quinta-feira, julho 13, 2006

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- FASCÍCULO DOIS -

Foi o caso que decidiu a Junta de Freguesia, por altura dos idos de Março, acordar o sempre lamentável torpor estético dos fregueses - somente os devidamente registados no último censo - reunindo-os para desfrutarem da exposição de pintura de naturezas mortas, organizada para prover a algumas carências da prendada autora, D. Hortense Luz, viúva, notável poetisa e espírita conceituada. Anunciado generoso beberete, arrancadas à naftalina fatiotas de uso para solenidades maiores, deslocaram-se as gentes para o serão cultural.
Segismundo d'Ávila figurava na ponderada lista de convivas, sendo que se lhe solicitara, com respeito, na sua qualidade de homem das artes, uma dissertação crítica final, quanto às capacidades de D. Hortense Luz na difícil representação da natureza morta, inspiração que vestia de magnífico luto dada a recente e dolorosa partida do notabilíssimo esposo, notário reformado, homem muito religioso e contribuinte assíduo para o seminário da diocese.
Considerou Segismundo que o convite tão dignificantemente posto pela cáfila de palermas da Junta não afectaria a sua indiferença por eventos daquela pequenez e, antes, lhe proporcionaria uma oportunidade para desnudar certas complexidades e dogmas da arte menor que antevia no horror do nabo morto, esparramado no barro de hilariantes arabescos, da murcha gardénia tristemente espartilhada em qualquer jarrão de plástico de feira e de outras obscenidades que sabia inevitáveis naqueles objectos de mansa estupidez.
Não lhe era indiferente a artista D. Hortense. Com efeito, havia-a lobrigado antes, empanturrando a trágica viuvez em cremes de chantili pelos lugares do costume, lubricamente embrulhada de negro curto, decote vasto, salto alto para sugestivo suporte da acentuada rabadilha e outras magnificências que surpreendentemente o haviam perturbado, que lhe tinham movido a gélida fleuma e penetrado a férrea armadura da sua impassibilidade.
Naquele dia, as vermelhuscas bochechas de José Fagundes, benquisto Presidente da Junta, sacudiam-se de gozo na recepção janota, aprimorado de cravo rubro na lapela, sensibilizado pelo transparente entusiasmo dos seus correligionários, congregados em notável euforia junto do bufete pungente de cor e acaramelados mimos, expressamente encomendados na Primorosa do Chiado. Acotovelavam-se os grupinhos, esfarrapavam-se os finos biscoitos e os celebrados queques de manteiga, olhavam-se compenetradamente as naturezas mortas a 2 euros o metro quadrado, entre múrmurios cautelosos e pálidos sorrisos. Saracoteava-se a festejada D. Hortense, dente aberto num sorriso escancarado, oferecendo queques e chá, movimentando as contundentes nádegas enquanto anotava, conscensiosamente, alguns metros quadrados de venda apalavrada.
Sempre colado à insigne criatura, o ex-seminarista Ruben Perdigoto - que fora, em tempos, do foro íntimo do notário tão dolorosamente arrancado à vida e era agora acólito do bom padre Tristão nas missas de Domingo - sorria, servil. Devotado às coisas da sacristia, presença abençoada, dizia-se, na preparação das sagradas coisas do culto de Deus, notório homossexual, gábiru de orgias inconfessáveis que não teriam merecido o consenso da rígida directoria do seminário; do qual, pela indecente figura, fora afastado; a Ruben Perdigoto interessava-lhe mais a comissão estabelecida com D. Hortense sobre a venda da arte que elogiava, recomendava e impunha aos mais cépticos.

(cont.)

terça-feira, julho 11, 2006

A bola pode continuar redonda.

Assim como está, o futebol adormece qualquer cocainómano. Na final de ontem, o Campeão do Mundo fez uma segunda parte de anedotário: os italianos não conseguiram simplesmente jogar a bola e este triste facto é bem ilustrativo de um Mundial que foi, como já tinha sido o anterior, consistentemente lamentável. A beleza do jogo - que se fundamenta essencialmente na espectacularidade plástica dos movimentos de ataque - foi subjugada por um realismo cínico, interesseiro e cobardolas que está rapidamente a aniquilar o objecto da maior paixão de massas dos últimos 60 anos. Parece-me assim que as iluminárias da FIFA devem considerar seriamente a prossecução de uma reforma profunda nas regras do jogo, libertando-o das mordaças tácticas e devolvendo-lhe a dignidade perdida.

Eis assim, uma humilde mas indignada contribuição para o think tank do sr. Blatter:


SETE FINTAS BLOGVILLE

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Finta 1 - Composição da Equipa - Uma equipa de futebol deve apresentar-se em campo com dez jogadores. Para já, porque é a única maneira de ter mais equipas a jogar só com um trinco, o que aumentará logo a qualidade do espectáculo. Depois, por aquilo que se ganha em espaço para jogar e em tempo para pensar o jogo.

Finta 2 - Tempo de jogo - A cronometragem da partida deve obedecer ao apito do árbitro. O cronómetro pára a contagem no momento em que o juíz interrompe um lance e recomeça-a quando o juíz manda jogar. Se a bola sai, o cronómetro pára. Se é golo, o cronómetro pára. Se um jogador está lesionado, o cronómetro pára.
Com duas partes de 30 minutos de tempo real de jogo já não havia cá fitas e fingimentos e merdas que só são uma grandessíssima vergonha. E os espectador, que pagou bilhete ou sporttv, sempre terá a certeza que vai de facto ver uma hora de jogo jogado.

Finta 3 - Disciplina - A lógica disciplinar dos cartões e das expulsões é - e sempre foi - desadequada. É desadequada porque se parte do princípio que o espectáculo sobrevive à expulsão dos seus artistas. É desadequada porque não pode ter em atenção o calor da disputa, o erro humano, a emoção e a carga de nervos. A frustração e o desespero. É desadequada porque é humilhante. Não me interessa nada que o trauliteiro italiano leve uma cabeçada (deve ter sido bem merecida), mas desagrada-me bastante a expulsão de Zidane, no último jogo da sua magnífica carreira de futebolista.
De qualquer forma, a redução proposta no item 1 implica também uma revisão nas leis disciplinares, de forma a não corrermos o risco de ter jogos a serem disputados por cinco ou seis gatos pingados para cada lado.
A solução encontrada no hóquei em gelo é porventura mais adequada, se for introduzida com os necessários ajustamentos: uma falta violenta ou três faltas consecutivas conduzem o jogador à "box" onde permanecerá cinco minutos, após os quais pode voltar à partida. Em caso de agressão, o jogador permanecerá na box durante dez minutos. Enquanto um jogador permanece na box a equipa não o pode substituir.
Esta solução permitirá a génese de uma nova dimensão no jogo, aquilo a que no hóquei em gelo se designa por "PowerPlay". As equipas em vantagem numérica têm sempre uma pressão acrescida para jogar ao ataque e marcam-se, naturalmente, mais golos nestas situações. Em vez de estigmatizar o jogador, assumimos o futebol como um desporto de contacto e, tirando partido da natural apetência do ser humaqno para a violência, enriquecemos a dinâmica do jogo e a qualidade do espectáculo.

