A laranja está segura na laranjeira ou está caída no laranjal.
Provérbio hindu citado por J. L. Borges em "A História da Eternidade".
quinta-feira, maio 28, 2009
quarta-feira, maio 27, 2009
Saudades do Almada

Segunda-feira, Outubro 25, 2004
BASTA PUM BASTA
Uma geração que consente ser informada pela Manuela Moura Guedes é uma geração que nunca o foi. É uma audiência d'indigentes, d'indignos e de cegos! É um tele-público de charlatães e de vendidos, e só pode parir abaixo do zero!
Abaixo a geração!
Abaixo a Manuela!
Morra a Manuela, morra! Pim!
Uma geração com a Manuela a cavalo da moral é um burro impotente!
Uma geração com a Manuela à proa do prime time é uma canoa em seco!
A Manuela é uma cigana!
A Manuela é meio cigana!
A Manuela é um pau de virar tripas!
A Manuela saberá cantar, saberá parlamentar, saberá opinar, saberá desopinar, saberá desopilar, saberá disparatar, saberá tudo menos informar, que é a única coisa que teima em fazer!
A Manuela pesca tanto de jornalismo que até faz notícias com a Quinta das Celebridades!
A Manuela é uma habilidosa!
A Manuela veste-se mal!
A Manuela especula e inocula os concubinos!
A Manuela é Manuela!
A Manuela é Moura!
A Manuela É Guedes!
Morra a Manuela, morra! Pim!
Não é preciso ir prá TVI pra se ser pantomineira, basta ser-se pantomineira!
Não é preciso disfarçar-se pra se ser salteadora, basta falar como a Manuela! Basta não ter escrúpulos nem morais, nem éticos, nem humanos! Basta andar com as modas, com as políticas, e com as opiniões! Basta usar o tal sorrisinho, basta ser muito delicada e usar baton e olhos espertos! Basta ser judas! Basta ser Guedes! Basta Ser Moura! Basta ser Manuela!
A Manuela é um tele-ponto dela própria!
A Manuela em génio nem chega a pólvora seca e em talento é pim-pam-pum.
A Manuela nua é horrorosa!
A Manuela cheira mal da boca!
A Manuela Moura Guedes é a minha impotência!
Morra a Manuela, morra! Pim!
A Manuela é o escárnio da consciência!
Se a Manuela é portuguesa eu quero ser espanhol.
A Manuela é a vergonha da televisão nacional!
A Manuela é a meta da decadência mental!
E ainda há quem não core quando diz admirar a Manuela!
E ainda há quem lhe estenda a mão!
E quem lhe lave a roupa!
E quem tenha dó da Manuela!
E ainda há quem duvide de que a Manuela não vale nada e não sabe nada e que nem é inteligente nem decente nem zero!
(...)
Continue a Dona Manuela a desinformar assim que há-de ganhar muito com o Share e há-de ver que ainda inspira um instalação em Serralves, uma exposição das maquetes pró seu monumento erecto por subscrição nacional da "Caras" a favor dos oprimidos da Palestina, e o Parque das Descobertas mudado para Parque da Dra. Manuela Moura Guedes, e com festas da Cidade plos aniversários, e Contraceptivos em conta "Manuela" e pasta de dentes Manuela, e BigMac’s Manuela e um jogo de Consola Manuela Ataca à Dentada, e Prozac Manuela, e autoclismos Manuela e Manuela, Manuela, Manuela, Manuela... E Ice Tea Manuela - Light.
(...)
Portugal, que com senhoras e senhores assim conseguiu a classificação do país mais atrasado da Europa e de todo o mundo! O país mais selvagem de todas as Áfricas! O exílio dos degredados e dos indiferentes! A África reclusa dos europeus! O entulho das desvantagens e dos sobejos! Portugal inteiro há-de abrir os olhos um dia - se é que a sua cegueira não é incurável e então gritará comigo, a meu lado, a necessidade que Portugal tem de ser qualquer coisa de asseado!
Morra a Manuela, morra! Pim!
quarta-feira, maio 20, 2009
De vez em quando.
De vez em quando, nasce assim uma pessoa rara. O meu amigo Fernando Bandeira de Lima era uma pessoa muito rara. Um cavalheiro e um sábio. Um louco compulsivo dos automóveis - último dos cavalheiros-sábios da vida e das corridas. Magoa-me agora a gargalhada dele, que me fazia feliz. Magoa-me agora a sua eterna pose de buda tranquilo sobre o caos, na praia de Altura, entretendo-se seriamente com a reconfortante companhia de um policial da Europa-América. A educação, deuses, a educação deste homem, que me impressionava, que me ensinava, magoa-me agora. Consigo ser verdadeiro o suficiente para dizer com precisão científica que já não nascem pessoas especiais assim e, se nascem ainda por singularidade cósmica, já não têm a educação do meu amigo. Já não têm a arte da cordialidade, a generosa bonomia, o saber estar e saber viver: uma britânica e brilhante paz de espírito, que agora me magoa e que me elevou outrora.
De vez em quando, apaga-se uma luz. E são os que permanecem vivos que ficam às escuras.
De vez em quando, apaga-se uma luz. E são os que permanecem vivos que ficam às escuras.
quinta-feira, maio 14, 2009
A febre Scalex Tric.


Quinta-feira, Julho 29, 2004
Lembro-me de mim adolescente petulante que lia Aldous Huxley entre duas corridas do campeonato de Fórmula 1 em carrinhos da Lego. Lembro-me de mim muito aflito quando a namorada entrava pelo quarto a dentro (nesses tempos, a minha casa oferecia a privacidade de um café central) e me encontrava empurrando carrinhos de um lado para o outro, repetidamente, concentradamente, até decidir, na última volta, quem venceria: Alain Prost ou Alan Jones. Lembro-me das ameaças do género: ou brincas ou namoras. Lembro-me de, a mais das vezes, preferir o ActionMan ou as profecias do Huxley. Lembro-me de desenhar, muito à pressa, o logotipo dos MotorHead na parede (as paredes do meu quarto eram aguarelas da puberdade), mesmo a tempo de terminar a batalha de Inglaterra com os kits da Revell, muito mal montados. Lembro-me desses stukas, desses spitfires e desses Messerschmitt como se fosse hoje que mergulhassem em ataque terminal pelos céus do escritório. Lembro-me de sair mais cedo das matinés dançantes no Rock Rendez-Vous e no Acapulco para ir brincar às escondidas com os Matchbox e os Corgytoys. Lembro-me de pensar com triste lucidez que já não tinha idade para inventar patifarias dignas de Butch Cassidy, para simular o palco sonoro dos disparos de Lone Ranger ou do relinchar de Silver, o seu nobre cavalo branco. Lembro-me de olhar para a minha pista (um oito miserável, mas com contador de voltas e tudo) e como quem arruma os brinquedos para nunca mais brincar, concluir com desesperada clarividência que já não tinha infância para construir, todas as tardes, um admirável mundo novo.
Quarta-feira, Julho 21, 2004
Lembro-me dos tempos paleolíticos em que era criança e construía longas rectas, só para atirar violentamente os carros contra a parede da varanda. Lembro-me de misturar o comboio eléctrico da Lego com a pista de automóveis, os soldadinhos da Timpo, os bonecos da Airfix, os castelos da Knex e o feltro do Subutteo. Lembro-me de não ter consciência de escala e preocupações de realismo. Lembro-me de me divertir à grande e a sós, no meu quarto de filho único, construindo e destruindo mais sonhos que apenas os meus (sim, destruindo também os sonhos dos outros). Todos contra todos, os meus brinquedos banhavam-se em gloriosa cosmogonia para meu deleite. Só para meu exclusivo prazer de deus ímpio, alegre e despreocupado, entornavam-se exércitos em rios de sangue, defrontavam-se grandes clubes do futebol europeu em chacinas de verde, amigavam-se mouros e peles vermelhas, cruzados e cowboys lutavam lado a lado contra o Afrik Corps, enquanto do quartel dos bombeiros da LegoVille saía uma brigada para apagar o incêndio que teria deflagrado algures, na sala de jantar.
Lembro-me de queimar - ligeiramente - um dedo no motor de um carrinho de pista. Lembro-me de pensar que os motores de carrinhos de pista que aquecem ao ponto de me queimar - ligeiramente - o dedo, são a coisa mais prodigiosa da criação toda.
Quinta-feira, Janeiro 06, 2005
Devo dizer que tenho 37 anos, 80 quilos, falta de cabelo e que sou um chato. Devo dizer que me pesam bem mais os 37 anos que propriamente os quilos/libras a mais no comércio da existência. Devo dizer outrossim que gosto pouco de infantilidades, imaturidades, ingenuidades e enfermidades do género que evidenciam certos adultos para os quais não tenho a mínima paciência.
Dito isto, tenho que confessar que sou uma criança. Sou uma criança porque ainda paro nas lojas de brinquedos e ainda faço aquele ar de puto guloso (a que a minha mãe não resistia) perante o banquete lúdico na paisagem. Sou uma criança porque ainda não sei de melhor programa para depois de um jantar de Sábado entre amigos que o magnífico privilégio de poder ir brincar com uma pista Scalextric a sério. E, por obra e graça dos deuses e do meu amigo Jaime Filipe, eu tenho uma. Tenho uma pista de carrinhos, senhores! Com automóveis lindíssimos do WRC, do GranTurismo de resistência e da DTM. Com boxes e mecânicos e fotógrafos e directores de corrida e espectadores. Com partida Les Mans, cronómetro aos centésimos, punhos Pro, base de relva simulada, escapatórias por todo o lado, pontes várias e cruzamentos perigosíssimos!
