quarta-feira, fevereiro 25, 2009

Comunicado urgente contra o desperdício.

O que se reconhece como urgente é antes de mais nada o não se ter pressa; parar-se um pouco, a fim de alguma calma e sossego se colher. E assim, entre as diversas visões desta Paz em que apodrece o Mundo, chegarmos a acordo quanto à mais metafísica e desenganada delas - a saber, que este Mundo, quanto mais depressa anda, mais revela a sua condição de Estado.

Agustín García Calvo

terça-feira, fevereiro 24, 2009

REMIXVILLE | Track#14

Marvin Gaye, um mestre. E não preciso de dizer nada mais para além do que canta Anita Lane. Quem é que nunca sentiu realmente isto?

segunda-feira, fevereiro 23, 2009

Carnavalada (replay)

Chega à cidade no Inverno o circo do Inferno.
Solta-se de rompante um fantasismo aberrante
sobre a mágoa deste falecimento eterno:
é a dor de viver que está na máscara do ser,
é o horror que nos guarda a vida restante.

Deuses! que ódio visceral ao Carnaval.
Em Veneza, corre a certeza da morte: um corso
há-de para sempre ser feliz como um funeral
com palhaços dóricos e carros alegóricos
de baixo orçamento, indigentes sem remorso.

As mulatas mostram vivas as carnes lascivas,
nádegas ao léu no ritmo plebeu do Rio de Janeiro
ou - com arrepios de espinha - as divas
de mãozinhas a acenar, desfilam em Ovar
um plágio barato do festival brasileiro.

Deuses! que depressão perante o folião
vestidinho de mulher e com bigode e tudo.
(Toda a gente lhe acha um piadão
menos eu, que me encolho e recolho
para morrer de vergonha no entrudo).

terça-feira, fevereiro 17, 2009

Porrada que ferve.

O mais popular concurso de fotojornalimo à superfície do terceiro calhau a contar do sol, faz-me rir. O júri deve ser certamente constituído por um clã de masoquitas fanáticos porque não há imagem premiada que não venha com uns excelentes salpicos de sangue. O retrato do mundo segundo o World Press Photo é uma coisa que transcende em largo a imaginação de Dante Alighieri, o que não é dizer pouco. Excluindo as imagens da categoria desporto, não há uma puta de uma foto inspiradora. Um momento de esperança. Um cenário de paz. Uma história de amor. É sangue e sofrimento e morte e caos por todo o lado. Qual é o gozo? Qual é a novidade? Qual é a mensagem? E é assim tão moral ganhar prémios à custa do sofrimento alheio? Agora a sério, se isto é fotografia de excelência, eu cá prefiro o Calendário Pirelli.

Coisas do Estado Novo.

No livro de suas memórias, conta o bom Professor Adriano Moreira que, tendo morrido um familiar homónimo ao director adjunto da PIDE, muitos se apressaram, equivocados, para o velório de Sua Autoridade Majestática. Quando o inspector entra, vivinho da silva, na câmara ardente do seu tio, a estupefacção é geral, sendo desfeito o mal entendido entre protestos do cardeal e alívio da plateia. O problema sobrou para aqueles que decidiram não comparecer ao velório, calculando talvez que o cadáver de S. Exa. não iria fazer registo de últimos respeitos. Conta o Professor que estes, na presença futura do pide, não se coibiam de lhe protestar suas desculpas, justificando a desconsideração:
- V. Exa. perdoará a minha ausência no seu velório. Estava caída de cama a senhora minha mulher, e bem vê que fiquei obrigado ao cuidado das crianças.

O medo é uma ilha rodeada de lama humana por todos os lados.

sexta-feira, fevereiro 13, 2009

A Carta da Corcunda para o Serralheiro.

Não estou com grande disponibilidade para o blog, neste momento, o que é uma feliz notícia, porque nada do que eu pudesse postar se pode comparar ao texto que vai ficar aqui durante uns dias.

No seu universo de espelhos, Fernando Pessoa criou um personagem feminino. Chamou-lhe Maria José e em seu nome escreveu um único texto: esta carta, elemento iniciático da literatura portuguesa. É extensa, mas é de longe a coisa mais bonita que podem encontrar neste blog, pelo que os dez minutos aqui investidos, creio eu, não serão em vão.


“Senhor António:

O senhor nunca há de ver esta carta, nem eu a hei de ver segunda vez porque estou tuberculosa, mas eu quero escrever-lhe ainda que o senhor o não saiba, porque se não escrevo abafo.

O senhor não sabe quem eu sou, isto é, sabe mas não sabe a valer. Tem-me visto à janela quando o senhor passa para a oficina e eu olho para si, porque o espero a chegar, e sei a hora que o senhor chega. Deve sempre ter pensado sem importância na corcunda do primeiro andar da casa amarela, mas eu não penso senão em si. Sei que o senhor tem uma amante, que é aquela rapariga loura alta e bonita; eu tenho inveja dela mas não tenho ciúmes de si porque não tenho direito a ter nada, nem mesmo ciúmes. Eu gosto de si porque gosto de si, e tenho pena de não ser outra mulher, com outro corpo e outro feitio, e poder ir à rua e falar consigo ainda que o senhor me não desse razão de nada, mas eu estimava conhecê-lo de falar.

O senhor é tudo quanto me tem valido na minha doença e eu estou-lhe agradecida sem que o senhor o saiba. Eu nunca poderia ter ninguém que gostasse de mim como se gostasse das pessoas que têm o corpo de que se pode gostar, mas eu tenho o direito de gostar sem que gostem de mim, e também tenho o direito de chorar, que não se negue a ninguém.

Eu gostava de morrer depois de lhe falar a primeira vez mas nunca terei coragem nem maneiras de lhe falar. Gostava que o senhor soubesse que eu gostava muito de si, mas tenho medo que se o senhor soubesse não se importasse nada, e eu tenho pena já de saber que isso é absolutamente certo antes de saber qualquer coisa, que eu mesmo não vou procurar saber.

Eu sou corcunda desde a nascença e sempre riram de mim. Dizem que todas as corcundas são más, mas eu nunca quis mal a ninguém. Além disso sou doente, e nunca tive alma, por causa da doença, para ter grandes raivas. Tenho dezanove anos e nunca sei para que é que cheguei a ter tanta idade, e doente, e sem ninguém que tivesse pena de mim a não ser por eu ser corcunda, que é o menos, porque é a alma que me dói, e não o corpo, pois a corcunda não faz dor.

Eu até gostava de saber como é a sua vida com a sua amiga, porque como é uma vida que eu nunca posso ter — e agora menos que nem vida tenho — gostava de saber tudo.

Desculpe escrever-lhe tanto sem o conhecer, mas o senhor não vai ler isso, e mesmo que lesse nem sabia que era consigo e não ligava importância em qualquer caso, mas gostaria que pensasse que é triste ser marreca e viver sempre só à janela, e ter mãe e irmãs que gostam da gente mas sem ninguém que goste de nós, porque tudo isso é natural e é a família, e o que faltava é que nem isso houvesse para uma boneca com os ossos às avessas como eu sou, como eu já ouvi dizer.

Houve um dia que o senhor vinha para a oficina e um gato se pegou à pancada com um cão aqui defronte da janela, e todos estivemos a ver, e o senhor parou, ao pé do Manuel das Barbas, na esquina do barbeiro, e depois olhou para mim, para a janela, e viu-me a rir e riu também para mim, e essa foi a única vez que o senhor esteve a sós comigo, por assim dizer, que isso nunca poderia eu esperar.

Tantas vezes, o senhor não imagina, andei à espera que houvesse outra coisa qualquer na rua quando o senhor passasse e eu pudesse outra vez ver o senhor a ver e talvez olhasse para mim e eu pudesse olhar para si e ver os seus olhos a direito para os meus.

Mas eu não consigo nada do que quero, nasci já assim, e até tenho que estar em cima de um estrado para poder estar à altura da janela. Passo todo o dia a ver ilustrações e revistas de modas que emprestam à minha mãe, e estou sempre a pensar noutra coisa, tanto que quando me perguntam como era aquela saia ou quem é que estava no retrato onde está a Rainha de Inglaterra, eu às vezes me envergonho de não saber, porque estive a ver coisas que não podem ser e que eu não posso deixar que me entrem na cabeça e me dêem alegria para eu depois ainda por cima ter vontade de chorar.

Depois todos me desculpam, e acham que sou tonta, mas não me julgam parva, porque ninguém julga isso, e eu chego a não ter pena da desculpa, porque assim não tenho que explicar porque é que estive distraída.