Finta 4 - Reposição da bola em jogo - O lançamento da linha lateral tem que começar rapidamente a ser efectuado com os pés. Afinal, não é por causa das mãozinhas que o Ronaldinho Gaúcho é conhecido. E depois, a introdução da bola com um pontapé tornará inevitavelmente esta situação de jogo muito mais interessante para o avançado e bem mais desagradável para o defesa. Diminuiam os cortes para a bancada, aumentavam os centros perigosos para a área, subia a média de golos por jogo.

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Finta 5 - Dimensões do terreno e da baliza - Não faz sentido que um campo de jogo tenha medidas definidas entre 90 e 120 de comprimento e 45 e 90 de largura. As medidas devem ser fixadas sem intervalos. Como não concordo com o aumento das dimensões para além destes limites máximos (receio perder consistência de passe e homogenuidade de movimentos e as regras 1 e 3 também não o aconselham), proponho 80x110.
Acho porém que não faz mal nenhum aumentarmos as medidas das balizas, muito pelo contrário. Há no entanto que ter o cuidado de não desvalorizar o papel do Guarda-Redes, que é uma verdadeira pérola da geometria descritiva, uma quixotesca figura de novela-prima e substância essencial para um bom espectáculo de futebol (na figura 1 retirei a pequena área porque acho que o Guarda-Redes deve ser protegido em toda a sua zona de intervenção). As medidas que proponho estão na figura em cima, e resultam de aturados estudos estatísticos e análises de ergonomia (leia-se: 2 minutos de senso comum).

Finta 6 - Fora de Jogo - A regra do fora-de-jogo deve ser aplicada apenas nos últimos 30 metros de cada metade do terreno. Assim, facilitariamos as transições, promovendo partidas mais agressivas e mais rápidas, sem sacrificar a coerência estrutural do jogo.

Finta 7 - Arbitragem e tecnologia - O jogo deve ser arbitrado por uma equipa de 6 juízes, a saber: dois no campo (um para cada metade do terreno), dois fiscais de linha e dois assistentes fora das 4 linhas - um no campo, outro na Régie. Os árbitros estão telecomunicantes e - sempre que se justifique - o jogo pára para verificação do lance em vídeo, sendo perfeitamente possível concluir o procedimento em 30 segundos, um minuto no máximo.
Porque o ser humano não tem a capacidade ubíqua de registar visualmente dois campos de acção em simultâneo, a cibernética deve ser incorporada na determinação dos foras-de-jogo (chips no equipamento dos jogadores) e há de uma vez por todas que desenvolver um qualquer sistema de leitura óptica da linha de golo.


É claro que há muito mais fintas na minha cabeça. Mas não quero ser exaustivo e o princípio básico é o do título deste post: a bola deve continuar "redonda para os dois lados". O resto pode mudar. Diz-nos a experiência e a inteligência que é precisamente isso que se faz àquilo que está mal.
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sexta-feira, julho 07, 2006

Para variar, um post importante.

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Foi hoje lançado no Porto o livro "Pequenas histórias sem importância" do meu querido Pedro Serrazina, que deve ser para aí mais uma obra prima deste menino-prodígio-e-pessoa-absolutamente-impecável. Façam o favor de comprar já e ler logo a seguir.

Por estes dias, segundo creio, sairá a muito aguardada edição em livro do Nova Frente, o notabilíssimo blog do meu não menos estimado amigo Bruno Oliveira Santos. Façam o favor de ficar atentos.

Muito agradecido.

terça-feira, julho 04, 2006

Cinco Quinas de Desprezo.

"Quanto mais estrangeiros vi, mais amei a minha Pátria."
-Dormont De Belloy-

Holandeses, ingleses e franceses, espanhóis, ucranianos e suecos perfazem todos, cabeça por cabeça, um verdadeiro rebanho de boas razões para se ser Português. Depois de a Selecção Nacional ter cometido apenas 3 faltas nos primeiros 45 minutos dos quartos-de-final (suprema bofetada na tromba imbecil da imprensa britânica), ainda vêm agora estas bestas contorcer-se em conferências de imprensa manhosas, cuidadosamente arquitectadas no balneário da indignidade humana e nas redacções dos esgotos de Paris. O que se pergunta e o que se responde, em combinado passo-de-tango-no-bordel, é discurso pestilento de gente verdadeiramente embrenhada na orgia da estupidez, de gente apenasmente assustada com a coragem que a malta das quinas tem demonstrado em campo. Este mundial tem enjoado bastante, no que diz respeito à falabaratice estrangeira.

A citação que ilustra este postal - e a minha indignação - é de um francês, bem sei. Mas todas as nações, por muito deficitárias que sejam em qualidade humana - e a França é um bastante exemplo de mediocridade - têm os seus génios de trazer por casa. Como patinho feio da Europa, Portugal não devia ter chegado a este patamar da competição. Eu percebo isso. Mas não poderiam todos estes turistas da treta que mostraram até aqui um futebolzinho envergonhado, velhote, sorporífero e cobarde (qualquer bardamerda eliminava aquele Brasil tristonho) fazer-me o favor piedoso de parar com os peidos mediáticos de quadrúpede metabolismo e vegetal inteligência? Por muito pouco natural que seja a presença da Selecção Portuguesa no sacrossanto beliche da elite do futebol mundial, não poderiam todos estes craques de polipropileno aparecer menos na televisão e aproveitar esse precioso bocado de tempo para ir mais aos treinos? Não poderiam poupar-se e poupar-me ao espectáculo excrescente da sua própria vilania?

Independentemente do que aconteça na meia-final, a conquista é já evidente e não tem nada a ver com futebol. Este mundial foi uma excelente maneira de tornar evidente aos portugueses que os países da grande civilização ocidental estão também consideravelmente infestados de sapiens da mais baixa condição. Que o problema da heroicidade ausente e da decadência das elites não é um exclusivo português. Que o nível da imprensa internacional está bem abaixo daquele que a muito custo ainda conseguimos manter. Que outros para além de nós também sofrem do caos filosófico, moral e operacional em que nos afundamos todos, neste antigo pântano de tribos fraticidas que é a Europa.