Psicólogos de todo o mundo rapidamente me enviariam para a Clínica dos Chalados Mor, quarto 33, gente sensata de todos os quadrantes genéticos dir-me-á: mas estás burro ou falta-te a bolha da razão? Estarão certos uns e outros. Persistirei porém no delírio: estou quase a comprar uma plataforma de condução (com banco desportivo) para curtir com realismo apurado o ColinMcrae 2005 que me proporcionam os magos da CodeMasters e os génios da Playstation. E é uma questão de tempo para ver se arranjo um Subutteo como deve ser. Com holofotes, bancadas, banco de suplentes e tudo!
quarta-feira, maio 13, 2009
Poema sem pés nem cabeça.
De vez em quando espalho-me no abismo.
De tempos a tempos ocorre o cisma ou o sismo
e dou a fortuna por perdida.
Volta não volta, vira-se a vida.
É um contra-ciclo, conjuntura-colisão,
em abreviatura é um palavrão
que não se entende;
sou o pretendente que ninguém pretende.
Dou graças ao diabo de não ser turista:
transito aflito e paraquedista
da chegada para a partida
e volta não volta, vira-se a vida.
De tempos a tempos ocorre o cisma ou o sismo
e dou a fortuna por perdida.
Volta não volta, vira-se a vida.
É um contra-ciclo, conjuntura-colisão,
em abreviatura é um palavrão
que não se entende;
sou o pretendente que ninguém pretende.
Dou graças ao diabo de não ser turista:
transito aflito e paraquedista
da chegada para a partida
e volta não volta, vira-se a vida.
terça-feira, maio 12, 2009
Anti-Telejornal | Tempo e eternidade.
"Naquela passagem da Eneida que pretende interrogar e definir a natureza do tempo, afirma-se que é indispensável conhecer previamente a eternidade. Essa advertência preliminar, tanto mais grave se a considerarmos sincera, parece aniquilar toda a esperança de nos entendermos com o homem que a escreveu. O tempo é um problema para nós, um terrível e exigente problema, talvez o mais vital da metafísica; a eternidade, um jogo ou uma fatigada esperança."
Jorge Luís Borges - História da Eternidade
Jorge Luís Borges - História da Eternidade
As razões da felicidade ou a Oitava Sinfonia.

Sexta-feira, Julho 16, 2004
Quem ouve a Oitava Sinfonia de Beethoven chega facilmente à conclusão que a obra foi escrita por um homem feliz. Tchaikovsky - ele mesmo, tão egoísta em elogios - escreveu sobre esta obra prima o seguinte: "It is the last bright smile, the last response, given by the poet of human sorrow and hopeless despair to the voice of gladness".
Acontece porém que, à época da sua composição, o Mestre vivia, como sempre viveu, em fúria e dor e danação. Atirado para a casa do seu irmão Johann em Linz, com o propósito de curar uma feroz intoxicação alimentar, cedo descobre que o desgraçado se perde em delícias e volúpias com a criada de quarto. Beethoven desaprova o desagravo social com unhas e dentes: faz tudo o que lhe é possível para exterminar a relação bastarda, incluindo queixas à polícia e protestos no bispado.
Contrariando a austera vigência moral do seu irmão mais velho, Johann arranja maneira de casar com a criada da noite para o dia, e é por isso que rebenta a Oitava Sinfonia.
Cinco anos de um blog difícil.

Senhoras e cavalheiros, ilustres e raros e pacientes visitantes deste blog obscuro: no próximo mês de Julho, o Blogville faz cinco anos. Cinco anos de ódios e de raivas, de protestos histéricos e de gemidos de dor, de enxaquecas e de partes gagas, de folhetins e de banalidades, de silêncios incómodos e de ruídos inconvenientes, de confissões parvas e de recensões ilegíveis, de segredos e de generalidades, de gostos e de desgostos. Para festejar o triste acontecimento, e também para disfarçar a pouca vontade criadora que invade estes meus dias de uma Primavera hesitante, vou passar os próximos meses a recordar os altos e baixos deste diário de coisa nenhuma com que tenho a desvergonha de vos maçar. Obrigado pela vossa inesgotável paciência.
sábado, abril 25, 2009
Orgulho e preconceito.
Dois em cada três portugueses não vão votar para as Europeias e fazem eles senão bem. Hoje, no primeiro debate televisivo da campanha, a dra. Adelaide de Sousa decidiu abrir as hostilidades com esta perguntinha indigente: um sujeito que trabalha das nove às cinco e recebe o ordenado mínimo deve sentir-se orgulhoso por ser um cidadão europeu?
A pergunta é tão estúpida, é reveladora de uma desfaçatez moral de tal ordem, que nem se percebe. A dra. Adelaide de Sousa pretende saber se o candidato acha que o cidadão mal pago deve estar desgostoso do seu continente porque na América do Sul os ordenados são chorudos, ou porque na China o ordenado mínimo é de 2.000 euros por semana, ou porque na maior parte dos países africanos o custo de vida é largamente superado pelos rendimentos médios da população, ou o quê, precisamente? O cidadão que é mal pago deve ser zangado com a Europa porque nos outros continentes os cidadãos são melhor remunerados? Devem todos os europeus que ganham miseravelmente ir procurar emprego para a América?
A pergunta é de tal forma produto da mais infame leviandade, que brada aos céus. Esta senhora parece achar pertinente que o cidadão europeu deve ser mais ou menos orgulhoso da sua Europa em função do ordenado que ganha. Os Alemães, por exemplo, devem adorar a Europa. Os portugueses, devem odiá-la. Este materialismo é de cair para o lado.
Não interessa nada à dra. Adelaide de Sousa a história da Europa, os triunfos civilizacionais, científicos, políticos, filosóficos ou artísticos da Europa. O que é tudo isso, perante o ordenado mínimo do cidadão que vai trabalhar das nove às cinco? Das nove às cinco, caramba!
A pergunta é de tal modo perversa, que serve de evidência para o meu argumento antigo sobre a responsabilidade da abstenção: não são só os políticos que envenenam o debate e que distanciam os portugueses da União Europeia. Não são só os políticos que dão má imagem - e má fama - à política. O jornalismo em Portugal é um dos principais problemas da nação.
A pergunta é tão estúpida, é reveladora de uma desfaçatez moral de tal ordem, que nem se percebe. A dra. Adelaide de Sousa pretende saber se o candidato acha que o cidadão mal pago deve estar desgostoso do seu continente porque na América do Sul os ordenados são chorudos, ou porque na China o ordenado mínimo é de 2.000 euros por semana, ou porque na maior parte dos países africanos o custo de vida é largamente superado pelos rendimentos médios da população, ou o quê, precisamente? O cidadão que é mal pago deve ser zangado com a Europa porque nos outros continentes os cidadãos são melhor remunerados? Devem todos os europeus que ganham miseravelmente ir procurar emprego para a América?
A pergunta é de tal forma produto da mais infame leviandade, que brada aos céus. Esta senhora parece achar pertinente que o cidadão europeu deve ser mais ou menos orgulhoso da sua Europa em função do ordenado que ganha. Os Alemães, por exemplo, devem adorar a Europa. Os portugueses, devem odiá-la. Este materialismo é de cair para o lado.
Não interessa nada à dra. Adelaide de Sousa a história da Europa, os triunfos civilizacionais, científicos, políticos, filosóficos ou artísticos da Europa. O que é tudo isso, perante o ordenado mínimo do cidadão que vai trabalhar das nove às cinco? Das nove às cinco, caramba!
A pergunta é de tal modo perversa, que serve de evidência para o meu argumento antigo sobre a responsabilidade da abstenção: não são só os políticos que envenenam o debate e que distanciam os portugueses da União Europeia. Não são só os políticos que dão má imagem - e má fama - à política. O jornalismo em Portugal é um dos principais problemas da nação.
quarta-feira, abril 22, 2009
Anti-Telejornal | Ao sol poente
Nunca sei como é que se pode achar um poente triste.
Só se é por um poente não ser uma madrugada.
Mas se ele é um poente, como é que ele havia de ser uma madrugada?
Alberto Caeeiro
Só se é por um poente não ser uma madrugada.
Mas se ele é um poente, como é que ele havia de ser uma madrugada?
Alberto Caeeiro
segunda-feira, abril 20, 2009
Hoje é a minha conta bancária, amanhã é a minha roupa interior.
Não, não, não concordo nada com a violação do sigilo bancário. Não, não, não concordo nada que um borra botas qualquer que por acaso até chegou a chefe de loja no esquizofrénico franchise do Ministério das Finanças tenha poder para entrar pelos meus dinheiros adentro. Não, não, não acho que este desgraçado em particular tenha direito a isso, e muito menos direito a isso tem o Estado, no geral. Se o argumento para o total desrespeito pela privacidade, pela independência e pela dignidade do cidadão encontra justificação na moral fiscal eu digo: então o Estado que seja moral primeiro. O Estado que comece por pagar a tempo e horas, o Estado que comece a receber o IVA com base no recibo, o Estado que deixe de roubar o contribuinte com essa artimanha de feirante que é o pagamento por conta, o Estado que receba as queixas do contribuinte sem pedir garantias bancárias, o Estado que não penhore e venda à mais baixa licitação os bens de que tomou posse por erro burocrático, o Estado que não cobre juros superiores aos praticados pela banca, o Estado que não me leve 42% do rendimento, o Estado que tenha respeito pelo dinheiro que me tributa brutalmente e que não o gaste com devaneios, incompetências de bê-à-bá, banquetes oferecidos a assassinos e déspotas, subsídios para párias, blindagens nas limusinas, submarinos, estudos e contra-estudos para se fazer tudo mal na mesma, consultores para isto, para aquilo e por tudo e por nada, ordenados de funcionários públicos que não têm o que fazer, ordenados para amigos que precisam de ordenados; o Estado que ganhe consciência ética para além da ética do Estado cigano, do Estado manhoso, do Estado interesseiro, do Estado invejoso, do Estado voraz, do Estado corruptela da democracia, do Estado adversário da economia, do Estado fascista, mentiroso, disfuncional, do Estado carregado de filhos da puta e bandidos da pior espécie. O Estado que ganhe vergonha e deixe de ser o Estado que quer controlar tudo, ver tudo, normalizar tudo, o Estado que quer tomar conta, que quer possuir, nacionalizar, apropriar; o Estado que quer ser dono de tudo e de todos.
quinta-feira, abril 16, 2009
Droga Dura.

