terça-feira, setembro 10, 2019

Elogio da solidão.

Desde criança que sempre apreciei a solidão. Convivo bem com ela porque sei, sempre soube, que faz parte grande e importante da vida. É a solidão que me permite escrever, trabalhar, pensar. É quando estou só que o meu raciocínio se aprofunda, que a análise que faço de mim e dos outros é mais certeira. Sou uma pessoa de companhia, claro. Gosto da componente social e conservo, apesar de tudo, muitos e bons amigos com quem adoro estar. Com quem adoro conversar, beber uns copos, desabafar, rir, confessar ridículos e partilhar glórias. Mas tenho a convicção sólida de que a saudável convivência social só é possível quando sabemos ficar a sós. Quando aproveitamos a solidão para um melhor entendimento do mundo. E para a superior exploração do nosso potencial. E pelos vistos, Alain de Botton e os senhores da notável The School of Life concordam comigo. Pelos vistos, na minha opinião sobre a solidão, não estou sozinho:


Bandeiras erradas.

Em Hong Kong, os manifestantes erguem a bandeira americana, como uma tocha libertária. Em Boston, os militantes da Antifa queimam-na, como um símbolo do mal absoluto.
Manifestantes e militantes estão equivocados, claro. Uns deviam levantar a britânica Union Jack, que lhes ensinou a liberdade. Os outros deviam parar de queimar bandeiras, ponto. E dirigir essa energia antifascista contra as repúblicas que realmente expressam o mal absoluto. Dou ideias: República Popular da China, República Islâmica do Irão, República Bolivariana da Venezuela, República Árabe da Síria, República Popular Democrática da Coreia, República de Cuba, República da União de Myanmar, República Centro-Africana, República da Libéria, República Federal da Somália, e etc.

sábado, setembro 07, 2019

O triunfo de Cid.

Enquanto em Portugal não nos cansamos de promover a mediocridade profunda dos diversos Tonis Carreira que infectam a música popular, não deixa de ser irónico que os senhores da National Academy of Recording Arts and Sciences se tenham lembrado (a minha alma está parva) de atribuir a José Cid um mais que justo Grammy, que premeia a sua poderosíssima carreira como compositor, letrista, intérprete e impenitente romântico. Cid é, talvez a par de Zeca Afonso, o grande criativo da sua geração. E mantém ainda hoje, com a heroica idade de 77 anos, uma intensa actividade ao vivo, esgotando concerto sobre concerto nos mais diversos palcos.
Muito de vez em quando, neste mundo esquizofrénico, acontece algo que faz sentido. E celebrar o talento de José Cid faz todo o sentido.



José Cid . Morrer de Amor . 1981

Quando eu te conheci eras criança
Vivias no teu mundo de ilusão
E nem sequer sonhavas que poderias ser
A causa principal desta canção
 

Ah morrer de amor
É bem melhor do que viver a vida sem te ter
Ah morrer de amor
É bem melhor do que viver sem ti.
 

E o tempo foi passando lentamente
Mas não morri de amor, sobrevivi
Foi-me invadindo a alma uma tristeza imensa
Que ditou a canção que te escrevi
 

Ah morrer de amor
É bem melhor do que viver a vida sem te ter
A morrer de amor
É bem melhor do que viver sem ti.
 

Ah morrer de amor
É bem melhor do que viver a vida sem te ter
A morrer de amor
É bem melhor do que viver sem ti

domingo, setembro 01, 2019

Haikus da Baía #6


O discurso atónico de Jordan B. Peterson
cruza-se com os gritos assíncronos
das gaivotas.

Tudo converge numa sonata antiga.


_____


Os meus tímpanos conseguem discernir,
aqui e ali e ao longe,
o rotor de um ar condicionado,
o escape de uma motorizada,
o queixume de uma gaivota.

Mas aqui quem manda é o deus
do silêncio.


_____


A arte do haiku não está na sua
síntese,
mais do que reside na sua
permanência.


_____


Sermos todos filhos do mesmo
deus menor,
não nos faz iguais na nossa pequenez.


