domingo, abril 19, 2020

André Dias: um testemunho central sobre o Covid-19.


"A pressão normalizadora que existe (sobre o Covid-19) é absolutamente dantesca".
André Dias . 11/04/20

Por esta altura já muita gente conhece a entrevista que André Dias, o jovem doutorado em Modelação de Doenças Pulmonares pela Universidade de Tromso, na Noruega, concedeu à QI News, sobre o Covid-19 e as medidas de quarentena que estão a ser implementadas por todo o mundo, pelo que não estou a dar novidade nenhuma.
É importante frisar que André Dias não é um epidemiologista, embora a sua área de doutoramento lhe tenha proporcionado vários anos de conhecimento teórico e prático nesta disciplina. Pelo que consegui perceber, a sua área de especialização relaciona-se com ciências computacionais ligadas à investigação médica. Não tenho capacidade intelectual nem técnica para dar conta do rigor científico de tudo o que ele diz, obviamente, mas há nesta entrevista de uma hora muito conteúdo que deve ser discutido.

Aliás, uma das questões que é mais preocupante neste intenso testemunho é a constatação que há muito pouca latitude para que os cientistas que discordam da opinião dominante possam expor os seus pontos de vista, mesmo que errados (a ciência progride com o erro). André Dias está visivelmente nervoso e parece até emocionalmente afectado durante toda a duração do vídeo, porque desde que publicou um artigo discordante da narrativa oficial, no jornal ECO, foi aviltado pessoalmente, insultado profissionalmente e ameaçado de todas as maneiras. No processo de fazer pública a sua opinião técnica perdeu amigos e a solidariedade dos colegas. 

Ora, isto não faz qualquer sentido até porque, como se observa mais à frente na entrevista e é hoje já bem nítido para quem estiver a prestar atenção e souber pensar pela própria cabeça, o André está longe de ser, no panorama nacional ou internacional, o único a questionar todo o processo que levou ao lockdown global. 

O facto do Covid-19 ceifar a vida de milhares e de milhares de pessoas, não obriga a sociedade a um silêncio uníssono. Pelo contrário: é precisamente pela sua gravidade que deve ser discutido, porque não há razão política, sem contraditório. Nem conhecimento objectivo, sem dialéctica. Pelo menos dentro dos cânones do direito público e da metodologia científica do Ocidente, de que somos herdeiros e que devemos honrar. 
E muitos dos factos, bem como as fontes que o cientista português enuncia merecem pelo menos que a sua voz seja ouvida e que meditemos sobre este assunto. É que há uma forte possibilidade de não termos lidado com este vírus da melhor maneira. E mesmo que essa possibilidade possa ser posta de parte, vale a pena discutir as razões do erro. Para referência futura.

Recomendo, claro, a quem ainda não viu a entrevista, que a veja. Mas não posso deixar de destacar alguns pontos essenciais nela expressos, a saber:

0'12'' - Logo a abrir, o argumento para mim mais convincente de que o Covid-19 não tem a implicação na mortalidade que foi inicialmente projectada, nem pouco mais ou menos. No gráfico em baixo, vemos as curvas de mortalidade em vários países da Europa desde a primeira semana de 2016 à décima de 2020. Notamos logo que a mortalidade deste ano não está a sair da média de outros anos. A gripe está a matar menos do que em anos anteriores, mas o índice é normalizado pelo pico de óbitos resultantes do C-19. O saldo, porém, parece ser neutro.

Fonte: Euromomo.eu


Em Portugal, os dados de mortalidade em tempo real também estão disponíveis no site do ministério da Saúde. E também aqui, percebemos que a curva deste ano (a negro) está completamente dentro da média, desde 2009.

O André fala de um terrível dia, 2 de Janeiro de 2017, em que um especialmente mortífero vírus da gripe matou 217 pessoas. Cerca de metade das que morreram de C-19 até agora, só em 24 horas. Não encontrei maneira de confirmar isto, mas o Público noticiou em Outubro desse ano 4500 óbitos decorrentes do virús da influenza, em Portugal. 
Acresce que a média etária das pessoas que foram vitimadas pelo C-19 é, se bem que ligeiramente, superior à esperança média de vida no nosso país.


Os números são estes e parecem-me pelo menos eloquentes. Cada um que tire a sua conclusão sobre se, assim sendo, a mortalidade por C-19 justifica as medidas de isolamento implementadas em todo o mundo. Que têm - elas próprias - um preço muito alto, desde a suspensão dos direitos e das liberdades constitucionais aos terríveis efeitos psicológicos do isolamento nos mais velhos e às consequências da recessão que seguramente se seguirá aos estados de quarentena.

8'36'' - A julgar pelo que aconteceu na China, as medidas de isolamento não desviaram a curva de infectados do seu desenho teórico, de distribuição normal de infecção em roda livre. Este ponto é polémico. O Professor Jorge Buescu, por exemplo, discorda desta conclusão.

15'50''
- As taxas de mortalidade que têm sido propagadas pela comunicação social e pelas autoridades sanitárias e políticas são completamente falaciosas e descem muito substancialmente a cada revisão.

18
'42'' - O mecanismo pelo qual os líderes políticos optaram pelo lockdown tem muito menos a ver com a informação científica que receberam do que com a pressão social arrasadora causada pelo medo. Foi o medo - e não a razão, segundo André Dias, que levou a mudança de políticas que tinham por base sólidos dados científicos, como foi o caso do Reino Unido. (Também a partir de 22'40'')

20'45'' - O entrevistado demonstra retoricamente como os modelos matemáticos se têm mostrado falaciosos na prevenção da mortalidade do vírus.

26'50'' - André Dias apresenta algumas variáveis que podem ter contribuído para os altos níveis de incidência do C-19 em Itália (qualidade do ar no Vale do Pó, por exemplo).

44'17'' - Não subscrevendo de todo o comentário deselegante sobre Jorge Buescu, há nesta fase do discurso muita verdade: a opinião divergente tem sido de facto suprimida da comunicação social, como é caso flagrante - e deprimente - o do reputado epidemiologista e Professor Jorge Turgal que nunca concordou com o fecho das escolas mas foi silenciado logo após essas primeiras declarações.

44'52'' - A OMS usa as redes sociais para rastrear a epidemia globalmente, apesar de ter sido várias vezes informada sobre os problemas de credibilidade deste tipo de inputs, que são corrompidos por bots e pelo ruído próprio dessas redes.

49'00'' - Fechar as escolas pode ter sido um erro, impedindo que as crianças saudáveis, que não correm qualquer risco, criassem imunidade ao vírus e ajudassem a dissipar a sua presença nas sociedades. A própria OMS concorda com este argumento. 