Lamento, mas não estou para ninguém. No entretanto, fica um bom conselho: se puderem, viciem-se nisto.
sexta-feira, abril 03, 2009
REMIXVILLE | Track#18
Quanto mais anos somo, mas aprecio o pop paleolítico do Rei da Grande Popa. O homem tinha talento e só foi pena ter nascido tão bonitinho. Em honra do meloso Elvis, cabe nesta rubrica Paul Oakenfoald e a sua eléctrica versão de Rubberneckin'. Se estão sentados numa cadeira confortável, levantem-se agora.
Anti-Telejornal | Desfolhada
Corpo de linho
lábios de mosto
meu corpo lindo
meu fogo posto.
Eira de milho
luar de Agosto
quem faz um filho
fá-lo por gosto.
É milho-rei
milho vermelho
cravo de carne
bago de amor
filho de um rei
que sendo velho
volta a nascer
quando há calor.
Minha palavra dita à luz do sol nascente
meu madrigal de madrugada
amor amor amor amor amor presente
em cada espiga desfolhada.
Minha raiz de pinho verde
meu céu azul tocando a serra
oh minha água e minha sede
oh mar ao sul da minha terra.
É trigo loiro
é além tejo
o meu país
neste momento
o sol o queima
o vento o beija
seara louca em movimento.
Minha palavra dita à luz do sol nascente
meu madrigal de madrugada
amor amor amor amor amor presente
em cada espiga desfolhada.
Olhos de amêndoa
cisterna escura
onde se alpendra
a desventura.
Moira escondida
moira encantada
lenda perdida
lenda encontrada.
Oh minha terra
minha aventura
casca de noz
desamparada.
Oh minha terra
minha lonjura
por mim perdida
por mim achada.
Ary dos Santos
lábios de mosto
meu corpo lindo
meu fogo posto.
Eira de milho
luar de Agosto
quem faz um filho
fá-lo por gosto.
É milho-rei
milho vermelho
cravo de carne
bago de amor
filho de um rei
que sendo velho
volta a nascer
quando há calor.
Minha palavra dita à luz do sol nascente
meu madrigal de madrugada
amor amor amor amor amor presente
em cada espiga desfolhada.
Minha raiz de pinho verde
meu céu azul tocando a serra
oh minha água e minha sede
oh mar ao sul da minha terra.
É trigo loiro
é além tejo
o meu país
neste momento
o sol o queima
o vento o beija
seara louca em movimento.
Minha palavra dita à luz do sol nascente
meu madrigal de madrugada
amor amor amor amor amor presente
em cada espiga desfolhada.
Olhos de amêndoa
cisterna escura
onde se alpendra
a desventura.
Moira escondida
moira encantada
lenda perdida
lenda encontrada.
Oh minha terra
minha aventura
casca de noz
desamparada.
Oh minha terra
minha lonjura
por mim perdida
por mim achada.
Ary dos Santos
quinta-feira, abril 02, 2009
Sobre a Raiz Quádrupla do Princípio da Razão Suficiente

Jackson Pollock - Number 8, 1949 (detail)
"Viver é sofrer"
Arthur Schopenhauer
Viver é difícil, isto é verdade. A mim, nunca ninguém me disse que ia ser fácil, e mesmo assim acho que é difícil. Mesmo assim acho que não estava preparado para isto. Entrei para a vida como um jogador de ping pong entra numa partida de rugbi: empurrado, contrariado, assustado e andorinha tonta, sem saber para que lado é que vai a Primavera, de tanta lambada na tromba que chove por todo o lado.
Viver é difícil. Se calhar, morrer é mais fácil. Mas a facilidade eterna também deve ser muito complicada de aturar. De qualquer das maneiras, não tenho culpa de ter nascido, pelo que me parece uma boa ideia não ser culpado da minha morte. Assim, sempre me salvo de uma e de outra, o que não é nada fácil.
Viver é difícil, sim, a mais das vezes. A vida só é fácil para aqueles poucos que nasceram com o rabo virado para a lua ou casaram com a filha do patrão (que por acaso até é jeitosinha) ou não perceberam realmente nada de Schopenhauer. O tipo que nasceu com o rabo virado para a lua, casou com a filha do patrão (que por acaso até é jeitosinha) e não percebeu coisa alguma de Schopenhauer deve ser o gajo mais feliz do mundo. Mas, pensando bem, mesmo este sujeito deve ter dificuldades com a metafísica: se ergue templo à lua, vem o sogro chamar-lhe ingrato. Se diviniza a esposa amada, há-de Schopenhauer saltar da campa com a sua Arte de Lidar com as Mulheres em punho, pronto para lhe dar com ela umas cacetadas valentes. Se deifica a incompreensão da fenomenologia pós-kantiana, há-de ter muitas velas para acender. E não como aquelas de interruptor que agora vemos nas igrejas: viver é mais difícil e implica o uso de fósforos.
Sim é verdade, existir dói à brava e é muito complicado passar pelos espinhos das horas e os gumes dos dias sem fazer ferida. Pois é. Mas é a vida. E como não há certezas sobre o que havia antes e o que haverá depois se é que alguma coisa houve antes e haverá depois, o melhor é aguentá-la. Sempre é preferível habitar um apartamento projectado por Dante que passar os dias a tentar adivinhar as assoalhadas de uma moradia desenhada por Pollock, não acham?
Uma obra-prima do meu amigo Márcio Candoso.
Tentativa para pôr o caixão do Cesariny a virar ao contrário
Jazz sem baquetas tate
Samba nalgas fancaria
Lojas chinesas
As fraldas
Mortas
As melancolias
Salvé tortas pandemias
Cum grano salis defeca
Mel de macas associa
Às portas de um sonho tê
E depois, dás-me o quê?
Só noras, san-sin vigentes
Ciosas pústulas reflectas
Despistóides flurrangentes
Métalas onde se acaba
Amobira de rangentes
Palavra que tenho em falta
Só minha de plus tentantes
Ao cabo firme subsiste
Renta dos roios ausente
Uma sola substante
Só miro calcuntes frenes
Onde se afaga a maré
E ao pé, darás o quê?
Lunca trefisa herói
Em parte dada Pristina
Quando me tafo Hamurabi
Longe me perco em pó
Dó de mim, um só-li-dó
Rota de ré, faz de conta
Cage-me bem por enquanto
Sucinta-me em ió-ió
Refraseando um protótipo
Escanto-me na tirada
Final é só marinada
Estépula solicanto
E agora, vês o quê?
Rómula emarta as delfinhas
Eu só portenho Caifás
Defendótimo humanos
Mortos não tenho em cartaz
Lembro molta, lembro paz
Mostro mesmo insegurança
Às vezes conto criança
Que me afaga em desperada
Sou mijem, em deposta alfinha
Catro em famíusa escolheita
Dolha, dolha, que avizinha
A musca em xavier defrança
E ao final? Mostras lembranças?
Jazz sem baquetas tate
Samba nalgas fancaria
Lojas chinesas
As fraldas
Mortas
As melancolias
Salvé tortas pandemias
Cum grano salis defeca
Mel de macas associa
Às portas de um sonho tê
E depois, dás-me o quê?
Só noras, san-sin vigentes
Ciosas pústulas reflectas
Despistóides flurrangentes
Métalas onde se acaba
Amobira de rangentes
Palavra que tenho em falta
Só minha de plus tentantes
Ao cabo firme subsiste
Renta dos roios ausente
Uma sola substante
Só miro calcuntes frenes
Onde se afaga a maré
E ao pé, darás o quê?
Lunca trefisa herói
Em parte dada Pristina
Quando me tafo Hamurabi
Longe me perco em pó
Dó de mim, um só-li-dó
Rota de ré, faz de conta
Cage-me bem por enquanto
Sucinta-me em ió-ió
Refraseando um protótipo
Escanto-me na tirada
Final é só marinada
Estépula solicanto
E agora, vês o quê?
Rómula emarta as delfinhas
Eu só portenho Caifás
Defendótimo humanos
Mortos não tenho em cartaz
Lembro molta, lembro paz
Mostro mesmo insegurança
Às vezes conto criança
Que me afaga em desperada
Sou mijem, em deposta alfinha
Catro em famíusa escolheita
Dolha, dolha, que avizinha
A musca em xavier defrança
E ao final? Mostras lembranças?
domingo, março 22, 2009
A Obra ao Negro num instantinho.
I Don't Want To Get Over You
I don't wanna get over you
I guess I could take a sleeping pill
And sleep at will, and not have to go through what I go through
I guess I could take Prozac, right
And just smile all night at somebody new
Somebody not too bright
But sweet and kind
Who would try to get you off my mind
I could leave this agony behind
Which is just what I'd do, if I wanted to
But I don't wanna get over you
Cause I don't wanna get over love
I could listen to my therapist
Pretend you don't exist
And not have to dream of what I dream of
I could listen to all my friends
And go out again, and pretend it's enough
Or I could make a career of being blue
I could dress in black and read Camus
Smoke clove cigarettes and drink vermouth
Like I was 17, that would be a scream
But I don't wanna get over you
Magnetic Fields | 69 Love Songs
Às compras, no supermercado da moral.
O homem é a sua circunstância.