_____


Se um mero mortal sofre infernais labores
para apenas sobreviver,
imaginem a carga de trabalhos que é necessária
à imortalidade.


_____


O YouTube grita, grita,
mas não convence como a eloquência
deste fim de tarde.


_____


Chego à falésia
no feliz momento da retirada dos outros.

A idade é muito sábia.


_____
 

Sabes que tens um dia pacífico à tua frente
quando até a maré da manhã
faz silêncio.


_____


O haiku amanhece na minha cabeça
como um ataque de preguiça traz crepúsculos
aos meus ossos.


_____


Como seria ético
um universo sem moscas.


_____


Do outro lado da bússola,
o Atlântico protesta com furacões de grau cinco.

Deste lado, não.



 

Elogio do riff.

No meu modesto entender, a guitarra eléctrica é mais um instrumento de riff do que de solo. Para solar, há instrumentos mais prolixos e sensíveis, como o violino ou o piano ou a voz humana. Mas só a guitarra eléctrica consegue inventar acordes redundantes, extremamente poderosos, como estes aqui:



Chamo a atenção do gentil audiente para o facto de que este riff é de tal forma bem sucedido e eloquente que invalida a necessidade de um solo, numa música que em tudo o resto conserva inteirinha a tradicional arquitectura do rock. 

Idlewild . All These words

Comédia de culto.

Dave Chappelle, outra vez. Agora numa hilariante dissertação sobre o estranho caso de Jussie Smollett. E-s-p-e-c-t-a-c-u-l-a-r.


sábado, agosto 31, 2019

A verdade sobre os automóveis eléctricos.

Os governos, a imprensa e as próprias marcas continuam a mentir descaradamente, mas a verdade é que um automóvel eléctrico não é muito mais amigo do ambiente que um automóvel convencional. A diferença é quase nula, principalmente nos países que produzem electricidade a partir do carvão, como os Estados Unidos da América. Senão vejamos:

quarta-feira, agosto 28, 2019

Dave Chappele parte a loiça toda.

O inconformado - e corajoso - comediante Dave Chappelle tem um novo espectáculo a bombar na Netflix, Sticks & Stones, que é absolutamente demolidor, num momento da história em que é preciso ter muito cuidado com as palavras e é por isso que a comédia contemporânea é um cadáver absoluto. E é por isso que recomendo absolutamente a performance do homem. Se és de esquerda vais rir e vais sofrer. Se és de direita vais sofrer e vais rir. É bardoada, curta e grossa - e frequentemente hilariante - para todo o lado do espectro sócio-político. Vejam só este bocadinho, para abrir o apetite:



Um gajo indignado grita do balcão: "And what the fuck are you gonna do if Trump gets reelected?" 
Chappelle responde: "I'll probably get a significant tax break."

terça-feira, agosto 27, 2019

Em busca do tempo perdido (ainda e sempre).

Um pertinente e sossegado clip da School of Life, para acalmar os nervos e preparar as férias.


Haikus da Baía #5

A minha mulher passa tardes de tempo
entretida com um complicadíssimo jogo de gomas.
(Perante a complicação de um jogo de gomas ficas a saber
que nunca serás um intelectual).


______


 
Fim de tarde e a baía adormece,
mas as gaivotas ainda discutem.

O silêncio, paz de pássaros,
virá com a lua cheia.


______



A beleza de um parque de estacionamento
está na cara do condutor que encontrou
um lugar para estacionar.



______



A gaivota é um bicho stressado.
Até para as aves a vida é difícil.


______



O vento precisa da árvore para ter voz
e a árvore precisa do vento para ter vida.

A natureza não brinca em serviço.



______



A baía é um triunfo.
Todos os dias vence sobre o caos.


______



Quanto mais vezes testemunho o decaimento do sol,
melhor entendo a razão de Deus.


______



Sobre o valor do dinheiro estamos todos de acordo,
mas quanto vale em euros
esta tarde de Julho?


______



De tanto escrever haikus do alto da falésia,
fico com vertigens.





terça-feira, agosto 20, 2019

Novas harmonias vampirescas.