52'36" - Corremos o risco de que as medidas de isolamento matem mais pessoas, por suicídio, do que o C-19. Esta afirmação foi feita na televisão pública alemã por Gérard Krauser, epidemiologista da Helmholtz, uma reputada e gigantesca associação dedicada à investigação científica. 

53'25"
- O volume de testes anti-corpos que já estão disponíveis parecem apontar para o surpreendente facto de que a infecção estava já instalada nas populações muitos meses antes que as autoridades tomassem consciência da epidemia e das políticas de isolamento serem implementadas. Se tal fenómeno se confirmar, podemos retirar duas conclusões: que a eficácia das políticas de combate ao C-19 vai ser muito difícil de mensurar e que os índices de internamento e mortalidade do vírus poderão ser, afinal, residuais.

sábado, abril 18, 2020

My name is Joe Biden and I forgot this message.


"We hold these truths to be self-evident, that all men and women created by... you know... you know the thing.” 

Joe Biden . 2/3/2020




"We choose unity over division. We choose science over fiction. We choose truth over facts." 

Joe Biden . 8/8/2020 


 

“You know, there’s a, uh — during World War II, you know, Roosevelt came up with a thing that uh, you know was totally different than a, than the, you know he called it you know the, World War II, he had the war… the war production board,”

Joe Biden . On how to fight the coming recession . CNN . 17/04/20 




"We gotta... It's just... But you gotta... I mean... Hu hu... We gotta reassure, look, hu... My, my message to everybody I talk to."

Joe Biden . MSNBC . 15/04/20

quinta-feira, abril 16, 2020

O Deus de Todos os Dados.



E se toda a realidade for computável? Um computador assim, que compute tudo, pode reconstituir o passado e projectar o futuro, numa linha de rigor determinista. Um computador assim é DEUS.

Alex Garland, que já tinha deixado a sua marca de competência com Annihilation e Ex-Machina, projecta nos oito intensos e sofisticados episódios da primeira temporada de DEVS, as possibilidades físicas e metafísicas da inteligência artificial; e as contradições ontológicas, entre o determinismo e o livre arbítrio, que podem resultar do processamento quântico de big data.

Intelectualmente séria e esteticamente inimputável, esta obra de Garland não tem medo de assuntos difíceis de transportar para um guião televisivo, como a "Interpretação dos Muitos Mundos" ou a hipótese do cosmos como simulação. E funciona assim esplendidamente como um portal para dilemas futuros.

Uma produção Hulu, para ver e rever na HBO.

quarta-feira, abril 15, 2020

Ressureição.

Os Strokes ressuscitaram. Ainda vou na primeira audição de "The New Abnormal", mas como estes senhores não sabem fazer outra coisa que não seja boa música, fica já aqui um clip.



The Strokes . Bad Decisions

Contra a narrativa #03

Tucker Carlson, a estrela da Fox News e um dos pundits mais influentes do mundo, concorda comigo. A taxa de mortalidade do Covid-19 é imensamente mais baixa do que tem sido propagado. E outra vez: pelo simples facto que há muito mais infectados do que aqueles que são colocados na equação pelas autoridades e pela comunicação social.


domingo, abril 12, 2020

Filmaço.

Um Homem de Sorte, na Netflix: um filme dirigido por Bille August e baseado na obra-prima de Henrik Pontoppidan, uma espécie de Dostoiévsky dinamarquês. Duas horas e 45 minutos de cinema a sério.


Contra a narrativa #02

O Imperial College publicou recentemente um paper que faz estimativas credíveis sobre o número real de infectados em 10 países da Europa. Neste quadro que retirei do paper, mostram-se as projecções (com intervalo de credibilidade de 95%).
Daqui podemos fazer contas para chegar a taxas de mortalidade do C-19 bastante mais fidedignas. Assim:

Alemanha
População - 82 milhões
Infectados - 0,72% - 590.400
Óbitos C-19 - 2.719
Taxa de mortalidade C-19 - 0,46%

Bélgica
População - 11 milhões
Infectados - 3,7% - 407.000
Óbitos C-19 - 3.346
Taxa de mortalidade C-19 - 0,82%

Espanha
População - 46 milhões
Infectados - 15% - 6,9 milhões
Óbitos C-19 - 16.480
Taxa de mortalidade C-19 - 0,23%

França
População - 67 milhões
Infectados - 3% - 2,01 milhões
Óbitos C-19 - 13.832
Taxa de mortalidade C-19 - 0,68%

Dinamarca
População - 5,7 milhões
Infectados - 1,1% - 62.700
Óbitos C-19 - 260
Taxa de mortalidade C-19 - 0,41%

Itália
População - 60 milhões
Infectados - 9,8% - 5,8 milhões
Óbitos C-19 - 19.468
Taxa de mortalidade C-19 - 0,33%

Noruega
População - 5,3 milhões
Infectados - 0,41% - 21.730
Óbitos C-19 - 119
Taxa de mortalidade C-19 - 0,54%

Reino Unido
População - 63 milhões
Infectados - 2,7% - 1,7 milhões
Óbitos C-19 - 9.875
Taxa de mortalidade C-19 - 0,58%

Suécia 
População - 10 milhões
Infectados - 3,1% - 310.000
Óbitos C-19 - 887
Taxa de mortalidade C-19 - 0,28%

Suíça
População - 8,5 milhões
Infectados - 3,2% - 272.000
Óbitos C-19 - 1.036
Taxa de mortalidade C-19 - 0,38%

O estudo não inclui Portugal. Mas o Professor Jorge Buescu, que está a fazer um trabalho de tratamento estatístico da epidemia em Portugal verdadeiramente exemplar, calculou que estão infectados cerca de 1 em cada 30 portugueses. Assim sendo:

Portugal
População - 10 milhões
Infectados - 3,3% - 330,000
Óbitos C-19 - 504
Taxa de mortalidade C-19 - 0,15%

A taxa de mortalidade nestes 11 países europeus oscilará portanto entre um máximo de 0,82% na Bélgica e um mínimo de 0,15% em Portugal. A média dos 11 países é de 0,44%.

Mas se consultarmos os dados que circulam na comunicação social ou os que são apresentados pela Organização Mundial de Saúde, os números disparam loucamente
. Fala-se em taxas de mortalidade de 9% em Itália, por exemplo. Porquê? Porque a taxa está a ser calculada apenas sobre o número de pessoas testadas, como é óbvio. E também porque a estratégia do susto é conveniente a alguns sectores do panorama político e geo-estratégico global, claro. O que é dramático é que são os números mais assustadores - e rotundamente falsos - que determinam as políticas de lockdown. E com elas, a falência técnica, a curto prazo, do Ocidente.

sexta-feira, abril 10, 2020

Contra a narrativa.