Ortega Y Gasset | El Hombre y la gente | 1956
Não podemos afirmar a inocência de ninguém, ao passo que podemos afirmar com segurança a culpabilidade de todos.
Albert Camus | O Estado de Sítio | 1954
Religião, moral e filosofia são formas de decadência. O movimento contrário é a arte.
Nietzsche | Além do Bem e do Mal, Prelúdio a uma Filosofia do Futuro | 1886
Ninguém pode ser perfeitamente livre até que todos sejam livres; ninguém pode ser perfeitamente moral até que todos sejam morais, ninguém pode ser perfeitamente feliz até que todos sejam felizes. Herbert Spencer | O Indivíduo Contra o Estado | 1884
Que importa, realmente, onde e por quem o teu sexo se arrebita?
Marco António | Carta a César Octávio Augusto | 41 A.C.
Ortega Y Gasset | El Hombre y la gente | 1956
Não podemos afirmar a inocência de ninguém, ao passo que podemos afirmar com segurança a culpabilidade de todos.
Albert Camus | O Estado de Sítio | 1954
Religião, moral e filosofia são formas de decadência. O movimento contrário é a arte.
Nietzsche | Além do Bem e do Mal, Prelúdio a uma Filosofia do Futuro | 1886
Ninguém pode ser perfeitamente livre até que todos sejam livres; ninguém pode ser perfeitamente moral até que todos sejam morais, ninguém pode ser perfeitamente feliz até que todos sejam felizes. Herbert Spencer | O Indivíduo Contra o Estado | 1884
Que importa, realmente, onde e por quem o teu sexo se arrebita?
Marco António | Carta a César Octávio Augusto | 41 A.C.
sábado, março 21, 2009
Anti-Telejornal | Elogio da Primavera
Quando vier a primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na primavera passada.
A realidade não precisa de mim.
Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.
Se soubesse que amanhã morria
E a primavera era depois de amanhã,
Morreria contente; porque ela era depois de amanhã.
Alberto Caeiro
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na primavera passada.
A realidade não precisa de mim.
Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.
Se soubesse que amanhã morria
E a primavera era depois de amanhã,
Morreria contente; porque ela era depois de amanhã.
Alberto Caeiro
sexta-feira, março 20, 2009
Rádio, Televisão e Propaganda.
Estou à vontadinha: toda a gente que me conhece ou que conhece este blog, mesmo que vagamente, sabe bem que não hei-de morrer de simpatias por um sindicalista. Concedo até que tenho alguma consideração pela pessoa do Doutor Carvalho da Silva, mas nenhuma pelo seu ideário. Acontece que hoje à noite tive a infelicidade de assistir a uns minutos da entrevista com que a dra. Judite de Sousa decidiu espancar o seu entrevistado e fiquei enojado. Subitamente, ao fim de 35 anos de Terceira República, vem a senhora dra. a descobrir a velha intimidade entre a CGTP e o Partido Comunista Português, para se escandalizar com isso. Para acusar deveras o Doutor Carvalho da Silva das mais viciosas dependências partidárias. Caramba, é preciso mesmo um Primeiro-Ministro poderoso para fazer a RTP virar à direita, por uma vez na sua triste existência. Nunca tinha visto um dirigente sindical ser tão maltratado em directo, por um jornalista da miserável televisão pública. De cada vez que o líder da CGTP desce a Avenida da Liberdade com mais umas centenas de milhar de almas, arrisca-se que se farta. Este nosso Primeiro é implacável e não leva escrúpulos para a guerra: aparece logo na RTP a dizer que o ofendem os populares com ditos e a Central Sindical com feitos. Que a Central Sindical é manipulada pelos partidos à esquerda do P.S., que está tudo embrulhado na grande e negra conspiração contra a sua inocente, impoluta, infalível e ilustre pessoa. Dito isto, e porque um inimigo do engº José Sócrates é um inimigo da RTP, salta a Dra. Judite de Sousa em follow on à indignação sumo-pontífice do grande chefe de S. Bento, que lhe paga o ordenado. No convite da Redacção ao dirigente sindical, lia-se certamente: Caro Doutor Carvalho da Silva, faça o obséquio de se dirigir aos estúdios da RTP para um ajuste de contas com o poder instituído. É verdadeiramente espantoso que o homem tenha aceite o repto.
E eu contribui, através do Ministério das Finanças, com qualquer coisa para a produção e emissão deste nojo. E tu também, gentil leitor.
A propósito: ninguém aplica umas quantas bengaladas no dr. Augusto Santos Silva? Eu daqui não lhe consigo chegar três ou quatro. E ele está mesmo a pedi-las, senhores!
E eu contribui, através do Ministério das Finanças, com qualquer coisa para a produção e emissão deste nojo. E tu também, gentil leitor.
A propósito: ninguém aplica umas quantas bengaladas no dr. Augusto Santos Silva? Eu daqui não lhe consigo chegar três ou quatro. E ele está mesmo a pedi-las, senhores!
quinta-feira, março 19, 2009
REMIXVILLE | Track#17
Brad Mehldau interpreta ao piano o tema Paranoid Android, dos RadioHead (outra vez estes!). Agora digam lá que o rock não tem a dignidade de um qualquer Chopin. Digam lá, vá, se são capazes.
Anti-Telejornal | Elogio do suicídio.
Se te queres matar, porque não te queres matar?
Ah, aproveita! que eu, que tanto amo a morte e a vida,
Se ousasse matar-me, também me mataria...
Ah, se ousares, ousa!
De que te serve o quadro sucessivo das imagens externas
A que chamamos o mundo?
A cinematografia das horas representadas
Por actores de convenções e poses determinadas,
O circo polícromo do nosso dinamismo sem fim?
De que te serve o teu mundo interior que desconheces?
Talvez, matando-te, o conheças finalmente...
Talvez, acabando, comeces...
E de qualquer forma, se te cansa seres,
Ah, cansa-te nobremente,
E não cantes, como eu, a vida por bebedeira,
Não saúdes como eu a morte em literatura!
Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente!
Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém...
Sem ti correrá tudo sem ti.
Talvez seja pior para outros existires que matares-te...
Talvez peses mais durando, que deixando de durar...
A mágoa dos outros?... Tens remorso adiantado
De que te chorem?
Descansa: pouco te chorarão...
O impulso vital apaga as lágrimas pouco a pouco,
Quando não são de coisas nossas,
Quando são do que acontece aos outros, sobretudo a morte,
Porque é a coisa depois da qual nada acontece aos outros...
Primeiro é a angústia, a surpresa da vinda
Do mistério e da falta da tua vida falada...
Depois o horror do caixão visível e material,
E os homens de preto que exercem a profissão de estar ali.
Depois a família a velar, inconsolável e contando anedotas,
Lamentando a pena de teres morrido,
E tu mera causa ocasional daquela carpidação,
Tu verdadeiramente morto, muito mais morto que calculas...
Muito mais morto aqui que calculas,
Mesmo que estejas muito mais vivo além...
Depois a trágica retirada para o jazigo ou a cova,
E depois o princípio da morte da tua memória.
Há primeiro em todos um alívio
Da tragédia um pouco maçadora de teres morrido...
Depois a conversa aligeira-se quotidianamente,
E a vida de todos os dias retoma o seu dia...
Depois, lentamente esqueceste.
Só és lembrado em duas datas, aniversariamente:
Quando faz anos que nasceste, quando faz anos que morreste;
Mais nada, mais nada, absolutamente mais nada.
Duas vezes no ano pensam em ti.
Duas vezes no ano suspiram por ti os que te amaram,
E uma ou outra vez suspiram se por acaso se fala em ti.
Encara-te a frio, e encara a frio o que somos...
Se queres matar-te, mata-te...
Não tenhas escrúpulos morais, receios de inteligência!...
Que escrúpulos ou receios tem a mecânica da vida?
Que escrúpulos químicos tem o impulso que gera
As seivas, e a circulação do sangue, e o amor?
Que memória dos outros tem o ritmo alegre da vida?
Ah, pobre vaidade de carne e osso chamada homem.
Não vês que não tens importância absolutamente nenhuma?
És importante para ti, porque é a ti que te sentes.
És tudo para ti, porque para ti és o universo,
E o próprio universo e os outros
Satélites da tua subjectividade objectiva.
És importante para ti porque só tu és importante para ti.
E se és assim, ó mito, não serão os outros assim?
Tens, como Hamlet, o pavor do desconhecido?
Mas o que é conhecido? O que é que tu conheces,
Para que chames desconhecido a qualquer coisa em especial?
Tens, como Falstaff, o amor gorduroso da vida?
Se assim a amas materialmente, ama-a ainda mais materialmente:
Torna-te parte carnal da terra e das coisas!
Dispersa-te, sistema físico-químico
De células nocturnamente conscientes
Pela nocturna consciência da inconsciência dos corpos,
Pelo grande cobertor não-cobrindo-nada das aparências,
Pela relva e a erva da proliferação dos seres,
Pela névoa atómica das coisas,
Pelas paredes turbilhonantes
Do vácuo dinâmico do mundo...
Álvaro de Campos
Ah, aproveita! que eu, que tanto amo a morte e a vida,
Se ousasse matar-me, também me mataria...
Ah, se ousares, ousa!
De que te serve o quadro sucessivo das imagens externas
A que chamamos o mundo?
A cinematografia das horas representadas
Por actores de convenções e poses determinadas,
O circo polícromo do nosso dinamismo sem fim?
De que te serve o teu mundo interior que desconheces?
Talvez, matando-te, o conheças finalmente...
Talvez, acabando, comeces...
E de qualquer forma, se te cansa seres,
Ah, cansa-te nobremente,
E não cantes, como eu, a vida por bebedeira,
Não saúdes como eu a morte em literatura!
Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente!
Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém...
Sem ti correrá tudo sem ti.
