata-se de decadência, corrupção e de um inevitável decaimento latino para a desonestidade.
Toda a obra, mas principalmente a sua segunda parte, é de tal forma deprimente e eloquente sobre a desorganização e disfunção do império que o autor não consegue perceber como é os descobrimentos foram sequer possíveis. Os reis são sem glória nem visão (até D. João II é um incompetente e o único que escapa é Filipe II, que é de qualquer forma grandemente ignorado durante toda a obra) e basicamente nunca houve soldados, marinheiros, geógrafos, barcos e capitalistas cujo número e qualidade chegasse para uma aventura destas. No caso da qualidade dos soldados portugueses, Boxer parece ignorar que a tradição militar lusitana teria, à altura dos descobrimentos, uma herança de combatividade e competência muito assinalável, com vitórias épicas nas guerras fronteiriças e de reconquista. Na verdade, não há qualquer indício que a performance bélica fosse uma fraqueza do império. Dada a escala geográfica da gesta marítima, os parcos recursos demográficos da metrópole e o valor e a diversidade dos inimigos que enfrentámos, tudo indica, ao contrário, que as forças militares portuguesas se distinguiam pela sua eficiência, superioridade tecnológica e acutilância em combate.
As contradições entre os factos históricos e as conclusões do historiador são uma constante, à grande e à pequena escala. Por exemplo: nas páginas de Boxer constatamos supreendentemente que a Companhia do Brasil foi um fracassso, cujo sucesso colocou enormes problemas de sobrevivência aos portos portugueses, que sofriam como o monopólio (!). Outro exemplo: quando os padres jesuítas dão, na China, sólidos indícios de tolerância racial, fazem-no exclusivamente por pragmatismo. Mas quando em Goa recusam a equalização étnica das carreiras eclesiásticas imposta por Pombal já não são apenas ambiciosos. São racistas da pior espécie, mesmo.
É também recorrente a afirmação de que os portugueses eram um povo ignorante, conservador,  alérgico à mudança, ficando o leitor sem perceber, mais uma vez, como é que este povo assim atrasado consegui inaugurar uma época de inovação técnica e de aventura cosmopolita sem grandes precedentes na história da humanidade.
Perdido dentro dos seus próprios mal entendidos, C. R. Boxer, acaba o seu manual de história-para-inglês-ver explicando ao leitor que o Império Marítimo Português só foi possível dada a fé irracional em dois mitos inter-relacionados e alimentados por uma inexpugável fé católica: o do retorno sebastiânico e o do Quinto-Império.
Sinceramente, que tese tão fraquinha.


A Cidade Impura - Andrew Miller - Editorial Presença
Autor de "A Dor Industriosa" - um dos mais poderosos romances históriocos que li neste século (apesar do livro ser de 1997) - Andrew Miller voltou ao meu convívio com "A Cidade Impura", a história de um jovem engenheiro setecentista a quem a coroa atribui a desagradável tarefa de trasladar todos os cadáveres de um cemitério decrépito de Paris, quando a cidade está à beira da Revolução e transpira decadência por todos os lados. O resultado cede à tentação do imaginário gótico que a sinopse sugere e consegue ser elegante e sóbrio e de leitura extremamente saborosa. Mais uma pérola.


Cenas da Vida Diplomática - Lawrence Durrel - Ulisseia
Não é comum que a leitura me faça rir à gargalhada. É mesmo muito raro. Mas Lawrence Durell e as suas aventuras (contadas pelo impagável Antrobus) como diplomata na embaixada britânica em Belgrado são um fartote completo. Uma figura de vulto das letras do Século XX, poeta, ensaísta, dramaturgo e novelista, Lawrence Durrel tem uma obra que não é para brincadeiras e é por isso que ainda mais notável se mostra este livro de contos, onde o célebre humor inglês se manifesta numa espécie de crítica de costumes cínica e hilariante. Ninguém imagina o que me divertiu a leitura deste livro.


