sexta-feira, setembro 10, 2010

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Anti-telejornal | Confúcio e os Analectos



5.7. O Mestre disse: "O Caminho não prevalece. Vou meter-me numa jangada e fazer-me ao largo. Tenho a certeza que Zilu me acompanhará." Ao ouvir isto, Zilu ficou contentíssimo. O Mestre disse: "Zilu é mais audacioso do que eu. Mas onde encontraremos madeira para a nossa embarcação?"

Elegia do Manuel Maria



Ah Bocage, doce cruel menino,
Ébrio patife por destino,
Profeta versicular da tua
Desgraça:
Com uma puta nua
Nos braços, percorres os passos
Da praça.

Ah Bocage, que ainda o és,
poeta maldito da cabeça aos pés;
Azar dos azares teres nascido
Em Portugal:
Com o berço benzido
Noutro país serias mais feliz,
Animal.

Ah Bocage, saudade de Camões,
Os teus poemas são os colhões
De um filho bastardo do Homero
insano:
Tinhas talento fero
e a tua morte deu no desnorte
lusitano.

quinta-feira, setembro 09, 2010

Blogville Variações | Alfred, Lord Tennyson


The Charge of the Light Brigade at Balaklava by William Simpson (1855), illustrating the Light Brigade's charge into the "Valley of Death" from the Russian perspective.


A Carga da Brigada Ligeira


Meia légua, meia légua,
Meia légua contra os ventos
Sobre o vale da morte
Cavalgaram os seiscentos.
“Avante, Brigada Ligeira!”
"Contra os canhões!" ordenaram,
Ao encontro do vale da morte cavalgaram
Todos os seiscentos.

“Avante, Brigada Ligeira!”
Houve desânimo na fileira?
Não, mesmo sabendo que alguém
disparatara os regimentos,
Não há que levantar protesto,
Não há pensamento imodesto,
Há que dar o corpo ao manifesto:
Sobre o vale da morte
Cavalgaram os seiscentos.

Canhões à direita deles,
Canhões à esquerda deles,
Canhões em frente deles
Descarregam trovões e sofrimentos,
Ferro e fogo de mil invernos;
Corajosos cavalgaram e eternos,
Para a garganta da morte,
Para a boca dos infernos,
Todos os seiscentos.

Relampejaram os sabres descobertos,
Relampejaram todos no ar abertos,
Trespassando os canhoneiros certos,
Carregando sobre um exército
Perante o mundo de olhos atentos:
Mergulhando no fogo da bateria
Sobre as linhas rompeu a cavalaria;
Cossacos e Russos
Desbaratados pela força dos sabres
Foram separados em fragmentos.
E então podiam ter retirado, mas não,
Não os seiscentos.

Canhões à direita deles,
Canhões à esquerda deles,
Canhões atrás deles
descarregaram trovões e sofrimentos,
ferro e fogo de mil invernos,
Dos cavalos brancos caíram eternos,
Os que combateram fraternos
Atravessaram a garganta da morte,
Regressaram da boca dos infernos
Todos aqueles heróis
Que restavam dos seiscentos.

Como pode a sua glória ser passageira?
Ah, a brava carga cavaleira!
Perante o mundo de olhos atentos.
Honrem a carga cavaleira,
Honrem a Brigada Ligeira,
Nobres seiscentos.


Charge of the Light Brigade by Richard Caton Woodville (1825-1855)


The Charge of the Light Brigade


Half a league, half a league,
Half a league onward,
All in the valley of Death
Rode the six hundred.
"Forward, the Light Brigade!
"Charge for the guns!" he said:
Into the valley of Death
Rode the six hundred.

"Forward, the Light Brigade!"
Was there a man dismay'd?
Not tho' the soldier knew
Someone had blunder'd:
Theirs not to make reply,
Theirs not to reason why,
Theirs but to do and die:
Into the valley of Death
Rode the six hundred.

Cannon to right of them,
Cannon to left of them,
Cannon in front of them
Volley'd and thunder'd;
Storm'd at with shot and shell,
Boldly they rode and well,
Into the jaws of Death,
Into the mouth of Hell
Rode the six hundred.

Flash'd all their sabres bare,
Flash'd as they turn'd in air,
Sabring the gunners there,
Charging an army, while
All the world wonder'd:
Plunged in the battery-smoke
Right thro' the line they broke;
Cossack and Russian
Reel'd from the sabre stroke
Shatter'd and sunder'd.
Then they rode back, but not
Not the six hundred.

Cannon to right of them,
Cannon to left of them,
Cannon behind them
Volley'd and thunder'd;
Storm'd at with shot and shell,
While horse and hero fell,
They that had fought so well
Came thro' the jaws of Death
Back from the mouth of Hell,
All that was left of them,
Left of six hundred.

When can their glory fade?
O the wild charge they made!
All the world wondered.
Honor the charge they made,
Honor the Light Brigade,
Noble six hundred.


Officers and men of the 13th Light Dragoons who were the survivors of the charge, photographed by Roger Fenton.