Os Vampire Weekend regressam com "Father of the Bride", um disco feito nitidamente à revelia do habitual registo da banda, mas que soa muitíssimo bem. Senão ouçamos:



Vampire Weekend . Harmony Hall

Serviço de Emergência.

A prova que a Teoria da Emergência, de que já falei aqui no blog, está a ganhar tracção na comunidade científica, é este vídeo da respeitável Quanta Magazine, que tenta, com algum sucesso, a difícil missão de sintetizar uma tese super complexa em 3 minutos e meio.


domingo, agosto 11, 2019

Completamente.

Jeremy Clarkson nunca se cansa de ser um herói dos antigos. E neste pequenino e brilhante manifesto está a demonstração de que nem toda a gente ensandeceu. Ainda há uns quantos sobreviventes que permanecem lúcidos. Mas até quando?


Punk Disco Funk Rock.

Idlewild. Estou só a começar a ouvir o último álbum destes rapazes, Interview Music, mas já vou bem lançado pela opinião deste meu amigo aqui e porque realmente, logo à primeira audição, isto começa a bombar por todos os lados. Há temas que parecem saídos de uma cave britânica em 1989 e há outros que soam a FM americano de 1992 e há outros que são pós-psicadélicos e depois, pop!, também há isto, para dançar:



A coisa promete.

Idlewild . There's a Place for Everything

quinta-feira, agosto 08, 2019

Cânones, variações e como entre Bach e Sibelius se encontra a felicidade.

Nahre Sol. Esta rapariga é um prodígio de talento e sensibilidade. E o canal dela no YouTube é um antídoto absolutamente proverbial para um Agosto meio deprimente. Neste clip admirável, percebemos melhor o pensamento matemático, multi-dimensional, de Bach e a arquitectura divina das Variações de Goldberg, talvez a mais genial composição da história da música. Mas percebemos também, e se calhar isto é mais importante, que a humanidade é uma espécie muito, mas mesmo muito especial. Capaz de coisas como as Variações, ou como a singela e lindíssima peça que, entre o modelo canónico de Bach e as harmonias de Sibelius, Nahre consegue criar no espaço de uma ou duas semanas.
Um vídeo contra o pessimismo.


Máximo susto.

Jos Verstappen, vencedor da categoria LMP2 das 24 horas de Le Mans em 2008 e piloto de Fórmula 1 entre 1994 e 2003, mete-se num Renault GT3 com o filho ao volante, para dar uma voltinha calma ao circuito de Spa-Francochamps.

A circunstância ocorre no ano de 2015, pelo que o condutor do veículo, o actual herói da F1 Max Verstappen, ainda nem sequer tem idade para possuir carta de condução.

Os olhares do pápá e do filhote dizem tudo sobre o que se passa a seguir. Enquanto Max parece calmo e focado, Jos, apesar de ter sido piloto profissional toda a vida, fica por várias vezes muito próximo de sucumbir à apoplexia da velocidade (na subida de Eau Rouge deve ter feito um xi-xi).

Depois da volta concluída, quando o automóvel se detém finalmente nas boxes, a curta conversa em holandês é qualquer coisa como isto:
Max asks: "And?"
Jos: "Not normal man, you did that deliberately didn't you?"
Max: "I went faster with mum on board."
Jos (not believing him): "Yeah, sure."

Ao sair de Francochamps, Jos Verstappen estava por certo completamente convencido que criou um monstro. E tem toda a razão. 

Três minutos entre a comicidade e a alucinação.

quarta-feira, agosto 07, 2019

E a propósito da pomba que chora,

uma grande canção do paleolítico inferior.



Prince . When Doves Cry

A graça limitada, a pomba que chora, o polegar dentro da lata de cerveja e a rapariga de cabelos atados à locomotiva, ou porque é que os mexicanos não chegam a astronautas.

Se é verdade que a máquina de Hollywood entrou em modo disfuncional, para não dizer patético, já há uns anos valentes, não é mentira nenhuma que a sensibilidade do espectador vai sendo, aqui e ali e ainda assim, salva pela indústria televisiva (na dimensão stream da palavra, claro).