O Franco Atirador Paciente - Arturo Pérez-Reverte - ASA
Uma novela menor de Arturo Pérez-Reverte, na minha humilde opinião. E eu gosto muito dele. Mas esta viagem ao mundo secreto das tribos do graffiti não aquece nem arrefece, sinceramente, nem está especialmente bem prosada, o que não é de todo um costume deste excelente autor espanhol.


História Virtual - Coordenação de Niall Ferguson - Tinta da China
Como apaixonado da História Contrafactual, logo que vi este livro na banca da Tinta da China, na Feira do Livro deste ano, abriu-se-me um apetite imenso. Que não foi de todo defraudado por esta suculenta refeição de ensaios que exploram a probabilidade de certos episódios históricos com grande peso epistemológico não terem sucedido de todo, ou terem sucedido de forma diversa. A história é muitas vezes contingencial e muito menos determinista do que somos levados a pensar e nem tudo o que foi terá necessariamente que ter sido exactamente assim...
No final, o coordenador escreve um dos mais originais posfácios que já li na minha vida (sem nenhum exagero), ao redigir um tratado de história contrafactual em nome de um historiador que vive num mundo onde os Estados Unidos nunca foram independentes da coroa inglesa, a Europa ocidental permanece ocupada pelos nazis (com excepção das ilhas britânicas) e o bloco soviético ainda existe.
Livrinho e-s-p-e-c-t-a-c-u-l-a-r.


A Irmã - Sándor Márai - D. Quixote
Não sei bem explicar porquê, mas desta vez, e contra o que é costume nele, Sándor Márai não me levou ao céu da literatura. Trata-se, claro, de um romance competente e intenso, característico deste ilustre romancista húngaro, mas a triste história do pianista Z., espécie de Montanha Mágica em formato de bolso, deixou-me um bocadinho indiferente.


Uma Viagem à India - Gonçalo M. Tavares - Caminho
Não é sem embaraço que confesso que este foi o primeiro e até agora único livro que li deste autor. Apesar disso, não me importo nada de afirmar já aqui que Gonçalo M. Tavares é um génio das letras do meu país. Poema épico em dez cantos, de estrutura clássica e verso livre, a odisseia de Bloom é um prodígio lírico de vanguarda, de tal forma que nem me atrevo a mais que isto:  "Uma Viagem à Índia" é uma obra prima, ponto final, parágrafo.


Paris Após a Libertação 1944 -1949 - Antony Beevor e Artemis Cooper - Bertrand Editora
Este é daqueles livros de história do Século XX que nos ajudam a perceber a Europa do Século XXI e um bocadinho do futuro que nos aguarda no Ocidente.
Retrato nú e crú da França na altura da libertação, poderosa e veeemente aguarela de uma cidade em tempo de glórias e misérias, o trabalho de Antony Beevor (de quem já tinha lido esta competentíssima história da Gerra Civil Espanhola) e Artemis Cooper vai muito fundo na análise psicológica dos protagonistas em particular e dos franceses no geral. A forma como se determinou quem era um bom francês e quem era um mau francês nestes anos do Governo Provisório e da Quarta República dependeu sempre muito da forças que exerciam o poder e durante a grata leitura da obra, ficamos a saber detalhes bem sugestivos da praxis libertadora, como por exemplo: os julgamentos a que se sujeitaram os colaborocionistas tinham como jurados elementos da resistência e familiares das vítimas da ocupação nazi. Os procedimentos do tribunal eram constantemente interrompidos por membros do júri que gritavam ameaças e insultos aos acusados. Mas ficamos também a saber factos de relevância geo-estratégica deste género: contra a vontade do Partido Comunista Francês, Estaline escusou-se à sovietização da França.  
Sobre os personagens principais, destaca-se, claro, o carácter arrogante e paradoxal de Charles de Gaulle, "o homem que sem dúvida amava a França, mas não os franceses!" e que no célebre discurso da libertação, proferido na noite de 25 de Agosto de 1944 no l'Hôtel de Ville, não foi capaz de uma palavra de agradecimento aos aliados.
Adorei este livro.