Apenas factos:

Mortos por ano com infecções hospitalares em Portugal: 3900.
Mortos por complicações decorrentes do C-19 até hoje, em Portugal: 409.

O desemprego no país pode aumentar na ordem dos 75%, este ano. Não por causa da pandemia, como afirma erradamente o Jornal Económico, mas por causa das medidas de quarentena impostas pelo governo.
Considerando que morrem cerca de 110.000 portugueses por ano, o aumento da mortalidade por causa do C-19 dificilmente irá atingir 1% (até porque há óbitos contabilizados no âmbito do vírus que aconteceriam de qualquer forma).

Na última semana de Março, 7 milhões de americanos ficaram desempregados.
Nesta primeira semana de Abril, 6,6 milhões.
População activa total dos EUA: 164.6 milhões.

Perguntados sobre os efeitos do C-19, os portugueses temem mais a falência económica (62%) que a mortalidade do vírus (58%). E estão tão preocupados com o desemprego como com a integridade do serviço nacional de saúde (46%).
Estudo da Multidados - 600.000 inquiridos.

“The way in which we code deaths in our country is very generous in the sense that all the people who die in hospitals with the coronavirus are deemed to be dying of the coronavirus."
Professor Walter Ricciardi, Consultor científico do Ministério da Saúde italiano. Why have so many coronavirus patients died in Italy?

A Organização Mundial de Saúde foi parte activa das acções de encobrimento do surto epidémico do C-19 na China e, posteriormente, tem sido instrumentalizada pela máquina propagandística do Partido Comunista Chinês.
China’s deadly coronavirus-lie co-conspirator — The World Health Organization

Perderam-se, só nas duas últimas semana de março, pelo menos um milhão de postos de trabalho na União Europeia.

Os modelos usados pelos "peritos" americanos para prever a mortalidade do vírus estavam errados. Primeiro projectavam 200 mil mortos. Depois, 100.000 mortos. Agora, o dr. Fauci já fala em 60.000 óbitos. E não é verdade que este número derive do distanciamento social, como diz este senhor, pela simples razão que os modelos de projecção já equacionavam essa variável. O problema é que foi com base no número de 200 mil mortos que forama tomadas decisões sobre o funcionamento sócio-económico da América, que ainda é o grande motor económico do mundo.

quarta-feira, abril 08, 2020

Deepfake: Hillary Clinton como Hannibal Lecter.

A tecnologia deepfake está nos seus primeiros estágios de desenvolvimento, mas já dá para perceber perfeitamente a ameaça que representa para a credibilidade da imagem vídeo. Neste exemplo hilariante, Anthony Hopkins é substituído por Hillary Clinton na famosa sequência de "O Silêncio dos Inocentes" em que a detective Starling enfrenta Hannibal Lecter pela primeira vez. Arrepiante.


segunda-feira, abril 06, 2020

Triste espectáculo.

O C-19 serve para desnudar completamente o estado lamentável e autofágico a que chegou a ciência, o jornalismo, o dirigismo político e a sociedade em geral: um retrato rigoroso e abrangente feito por Dave Cullen, uma das mais esclarecidas vozes do Youtube.


Lockdown Rock #2



Slow Readers Club . Jericho

domingo, abril 05, 2020

Uma cambada de coninhas #02

Enquanto o desemprego explode por todo o lado (e sabemos quem vai realmente sofrer com isso), as manadas aplaudem os profissionais de saúde, por fazerem o seu trabalho (!), as celebridades queixam-se imenso da quarentena e os líderes mundiais, de um forma geral, mostram os coninhas que são. Entretanto, na Europa, os cristãos não podem ir à igreja, mas o muçulmanos podem (proibi-los seria racista).
Uma conspiração de estúpidos, num daqueles clips geniais de Paul Joseph Watson.



Não consigo parar de fazer esta pergunta: que seria do Ocidente se de facto fosse confrontado com uma epidemia a sério (daquelas que implicam indíces de mortalidade de dois dígitos), ou uma guerra como a que aconteceu há apenas 80 anos (com número de mortos na ordem dos 8 a 9 dígitos)?

Gripe vs. C-19: o que dizem os números.

Coronavirus South Korea

Nada como pura data para colocar em perspectiva os surtos de gripe e do C-19. Eis uma breve e circunscrita análise comparativa:

- ITÁLIA
Óbitos provocados pela gripe (Inverno 2016/2017): 24.981
Óbitos provocados pelo C-19 até agora: 15.362

- ESPANHA
Óbitos provocados pela gripe (Inverno 2017/2018): 15.000
Óbitos provocados pelo C-19 até agora: 12.418

- PORTUGAL
Óbitos provocados pela gripe (Inverno 2018/2019) - 2.840
Óbitos provocados pelo C-19 até agora: 295

- NO MUNDO:
Média de óbitos provocados pela gripe anualmente - Entre 290.000 a 650.000
Óbitos provocados pelo C-19 até agora: 68.142

Se exceptuarmos o caso espanhol, creio que dificilmente este surto do C-19 vai atingir os números da gripe. A ver vamos. É claro que o argumento de que a incidência da doença seria maior sem os diversos graus de quarentena que estão a ser implementados globalmente é pertinente. Mas para chegarmos a conclusões definitivas temos que esperar pelos números finais de países como a Suécia, que implementaram estratégias de combate à epidemia bem diferentes. Por enquanto a Suécia contabiliza um índice de infecções por milhão que é inferior, por exemplo, ao português.

Há também que ponderar, como já nesta página deixei demonstração científica, que uma parte significativa destes óbitos aconteceria, infelizmente, de qualquer forma, por via de outras infecções respiratórias de que doentes idosos, com severo quadro clínico, seriam vítimas.

Acresce que, depois de bem feitas as contas, a taxa de mortalidade do C-19 deverá ser equivalente à da gripe, por esta muito simples razão: este índice é produto de uma fracção. O numerador da fracção é o total de infectados e o denominador o total de mortos. Ora nenhum país tem maneira de testar a totalidade da sua população e só a Islândia e a Coreia do Sul é que conseguiram até agora obter uma amostra fiável. Assim sendo, o numerador da fracção (número de pessoas infectadas) é com certeza absoluta muito maior (imensamente maior) do que aquele que lá é colocado e que se refere apenas aos indivíduos que foram testados e não à totalidade dos infectados. Daqui decorre que a taxa de mortalidade será também e necessariamente bastante mais baixa.

Os números da Islândia são irrelevantes, porque o país tem características de isolamento geográfico muito próprias, ainda assim apresenta neste momento 1486 casos confirmados e 4 mortos (0,25% de taxa de mortalidade).