Ainda me lembro daquele dia que o senhor passou aqui ao Domingo com o fato azul claro. Não era azul claro, mas era uma sarja muito clara para o azul escuro que costuma ser. O senhor ia que parecia o próprio dia que estava lindo e eu nunca tive tanta inveja de toda a gente como nesse dia. Mas não tive inveja da sua amiga, a não ser que o senhor não fosse ter com ela mas com outra qualquer, porque eu não pensei senão em si, e foi por isso que invejei toda a gente, o que não percebo mas o certo é que é verdade.

Não é por ser corcunda que estou aqui sempre à janela, mas é que ainda por cima tenho uma espécie de reumatismo nas pernas e não me posso mexer, e assim estou como se fosse paralítica, o que é uma maçada para todos cá em casa e eu sinto ter que ser toda a gente a aturar-me e a ter que me aceitar que o senhor não imagina. Eu às vezes dá-me um desespero como se me pudesse atirar da janela abaixo, mas eu que figura teria a cair da janela? Até quem me visse cair ria e a janela é tão baixa que eu nem morreria, mas era ainda mais maçada para os outros, e estou a ver-me na rua como uma macaca, com as pernas à vela e a corcunda a sair pela blusa e toda a gente a querer ter pena mas a ter nojo ao mesmo tempo ou a rir se calhasse, porque a gente é como é e não como tinha vontade de ser.

(…)

- e enfim porque lhe estou eu a escrever se lhe não vou mandar esta carta?

O senhor que anda de um lado para o outro não sabe qual é o peso de a gente não ser ninguém. Eu estou à janela todo o dia e vejo toda a gente passar de um lado para o outro e ter um modo de vida e gozar e falar a esta e àquela, e parece que sou um vaso com uma planta murcha que ficou aqui à janela por tirar de lá.

O senhor não pode imaginar, porque é bonito e tem saúde o que é a gente ter nascido e não ser gente, e ver nos jornais o que as pessoas fazem, e uns são ministros e andam de um lado para o outro a visitar todas as terras, e outros estão na vida da sociedade e casam e têm baptizados e estão doentes e fazem-lhe operações os mesmos médicos, e outros partem para as suas casas aqui e ali, e outros roubam e outros queixam-se, e uns fazem grandes crimes e há artigos assinados por outros e retratos e anúncios com os nomes dos homens que vão comprar as modas ao estrangeiro, e tudo isto o senhor não imagina o que é para quem é um trapo como eu que ficou no parapeito da janela de limpar o sinal redondo dos vasos quando a pintura é fresca por causa da água.

Se o senhor soubesse isto tudo era capaz de vez em quando me dizer adeus da rua, e eu gostava de se lhe poder pedir isso, porque o senhor não imagina, eu talvez não vivesse mais, que pouco é o que tenho de viver, mas eu ia mais feliz lá para onde se vai se soubesse que o senhor me dava os bons dias por acaso.

A Margarida costureira diz que lhe falou uma vez, que lhe falou torto porque o senhor se meteu com ela na rua aqui ao lado, e essa vez é que eu senti inveja a valer, eu confesso porque não lhe quero mentir, senti inveja porque meter-se alguém connosco é a gente ser mulher, e eu não mulher nem homem, porque ninguém acha que eu sou nada a não ser uma espécie de gente que está para aqui a encher o vão da janela e a aborrecer tudo que me vêm, valha me Deus.

O António (é o mesmo nome que o seu, mas que diferença!) o António da oficina de automóveis disse uma vez a meu pai que toda a gente deve produzir qualquer coisa, que sem isso não há direito a viver, que quem não trabalha não come e não há direito a haver quem não trabalhe. E eu pensei que faço eu no mundo, que não faço nada senão estar à janela com toda a gente a mexer-se de um lado para o outro, sem ser paralítica, e tendo maneira de encontrar as pessoas de quem gosta, e depois poderia produzir à vontade o que fosse preciso porque tinha gosto para isso.

Adeus senhor António, eu não tenho senão dias de vida e escrevo esta carta só para a guardar no peito como se fosse uma carta que o senhor me escrevesse em vez de eu a escrever a si. Eu desejo que o senhor tenha todas as felicidades que possa desejar e que nunca saiba de mim para não rir porque eu sei que não posso esperar mais.

Eu amo o senhor com toda a minha alma e toda a minha vida.

Aí tem e estou a chorar.

Maria José

quarta-feira, fevereiro 11, 2009

REMIXVILLE | Track#13

Tom Jones, já um pouco abalado pelo passar das décadas, canta "We Got Love", num quarto de hotel. Muita lindo.


O insondável destino do Bolinha.

Mas afinal, para onde vai Miguel Veloso? Eis uma ideia genial para um blog. A estrelinha de penúltima grandeza do Sporting Clube de Portugal, que já é crack da bola sem jogar coisa nenhuma que se veja, chora baba e ranho porque não vai para aqui ou para ali, faz birras e falta aos treinos. Buááááááááá, quero ir para Inglaterra! Mas eu quero! Buááááá!
Está a dar aqui.

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

Directamente da Banda Sonora de "Slumdog Millionaire".

Vicente Guedes ou o fantasma que se segue.

O último Livro do Desassossego que me veio parar às mãos (Edição de Teresa Sobral Cunha - Relógio d'Água), traz à estampa mais um fantasma do Pessoa. Chama-se Vicente Guedes e não é propriamente um heterónimo. É um personagem que o Virgem Negra decidiu inventar só para lhe roubar o diário. Nas páginas desse quotidiano apresenta-se um narrador torturado pelo amor místico, sobrevivendo com dificuldade a um complexo de irrealidades, platónico com dores de corno, austero e idealista, que escreve frases assim supremas em honra da Nossa Senhora do Silêncio:

"Sejamos castos como lábios mortos, puros como corpos sonhados, resignados a ser tudo isto, como freirinhas doidas..."

"O meu horror às mulheres reais que têm sexo é a estrada por onde fui ao teu encontro."

"Pura só tu, Senhora dos Sonhos, que eu posso conceber amante sem conceber mácula, porque és irreal. A ti posso-te conceber mãe, adorando-a, porque nunca te manchaste nem do horror de seres fecundada, nem do horror de parires."


Freud, amigo, volta que estás perdoado. O Vicente precisa de ti.

O Teatro de Pessoa.

PERSONAGENS FICTÍCIAS E HETERÓNIMOS CRIADOS POR FERNANDO PESSOA | Compilação de Teresa Rita Lopes (Por ordem de entrada em cena)