Tema musical para o poema de Lord Tennison, por Kubrik. Fonte da voz off: sonibyte.com

segunda-feira, setembro 06, 2010

Anti-telejornal | A arte de ir ao teatro



"Que o arrumador não passe na frente dos outros
nem vá levar ao lugar, enquanto um actor estiver em cena.
Os que estiveram em casa que tempos a dormir, sem nada fazer,
têm que aguentar agora de pé com coragem, ou de cortar ao sono.
Os escravos que não ocupem os lugares, para que os tenha quem é livre,
Ou então que paguem o seu resgate.
As amas que tratem das criancinhas pequeninas
em casa, e não as tragam para o espectáculo.
Assim nem elas têm sede, nem as criancinhas morrem de fome,
nem vêm para aqui berrar como se fossem cabritos.
As matronas que vejam em silêncio, que riam em silêncio,
que moderem o retinir da sua voz esganiçada,
que levem para casa as suas conversas,
para não maçarem os seus maridos aqui e em casa."

Tito Mácio Plauto
(254-184 a.C.)

segunda-feira, agosto 16, 2010

Bravo Velho Oeste.



Ao contrário do que a maior parte dos bonanzas da televisão e do cinema nos querem fazer querer, os grandes heróis do velho oeste não passavam de bandidos, batoteiros, alcoólicos, psicopatas, gananciosos e débeis mentais. Wyatt Earp, provavelmente o príncipe perfeito dos pistoleiros novecentistas, liquidou impunemente mais almas que qualquer serial killer contemporâneo. Este intrépido personagem, muito bem acompanhado pela sua virtuosa família, comprava juízes, extorquía comerciantes, exercia a bigamia, impunha frequentemente a lei da bala e assim subindo na escadaria social, chegou até xerife da mais infame - e também iconográfica - cidade do Oeste americano: Tombstone.


Compincha destas aventuras e personificação do trunfo na manga, grande glória do poker, "Doc" Halliday enriqueceu a enganar os pobres de espírito que cometiam o erro fatal de se sentarem com ele numa mesa de jogo e a assassinar os outros, que ousavam ganhar.




Billy The Kid era um adolescente impertinente, ignorante e impetuoso, para quem a dúvida cartesiana se consubstanciava em cuspir no whiskey ou matar o barman. Calamity Jane não passava de uma maria rapaz com uma imaginação prodigiosa, fraca pontaria e medo do escuro. Jesse James roubava aos ricos para pagar as contas do saloon e as meninas do espectáculo.





Gerónimo - o último dos renegados - era conhecido por beber o sangue das crianças brancas, não sem que antes - demonstrando um espírito caridoso - lhes retirasse delicadamente o escalpe.



Sitting Bull, o Sioux visionário, depois de chacinar todos - mas mesmo todos - os soldados do Sétimo de Cavalaria, em Big Horn, acabou os seus dias como palhaço na grandiosa produção teatral de uma outra lenda do wild, wild west: Buffallo Bill. Este condutor de diligências, caçador feroz e batedor supersticioso, protagonista das mais inverosímeis aventuras e actor de si próprio, chegou até a receber a medalha de Honra do Congresso Americano.



By the way: a grande maioria dos duelos no velho Oeste eram travados a curta distância, com disparos à queima-roupa. A ideia do duelo ao sol, com um sacana no fim da rua e um herói no outro extremo, pode ser muito cavaleiresca, muito fotogénica e tudo isso, mas simplesmente não cola sequer com a realidade tecnológica das armas em presença.



O que sobra, porém, desta corja de foras da lei, artistas de circo e facínoras profissionais é mesmo a sua humanidade. Se são eles os eleitos da memória colectiva é precisamente pela sua crueldade, a sua fanfarronice, a sua ignorância. É precisamente por serem, afinal, heróis de carne e osso, gente parecida com a gente que existe, parte integrante da realidade ontológica que conhecemos. E é isso que faz grande e bravo o velho Oeste. O resto são fitas.

O destino segundo Kleist.



Jeronimo Rugera encontra-se preso numa cela em Santiago do Chile. Quando sabe que a sua amada fora condenada à morte, pelo adultério que num mosteiro os dois haviam praticado, desespera e pretende enforcar-se. Feitos os preparativos, sobe a um banco que coloca o seu pescoço à altura da forca e prepara-se para o impulso final quando se dá um terramoto. Perdendo o equilíbrio, Jeronimo esquece o desespero e agarra-se à corda da forca que no instante anterior o iria matar.
Mesmo quando tudo o que queremos é morrer, não queremos morrer por vontade dos deuses. Queremos morrer por livre arbítrio. Bem vindos à literatura de Heirich von Kleist.

Anti-telejornal | A utilidade do saber filosófico.


"Estudar filosofia é aprender a morrer."
Michel de Montaigne

quinta-feira, julho 29, 2010

Introdução aos Analectos.



"Podemos escutar e recolher os ensinamentos do Mestre no que se refere ao saber e à cultura, mas não há maneira de o fazer falar da natureza última das coisas nem da vontade celeste."
Queixa de um discípulo de Confúcio

É possível levarmos um homem à Lua sem nos perguntarmos pela existência de Deus.

É possível fazer ciência que reconheça os limites filosóficos da condição humana.
É possível ser moral sem saber de metafísica e é possível ser ético na ignorância da fé.
É possível fazer política sem fazer religião e é possível criar uma obra-prima que não coloque a questão do Mistério. Que não queira saber do Mistério para nada.
É possível estabelecer com rigor matemático até que ponto podemos ir, na senda da verdade.
É possível fazer silêncio sobre aquilo que não sabemos dizer.

Arde, meu país, arde.

Reduzem-se a cinza os céus por uma noite quente de Verão.
Incendeia-se de desgosto Portugal em Agosto, paróquia em procissão.
Antes que morras, meu país que foste um dia, arde em letargia.
Antes que te esqueçam em vida, arde até à morte, meu país-romaria.

