terça-feira, junho 25, 2013

Audi uber alles.


















Esta besta aqui, para além de ser campeã do mundo do primado estético, vai ficar para a história do inferno a que chamam Le Mans e da febre a que nos referimos quando falamos de automobilismo.
O R18 E-tron será, talvez, um dos últimos grandes produtos tecnológicos da civilização ocidental. Mas respira glória como quem anseia por oxigénio.

sexta-feira, junho 07, 2013

Ainda bem que não há clip.



Assim, dá para centrar a atenção no som apenas. Grande malha.

Train With No Name | The Veils

segunda-feira, maio 27, 2013

Anti-SLB: amor de perdição.


Não é de agora. Já há muitos e muitos anos que tenho desgosto por ser do Benfica. Esta triste e fatal paixão é uma das razões que me impede de ter um pouco mais de consideração por mim mesmo. O insuportável dejecto sociológico em que se transformou o SLB dá-me cabo da auto estima. Sinto até alguma repulsa, algum nojo pelo clube e por mim, que sou do clube. Como é que é possível a alguém decente simpatizar com uma organização dirigida por homens como estes? Como é que é possível perder tanto, com tanto estrondo? Como é que é possível a esta gente armar aos cucos da maneira que arma aos cucos e, depois da queda abismal, depois da humilhação e da gargalhada, depois da desvergonha e das mentiras, recomeçar outra vez, no eterno ciclo entre as cinzas de um ano e as cinzas do outro?

Ser benfiquista não é como diz a canção. Ser benfiquista é uma pena pesada. Uma cruz para a vida toda. Uma perdição.

Já estes dois atrasados mentais aqui em cima nunca perdem. Têm a felicidade dos vis: como não são do Benfica, não são esmagados pelas derrotas colossais, e como gerem o clube como uma organização mafiosa, ganham fortunas todas as épocas.

Já eu, estou farto de perder. Estou farto do Benfica. E estou farto de mim.

Pior que eu, claro, só mesmo um desgraçado que seja adepto do Sporting Clube de Portugal. Porque é preciso que um ser humano seja muito, mas mesmo muito infeliz, para retirar felicidade das derrotas e das misérias de um rival tão fraquinho como o Sport Lisboa e Benfica.

Space Oddity



Directamente da International Space Station, o comandante Chris Hadfield, primeiro entertainer da história da astronáutica, apresenta uma versão revista e actualizada da obra-prima de ficção científica que é esta canção do Bowie. Para além do clip, a pista de voz foi mesmo gravada na ISS, facto que, segundo parece, marca a entrada da humanidade na era do pop espacial. Sejam bem-vindos.

sábado, maio 11, 2013

Não sou eu que sou aldrabão, a realidade é que é esquizofrénica.



No outro dia coloquei aqui um gráfico que deixou muita gente céptica, até porque não inclui a fonte. Mas não faz mal nenhum que não acreditem em mim. É fácil duvidar de um leigo. Será talvez mais difícil desacreditar o Professor Michio Kaku. Vale a pena investir 5 minutos neste video. Primeiro porque Michio Kaku é um comunicador de eleição. E depois porque sempre se fica com uma noção da esquizofrenia do cosmos (segundo as conclusões e as especulações da física contemporânea).

A propósito disto, deixa-me recomendar-te, gentil visitante, o projecto Big Think. Um canal de ensino da ciência que é realmente notável.

terça-feira, maio 07, 2013

Filhos da puta da pior espécie.


É verdade: alimento uma especial antipatia por jornais e jornalistas. É verdade que acho a maior parte dos jornais - senão todos - uma vergonha. E a maior parte dos jornalistas - senão todos - uns filhos da puta da pior espécie. A profissão obriga, não há nada a fazer. Durante muitos e muitos anos - é verdade - pensei que os filhos da puta da pior espécie eram os publicitários, porque tenho a tendência de pensar sobre mim o pior possível, e sobre a minha profissão o pior possível. Mas esses dias acabaram. Já não acho que faça parte da pior espécie de filhos da puta. É verdade.

A imagem que ilustra este post mostra a edição online do Público desta noite. Garanto-vos: nunca, durante esta época, um resultado do Benfica foi noticiado com este destaque. Na quinta feira passada, o clube chegou a uma final europeia, pela primeira vez em mais de duas décadas e conquistando a presença de duas equipas portuguesas no top dez dos clubes europeus. Essa notícia foi colocada, convenientemente, na coluna da direita da grelha editorial, lugar subsidiário, porque existiam na altura assuntos mais importantes que o futebol. Eu também acho que existem assuntos mais importantes que o futebol. Isto embora não partilhe filosoficamente das prioridades editoriais do Público, que se parecem limitar à descarada amplificação da campanha socialista. Hoje porém, parece que o Público resolveu sacrificar a campanha socialista para dar descarado destaque ao empate do Benfica. Ora, o tipo de política editorial que vive dos fracassos dos outros, que vive de derrotas e de humilhações, que vive de desgraças e de maus números, que vive das altas taxas de desemprego e do testemunho dos coitadinhos, que vive num e de um Portugal deficitário e que elogia o Portugal deficitário e que combate militantemente pelo Portugal deficitário (até porque o jornalismo "sério", "contemporâneo" e "responsável" não pode nem deve ser patriótico); o tipo de política editorial Robim dos Bosques que é serva do xerife de Nottingham, que é valente pelos desempregados enquanto despede o seu quinhão, que é hipócrita até cair para o lado e socialista quanto baste para que os assalariados de miséria da Sonae continuem a virar a sua raiva para os políticos (únicos incompetentes em Portugal); o tipo de política editorial que promove e eleva homens baixos e vis como Vítor Pereira e José Sócrates, este tipo de política editorial é que está a matar os jornais.