1. Dr. Pancracio – jornalista de A PALAVRA e de O PALRADOR, contista, poeta e charadista.
2. Luís António Congo – colaborador de O PALRADOR, cronista e apresentador de Eduardo Lança.
3. Eduardo Lança – colaborador de o PALRADOR, poeta luso-brasileiro.
4. A. Francisco de Paula Angard - colaborador de o PALRADOR, autor de «textos scientificos».
5. Pedro da Silva Salles (Pad Zé) - colaborador de o PALRADOR, autor e director da secção de anedotas.
6. José Rodrigues do Valle (Scicio), - colaborador de o PALRADOR, charadista e dito «director literário».
7. Pip - colaborador de o PALRADOR, poeta humorístico, autor de anedotas e charadas, predecessor neste domínio do Dr. Pancracio.
8. Dr. Caloiro - colaborador de o PALRADOR, jornalista-repórter de «A pesca das pérolas».
9. Morris & Theodor - colaborador de o PALRADOR, charadista.
10. Diabo Azul - colaborador de o PALRADOR, charadista.
11. Parry - colaborador de o PALRADOR, charadista.
12. Gallião Pequeno - colaborador de o PALRADOR, charadista.
13. Accursio Urbano - colaborador de o PALRADOR, charadista
14. Cecília - colaborador de o PALRADOR, charadista.
15. José Rasteiro - colaborador de o PALRADOR, autor de provérbios e adivinhas.
16. Tagus - colaborador no NATAL MERCURY (Durban).
17. Adolph Moscow - colaborador de o PALRADOR, romancista, autor de «Os Rapazes de Barrowby».
18. Marvell Kisch autor de um romance anunciado em O PALRADOR, («A Riqueza de um Doido»).
19. Gabriel Keene – autor de um romance anunciado em O PALRADOR, («Em Dias de Perigo»).
20. Sableton-Kay – autor de um romance anunciado em O PALRADOR, («A Lucta Aerea»).
21. Dr. Gaudêncio Nabos – director de O PALRADOR (3.ª série), jornalista e humorista anglo-português).
22. Nympha Negra – colaborador de O PALRADOR, charadista.
23. Professor Trochee – autor de um ensaio humorístico de conselhos aos jovens poetas.
24. David Merrick – poeta, contista e dramaturgo.
25. Lucas Merrick – contista (irmão de David?).
26. Willyam Links Esk – personagem de ficção que assina uma carta num inglês defeituoso (13/4/1905).
27. Charles Robert Anon – poeta, filósofo e contista.
28. Horace James Faber – ensaísta e contista.
29. Navas – tradutor de Horace J. Faber.
30. Alexander Search – poeta e contista.
31. Charles James Search – tradutor e ensaísta (irmão de Alexander).
32. Herr Prosit – tradutor de O Estudante de Salamanca de Espronceda.
33. Jean Seul de Méluret – poeta e ensaísta em francês.
34. Pantaleão – poeta e prosador.
35. Torquato Mendes Fonseca da Cunha Rey – autor (falecido) de um escrito sem título que Pantaleão decide publicar.
36. Gomes Pipa – anunciado como colaborador de O PHOSPHORO e da Empresa Íbis como autor de «Contos políticos».
37. Íbis – personagem da infância que acompanha Pessoa até ao fim da vida nas relações com os seus íntimos que sobretudo se exprimiu de viva voz, mas também assinou poemas.
38. Joaquim Moura Costa – poeta satírico, militante republicano, colaborador de O PHOSPHORO.
39. Faustino Antunes (A. Moreira) – psicólogo, autor de um «Ensaio sobre a Intuição»).
40. António Gomes - «licenciado em philosophia pela Universidade dos Inúteis», autor da «Historia Cómica do Çapateiro Affonso».
41. Vicente Guedes – tradutor, poeta, contista da Íbis, autor de um diário.
42. Gervásio Guedes – (irmão de Vicente?) autor de um texto anunciado, «A Coroação de Jorge Quinto», em tempos de O PHOSPHORO e da Empresa Íbis.
43. Carlos Otto – poeta e autor do «Tratado de Lucta Livre».
44. Miguel Otto – irmão provável de Carlos a quem teria sido passada a incumbência da tradução do «Tratado de Lucta Livre».
45. Frederick Wyatt – poeta e prosador em inglês.
46. Rev. Walter Wyatt – irmão clérigo de Frederick?
47. Alfred Wyatt – mais um irmão Wyatt, residente em Paris.
48. Bernardo Soares – poeta e prosador.
49. António Mora – filósofo e sociólogo, teórico do Neopaganismo.
50. Sher Henay – compilador e prefaciador de uma antologia sensacionalista em inglês.
51. Ricardo Reis – HETERÓNIMO.
52. Alberto Caeiro – HETERÓNIMO.
53. Álvaro de Campos - HETERÓNIMO.
54. Barão de Teive – prosador, autor de «Educação do Stoico» e «Daphnis e Chloe».
55. Maria José – escreve e assina «A Carta da Corcunda para o Serralheiro».
56. Abílio Quaresma – personagem de Pêro Botelho e autor de contos policiais.
57. Pero Botelho – contista e autor de cartas.
58. Efbeedee Pasha – autor de «Stories» humorísticas.
59. Thomas Crosse – inglês de pendor épico-ocultista, divulgador da cultura portuguesa.
60. I.I. Crosse – coadjuvante do irmão Thomas na divulgação de Campos e Caeiro.
61. A.A. Crosse – charadista e cruzadista.
62. António de Seabra – crítico literário do sensacionismo.
63. Frederico Reis – ensaísta, irmão (ou primo?) de Ricardo Reis sobre quem escreve.
64. Diniz da Silva – autor do poema «Loucura» e colaborador de EUROPA.
65. Coelho Pacheco – poeta in ORPHEU III e na revista projectada EUROPA.
66. Raphael Baldaya – astrólogo e autor de «Tratado da Negação» e «Princípios de Metaphysica Esotérica».
67. Claude Pasteur – francês, tradutor de CADERNOS DE RECONSTRUÇÃO PAGÃ dirigidos por A. Mora.
68. João Craveiro – jornalista sidonista.
69. Henry More – autor em prosa de comunicações mediúnicas - «romances do inconsciente» como Pessoa lhes chama.
70. Wardour – poeta revelado em comunicações mediúnicas.
71. J. M. Hyslop – poeta revelado em comunicação mediúnica.
72. Vadooisf [?] – poeta revelado em comunicação mediúnica.

REMIXVILLE | Track#12

Aida no santo trilho de "Les Concerts a Emporter", é a vez dos The National, numa versão naturalista de "Start a War". Para ouvir em paz e sossego.

Mais uma obra prima do Sr. Boyle.

quinta-feira, fevereiro 05, 2009

O menino bonito é um chorão horroroso.

O Sr. Tavares é um daqueles personagens da cenografia mediática nacional que me enerva deveras e cada vez mais. Nascido em berço de ouro, deve ter tido um único contratempo na sua vida aristocrática, quando a mãe lhe disse um dia que era melhor ficar pela prosa, porque não se ajeitava com os versos. Traumatizado, foi estudar direito para ser jornalista. Passados uns aninhos apenas, já era director de revista séria (por mérito próprio de certeza e não por ser filho de quem era) e lendário aventureiro errante a meses pelo deserto (a direcção era um cargo em part-time, pelos vistos, mas não precisava o Sr. Tavares de ir tão longe para fumar umas ganzas - também há haxixe na Costa da Caparica). Como todos os profetas, foi provavelmente no deserto que o Sr. Tavares encontrou o seu chamamento ambientalista, causa pela qual se sujeita ainda hoje a um milintantismo de adolescente e a ameaças de porrada. Porque o Sr. Tavares, lá do alto da sua fortaleza de reconhecida e amada e venerável persona pública, é dono da verdade e não tem medo de ninguém!

Ora, por preceito higiénico, procuro evitar a página que o Expresso coloca semanalmente ao dispor do Sr. Tavares (nem o arquitecto tinha direito a tanto espaço), muito porque a sua petulância, sendo geralmente risível, torna-se - a espaços - absolutamente irritante. Desta feita porém, num momento de fraqueza, caí em cheio neste parágrafo do seu sábio articulismo:


"É possível que (...) Portugal se torne ingovernável e que deixe até de reunir condições para existir, enquanto país independente - essa é, aliás, uma hipótese de trabalho que há muito considero como coisa possível e mais verosímil do que se imagina. Eu penso que Portugal não vale muito como nação e como povo (...). Vejo Portugal um pouco como aquelas mulheres fatais que, entre os vinte e tal e os quarenta e poucos anos, se habituaram a reinar como princesas, seduzindo e cativando tudo à roda e julgando-se eternamente senhoras do jogo. Mas, um dia, olham-se ao espelho, percebem que o seu poder de sedução está a desaparecer e correm para as plásticas, para os ginásios ou para um sem-número de truques com os quais julgam poder enganar eternamente o que, pela natureza das coisas, tem um fim. Um dia, dissipado o nevoeiro do espelho, com a miserável realidade das facturas para pagar, extinto o charme do fado, do sol e do bidonville algarvio, Portugal dar-se-á conta de que está sozinho e de que já ninguém se deixa seduzir pelo seu jogo de mulher fatal da Europa, o país "que deu novos mundos ao mundo", o Infante, as caravelas e toda essa conversa gasta."


Convenhamos: O Sr. Tavares, que sempre foi e será para sempre o menino bonito da esquerda portuguesa, não tem muito de que se queixar, e muito menos que lamentar-se do país em que nasceu e do povo que o atura. Portugal tratou esta figurinha muito acima do seu merecimento e certas portuguesas até o acham bonito, o que é espantoso.
Então agora, que é novelista de sucesso, com o público, a crítica e a TVI aos seus pés numa grande produção orgíaca do culto da personalidade, o Sr. Tavares acha-se muito superior a tudo e a todos e especialmente cínico no que respeita à análise que faz do país.

Pelo que nos é dado saber, o Sr. Tavares já há muito considera entregar a nacionalidade de borla, ao primeiro equivocado licitador, assim como os amigos de seu pai fizeram com as colónias. E o Sr. Tavares dá-se ao luxo de escrever esta traição, naquela página toda grande do Expresso, com o mesmo à vontade com que mantém semanalmente umas conversas sábias e entretidas com a D. Manuela, em prime time, para elevação da audiência. O Sr. Tavares acha que não tem culpa da estupidez, não é agente da falência moral, nem tem responsabilidade pelas crises de liderança porque ele está acima da grande merda, num plano olímpico. Enquanto compara a pátria a uma madona carunchosa, vai sugerindo que nos devíamos entregar ao primeiro amante que nos pusesse por conta.

Nem vale a pena comentar a elegância da metáfora, porque vem de quem vem, mas pelas tágides, o que dizer do projecto? Eu acho que o Sr. Tavares gostaria imenso de ser posto por conta, isso sim. E para não ficar sem a sua moradia da Lapa, prefere que se encomende o país ao estado espanhol ou chinês ou, já agora, angolano. Este Portugal que o Sr. Tavares odeia, e cuja história de nação primeira avilta galhardamente, seria bem melhor governado por José Eduardo dos Santos.

O Sr. Tavares devia voltar ao deserto. Faz lá muita falta ao folclore. Devia voltar ao deserto e ficar-se por lá a tomar um cházinho de décadas.