Os números na Coreia do Sul são mais elucidativos. Como está a testar muito mais (ceca de 5.000 testes por um milhão de habitantes), o numerador da fracção (pessoas infectadas) tem uma ordem de grandeza maior e a taxa de mortalidade desce assim substancialmente, não ultrapassando os 0,6%.
A taxa de mortalidade da gripe varia imenso com as àreas geográficas, oscilando entre os 0,1% e os 0,7%.

Dados estes factos, cada um que tire a sua conclusão sobre a validade das políticas de quarentena. Sendo certo que haverá que introduzir posteriormente nesta equação uma variável muito importante e cujo cálculo é neste momento impossível: as consequências sócio-económicas dessas políticas.

_________

Grande parte destes números foram gentilmente agregados pelo meu amigo Pedro Barros, a quem agradeço. Eis os links respectivos:

Gripe em Itália: https://www.epicentro.iss.it/coronavirus/sars-cov-2-decessi-italia?fbclid=IwAR03D6qqS5qoIggFkrZaltlOJqTDU4noo0yj4cYKMB1KaGLPJxrSKco0ZhA
https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1201971219303285?fbclid=IwAR0JSHGi4pf_lgSQpNVEw1ygDG69wvWmybBd6CRUgQQu1PGu1rrWFTSD_Gc

Gripe em Espanha: https://www.redaccionmedica.com/secciones/sanidad-hoy/gripe-en-espana-casi-800-000-casos-52-000-ingresados-y-15-000-muertos-5427 

Gripe em Portugal: http://www.insa.min-saude.pt/.../upl.../2019/02/S04_2019.pdf 

Um estudo recente e rigoroso sobre os efeitos globais da gripe pode ser encontrado aqui: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC6815659/

Um mapa muito útil com números de incidência do C-19 em todo o mundo está aqui: https://google.com/covid19-map/?hl=en

Situação na Coreia do sul: https://www.businessinsider.com/south-korea-coronavirus-testing-death-rate-2020-3?fbclid=IwAR3UH31rLjpBHxx0b63u1TT6oXgGcA9ijgvjyPxaAdI_YHQqCOF4fjlPxzI

Serviço público de televisão. No Youtube.

Epic History TV é um canal no Youtube que se dedica aos grandes movimentos bélicos da história da humanidade. Graficamente exemplares, muitíssimo bem narrados e altamente aditivos, os conteúdos deste canal batem qualquer History Channel manhoso que possas ter adquirido no triste pacote do teu servidor de telecomunicações, gentil audiente. Senão vejamos:

sábado, abril 04, 2020

E muito a propósito:

A Peste, de Albert Camus.



"A peste é tão comum que houve tantas epidemias no mundo como houve guerras. Porém, epidemias e guerras encontram sempre as pessoas igualmente desprevenidas."

sexta-feira, abril 03, 2020

Uma estrela no topo da árvore da glória.

"I don't mean to demean or criticize any of the great or very good footballers who played for me during my 26-year career at United, but there were only four who were world class: Cantona, Giggs, Ronaldo and Scholes. And of the four, Cristiano was like an ornament in the top of the Christmas tree. He was the one who added that final touch."

Sir Alex Fergusson



Cada vez gosto menos de futebol, e se há coisa de que não sinto falta, nestes tempos de quarentena em que sinto falta de montes de coisas, é deste fenómeno esquizofrénico. Em sentido contrário, porém, cresce a minha admiração por Cristiano Ronaldo. O talento, a personalidade, a determinação e a capacidade de transcendência de Cristiano não têm paralelo na história do pontapé na bola. É o melhor jogador de todos os tempos. Ponto final, parágrafo.

O F1 mais bonito de sempre...

foi banido, porque não era bem um automóvel. Era uma asa com 4 rodas. E uma asa ainda por cima agarrada ao asfalto com saias, por surrealista que esta frase possa parecer. A invenção maluca de Colin Chapman, que incluía um duplo chassis para proteger o piloto das tremendas forças G que esta tecnologia asa provocava, pode não ter tido grandes resultados na pista, mas que o Lotus 88 de 1981 é o mais belo F1 de sempre, isso não tem discussão. Olhem bem para ele, triunfante e esbelto, a assoprar pela rampa de Goodwood, quase 40 anos depois de ter sido desenhado e construído.



Os F1 actuais são mais rápidos, mais eficientes e mais seguros. Claro. Mas comparados com esta obra de arte, são um horror sem nome.

Uma frase contra o pós-modernismo.

"A tradição não é um culto de cinzas, mas a preservação do fogo."

Gustav Mahler

O vírus mais letal.



Dennis Prager, o afável, combativo e valoroso fundador da PragerU está tão pasmado como eu: como é que se faz parar o mundo assim, por causa de um vírus que tem a mesma perigosidade da gripe? E é este um precedente para futuros vírus do género ou para futuras epidemias deste vírus? Vamos destruir a civilização de seis em seis meses? E - nesse caso - não devemos parar tudo por causa de outras doenças e outros fenómenos que causam equivalente mortandade?

Por exemplo, devemos deixar de utilizar automóveis porque, todos os anos, morrem bem mais de um milhão de pessoas no mundo em acidentes rodoviários? E considerando que 2,3 milhões de infelizes morrem todos os anos em acidentes de trabalho ou por causa de doenças decorrentes das suas profissões, devemos todos deixar de trabalhar?

E por que raio é que os jornais e as televisões não mostram quadros comparativos entre aqueles que morrem do vírús chinês e os que morrem da gripe comum? É que este ano, só nos Estados Unidos, já morreram 20.000 pessoas (entre as quais 136 crianças) por causa do vírus da Influenza. E em Portugal, no ano passado, morreram 3 mil pela mesma razão. E no mundo, são 250 a 500 milhões que deixam a existência, em cada ciclo à volta do sol.

A estratégia de combate ao C-19 adoptada por 99% das lideranças mundiais é deveras estranha. E estou cada vez mais convencido que visa acima de tudo e mais que as vidas humanas, proteger dois sistemas: o sistema dos serviços nacionais de saúde, porque o C-19 ameaça de facto a capacidade operacional destas estruturas - sejam públicas ou privadas - e o sistema regimental dos estados, pela simples razão de que as cúpulas políticas, empresariais e mediáticas das sociedades contemporâneas não estão nem psicológica nem operacionalmente preparadas para assumir baixas.

O problema, claro, é que o estado em que este irresponsável e suicida dirigismo vai deixar a o mundo, depois de debelada a epidemia (se é que é possível debelá-la) vai, de longe, gerar índices de mortalidade muito superiores ao que o C-19 conseguirá atingir. Não há nada mais mortífero que uma depressão económica. Multidões vão morrer às carradas por subnutrição, doenças, consumo de drogas e álcool, conflitos militares à escala regional e - no pior dos casos - à escala global. Se não temos maneira de prever quantas pessoas vão perecer por causa do C-19, mais difícil ainda é calcular a mortandade devastadora que esta paralisia civilizacional vai certamente provocar.