Portugal para sempre demasiado tarde;
arde, meu país, arde.
Canto do mundo valente e cobarde;
arde, meu país, arde.
Arde, meu país, arde.

Que diria Camões deste céu vermelho, deste horizonte enferrujado
pelo inferno e o inverno da nação que deu errado?
Nem os portugueses, a mais das vezes, gostam de Portugal:
deitam-lhe fogo, deitam-lhe a mão, fazem-lhe mal.

Que o diabo te leve e que deus te guarde;
arde, meu país, arde.
Não há chama que te abastarde;
arde, meu país, arde.
Arde, meu país, arde.

Pátria sem os heróis que canta, em timbre debilitado:
o notável é imbecil ou capitão de abril, reformado.
Ficaram todos por lá, os melhores que há, na perdida de Quibir.
E os que viveram, atrasados mentais que não souberam ir.

O fim da história nunca vem tarde;
arde, meu país, arde.
Canto do mundo valente e cobarde;
arde, meu país, arde.
Arde, meu país, arde.

sexta-feira, julho 09, 2010

Do Belo e da Consolação ou o erro de Álvaro de Campos



De Platão a Bertrand Russel, grassa estruturalmente um erro terrível na filosofia: a aspiração do homem não deve ser o da conquista da felicidade, mas a da gestão do sofrimento. A história da humanidade, e a experiência individual de cada um de nós, demonstram inequivocamente que a vida não promete felicidades (o próprio conceito de felicidade é equívoco e espúrio), tanto como garante misérias.

Não viemos ao mundo para o prazer, o amor ou a paz. Viemos ao mundo, parece-me isto claro, para dar continuidade a um indiferente e amoral motor cósmico que transcende sensorial e analiticamente qualquer esforço de compreensão. Não nos é dado saber mais do que aquilo que é necessário para progredirmos pelo tempo em direcção a um destino que largamente nos escapa. Estamos em modo "need to know" e esse é o desgosto iniciático, porque se dá o caso de sermos animais curiosos.
À contemporânea incapacidade da ciência para produzir dogma, acresce a falência técnica da religião. Entre os bons milhões de deuses que habitam a história da metafísica, não há um que consiga resolver a embrulhada da Quântica ou elaborar sobre a Terceira Lei da Termodinâmica, mas isso seria de supor: os deuses serão omniscientes, mas de cultura generalista, e sobretudo não devem ser eruditos, sob o risco de perderem a sua credibilidade junto das massas. O problema porém, reside na consolação. A democratização do acesso à informação e às tecnologias que a produzem, principalmente a partir da máquina de Gutenberg, entregam ao homem comum a realidade de um mundo sem deus. O processamento quotidiano desta informação implica um constante teste à fé humana. É um cliché perguntar-mo-nos sobre a existência dos deuses perante o horror de Auschwitz, sendo certo que temos hoje um Auschwitz por semana, garantido pelas redacções e transmitido à hora da refeição. Perdidos no ecossistema caótico que Deus nos ofereceu como morada, encarcerados dentro desta natureza que Ele nos deu por condição, que consolo podemos recolher na Sua companhia? Não é fácil, nem aconselhável, promover o apocalipse dos olimpos, mas a verdade é que não há fé que vença os repetidos, eloquentes e operáticos horrores do mundo; nem mitologia que quebre as grilhetas da condição humana.
A única consolação do individuo civilizado é, portanto, a Arte. A contemplação do belo, para a maior parte; a invenção do belo, para uma ínfima minoria. Na arte encontramos consolo porque convivemos com o absoluto e perante o absoluto; não precisamos de fazer perguntas. Os Concertos de Brandeburgo respondem a todos os mistérios e ninguém precisa de saber da temperatura do bosão quando assiste ao calvário de Cristo, através das visões de Caravaggio. De qualquer forma, a Vénus de Milo é concerteza mais bela que o Binómio de Newton, independentemente do vento que faz lá fora. A Arte salva-nos do lodo do mundo e o que é mais: eleva-nos acima do inferno da existência.

sexta-feira, junho 25, 2010

O imbecil de serviço.



Desde que Humberto Coelho foi despedido, a selecção nacional tem mostrado uma tendência ininterrupta para incorporar imbecis como treinadores. Oliveira, Scolari, Queiroz são verdadeiras nódoas (é dizer pouco) e explicam por si só o facto de Portugal não ter ganho nada, apesar das sucessivas gerações de excelentes jogadores.
Contra o Brasil, Queiroz arranjou maneira de jogar mal outra vez, que é o que ele gosta.
Contra a Coreia do Norte, os jogadores revoltaram-se e, depois de uma primeira parte mais ou menos disciplinada, começaram a jogar à bola como sabem e podem, à revelia das estritas indicações do treinador que lhes deve ter dado uma valentíssima descompostura, no rescaldo.
Dirão uns que quando for grande, o seleccionador nacional quer ser como Mourinho, mas como nem sequer lhe dou estatuto para sonhar tão alto, eu acho que o homem gostava apenas de ser um outro Manuel José. E mesmo assim, não o consegue, porque é uma besta quadrada. De qualquer forma, o Mourinho tem estatuto e títulos para jogar à defesa, para jogar feio ou para encomendar canelada. Já o seleccionador nacional não tem estatuto nenhum para coisa alguma.
A prova irredutível é a equipa que escalou para jogar hoje. Um profissional que põe esta equipa em jogo é abaixo de zero. É uma besta quadrada. É o imbecil de serviço.
Por sorte, Carlos Queiroz vai inventar mais um onze despropositado para os oitavos de final e a malta só terá que aguentar mais 90 minutos disto. É que sinceramente, para ver o que vi hoje, não vale a pena estarmos lá. Peço, portanto, encarecidamente, ao professor (que ironia nesta nomenclatura): dê o seu máximo já no próximo jogo. Contra a Espanha, a Suíça ou o Chile, invente para aí o 11 mais esquizofrénico que a sua imaginação delirante conseguir produzir, obrigue por favor os jogadores a mostrarem o seu pior futebol e venha-se embora meu caro, que já não há paciência para a deficiência mental de que sofre profundamente.

quarta-feira, junho 16, 2010

Crítica ao Expressionismo Alemão.