Perpetual Grace LTD, a série da Epix criada por Seteven Conrad e Bruce Terris é um daqueles produtos cinemáticos que prima por um absoluto princípio de disrupção. A julgar pelos seis episódios que já vi desta primeira temporada, os personagens falam como nunca ouvimos outros personagens falar. O fio da história desenrola-se como nunca vimos outra história porfiar, as circunstâncias da narrativa são nunca vistas, os factos são de fé e a fé troca-se numa loja de penhores por um colar de pérolas. A obra é filmada e editada de uma forma estonteantemente inovadora e tudo nesta magnífica, estranha, hilariante e excruciante série parece configurar o princípio de uma nova - e convincentemente insana - maneira de fazer as coisas.

O elenco, chefiado por Jimmi Simpson e Sir Ben Kingsley (que no sexto episódio interpreta um cover fabuloso de "When doves Cry") e secundado por uma mão cheia de brihantes e quase desconhecidos actores deixa, qualitativamente, qualquer produção mainstream a distâncias astronómicas. Há, também aqui, um trabalho de direcção de actores que traz novas texturas aos rostos, novas cores aos diálogos e uma reinaugurada humanidade à cinematografia.

Se gostas de séries, gentil leitor, experimenta esta. Mas prepara-te. Vais estar perante algo que não é parecido com nada que até agora tenha atingido a alma da tua retina. À excepção, mal comparada, de Breaking Bad.

Boa sorte e boa viagem.



terça-feira, agosto 06, 2019

Hey Scott Adams, you're totally wrong about Western Civilization.

Scott Adams, o criador de Dilbert, é só o meu cartoonista preferido de todos os tempos. Nos últimos anos tem dividido o seu tempo entre as notáveis tiras e o comentário político, que eu sigo quotidianamente no YouTube (Real Coffee With Scott Adams). Geralmente, concordo com o que diz o homem, mas hoje cometeu uma argolada de todo o tamanho, que deveras me surpreendeu. A argolada é esta aqui (primeiros três minutos):



Scott Adams está evidentemente equivocado sobre a natureza e a propriedade da Civilização Ocidental. Procurando esclarecê-lo, deixei no post correspondente este comentário em baixo.

I'm a great fan of your coffee, dear Scott, but it seems, to my surprise, that in relation to Western Civilization you're the one who is really desinformed, man. 
To my knowledge, Plato was not an american, Jesus never dreamt with a hot dog and Kant never left Königsberg. And as it happens, these three extremely bright guys we're truly the founding fathers of our civilization. 
What you call Capitalism (in its modern sense) was in fact invented in the late stages of the medieval era (we in Europe call it the Commercial Revolution) and it was later enhanced by the protestant reformation, that allowed people to earn money and still expect to go to heaven (you should read Max Weber about this very important issue). 
The civil rights and liberties you now assume as an american product result directly from two typically british events: the Magna Carta (1215) and the Glorious Revolution (1640-1688). The French Revolution, which, despite the radicals, the heads off and the complete lunacy, was key to your own independence (your founding fathers freakin' loved it) and to the republican ideals you surely treasure, did not, obviously, take part in your beloved federation. 
As culture interacts in great extent with the concept of civilization, you must recognize that Homero, who invented literature as we now know it; Bach, who invented music as we now listen to it; and the guys from the Italian Renaissance, that defined beauty as we now appreciate it, were not american types. 
I could write an essay on your blatant error alone, but just think about this: where would the western civilization be (and what of the Pentagon) without Alexander the Great, Julius Caeser, Charlemagne, The Habsburgs, Admiral Nelson, Winston Churchill and all the non-american war lords (in the good sense of the word) that secured our ancient values and virtues by fiercely fighting barbarism, tiranny and corruption as well as extending the geography of the west? So, you see, just because you are reading this one book, it is perhaps a little premature to teach that the Western Civilization is all about America. Don't get me wrong: America is great. A great country. Probably the greatest country in History. But you will never walk alone. 

Thanks for the coffee.

Mais lenha para a fogueira americana.