Mas se as grandes cabeças deste mundo acham que a quarentena é a única solução, quem sou eu para desafiar estas grandes cabeças?A não ser, claro, que estas grandes cabeças não sejam tão grandes assim. A não ser, claro, que entre as últimas décadas do século XX e as primeiras do Século XXI tenha surgido um fenómeno mais letal ainda que epidemias e depressões: a total desqualificação moral e intelectual das lideranças.

Porque não há pior vírus que o da estupidez.

sexta-feira, março 27, 2020

Lockdown Rock.

Os Slow Readers Club estão, como toda a gente, enfiados em casa. Mas isso não quer dizer que deixem de nos presentear com excelentes clips do último albúm. Que grande ideia:



Slow Readers Club . Killing Me

quinta-feira, março 26, 2020

Desespero em tempos de cólera.





‘We have to take care of the cure - That will make the problem worse no matter what’
 Joe Biden sobre a melhor forma de combater o C-19. 24 de Março, 2020.

Depois de ter liquidado qualquer hipótese eleitoral a Bernie Sanders, o establishment democrata ficou com um um único sobrevivente para enfrentar Trump nas presidenciais de Novembro. O problema é que esse sobrevivente é Joe Biden, um sénior com 78 anos que está completamente senil (é dizer pouco) e que manifesta claramente a sua demência em cada um dos raros momentos em que seu staff o coloca perante a necessidade da oratória pública. Os exemplos de que Joe não tem condições intelectuais ou psicológicas para liderar a federação são mais que muitos (na ordem das centenas, mesmo) e estão resumidos aqui. O consequente desespero dos democratas com a débil condição do seu candidato é de tal forma intenso que o alinhadíssimo The Atlantic prontificou-se a publicar ontem esta peça propagandística hilariante: tudo o que se pede ao presuntivo nomeado democrata é que não morra. Tudo o que não seja morrer (demência, senilidade e desorientação geral) serve perfeitamente à América e aos americanos, pelos vistos.
Desejo-vos boa sorte, Estados Desunidos. Vão precisar dela.

quarta-feira, março 25, 2020

Vale tudo.

Os franceses confiscaram 130.000 máscaras que tinham como destino o Reino Unido. Os Checos ficaram com 100.000 que vinham da China para a Itália. Os alemães apropriaram-se de medicamentos que tinham sido adquiridos pelos suíços. Em Itália, o governador da Campânia ameaçou hoje os seus concidadãos com lança chamas enquanto os membros da União Europeia, bem como os senadores e os congressistas americanos, não se conseguem entender sobre as medidas a tomar para que as respectivas economias não caiam num buraco sem fundo.

Parece que o inesquecível Joker de Batman - The Dark Knight - tinha alguma razão:

"You see, their morals, their code, it's a bad joke, dropped at the first sign of trouble. They're only as good as the world allows them to be. I'll show you. When the chips are down, these civilized people, they'll eat each other. See, I'm not a monster. I'm just ahead of the curve."

E o Carl Benjamin, também (este, está quase sempre certo):


terça-feira, março 24, 2020

Correcção ao texto anterior.

O Reino Unido entrou hoje em lockdown, pelo que aquilo que afirmo sobre a resposta do governo deste país ao Covid-19 deixa de ser válido.
E, já agora, aproveito para relatar que as luminárias do Facebook chegaram à brilhante conclusão de que o meu post de 17 de Março afinal não devia ter sido censurado. E pedem desculpa e tudo. Espectáculo.
E já que estamos nisto de um post sem interesse nenhum, dá-me vontade de arriscar e fazer futurologia: daqui a uma ou duas semanas, desconfio que vamos começar a assistir a uma reacção generalizada por parte das sociedades civis contra a opção lockdown. E creio que alguns governos vão mudar de estratégia antes que a curva do contágio comece a descer.
Nos Estados Unidos, por exemplo, o Congresso não se entende sobre o apoio financeiro à economia, com os democratas a tentarem enxertar a lei com políticas de identidade e medidas radicais de protecção ambiental, pelo que Trump poderá não ter remédio a não ser o de deixar a economia funcionar.
Vamos esperar para ver.

segunda-feira, março 23, 2020

Entre o pânico e a razão: contributos para uma análise do risco no contexto do C-19.

Não quero de todo desvalorizar as consequências terríveis do Covid-19 e posso estar completamente errado - a seu tempo veremos isso - mas desde o princípio desta pandemia que tenho a opinião de que a maior parte dos países ocidentais - com a excepção da Inglaterra e da Rússia (se considerarmos a Rússia um país ocidental) está a gerir pessimamente esta praga chinesa.

Como já aqui escrevi, a estratégia que defendo seria a de fechar atempadamente as fronteiras e dirigir recursos logísticos, cuidados médicos e regimes de quarentena apenas aos grupos de risco, de forma a manter a economia a funcionar e a ganhar tempo para que as redes hospitalares não entrassem em colapso rapidamente, como está já a acontecer (e ainda não vimos o pior, claro).

A minha opinião deriva também de uma circunstância escandalosa: sabemos muito pouco, mas mesmo muito pouco sobre este vírus. Por exemplo:
- Não sabemos com precisão o seu índice de vítimas mortais. Oscila, mais coisa menos coisa, entre 6% e 0,2%, dependendo dos continentes, dos países, do nível de cuidados médicos instalados, do números de testes feitos e etc. A Organização Mundial de Saúde coloca a média mundial em 3,4%, mas esta percentagem está a sofrer objecções e alterações constantemente.
- Não dominamos de todo a mecânica e o pontencial endémico do vírus. Sabemos que tem um índice de transmissibilidade enorme (essa é se calhar a mais assustadora característica desta doença), mas não temos certezas nenhumas sobre os meios que usa, as resistências que apresenta, as fragilidades que esconde. Não sabemos sequer se a sua agressividade, tanto no contágio como nos sintomas, varia com a temperatura (!).
- Não sabemos porque é que há pessoas imunes ao C-19 ou porque é que a severidade dos sintomas, mesmo nas faixas etárias mais baixas, apresenta graus tão distintos.
- Ainda não sabemos quem foi o paciente zero e ainda não sabemos qual foi a origem do vírus e as causas da sua mutação genética.
- Não sabemos como tratar com eficácia os sintomas da patologia, nem que procedimentos clínicos adoptar para salvar vidas.