Talvez seja pior para outros existires que matares-te...
Talvez peses mais durando, que deixando de durar...
A mágoa dos outros?... Tens remorso adiantado
De que te chorem?
Descansa: pouco te chorarão...
O impulso vital apaga as lágrimas pouco a pouco,
Quando não são de coisas nossas,
Quando são do que acontece aos outros, sobretudo a morte,
Porque é a coisa depois da qual nada acontece aos outros...
Primeiro é a angústia, a surpresa da vinda
Do mistério e da falta da tua vida falada...
Depois o horror do caixão visível e material,
E os homens de preto que exercem a profissão de estar ali.
Depois a família a velar, inconsolável e contando anedotas,
Lamentando a pena de teres morrido,
E tu mera causa ocasional daquela carpidação,
Tu verdadeiramente morto, muito mais morto que calculas...
Muito mais morto aqui que calculas,
Mesmo que estejas muito mais vivo além...
Depois a trágica retirada para o jazigo ou a cova,
E depois o princípio da morte da tua memória.
Há primeiro em todos um alívio
Da tragédia um pouco maçadora de teres morrido...
Depois a conversa aligeira-se quotidianamente,
E a vida de todos os dias retoma o seu dia...
Depois, lentamente esqueceste.
Só és lembrado em duas datas, aniversariamente:
Quando faz anos que nasceste, quando faz anos que morreste;
Mais nada, mais nada, absolutamente mais nada.
Duas vezes no ano pensam em ti.
Duas vezes no ano suspiram por ti os que te amaram,
E uma ou outra vez suspiram se por acaso se fala em ti.
Encara-te a frio, e encara a frio o que somos...
Se queres matar-te, mata-te...
Não tenhas escrúpulos morais, receios de inteligência!...
Que escrúpulos ou receios tem a mecânica da vida?
Que escrúpulos químicos tem o impulso que gera
As seivas, e a circulação do sangue, e o amor?
Que memória dos outros tem o ritmo alegre da vida?
Ah, pobre vaidade de carne e osso chamada homem.
Não vês que não tens importância absolutamente nenhuma?
És importante para ti, porque é a ti que te sentes.
És tudo para ti, porque para ti és o universo,
E o próprio universo e os outros
Satélites da tua subjectividade objectiva.
És importante para ti porque só tu és importante para ti.
E se és assim, ó mito, não serão os outros assim?
Tens, como Hamlet, o pavor do desconhecido?
Mas o que é conhecido? O que é que tu conheces,
Para que chames desconhecido a qualquer coisa em especial?
Tens, como Falstaff, o amor gorduroso da vida?
Se assim a amas materialmente, ama-a ainda mais materialmente:
Torna-te parte carnal da terra e das coisas!
Dispersa-te, sistema físico-químico
De células nocturnamente conscientes
Pela nocturna consciência da inconsciência dos corpos,
Pelo grande cobertor não-cobrindo-nada das aparências,
Pela relva e a erva da proliferação dos seres,
Pela névoa atómica das coisas,
Pelas paredes turbilhonantes
Do vácuo dinâmico do mundo...
Álvaro de Campos
domingo, março 15, 2009
sábado, março 14, 2009
Quando for grande quero ser:
Ignição e zum, sem protocolos nem contagem decrescente. Zum, escapo-me pela estratosfera e estou no campo sideral, adeus Sol que rumo à Lua e agora vejo já para além de Marte marcial e ultrapasso o gasoduto de Júpiter e estou fora do sistema solar e zum deixo para trás a Via Láctea e entretanto esquivo-me de um buraco zum negro e vou a toda a velocidade zum, rumo ao princípio do tempo. Cheguei. Entro no bar e está Deus todo prazenteiro e muito bem acompanhado por um jarro romano que crepita de sangria de champanhe. Zum, bebedeira. Zum, Deus diz que vai vomitar e nunca mais aparece. Ignição e zum.
quinta-feira, março 12, 2009
Pacheco Pereira Rules.
Já há uns tempos que não ia de visita ao blog do José Pacheco Pereira, o que não tem muita desculpa, porque o Abrupto é um blog iniciático (junto com outro que parece ter entretanto falecido) e sempre notável. Cheguei lá hoje e dei com um post que é realmente de eleição. Este aqui.
O homem é mestre e o resto é conversa.
O homem é mestre e o resto é conversa.
quarta-feira, março 11, 2009
O crime compensa.
Vem a força Aérea Portuguesa toda empertigada de cavalarias, na escolta de Sua Corsária Excelência. No aeroporto está o protocolo aperaltado, com fardas novas e cortesias imensas, salamaleques e bandeirinhas, na expectativa ansiosa da chegada de S. Majestade Trucidária. Estende-se uma passadeira de exuberante e imaculado vermelho para que caminhe S. Eminência Esclavagista sempre em primeira classe. Recebe-se S. Senhoria Infame com pompa e circunstância e banquete de arrebentar com o orçamento. O Presidente desta República deseja que S. Alteza Tirânica se sinta em casa e daí o luxo asiático. A expensas do contribuinte, entrega-se o ouro ao bandido, com discursos solenes e negociatas de kasbah. Sejam bem vindos, canalhas! Comprem as nossas empresas, os nossos jornais, as editoras também e, se possível, fiquem com a EDP, por favor, que a Galp já é praticamente vossa. Lavem aqui o vosso dinheirinho ensanguentado, as vossas fortunas incalculáveis e calculadas sobre a miséria absoluta de todo um povo. Gastem aqui as riquezas do vosso país violentado. Redimam em Portugal o vosso trajecto de salteadores e senhores da guerra que agora são banqueiros. Venham camaradas, estejam à vontade: temos um país para vender.
REMIXVILLE | Track#16
Entra em cena o falecido senhor Frank Albert Sinatra, muito provavelmente, o mais notável trovador da história da humanidade. A versão é a do original Moon River de Johnny Mercer e Henry Mancini, interpretado por Audrey Hepburn no filme Breakfast at Tiffany's.
Mas eu cá tenho esta opinião que a música foi escrita para que o Old Blue Eyes a cantasse um dia. Senhoras e senhores, eis a América, o Mississipi e um bocadinho de Mark Twain, numa cantiga só.
Moon River, wider than a mile,
I'm crossing you in style some day.
Oh, dream maker, you heart breaker,
wherever you're going I'm going your way.
Two drifters off to see the world.
There's such a lot of world to see.
We're after the same rainbow's end,
waiting 'round the bend,
my huckleberry friend,
Moon River and me.
Johnny Mercer - 1961
Mas eu cá tenho esta opinião que a música foi escrita para que o Old Blue Eyes a cantasse um dia. Senhoras e senhores, eis a América, o Mississipi e um bocadinho de Mark Twain, numa cantiga só.
Moon River, wider than a mile,
I'm crossing you in style some day.
Oh, dream maker, you heart breaker,
wherever you're going I'm going your way.
Two drifters off to see the world.
There's such a lot of world to see.
We're after the same rainbow's end,
waiting 'round the bend,
my huckleberry friend,
Moon River and me.
Johnny Mercer - 1961
O insondável destino do Bolinha (novos epísódios).
Cada vez vale mais a pena visitar estes amigos aqui.
segunda-feira, março 09, 2009
Gare do Meio da Vida.
Pergunto-me: seria possível ter sido um homem decente? Seria possível ter feito as coisas de outra maneira, em vez desta maneira? Pergunto-me, chegado a esta estação: seria possível ter chegado a outra estação? Pergunto-me: seria possível ter feito outra vida? Ter seguido outro destino? Ter outra bagagem em vez desta bagagem que carrego com dificuldade? Seria possível ser outra pessoa? Ter comprado bilhete para outra viagem? Se a certo passo, me tivesse decidido por outra linha, que não a linha em que transitei rumo àquilo que sou hoje, seria o tipo recomendável que não sou agora? O Paixão fiável e sereno em vez do Hasse instável e ansioso? Pergunto-me: fiz tudo mal? Sim, pergunto-me: seria possível fazer melhor?
domingo, março 08, 2009
Dia Internacional da Mulher de Esquerda.
Deus sabe que eu adoro as mulheres. Que as respeito e admiro e venero. Todos os que me conhecem podem testemunhar isto e mais: acho até que o mundo seria melhor mundo se fossemos governados exclusivamente por elas. Mulheres ao poder, completamente.
Agora esta coisa do Dia Mundial da Mulher é que me levanta logo os nervos.
Levanta-me os nervos porque é paternalista à brava e as mulheres parecem não se aperceber disso.
Levanta-me os nervos porque é uma coisa muito típica da esquerda europeia, que ainda cheira a soutiens queimados e ao divã de Freud e à impotência de Sartre e da sua querida companheira Simone cujo sonho moscovita deu no que deu: na Bulgária socialista, por exemplo, as mulheres trabalhavam nos caminhos de ferro como os homens, na construção civil como os homens, nos esgotos como os homens, no exército como os homens e como os homens eram escravas e como os homens eram torturadas. Mas não tinham pensos higiénicos. O socialismo igualitário não admitia necessidades específicas.
Levanta-me os nervos por coisas pequenas como encontrar na página do Google que comemora o dia, uma lista muito bem feitinha de biografias de grandes mulheres. Por grandes mulheres leia-se ícones de um imaginário progressista-leninista-feminista que me deixa logo mal disposto. Felizmente, tenho a presença de espírito para saber que aquilo não é uma amostra decente, caso contrário dava rapidamente em paneleiro.
É curioso, mas o Dia mundial da Mulher não comemora a maternidade ou a família. Não comemora a ternura, a sensibilidade, a responsabilidade, a beleza, a inteligência, a graça das mulheres. O Dia Mundial da Mulher comemora uma merda de um ideário político.