Os jornalistas "sérios" (leia-se neo-socialistas), faustosamente assalariados por grupos empresariais de comportamento neo-liberal, gritam batota por causa dos jornalistas cidadãos independentes da rede global e os accionistas de referência desses grupos empresariais gritam falência por causa da electrónica e da concorrência honesta, enquanto tentam aterrorizar as pessoas com a ameaça de um vácuo informacional que, infelizmente para eles, não existe de todo. Mas convenhamos, não é a internet que está a matar os jornais. É o que os jornalistas fazem com os jornais que está a matar os jornais. Até porque estes filhos da puta da pior espécie realizam online exactamente o mesmo argumento que escrevem no papel. Aviltam, com a sua cobardia, com a sua manha, com o seu oportunismo, com a sua esperteza saloia, com a sua falta de educação, um veículo mediático da mesma forma que aviltam o outro. O problema não está no meio, está na mensagem. Até porque, entretanto, as pessoas na Europa toda, para não falar de outros lugares selvagens e igualmente infestados de jornalistas, já perceberam que a verdade não tem nada a ver com o jornalismo. E que o jornalismo não tem nada a ver com a decência.

O jornalismo evoca no jornalista, como no consumidor de jornalismo, as piores características humanas.

Jacques Séguéla, o famoso publicitário francês que em má hora elegeu Miterrand para o seu derradeiro mandato, dizia: "não digam à minha mãe que sou publicitário. Ela pensa que eu toco piano num bordel." Mas que podem dizer hoje os jornalistas às suas tristes mães? Filhos da puta da pior espécie, são comerciais como o mais vendido dos apóstolos. Filhos da puta da pior espécie, são tendenciosos como o mais imparcial dos fanáticos. Filhos da puta da pior espécie, são aldrabões como o mais desonesto cidadão da república.

Afinal, quem joga sujinho, sujinho, sujinho é o jornal Público. E muitos outros jornais como o jornal Público. Porque a infâmia humana é uma pandemia.

sábado, maio 04, 2013

É ou não é o melhor treinador do universo?



Com cábula ou sem cábula e mesmo quando não ganha, José Mourinho consegue ser grande. Enorme. E é claro que é o melhor treinador do universo. Deste universo e de outro qualquer onde se jogue futebol. E o que é mais: nem precisa já, a meio da sua carreira, de provar seja o que for.

terça-feira, abril 30, 2013

sexta-feira, abril 26, 2013

Tudo o que não sabemos.


A dimensão da ignorância humana é absolutamente devastadora. No gráfico em cima, que representa, grosso modo, a repartição comparativa da matéria cósmica, ilustra-se bem a tragédia da ciência contemporânea. Sabemos alguma coisa sobre a matéria atómica e subatómica, mas não o bastante para uma teoria unificada de campo. Alguns vêem na Teoria das Cordas essa solução compatibilizadora entre comportamentos atómicos e sub-atómicos. Mas ainda assim, esta teoria refere-se a cerca de  4% do tecido do cosmos. Quanto aos restantes 96%, zero de conhecimento. Sabemos só que existe energia negra e matéria negra, porque a arquitectura do modelo standard assim o exige e porque alguma coisa tem andado a contrariar as forças da gravidade no universo, caso contrário a sua expansão seria impossível. Mas mais nada. Rigorosamente mais nada.
Homo Sapiens. A sério?

quinta-feira, abril 18, 2013

Elogio do erro #2



Telekinesis  |  Power Lines

Este clip parece que foi criado para confirmar o post anterior. Os rapazes (e a rapariga) não podiam ser mais feinhos e desajeitados. A cenografia é de sentido estético próximo do zero absoluto e os artistas fazem questão em vestir-se como se fossem montar uma estante na garagem. O vocalista apresenta um lamentável problema epidérmico e todos em uníssono desafinam até dizer chega. Mas o tema é brilhante. É simplesmente brilhante. E no fim, sempre descobrimos o belo e a consolação.

When I was young, 
I thought I was a power line.


quarta-feira, abril 17, 2013

Elogio do erro ou "Eu sózinho consigo levantar este automóvel na boa".



Walk The Moon  |  I Can Lift a Car

Well, no misunderstanding,
I'm not saying that you came
but you did.
I can lift a car up all by myself.

Uma coisa maravilhosa que tem o rock é que perdoa, admite e inclui o erro humano. Aqui estes heróis do momento falham, erram e desafinam umas quantas vezes, num registo que é muito menos que perfeito. Muito menos que perfeito e resulta, ainda assim, na perfeição. Esta música, mesmo como aqui está, dá vontade de levantar não sei quantos automóveis.

Agora imaginem que a mesma margem de erro era aplicada a uma interpretação dos Concertos de Brandenburgo. Seria o desastre total, verdade? Depois de assistir a semelhante cataclismo, ninguém teria energia para levantar um carrinho de supermercado que fosse. Felizmente para Bach, o barroco não admite deslizes.

Já o rock é mais simpático. Sem deixar de ser genial, conforme figura em anexo.

segunda-feira, abril 08, 2013

Bye bye Maggie, god bless.

“Essa coisa da sociedade não existe. Existem homens e mulheres e as suas famílias."
Margaret Tatcher - 1987

Non stop.



Leagues | Spotlight

A um dado momento, alguém neste planeta está a compor uma grande canção. E este pensamento reconforta-me. Faz-me gostar um bocadinho mais da raça humana. Mas só um bocadinho.

sábado, abril 06, 2013

Jornal de Letras | Janeiro/Março 2013

Com os Holandeses - J. Rentes de Carvalho - Quetzal
Mal soube que este senhor tinha escrito um livrinho que denuncia os holandeses pelo que eles são - uma corja de cínicos, sacanas, agiotas e interesseiros que se esconde debaixo de um sobretudo politicamente correcto, fui logo a correr lê-lo. E li-o nun instantinho porque é delicioso e, o que é mais, verdadeiro.
J. Rentes de Carvalho fala por experiência. É um infeliz que vive com os holandeses há dezenas de anos e isso é, afinal, a única coisa neste ensaio brilhante que fica por explicar: se enjoas tanto, J., porque é que insistes, amigo?