terça-feira, junho 27, 2006

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- FASCÍCULO UM -

Segismundo d'Ávila, artista plástico. Cartão de visita em esmerado dourado, distribuído com parcimónia em eventos de certificado relevo. Uma personalidade de apresentação marcante, habitualmente encenada em tom azul, riscado de branco manso, calça vincada a preceito, sapato de brilho cuidado, a gravata sem sombra de ruga, lançada em torno do largo pescoço e sempre entre a agressividade de um vermelho berro ou de um amarelo torrado, de abóbora madura.
Parco de palavras, sóbrio de gestos, insondável, exibia uma compostura de solenidade cinzenta, que o impunha nos circuítos mais discretos onde se insinuava raramente pelo verbo, mas decisivamente pela relevante elegância de maneiras.
Dizia-se, a recato, que provinha de feudo abastado, de sangue azul, embora empobrecido pelo cair das gerações, já sem o esplendor do treta avô, venerável ancião metido a coisas de corte, de respeitável ciência e considerada prestação.
Orfão de mãe, devota senhora que se finara de coisa ruim, filho de um considerado cambista da Baixa subitamente arruinado pela intrusão do euro no mercado dos dinheiros - e que desaparecera sem dizer água vai - Segismundo vivia agora com uma suposta prima, ainda jovem, de opulências marcadas pelos langores que lhe escorriam, abençoados, pelos olhos magros, inigualáveis, muito vistos, dizia-se, pelas fraldas das noites pombalinas. Dizia-se ainda que era ela que lhe provia as sopas e os salmonetes e outras elementares necessidades, sem uso porém de noites de acamada envolvência.
Da respeitável actividade plástica não se lhe creditava coisa nenhuma. Nada de catálogo, nenhuma referência. Dos proventos que lhe enchiam o prato, das contas do alfaiate nada se sabia. Que jogava nos estoris e na bolsa. Que manipulava negócios escuros. Que arriscava em traficâncias de muito risco e fama vergonhosa. Coisas de polícia.
Segismundo flutuava amavelmente pelos cotovelos do bairro, distante, de cigarrilha em riste, de juba farta e prateada ao vento, portador senhorial de um mundo de mistérios. De sorriso sarcástico caído do canto do lábio carnudo, húmido, de uma sensualidade insuspeita, de olhar cinzento metálico, intimidante, passeava-se pelas coisas da vida sem paixão, do alto de uma gélida impassibilidade.
É verdade que se detinha, ocasionalmente, na observação sem pudor do mulherão com quem se cruzava, retardando o passo, de olho metido no traseiro da fêmea curvada sobre as montras de moderna lingerie. Talvez por razões puramente estéticas, como seria aceitável num homem da cor e da forma.
Segismundo d’Ávila era, assim, um personagem de relevo abstrato, não sugeria motivo de crónica, objecto de caixa alta, coisa notável de referência. Era apenas mais um dos muitos fantasmas que cruzam os caminhos do bairro sem que se saiba quem são, de onde vieram ou para onde vão. Coisas vazias que se movem sem destino, de olhos num horizonte perdido. Todavia, algo lhe veio alterar a rotina. Nada de estrondo, mas e tão só uma nota alacre, diferente, no curso da torrente sem convulsões da sua discreta existência.
(cont.)

Um blog a meias.

Depois de muito o aborrecer com solicitações de prosa e exigências de literatura, teve por fim o meu santo Pai que se resignar às súplicas deste ensandecido progénito: o que se segue é o primeiro episódio da sua contribuição para o enriquecimento conceptual do Blogville. Nos próximos tempos, tenho assim o prazer de partilhar com o Artur Paixão este blog, que sofria em abundância de solidão.

segunda-feira, junho 26, 2006

Um mundial normal.

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1 - Devo desde já dizer que acho o futebol um "desporto" de contacto físico. A abominável FIFA está a a tentar forçar a natureza dos homens ao ponto em que uma merda de uma porrada sem significado ontológico para o decorrer do jogo (competição com valor ontológico) vale um cartão amarelo e depois é só uma questão de nervos até que o maior craque de qualquer equipa fique de fora no próximo jogo. E, sendo que o futebol é bonito por causa do craques, isto não é defender o futebol. Expulsar o Deco daquela maneira não é defender o futebol.

2 - Este mundial tem sido uma fantástico sorporífero. Ao contrário das grandes figuras do dirigismo político da Terceira República, não tenho a sesta por hábito. Mas adormeço a meio da tarde, a ver a Argentina a jogar à bola. Durmo sobre os jogos porque tenho, mais coisa menos coisa, a certeza sobre os resultados. A normalidade impera e que mais posso dizer? A selecção nacional, ao menos, mantém-me acordado.

3 - Por acaso, acho que nunca escrevi aqui no blog as grandes patifarias que já disse sobre o Sr. Scolari, o que é uma pena. Essa reprovável lacuna impede-me agora de afirmar com acrescida propriedade: DESCULPE LÁ, MISTER. O sargento deu hoje uma conferência de imprensa absolutamente impecável (tomara Sócrates para um dia de festa) e mais que os resultados ou as exibições (que não têm sido - comparativamente - tão más assim) conseguiu inegavelmente estar neste momento a treinar uma EQUIPA de 23 jogadores.

4 - O jogo de hoje indexa com flagrante propósito ao último post que por aqui deixei sobre o futebol contemporâneo em geral e o Mundial 2006 em particular: quando os lamentáveis holandeses jogam uma bola cuja posse lhes tinha sido atribuída por lesão de um jogador português, cai por relva qualquer noção pseudo britânica, olímpica, caveilheresca, romanesca ou ética que possamos querer alimentar em relação ao fenómeno. O futebol, hoje, é mais importante que a noção medieval de cavalaria. É até mais importante do que a qualquer noção ética. Num campeonato do mundo, ganhar é a Ética.

5 - A Selecção Nacional fez hoje, dia 25 de Junho de 2006, História. E fê-lo porque está constituída por jogadores que entendem a natureza do circo. É óbvio para toda a gente que esta equipa pode e sabe jogar muito mais bonito do que joga. Esse foi, aliás, o o erro que sempre cometemos, com resultados absolutamente catastróficos. Agora sim, amadurecemos. Agora sim, ultrapassámos a fase em que tinhamos que provar que sabiamos jogar à bola. Agora sim, podemos ser campeões do mundo (!).

6 - Gostava de escrever um dia sobre o Luís Figo. É claro que tinha que ser num dia bom, num dia em que musas eloquentes me empurrassem para o abismo da glória que é só dele. O homem é um exemplo. Para toda a gente.

7 - Não sei se a malta deu por isso, mas o Sr. Blatter proferiu hoje algumas sábias palavras, logo a seguir ao jogo e por causa do jogo; o que é, de todo em todo, rarissímo, senão inédito. O Sr. Blatter, que efusivamente manifestou a sua alegria por ter oferecido ao planeta uma guerra de 99 minutos, acrescentou louvores grandes à selecção portuguesa, que considerou a melhor equipa em campo, tanto no que respeita à técnica como à táctica, considerando ainda, e inacreditavelmente, que a arbitragem estave uns furos abaixo da qualidade do jogo. Este discurso é de tal forma surrealista (leia-se: justo) que não me admira nada se o Figo vier a ser castigado a posteriori pela cabeçada que deu num infeliz de um holandês qualquer que - aqui entre nós - estava mesmo a pedir uma cabeçada na cana do nariz. Há coisas que são boas demais para serem boas.