Seguro esta bandeira. Não sopra uma brisa.
Agora é uma bandeira. Já foi uma camisa.
A bandeira canta os amanhãs de milhões de mortos
E assim quieta, anuncia a tempestade dos corpos
Que fodem como se não houvesse amanhã
Ou como se Eva não tivesse mordido a maçã.

Seguro esta bandeira, ao vento que não faz.
Hoje é bandeira de guerra, ontem verso de paz.
A Bandeira inventa o vermelho da revolução
Que vai correr da Alemanha ao Uzbequistão,
Para libertar o homem puro do destino ruim
E salvar Lenine dos bares manhosos de Berlim.

Seguro esta bandeira. A Tempestade não vem.
Agora é uma bandeira. Já foi cruz em Jerusalém.
A bandeira rejubila e clama pela acção directa,
Desde que o assassino não tenha que ser o poeta.
E enquanto os versos não agem dou ao pedinte
Umas coroas sacadas ao conforto do século vinte.

segunda-feira, junho 07, 2010

Haikus de Kobayashi

Entrada do templo -
O som do sino fica preso
No ar gelado

Que bela manhã
O carvão crepita
De bom humor

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Que beleza -
O buraco feito na neve
Ao mijar

O que se diz do boneco
De neve não dura mais
Que o boneco de neve

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Tão pobre a minha cabana
Até as moscas conservam
A família pequena

Onde há pessoas
Há moscas
E Budas

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Pulgas da minha cabana
Tão magras
Que metem dó

Cogumelos -
Também há beleza
Nos assassinos

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Vento de Primavera -
À mostra as nádegas
Do trolha no telhado

A primavera
Deixou na soleira da Porta
Os tamancos enlameados

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O apanhador de nabos
Aponta o caminho
Com um nabo

Vento de Outono
Até a sombra da montanha
Tirita

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Decrepitude -
Mesmo diante dum espantalho
Sinto vergonha


Versões de Jorge Sousa Braga

quarta-feira, junho 02, 2010

Haikus do Tempo Suspenso

O Semáforo
também fica indeciso
no amarelo

Ah a inocência
do parque de estacionamento
às cinco da manhã

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Tão tristes os meus poemas
que até a fonte de letra
se aborrece

O tipógrafo parece
adormecer, mas o chumbo
cai na caixa

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Samurai -
se não usas a espada
a pena esmorece

Onde há homens
há guerra
e budas

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Chega a Primavera
Mas o aranhiço do meu quarto
não dá por ela

São belos os campos
quando estou aos comandos
do automóvel

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Puta da idade -
Mesmo diante do diabo
sinto dores no joelho

quinta-feira, maio 20, 2010

Manual de Normas

Toda a gente que gosta de música quer perceber como é isso de fazer música. E toda a gente que faz música, quer perceber como é isso de fabricar um hit. Os Shout Out Louds explicam:



E a malta toda do universo agradece.

sábado, maio 08, 2010

O Último Teorema de Fermat é Belo

O Último Teorema de Fermat é belo porque pretende demonstrar,
para n maior que 2, que a igualdade

--> xn + yn = zn não se verifica.
Ninguém até hoje percebeu onde é que Fermat queria chegar
Porque faltou espaço ao que ele explica
Na margem da página 61 de uma Aritmética de Diofante.
O Último Teorema de Fermat é belo e estava certo, e era irritante
Não se saber demonstrar porquê.
Os computadores fizeram as contas e a certeza resultante
É que não se encontra a igualdade de z
(A Teoria dos Números passou 358 anos numa aflição).
O Último Teorema de Fermat é belo e é uma falsificação,
Porque ninguém acredita realmente
Que um tipo em 1631 soubesse demonstrar tal pretensão.
Só em 1995 é que o Dr. Wiles esclareceu definitivamente
Que
--> xn + yn = zn, é uma impossibilidade matemática.
O Último Teorema de Fermat é belo como uma gramática
Para aprender a rezar.
O Último Teorema de Fermat é belo porque pretende demonstrar
Que a igualdade xn + yn = zn não se verifica.
E porque faltou espaço ao que ali se explica,
Na margem da página 61 de uma Aritmética de Diofante.

O Último Teorema de Fermat é belo e irritante.

terça-feira, maio 04, 2010

Um general sem medos.