Um fim de semana aterrador, nos Estados Unidos.

No sábado, um tresloucado radical de direita entrou num Walmart de El Paso, Texas, e começou a disparar indiscriminadamente. Matou 22 pessoas. Feriu 27.

No domingo, um tresloucado radical de esquerda cometeu a mesma atrocidade numa rua movimentada de Dayton, Ohio, matando 9 pessoas e ferindo 27.

Durante este fim de semana negro, foram registados 55 tiroteios entre gangs de Chicago, que resultaram em 7 mortos, incluindo uma criança de 5 anos, e dezenas de feridos. Este ano, mais de 1.600 pessoas foram feridas em tiroteios na grande metrópole de Illinois. 300 morreram.

Ainda neste fim-de-semana, a polícia de Baltimore reportou 17 horas seguidas de combate com armas de fogo. Mais de 200 pessoas já foram baleadas desde o início deste ano, nas ruas desta pobre e extremamente perigosa cidade americana.

Entretanto, jornalistas, políticos e pundits dos dois espectros ideológicos entretêm-se com acusações que oscilam entre o patético e o criminoso, colocando o discurso político americano num patamar de ruptura que assusta qualquer ser sensato. 

O problema é que a sensatez desapareceu há muito da sociedade americana. E o que aí vem pode ser inimaginável. Amanhã, Trump vai a El Paso. Os democratas do Texas, que responsabilizam directamente e à boca cheia o Presidente dos Estados Unidos da América pela atitude de um assassino tresloucado, já o avisaram que não é bem vindo e que não se responsabilizam pela sua segurança, como se isto fosse uma atitude legítima. Como se Trump não tivesse sido eleito com os votos, maioritários, do Estado do Texas, em 2016. A situação pode rapidamente descambar.

A América é, neste preciso momento, um desastre à espera de acontecer.

Bora-Bora do Norte Atlântico.

Passa ao largo um barco branco
de bombordo, perfil franco,
vibrante, brilhante flanco,
alba barca, marca nívea!
Passa com a majestade da idade
e a convicção da corveta,
a nau catrineta;
barco bravo, poeta e escravo
de motoreta!
Passa o bote claro, claro que romântico,
Bora-Bora do norte Atlântico,
bolina boa e alva bala, ala, ala!
Balsa bela que valsa na praça:
passa, passa!

Mais volts para acordar para a vida.

Rock de alta tensão. Ou um potencial substituto do café:



Catfish and the Bottlemen . Conversation

quinta-feira, julho 25, 2019

Haikus da Enseada

O estreito Ceixe contorce-se em curvas e contracurvas,
para se proteger do Atlântico.

O litoral é uma violência.

___


A prosa de Darwin
é a lírica de Deus.

___

O vento é o ar que corre rápido,
à procura da temperatura certa.

A enseada estremece, num vendaval termodinâmico.

___

A linha que estipula o sagrado divórcio entre os azuis do céu e do mar
é de uma exactidão artificial e perturbante.

O arquitecto esqueceu-se da régua, ali.

___

A virtude do poeta não está no poema
mas na sua impossibilidade.

___


Por muito que o homem se atreva com ela,
a máquina de Deus funciona que é uma maravilha.




Pela Estrada Fora #22

O segmento da N123 que liga Mértola a Castro Verde é um troço de estrada absolutamente monumental. O asfalto está impecável, a paisagem é de um minimalismo lindíssimo e o tráfego escasseia, porque Deus é grande. Arrisco, claro, o incoveniente de uma brigada da GNR. Mas que se lixe. Se não acelero aqui, acelero onde?






terça-feira, julho 23, 2019

O poema que se escreveu sozinho.

Junho passa frio sobre o calendário e o silêncio.
O poema escreve-se sozinho
quando te sentas desacompanhado numa vigia branca,
altaneira sobre a enseada.

Está tudo já redigido:
o desenho do rio é verso sábio e antigo;
as colinas erguem as suas rimas sagradas que vão fazer música
com as estrofes da maré atlântica.