8 - Estou feliz, hoje. A culpa é desta malta que cagou as cuecas, que suou as estopinhas, que deu o coirão. Que sacrificou o corpo a sério, como o corpo deve ser sacrificado para a devida salvação do espírito (ah, Cristo!). Estou feliz, hoje, muito também por causa do diabo do Maniche, que chuta sempre muito direitinho à baliza.
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domingo, junho 25, 2006

podcast

o planeta todo acelera e queima gasóleo sobre a minha cabeça de plástico
como um vento veloz de ruído fantástico

sobre a minha cabeça e contra os meus ouvidos atordoados estereofónicos
zumbe a multimédia dos ardinas mneumónicos

chega disparado a grande velocidade o relato interminável o impossível banzé
da civilização toda ao soco e ao pontapé

overload, overquota, overdose que vem pelo chicote do falecido senhor satanás
doi-me fundo no cérebro a informação voraz

sofro de não ter alma que chegue para os pods sobre isto e os blogs sobre aquilo
nem em alexandria era maior a biblioteca que o nilo

nem borges nos seus sonhos de livreiro sonhou com uma estante mais extensa
que as estepes desertas da geografia imensa

não tenho tempo, não tenho ram, não tenho paz e não não tenho espaço
cego ensurdeço e já nem sei o que faço

quarta-feira, junho 21, 2006

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O senhor lá no alto chama-se Dwyane Wade e, nos 6 jogos que duraram estas finais da NBA (de que foi o MVP), marcou só 208 pontos (média de 34,6 por jogo), contribuindo decisivamente para a conquista histórica dos Miami Heat. Histórica porque é a primeira vez que a equipa ascende ao olimpo da competição e histórica porque há 30 anos que não acontecia o que aconteceu desta vez: depois de terem perdido os primeiros dois jogos em Dallas, os Heat ganharam os 3 seguintes em Miami e voltaram ao Texas para sacar a quarta vitória sucessiva e assegurar o título sem que fosse preciso recorrer à negra.
É claro que Shaquille O'Neal, Antoine Walker e Jason Williams também ajudaram e é óbvio que a pergunta estampada na foto é só uma provocaçãozinha para aqueles que acham que o basket profissional norte-americano morreu com o adeus de Jordan. Mas, caramba, este menino (acho eu que é o MVP mais novo na história das finais da NBA) é realmente um prodígio. E voa que se farta.
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"Porque será que para o psiquiatra uma hora só tem cinquenta minutos? O que é que eles fazem com os outros dez minutos? Se calhar ficam sentados a pensar: bolas, este tipo é mesmo tarado. Nem acredito nas coisas que ele disse. Que grande maluco. Quem é que vem a seguir? Oh não, outro que sofre da cabeça."
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terça-feira, junho 13, 2006

Na arena.

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Correndo o risco de me repetir aqui no blog: o futebol de alta competição não é um desporto. É, por acaso, a antítese disso. Também não era por desporto que se atiravam os cristãos aos leões, nem por cavalheirismo que se esfolavam os lutadores gregos, nem por graciosidade de espírito que se faziam correr as quadrigas.
O local é sempre a arena e a febre é invariavelmente a de sangue. O futebol é um excelente substituto da guerra, porque canaliza de forma irrepreensível a pulsão tribal e predadora do bicho humano. É também, um ópio poderoso. Não será jamais a manifestação ética e estética que por umas primevas dezenas de anos entreteu a audiência. O relvado transformou-se num parque para deuses mal educados, destituídos da galantaria britânica. Deuses que simulam penaltis e são sacaninhas. Deuses que imploram por um cartão amarelo, que é devido ao outro deus adversário, que decidiu canelar. Deuses que têm medo de sofrer um golo e jogam para o um a zero. Deuses que sabem fazer gestos feios. Deuses que ganham 120 mil contos por mês e não sabem falar português. Deuses que chutam à baliza e acertam no orgasmo das multidões. Deuses que sobem ao céu e descem ao inferno enquanto o diabo remove uma remela.
No caso vertente da imagem, Koller conhece em menos de meia hora a glória do gladiador triunfante e a miséria do condenado às galés: depois de marcar o primeiro golo da República Checa neste mundial, magoa-se a sério e provavelmente está fora do campeonato.
Os mundias são cada vez pior jogadinhos (no sentido da espectacularidade estética do jogo), na inversa proporção da esmagadora focagem mediática. À medida que a pressão aumenta, os artistas vão desaparecendo de cena. Nedved, Robben e Figo fazem a diferença, mas é pouco ainda assim. O futebol que se joga hoje em dia é fechado, nervoso, envergonhado, armadilhado, calculista, venenoso, prudente.

E pensar que 4 em cada 10 portugueses acham que a selecção portuguesa vai ser campeã do mundo...
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quinta-feira, junho 01, 2006

Prometeu, o bom bandido.

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"Encobre o teu Céu ò Zeus
com nebuloso véu e,
semelhante ao jovem que gosta
de recolher cardos
retira-te para os altos do carvalho ereto
Mas deixa que eu desfrute a Terra,
que é minha, tanto quanto esta cabana
que habito e que não é obra tua
e também minha lareira que,
quando arde, sua labareda me doura.
Tu me invejas!"

Johann Wolfgang von Goethe - 1774


Se bem que literariamente prenhe, o mito criacionista dos gregos, como a grande parte dos mitos criacionistas, é uma história da carochinha absolutamente destituída de bom senso e bom gosto, mesmo considerando que se trata de uma rábula com uns valentes milhares de anos.

Senão vejamos:

