quarta-feira, novembro 30, 2011

The :Kubrik Experience


Este é o primeiro tema retirado do álbum "The Soul Soundtrack" que reúne composições orquestrais e bandas sonoras de sites. Para ouvir ao fim da tarde.

Soul Search de :kubrik Soul Search :Kubrik

terça-feira, novembro 29, 2011

O (glorioso) regresso das Teclas Pretas.



Black Keys. A banda do momento, que sinto como a banda de sempre, está de volta. E em grande forma. Começo a ouvir estes dois e fico logo super bem disposto. E a culpa disto tudo é deste meu amigo aqui.

Fado de Santo Anselmo

É claro: já não há paciência para o Bono Vox
Nem para a sua música de supermercado,
Mas o rapaz estava certo, quando escreveu
Que tudo o que sabemos está errado.

Eu por exemplo, um caso ao acaso,
Pensava saber umas verdades, entre as pielas,
Eram minhas e eram-me queridas
E agora custa-me andar pela vida sem elas.

Uma dessas verdades que amava convicto
E de que sinto agora falta, foi um achado
Do Nietszche, que inventou a morte de Deus
Antes de se passar para o outro lado.

Mas depois de ler que o bom do Godel
Provou a errática dos sistemas aritméticos
E que o Heisenberg descobriu a incerteza,
Acho todos os cientistas patéticos

E comecei a pensar para comigo
Que o Demócrito é que tinha razão:
O cosmos mais não é que o produto caótico
De átomos tontos em rota de colisão

E comecei a pensar para comigo
Que Santo Anselmo, nos tempos saudosos
Em que a Terra era ainda plana,
Bem advertia os hereges teimosos:

Olhem que há qualquer coisa mais
No universo, amigos e amigas,
Do que pode em boa verdade admitir
O vosso entendimento de formigas.

Aliás, até Hamlet, que não era nenhum
Génio, sabia o que dizia:
Há fenómenos no céu e na terra, Hórácio,
Que não cabem na tua filosofia.

E mesmo Platão, que era tão assertivo,
Nunca conseguiu explicar com mestria
Porque raio é que até um carrasco
Pode ser fã da Nona Sinfonia.

E mesmo Stirner, que era tão esperto,
Ignorou a evidência dos factos por uma vez:
Ser dono de mim apenas não chega
Para pagar as contas ao fim do mês.

Por estas e outras é que me consola agora
Um certo agnosticismo religioso e desordenado.
Já ateu não sou e confesso que acredito
na imponderabilidade do fado.

Mais a mais, a cada dia que passa,
Fico com esta sensação triste e má
Que é um brincalhão que está sentado
Na cadeira olímpica de Jeová.

segunda-feira, novembro 28, 2011

The :Kubrik Experience


Depois de anos a tentar fazer qualquer coisa que se aproxime daquilo a que convencionalmente chamamos música, abri uma página aqui, com alguns dos temas que acho menos indecentes.

É claro que se trata de um registo amador, tanto no que respeita à produção como à prestação artística, mas estão todos convidados a ir lá vaiar ou patear, ou seja lá o que for que se faz hoje em dia, quando o ouvido protesta. No entretanto, fica já aqui uma amostra ruidosa:

Canção do Vento de :kubrikCanção do Vento :Kubrik

O meu verso é fechado,
não tem rima, não tem fado.
Eu sou quem não se encontrou,
tu vais onde eu nunca vou.

Não sei o que te diga, se te cante esta cantiga:
tu és a estrela e eu o cometa, planeta desfeito.
Tu vens de berço eleito, eu careta, provenho da proveta
e prisioneiro no nevoeiro, não sei se chego inteiro ao fim da cançoneta.
Tu és demais, voas p'las cartas astrais, sabes p'ra onde vais.
Eu sou de menos, reduzido a átomos pequenos, serenos locais.
É do inferno que eu sou. Tu chegas ao céu e ao cais.
Tu vais onde eu nunca vou.

O meu mundo é quadrado,
é um prisma só de um lado.
Eu sou quem não se encontrou,
tu vais onde eu nunca vou.