As andorinhas riscam o céu claro com finas linhas negras
de impecável métrica alexandrina.
O gado pasta com a serena certeza da erva fresca
e a erva fresca, pastada, é um soneto eterno.

O dia ventoso zumbe uma canção de cavalaria
enquanto a aranha devora a vespa que lhe caiu na teia.

Tudo está bem.


Um sueco elogio da miniatura.

Não consigo explicar porque raio gosto tanto, mas tanto, de coisas reduzidas na escala. Principalmente de coisas que são essencialmente brinquedos. Fico em pasmo e ponto final.


segunda-feira, julho 15, 2019

A guitarra como tempestade eléctrica.



não é a primeira vez que os Catfish And The Bottlemen mantêm relações sexuais com os meus tímpanos (salvo seja!). Mas o disco deste ano, The Balance, é uma coisa tão poderosa que até assusta. Interpretando uma espécie vitaminada de rock tempestuoso e electrizante, estes rapazes, que deveras me fazem lembrar os já paleolíticos e para sempre magníficos Strokes,  conseguem transportar para o amplificador astronómicas e intensas quantidades de energia.
Vinte estrelas em cinco possíveis.

quinta-feira, julho 11, 2019

Boa sorte com esta ópera rock.

São doze minutos sagrados, para quem, alguma vez na vida, gostou de rock sinfónico.
Este Seteven Wilson mata-me completamente porque eu, que na excepção de Rush e de Marillion nunca gostei de rock sinfónico, acho isto pura e simplesmente sublime.
Devo informar os dois ou três malucos que vão mesmo ouvir a música até ao fim que vai valer a pena ser maluco, por uma vez.



Steven Wilson . Three Years Old . Wiltern Theater, Los Angeles

quarta-feira, julho 10, 2019

Da poesia enquanto escrita com os pés.




A maior parte dos benfiquistas teima em considerar que a profissão de Jonas Gonçalves Oliveira tem sido a de jogador de futebol, mas eu, por acaso, sempre achei que o homem ganhou a vida como poeta.

Enquanto teve a gentileza de ser o vate do meu clube, assinou 137 versos imortais, concluiu com sucesso 4 epopeias e deixou incontáveis estrofes de génio, no seu mítico caderno de 4 linhas.

Dos alexandrinos pés deste escrivão-mor saíram, com regularidade clássica e em quantidade vanguardista, apoteóticos manifestos líricos, conquistas de Troia, regressos a Ítaca, géneses de Roma, viagens marítimas a Calcutá, descidas ao inferno, visitas ao purgatório e elogios do paraíso. 

Ora, um poeta assim, capaz de produzir sonetos com os tornozelos, cantigas de amigo com os joelhos e elegias ao pontapé, nunca arruma as botas. Na verdade, as botas de Jonas vão ficar para sempre entretidas com os belos e intrincados tercetos do poema infinito a que costumamos chamar eternidade.

sábado, julho 06, 2019

Flightville #02 . Maldivas in the clear

Que o planeta Terra é lindo de morrer, parece que estamos todos de acordo. O que às vezes nos divide é a questão de ser mais ou menos lindo por causa da relação íntima que mantém com o Homo Sapiens. Pois eu acho que se não fosse essa relação cúmplice, não havia maneira - tecnológica ou sensível - de perceber o lindo que é este planeta.
As pessoas sortudas que conduzem aviões de 300 toneladas, com duzentas toneladas de carga lá dentro, para cá e para lá como se nada fosse e que comunicam loucamente através de uma linguagem fundada no Inglês mas codificada num alfanumérico indecifrável e belo como o Grego Clássico; estas pessoas fardadas e ligeiramente empertigadas e extremamente funcionais que convivem por profissão com as panorâmicas a que apenas os deuses deviam ter acesso, sabem bem do que estou a falar. Senão vejamos esta aproximação às Maldivas:

Anti-Telejornal: candidados democratas fazem campanha no México.