Eu sei que lhe ficaria grato.

REMIXVILLE | Track#11

Atenção, muita atenção: chegou a hora de Señor Coconut! O Jim Morrison que dê os pulos na campa que forem precisos, estou-me nas tintas. Esta versão de "Riders on the Storm", vinda directamente do Caribe, é uma maravilha das maravilhas. Não acham?


Anti-Telejornal | Epílogo

Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)


Álvaro de Campos

segunda-feira, fevereiro 02, 2009

Anti-Telejornal | A Valsa do Adeus.

No fim do verdadeiro amor, existe a morte, e só o amor no fim do qual existe a morte é o amor.
Milan Kundera

REMIXVILLE | Track#10

Na já célebre passagem de ano que me aconteceu recentemente, descobri, por generosidade de um amigo, um croony que é de talento humorístico e de espalhafatosa centelha. Dá pelo nome artístico de Richard Cheese e vai aparecer mais vezes, aqui no RemixVille. Por enquanto e para já fica esta recambolesca versão de "Creep"(mais uma. Acho que é a quarta versão desta música em dez temas e acho que estou a abusar dos Cabeça de Rádio). Divirtam-se.



Anti-Telejornal | Breaking News.

Carta de Fernando Pessoa para a Exma. Senhora Dona Ophélia Queiroz. Escrita em 9 de Outubro de 1929. A ortografia original foi preservada.


Terrivel Bebé:

Gosto de suas cartas, que são meiguinhas, e tambem gosto de si, que é meiginha tambem. E é bonbon, e é vespa, e é mel, que é das abelhas e não das vespas, e tudo está certo, e o Bebé deve escrever-me sempre, mesmo que não escreva, que é sempre, e eu estou triste, e sou maluco, e ninguem gosta de mim, e tambem porque é que a havia de gostar, e isso mesmo, e torna tudo ao principio, e parece-me que ainda lhe telephono hoje, e gostava de lhe dar um beijo na bocca, com exactidão e gulodice e comer-lhe a bocca e comer os beijinhos que tivesse lá escondidos e encostar-me ao seu hombro e escorregar para a ternura dos pombinhos, e pedir-lhe desculpa, e a desculpa ser a fingir, e tornar muitas vezes, e ponto final até recomeçar, e porque é que a Ophelinha de um meliante de um cevado e (...) e eu gostava que a Bebé fôsse uma boneca minha, e eu fazia como uma crença, despia-a, e o papel acabava aqui mesmo, e isto parece impossivel de ser escripto por um ente humano, mas é escripto por mim

Fernando

Super Bowl XLIII ou a morte de Cinderela.

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Acabou hoje a época de Futebol Americano, em Tampa Bay, com um dos mais espectaculares jogos dos 43 super bowls já disputados. Como no ano passado, o combate foi decidido nos últimos instantes do jogo e a vitória dos Pittsburgh Steelers é perfeitamente justa, apesar da luta épica oferecida pelos Cardinals, que tinham chocado o mundo por chegarem até aqui e que precisavam de despachar a coisa até à meia-noite, sob o risco do avião que os iria levar de regresso a Arizona se transformasse numa abóbora.

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Os últimos quinze minutos foram alucinantes. A perder 20-7, os Cardinals, comandados pelo instinto e maturidade de Kurt Warner e pelas qualidades raras de Fitzgerald, inventaram uma recuperação inédita na história das finais, colocando-se, a dois minutos do fim, à frente do marcador por 20-23.

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O problema foi que, da inesgotável cartola de Big Ben Roethlisberger, em definitivo o melhor quarterback da NFL, saiu um drive de improvisos e ilusionismos vários, que só acabou a 23 segundos do fim com um touch down do MVP Santonio Holmes, rapazinho cuja habilidade pertence ao domínio das artes circenses.

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O jogo proporcionou uma quantidade enorme de novos recordes absolutos, com destaque para estes três:
- Sexto título para os Steelers, que são agora o franchise mais vitorioso da liga.
- Run para touch down mais longo de sempre num Super Bowl: uma corrida incrível de Harrison - defensor do ano na NFL - cuja extensão foi exactamente a do terreno de jogo: 100 jardas inteirinhas.
- Com os dois desta noite, Fitzgerald é agora o detentor do recorde de touch downs numa só post-season, com 7.

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O grande, enorme, histórico jogo de futebol teve só uma pequenez: o insuportável cadáver de Bruce Springsteen - o camionista do rock - ao intervalo. Bah!

domingo, fevereiro 01, 2009

Amor ao livro.

Sempre assumi que tenho um amor físico, sexual, pelos livros. Gosto de olhar para eles na estante como o gajo da estiva (que eu já fui) gosta de olhar para a gaja boa que passa. Acho que os livros são sexy. Acho que os livros dão tesão. Gosto de mexer neles, gosto de os cheirar, gosto de fazer amor com as encadernações e apaixonar-me pelas páginas. Um bom programa, para mim, é rearrumar a biblioteca. Felizmente, trata-se de um projecto que dura vários dias, porque entre os meus e os da minha mulher ainda se somam alguns livros. Actualmente, são mil e trezentos cá em casa e mais quinhentos na cave e eu sou todo vaidoso disso.
Isto a propósito de ter recebido hoje uma prenda impagável da Joaninha, que é uma querida grande. Devo ter feito qualquer coisa de bem feito quando postei aquele texto relativo à obra prima do Andric, porque o post resultou nestas imagens absolutamente lindas que a minha amiga me enviou por santo email.





Uma edição de "A Ponte sobre o Drina", de Fevereiro de 1962. Que maravilha. Dá-me vontade de beijinhos. Dá-me vontade de ter uma montra com oito metros por três e colocar lá apenas isto. O Gutenberg é o gajo mais importante da história da humanidade. E a Joaninha vem logo a seguir. Obrigado aos dois.

sábado, janeiro 31, 2009

Anti-telejornal | Direito de resposta.

Primeira carta de Fernando Pessoa à Exma. Senhora Dona Ophélia Queiroz.

1.3.1920

Ophéliazinha:

Para me mostrar o seu desprezo, ou pelo menos, a sua indeffrença real, não era preciso o disfarce transparente de um discurso tão comprido, nem da serie de «razões» tão pouco sinceras como convincentes, que me escreveu. Bastava dizer-m'o. Assim, entendo da mesma maneira, mas doe-me mais.
Se prefere a mim o rapaz que namora, e de quem naturalmente gosta muito, como lhe posso eu levar isso a mal? A Opheliazinha pode preferir quem quizer: não tem obrigação - creio eu - de amar-me, nem, realmente necessidade (a não ser que queira divertir-se) de fingir que me ama.
Quem ama verdadeiramente não escreve cartas que parecem requerimentos de advogado. O amor não estuda tanto as cousas, nem trata os outros como réus que é preciso «entalar».
Porque não é franca comigo? Que empenho tem em fazer soffrer quem não lhe fez mal - nem a si, nem a ninguém-, e quem tem por peso e dor bastante a própria vida isolada e triste, e não precisa de que lh'a venham accrescentar creando-lhe esperanças falsas, mostrando-lhe affeições fingidas e isto sem que se perceba com que interesse, mesmo de divertimento, ou com que proveito, mesmo de troça.
Reconheço que tudo isto é comico, e que a parte mais comica d'isto tudo sou eu. Eu-proprio acharia graça, se não a amasse tanto, e se tivesse tempo para pensar em outra cousa que não fosse não fosse no soffrimento que tem prazer em causar-me sem que eu, a não ser por amál-a, o tenha merecido, e creio bem que amál-a não é razão bastante para o merecer. Enfim...

Ahi fica o «documento escripto» que me pede. Reconhece a minha assinatura o tabelião Eugenio Silva.

quarta-feira, janeiro 28, 2009

A Conspiração Disney.


Talvez graças à popularidade dos guiões de Dan Brown e dos powerpoints de Al Gore e dos devaneios de Hollywood, nos dias que correm o assunto que está na moda parece ser o da teoria da conspiração. Chegam-me ao email uma quantidade delas por dia. Umas risíveis, outras armadas em sérias, mas todas com um ponto em comum: A administração Bush culmina um maquiavélico reinado de terror que terá durado desde que Moisés (um filho da puta) prometeu o mel à sua tribo esfomeada.

De todas elas destaco 3, pela sua comicidade:

1 - Comprometidos pela ausente relação de proporcionalidade entre as reservas de ouro e o papel monetário emitido desde o pós-guerra, embalados pelo atentado às torres gémeas (acto da responsabilidade da CIA), os Estados Unidos invadiram o Iraque porque Sadam Hussein estava a vender o petróleo em euros!