Na imagem está Bernardim Freire de Andrade (1759/1809), um homem que pagou com a vida o caríssimo preço de amar a sua pátria. Vale a pena contar a história. Quando em 1807, a mandos de Bonaparte, Junot entra em Portugal arrastando um exército andrajoso, exausto e famélico, não encontra resistência. O Príncipe Regente e sua corte comprida de lacaios e curta de coragem já tinha entretanto dado ares de vila diogo para o Brasil. Na mais negra das suas páginas, o exército português, superior em número e equipamento, recusa o combate e abre alas para que os franceses entrem em Lisboa como quem chega a uma simpática estalagem sobre o Tejo. Dados os tristes factos, são os ingleses que reagem, enviando em 1808 - sob o comando do General Wellesley - um corpo expedicionário de 13.00 homens para salvar esta pátria alheia. É aqui que surge o General Bernardim. Inconformado com a deplorável situação, agrupa 7.600 soldados e junta-se aos Ingleses acabados de desembarcar no estuário do Mondego. Recusando incorporar os seus soldados nas fileiras britânicas, acaba por desempenhar um papel estratégico para o bom sucesso da iniciativa militar: duas ou três escaramuças depois, a força anglo-lusa coloca os franceses em debandada na Batalha do Vimeiro, a 21 de Agosto, concluindo-se assim a primeira invasão napoleónica. Acontece que os termos da rendição imposta a Junot eram de uma benevolência tal que, antes de abandonar o país, a sua deplorável soldadesca teve a oportunidade de saquear todas as localidades incluídas no trajecto para Espanha. Os Ingleses, por seu lado, decidem permanecer numa semi-ocupação do território nacional, despreocupadamente acampados em algumas das mais importantes praças-fortes do país. Indignado com os termos da rendição francesa e o abuso muito pouco cavalheiresco dos ingleses, o General protesta, amotina-se e morde os calcanhares a toda a gente até que a 17 de Março de 1809, os Ingleses - já fartinhos de tanto incómodo - o atraem a Braga e o entregam desprotegido à voracidade da turba popular, previamente "aquecida" e manipulada. Patriota dos cinquenta e tal mil costados, Bernardim Freire de Andrade, herói da nação, morre linchado pelo seu próprio povo. Haverá moral para uma história destas?

quinta-feira, abril 29, 2010

Número um, é verdade.



Sempre que o adepto catalão vai à bola, nunca vai à bola literalmente. Vai por translata patologia. Vai para compensar o seu complexo de inferioridade. Daí a constante má educação. Daí a fanfarronice. Daí o mau perder. Ontem, o José mostrou quem é e de uma assentada transformou o futebol numa ironia suprema: com o mais defensivo esquema táctico da história da Liga dos Campeões, o Inter arrumou com a arrogância dos atrasados mentais de Camp Nou, com a sua esperança vingadora de uma vitória do Barcelona em Santiago Bernabeu, com o jeitoso do melhor jogador do mundo e com a má língua da imprensa italiana. Mourinho, no entretanto, ganhou um emprego novo, precisamente em Madrid, onde neste momento é simplesmente venerado como um deus. Que pinta.

sábado, abril 24, 2010

Blogville Variações | Lord Byron

POR ESTES CAMINHOS NÃO IREMOS ADIANTE
Por estes caminhos não iremos adiante,
para dentro, assim, da noite tardia.
Mesmo que o coração permaneça amante,
E que a lua brilhe em sintonia.

Porque a espada a sua bainha supera,
E a alma o peito transcende,
E o coração p'ra respirar faz espera,
E o próprio amor do descanso depende.

Mesmo que a noite seja a amante
e que os dias regressem madrugais,
por estes caminhos não iremos adiante
à luz da lua nunca mais.


SO WE'LL GO NO MORE A-ROVING
So we'll go no more a-roving
So late into the night,
Though the heart still be as loving,
And the moon still be as bright.

For the sword outwears its sheath,
And the soul outwears the breast,
And the heart must pause to breathe,
And love itself have rest.

Though the night was made for loving,
And the day returns too soon,
Yet we'll go no more a-roving
By the light of the moon.

Contribuições para o fim da Terceira República.

I - A educação do regime
Nos infelizes dias que correm, uma criança de 13 anos que tenha sido submetida a uma escola pública, não sabe nada de nada. Não sabe de aritmética, não sabe de gramática, não sabe de história, não sabe de ciências. Mas deve saber, segundo ordena o programa do Ministério da Educação para as actividades extra-curriculares, em que posição sexual a mulher tem mais prazer. A prioridade estratégica de Cavaco, a paixão de Guterres, o triunfo de Sócrates é isto.

2 - A equação do regime
Um Presidente da Câmara X contrata a uma empresa Y um serviço K por N milhões de euros. O Presidente X sabe que não tem os milhões N, mas não se interessa disso. Adjudica a obra, que o imortaliza. E depois, muito simplesmente, não paga à empresa Y. A empresa Y não recebe pelo serviço prestado a uma entidade pública, mas ainda assim tem que pagar ao Estado os impostos das facturas correspondentes. Se a empresa Y não paga os impostos a tempo, paga juros superiores aos que são praticados pelo mercado; se não os paga de todo, é penhorada e levada à falência pelo Ministério das Finanças. Se conseguir sobreviver a este desastre, o mais provável é que a empresa Y se veja obrigada a despedir um número indeterminado Z de empregados, cujo subsidio de desemprego vai ser pago por um escasso grupo H de espoliados que conseguem permanecer empregados no reduzido número W de empresas que o Estado ainda não conseguiu levar à falência. No entretanto, o Presidente da Câmara X é reeleito ou é promovido a ministro, ou a primeiro-ministro ou a presidente da república ou a administrador da Caixa Geral de Depósitos ou simplesmente vai à vida dele, como se nada fosse. Esta é a equação moral do Estado a que as coisas chegaram.