Istambul. Memórias de Uma Cidade - Orhan Pamuk - Editorial Presença
Este livro é uma chatice tão grande, mas tão grande, que até eu, um leitor obstinado que só muito raramente desiste de uma leitura, desisti dele. Por qualquer razão cujo entendimento me transcende, o senhor Pamuk acha que é interessante para os outros, principalmente para os outros que não são turcos ou membros da Academia Sueca, a enumeração pueril das suas memórias de infância e adolescência, passadas numa cidade decadente e melancólica, ávida e ciumenta do Ocidente, chorosa do império que em boa hora perdeu. Está enganado, claro. Uma lamechice a evitar a todo o custo.

O Museu da Inocência - Orhan Pamuk - Editorial Presença
Depois do que disse anteriormente, o gentil visitante deste blog estará a perguntar-se o que eu pergunto a J. Rentes de Carvalho: se Pamuk é secante, porquê insistir no Pamuk? Porque sou teimoso e gosto de ter fundamentos para amaldiçoar a Academia Sueca que em 2006 teve o desplante de atribuir o seu Prémio manhoso ao sujeito.
Este romance interminável, não por causa das 650 páginas, mas por causa da ausência de qualquer tipo de progresso narrativo, parte de uma premissa que até é prometedora: o protagonista, à medida que nos conta a história de um amor infeliz, mas obsessivo, conduz-nos pelo museu que reúne não-sei-quantos-mil objectos, no sentido de materializar a memória dessa paixão. Até aqui tudo bem. O problema é que a rábula se arrasta por quinze anos da mesma coisa servil e abjecta, doente e repititiva, numa espécie de Servidão Humana em formato Tempo Perdido, que poderia resultar se Pamuk fosse um Somerset Maughan ou um Marcel Proust. Não é, evidentemente, o caso. Cheguei ao fim com vontade de não ter começado.

O Último Homem na Torre - Aravind Adiga - Editorial Presença
Primeiro: sou um fã incondicional do Aravind. Porque tem talento para dar e vender, porque evita a armadilha do humanismo e porque não está interessado em vender bilhetes postais da Índia. Nas páginas de Aravind Adiga vive a natureza humana e não o que gostaríamos que fosse a natureza humana. Nas histórias de Aravind Adiga, vibra a Índia pobre, infecta, maliciosa, escravizante; a Índia das castas, do caos urbano, da corrupção. E se o Tigre Branco já me tinha enchido todas as medidas do gosto e da sensibilidade, este Último Homem na Torre é uma coisa absolutamente devastadora. Um grande escritor. Um grande romance.

Siddhartha - Herman Hesse - Casa das Letras
A ignorância humana é um abismo inescapável e devo confessar, envergonhado, que vivi quase 46 anos sem ler este livro. E quanto mais profundamente me embrenhei nele, mais revoltado fiquei comigo. Siddharta é um poema penta-essencial e até custa a crer que um alemão consiga contar esta história, que é absolutamente hindu. A não  ser que consideremos que a história que é contada, para além de ser absolutamente hindu, é verdadeiramente universal. 
A fábula do filho do Brâmane que não acredita em doutrinas nem em nirvanas nem em palavras, que não segue ninguém, que não respeita o destino e que encontra apenas uma tardia e ingrata redenção no amor paternal, incondicional e purificador, é de uma beleza, afinal, divina. É a literatura no seu estado alquímico. 

Poesias - Fernando Pessoa - Edições Ática
Sendo provavelmente a terceira ou quarta vez que leio este manual prático para a conquista da eternidade, foi a primeira vez que o li de uma assentada, de fio a pavio. Há muita gente que acha que certo tipo de literatura não é para ser lida de fio a pavio. Eu discordo. Então quando se trata do Fernandinho, acho muito simplesmente que tudo o que ele escreveu - tudo mesmo, sem excepção alguma - deve ser lido de fio a pavio. Várias vezes seguidas.
Até porque há sempre um poema maravilhoso que nos escapou antes. Há sempre um momento genial que não tínhamos percebido completamente. Há sempre um novo Fernando Pessoa à espreita, a rir-se da nossa triste condição de mortais. Por exemplo:

A morte chega cedo,  
Pois breve é toda vida. 
O instante é o arremedo  
De uma coisa perdida.   

O amor foi começado,  
O ideal não acabou,  
E quem tenha alcançado  
Não sabe o que alcançou.   

E tudo isto a morte  
Risca por não estar certo  
No caderno da sorte  
Que Deus deixou aberto.

Mais que as mães.



Walk the Moon | Anna Sun

Outro cogumelo pop. Que é um verdadeiro suplemento energético. Não sei se tenho saudades dos tempos em que podíamos dizer, num dado momento, que gostávamos sobretudo de duas ou três bandas. Acho que não, não tenho saudades desses tempos. Isto assim é muito mais divertido.

terça-feira, abril 02, 2013

Mais um cogumelo exuberante.



Stellastarr - Freak Out (Live on KEXP)

Fado Folhetim

Os deuses do caos governam cegos
A tragédia do sapiens menino.
São espoliados todos os egos
Da propriedade do destino.

No meu caso particular, confesso:
Confio mais na gestão divina
Que no equívoco excesso
Com que esfrego a lamparina.

Sou como uma andorinha
Que voa tonta contra a janela.
Se a vida fosse minha,
Não sabia o que fazer com ela.

Não sou eu quem desalinha
O velado novelo desta novela.
Se a vida fosse minha,
Não sabia o que fazer com ela.

É na verdade mil vezes abençoado
Quem esvoaça sem controlo.
Desde que o rumo se sustente alado
E que o piloto seja Apolo.

Quanto a mim, digo o seguinte:
Sei que o desastre é inerente
E sei que a virtude do pedinte
É pedir para toda a gente.

Há uma mágica varinha
Que exerce aleatória a tutela.
Se a vida fosse minha,
Não sabia o que fazer com ela.