No princípio não era o verbo; era o caos. A matéria universal apresentava um aspecto assim para o desagradável, as sementes das coisas por vir boiavam em confusa promiscuidade no pestilento pântano primordial, sendo que a terra não era terra, o mar não era mar e o ar, absolutamente irrespirável. É claro que este estado de coisas não podia perpetuar-se e os deuses intervieram finalmente, separando a terra do mar e o céu de ambos.
Um dos deuses (não que se saiba exactamente qual, nem precisamente porquê) decidiu elaborar sobre a Obra e atribuiu aos rios e lagos os seus lugares, levantou montanhas, esgravatou vales, plantou os bosques, rompeu as fontes, lavrou os campos férteis e as áridas planícies, permitindo que os peixes tomassem a devida posse do mar, que as aves se assenhoreassem do ar e que os quadrúpedes herdassem a terra.
Feito isto, alguém (outra incerteza) deu por falta de um animal sapiens, capaz de reinar sobre este tão-bem-arrumado-planeta-novinho-em-folha; um bicho mais esperto mas, por necessidade instrumental, ainda assim um imbecil quanto bastasse para ser capaz de venerar a desordenada, promíscua e sanguinolenta família residente no Olimpo. Ora é precisamente aqui que Prometeu, o nosso herói, entra em cena.
Filho de Jápeto e Clímene ou de Jápeto e Ásia ou talvez de Jápeto e Têrmis (de novo a dúvida) Prometeu pertencia à estirpe dos Titãs, gigantescos e truculentos semi-deuses, descendentes de Urano e Gaia e inimigos fervorosos dos deuses olímpicos. Apesar da animosidade, Prometeu e seu desastrado irmão Epimeteu receberam de Zeus (ou de Cronos, também não há certezas), a feliz incumbência de conceber e concretizar o homem. Epitemeu, porém, desperdiçou os seus talentos a caracterizar os outros animais da terra, tarefa tão trabalhosa e criativa como dar carapaças às tartarugas, mamilos aos mamíferos, veneno aos escorpiões, penas aos pássaros, dentes aos tubarões e sabor à carne do porco. É claro que, quando chegou a hora de atribuir super poderes ao bicho homem, Epimeteu estava de rastos. Prometeu, cuja primeira tarefa era apenas a de controle de qualidade sobre o trabalho do irmão (o prudente conceito da gestão contemporânea é quase tão antigo como o defecar de cócoras), acabou por se ver a mãos com o trabalho propriamente dito e, muito prosaico, toma um punhado de terra, mistura-a com água, e do barro que surge faz o homem à semelhança dos deuses. Deu-lhe o porte erecto, de maneira que, por oposição aos animais que têm o rosto voltado para a terra, o homem levante a cabeça para o céu e olhe as estrelas (leia-se: deu-lhe a capacidade da abstração metafísica). Mas a tarefa não estava por ali concluída. Ao animal recém-criado faltava ainda a chama da tecnologia (leia-se: a liberdade de espírito). À revelia dos deuses, que estavam já completamente satisfeitos com o produto (um frankestein com volição mística mas sem auto-determinação), Prometeu decide subir ao céu e acender a sua tocha no sol - fogo sagrado e proíbido, propriedade de Zeus - para trazer o fogo ao homem. Com esse Dom, este assegura a sua superioridade sobre todos os outros animais. O fogo permite-lhe construir as armas com que subjuga as feras e a caça, bem como as ferramentas com que cultiva a terra; a lareira aquece a sua moradia, de maneira a tornar-se relativamente independente do clima e, inevitavelmente, a manipulação térmica possibilita a cunhagem da moeda!
Tomando conhecimento do crime de Prometeu, Zeus encoleriza-se (como é sabido, a cólera de Zeus não era tão parcimoniosa como a de Aquiles), e decide, em primeira instância, castigá-lo desta curiosa maneira: com a colaboração dos restantes sócios divinos cria Pandora, a mulher primeira, e envia-a por correio olímpico para casa de Epimeteu, que, contra os avisados conselhos do irmão, a aceita de bom grado, juntamente com uma estranha caixa que a bela top model trazia a tiracolo. O problema é que, uma vez aberta, a caixinha revelou-se um verdadeiro holocausto pan-biológico, dispersando a doença e o ódio pela existência humana e sobre as gerações.
Não satisfeito com a desfeita, e talvez presumindo que a invenção da mulher, apesar de tudo, seria mais um presente formidável do que um castigo terrível, Zeus ordena a Hefesto (o Neptuno de van Baburen, representado em cima), que aprisione Prometeu e o vá acorrentar a um rochedo no cimo do monte Cáucaso, onde todos os dias uma águia (na verdade um abutre) lá iria debicar-lhe o fígado. Vistas bem as coisas, a determinação régia tem algo de sádico: Prometeu era um titã imortal, pelo que, por muito roído que fosse, o seu fígado voltava invariavelmente a regenerar-se. Acontece que a intenção era deixar o desgraçado neste suplício durante 30.000 anos, sem direito a redução de pena por bom comportamento.
Sendo de carácter literário, a história não podia acabar assim. Eventualmente, Prometeu é libertado por Héracles, que havendo concluído os seus doze aventurosos trabalhos, padecia deveras da carência de adrenalina (eis, muito provavelmente, o primeiro Junkie).

A ideia de que a mulher é criada como veículo de punição do homem, o aparente amadorismo com que o universo, a terra, e os seres vivos são construídos, a incrivel assumpção de que a liberdade de espírito vai contra a vontade dos deuses, as contradições e insuficiências da narrativa e os seus eminentes contornos pitorescos, que se alargam entre a inventiva gótica e o conto infantil, não impediram porém que o criacionismo grego fornecesse prolixa inspiração a muitos dos grandes génios da literatura.
A história foi popularizada por Hesíodo e teatralizada pela primeira vez por Ésquilo, no século V A.C., com o título de Prometeus Desmotes (Prometeu Agrilhoado) e, na Idade Média, veio muito a propósito dos desgraçados que iam parar à fogueira. Talvez por isso, o Romantismo acabou por formatar um universo simbólico co-relacionado, em que Prometeu assume a forma humana e representa a sede de conhecimento, e a sua captura do fogo proíbido, a audácia e a generosidade humanas que permitem a partilha do saber, mesmo quando entidades plenipotenciárias e de mau génio o interditam.
No seu belíssimo "Prometheus", um curto e eloquente poema de 8 estrofes, Goethe descreve um homem extraordinário, que se nega a venerar deuses ou a ser submisso. A partir de então a imagem de Prometeu na cultura ocidental é a de um género de Che Guevara do Mediterrâneo Clássico, que luta contra a repressão das massas e a mordaça dos poderosos. Por estas e por outras é que Karl Marx considerava Prometeu o seu herói favorito.

Conclusão: não deixa de ser divertido pensar que o paradigma criacionista da civilização fundadora do Ocidente é interpretada por um gigantone rebelde actuando por sua conta e risco; e que os triunfos tecnológicos, científicos e filosóficos da humanidade têm como origem mítica, não a vontade dos deuses, mas um obstinado e libertário free-lancer dotado de um esquema moral que é, na sua essência, herético. Esta contradição entre a fé incondicional e o livre arbítrio da razão individual sobra abundantemente pela história a dentro e, por muito mal editada que seja a novela, a verdade é que, como sempre, os gregos contaram primeiro todas as histórias que no decorrer das eras posteriores vieram a ser (re)contadas.
Prometeu, o bom bandido de Protágoras, de Ésquilo, de Platão, de Rousseau, de Mary Shelley, o paladino da revolução de Descartes e, provavelmente, o único santo de Bachelard; Prometeu, o pirata do fogo sagrado, arde ainda, de verdade, na nossa lógica de todos os dias. Mais bicada menos bicada.


Fontes:
wikipedia
mundo dos filósofos
no mistake
instituto camões
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"Não tenho medo de voar, embora haja muita gente que tenha, e eu sem forma de argumentar contra isso.
Acho que o medo de andar de avião é bastante racional, porque os seres humanos não podem voar. Os seres humanos deviam ter medo de voar da mesma forma que os peixes deviam ter medo de guiar. Se puserem um peixe atrás de um volante, é provável que ele diga: isto não está certo. Eu não devia estar a fazer isto. Isto não é lugar para mim."

segunda-feira, maio 29, 2006

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Na imagem, Jason Terry, o mágico base dos Dallas, passa pelo MVP da época regular e Senhor Mãozinhas - Steve Nash - para afundar mais dois pontos, no jogo de Sexta-Feira.
Estamos em finais de conferência e a NBA mostra o que vale: é tudo jogadinho hoje como se não houvesse mais bola amanhã. Os play-of deste ano passaram a lenda, depois das séries serem disputadas com unhas e dentes, quase todas, a sete jogos. Tenho visto coisas que desafiam a física, a lógica e a filosofia, na NBA. Mas este ano, isto está mesmo muito próximo da transcendência.

sexta-feira, maio 26, 2006

Sobre o parvalhão anónimo.

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Na blogosfera, como na vida, percebe-se que os parvos sabem bem que são parvos. Têm a verdadeira e dolorosa consciência do facto e envergonham-se. É por isso que nunca assinam as idiotias com que, em má hora, infestam os blogs alheios (que espertos!).