3 - O idealismo do regime

Num dado Centro de Emprego, a média salarial dos funcionários que lá trabalham é inferior à media dos subsídios que este organismo atribui. Quem trabalha recebe menos do que quem não trabalha. Este é o Estado solidário, o Estado humanista, o Estado socialista da Terceira República.

4 - A voracidade do regime

A Terceira República tem 36 anos de existência e 18 governos constitucionais de duração. Mas não tem registo de um Orçamento Geral do Estado que reduzisse a despesa pública. Nenhum dos 18 governos soube gastar menos dinheiro. Ao contrário, os impostos foram aumentados directa ou indirectamente em 27 orçamentos. Esta é a voracidade, a ganância, a desfaçatez do regime.

4 - A justiça do regime
Um desgraçado qualquer é acusado pelo ministério público de fraude fiscal. Depois de 1 ano de encarceramento preventivo, é levado a tribunal para um processo que vai durar mais 3 anos. No fim, apanha mais 6 de prisão, que é por causa das tosses.
Um desgraçado qualquer assalta uma bomba de gasolina à mão armada. Se alguma vez for identificado e capturado e acusado, sairá em liberdade condicional logo depois. Passados uns poucos meses será julgado em três sessões e condenado a dois anos de pena suspensa.
Esta é a lógica judiciária do Estado.

5 - A ética do regime
Para evitar o incómodo da contra-opinião, o primeiro-ministro decide usar dinheiros públicos para domesticar a imprensa privada. É apanhado com a boca na botija, mente com quantos dente tem. E sobe nas sondagens. Este é o Estado que elegemos.

Blogville Variações | William Blake

O TIGRE

Tigre! tigre! que brilhas na furna

Da floresta nocturna,
Que gesto, que olhar imperecível
Pode moldar a tua simetria temível?

Em que distante céu ou fundo mar
Arde a chama do teu olhar?
Em que asas lançar-se ousou
A mão que esse fogo cercou?


Que ombros fortes, que artes sãoPrecisas à musculatura do teu coração?
E quando ele começa a bater
Que terríveis mãos e pés vêm a ser?

Com que martelo, com que corrente,
Em que fornalha se fundiu tua mente?
Em que bigorna medonha foram batidos
Os mortais terrores que guardas cingidos?
Quando as estrelas lançam o seu manto
E lavam os céus com esse pranto,
Perante a sua criação é Ele que sorri?

Ele que criou o cordeiro, criou-te a ti?
Tigre! tigre! que brilhas na furna
Da floresta nocturna,
Que gesto, que olhar imperecível
Pode moldar a tua simetria temível?


Canções da Experiência - 1794


THE TYGER

Tyger! Tyger! burning bright

In the forests of the night,
What immortal hand or eye
Could frame thy fearful symmetry?
In what distant deeps or skies
Burnt the fire of thine eyes?
On what wings dare he aspire?
What the hand dare sieze the fire?
And what shoulder, & what art,
Could twist the sinews of thy heart?
And when thy heart began to beat,
What dread hand? & what dread feet?
What the hammer? what the chain?
In what furnace was thy brain?
What the anvil? what dread grasp
Dare its deadly terrors clasp?
When the stars threw down their spears,
And watered heaven with their tears,
Did he smile his work to see?
Did he who made the Lamb make thee?
Tyger! Tyger! burning bright
In the forests of the night,
What immortal hand or eye
Dare frame thy fearful symmetry?
Songs Of Experience - 1794

quarta-feira, abril 21, 2010

Quatro meses de silêncio, quarenta histórias por contar.

1. Descartes dormia sempre até às onze da manhã. Dizia ele que ficar na cama era a melhor maneira de exercitar o pensamento abstracto. Eu concordo.

2. Reportam "As Farpas" que o acontecimento elegante do mês de Agosto do ano de 1871 foi uma tourada que a mocidade fidalga de Sintra organizou em favor dos pobres daquela vila. Assistiu El-Rei e a Corte. Os touros eram bravos e os lidadores destemidos. A imprensa fez escândalo por causa dos resultados financeiros do evento, que achou parcos.
Conta da nobreza com os mendigos de Sintra:

Produto do espectáculo - 1.082$440

Despesa feita - 945$980

Deve a nobreza aos mendigos - 136$46
0

"As Farpas" não percebem a ira nos jornais. Suponhamos que a audiência tivesse registado metade dos números.
Conta dos mendigos de Sintra com a nobreza:

Produto do espectáculo - 541$220
Despesa feita - 945$980
Devem os mendigos à nobreza - 404$760

Neste caso, sim, poderia a imprensa clamar por sangue!

3. Nos velhos tempos da República Romana
, a um advogado que fizesse vencer a sua causa, era permitida a apropriação dos cargos e dos títulos do seu oponente. Meritocracia selvagem. Eu concordo.


4. Aceleram as partículas
no Atlas do CERN:
Collision energy is 7 TeV (3.5 + 3.5) Total Collisions (at 7 TeV) = 21,600,000

5. Bandas do momento
: Noah and the Whale, The XX, Voxtrot, Metric, The Airborn Toxic Event, Wild Beasts, Femme Fatale, The Subways, The Courteeners.

6. Às vezes, em Portugal, até o ar cheira a estupidez.


7. Erro
Ò Pessoa, francamente:

"O melhor do mundo são as crianças"?
Achas realmente?
Olha que nem parece teu.

Vê-se logo que nunca tiveste d'esperanças

e que lá no fundo és ateu.

Então o catraio aos gritos
por causa de uns bolitos

na pastelaria da agonia,
é substância agora

da tua poesia?