Manda a fada madrinha
No enredo que guarda e vela.
Se a vida fosse minha,
Não sabia o que fazer com ela.

Ah, a santa irresponsabilidade,
A liberdade suprema, o nirvana
De apostar tudo na probabilidade
Da dúvida cartesiana!

Em boa verdade devo ser grato:
Como o verão passa a inverno
Assim também me dão trato
os que governam este desgoverno.

No Olimpo seguem a linha
de um folhetim da Venezuela.
Se a vida fosse minha,
Não sabia o que fazer com ela.

Reina misteriosa rainha
sobre o guião da telenovela.
Se a vida fosse minha,
Não sabia o que fazer com ela.

Sim, dou graças aos céus
Por não ser proprietário do eu.
Não tenho nenhum uso
Para o fogo de Prometeu.

Sim, agradeço à metafísica
Por não ser dono de mim.
Por já ter sido escrita a música
Deste fado folhetim.

Sou como aquela andorinha
Que se estampa contra a janela.
Se a vida fosse minha,
Não sabia o que fazer com ela.

Não sei quem desalinha
O velado veludo da novela.
Se a vida fosse minha,
Não sabia o que fazer com ela.

Se a vida fosse minha e fosse bela,
Não sabia o que fazer com ela.

Não sabia o que fazer com ela.

domingo, março 31, 2013

A lixa e o lixo.

O movimento "Que Se Lixe a Troika" é vendido mediaticamente como uma iniciativa de um grupo de cidadãos desinteressados que, recorrendo ao Facebook e à indignação da burguesia, conseguiram o milagre de encher as ruas de algumas cidades do país, por duas vezes, com cerca de 50 milhões de burgueses indignados. Os números variam e avariam, como sempre nestes relatórios de contas, mas ao todo serão seguramente para aí uns 150 milhões de burgueses indignados, fora Açores e Madeira, onde também podemos estimar mais uns bons quatro ou cinco milhões, tantos como o que tem Portugal de imenso e incontável.
Acontece apenasmente que o movimento "Que Se Lixe a Troika" não é, como comercializa a imprensa*, uma iniciativa de um grupo de cidadãos desinteressados. O seu núcleo duro tem 6 elementos. Três militantes do BE, um militante do PC, um ex-militante do PC e um ex-militante do BE. Os ex-militantes são para disfarçar, mesmo quando a farsa é indisfarçável.
Acontece outrossim que a burguesia indignada acabou na Quinta-Feira passada de deixar Lisboa completamente deserta. A burguesia passa muitas dificuldades, mas não as que impedem a celebração da Páscoa no Algarve. Ou na neve. Ou na Nova Zelândia.
Tudo isto é, afinal, de normalidade aceitável e previsibilidade grande. Tudo isto é legítimo e próprio, considerando a condição vil e abjecta da raça humana.
O que já não me parece assim tão aceitável é o problema inicial. Se as pessoas de responsabilidade no Bloco de Esquerda e no Partido Comunista Português (no PS não há pessoas de responsabilidade, há uns tipos que são imbecis e há outros tipos que são amigos do Sócrates) pretendem realmente que a Troika se lixe, que expliquem por favor como é que vão pagar os ordenados dos funcionários públicos que não querem despedir. Como é que vão pagar as contas caladas das empresas públicas que não querem privatizar. Como é que vão pagar a sáude pública de acesso universal de que não querem abdicar. Como é que vão pagar a educação e a justiça, como é que vão pagar aos bancos, não aos bancos alemães, mas aos bancos portugueses, a quem devem afinal o grosso da horrorosa fatia da dívida pública. Como é que vão pagar o que deve o estado em todas as áreas de actividade económica, com PPPs ou sem elas, porque o Estado é o primeiro cliente deste país. Como é que vão pagar os rendimentos garantidos e os subsídios de desemprego e a integração dos ciganos e a recuperação dos drogados e a electricidade dos bairros sociais e todas essas mordomias do Estado Social. Como é que vão pagar as carreiras dos executivos que constituem a base social dos partidos. Como é que vão pagar o facto de existir um Estado.
É claro, ninguém aqui está interessado em pagar seja o que for. As pessoas que lideram estes embustes no Portugal contemporâneo não querem pagar nada a ninguém e desejam com ardor que as coisas corram da pior forma possível. E assim, esperam e fomentam a grande queda da Terceira República.  Esperam e fomentam aquilo que se aguarda e se promove um pouco por todo o mundo, já há muito, já há demasiado tempo: a aniquilação do direito à propriedade, a imposição do igualitarismo.
Contando ainda por cima com o apoio insuspeito, alarve e estapafúrdio dos senhores que desastradamente governam este país e dos senhores que desastradamente governam a Europa e que, a avaliar pelo lamentável episódio cipriota, também não têm grande respeito pelo fundamento jurídico que está na origem da civilização, desconfio bem que estes grupos "desinteressados" de ideólogos fanáticos serão muito capazes de levar a revolução a termo certo.
E é bem feito, no fim das contas. Uma coisa que tanto portugueses como europeus, uma coisa que todos os cidadãos da civilização ocidental estão a precisar com urgência é de sofrimento. Mas de sofrimento à antiga, como deve ser. Qualquer coisa do género de uma revolução marxista-leninista, qualquer coisa do género de uma guerra, qualquer coisa do género de uma grande fome, qualquer coisa do género século XIX português, que faça esquecer com higiénica simplicidade estes horrores da austeridade do século XXI.

*Excepção feita a esta notícia aqui.

sábado, março 30, 2013

A matemática do oculto.