2 - O Cristianismo, e toda a anterior novela hebraica, é um plágio e uma fraude. Constantino, em Niceia, orquestrou a coisa de tal forma que Deus se tornou num ópio de consumo doméstico para auto-escravidão dos crentes. Cristo nunca chegou realmente a existir. A Igreja é uma máfia e as cruzadas e as fogueiras estão aí como prova.
A Administração Bush, a CIA, o FBI, as Forças Armadas, o Senado, o Congresso, as Autoridades de Controlo do Tráfego Aéreo, as seguradoras e mais algumas empresas de dimensão pan-satânica associaram-se à família real da Arábia Saudita para enganar a América e o mundo. Cumprindo um esquema muito bem montado por Darth Cheney, o príncipe das trevas, dinamitaram as torres gémeas e um cantinho do pentágono, escavaram um buraco no chão na Pensilvânia, fizeram umas fotomontagens manhosas e umas gravações piratas e venderam tudo aos media que engoliram a coisa a seco e vomitaram depois uma versão estranha dos acontecimentos: que uns fanáticos religiosos no médio oriente eram capazes de um horror assim. E tudo isto para quê? Para dominar o mundo!
E em conclusão: os banqueiros são todos uns bandidos e a Reserva Federal Americana é a sua fábrica de infâmias. Andamos para aqui todos alienados, hipnotizados, pelos poderosos deste mundo.

3 - O petróleo não é um combustível fóssil, cresce por geração espontânea dentro da terra e isto está provadíssimo desde o século XIX, só que o maléfico conclave do capitalismo ocidental e a família real Saudita (outra vez estes) estão há muito unidos para que a malta não saiba deste facto científico e continue a comprar a gasolina a preços escandalosos.

A cena cómica das conspirações tem a ver com o facto de ser pacífico para os seus inventores que segredos tenebrosos e manipuladores de dimensão olímpica possam permanecer ocultos do conhecimento das massas, durante gerações ou mesmo milénios. Isto até que o autor do revisionismo perceba tudo sozinho, num orgasmo messiânico de sabedoria transversal. A conspiração que revela está bem montada ao ponto de alienar o conhecimento académico e científico que é produto de séculos, mas bastaram-lhe umas horas de pesquisa no google para ficar por dentro da grande mascarada.

Estas conspirações ignoram fenómenos entrópicos como a mobilidade social, o escrutínio dos media, a estupidez humana, a disfunção grupal, a decadência das organizações, o carácter aleatório e indeterminado dos processos político-sociais; e sobre-valorizam a capacidade das instituições corporativas (forças de um grande diabo), contra todas as evidências da história. O seu maniqueísmo não permite margens de ponderação: há os bons e os maus e há um jugo destes sobre aqueles. Bem vindo ao mundo da Marvel Comics.

Geralmente, os documentos que me chegam revelam ignorâncias profundas dos temas que afloram. No primeiro caso, há um desconhecimento elementar dos fundamentos da política monetária e da história económica nos países ocidentais; no segundo, o autor parece ter decorado toda a matemática do universo mitológico humano, sem ficar a perceber nada sobre a sua semântica; revelando acrescidamente um total desentendimento da segunda lei da termodinâmica. No terceiro, que é o mais cómico de todos, a iluminária faz simplesmente tábua da ciência geológica contemporânea, entre outras ousadias de ilusionista.

Nalguns destes proféticos escritos, nota-se uma preocupação em comprovar a teoria com factos. Mas nunca há notas de rodapé que nos permitam confirmar a coisa, nem sequer algo parecido com uma bibliografia. Diz-se que de certeza que é assim e pronto, está provado, dada a credibilidade da fonte incógnita.

Ora, para demonstrar que é muito fácil parir, nuns minutos só, uma teoria da conspiração que pareça minimamente razoável, apesar dos fundamentos disparatados, deixo aqui esta que vou inventando à medida que a vou escrevendo:

No princípio não era o verbo. Era o Rato Mickey. O mundo como o conhecemos começou a 16 de Outubro de 1923, quando Walt Disney (que ainda vive) fundou a sua homónima companhia. Tudo o que está para trás é uma manobra multimédia dos seus estúdios, para nos fazer acreditar que não somos figurinhas de um filme animado. Como a animação em imagem real é muito trabalhosa, só temos fotografia e filme a partir do Século XIX.
A invenção da religião serve para procurarmos transcendência nas salas de cinema (os verdadeiros templos do nosso tempo) e não me digam que nunca repararam que Jesus Cristo foi construído à imagem e semelhança do Pato Donald. Já o percurso regimental das estruturas tribais ao capitalismo, foi estruturado pelos criativos da companhia apenas com o fim de legitimar o Tio Patinhas.
Todos os grandes fenómenos sociais ocorridos desde 1923 devem-se a interesses específicos da Walt Disney Company, isto está provado. A Segunda Grande Guerra, por exemplo, desencadeia-se por causa de um problema de direitos de autor: Hitler era um personagem há muito criado por Walt, mas que terá sido entretanto usado fora do contexto pelo atellier da Disney em Berlim.
A guerra fria foi pensada para barrar o acesso dos povos ocidentais à escola clandestina de animação dos países de leste. Vasco Granja bem que nos tentou mostrar o mundo lá fora, mas ninguém acreditou que aquilo fosse possível.
Bush filho é o alter ego do Pateta e a guerra no Iraque foi proposta por um assistente de Walt para resolver o problema de uma história que, nos anos 90, estava a chegar ao fim.


Agora vou fazer um powerpoint com isto e enviar para a minha lista de contactos.

segunda-feira, janeiro 26, 2009

REMIXVILLE | Track#9

Mais uma preciosidade La Blogoteque: Os Vampire Weekend, enfiados numa carrinha, interpretam uma versão apertada de Mansard Roof. Onde se demonstra que, em definitivo, a arte pop é algo de muito desconfortável.

domingo, janeiro 25, 2009

Anti-telejornal.

Relato da Exma. Senhora Dona Ophélia Queiroz, destinatária das célebres cartas de amor de Fernando Pessoa, recolhido e estruturado por sua sobrinha-neta Maria da Graça Queiroz.

Um dia faltou a luz no escritório. O Freitas não estava e o Osório, o «grumete», tinha saído a fazer um recado. O Fernando foi buscar um candeeiro de petróleo, acendeu-o e pô-lo em cima da minha secretária.
Um pouco antes da hora de saída, atirou-me um bilhetezinho para cima da secretária, que dizia: «Peço-lhe que fique». Eu fiquei, na expectativa. Nessa altura já eu me tinha apercebido do interesse do Fernando por mim, e eu confesso, também lhe achava uma certa graça...
Lembro-me que estava em pé, a vestir o casaco, quando ele entrou no meu gabinete. Sentou-se na minha cadeira, pousou o candeeiro que trazia na mão e, virado para mim, começou de repente a declarar-se, como Hamlet se declarou a Ofélia: «Ó, querida Ofélia! Meço mal os meus versos; careço de arte para medir os meus suspiros; mas amo-te em extremo. Oh! até do último extremo, acredita!»
Fiquei pertubadíssima, como é natural, e, sem saber o que havia de dizer, acabei de vestir o casaco e despedi-me precipitadamente. O Fernando levantou-se, com o candeeiro na mão, para me acompanhar até à porta. Mas, de repente, pousou-o sobre a divisória da parede; sem eu esperar, agarrou-me pela cintura, abraçou-me e, sem dizer uma palavra, beijou-me, beijou-me apaixonadamente, como louco.
Surgem assim os primeiros versos que me dedicou; versos que infelizmente depois me desapareceram, mas que nunca esqueci:


Fiquei louco, fiquei tonto,
Meus beijos foram sem conto,
Apartei-a contra mim,
Enlacei-a nos meus braços,
Embriaguei-me de abraços,
Fiquei louco e foi assim.

Dá-me beijos, dá-me tantos
Que enleado em teus encantos,
Preso nos abraços teus,
Eu não sinta a própria alma, ave perdida
No azul-amor dos teus céus.

Boquinha dos meus amores,
Lindinha como as flores,
Minha boneca que tem
Bracinhos para enlaçar-me
E tantos beijos p'ra dar-me
Quantos eu lhes dou também.

Botão de rosa menina,
Carinhosa, pequenina,
Corpinho de tentação,
Vem morar na minha vida,
Dá em ti terna guarida
Ao meu pobre coração.

Não descanso, não projecto,
Nada certo e sempre inquieto
Quando te não vejo, amor,
Por te beijar e não beijo,
Por não me encher o desejo
Mesmo o meu beijo maior.

Ai que tortura, que fogo,
Se estou perto d'ela é logo
Uma névoa em meu olhar,
Uma núvem em minha alma,
Perdida de toda a calma,
E eu sem a poder achar.