Se exageraste no absinto, homem,
deita cá para fora
!
Mas não cuspas na sopa do dia.


8. O homem tem um sonho: fazer dos EUA uma grande Islândia. É por isso que Barack Obama corre o risco de ficar para a história como o pior presidente da história.

9. E o GranTurismo 5 que nunca mais sai, senhores!


10. A mulher de Mozart
viveu o suficiente para ser fotografada.

12. O que é que José Sócrates precisa de fazer para deixar de ser Primeiro Ministro (de A a Z)?

a) Pegar numa UZI e assaltar uma bomba de gasolina;
b) Levar Portugal à banca rota;

c) Ter um ataque cardíaco na meia maratona da Póvoa do Lanhoso;
d) Cuspir na Cara do Presidente da República;
e) Erguer um monumento à sua pessoa na praça de Lisboa onde outrora se encontrava erguido um monumento ao Marquês de Pombal;
f) Mandar matar a Manuela Moura Guedes;

g) Ajudar o Godinho a fugir da prisão;
h) Fazer "caralhinhos" na Assembleia da República;

i) Concorrer ao "Mostra que Sabes Dançar";
j) Mandar prender o Pacheco Pereira;
k) Mandar prender o Manuel Alegre;
l) Deixar-se apaixonar loucamente pela Manuela Ferreira Leite;

m) Sair do armário;
n) Nomear Armando Vara para Ministro das Finanças;

o) Nomear Augusto Santos Silva para Ministro dos Negócios Estrangeiros;

p) Comprar a CNN com as receitas do IVA (se chegarem);
q) Engordar vinte quilos e apresentar-se em público de fato de treino e pochete;

r) Enfiar dois ou três pontapés na boca do Francisco Loçã;
s) Aparecer completamente embriagado na Comissão de Inquérito, acabando por vomitar sobre os inquisidores;

t) Fechar todos os hospitais públicos do País;

u) Aumentar o IVA para 35 por cento, o IRS para 70% e o IRC para 90%;
v) Cumprir a alínea anterior, mas reduzindo o IRC da banca para 3%;

x) Escravizar todos os professores do país;

z) Substituir o Cristo Rei por uma ventoínha daquelas ecológicas de que ele tanto gosta.

11. Grande malha: 13. O José Mourinho é grande.

14. Morreram mais americanos na Guerra Civil do que em cada uma de todas as restantes guerras que os Estados Unidos travaram.


15. Mad Man Rocks.


16. A Matéria Negra da Luz dos Media
de Dara Birnbaum, está instalada em Serralves. É perversa e é genial.
17. Grande malha:
18. Ser uma alface entre tripas é melhor do que parece.

19. Não gosto do FaceBook. Lamento imenso, mas não gosto nada daquilo. Não consigo perceber para que é que serve. Não consigo perceber a atracção. Não consigo suportar aquele convíviozinho estéril, parametrizado, impertinente, fútil, intriguista, plastificado, narcótico, metediço, palerma, inócuo, incómodo e comezinho do "o que é que estás a fazer agora" e do "testa a tua inteligência emocional" e das fotografiazinhas partilhadas e dos auto-retratinhos alternativos e dos auto-retratinhos eróticos e o diabo que os carregue a todos. Não gosto mesmo nada daquilo.


20. Portugal integra a lista dos 20 países com melhor qualidade de vida no mundo. É o 14º mais pacífico e o 13º mais globalizado (Dados ONU ).


21. Melhor clube de rock do planeta: Rende-Vouz - Electro Rock Club, nas Galerias Paris - Porto.

22. Poetas do momento
:
Tu não procures - não é lícito saber - qual sorte a mim qual a ti

os deuses tenham dado, Leuconoe, e as cabalas babiloneses

não investigues. Quão melhor é viver aquilo que será,

sejam muitos os invernos que Júpiter te atribuiu,

ou seja o último este, que contra a rocha extenua

o Tirreno: sê sábia, filtra o vinho e encurta a esperança,

pois a vida é breve. Enquanto falamos, terá fugido

ávido o tempo: Colhe o instante, sem confiar no amanhã.

Horácio - Odes
23. Estou à espera que cheguem os extra-terrestres.


24. Para não ficar atrás da glória de Pompeu (e mesmo só por causa disso), que já tinha morto para lá de uns 6.000 desgraçados, Crasso mandou crucificar os cinco mil escravos que restavam vivos da revolta de Espártaco. Como tinha amor pela cenografia, espalhou-os pela Via Apia. Quem se dirigisse a Roma por esta estrada, percorria os últimos seis quilómetros de viagem entre cruzes ensanguentadas e cadáveres a apodreder. Roma não perdoa.


25. Romancistas do momento:
2666 é um romance sobre tudo. Sobre a guerra e a paz, sobre mulheres assassinadas e críticos literários, sobre boxe e sobre amor, sobre romancistas e sobre músicos, sobre polícias e ladrões, sobre a América do Sul e sobre a Alemanha, sobre os nazis e sobre as suas vítimas, sobre jornalistas e sobre sonhadores, sobre traficantes de droga e sobre pais de família, sobre sexo e sobre tortura. Em mil e poucas páginas, Roberto Bolano vai a todas, na sua ambição demente de romancear a vida inteira. Há qualquer coisa de Borges e de Homero, aqui. Há vestígios de eternidade neste livro.