Les Jupes | Mathematics

Mais uma banda inspirada. É incrível a quantidade de génios pop que andam por aí meio ocultos pelo ruído do mundo. O video é bastante bera, mas esta malha, meu deus, toma conta dos números todos da harmonia.

quarta-feira, março 27, 2013

Mais Momentos de Glória: Giles Villeneuve vs. René Arnoux - 1979



Jeremy Clarkson diz tudo o que é preciso sobre este duelo imortal. Eu limito-me a subscrever 99% do monólogo. Discordo apenas da última afirmação: Villeneuve não foi, na minha opinião, o melhor piloto que já sentou o rabiosque num Fórmula 1.

terça-feira, março 26, 2013

Momentos de glória: Prost vs. Senna - 1988



Encontrando talvez inspiração na grande maldade que Alan Jones lhe fizera, 7 anos antes em Hockenheim (episódio documentado recentemente aqui no blog), Alain Prost aproveita o momento da dobragem de um piloto atrasado para passar Senna com toda a classe deste mundo. E do outro. Cinco estrelas.

segunda-feira, março 25, 2013

Maran Atha

Eu sou senhor aquele que sente
frios ainda os pés nas estações
com que nos chega o tempo sucessivamente
Nada me fica na alma nem a tarde de praia
quando o vento tinha
uma linguagem nas barracas
Não há coração em mim para a folha que morre
e ando a matar uma por uma até
alegrias simples como a certas horas
reparar que temos um corpo
determinamos uma sombra
e ocupamos um espaço que nos leva
a estar aqui agora nesta rua
e não noutra parte

Homem levantado e caído
setenta vezes sete vezes por dia
que morte me quer para além
de deixar cair os braços?

Eu que te vi e revi descer solene
como um raio sobre o meu destino
que te dei um lugar mais definitivo
em minha boca do que a folha de outono
teve na calçada
quando de vez vieres que será de mim?
E tenho a ousadia de morder-te
à superfície do dia. Tu bem sabes
que catedral de esperança te reservo
Talvez já amanhã nos não saudemos sob as árvores
e venhas sobre as nuvens
sobre o coração sobre a morte sobre mim


Ruy Belo

quarta-feira, março 13, 2013

Na na na na na na na, oh yeah.



Pode e deve existir vida inteligente no universo. E se há vida inteligente há gente a fazer música. Mas uma banda genial como esta aqui, só mesmo no terceiro calhau a contar do sol.

Black Keys | Dead and Gone

Pelos olhos da alma.

Atacama Large Millimeter/submillimeter Array (ALMA). É assim que se chama o maior telescópio do mundo, que é inaugurado hoje no deserto de Atacama. São 66 antenas preparadas para mergulhar no passado do universo e observar a origem das galáxias
Entre outras proezas, o ALMA promete, pela primeira vez, um conhecimento pormenorizado da química das nuvens interestelares, onde provavelmente se formam muitos dos compostos essenciais à vida.

terça-feira, março 12, 2013

Licença para aumentar o volume.



Telekinesis | Call All Doctors | Live on KEXP

Sobre a deserção.

Joseph Ratzinger passou de nazi mafioso a super-herói num ápice. Foram necessárias apenas umas palavrinhas poucas em latim para o elevar ao sétimo céu da opinião contra-cristã. O Papa preferido dos inimigos da igreja é aquele que resigna. Não porque a resignação conduza ao fortalecimento da cadeira de Pedro, mas porque a debilita.

Bento XVI desistiu e, ao desistir, abdicou da santidade, foi profundamente humano e a sua humanidade dessacralizou o trono, enfraqueceu a cristandade, diminuiu a civilização.

Muita gente de inteligência e sensibilidade, muita gente de cultura assumidamente cristã (a começar pelo senhor meu pai, gentil contribuinte deste blog, que celebrou a retirada pontífica num recente post), parece simplesmente não reparar que a igreja católica é, comparativamente, uma instituição relativamente decente.

Muita gente humanista prefere cascar na igreja católica, que é a que está na origem do sentimento humanista, do que noutras igrejas menos inclinadas a respeitar esse sistema de valores e eu não encontro qualquer razão de ordem racional para que assim seja.

Senão vejamos:

Ao contrário da igreja islâmica, a igreja católica não incentiva o treino militar de crianças, não promove a colisão de aviões com arranha-céus, não condena escritores à morte, não apela ao ódio étnico e repudia a violência em geral e o terrorismo em particular.

Ao contrário da igreja protestante, a igreja católica não nasceu para que um rei inglês pudesse casar e divorciar-se como bem entendesse, ou para que os mais ricos pudessem viver de consciência tranquila. 

Ao contrário das igrejas-seitas de todo o mundo, a igreja católica não promete curas para o cancro nem fortunas súbitas, é extremamente céptica no que concerne a milagres e não tem como missão extorquir os pobres de espírito (muito porque é perita em extorquir os ricos).

Ao contrário da maior parte das igrejas orientais, a igreja católica não prega um evangelho com 45 mil deuses e divindades, que esmaga o crente num labirinto de mistérios e inviabiliza a possibilidade de qualquer exercício teológico.

A igreja católica vive juridicamente separada dos estados onde exerce actividade, desde o século XVIII.
A igreja católica não obriga a um sistema sócio-económico fundado em castas.

Apesar do rito sacrificial a que se sujeitou o seu profeta, a igreja católica não costuma patrocinar sacrifícios humanos ou de animais.

A igreja católica é fundada por mandato de um filósofo judeu que defendia o amor como forma de redenção. Por isso, a igreja católica expressa-se geralmente em favor da paz, da tolerância, da solidariedade, do perdão e manifesta-se recorrentemente contra a pobreza, a injustiça, a ganância.

A igreja católica é uma das mais notáveis instituições filantrópicas na história das organizações e é seguramente o maior mecenas da história da arte. A igreja católica é uma referência global na área da assistência social privada. A igreja católica é uma academia reputadíssima, sendo proprietária de algumas das melhores escolas e faculdades do mundo.

A igreja católica, como todas as organizações humanas, revela fragilidades e contradições, soma erros graves, passados e presentes, é autofágica e tem sido palco de mil vilanias, porque a vilania é a actividade preferida dos homens e a igreja católica é contituída por eles.