Assim sendo, honro hoje aqui no blog a dama de ferro, Margaret Thatcher, a mais influente, corajosa, esclarecida e poderosa mulher do século XX. Que não estava, claro, na lista biográfica do Google. E que não precisa de estar. O seu lugar na história é cativo e não são os adolescentes que criam os conteúdos da World Wide Web que vão mudar isso, por muito que se esforcem.
E minhas queridas: o Dia Mundial da Mulher não é quando um homem quiser. E é realmente todos os dias, porque sois vós o primeiro fundamento da civilização. Porque sois vós a primeira razão da ontologia. Não queiram ser como os homens, por favor. Continuem a ser mulheres, continuem a ser femininas. Teimem na vossa diferença.
sábado, março 07, 2009
Gran Torino

Podes ser um velho patife, podes ser um jovem imbecil. Podes ser amargo e solitário, podes ser a vítima ou o assassino. Podes ser um sobrevivente, ou podes ter tido sorte, simplesmente. Podes vir das colinas do Laos ou das planícies do Midwest. Podes emigrar e podes imigrar. Podes roubar automóveis ou consertar máquinas de lavar roupa. Podes ser intolerante, podes ser liberal, podes ser virgem como um padre sincero ou podes ser promíscuo como um paneleiro sem marido. Podes ser violada, podes ser humilhado, podes ter ganho a guerra ou perdido a batalha, podes ter morto 13 coreanos ou mais. Podes cuspir sangue, podes ir confessar-te. Podes odiar os teus netos e amaldiçoar os teus filhos, podes viver com valentia e teres vergonha disso e podes ser um cobarde sem remorsos. Podes ter tuberculose e podes ter saudades. Podes ser o que tu quiseres, na vida, porque é a forma como morres que te define.
quinta-feira, março 05, 2009
Tudo para todos.
Aqui e agora o cérebro humano a dividir por dois e a História de Portugal para crianças e adultos. O Carocha transporta um ideal da física quântica e há um chupa-chupa com 50 anos, um sofá com celulite, um telemóvel que sai na estação do Areeiro e um sinal de stop que é uma dor de cabeça. A arte de ir ao teatro, na Roma antiga, e os novos gadgets da Babilónia moderna. Poltergeists, portais, utopias e melodias para o infinito e ainda: a prova que Deus não é Eric Clapton. Tudo isto e muito mais no D.Blog dos tempos que correm. Não perca.
quarta-feira, março 04, 2009
Cruz na Porta da Tabacaria.
Já não sou bem-vindo a Elsinore.
Já não caminho para lá, à procura dela,
da minha amiga antiga que fechou a janela
e deixou o mundo todo triste.
O sorriso dos pássaros na verdade resiste,
mas Elsinore morreu, perdeu-se no espaço;
E este é o velório que lhe faço.
Já não caminho para lá, à procura dela,
da minha amiga antiga que fechou a janela
e deixou o mundo todo triste.
O sorriso dos pássaros na verdade resiste,
mas Elsinore morreu, perdeu-se no espaço;
E este é o velório que lhe faço.
terça-feira, março 03, 2009
REMIXVILLE | Track#15
A primeira aparição dos Nouvelle Vague nesta rubrica tem que se lhe diga. Nada mais nada menos que um cover do original dos Dead Kennedys - "Too Drunk to Fuck". A versão conta com uma interpretação verdadeiramente inspirada da Dona Camille, a vocalista, e faz boa comédia da situação prosaica de se estar excessivamente bêbado para a competência que o libido sempre exige. Uma malha, mesmo.
I, Claudius.
Drusus - You made the army's life bloody hell.
Tiberius - I marched them hard and I droved them hard but I was fair! I bet they say that I was fair!
Drusus - Do you know what they really say about you?
Tiberius - What?
Drusus - They say that your drills were bloodless battles and your battles were bloody drills.
Excerto do Episódio 1.
Tiberius - I marched them hard and I droved them hard but I was fair! I bet they say that I was fair!
Drusus - Do you know what they really say about you?
Tiberius - What?
Drusus - They say that your drills were bloodless battles and your battles were bloody drills.
Excerto do Episódio 1.
quarta-feira, fevereiro 25, 2009
O léxico da crueldade.

William Hogarth | The South Sea Bubble - an Allegory.
Hoje não estou num dia bom. Estou zangado com o mundo. Estou zangado comigo. Hoje, abri um email que me alertava para o desaparecimento de uma criança. Chama-se Raquel, tem 12 anos. É muito bonita. E desapareceu. Vivia em Benfica e tem um olhar meigo, que se vê claramente na foto que recebi, junto com um texto de fazer chorar. Quis desligar o computador e sair à rua para ir à procura dela. Ir à procura da Raquel e encontrá-la e entregá-la aos pais e não por causa da Raquel desaparecida e não por causa do desespero dos seus pais, mas por minha causa. Para poder dizer um dia: fiz isto. Encontrei a menina desaparecida. Salvei-a para me salvar. Salvei-a para justificar o facto de estar vivo.
É claro que não fui à procura dela, é claro que me deixei estar no meu conforto revoltado de pária, abrindo emails e cumprindo pequenas tarefas e desenhando assimetricamente o meu mesquinho e sorumbático trajecto de macaco circense.
Hoje não estou num dia bom. E o universo inteiro cai sobre mim com acusações de todo o género. Aceito-as, resignado, e abandono-me, como fazia o outro, à pena que tenho de mim.
O alfabeto da crueldade.

William Hogarth | The Rake's Progress. Plate 4. Arested For Debt As Going to Court
A crueldade é constitutiva do universo, é o preço a pagar pela grande solidariedade da biosfera, é ineliminável da vida humana. Nascemos na crueldade do mundo e da vida, a que acrescentámos a crueldade do ser humano e a crueldade da sociedade humana. Os recém-nascidos nascem com gritos de dor. Os animais dotados de sistemas nervosos sofrem, talvez os vegetais também, mas foram os humanos que adquiriram as maiores aptidões para o sofrimento ao adquirirem as maiores aptidões para a fruição. A crueldade do mundo é sentida mais vivamente e mais violentamente pelas criaturas de carne, alma e espírito, que podem sofrer ao mesmo tempo com o sofrimento carnal, com o sofrimento da alma e com o sofrimento do espírito, e que, pelo espírito, podem conceber a crueldade do mundo e horrorizar-se com ela.
Edgar Morin, in 'Os Meus Demónios'
Comunicado urgente contra o desperdício.
O que se reconhece como urgente é antes de mais nada o não se ter pressa; parar-se um pouco, a fim de alguma calma e sossego se colher. E assim, entre as diversas visões desta Paz em que apodrece o Mundo, chegarmos a acordo quanto à mais metafísica e desenganada delas - a saber, que este Mundo, quanto mais depressa anda, mais revela a sua condição de Estado.
Agustín García Calvo
Agustín García Calvo
terça-feira, fevereiro 24, 2009
REMIXVILLE | Track#14
Marvin Gaye, um mestre. E não preciso de dizer nada mais para além do que canta Anita Lane. Quem é que nunca sentiu realmente isto?
segunda-feira, fevereiro 23, 2009
Carnavalada (replay)
Chega à cidade no Inverno o circo do Inferno.
Solta-se de rompante um fantasismo aberrante
sobre a mágoa deste falecimento eterno:
é a dor de viver que está na máscara do ser,
é o horror que nos guarda a vida restante.
Deuses! que ódio visceral ao Carnaval.
Em Veneza, corre a certeza da morte: um corso
há-de para sempre ser feliz como um funeral
com palhaços dóricos e carros alegóricos
de baixo orçamento, indigentes sem remorso.
As mulatas mostram vivas as carnes lascivas,
nádegas ao léu no ritmo plebeu do Rio de Janeiro
ou - com arrepios de espinha - as divas
de mãozinhas a acenar, desfilam em Ovar
um plágio barato do festival brasileiro.
Deuses! que depressão perante o folião
vestidinho de mulher e com bigode e tudo.
(Toda a gente lhe acha um piadão
menos eu, que me encolho e recolho
para morrer de vergonha no entrudo).
Solta-se de rompante um fantasismo aberrante
sobre a mágoa deste falecimento eterno:
é a dor de viver que está na máscara do ser,
é o horror que nos guarda a vida restante.
Deuses! que ódio visceral ao Carnaval.
Em Veneza, corre a certeza da morte: um corso
há-de para sempre ser feliz como um funeral
com palhaços dóricos e carros alegóricos
de baixo orçamento, indigentes sem remorso.
As mulatas mostram vivas as carnes lascivas,
nádegas ao léu no ritmo plebeu do Rio de Janeiro
ou - com arrepios de espinha - as divas
de mãozinhas a acenar, desfilam em Ovar
um plágio barato do festival brasileiro.
Deuses! que depressão perante o folião
vestidinho de mulher e com bigode e tudo.
(Toda a gente lhe acha um piadão
menos eu, que me encolho e recolho
para morrer de vergonha no entrudo).
terça-feira, fevereiro 17, 2009
Porrada que ferve.
O mais popular concurso de fotojornalimo à superfície do terceiro calhau a contar do sol, faz-me rir. O júri deve ser certamente constituído por um clã de masoquitas fanáticos porque não há imagem premiada que não venha com uns excelentes salpicos de sangue. O retrato do mundo segundo o World Press Photo é uma coisa que transcende em largo a imaginação de Dante Alighieri, o que não é dizer pouco. Excluindo as imagens da categoria desporto, não há uma puta de uma foto inspiradora. Um momento de esperança. Um cenário de paz. Uma história de amor. É sangue e sofrimento e morte e caos por todo o lado. Qual é o gozo? Qual é a novidade? Qual é a mensagem? E é assim tão moral ganhar prémios à custa do sofrimento alheio? Agora a sério, se isto é fotografia de excelência, eu cá prefiro o Calendário Pirelli.