Fui para casa, comprometida e confusa. Passaram-se dias e como o Fernando parecia ignorar o que se havia passado entre nós, resolvi eu escrever uma carta, pedindo-lhe uma explicação. É o que dá origem à sua primeira carta-resposta, datada de 1 de Março de 1920.

Assim começámos o namoro.

sábado, janeiro 24, 2009

REMIXVILLE | Track#8

Para falar, pouco que seja, sobre este tema, tenho que ter muito cuidado. É que ainda não consegui perceber se o original de Gloria Gaynor é:
a) Uma malha épica,
b) Um hino gay ou
c) um pirosismo.

Apesar de saber claramente que não sou maricas, tenho dúvidas grandes sobre o bom e o mau gosto. Seja como for, não me envergonho nada de assumir uma relação passional com esta versão dos Cake. Há aqui um solo de guitarra que me diz, com voz de metralhadora: deverás sobreviver. E, até ver, tenho acreditado nisto.


Borges e a recolha do lixo.

"Se pudéssemos oferecer a um chimpanzé a eternidade e uma máquina de escrever, ele ia acabar por redigir a Odisseia."

Kubrick e a recolha do lixo.



Queria só chamar a atenção da gentil plateia para este filmaço. Não sei se as crianças vão gostar, mas prometo que os mais crescidos vão curtir imenso (tenho muita fé na audiência). A narrativa é um labirinto de metáforas e o conteúdo gráfico é deslumbrante. Óscar para o melhor momento de felicidade visual do ano.

quarta-feira, janeiro 21, 2009

A repetida recomendação de Charles Baudelaire.

Enivrez-Vous

Il faut être toujours ivre.
Tout est là:
c'est l'unique question.
Pour ne pas sentir
l'horrible fardeau du Temps
qui brise vos épaules
et vous penche vers la terre,
il faut vous enivrer sans trêve.
Mais de quoi?
De vin, de poésie, ou de vertu, à votre guise.
Mais enivrez-vous.
Et si quelquefois,
sur les marches d'un palais,
sur l'herbe verte d'un fossé,
dans la solitude morne de votre chambre,
vous vous réveillez,
l'ivresse déjà diminuée ou disparue,
demandez au vent,
à la vague,
à l'étoile,
à l'oiseau,
à l'horloge,
à tout ce qui fuit,
à tout ce qui gémit,
à tout ce qui roule,
à tout ce qui chante,
à tout ce qui parle,
demandez quelle heure il est;
et le vent,
la vague,
l'étoile,
l'oiseau,
l'horloge,
vous répondront:
"Il est l'heure de s'enivrer!
Pour n'être pas les esclaves martyrisés du Temps,
enivrez-vous;
enivrez-vous sans cesse!
De vin, de poésie ou de vertu, à votre guise."



Agora para anglófonos de todo o mundo
:


Get Drunk


Always be drunk.
That's it!
The great imperative!
In order not to feel
Time's horrid fardel
bruise your shoulders,
grinding you into the earth,
Get drunk and stay that way.
On what?
On wine, poetry, virtue, whatever.
But get drunk.
And if you sometimes happen to wake up
on the porches of a palace,
in the green grass of a ditch,
in the dismal loneliness of your own room,
your drunkenness gone or disappearing,
ask the wind,
the wave,
the star,
the bird,
the clock,
ask everything that flees,
everything that groans
or rolls
or sings,
everything that speaks,
ask what time it is;
and the wind,
the wave,
the star,
the bird,
the clock
will answer you:
"Time to get drunk!
Don't be martyred slaves of Time,
Get drunk!
Stay drunk!
On wine, virtue, poetry, whatever!"



Agora a minha versão em português de tasca:


Embebeda-te!


Deves estar sempre bêbedo.
Tudo se resume a esta questão:
de forma a deixares de sentir
o horrível fardo do tempo
que te pesa nos ombros
e te prende à terra,
deves embebedar-te sem tréguas.
Mas com quê?
Com vinho, com poesia ou com virtude,
é só escolher, mas embebeda-te.
E se alguma vez acordares
no pórtico de um palácio,
na verdura de uma vala,
na sombria solidão do teu quarto
e a bebedeira tiver diminuído ou desaparecido,
pergunta ao vento,
à vaga,
à estrela,
ao pássaro,
ao relógio,
a tudo o que foge,
a tudo o que geme,
a tudo o que gira,
a tudo o que canta,
a tudo o que fala,
pergunta que horas são
e o vento,
a vaga,
a estrela,
o pássaro
e o relógio responderão:
“São horas de te embebedares!
Para que não sejas escravo martirizado do tempo, embebeda-te, embebeda-te sem tréguas!
Com vinho, com poesia, com virtude,
é só escolher."

segunda-feira, janeiro 19, 2009

REMIXVILLE | Track#7

Recuo para o Verão de 1998. Estou a viver em Santos-o-Velho, nas águas furtadas de um edifício que tem seguramente uns 250 anos e uma acústica doida. A rua chama-se da Silva. Cai a noite quente sobre os telhados silenciosos quando ponho um disquinho a tocar. The K&D Sessions. A partir desse momento, oiço-o 16 horas por dia, durante semanas. Só consigo ouvir isto.
Hoje, já não lhe ligo grande coisa. Nem toda a grande música é elástica sobre o tempo. Salva-se porém uma versão intensa e dramática de "Useless", que me deixa invariavelmente enebriado. O trabalho de percussão é de espantoso e germânico rigor técnico e os Depeche Mode nunca soaram tão bem na sua vidinha de banda média. Façam boa viagem.


domingo, janeiro 11, 2009

Not responding properly to mission demands.



O impossível é uma fronteira, ou uma viagem? Se deixar a alfândega e entrar na carruagem, Deus fica zangado? Passo os dias a sonhar acordado com o diabo de uma passagem.

A física dos homens é de precisa matemática e até a quântica há-de ter a sua gramática. Mas o cosmos - está provado - não é exacto mestrado: é uma valsa acrobática.

E se o acelerador perder o medo à embraiagem e disparar para além dos limites da paisagem, o que é que acontece? Não é a velocidade que favorece a corrosão na fuselagem.

Sábios de todo o mundo e druidas de sacristia amontoaram vãs descobertas em grande histeria. Não me digam que faz sentido o mundo conhecido ou a gravidez de Virgem Maria.

Num universo dividido entre o infinito e o zero, reina a lógica de Aristóteles ou a poética de Homero? Prostrados na Lua do sul pelo paralelepípedo azul, os astronautas são os deuses, ou o clero?

O impossível é uma fronteira, ou uma viagem? E o pássaro sem trem de aterragem que voa da Terra aérea para a negra matéria: é uma cruz, ou uma fotomontagem?

E se de repente o tempo se resumir num evento, a quanto marcha a velocidade do pensamento? Para o bem e para o mal, a versão 9000 do HAL tem resposta no momento.

O impossível é uma ilíada, ou uma odisseia? É a fusão nuclear que se desencadeia e este é o alinhamento da rampa de lançamento que é necessária à epopeia.

sábado, janeiro 10, 2009

sexta-feira, janeiro 09, 2009

A fraude ambientalista ou o rei vai nu.

Eu sei que é pedir muito, mas todos aqueles que sempre acharam a minha tese sobre o mito ambientalista um delírio irresponsável, ou - no mínimo - uma idiossincrasia ideológica, deviam perder dez minutos com este bocadinho do documentário do Chanell Four The Great Global Warming Swindle. Aqui, os protagonistas não são políticos, nem activistas, nem jornalistas. São cientistas. São pessoas que se dedicam à perseguição da verdade, por muito inconveniente que seja.
A cada dia que passa, é mais evidente que o rei vai nu: e tu, caro leitor, queres ser o último a perceber que andas a ser enganado?

REMIXVILLE | Track#6

Sempre que entro no Fusco-Lusco, estou a aprender qualquer coisa de novo. E isso é, se calhar, o melhor que pode acontecer a quem visita um blog. Desta vez, o ilustre autor decidiu apresentar à plateia um sitio que tem um toque de génio e é recomendável apenas aos desgraçados que amam realmente a música. Todos os outros estarão aqui a perder tempo. É necessário estar-se verdadeiramente embriagado de paixão pela música para ir ao ponto zen de La Blogotheque. Mas compensa à brava. Na brilhante série de clips que constitui a lista Les Concerts a Emporter descobri este momento de pura transcendência que cai a matar no Remixville: Kele Okereke e Russell Lissack, dos Bloc Party, interpretam uma versão de This Modern Love estranhamente bela, à saida de um bar em Paris. É uma coisa pura como o diabo, destituída de tudo menos do que é autêntico, no poema e na melodia. É uma coisa tão natural que nos perguntamos se existe de facto. Eu recomendo, mesmo, que parem tudo durante um bocadinho, aumentem um pouco o volume, e oiçam isto:


Bloc Party, 'This Modern Love' - A Take Away Show from La Blogotheque on Vimeo.

quarta-feira, janeiro 07, 2009

Carta aberta ao Dr. Alfredo Barroso.