A ignorância em que estamos embrulhados deve-se em grande parte ao facto do Covid-19 ter surgido na China, um país governado por comunistas e, como todos os países governados por comunistas, secretivo, manhoso e irresponsável (na acepção humanitária da palavra). O Partido Comunista Chinês, ainda para mais, é certamente aquele que, na história horrorosa dos regimes comunistas, maior indiferença mostrou e mostra pelo valor individual da vida humana, embora a importância esmagadora que é atribuída ao colectivo não resulte, neste caso, apenas do pensamento ideológico, mas também da cultura e da realidade demográfica do Império do Meio. É no entanto factual que o regime chinês procurou esconder a ameaça global, para não perder a face. A linha temporal do fenómeno Covid-19 testemunha bem o lamentável comportamento das autoridades de Wuhan, primeiro, e depois de todo o aparelho sino-comunista.

Porém, não podemos em perfeita justiça atribuir culpas exclusivas à draconiana e incompetente burocracia chinesa por tudo o que não sabemos sobre o Covid-19, quatro meses depois da sua emergência. Há de facto aqui um problema gravíssimo na capacidade de resposta das instituições científicas no Ocidente, que não me surpreende nada e que só confirma o que tenho escrito em quantidades industriais neste blog sobre o estado miserável a que chegaram a maior parte das disciplinas exactas no século XXI.

Perante este quadro de desconhecimento do vírus, aconselhar-se-ia alguma cautela nas decisões políticas tomadas para combater o contágio. Aconselhados pelo puro e simples medo da turba, a maior parte dos governos optaram, com diferentes graus de rigidez, é certo, por fazer parar os seus países nas várias dimensões da realidade social. Esta paralisação multidimensional, desacompanhada de dados científicos credíveis e que nem sequer tem um fim programado, é devastadora em termos económicos, mas também em termos psicológicos e civilizacionais e os seus efeitos estão ainda para serem calculados com um mínimo de exactidão (se tal cálculo é possível).

Toda esta conversa vem a propósito de um artigo sobre a realidade britânica publicado ontem na Medium* e que disseca os dados disponibilizados pelo Office For National Statistics. Neste artigo, demonstram-se com alguma simplicidade dois factos: o primeiro é que o risco de mortalidade provocada pelo Covid-19 dificilmente vai transcender, em Inglaterra, o risco de mortalidade anual por outras causas clínicas, e a curva parece replicar completamente o desenho das mortes por outras doenças. O que vai acontecer é que esse risco incidirá sobre a população durante 3 ou 4 meses e não em 12 (e é por isso que se dá o constrangimento das redes de cuidados médicos). Daqui deriva o segundo facto: uma boa parte das fatalidades registadas no âmbito do C-19 aconteceriam na mesma, através de complicações provocadas pela gripe convencional e por outras patologias que ameaçam o sistema imunitário de pessoas com quadros clínicos complicados e idade avançada. Muitos dos doentes que morrem agora, e digo isto com o devido respeito pelo sofrimento e aflição das famílias atingidas pela pandemia, morreriam mais há frente no tempo, mas ainda no contexto estatístico do ano corrente. Os números são o que são e não mentem.

Vale a pena ler o artigo, mas só este quadro aqui dá bastante que pensar:


Acresce que a estratégia seguida pelo governo inglês, menos restritiva, mais cirúrgica e tendencialmente protectora dos motores económicos internos, está, pelo menos até ao momento em que escrevo estas linhas, a correr bem: o país é apenas o décimo no mundo e sexto na Europa com maior  crescimento de infectados.

O futuro fará justiça sobre a validade das diferentes estratégias e da minha humilde opinião sobre o fenómeno. Mas que corremos o severo e ridículo risco de chegar ao verão com a economia global no ponto zero e evidências estatísticas de que foi o pânico e não a razão que triunfou sobre as decisões tomadas, isso corremos.

Até porque parecemos esquecer, neste momento, que as crises económicas também implicam mortandade, por directa ou indirectamente provocarem guerras, crimes, suicídios, abuso de estupefacientes, subnutrição e doenças.

A ver vamos.

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*Agradeço ao José Abel Aguiar a gentileza de ter partilhado comigo o artigo da Medium.

domingo, março 22, 2020

Pedalada para dar e vender.

Estes amigos aqui, que são de agora mas que estão algures no espaço tempo que existe entre os Interpol e os Editors, debitam energia em quantidade industrial e o riff deste tema manda uma ventania danada. Impressionante.



The Slow Readers Club . All I Hear

sexta-feira, março 20, 2020

Concerto a uma voz.

Ac coisas que este senhor Michael Winslow consegue fazer com as cordas vocais são absolutamente espantosas. Neste caso, a coisa conseguida é a electricidade toda do velho e glorioso tema dos Led Zeppelin, "Whole Lotta Love", até porque a acompanhar o movimento operático só está um músico folk, Odd Nordstoga, com a sua boa viola acústica. Dois geniais minutinhos de barulho lindo.

quarta-feira, março 18, 2020

Tirania Facebook.

Acabei de ser censurado pelo Facebook, por um post completamente inócuo sobre o facto das cadeias de televisão desportivas não terem neste momento eventos para transmitir. O post é este.




































Recebi uma nota muito lacónica a acusarem-me de estar a enganar as pessoas para ganhar likes! Vocês nem imaginam a minha preocupação diária com likes, caros mangas de alpaca com vontade supressora. É uma loucura de lados para os quais durmo melhor. Há porém cenas que me tiram o sono, sim. Uma delas é a censura omnipresente nas plataformas digitais todas - e não só. Que vontade de vomitar.

É claro que o post tem um momento de especulação parva, mas penso que todo o sapiens percebe que o jogo de sueca em Papua Nova Guiné é um, mesmo que débil, exercício de humor. E nada no texto é dirigido contra a estação ESPN, já que aquilo que se caricaturiza é o estado histérico a que a situação mundial chegou. Mas é preciso explicar isto? 

Outra coisa que enerva quando te censuram é que nem sequer te dão direito ao contraditório. Estás cancelado e pronto. Aparece um botãozinho para carregar no caso de discordares e é assim. Acresce que a insinuação de prática desonesta é um insulto que é difícil de engolir. Muito difícil, mesmo.

Eu sei bem que o Facebook é uma máquina de suprimir opinião divergente a nível mundial, e que mais tarde ou mais cedo isto ia acontecer (estou até farto de publicar posts aqui no blog sobre o assunto), mas ainda assim, caramba, que a coisa deixa um gajo irritado, lá isso deixa.

terça-feira, março 17, 2020

Fazer de conta também bomba.

The New Division. Fingem que são Joy Division no século XXI. Fingem que são New Order para sempre. E eu não tenho nada contra isso. Pelo contrário: muito grato lhes fico.



The New Division . Fascination

Da quarentena à recessão.