Primeiro os links porque sem os links ninguém vai acreditar no que vou escrever a seguir:

Booker on the Border: Cory Takes Campaign to Mexico, Assists Asylum Seekers

Beto’ O’Rourke Campaigns in Mexico

Sim, o ridículo Beto O'Rourke e o insuportável Cory Booker estão a a fazer campanha, na condição de candidatos à nomeação pelo partido Democrata americano para as eleições presidenciais de 2020, no México. Sim, no México. E porquê no México? Porque o Partido Democrata defende hoje em dia a abolição de fronteiras, na expectativa - justificada mas completamente manhosa - de que a imigração sem regras vai contribuir substancialmente para uma alteração definitiva no domínio demográfico e logo, eleitoral, da Federação, principalmente em estados de fronteira que são, não por acaso, historicamente conservadores, como o Texas, a Flórida, o Arizona, a Georgia e Alabama.
E assim se prova que a lógica dos democratas não é de raiz humanista. Trata-se ao invés e apenasmente da manifestação de uma vontade de poder. Uma totalitária vontade de poder.

sexta-feira, julho 05, 2019

Hand. Cannot. Erase.



Um hino.

Steven Wilson . Hand Cannot Erase.

Deus do Silêncio.

Cá em cima, na falésia falaz, consigo usar de alguma paz,
enquanto pescadores amadores, turistas banhistas e gaivotas,
que fazem barulho como motas
a voar,
gritam em uníssono alvoroço,
lá em baixo, no poço
da praia-mar.

Comandantes e capitães, veraneantes são mais que as mães;
toda a gente por atacado no quente e suado embrulho
que é o congestionado mês de julho;
ciclo do cio das gaivotas
que como motas
fazem barulho.

Cá em cima, fica mais corajoso o discreto deus silencioso,
que arma emboscadas sobre o ruído
como a mulher sobre o marido.
Mas lá em baixo no fosso,
crianças-gaivotas aceleram as motas
em uníssono alvoroço.







Flightville #01 . Leipzig in the dark

O voo BOX519 é um Boieng 777F que vem de Xangai e vai aterrar em Leipzig numa noite chuvosa, com condições de visibilidade um bocadinho assustadoras, de tal forma que o auto-piloto é desligado apenas uns poucos segundos antes da aterragem, quando a aeronave já se encontra a cerca de 90 metros do solo e as luzes da pista brilham finalmente sobre a escuridão e o vendaval alucinantes.

Há aqui uma cinematografia, entre a ficção científica e o horror, que me espanta os sentidos. Magnífica sequência, muito bem captada e editada pelos senhores da PilotsEye.tv.


quarta-feira, julho 03, 2019

Mais uma corrida alucinante.

WTCR em Nurburgring, no passado 21 de junho. Quem gosta de corridas de automóveis deve prestar atenção a estes três operáticos minutos:



Para fazer estas coisas, a esta velocidade, é preciso mais que técnica. É preciso ter as esferas no sítio certo. Para ser o último a tirar o pé é preciso aceitar o risco, e é nessa aceitação que reside toda a glória do automobilismo.

terça-feira, julho 02, 2019

Estou-me a passar com este fulano.

Steven Wilson, num disco de 2015 que é levado da breca: Hand. Cannot. Erase.
Às vezes parece Rush. Outras vezes parece Pink Floyd (!). E há momentos que me lembram Pearl Jam ou Alice in Chains ou assim qualquer coisa do género. Em cima disto, uma componente sinfónica que podia ter saído de um estúdio com os Marillion lá dentro. E as referências doidas nunca mais vão acabar de se cruzar, por isso o melhor é estar caladinho e deixar tocar o homem:


Assim é que devia ser sempre.

Verstappen parte muito mal e passa de segundo para sétimo em duas curvas. Ainda assim, ganha a corrida. Eis um Grande Prémio de Fórmula Um como deve ser:

domingo, junho 30, 2019

20 perguntas sem resposta.

Para acabar de vez com o mito da compatibilidade entre a civilização islâmica e a civilização ocidental, Paul Joseph Watson faz uma quantidade de perguntas de tal forma assertivas que ficam, inevitavelmente, sem resposta capaz, porque na verdade entre as duas civilizações há alguns séculos de diferença e contra essa distância não há correcções políticas e revisionismos históricos que sobrevivam.


sexta-feira, junho 28, 2019

Vídeo-Prozac.