26. Este jogo é uma loucura.

27. E ainda há turistas?

28. A Tragédia Blockbuster. Num outro dia, olhei para a televisão e estava lá dentro um rapazinho esperto a dizer com a convicção dos rapazinhos espertos que, no que diz respeito aos direitos de autor, a vontade da maioria tem que prevalecer. A maioria, claro, não vive de direitos de autor, porque a maioria nunca criou nada na vida, a não ser o desgosto das fezes e
a moléstia da prole. A maioria, claro, quer música à borla e cinema à pala e isso tudo. A maioria acha que tem direito a tudo isso. Mas não tem. A maioria está enganada e o rapazinho esperto também. Tudo se paga. É uma regra da termodinâmica. É um preceito cósmico. Que o digam os desempregados da outrora próspera casinha multinacional de distribuição de cinema para consumo doméstico. E ao contrário: não pensem os senhores da Apple e da Amazon que vão escapar ilesos por venderem livros electrónicos ao preço das obras em papel. A ganância traz castigo e quanto mais despropositadamente caros forem os livros mais eles vão circular piratas pelos downloads do desbarato. Tudo se paga, meus amigos. É uma constante universal.

29. O jornalista que não é.
Miguelito, o jornalista, está sentado na cadeira do entrevistador e entrevista o imbecil de serviço. No meio da entrevista, muda para a cadeira de colunista e tece uns comentários de colunista. Depois volta para a cadeira de entrevistador, não sem prometer já de seguida uma visita à cadeira de escritor, que está expectante, ali ao lado. Até ao fim do programa, há-de sentar-se na cadeira de adepto do Futebol Clube do Porto, na cadeira de Membro da Comissão Lisboa para as Pessoas e na cadeira do irreverente-socialista-de-gema.
Convenhamos, são muitas cadeiras para um programinha só. Sossega Miguelito, que jamais ficarás de pé.
30. Grande malha:

31. Sabedoria Oriental: de nada vale tentar ajudar aqueles que não se ajudam a si mesmos.

32. Vendia a alma ao diabo
para ter um.


33. Leio na capa da Focus isto: "O planeta afunda-se
". É por causa dos terramotos e das tempestades e dos vulcões e do aquecimento global e etc. O grafismo, de grande sensibilidade artística, mostra o planeta terra envolto numa elipse hidráulica de esgoto. Devo dizer que a revista que prefiro molestar é a Sábado. Mas esta capa da Focus é tão manhosa que brada aos céus. Vender medo é o negócio do Século e vale tudo, até tirar olhos à razão.

34. Romancistas do momento
:
"O caso, Sire - continuou - É que carregámos juntamente com eles contra os canhões, quer dizer, daquela maneira, e depois, enquanto eu reagrupava os meus cavaleiros, eles continuaram a correr como lhes apeteceu em direcção à povoação, mesmamente atrás dos russos, e atravessaram-na de ponta a ponta, assim, abaloando dois esquadrões de cavalaria cossaca.
- Abalroando, Murat.
- Bom, Sire. Abalroando ou abaloando, o caso é que limparam o sebo aos russos. Foi, quer dizer... - O caracóis franziu o sobrolho, procurando uma frase que resumisse graficamente o espectáculo - Foi osmérico.
- Osmérico?
- Sim. Sabeis, Sire: Osmero. Aquele general zarolho que conquistou Tróia. O dos elefantes.

Arturo Pérez-Reverte - A Sombra da Águia

35. Poetas do momento:
Desde que é rectangular
que esta pátria ultramarina
tem andado a ameaçar
ruína.

Traiu rumos (bem remotos!)
que a tornaram opulenta.
- E de mortos, só de mortos
ela agora se sustenta...

E a confiança, o conforto
- ou réstea que d'eles reste... -
já de pouco hão-de valer

a um Povo, como este,
que anda morto
por morrer...

Rodrigo Emílio
- Soneto de Requiem

36. Newton comeu Leibniz. Quem é o pai do Cálculo, Newton ou Leibniz?
Não interessa realmente. Interessa o que fica para a história e para a história fica que o Cálculo foi parido pelo génio matemático de Newton e que Leibniz se limitou a plagiar. Quem é que escreveu a história neste caso? A Real Academia das Ciências. E quem é que era o presidente da Real Academia das Ciências quando Leibniz é acusado de plagiar Isaac Newton? Isaac Newton. Ao sábio que ambiciona um lugar na posteridade, não lhe basta ser sábio. Tem que fazer política.

37.
Sabedoria oriental: Acende uma vela, antes de amaldiçoares a escuridão.

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38. Poetas do momento:
I think continually of those who were truly great.

Who, from the womb, remembered the soul's history
Through corridors of light where the hours are suns
Endless and singing. Whose lovely ambition
Was that their lips, still touched with fire,
Should tell of the Spirit clothed from head to foot in song.
And who hoarded from the Spring branches
The desires falling across their bodies like blossoms.

What is precious is never to forget
The essential delight of the blood drawn from ageless springs
Breaking through rocks in worlds before our earth.
Never to deny its pleasure in the morning simple light
Nor its grave evening demand for love.
Never to allow gradually the traffic to smother
With noise and fog the flowering of the spirit.

Near the snow, near the sun, in the highest fields
See how these names are fŠted by the waving grass
And by the streamers of white cloud
And whispers of wind in the listening sky.
The names of those who in their lives fought for life
Who wore at their hearts the fire's center.
Born of the sun they traveled a short while towards the sun,
And left the vivid air signed with their honor.

Stephen Spender
39. Continuo à espera que cheguem os extra-terrestres.


40. Até que enfim, Benfica.