Lisboa, 7 de Janeiro de 2009.

Exmo. Senhor Dr. Alfredo Barroso;

Aceite desde já as minhas mais sinceras desculpas por fazer desta carta assunto público, mas compreenderá que já ninguém tem paciência para enviar correspondência pelos CTT. Faz-se hoje de tudo, nos CTT, excepto enviar correspondência. Mais a mais, desconheço o seu endereço electrónico e, convenhamos, para alguma coisa servirá um blog.

O objecto deste meu atrevimento relaciona-se com a sua intervenção de ontem, Terça-Feira, no Jornal das 21h00 da Sic Notícias. Logo no prefácio da sua sábia elocução protestou V. Exa. contra a intervenção das Forças Armadas Israelitas na Faixa de Gaza por ser - e eu cito-o - brutal, desproporcionada e carregada de oportunismo político.

Para rematar a tirada, responsabilizou, com a originalidade e a ironia que se lhe reconhecem, os serviços secretos israelitas pela criação do Hamas, acrescentando - permita-me - a já estafada analogia que responsabiliza a CIA pelos mujaidin e pelos talibãs e pela Al Quaeda (não fossem os americanos a primeira e última doença da Terra).

Ora, caro Sr. Dr., permita-me que conteste a sua tese que - francamente - não está à altura de um protagonista da democracia portuguesa e do seu perfil intelectual.

Comecemos pelo princípio: o de que a intervenção é condenável porque é brutal. Ora, perdoe-me, mas não sei se existe na história universal do ódio um conflito bélico que seja menos que exactamente isso. A Guerra é brutal, Senhor Dr. Alfredo Barroso. E é precisamente a tendência que o homem tem para a brutalidade que o leva à guerra. Não creio que um General, mesmo socialista, esteja preocupado com a brutalidade do ataque que planeia. Ao invés, a lógica de um exército em combate é a de provocar invariavelmente o máximo impacto no inimigo.

Por outro lado, parece-me também brutal a estratégia de despejar periódica, aleatória e impunemente uns morteiros nas cidades israelitas, mas - curiosamente - essa brutalidade já não faz o seu género. Quem sabe, colocará V. Exa. este facto na categoria dos actos de fé, e nesse sentido aceitáveis de acordo com a liberdade religiosa e de prática religiosa, cânone modelar da república segundo a Acção Socialista Portuguesa de que V. Exa. foi membro ilustre.

Queira considerar porém, que não será na Palestina do Hamas que vai encontrar as liberdades fundamentais que defende, mas sim em Israel, nação que apesar de ter origem numa promessa de Deus, constituiu-se como um estado laico, democrático e de direito.

Aliás, faz-me não modesta estranheza que sendo V. Exa. um campeão dos direitos humanos, das causas igualitárias, da promoção do papel das mulheres na sociedade e da defesa das minorias, seja solidário ainda assim com movimentos como o Hamas, cuja filosofia de estado, concepção sociológica e entendimento do género sexual não casam com os ensaios de Bertrand Russel ou os devaneios de Sartre, personagens que, bem sei, guarda ciosamente na sua biblioteca dos afectos.

Mas voltemos às suas palavras: a intervenção israelita na Faixa de Gaza é desproporcionada. Bom, com esta é que, devo reconhecer, o Sr. Dr. me deixou perplexo.
O Sr. Dr. acha talvez que o estado isrealita deveria combater a constante agressão que assola o seu território da mesma forma que este é assolado. Com uns rockets disparados à toa, de tantas em tantas horas, acertem em quem acertarem, com pausa para a sinagoga de uns e a mesquita dos outros. Com tolerância e savoir vivre. Caro Dr. Barroso, francamente, por muito menos do que acontece diariamente naquele bocado do Médio Oriente já rebentaram mais guerras na Europa que discórdias no Olimpo!

Mais a mais, parece-me uma máxima de primeiro ano de escola militar que a invasão armada de um território hostil deve ser considerada apenas quando existe uma desproporção favorável ao exército invasor. Quero dizer: acha que Hitler tinha entrado pela Polónia a dentro se não tivesse a certeza do desequilibro das forças em presença? E os ingleses, não esperaram pelo poder dos tardios americanos para libertar a França? Recuando no tempo, existia ou não uma diferença grande de número, preparação e equipamento entre os dois lados de Austerlitz? Decididos a terminar com os Tudor, não chamaram os espanhóis Invencível à sua armada? Mais para trás ainda: Alexandre chegou à Índia com uma brigada de valentes ou com o maior exército alguma vez formado até aquele momento no tempo? E de volta ao presente do indicativo, como é que responderam os russos ao patético episódio do Cáucaso? Com meios canhões? A desproporção faz parte da guerra e quando não há desproporção não há guerra: foi precisamente o equilíbrio entre duas potências nucleares inimigas que nos salvou a todos daquela que seria a última cena de pancadaria da história dos animais humanos.

Para fechar este parâmetro e numa palavra só, toda a desproporção que pode haver: Hiroxima. V. Exa. provavelmente teria preferido que os americanos invadissem convencionalmente o Japão, numa situação de equilíbrio de forças, mesmo sabendo que o imperador mandou armar a população civil e que as forças reservistas nipónicas contavam-se ainda às centenas de milhar. Mesmo sabendo que uma invasão convencional do Japão provocaria 10 a 20 vezes o número de mortos das duas explosões atómicas que fecharam a Segunda Grande Guerra. São opiniões, mas não tenho nesta matéria - devo confessar - grande respeito pela sua.

Quanto à questão do oportunismo político, estamos mais ou menos no mesmo ponto de desacordo. Não vejo novidade nenhuma ou qualquer anormalidade moral no facto de um conflito bélico ter origem na conveniência política. Até porque os conflitos bélicos têm, fundamentalmente, origem no triunfo de uma ou várias de três grandes vilanias: a religião, a política e a economia. O Sr. Dr. não quererá concerteza insinuar que seria mais nobre invadir a faixa de Gaza por ganância. Ou por amor a deus. Como o território em questão não brilha de jazidas e o estado Israelita é laico, bem vê que outra razão não poderia haver para esta operação militar.

Mas deixe-me questioná-lo: não existe oportunismo político por parte do Irão, quando paga, doutrina, treina e arma as forças do Hamas? Forças que fazem das casas da população civil pontes de assalto provisório, para que depois lá fiquem os inocentes que serão feitos explodir pela retaliação israelita? Forças que doutrinam crianças no uso do ódio e da metralhadora? Agirá, nesta como noutras matérias, o estado Iraniano de forma politicamente desinteressada? Obviamente que não, mas não vejo no Sr. Dr. o mesmo zelo acusatório, facto que me confunde deveras, dado o seu reconhecido sentido ético e equitativo juízo de insigne humanista.

Tendo consciência que esta carta se alongou por demais, não posso por lealdade retórica ainda assim esquivar-me ao último contraditório. Falou também V. Exa. que a Mossad criou em hora desastrada o Hamas que agora combate. Assumindo esta afirmação como verdadeira e axiomática (V. Exa. deve seguramente dispor de privilegiados acessos a informação que não consta nas fontes acessíveis ao comum dos mortais); assumindo que não é só uma opinião da wikipedia, um wishful thinking ou um mito de telejornal; assumindo que a Mossad estaria interessada em envolver-se com a Síria, com a Arábia Saudita e com a Irmandade Muçulmana na criação de um movimento paramilitar de vocação radical islamita na Palestina; assumindo tudo isto com tranquilidade, pergunto-lhe: e então?

Abra comigo, mais uma vez - e ao calhas - o livro de história: Átila foi ensinado pelos romanos, militarizado pelos romanos e só não tomou Roma por causa da doença má que infestava a cidade. A vitória na Batalha de Lepanto resultou da união entre dois lendários inimigos: Filipe II e os Dodges de Veneza. Estes, por seu turno, azucrinaram várias vezes a coroa espanhola ao permitir (e incentivar!) a pirataria levantina sobre o comércio catalão. Os califados desavindos da Península Ibérica da alta idade média uniam-se para combater o infiel. Quando o infiel era batido, entretinham-se em batalhas intestinas. No mais contemporâneo conflito dos Balcãs, croatas e sérvios e bósnios e albaneses, cristãos e muçulmanos e ortodoxos, todos eles trocaram alianças a meio caminho e inverteram a direcção da guerra, no jogo da sobrevivência. Hitler é amiguinho de Estaline, até invadir a Rússia. O Czar Alexandre namorou com Napoleão até que lhe pareceu mais favorável romper com o Bloqueio Continental. Para as nove cruzadas marcharam inimigos antigos, abraçados num pacto de sangue. Alguns deles, mataram-se lá. Outros regressaram para se matarem aqui.