É muito raro ler um comentário inteligente deixado por um anónimo, não é?

quarta-feira, maio 24, 2006

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"Não tem muito que saber. É apenas necessário tocar as notas certas no tempo exacto que o instrumento faz o resto."
Johann Sabastian Bach, quando cumprimentado pelo seu virtuoso domínio do cravo.

Confesso que me sinto bastante culpado de um delito que é partilhado pela multidão: no que diz respeito à epistemologia da música, a ideia comum é a de que Barroco é Bach primeiro e Vivaldi depois. Ora, sucede que hoje à noite fui conduzido por um querido amigo à impressionante aventura dos Tafelmusik, uma entidade sonora que se dedica a avisar os incautos acerca da falibilidade dos preconceitos com que interpretamos a música criada nos sécs. XVII e XVIII, ao mesmo tempo que performa um espectáculo verdadeiramente único por uma montanhada de razões, a saber:

• O CCB resolveu presentear Lisboa com um só espectáculo. Este de que falo.

• O Grande Auditório não estava apinhado com os pequeno-burgueses-ávidos-das-festas-da-música. Nem estava apinhado, ponto. Respirava-se!

• Tafelmusik é uma feliz, consagrada e competentíssima orquestra constituída por 18 humanóides absolutamente geniais, que estão alegremente empenhados em que a malta perceba - e valorize - a componente lúdica da música barroca.

• O espectáculo desta noite teve como estrela do norte as maravilhosas "Metamorfoses" de Ovídio, o que só por si é contar bastante, mas, ainda assim, que dizer disto: "Tenho cavernas no flanco da montanha / onde o sol nunca te afligirá."

No entretanto das encantatórias rábulas de Ovídio, estive muito contente e em puro deleite a ouvir obras-primas de Jean-Philipe Rameau, Jean Baptiste Lully, Marian Marais e Alessando Marcello. Vivaldi também constava do reportório, mas Bach, ironicamente, não.
A "Tempestade" de Marais é um momento extra-terráqueo de glória e arte, tanto como a história quasi-homérica de Céix e Alcione para a qual a peça foi escrita. Mas momentos como este, encheram cheinha uma noite perfeita de Barroco.
Hoje, posso dizer que fiquei um bocadinho menos ignorante.
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quinta-feira, maio 18, 2006

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Dr. House. Excêntrico Jesus Cristo do serviço nacional de saúde americano. Um gajo lindo e visceral. Um herói moderno. Um actor a sério. Todo ele é líder das audiências da minha inteligência emocional. E agora, que comprou uma moto de cair para o lado (250 cv/140 kg com suporte de titânio para a bengala), compete com Homero na corrida para a história sagrada. House não é um humanista. Salva vidas apenas porque é integro para com o destino a que foi condenado. Mais nada do que brio profissional. Rigorosamente mais nada.

quarta-feira, maio 10, 2006

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"I am actually not at all a man of science."
Sigmund Freud, carta a Wilhelm Fliess - 1900.

Provavelmente, o maior impostor da história moderna, Sigmund Freud infectou a mentalidade ocidental de uma catrefada de falsidades de tal forma inacreditáveis que só podemos chegar a uma conclusão: a ciência humana está ainda na sua fase embrionária, e somos todos quase tão crédulos e ignorantes como aquele velhote desgrenhado da Macedónia que dividia o universo em três ou quatro esferas celestes, aqui há uns dois mil e quinhentos anos atrás.
Iniciando a sua carreira com uma grandiloquente defesa das qualidades terapêuticas da cocaína, e indicando-a abundantemente aos desgraçados que lhe chegavam ao consultório (alguns morreram da receita), Freud é o engenhoso fundador de patologias inexistentes como a Histeria ou o "Reflexo Neurótico Nasal", estigmas derivados, segundo este ilustre falsificador, de uma tendência excessiva para a masturbação e curáveis com recurso à dita droga ou a intervenções cirúrgicas de masmorra medieval.
Em vez de ser rapidamente encarcerado no hospício mais radical de Viena, Freud sobreviveu aos desastres com a persistência dos aprendizes de feiticeiro e, escapando para a frente, cria a sua segunda grande invenção: o líbido imparável das crianças. Para Freud, cada alminha já nasce de pau feito, lamentavelmente apontado para a mãe, em cujos seios encontra desde logo a redenção orgásmica. A história, a política, a economia e a religião explicar-se-iam assim à sombra de um cartoon grego: inclinado desde logo para o sexo que o pariu, o menino fundamenta os seus dias primevos - e o seu ego estrutural - num ódio surdo de ciúmes para com o seu pai. Isto, claro está, é apenas nojento e fica distante de qualquer rigor científico como a Terra está longe do centro da sua galáxia.
Fazendo uma imaginativa e quase poética, mas absolutamente não científica, interpretação dos sonhos que convenientemente fundamentavam as suas teorias mais delirantes, publicando terapias revolucionárias que, na verdade, não curavam ninguém, Freud foi alegremente ignorando o conhecimento mais disciplinado do seu tempo: genética e cultura eram factores menosprezáveis e o positivismo não mais que um tique de ratos de laboratório. O homem, segundo Sigmund, não passa de um escravo do seu inconsciente, essa massa oculta, imaterial e brejeira, sempre disponível para lançar o indivíduo nos mais perversos conflitos. Tudo o resto é preconceito de gente moralista ou preciosismo de académicos destituídos do pantone da criatividade.
Sobre este montão de imbecilidades, Freud cria até um aparelho filosófico multi-dimensional, que compreende toda a fenomenologia humana, aniquila a metafísica e eleva ao altar/divã uma espécie de super-homem/mega-falo; sapiens niilista que conquista a salvação pela transferência de todos os traumas para o colo paternal e semi-divino do psicanalista. Charlatão maior entre os grandes vendedores de tónico capilar, imaginativo e teimoso profeta da falácia, Sigmund Freud é uma vergonha para a epistemologia. E um embaraço enorme para todos nós, que comprámos, baratinho, os seus dogmas de algibeira no supermercado da desinformação.

Uma conspiração de estúpidos.

Bem sei que parece ficção, mas é realidade da grossa: depois da dissolução da antiga Comissão para os Direitos Humanos da ONU - precisamente por causa de ser constituída por nações que não os respeitavam (o último país a presidir este infame organismo foi a Líbia!) - eis que surge agora uma Comissão novinha em folha, de tal forma correctora dos erros anteriores que até dá assento a países como a China, a Arábia Saudita e Cuba, proverbiais paladinos da dignidade humana e das liberdades individuais.
No dia em que acabarem com a Organização das Nações Unidas eu vou ser um homem feliz.

terça-feira, maio 02, 2006

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"As pessoas são capazes de matar por um lugar para estacionar em Nova Iorque porque pensam: se não conseguir este lugar, posso não arranjar outro. Vou ficar meses à procura até que alguém saia do Hamptons. Porque toda a gente sabe que em Nova Iorque há muitos mais carros do que lugares para estacionar. Vemos carros a andar por Nova Iorque a noite inteira. Parece aquele jogo das cadeiras, só que toda a gente se sentou por volta de 1964."