Eu, que permaneço ateu e ateu permanecerei provavelmente até ao dia em que o medo da morte liberte em mim o consequente fervor religioso, acho que a igreja católica é uma excelente igreja, principalmente considerando as outras. E, neste momento histórico, inédito em 600 anos, devo deixar aqui registado que não subscrevo a decisão do Papa Bento XVI.

Rui com Ípsilon

Amigo, como é que se escreve um poema como tu escreveste o Poema
do Quotidiano?
Como é que se faz possível escrever assim, Belo, de tema em tema,
ano após ano?

Nos teus versos difíceis que te saíam fáceis, no poder espantoso
da tua máxima caneta
há um ofício de fé, um vaticano íntimo, um rumo doloroso:
és de outro planeta.

Reportas que "há quem diga que o sol foi longe demais"
com a destreza
de quem arranca umas quantas automáticas formalidades banais
do Princípio da Incerteza.

Doi-me realmente, Rui com Ípsilon, que já não vivas nem rezes
nem escrevas
nem possas explicar-me com que lanterna consegues por tantas vezes
iluminar as trevas.

domingo, março 10, 2013

Do meu ponto de vista.


POR ARTUR PAIXAO


Foi com surpresa que acedi à tenebrosa teia da Igreja no seu sinistro percurso à renúncia do papa, o venerável senhor Joseph Ratzinger, por alegada incapacidade física, decréscimo de faculdades e outras razões de saúde muito pertinentes. Rejubilaram na corte das toucas vermelhas da matilha dos caducos servidores obesos de inutilidade, peças do milenário tabuleiro de xadrez em que o seu Senhor deixa jogar, de barato, as ambições conspirativas dos seus guardiões, porque cansado, envelhecido escorregando-lhe as fracas forças para suportar o pesado fardo dum catolicismo esfarrapado, duma imobilidade a que a sua gasta visão não cobre já as consequências capazes de reinar um universo que desejara criar à sua imagem. No célere desmontar do seu templo eis que surge um homem inteiro, de carácter e comovente coragem que renuncia e ainda que piedosamente mentindo proclama que basta. Do meu ponto de vista, distante dos púlpitos, das sacristias e dos confessionários e de toda a panóplia que enche as paredes dos templos onde se invocam os milhares de santinhos, que não foram a votos e geralmente castrados em defesa de castidades perdidas pelos sombrios escaninhos duma fé violada, entre outros horrores, pela pedofilia que tem custado milhões, à denunciada escandaleira das finanças do Vaticano, depauperadas, exaustas por excursões num terreno que nem mesmo a intervenção de iminentes operadores, desligados das coisas da fé, infiéis de nota alta, instrumentos de comprovada eficiência na distorção de valores e engenharia financeira que nunca sensibilizaram os desígnios do Senhor não lograram mais do que uma  falência branqueada pelos véus que generosamente, ainda que ligeiramente encardidos de muito tempo de uso para amenizar manobras obscuras, teriam deixado cair para cobertura de outras usanças menos próprias em nome, sempre, dos interesses do Senhor que garantidamente não subscrevia e a congregação executiva apelava à discreta intervenção da Santa Leocardia muito experimentada no lançamento dos véus que aligeirassem os fossos que o bispo dos investimentos, de rosário contado entre as garras das mãos da ganância, um idiota de tamanho da Sé de Braga que resignou oportunamente e que consta, se bronzeia nas cálidas areias de remotos paraísos do sul do Brasil. Não me retenho na queima de milhares de inocentes que a Santa Inquisição em defesa da paixão obrigatória do Senhor e a desatada sangueira de descabeçados que nada tinham que ver com o permanente conflito que foi permitindo em seu nome em resultado da sua senilidade pela legião de carrascos dos Judas de hoje de formas mais sofisticadas, é certo, mas sempre anunciando a maldição do Inferno para os simplórios que não encascam, perplexos, um Deus que não olha os desvarios dos seus acólitos que do alto dos púlpitos condenam e se representam juízes do mistério que paira muito para lá do azul do céu a que, só excepcionalmente  alguns de sanidade discutível aceitam entregar-se numa idolatria vazia das realidades que os cercam, da injustiça que ignoram embrulhados em si mesmos, numa dúvida teológica, na misteriosa senda dos caminhos que conduzem simples pastores de almas lavadas antes da distorção infligida pela dureza do seminário e se erguem às hierarquias dos capuchinhos vermelhos por vias que a catequese não me revelou em tempo de calções em que me interessavam mais as inolvidáveis proezas dos ídolos do Benfica, esses sim, de pés bem assentes na terra.
É minha convicção que o Papa resignou sob o peso da perfídia, da baixa política que o encurralava, objecto da cabala de que era objecto, duma comunidade fechada, tresmalhada em seu redor, isolado num circulo ruminando ambições de intriga dividida em hostes aparelhadas para uma escalada ao poder que, creio, se instalou desde que Pedro instalou o  primeiro calhau para glorificação do reino de  Deus, uma abstracção que não se concretiza senão corporeamente no sacrificado do bom carpinteiro de Belém, acrescida da história de Pilatos, Maria Madalena e outras ficções  de eco muito sugestivo. 
Escreveu, e retive, um escritor italiano contemporâneo que “a salvação para combater todas as religiões e suas maléficas influências na equilibrada sanidade mental, quando num  turbilhão de crenças, é única e simples. Um tiro na cabeça.”
Ignorando qualquer religião, seco de fé, sem arma e nem sequer caçadeira de canos serrados, não obstante estar de pleno acordo com aquele pensador, estou  à vontade para me excluir de tão pesado radicalismo.
Antes da negação de quanto respeita desse mito que dominou por séculos o mundo e o lançou para chacinas sem procedentes, depois do homem das cavernas desertificado do espantalho das almas, crenças e fanatismos religiosos, iniciou-se uma multidão de copistas da história digna dum quadro de revista popular do Parque Mayer, da costela arrancada, sem anestesia, não sei se de Eva ou Adão ou o contrario, sem esquecer a simbologia da serpente que, ocasionalmente, visava a apetitosa maçã que tem muita importância nesta encenação, dignas da iniciativa dos terapeutas do Hospital Júlio de Matos aí por altura do Natal em que se baniu a simpática presença de burros e vacas por figurarem em momento de muito decoro.
Subscrevo sem reticências este ponto de vista.

quarta-feira, março 06, 2013

O bobo transcendente.