Hoje fiz uma coisa que não faço há décadas: assisti aos primeiros segundos de uma conferência de imprensa de um ministro da República Portuguesa (foi por acaso). Quando sintonizei a coisa (ao calhas) a senhora Ministra da Saúde apresentava as condolências do seu governo à família da primeira vítima mortal do Covid-19 em Portugal. A voluntariosa e ingénua demonstração de pesar, fez-me pensar. Será que a senhora ministra vai apresentar condolências a todas as famílias dos falecidos, quando no fim do mês de março já somar 160 a 460 defuntos?* E quando contabilizar milhares de mortos, o que é mais que certo, vai estar ali com aquele ar sereno de quem está a controlar a situação completamente?

Mas não é só a ministra - um ser demissionário em potência e a muito breve prazo - que vai ver a sua figura de estilo transformada pela brutalidade dos factos. Por exemplo: será o entusiástico apoio aos profissionais da saúde, que, pontual, desperta com aplausos o silêncio deste temeroso recolhimento, pelas dez da noite, exactamente o mesmo entusiasmado tributo quando os médicos começarem a decidir quem vive e quem morre em função das camas e dos ventiladores disponíveis?
 
E os burocratas de Bruxelas, serão assim tão prestimosos com subsídios se isto durar, digamos, 3 meses?
 
E os portugueses, serão assim tão obedientes no seu acolhimento das ordens superiores, no seu recolhimento tele-trabalhoso, na sua pronta prestação eremita, quando entretanto foram despedidos dos seus empregos, quando entretanto virem os seus pequenos negócios caírem na falência; quando entretanto perceberem que a estratégia para combater o Covid-19 é um disparate medonho e os efeitos da recessão económica que virá depois forem bem mais assustadores - e se calhar - bem mais fatalistas do que a imaginação dos políticos e dos directores dos jornais e dos gestores das grandes empresas consegue projectar?
 
Sei que o pior está para vir. E desconfio que o pior que está para vir não tem nada a ver com o vírus chinês. Deriva antes de uma doença antiga, também endémica mas sobretudo crónica no Sapiens: a mais espúria estupidez.


* Projecção do Professor Jorge Buescu, num artigo de fundo para o Observador.

segunda-feira, março 16, 2020

O medo vende. Até um certo ponto.

Como profissional de comunicação tenho a obrigação de saber que o medo vende à brava. Mas desconfio que os jornais vão continuar a perder a pouca audiência que têm se persistirem nesta esquizofrenia do Covid-19, porque há limites para o alarmismo, mesmo que os tentemos esticar ao máximo e as pessoas vão acabar por se aborrecer de serem constantemente conduzidas ao pânico. Isto já para não falar na idiotia total: é de grande utilidade ficarmos a saber que a primeira vítima mortal do Covid-19 em Portugal foi um senhor amigo de Jorge Jesus ou que o actor Idris Elba testou positivo, por exemplo.

Por uma vez na vida, os meios de comunicação social podiam tentar ser imaginativos. Já que as pessoas vão inevitavelmente ter mais tempo do que costumam (nem que seja pelas horas que poupam em deslocações para o trabalho e para as escolas e nos afazeres diários que perderam o seu sentido), talvez fosse boa ideia criar conteúdos alternativos, que captassem a atenção e a sensibilidade dos leitores. Abrir suplementos relacionados com a história, as artes e as ciências; criar conteúdos sobre hobbies e outros nichos de interesse; publicar ficção folhetinesca como muito bem se fazia no fim do século XIX e princípio do Século XX em Portugal; implementar uma filosofia editorial que abrisse espaço mediático para personagens e fenómenos fora do mainstream; enfim, aproveitar esta janela de oportunidade para reinventar a imprensa, mesmo com os jornalistas a trabalhar em casa (ou precisamente por causa disso).

Mas não. Está tudo a carregar exclusivamente na mesma e deprimente tecla do susto. Como sempre. Que tristeza.


domingo, março 15, 2020

Uma cambada de coninhas.


Com o devido respeito pelas pessoas que vão de facto sofrer horrível e directamente os efeitos da epidemia Covid-19, devo dizer o seguinte:

Vivemos num mundo liderado por coninhas. Um outro tipo de pessoas-líderes que não fossem coninhas assim, pensavam duas vezes no que estão a fazer. Como são coninhas mesmo, coninhas do pior que há, só pensam no medo.

Os coninhas que só pensam no medo preocupam-se loucamente com a quantidade de votos que perdem por serem valentes e nem conseguem dormir dada a expectativa de serem vandalizados nas redes sociais ou de serem malditos nas colunas dos jornalecos que andam para aí a ser publicados e que, apesar da falência factual das respectivas audiências, metem imenso medo aos coninhas.

E o medo é um horroroso conselheiro.

No mês de Janeiro deste fenómeno só existia uma estratégia sã que as nações ocidentais tinham para seguir, no contexto do Covid-19, e que divido em três pontos fundamentais.

O primeiro é puramente político: responsabilizar a China, de forma a que a China se visse obrigada a ser globalmente responsável e, assim, contribuinte desinteressada da rede logística global de que é, na breve história do século XXI, a primeira beneficiária. Mas como estamos a falar de coninhas ocidentais, isso está completamente fora do espectro ontológico e a China neste momento está até - super e suprema ironia - a gozar o prato de ser uma ditadura e de - por esse glorioso facto - ser capaz de circunscrever e eliminar de forma bastante mais célere e prosaica as mesmas circunstâncias epidémicas que as frágeis e juridicamente complexas democracias têm épicas dificuldades em resolver.

O segundo ponto fundamental é de ordem pragmática: havia que fechar fronteiras ao turismo e à migração não prioritária. As fronteiras permaneceriam abertas ao movimento logístico de grande impacto económico e não mais que isso. Mas como vivemos na União-Europeia-de-Portas-Abertas  em que fechar fronteiras é uma política nazi, vá de deixá-las abertas. Até ver.
(Actualização: o Costa fechou agora ao turismo a fronteira com Espanha. Devia tê-lo feito há um ou dois meses atrás).

O terceiro, e mais que óbvio princípio lógico seria o de investir na protecção do grupo de risco: pessoas imuno-deficientes e/ou pessoas com mais de 65 anos. Esta seria a medida com melhores resultados estatísticos, no que tem a ver com a mortalidade do vírus, mas a cambada de coninhas que nos governa não é só deficitária de coragem. Também é deficitária de lucidez e de inteligência e é por isso que estamos neste momento a uma quântica distância do colapso das instituições fundadoras e fundamentais da sociedade só por causa de uma merda de uma doença que mata uma pessoa em cem.

Vão morrer, nos próximos meses, mais pessoas em acidentes rodoviários. Fechamos as estradas? Já morreram mais pessoas este Inverno da gripe comum. Fechámos para o Inverno? Morrem, todos os dias de cada mês e em todas as estações do ano, imensas pessoas nos hospitais portugueses por infecções que lá apanham. Fechamos os hospitais?