Bocage: de luz e trevas - 3

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Camões, grande Camões, quão semelhante
Acho teu fado ao meu, quando os cotejo!
Igual causa nos fez perdendo o Tejo
Arrostar co'o sacrílego gigante:

Como tu, junto ao Ganges sussurrante
Da penúria cruel no horror me vejo;
Como tu, gostos vãos, que em vão desejo,
Também carpindo estou, saudoso amante:

Ludíbrio, como tu, da sorte dura
Meu fim demando ao Céu, pela certeza
De que só terei paz na sepultura:

Modelo meu tu és... Mas, oh tristeza!...
Se te imito nos transes da ventura,
Não te imito nos dons da Natureza.

quarta-feira, abril 26, 2006

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ELES ANDAM AÍ.

Vêm lá dos confins do espaço
em busca dos desertos americanos.
Aconchegados em discos de aço
vão chegando os marcianos.

Olhos espirais, antenas telepatas
e espertas orelhas pontiagudas:
são assim p'ró feinho os piratas
do Triângulo das Bermudas.

Uns vêm e deixam saudades,
outros por fome de carne humana.
Contra todas as probabilidades
visitam-nos uma vez por semana.

Não há como negar o facto:
eles andam aí e são apanhados
a construir aeroportos no mato
e a ceifar o trigo dos prados.

Arriscam-se à bestial pestilência
dos encontros de grau terceiro.
Amiúde, deixam descendência,
são fornicadores em passeio.

Habitam há que tempos a História,
deixaram-nos príncipes e faraós,
(as pirâmides são prova e memória
de que nunca estivemos sós).

Escreveram tábuas e pautas
para mitos, cultos e religiões:
são os deuses astronautas
que aterram aos trambolhões.

Ou, em vez dos antigos mundos
(quem sabe desta aventura?),
discos e seres são oriundos
de uma qualquer era futura.

Podem até ser sapiens em férias,
do século D.C. quarenta e tal.
Tiram fotografias, trocam pilhérias,
vêem em safari temporal.

Na verdade nem me interessa
de onde vêem e para onde vão.
Gosto é de os ver assim com pressa
em imagens de baixa resolução.
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sábado, abril 22, 2006

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"Tenho um telefone sem-fios, mas não gosto muito dele porque não se pode pousar ruidosamente um telefone sem-fios. Quando ficamos furiosos com alguém num telefone normal podemos dizer: não te admito que fales assim comigo! e PUM, acabou-se. Mas num telefone sem-fios - Não te admito que fales assim comigo! Agora, espera que eu tenho de procurar o botão onde se desliga esta porcaria... Espera só um bocadinho para eu te desligar o telefone na cara..."

sexta-feira, abril 21, 2006

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4 séculos de mestre.

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Mais conhecido por Ronda Nocturna (Sir Joshua Reynolds encontrou o quadro de tal forma degradado e enegrecido que pensou - erradamente - tratar-se de uma cena nocturna) esta é uma das mais famosas obras de Rembrandt, muito pelo seu proverbial jogo de luz e sombras, mas também porque o autor opta por fugir à norma da pose estática nas representações militares, optando por introduzir uma nota de movimento ao retratar um momento de partida para uma missão, cuja natureza se desconhece. Apesar da obra ter sido encomendada por um ramo da milícia civil (Mosqueteiros), Rembrandt opta por esconder os seus membros na escuridão e - não fosse o quadro ter sido literalmente mutilado no século XVII, com o intuito de caber numa parede (!) - poderíamos registar que até o homem do tambor colocado à direita (que não fazia parte da mílicia e tinha sido pago para estar ali a compôr a cena) surge com mais protagonismo que o pessoal miliciano. Não admira pois, que Rembrandt esperasse três anos até receber o pagamento pelo trabalho.

quarta-feira, abril 19, 2006

A Quarta Cruzada.

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«Estamos prontos a atacar alvos sensíveis norte-americanos e britânicos»
Mahmoud Ahmadinejad

Enquanto estou embrenhado na deliciosa leitura de GUERREIROS DE DEUS - RICARDO CORAÇÃO DE LEÃO E SALADINO de James Reston Jr. - obra em que, desde já vos digo, Saladino surge como um santo e Ricardo como um facínora - este animal que dá pelo nome literalmente indizível de Mahmoud Ahmadinejad ameaça o mundo livre com brutalidade atómica e niilismo de algibeira. A incompetência americana e a cobardia europeia dão nisto: o Irão anuncia-se solenemente como uma potência nuclear e os seus caciques discursam com a hostilidade de quem se prepara para a guerra; dizem do holocausto o que nem certos amigos meus de uma certa direita que não é a minha seriam capazes de segredar em blog; disparam impropérios à Hugo Chavez; rebolam-se alarvemente na sua infâmia e a malta aqui deste lado reúne-se na ONU, de bracinho cruzado, forçando-se a uma ou outra mais aborrecida conferência de imprensa, momento em que (muito a contra gosto) lá se proferem umas acusações de papelaria, como se afinal não fosse nada assim tão de especial; por todos os deuses da diplomacia civilizada (que é como que diz: francesa), não vamos agora perder a temperança por causa destes bárbaros que não sabem o que fazem, quanto mais saber fazer algo parecido com uma pistola nuclear. É assim, caríssimas damas, que se desloca para secundaríssimo plano o ex-mau da fita, Bin Laden. É desta precisa e descarada maneira-afronta, distintos cavalheiros, que se reduz a cinzas o sacrossanto império do Ocidente.
Acho que já é a segunda vez que faço isto neste blog, mas insisto com a certeza de quem-sabe-que-tem-que-ir-à-casa-de-banho: a 26 de Novembro de 2003 - quando ElBaradei ainda convencia meio mundo de uma das maiores falácias da história da diplomacia contemporânea* - escrevi o que se segue, no extinto Ocidental Praia.

É SÓ MAIS UM PARQUE INFANTIL.
Mohamed ElBaradei e a sua hilariante Agência Internacional da Energia Atómica ainda acreditam que as instalações nucleares iranianas estão a ser desenvolvidas com um fim pacífico. A ingenuidade ou cumplicidade deste senhor não tem paralelo: O Irão, riqíssimo em petróleo e em carvão, não precisa de criar formas subsidiárias e comparativamente dispendiosas para acender a luz e é evidente que o regime iraniano - um dos mais perigosos, ferozes, fanáticos e totalitários do mapa político - pretende aumentar a pressão nuclear sobre o Médio Oriente. Quando em boa hora os americanos não tiverem outro remédio que o de entrarem por ali a dentro e partirem aquilo tudo, os marretas do Conselho de Segurança das Nações Unidas, que inacreditavemente se recusam a condenar a política nuclear dos ayhatolas, vão ficar muito surpreendidos e de pronto votar não sei quantas resoluções em favor da paz mundial e contra a arrogância da Administração Bush. Citando Pessoa: Ora bolas para a gente ter que aturar isto!


Escusado será dizer que, caso a administração Bush tivesse um pinguinho de talento estratégico, esta pequena profecia teria sido concretizada em tempo recorde. Assim, como estamos, é difícil entrar pelo Irão a dentro e partir aquilo tudo. Mas é pena. Porque o senhor Ahmadinejad, que não é nenhum Saladino, está-se mesmo a pôr a jeito. E porque o mundo árabe - cuja fé sempre triunfou pela espada - está mesmo a pedir uma cruzada a sério. Como a primeira.