África - A Vitória Traída - J da Cruz Cunha, Kaúlza de Arriaga, Bethencourt Rodrigues, Silvino Silvério Marques - Editorial Intervenção
Documento assinado pelos governadores militares das colónias ao tempo da Revolução de Abril, este conjunto de ensaios, onde a prosa é, geralmente, pobre mas os conteúdos estatísticos são de uma riqueza extraordinária, procura demonstrar que as guerras coloniais não estavam perdidas de todo.
Por um lado, a guerra não era cara para o Estado Português: os custos militares dos diversos conflitos só acrescentavam 6 a 8 milhões de contos por ano àquilo que o orçamento geral do estado previa em tempo de paz. No treze anos em que decorreram, as guerras coloniais custaram apenas 90 milhões de contos, valor pouco significativo para um PIB anual que em 1970 era de 160 milhões de contos e que em 73 era já quase o dobro.
Nas colónias, as economias prosperavam (correspondendo ao período de crescimento recordista do PIB na metrópole: 1967-73) e a administração pública (governos civis, tribunais, escolas e hospitais) funcionava normalmente sobre os extensos territórios ultramarinos, com excepção de algumas áreas fronteiriças localizadas, onde os movimentos rebeldes tinham uma maior penetração territorial, dada a protecção e o apoio logístico que encontravam em certos países vizinhos.
Em 13 anos de guerra a permilagem de mortos anual nunca ultrapassou os 2,6, valor baixo e impressionante, principalmente se comparado com outros números de guerras coloniais em África. Um exemplo: portugal perdeu 8.131 militares nas suas várias guerras coloniais. A França perdeu 14.000 só na guerra de libertação da Argélia. Esta baixa permilagem também é significativa sobre a competência e o moral das tropas em África, que nos dois parâmetros era mais alta do que comummente se supõe.
Os autores concluem que a entrega das colónias às forças inimigas foi assim um acto político apenas, não condicionado por uma inevitabilidade militar que nunca exisitiu e que só o carácter revolucionário do evento de Abril de 1974 determinou.
Só mais um facto curioso: alguns dos generais consideram Nixon um amigo de Portugal e Kennedy um inimigo, o que só suporta uma tese que já desenvolvi aqui no blog (ponto 3 deste post).


A Invenção de Morel - Adolfo Bioy Casares - Antígona
A Invenção de Morel é um obra basilar da escola argentina e é com embaraço que confesso a sua primeira leitura, que muito tardou. Estranha novela de carácter fantástico e borgiano (Bioy Casares e Jorge Luís Borges foram amigos a vida toda e o livro é dedicado ao biliotecário de Buenos Aires, que é também o autor do prólogo), é uma pièce de résistance que se estrutura à volta de uma ideia de eternidade que é simultaneamente romântica e perturbadora. Romance de digestão filosófica muito complicada, para voltar a ler, daqui a dois ou três anos.


A Tarde Azul - William Boyd - Relógio de Água
A história de um amor perdidio no tempo e na geografia, entrecortada pela muitas vezes esquecida guerra Filipo-Americana (1899-1902), contada por Salvador Carriscant, um médico romântico muito bem esgalhado e narrada pela sua filha. Um bom romance do autor de "Any Human Heart".


Primos Gémeos, Triângulos Curvos e Outras Histórias da Matemática - Jorge Buescu - Gradiva
Mais um condensado de pequenos ensaios que fazem uma excelente pedagogia da matemática, escrito pelo incontornável Professor Jorge Buescu, que muito contribui para o cenário positivo da divulgação científica em língua portuguesa. Muitos dos temas escolhidos desta vez são extremamente pertinentes para os tempos que correm (o caso da distância máxima entre números primos e o estado caótico em que se encontra a publicação online de artigos científcos, só para dar dois exemplos) e o livro lê-se melhor que um romance de aventuras. É provável que os assuntos tratados nesta obra regressem aqui ao blog, como já aconteceu anteriormente com outros textos do Professor.

John Cleese compara.