Por amor de Deus, não sejam tão coninhas. E, já agora, pensem em que género de economia, em que espécie de mundo vão aterrar já a seguir, no Verão, quando o vírus sair do ciclo diário dos jornais e escapar à indignação parva das redes sociais e o que houver para mostrar de todo este inferninho de agora for desempregos e falências e o reforço de uma estado falido mas subsídiário e o exponencial declínio desta Civilização pela qual os vossos avós, que não eram coninhas nenhuns, se sacrificaram em números - esses sim - abismais, para a deixar de tal forma perfeitinha que pudesse agora ser completamente aniquilada pela infame ausência daquilo que mais falta faz ao Homem Civilizado: um par de tomates.

sexta-feira, março 13, 2020

Um planeta com muitos mundos ou o maior equívoco da globalização.


Residents in Wuhan say pork portions from government stores were tipped from a dirty rubbish truck onto the street before being distributed for human consumption. Photo: Weibo

Um dos mais fraudulentos mitos da globalização é o que instalou a ideia de que, porque vivem no mesmo planeta, as pessoas vivem no mesmo mundo. Não vivem. Eu, por exemplo, vivo num mundo completamente diferente do chinês que, num dos mais relevantes órgãos de propaganda do seu partido, deixou a ameaça de cortar o abastecimento de medicamentos aos Estados Unidos, de tal forma que os americanos fiquem submersos num oceano de Covid 19.
E também não vivo no mesmo ecossistema dos congressistas e dos senadores americanos que permitiram, nos últimos 20 anos, que os seus constituintes ficassem dependentes dos medicamentos fabricados num país inimigo.
Mas se calhar o melhor exemplo de que num só planeta cabem vários e distintos mundos, volta a ser chinês: um diligente funcionário de Wuhan decidiu distribuir rações de carne de porco à população num camião do lixo.
E está tudo dito.

quarta-feira, março 11, 2020

Better Man.

Todos tentamos ser melhores bichos, mesmo quando não sabemos o que é melhor num bicho.



Courteeners . Better Man

segunda-feira, março 09, 2020

O derradeiro cavaleiro do apocalipse.

Por causa de uma porcaria de um vírus que nos países do Ocidente tem a mesma perigosidade da gripe - e da histeria ridícula de políticos, jornalistas e capitalistazinhos cobardes que vendem as acções ao primeiro espirro - há uma forte possibilidade que milhões de pessoas caiam no desemprego e que centenas de milhar de pequenas e médias empresas sejam levadas à falência.
A estupidez do Sapiens é ilimitada (infelizmente não podemos dizer o mesmo da sua inteligência), bem sei. Mas seria de esperar que as elites se comportassem de forma mais responsável. Porque o que é verdadeiramente assustador no Covid-19 é a capacidade que este vírus demonstra em expor a inacreditável fragilidade da civilização instalada. Imaginem só o que seria do mundo se em vez de um índice de mortalidade de 1,7%, o vírus matasse, digamos, 8 pessoas em cem? Morriam essas 8 pessoas da gripe chinesa e depois morriam as restantes 92 de fome, de outras doenças e da violência generalizada que provavelmente substituiria as instituições colapsadas. Portanto: esqueçam a guerra nuclear, a colisão meteórica ou a erupção vulcânica. O verdadeiro cavaleiro do apocalipse é microbiano.

sábado, março 07, 2020

Ska nevasse fazia ska ski.

Candide Thovex faz ski por todo o lado, num espectacular clip da Audi.


Da espada de Dâmocles ao pesadelo de César.

Carl Benjamin, a.k.a. Sargon of Akkad, é um notável youtuber e pundit britânico que tem feito a sua carreira pelas vertentes do comentário político e da intervenção cidadã, mas como o Youtube retira a possibilidade de financiamento a certos canais que não concordam com a verdade oficial e absoluta das big tech e porque Benjamin é um tipo que tem interesses e inteligência e cultura que transcendem as vilanias da ciência do governo dos homens, decidiu - e bem - criar um canal completamente diferente - The Symposium - com conteúdos transversais sobre a cultura ocidental, porventura mais focados na história e nas histórias da antiguidade clássica.

Estes vídeos, que são melhor consumidos como pod-casts e que podem completamente ser ouvidos enquanto fazemos outra cena qualquer, como trabalhar ou correr ou pedalar ou postar selfies no Instagram ou criar um grupo de amigos no What's App ou lá o que as pessoas fazem na vida quando estão acordadas, são um exemplo virtuoso do que pode ser um programa pedagógico de larga audiência e a prova de que, apesar do Youtube (leia-se: apesar da Google), a plataforma do monitor vermelho continua a bombar alternativas, enquanto o mainstream mediático se fecha cada vez mais numa horrorosa, desertificada e aborrecida concórdia de elites.

Um esclarecido retrato dos Suevos, talvez a mais selvática cultura bárbara que a civilização romana teve que enfrentar, ilustra a elevação e a amigabilidade do discurso. E deixa os censores do Youtube (leia-se: os censores da Google) com um problema grande: que motivo pode haver para que este vídeo não inclua publicidade, de forma a que tanto o servidor da plataforma como o criador do conteúdo ganhem a sua justa recompensa material?



A censura é sempre contraproducente e o Youtube perde milhões e milhões de dólares todos os dias, quando retira a possibilidade de rendimento aos seus criadores. Por causa da ideologia, triunfa a falência. Não deve ser grande coisa, então, essa ideologia.

sexta-feira, março 06, 2020

Courteeners para sempre.

Um conselho de amigo para quem gosta de pop/rock contemporâneo: oiçam a última opus dos Courteeners - "More. Again. Forever.". Trata-se de um disco inspirado, em boa hora parido por uma banda praticamente desconhecida em Portugal, mas que bomba que se farta há uns bons 15 anos ou assim. Desde a remota altura de "Not Nineteen Forever" que o que espero de facto destes rapazes é Mais, é Outra Vez e é Para Sempre. É que eles conseguem, sem excepção, ser extremamente simpáticos com o ouvido enquanto recusam ceder a facilitismos de rápido acesso às tabelas de vendas e aos prémios do gosto duvidoso. Seis estrelas em cinco possíveis.



Courteeners . Hanging Off Your Cloud

segunda-feira, março 02, 2020

Prazer acústico.

Os The Slow Readers Club, que são convidados deste blog desde 2015, decidiram editar uma breve e desligada da corrente eléctrica revisitação de alguns dos seus temas e a obra é uma maravilha sensorial. Escolhi este musiquinha: três minutos e quinze segundos de puro prazer acústico.



The Slow Readers Club . Supernatural