Retrato do bobo Pablo de Valladolid | Diego Velázquez | 1636/37

Maravilhoso, não é?
Manet achava que este era "o mais espantoso bocado de pintura jamais pintado" e Goya, perante este prodígio, limitou-se a concluir que Velázquez tinha retirado à obra prima a sua margem de manobra.
Eu concordo com os dois. Isto que estão aqui a ver vem de um campeonato à parte. Vem de um campeonato que é disputado entre os deuses. Não que o objecto retratado tenha algo de divino. Não. O objecto retratado é sobretudo e sinceramente prosaico. Porém, não se retrata aqui um bobo pelo bobo que ele é. Retrata-se aqui o bobo pela transcendência imagética que é possível obter através dele. Retrata-se um anti-climax. Mas retrata-se este corte de ganza de tal forma magistralmente, que acaba o bom Pablo por ser elevado a uma condição que não tinha, que não tem, que nunca teve. O bom Pablo, através do génio de Velázquez, eleva-se e eleva-nos ao sétimo céu da representação gráfica. É um absoluto. É uma verdade. É uma redenção.

terça-feira, março 05, 2013

sábado, março 02, 2013

Burning live



Nada como começar o mês de Março com um calorzinho infernal.
Kasabian - I'm On Fire

quinta-feira, fevereiro 28, 2013

Rocketville #6 - Inspiration Mars

A new nonprofit led by the world's first space tourist is mounting an ambitious plan to launch the first manned mission to Mars in 2018, a voyage that could include an adventurous married crew.


The project, led by American millionaire Dennis Tito  - who paid his own way to space in 2001 - aims not to land people on the surface of the Red Planet, but to take advantage of a rare planetary alignment that would allow a relatively easy, quick flyby of Mars.

Tito hopes to choose a space capsule and rocket from among those already on the market, and modify them to carry two people to Mars and back in 501 days.

And to combat the loneliness and isolation that would doubtless set in during such a mission, Tito is proposing something that's never been tried before: sending one male and one female, preferably a married couple.

"When you're out that far and the Earth is a tiny, blue pinpoint, you're going to need someone you can hug," Tito told SPACE.com. "What better solution to the psychological problems you're going to encounter with that isolation?"

For another, the mission will need novel life support systems and radiation protection technology to keep the crew alive and healthy.

In
 space.com - Wanted: married couple for private Mars Voyage in 2018 - Feb. 27

terça-feira, fevereiro 26, 2013

Circo Máximo.

Vinte por cento dos italianos votaram num palhaço. Não percebo a admiração: a quase totalidade dos europeus já é governada por palhaços e ninguém se espanta por causa disso.
Se o infame apocalipse humano que dá pelo nome de Herman José fosse candidato a primeiro ministro, não seria melhor nem pior, aposto, que alguns - senão todos - dos mais proeminentes candidatos a primeiro ministro que tivemos na Terceira República - e nas outras duas!
O grilo italiano não é muito diferente dos demais insectos que infestam este grande circo do ocidente. É feio como o raio, mas, que eu saiba, a classe política europeia não prima pela elegância.
É estúpido até mais não, mas, que eu saiba, a classe política europeia não prima pela inteligência.
É grotesco. Como os seus pares.
É obsceno. Se nao fosse obsceno, não chegava a dois por cento.
Tem, portanto, tudo o que é preciso para ser uma potência.
Uma potência!

Era uma vez uma civilização.

Momentos de glória: Jones vs. Prost - 1981



Depois de vinte e tal voltas de um duelo épico, Alan Jones faz algo de absolutamente virtuoso.
Um momento olímpico, retirado do tempo em que a Fórmula 1 era um espectáculo emocionante. Do tempo em que os pilotos conduziam os automóveis em vez de serem conduzidos por eles.

sábado, fevereiro 23, 2013

Cuidado com o poema

Advertência
isto aqui que estás a ler não é nenhum monumento homérico
decassilábico heroíco
armado em parvo
armado aos cucos e
armado até aos dentes de truques
artimanhas e xico espertezas
este poema não está aqui para contar as sílabas
nem para qualquer tipo de saga épica
paneleira e
transcendental
não

Este poema não gostava de ir ao cú ao primo mais novo
como o outro sacana que pensava que era bastardo de apolo mas era só
um filho da puta dos últimos
não

Este poema não está aqui para assinalar barões ou dobrar o cabo
este poema não pretende conciliar os deuses perder o paraíso ou resgatar helena
este poema quer que a helena se foda
este poema não tem pressa nenhuma de voltar para casa e
nunca vai ter medo de sereias
nem pensar nisso

Este poema não ia agora começar a rimar nem faz
figuras de estilo nem usa 
papel higiénico nem canta
glórias e ainda por cima
cheira mal dos sovacos

Este poema é
um chorrilho nem mais
nem menos que a consequência nefasta
da tendência que as palavras têm para se agregarem

As palavras são uma tribo extremamente solidária mas
este poema não tem pretensão alguma de ordem
sociológica
antropológica
política

Este poema não quer fazer ciência nem vai à missa
não está apaixonado nem
revoltado nem
promete revoluções
este poema não acredita nos amanhãs que cantam nem
em nada que se pareça

Este poema não serve a sintaxe nem obedece a cânones
isto aqui que estás a ler porque não tens nada melhor que fazer
triste leitor
é um poema que não está cá com merdas
tem uma pila um pulmão um olho em cima
um outro em baixo e
está de cócoras

Advertência
este poema está de cócoras

O chinês come de cócoras
que é como cagam no campo os que não são chineses
excepto os indianos que também comem de cócoras
mas são os únicos que comem como os chineses
porque o resto da humanidade gosta de manter os pés afastados do guisado e
é por isso que este poema também tem um estômago