Coisas do Estado Novo.
No livro de suas memórias, conta o bom Professor Adriano Moreira que, tendo morrido um familiar homónimo ao director adjunto da PIDE, muitos se apressaram, equivocados, para o velório de Sua Autoridade Majestática. Quando o inspector entra, vivinho da silva, na câmara ardente do seu tio, a estupefacção é geral, sendo desfeito o mal entendido entre protestos do cardeal e alívio da plateia. O problema sobrou para aqueles que decidiram não comparecer ao velório, calculando talvez que o cadáver de S. Exa. não iria fazer registo de últimos respeitos. Conta o Professor que estes, na presença futura do pide, não se coibiam de lhe protestar suas desculpas, justificando a desconsideração:
- V. Exa. perdoará a minha ausência no seu velório. Estava caída de cama a senhora minha mulher, e bem vê que fiquei obrigado ao cuidado das crianças.
O medo é uma ilha rodeada de lama humana por todos os lados.
- V. Exa. perdoará a minha ausência no seu velório. Estava caída de cama a senhora minha mulher, e bem vê que fiquei obrigado ao cuidado das crianças.
O medo é uma ilha rodeada de lama humana por todos os lados.
sexta-feira, fevereiro 13, 2009
A Carta da Corcunda para o Serralheiro.
Não estou com grande disponibilidade para o blog, neste momento, o que é uma feliz notícia, porque nada do que eu pudesse postar se pode comparar ao texto que vai ficar aqui durante uns dias.
No seu universo de espelhos, Fernando Pessoa criou um personagem feminino. Chamou-lhe Maria José e em seu nome escreveu um único texto: esta carta, elemento iniciático da literatura portuguesa. É extensa, mas é de longe a coisa mais bonita que podem encontrar neste blog, pelo que os dez minutos aqui investidos, creio eu, não serão em vão.
“Senhor António:
O senhor nunca há de ver esta carta, nem eu a hei de ver segunda vez porque estou tuberculosa, mas eu quero escrever-lhe ainda que o senhor o não saiba, porque se não escrevo abafo.
O senhor não sabe quem eu sou, isto é, sabe mas não sabe a valer. Tem-me visto à janela quando o senhor passa para a oficina e eu olho para si, porque o espero a chegar, e sei a hora que o senhor chega. Deve sempre ter pensado sem importância na corcunda do primeiro andar da casa amarela, mas eu não penso senão em si. Sei que o senhor tem uma amante, que é aquela rapariga loura alta e bonita; eu tenho inveja dela mas não tenho ciúmes de si porque não tenho direito a ter nada, nem mesmo ciúmes. Eu gosto de si porque gosto de si, e tenho pena de não ser outra mulher, com outro corpo e outro feitio, e poder ir à rua e falar consigo ainda que o senhor me não desse razão de nada, mas eu estimava conhecê-lo de falar.
O senhor é tudo quanto me tem valido na minha doença e eu estou-lhe agradecida sem que o senhor o saiba. Eu nunca poderia ter ninguém que gostasse de mim como se gostasse das pessoas que têm o corpo de que se pode gostar, mas eu tenho o direito de gostar sem que gostem de mim, e também tenho o direito de chorar, que não se negue a ninguém.
Eu gostava de morrer depois de lhe falar a primeira vez mas nunca terei coragem nem maneiras de lhe falar. Gostava que o senhor soubesse que eu gostava muito de si, mas tenho medo que se o senhor soubesse não se importasse nada, e eu tenho pena já de saber que isso é absolutamente certo antes de saber qualquer coisa, que eu mesmo não vou procurar saber.
Eu sou corcunda desde a nascença e sempre riram de mim. Dizem que todas as corcundas são más, mas eu nunca quis mal a ninguém. Além disso sou doente, e nunca tive alma, por causa da doença, para ter grandes raivas. Tenho dezanove anos e nunca sei para que é que cheguei a ter tanta idade, e doente, e sem ninguém que tivesse pena de mim a não ser por eu ser corcunda, que é o menos, porque é a alma que me dói, e não o corpo, pois a corcunda não faz dor.
Eu até gostava de saber como é a sua vida com a sua amiga, porque como é uma vida que eu nunca posso ter — e agora menos que nem vida tenho — gostava de saber tudo.
Desculpe escrever-lhe tanto sem o conhecer, mas o senhor não vai ler isso, e mesmo que lesse nem sabia que era consigo e não ligava importância em qualquer caso, mas gostaria que pensasse que é triste ser marreca e viver sempre só à janela, e ter mãe e irmãs que gostam da gente mas sem ninguém que goste de nós, porque tudo isso é natural e é a família, e o que faltava é que nem isso houvesse para uma boneca com os ossos às avessas como eu sou, como eu já ouvi dizer.
Houve um dia que o senhor vinha para a oficina e um gato se pegou à pancada com um cão aqui defronte da janela, e todos estivemos a ver, e o senhor parou, ao pé do Manuel das Barbas, na esquina do barbeiro, e depois olhou para mim, para a janela, e viu-me a rir e riu também para mim, e essa foi a única vez que o senhor esteve a sós comigo, por assim dizer, que isso nunca poderia eu esperar.
Tantas vezes, o senhor não imagina, andei à espera que houvesse outra coisa qualquer na rua quando o senhor passasse e eu pudesse outra vez ver o senhor a ver e talvez olhasse para mim e eu pudesse olhar para si e ver os seus olhos a direito para os meus.
Mas eu não consigo nada do que quero, nasci já assim, e até tenho que estar em cima de um estrado para poder estar à altura da janela. Passo todo o dia a ver ilustrações e revistas de modas que emprestam à minha mãe, e estou sempre a pensar noutra coisa, tanto que quando me perguntam como era aquela saia ou quem é que estava no retrato onde está a Rainha de Inglaterra, eu às vezes me envergonho de não saber, porque estive a ver coisas que não podem ser e que eu não posso deixar que me entrem na cabeça e me dêem alegria para eu depois ainda por cima ter vontade de chorar.
Depois todos me desculpam, e acham que sou tonta, mas não me julgam parva, porque ninguém julga isso, e eu chego a não ter pena da desculpa, porque assim não tenho que explicar porque é que estive distraída.
Ainda me lembro daquele dia que o senhor passou aqui ao Domingo com o fato azul claro. Não era azul claro, mas era uma sarja muito clara para o azul escuro que costuma ser. O senhor ia que parecia o próprio dia que estava lindo e eu nunca tive tanta inveja de toda a gente como nesse dia. Mas não tive inveja da sua amiga, a não ser que o senhor não fosse ter com ela mas com outra qualquer, porque eu não pensei senão em si, e foi por isso que invejei toda a gente, o que não percebo mas o certo é que é verdade.
Não é por ser corcunda que estou aqui sempre à janela, mas é que ainda por cima tenho uma espécie de reumatismo nas pernas e não me posso mexer, e assim estou como se fosse paralítica, o que é uma maçada para todos cá em casa e eu sinto ter que ser toda a gente a aturar-me e a ter que me aceitar que o senhor não imagina. Eu às vezes dá-me um desespero como se me pudesse atirar da janela abaixo, mas eu que figura teria a cair da janela? Até quem me visse cair ria e a janela é tão baixa que eu nem morreria, mas era ainda mais maçada para os outros, e estou a ver-me na rua como uma macaca, com as pernas à vela e a corcunda a sair pela blusa e toda a gente a querer ter pena mas a ter nojo ao mesmo tempo ou a rir se calhasse, porque a gente é como é e não como tinha vontade de ser.
(…)
- e enfim porque lhe estou eu a escrever se lhe não vou mandar esta carta?
O senhor que anda de um lado para o outro não sabe qual é o peso de a gente não ser ninguém. Eu estou à janela todo o dia e vejo toda a gente passar de um lado para o outro e ter um modo de vida e gozar e falar a esta e àquela, e parece que sou um vaso com uma planta murcha que ficou aqui à janela por tirar de lá.
O senhor não pode imaginar, porque é bonito e tem saúde o que é a gente ter nascido e não ser gente, e ver nos jornais o que as pessoas fazem, e uns são ministros e andam de um lado para o outro a visitar todas as terras, e outros estão na vida da sociedade e casam e têm baptizados e estão doentes e fazem-lhe operações os mesmos médicos, e outros partem para as suas casas aqui e ali, e outros roubam e outros queixam-se, e uns fazem grandes crimes e há artigos assinados por outros e retratos e anúncios com os nomes dos homens que vão comprar as modas ao estrangeiro, e tudo isto o senhor não imagina o que é para quem é um trapo como eu que ficou no parapeito da janela de limpar o sinal redondo dos vasos quando a pintura é fresca por causa da água.
Se o senhor soubesse isto tudo era capaz de vez em quando me dizer adeus da rua, e eu gostava de se lhe poder pedir isso, porque o senhor não imagina, eu talvez não vivesse mais, que pouco é o que tenho de viver, mas eu ia mais feliz lá para onde se vai se soubesse que o senhor me dava os bons dias por acaso.
A Margarida costureira diz que lhe falou uma vez, que lhe falou torto porque o senhor se meteu com ela na rua aqui ao lado, e essa vez é que eu senti inveja a valer, eu confesso porque não lhe quero mentir, senti inveja porque meter-se alguém connosco é a gente ser mulher, e eu não mulher nem homem, porque ninguém acha que eu sou nada a não ser uma espécie de gente que está para aqui a encher o vão da janela e a aborrecer tudo que me vêm, valha me Deus.