Nota de rodapé: James Reston Jr., que é um verdadeiro herói americano, espécie de Indiana Jones da Academia historicista americana, escreve um belo e competentíssimo manual de propaganda árabe, reduzindo os cruzados a bárbaros e os seus motivos às mais baixas volições da ordem da política instrumental. Quem é que imagina ser possível a um académico árabe, exercendo ciência no seu país, interpretar a terceira cruzada de forma oposta? É bem fixe, a liberdade, não é? Agora a pergunta difícil: é assim tão fixe que valha a pena morrer por ela?

* Comparativamente, o Caso do Misterioso Desaparecimento das Armas Iraquianas de Destruição Maciça perderia todo o interesse, até para Erle Stanley Gardner.

Desconversa.

Apercebi-me agora que, sobre o soneto do Barbosa alguém postou um comentário extensíssimo e absolutamente a despropósito sobre a monogamia ou coisa que o valha. Só li duas ou três linhas e percebi logo que até poderia concordar com alguns dos princípios, mas nem se trata de concordar ou discordar: O QUE É QUE O SACANA DO ASSUNTO TEM A VER COM O BOCAGE? É preciso perceber que, quando defendemos valores morais, devemos proceder com ÉTICA. Não é bom, seja para que causa for, entrar numa lógica terrorista de descarregar manifestos nos blogues alheios, certo?
Só me apetece dizer palavrões, por isso, dedico apenasmente ao fanático mal criado que me fez a desfeita este gentil termo: BARDAMERDA.

terça-feira, abril 18, 2006

Bocage: de luz e trevas - 2

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Meu ser evaporei na lida insana
Do tropel de paixões, que me arrastava;
Ah! cego eu cria, ah! mísero eu sonhava
Em mim quase imortal a essência humana.

De que inúmeros sóis a mente ufana
Existência falaz me não dourava!
Mas eis sucumbe a Natureza escrava
Ao mal, que a vida em sua orgia dana.

Prazeres, sócios meus, e meus tiranos!
Esta alma, que sedenta em si não coube,
No abismo vos sumiu dos desenganos.

Deus, oh Deus!... Quando a morte à luz me roube,
Ganhe um momento o que perderam anos,
Saiba morrer o que viver não soube.

Roma por um tubo.

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Terminou hoje, com o assassinato mais célebre da história - o de Júlio César na arena do Senado romano - uma das mais brilhantes séries dos últimos anos (largos): Rome é - apesar de uma produção financeiramente deficitária para as ambições do projecto - um espectacular fresco sobre a antiguidade, com visão académica, rigor histórico e intriga a condizer. Felizmente, os senhores da HBO já prometeram uma segunda temporada. Eu cá espero que produzam 12. É que, nestas coisas do Império Romano, é sempre de bom tom seguir a lógica de Gaio Suetónio.
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segunda-feira, abril 17, 2006

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"As mulheres precisam de gostar do emprego do tipo com quem saem. Se não gostarem do emprego, também não gostam do tipo. Os homens sabem-no, e é por isso que inventamos nomes falsos e sonantes para os empregos que temos - Bem, agora sou supervisor da direcção regional. Estou no desenvolvimento, na produção, na consultoria...
Os homens, por seu lado, quando fisicamente atraídos por uma mulher, não querem saber do emprego dela. Dizemos apenas: A sério? É aí que trabalhas? Deve ser interessante. Tens um cutelo grande e cortas-lhes a cabeça, é isso? Deve ser bestial. Olha, e se te fosses arranjar para irmos comer um hambúrguer e ver um filme?"

quinta-feira, abril 13, 2006

Bocage: de luz e trevas - I

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Magro, de olhos azuis, carão moreno,
Bem servido de pés, meão na altura,
Triste da facha, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio, e não pequeno.

Incapaz de assistir num só terreno,
Mais propenso ao furor do que à ternura;
Bebendo em níveas mãos por taça escura
De zelos infernais letal veneno:

Devoto incensador de mil deidades
(Digo, de moças mil) num só momento,
E somente no altar amando os frades:

Eis Bocage, em quem luz algum talento;
Saíram dele mesmo estas verdades
Num dia em que se achou cagando ao vento.
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quarta-feira, abril 12, 2006

À escuta das Vozes da Poesia Europeia - VII

Celebrando a feliz edição da revista Colóquio Letras - que traz à estampa, em três cuidados volumes, as traduções que David Mourão-Ferreira fez da poesia europeia.

RUTEBEUF E OS DILEMAS DA MISÉRIA

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Nascido em pleno pesadelo medieval, autor maduro aos 15 anos e corpo cadáver aos quarenta, Rutebeuf sofreu a vida inteira de miséria crónica e anonimato agudo. Isto, claro está, apesar de ter sido ele que praticamente inaugurou a dramaturgia francesa. Não admira pois que encontremos frequentemente nos seus versos os lamentos prolixos, as queixas de má sorte e algumas frágeis e vãs tentativas de conformismo. Na sua lírica de jogral vagabundo, pungente e sincera, denuncia a fealdade e a brutal natureza da sua mulher, a abstinência financeira, as dificuldades criativas, as falhas de memória, o flagelo da velhice (na agreste Europa do Século XIII, as alminhas caducavam mais cedo). No famoso Complainte de Rutebeuf, o poeta partilha com o leitor uma interminável lista de complicações existenciais, penitências do destino, desagravos intestinais, agruras de espírito e penas de amor (um amor sublimado e platónico, bem dentro do imaginário da época). Valente inimigo do triste papa Alexandre VI e da Inquisição francesa, grandessíssimo campeão da Universidade de Paris, autor fundamental na génese da francofonia, peregrino druida do teatro místico europeu, satírico empedernido e competentíssimo trovador, Rutebeuf - o pobre - deixa afinal à posteridade uma herança opulenta:


O JOGO DO INVERNO

Contra o tempo em que as árvores se desfolham
e nos ramos não há nenhuma folha
que não caia por terra;
contra a grande pobreza que me aterra
e que de toda a parte me faz guerra;
Contra o tempo do Inverno
que até me altera o tom dos próprios versos,
começo por caminhos bem diversos
a narrar esta história.
Pobre de senso e pobre de memória,
foi como Deus me quis, pra sua glória...
E quanto a rendimentos
apenas me entregou todos os ventos
que sopram e me gelam neste tempo...

Pobreza foi somente a sua oferta;
e nem tenho outra porta sempre aberta...
Mas no fundo sou rico,
pois Deus me dá o tempo que é preciso;
assim, durante o Verão lá vou cantando,
como a ave no ramo,
e depois, no Inverno, se choro e me lamento,
tenho por companheiro o próprio vento...
De que mais necessito?

terça-feira, abril 11, 2006

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Moulin Rouge

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Depois de muito dar à perna, o despudorado Villepin tem agora tudo à mostra: a ambição, a cobardia e uma enorme falta de carácter. Entrementes, a França passeia-se, nua de virtudes, pelo boulevard da história. O cenário é constrangedor.