Aparentemente, um homem transexual também pode engravidar, agora.

Ontem, no primeiro debate das primárias do Partido Democrata, o candidato Julián Castro, que, não por acaso, até foi secretário da administração Obama, afirmou que o Estado deve pagar abortos a  transexuais sem sistema reprodutivo. Caso engravidem, os homens que mudam de sexo devem poder aceder ao serviço público do aborto. A isto chama Castro, pomposamente, "justiça reprodutiva".
Não acreditam em mim, pois não? Então vejam aqui:



Vale a pena dizer a este imbecil que os homens não podem objectivamente ter filhos, por muito maricas que sejam? É claro que não. Ele vai apenas ignorar o facto e argumentar assim: as pessoas que não acreditam que os homens podem ter filhos são homofóbicas. São machistas. Racistas. Nazis.

Bom deus.

quinta-feira, junho 27, 2019

Um radar para a imortalidade.

Com 41 anos, Tom Brady, o melhor jogador de sempre da modalidade de combate a que os americanos chamam Futebol e por seis vezes vencedor do Superbowl, está a iniciar a preparação da vigésima época com lançamentos estratosféricos. No outro dia, a bola saiu-lhe das mãos a 61 milhas por hora (cerca de 100 kms/h). Para se ter uma ideia do teimoso poder deste braço, o único jogador da semana de recrutamento da NFL - o Combine - que lançou mais rápido que isto foi Josh Allen, mas com o radar a somar mais uma milha apenas. Ou seja, o veterano quarter back dos Patriots lança com mais vigor que a esmagadora maioria dos rookies da próxima época.

Tom Brady é um imortal. Essa é que é essa.

segunda-feira, junho 24, 2019

MicroFiar

O meu cliente mais antigo (FIAR) é o que me deixa fazer as campanhas mais giras. Não deve ser por acaso.
MicroFiar, no último fim de semana de Julho, em Palmela. Toda a gente sai à rua.



quinta-feira, junho 20, 2019

Pela Estrada Fora #21


Não sou propriamente um tipo viajado, pelo contrário, mas tenho a certeza religiosa que não há no planeta um lugar mais poético que Guerreiros do Rio. A aldeia propriamente dita tanto como os arredores ribeirinhos rebentam de versos imortais. Nem consigo explicar o que acontece comigo quando chego a este sítio. O Guadiana entra-me na corrente sanguínea como um opiáceo e fico completamente drogado, a olhar para a majestade lírica daquilo. Felicidade é parar cinco minutos neste apoteótico miradouro e ficar simplesmente a olhar para a majestade lírica daquilo.


E é pela EM 507, que liga a Foz de Odeleite a Alcoutim, que lá se chega. Uma estrada sinuosa e tecnicamente exigente, que se esforça sem total sucesso por perseguir o fluído curso navegável do Guadiana. Acelero um bocadinho, claro, mas aqui e ali há um ou outro buraco partidor de jantes e estou demasiado extasiado para me concentrar completamente na condução.

Não se houve mais que a carícia da água nos canaviais e o GTI a rosnar. Ninguém habita este bocadinho de paraíso. Não há turistas e os escassos nativos não se aborrecem pelas curvas que conhecem de cor. Estou sozinho no sonho, sozinho no mundo. No lugar mais poético da galáxia.


Portugal ainda tem muita estrada sem semáforos. Muitos quilómetros sem trânsito. Muito espaço para estacionar. Muitos caminhos para testar o modo Sport. Muito silêncio para rasgar com o barulho da combustão interna. Muita liberdade para tirar prazer da condução, da paisagem, da vida.

quarta-feira, junho 19, 2019

É mesmo caso para dizer: brutal.

Brutalism. É assim que se chama o último disco dos The Drums que, não sendo propriamente uns brutos, pelo contrário, têm por hábito feliz a criação de malhas que dão pancada a sério no frágil e incipiente mainstream contemporâneo. Conforme figura em anexo.



The Drums . Body Chemistry