O António (é o mesmo nome que o seu, mas que diferença!) o António da oficina de automóveis disse uma vez a meu pai que toda a gente deve produzir qualquer coisa, que sem isso não há direito a viver, que quem não trabalha não come e não há direito a haver quem não trabalhe. E eu pensei que faço eu no mundo, que não faço nada senão estar à janela com toda a gente a mexer-se de um lado para o outro, sem ser paralítica, e tendo maneira de encontrar as pessoas de quem gosta, e depois poderia produzir à vontade o que fosse preciso porque tinha gosto para isso.
Adeus senhor António, eu não tenho senão dias de vida e escrevo esta carta só para a guardar no peito como se fosse uma carta que o senhor me escrevesse em vez de eu a escrever a si. Eu desejo que o senhor tenha todas as felicidades que possa desejar e que nunca saiba de mim para não rir porque eu sei que não posso esperar mais.
Eu amo o senhor com toda a minha alma e toda a minha vida.
Aí tem e estou a chorar.
Maria José
No seu universo de espelhos, Fernando Pessoa criou um personagem feminino. Chamou-lhe Maria José e em seu nome escreveu um único texto: esta carta, elemento iniciático da literatura portuguesa. É extensa, mas é de longe a coisa mais bonita que podem encontrar neste blog, pelo que os dez minutos aqui investidos, creio eu, não serão em vão.
“Senhor António:
O senhor nunca há de ver esta carta, nem eu a hei de ver segunda vez porque estou tuberculosa, mas eu quero escrever-lhe ainda que o senhor o não saiba, porque se não escrevo abafo.
O senhor não sabe quem eu sou, isto é, sabe mas não sabe a valer. Tem-me visto à janela quando o senhor passa para a oficina e eu olho para si, porque o espero a chegar, e sei a hora que o senhor chega. Deve sempre ter pensado sem importância na corcunda do primeiro andar da casa amarela, mas eu não penso senão em si. Sei que o senhor tem uma amante, que é aquela rapariga loura alta e bonita; eu tenho inveja dela mas não tenho ciúmes de si porque não tenho direito a ter nada, nem mesmo ciúmes. Eu gosto de si porque gosto de si, e tenho pena de não ser outra mulher, com outro corpo e outro feitio, e poder ir à rua e falar consigo ainda que o senhor me não desse razão de nada, mas eu estimava conhecê-lo de falar.
O senhor é tudo quanto me tem valido na minha doença e eu estou-lhe agradecida sem que o senhor o saiba. Eu nunca poderia ter ninguém que gostasse de mim como se gostasse das pessoas que têm o corpo de que se pode gostar, mas eu tenho o direito de gostar sem que gostem de mim, e também tenho o direito de chorar, que não se negue a ninguém.
Eu gostava de morrer depois de lhe falar a primeira vez mas nunca terei coragem nem maneiras de lhe falar. Gostava que o senhor soubesse que eu gostava muito de si, mas tenho medo que se o senhor soubesse não se importasse nada, e eu tenho pena já de saber que isso é absolutamente certo antes de saber qualquer coisa, que eu mesmo não vou procurar saber.
Eu sou corcunda desde a nascença e sempre riram de mim. Dizem que todas as corcundas são más, mas eu nunca quis mal a ninguém. Além disso sou doente, e nunca tive alma, por causa da doença, para ter grandes raivas. Tenho dezanove anos e nunca sei para que é que cheguei a ter tanta idade, e doente, e sem ninguém que tivesse pena de mim a não ser por eu ser corcunda, que é o menos, porque é a alma que me dói, e não o corpo, pois a corcunda não faz dor.
Eu até gostava de saber como é a sua vida com a sua amiga, porque como é uma vida que eu nunca posso ter — e agora menos que nem vida tenho — gostava de saber tudo.
Desculpe escrever-lhe tanto sem o conhecer, mas o senhor não vai ler isso, e mesmo que lesse nem sabia que era consigo e não ligava importância em qualquer caso, mas gostaria que pensasse que é triste ser marreca e viver sempre só à janela, e ter mãe e irmãs que gostam da gente mas sem ninguém que goste de nós, porque tudo isso é natural e é a família, e o que faltava é que nem isso houvesse para uma boneca com os ossos às avessas como eu sou, como eu já ouvi dizer.
Houve um dia que o senhor vinha para a oficina e um gato se pegou à pancada com um cão aqui defronte da janela, e todos estivemos a ver, e o senhor parou, ao pé do Manuel das Barbas, na esquina do barbeiro, e depois olhou para mim, para a janela, e viu-me a rir e riu também para mim, e essa foi a única vez que o senhor esteve a sós comigo, por assim dizer, que isso nunca poderia eu esperar.
Tantas vezes, o senhor não imagina, andei à espera que houvesse outra coisa qualquer na rua quando o senhor passasse e eu pudesse outra vez ver o senhor a ver e talvez olhasse para mim e eu pudesse olhar para si e ver os seus olhos a direito para os meus.
Mas eu não consigo nada do que quero, nasci já assim, e até tenho que estar em cima de um estrado para poder estar à altura da janela. Passo todo o dia a ver ilustrações e revistas de modas que emprestam à minha mãe, e estou sempre a pensar noutra coisa, tanto que quando me perguntam como era aquela saia ou quem é que estava no retrato onde está a Rainha de Inglaterra, eu às vezes me envergonho de não saber, porque estive a ver coisas que não podem ser e que eu não posso deixar que me entrem na cabeça e me dêem alegria para eu depois ainda por cima ter vontade de chorar.
Depois todos me desculpam, e acham que sou tonta, mas não me julgam parva, porque ninguém julga isso, e eu chego a não ter pena da desculpa, porque assim não tenho que explicar porque é que estive distraída.
Ainda me lembro daquele dia que o senhor passou aqui ao Domingo com o fato azul claro. Não era azul claro, mas era uma sarja muito clara para o azul escuro que costuma ser. O senhor ia que parecia o próprio dia que estava lindo e eu nunca tive tanta inveja de toda a gente como nesse dia. Mas não tive inveja da sua amiga, a não ser que o senhor não fosse ter com ela mas com outra qualquer, porque eu não pensei senão em si, e foi por isso que invejei toda a gente, o que não percebo mas o certo é que é verdade.
Não é por ser corcunda que estou aqui sempre à janela, mas é que ainda por cima tenho uma espécie de reumatismo nas pernas e não me posso mexer, e assim estou como se fosse paralítica, o que é uma maçada para todos cá em casa e eu sinto ter que ser toda a gente a aturar-me e a ter que me aceitar que o senhor não imagina. Eu às vezes dá-me um desespero como se me pudesse atirar da janela abaixo, mas eu que figura teria a cair da janela? Até quem me visse cair ria e a janela é tão baixa que eu nem morreria, mas era ainda mais maçada para os outros, e estou a ver-me na rua como uma macaca, com as pernas à vela e a corcunda a sair pela blusa e toda a gente a querer ter pena mas a ter nojo ao mesmo tempo ou a rir se calhasse, porque a gente é como é e não como tinha vontade de ser.
(…)
- e enfim porque lhe estou eu a escrever se lhe não vou mandar esta carta?
O senhor que anda de um lado para o outro não sabe qual é o peso de a gente não ser ninguém. Eu estou à janela todo o dia e vejo toda a gente passar de um lado para o outro e ter um modo de vida e gozar e falar a esta e àquela, e parece que sou um vaso com uma planta murcha que ficou aqui à janela por tirar de lá.
O senhor não pode imaginar, porque é bonito e tem saúde o que é a gente ter nascido e não ser gente, e ver nos jornais o que as pessoas fazem, e uns são ministros e andam de um lado para o outro a visitar todas as terras, e outros estão na vida da sociedade e casam e têm baptizados e estão doentes e fazem-lhe operações os mesmos médicos, e outros partem para as suas casas aqui e ali, e outros roubam e outros queixam-se, e uns fazem grandes crimes e há artigos assinados por outros e retratos e anúncios com os nomes dos homens que vão comprar as modas ao estrangeiro, e tudo isto o senhor não imagina o que é para quem é um trapo como eu que ficou no parapeito da janela de limpar o sinal redondo dos vasos quando a pintura é fresca por causa da água.
Se o senhor soubesse isto tudo era capaz de vez em quando me dizer adeus da rua, e eu gostava de se lhe poder pedir isso, porque o senhor não imagina, eu talvez não vivesse mais, que pouco é o que tenho de viver, mas eu ia mais feliz lá para onde se vai se soubesse que o senhor me dava os bons dias por acaso.
A Margarida costureira diz que lhe falou uma vez, que lhe falou torto porque o senhor se meteu com ela na rua aqui ao lado, e essa vez é que eu senti inveja a valer, eu confesso porque não lhe quero mentir, senti inveja porque meter-se alguém connosco é a gente ser mulher, e eu não mulher nem homem, porque ninguém acha que eu sou nada a não ser uma espécie de gente que está para aqui a encher o vão da janela e a aborrecer tudo que me vêm, valha me Deus.
O António (é o mesmo nome que o seu, mas que diferença!) o António da oficina de automóveis disse uma vez a meu pai que toda a gente deve produzir qualquer coisa, que sem isso não há direito a viver, que quem não trabalha não come e não há direito a haver quem não trabalhe. E eu pensei que faço eu no mundo, que não faço nada senão estar à janela com toda a gente a mexer-se de um lado para o outro, sem ser paralítica, e tendo maneira de encontrar as pessoas de quem gosta, e depois poderia produzir à vontade o que fosse preciso porque tinha gosto para isso.
Adeus senhor António, eu não tenho senão dias de vida e escrevo esta carta só para a guardar no peito como se fosse uma carta que o senhor me escrevesse em vez de eu a escrever a si. Eu desejo que o senhor tenha todas as felicidades que possa desejar e que nunca saiba de mim para não rir porque eu sei que não posso esperar mais.
Eu amo o senhor com toda a minha alma e toda a minha vida.
Aí tem e estou a chorar.
Maria José
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