Dentro do estômago deste poema encontrarás jonas
mas não a baleia por deus
dentro do estômago deste poema encontrarás
aqueles objectos cortantes e perigosos que as pessoas engolem
ou submetem de outras formas ainda mais interessantes
para dentro do organismo e que
no meu tempo
os hospitais gostavam de mostrar ao respeitável público

O respeitável público deve saber
que este poema nunca ouviu falar de walt whitmann ou de
baudelaire e
pensa que ovídio é um aviário no freixial

Este poema acha que o ezra pound podia estar calado
mais vezes
porque o ezra pound para canário fala que se desunha
a tia arminda já o levou à televisão mas durante o directo o cabrão do ezra
calou-se muito bem caladinho
uma vergonha

Este poema faz criação de canários falantes, a saber
garcia lorca  william blake  dylan thomas  álvaro de campos
o canário mais tagarela de todos era o pablo neruda
mas um dia foi cheio de tesão atrás de uma pomba e quando deu por ela
estava estatelado no quintal da tia arminda
uma ratazana decente deu-lhe a graça de um fim rápido que ele
não merecia

Advertência
não esperes encontrar neste poema a fé que não tens
a juventude que perdeste
ou qualquer coisa de realmente significativo para ti
porque não se trata aqui de te salvar
de te elevar o espírito
de te enebriar os sentidos
inocente

Este poema não tem uma missão
nem quer libertar os oprimidos
alimentar os esfomeados
ou redimir os injustiçados

Este poema não está preocupado com o aquecimento global
aliás este poema não está preocupado ponto

Este poema não tem medo de morrer

Este poema não quer ser literatura quando for grande

Este poema não quer ser pop
não quer ser cool
não quer meter coca
não quer ir para a cama com ninguém

Este poema compra a roupa interior no lidl

Este poema não está para ninguém e
não gosta que lhe batam à porta e
não atende o telefone principalmente para não ter que mandar bardamerda
a menina do callcenter
que não tem culpa de ignorar horácio e
de nunca ter lido virgílio
este poema também ignora e também nunca leu
nem quer ler
porque este poema não sabe
nem quer saber

Este poema está-se nas tintas e
está de saída e
faz a devida vénia e
com um peidinho
sai de cena

sexta-feira, fevereiro 22, 2013

Replicant Power #4



Blade Runner | Ridley Scott | 1982

Replicant Power #3



It's gonna
It's gonna
It's gonna
It's gonna happen soon.

We're gonna
We're gonna
We're gonna
We're gonna let it pass right through us,
let it pass right through us.

There is a
There is a
There is a
There is a tunnel here.

We're gonna
We're gonna
We're gonna
We're gonna bring the silence down there,
redesign our lives there.

It's gonna
It's gonna
It's gonna
It's gonna rain away.

But still
But still
But still
But still the sleep's inside us
Until someone unties us.

Is it dead enough?
Is it still enough?
Will it replicate
Inside our bodies now?

Is it dead enough?
Is it still enough?
Will it replicate
Inside our bodies now?

We're waiting
We're waiting
We're waiting
We're waiting underground.

How can we?
How can we?
How can we?
How can we extricate ourselves enough
or fight something that's part of us?

Is it dead enough?
Is it still enough?
Will it replicate
Inside our bodies now?

Is it dead enough?
Is it still enough?
Will it replicate
Inside our bodies now?


Fanfarlo | Replicate

Replicant Power #2




Uma equipa de médicos e investigadores da Suécia colocou num paciente uma prótese com eléctrodos ligados ao cérebreo que permite um controlo facilitado da prótese e mais movimentos.
O avanço muda completamente o potencial dos membros prostéticos utilizados por pessoas com amputações. Um paciente sem braço sofreu uma operação para conseguir ter controlo cerebral sobre um braço protético no Hospital Universitário de Sahlgerenksa, que pertence à Universidade de Gotemburgo, na Suécia.
Na cirurgia, colocaram eléctrodos neuromusculares no cérebro deste paciente que ficam ligados à prótese. A tecnologia foi desenvolvida por Max Ortiz Catalan, supervisionado pelo médico que liderou a cirurgia, Rickard Brånemark, numa parceria entre a Universidade Técnica de Chalmers e o Hospital Universitário de Sahlgerenksa.
“A nova tecnologia é um importante avanço que tem muitas vantagens relativamente à actual tecnologia de braços artificiais, que hoje oferecem uma funcionalidade muito limitada nos pacientes que têm membros em falta”, diz Rickard Brånemark.
Os médicos serviram-se do osso do antebraço para ancorar a prótese. Colocaram uma peça de titânio integrada no osso que, depois, serve para se ligar ao novo braço artificial. A técnica “permite ao paciente ter um grau completo de movimento, menos problemas relacionados com a pele e uma sensação mais natural de que a prótese faz parte do corpo”, explica Rickard Brånemark em comunicado. “Dá uma maior qualidade de vida aos amputados.”
In Público - 22/02/13

A Late Quartet



A propósito deste muito gratificante, intimista e instrutivo filmaço, fica a seguir o sétimo movimento do Opus 131 (separado dos restantes, muito contra a vontade do autor), que é porventura o mais célebre dos "late quartets" de Beethoven, a obra-prima que silenciou Schubert e que Schumann pediu para ouvir antes de morrer. Um momento de assombroso apuro estético.

sábado, fevereiro 16, 2013

Armagedãozinho.



As imagens (e os sons) que reportam a recente queda de meteoritos na Rússia central têm uma ressonância meio hollywoodesca que me arrepia. Há aqui um desenho do medo que julgo reconhecer, uma cenografia do fim com a qual a minha retina parece familiarizada.
A trajectória súbita, o clarão solar, a explosão balística contribuem para este verdadeiro simulacro do dia do juízo final.
Somos tão frágeis e estamos tão indefesos, nós, aqui na Terra.