V. Exa. reconhecerá que podíamos estar aqui a arrancar belos exemplos do passado durante a eternidade toda. Por isso, não pasme por serem as alianças de hoje, ameaças para amanhã. O homem é um bicho inconstante.

E, de todo o jeito, dizer que o Hamas de 1987 é o Hamas de hoje, é mais ou menos equivalente a dizer que a Casa Branca de Ronald Reagan é a mesma com Barak Obama lá dentro.

Mas V. Exa. - desconfio eu - sabe concerteza de tudo isto. V. Exa., com a sua intervenção de hoje, demonstrou também algum oportunismo político. E o cinismo retórico sem o qual não teria porventura sido a sua vida marcante sobre o panorama da Terceira República. O que é natural. As pessoas são assim mesmo.

E mais não digo, por decência e economia.

Obrigado pela sua atenção e aceite os meus mais considerados cumprimentos.

De V. Exa. eterno adversário ideológico,

Paulo Hasse Paixão

segunda-feira, janeiro 05, 2009

Marcha de Castelo Bom


Foto de Susana Baptista

A Raia, castro olímpico e marciano,
de sangue francês e castelhano
estampado na portela.
Os canhões de Almeida dizem-me da guerra
e os ventos cerrados dizem-me da Serra
da Estrela.

Sobrevive um medo antigo nestas aldeias
fortalezas, fragas e ameias
de um reino perdido.
Em Castelo Mendo uma velhinha mora
que vende a Nossa Senhora
num cromo colorido.

O Artur olha para dentro da objectiva,
guarda um silêncio que me castiga
e diz que vê uma vagina.
Se não estivessem zero graus lá fora,
eu atirava-me agora
para a piscina.

Grande circo: deixo cair a alma no chão.
"Não faz mal nenhum Paixão,
ela vem ao de cima outra vez."
Cheguei com ideias de revisionista
mas afinal sou malabarista,
este mês.

Tantos anos de liceu e quatro de faculdade
não me ensinaram metade,
nem vencem o que aprendi.
Talvez por ter sido aluno mau
nunca me disseram: "genau!
wie heissen sie?"

Bebo mais um copo e o actor pede justiça:
"Vamos falar de piça!"
A conversa sobe de tom.
Tantos anos de liceu e quatro de faculdade
não guardam a verdade
de Castelo Bom.

O síndroma de narciso.


Devo reconhecer que a minha imagem fotográfica me ofende deveras. Os Navajos temiam que o fotógrafo lhes roubasse a alma. Eu acho que o gajo me vai roubar a vaidade. Recuso-me a acreditar que sou tão feio como aquele tipo que me aparece revelado. O grande Vitor Briga, entretanto, fez-me a partida alquímica de capturar um espectacular boneco comigo lá dentro. Um trabalho nos limites da estética, da física e da termo-dinâmica, em plena conferência do Io-Iô. Ser substituído pela cenografia é a minha ideia de retrato. Fico vaidoso pelo fotógrafo, fico vaidoso dos gráficos e não sou humilhado pela fotogenia. Que pinta.

segunda-feira, dezembro 29, 2008

REMIXVILLE | Track#5

Inventado em 1965, por Mick Jagger e Keith Richards o tema "(I Can't Get No) Satisfaction" nunca mais deixou de incendiar os apetites adolescentes das várias gerações que entretanto foram paridas.
É um super clássico do Rock'n Roll e com toda a justiça, porque tem os ingredientes todos: rebeldia sem causa, sexo, poesia e uns riffs de cair para o lado.
Uns bons 20 anos depois da sua composição, um grupelho de extravagantes robots popularmente conhecidos por D.E.V.O. ("Q: Are we not men? A: We are D.E.V.O.") decidiu revisitar o grande êxito dos Rolling Stones, eliminando quase por completo o trabalho de Richards e sobrepondo-lhe uma linha de percussão minimal e repetitiva que é de génio a valer. A coisa também se torna interessante porque o andróide vocalista parece ter sido ligado à corrente eléctrica.
É com os D.E.V.O., e com o imortal assunto da insatisfação humana, que me despeço até para o ano. Shake a leg!

sábado, dezembro 27, 2008

Uma ponte sobre a discórdia.



Este é um dos mais belos romances que li na vida e li-o este ano. A personagem central é uma ponte. Uma ponte fronteira e uma ponte união, uma ponte que separa impérios e que congrega religiões. Uma ponte sobre o rio e sobre o tempo e sobre o ódios dos homens. Um ponte que encerra fantasmas e grita por vinganças. Uma ponte que chora e que se desmorona. Uma ponte que é um alvo e uma conquista, que traz o aviso de perigos e a promessa de reforços. Agora otomana e depois austro-húngara, um dia bósnia e sérvia na manhã seguinte, fiel pelos séculos e herege de repente, sacrossanta e comunista, é uma ponte que faz trânsito para a redenção ou que conduz ao inferno, que salva e condena mas, sobretudo, é uma ponte que existe. Que é concreta. Que não é uma metáfora.
Quando terminei a leitura desta obra-prima do Nóbel Ivo Andric, pensava que o raio da ponte era uma metáfora e fiquei-me com essa. Dei provas, por isso, de ignorância e preguiça mental. O meu amigo Nuno Silva, que teve a inspiração de me oferecer o livro, foi pelo contrário mais inteligente e mais curioso e descobriu que a ponte existia mesmo, como sempre tinha desconfiado.
Mandada levantar no Século XVI pelo vizir Mehmed Pasha Sokolović, foi desenhada por Mimar Koca Sinan, um dos mais célebres arquitectos do Império Otomano e é um clássico da sua época, atravessando com rara elegância as águas temperamentais do Rio Drina. Os seus 11 harmoniosos arcos servem ainda hoje a cidade de Višegrad, no Leste da Bósnia e Herzegovina.
A Ponte Mehmed Pasha Sokolović sobreviveu a quatrocentos invernos e resistiu à queda de dois impérios só para ter que suportar o insuportável século XX: sofreu na sua pele de pedra os ferimentos das duas grandes guerras e foi palco para chacinas no conflito dos Balcãs. A Ponte está ali, ainda. Testemunha de crimes e cúmplice de revoluções. Está viva, mostra as suas cicatrizes mas eleva-se inteira, artéria maior no coração de um continente exausto.

terça-feira, dezembro 23, 2008

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Algumas lúcidas palavras do falecido senhor George Carlin

Sempre tive grandes divergências com o universo ideológico de George Carlin, mas estou 100% de acordo com o seguinte:

REMIXVILLE | Track#4

Ainda na companhia dos Radiohead, deixo-vos como presente de Natal uma versão-latina-américa de High and Dry, interpretada por uns senhores chamados El Lele De Los Van Van e retirada do muito agradável álbum "Rythms Del Mundo", projecto que apresenta surpreendentes revisões latinas de alguns dos mais brilhantes êxitos da história pop/rock recente. Uma verdadeira pérola, até na tradução para o castelhano. Feliz Navidad!

sexta-feira, dezembro 19, 2008

Um maço por dia dá saúde e energia.

Sapateado ou o mundo ao contrário.

Há algo de irreal nisto: o parlamento iraquiano existe porque os americanos chegaram lá e impuseram um. Neste parlamento, hoje, quase aconteceu porrada porque foi sujeita ao debate uma moção que condenava o sapato voador à heresia e o seu esquizofrénico dono à prisão. O partidinho Xiita que está ali porque os americanos decidiram deixá-lo estar, escandalizou-se todo. E desbroncou a insigne assembleia com impropérios e ameaças de Alá da mais variada nomenclatura.

Há algo de irreal nisto: o presidente eleito de um país livre, de um país que anda há um século a desenrascar o restante mundo livre, é alvo de uma sandália alada e bárbara e a malta acha piada à sandália e ao infeliz que a descalçou. Se outro infeliz qualquer, numa conferência de imprensa em Moscovo, Caracas, Havana, Pyongyang, Pequim, Teerão ou Islamabad, tivesse semelhantes tomates, estes seriam rapidamente guilhotinados para satisfação dos bárbaros e dos civilizados, numa alegre e nojenta unanimidade.

Há algo de irreal nisto. Nisto de sermos irresponsavelmente civilizados. É verdade que a bota que trago calçada faria melhor figura se quase atingisse, neste preciso momento, o trombil manhoso de Osama Bin Laden ou de um outro qualquer filho da puta de análogo genoma. Não porque, como W, tivesse o alvo a esperta destreza para se esquivar ao disparo, mas por minha desastrada pontaria. Não porque fosse pobre de justiça a bota certeira na boca do pirata, mas porque me ensinaram o pudor.

Maomé inspirou este projéctil fedorento. Cristo, por exemplo, preferiria colocar-se a meio da trajectória.