Para dizer a verdade, majestade, sou mais baixo de que a idade
e mais velho do que a medida. Tu és a minha vida e eu sou só metade
do que prometo, cometo o pecado de não ser suficiente e de repente,
tu deixas-me cair lento, com o vento.
Vou afogar a solidão nos copos da taberna,
caverna da servidão moderna, aberta para nunca mais.
É do inferno que eu sou. Tu chegas ao céu, chegas ao cais,
tu vais onde eu nunca vou.

O meu sonho sabe a pouco,
o destino não dá troco.
Eu sou quem não se encontrou,
Sou quem o vento levou.
Tu vais onde eu nunca vou.

Não chego para ti, já vi, fico curto aquém do bem e é melhor assim,
sem a erva ruim que envenena o teu jardim,
sem o mal que te faço, sem o ferro e sem o aço.
É melhor para o teu percurso, longo curso, linha aérea sobre o espaço.
Deixa-me por aqui de repente, monge doente no labirinto.
Vou afogar a solidão com uns copos de absinto,
no bar aberto para nunca mais. É do inferno que eu sou.
Tu chegas ao céu, chegas ao cais, tu vais onde eu nunca vou.

O meu verso é fechado,
não tem rima, não tem fado.
Eu sou quem não se encontrou
tu vais onde eu nunca vou.

O meu mundo é quadrado,
é um prisma só de um lado.
Eu sou quem não se encontrou,
sou quem o vento levou.

O meu sonho sabe a pouco,
o destino não dá troco.
Tu vais onde eu nunca vou
e tudo o vento levou.
 

domingo, novembro 13, 2011

Geocashing

Dizem-me que eu não viajo e perguntam-me porque é que não viajo.
Afinal, não sou um ignorante:
Devo concerteza perceber as vantagens e as glórias do turismo.
Querem que eu vá andar de bicicleta com eles
Ou que, pelo menos, vá ao ginásio suar com as multidões.
Dizem-me que é o preço a pagar pelo que fumo, pelo que como, pelo que bebo.
Sugerem o prazer de apanhar caixinhas
Que foram cuidadosamente escondidas
Algures nos interstícios do mundo.
Mandam-me para o médico com a mesma leveza insustentável
Com que me convidam para passear quilómetros sobre caminhos de ferro.
Fazem-me propostas irrecusáveis, tentadoras, fascinantes, exóticas, saudáveis!
Mostram-me clubes de desconto e restaurantes vegetarianos,
Roteiros e spas, resorts e pousadas e bares gay
E estrelas da mtv e youtubers e vídeos engraçados e fotografias pornográficas
E smart-phones e ipads e aplicações para processar os terabites disto tudo.
Recomendam-me vivamente, de olhos brilhantes, a dieta, a natação e o Nespresso,
Fazem planos para mim e por mim, sonham alto com a minha vida.
Parecem sinceramente preocupados comigo,
Como se me faltasse algo de fundamental,
Como se tivesse sido expulso de um qualquer e suspeito paraíso
E ainda nem tivesse dado por ela.

Ora, eu que acho simplesmente que tenho aquilo que mereço;
Eu que habito paraísos perdidos e não sei trabalhar com gps
E que por isso mesmo não podia nunca ser aceite no tal clube
Das pessoas que procuram caixinhas;
Eu que já faço desporto bastante, considerando o que me cansa;
Eu que acho, como o outro, que a Austrália é um país lindíssimo,
Desde que não me arrastem para lá;
Eu que não quero saber onde é que podia estar neste fim de semana
Porque na verdade só queria estar aqui, no carinho do meu escritório
A escrever precisamente estas palavras;
Eu que não tenho paciência nenhuma para o que a maior parte das pessoas
Acha que é engraçado ou divertido ou interessante ou saudável;
Eu, logo eu, que fico super constrangido com os gostos dos outros;
Eu que quero apenas ficar aqui quieto, no embalo do Steve Reich
E da trovoada que anuncia o Inverno;
Eu quero lá saber.
Todos vamos morrer e vocês também.
Vocês que andam pela vida de bicicleta e que fazem caminhadas,
Vocês que já encontraram cinquenta caixinhas no labirinto do inferno,
Vocês que têm assinatura no Holmes Place e que fazem a dieta da Primavera,
Sim, sim, sim,
Vocês vão morrer na mesma e - calhando - alguns até vão morrer primeiro que eu,
Porque a ciência é uma fraude,
O corpo humano é um mistério
E Deus não é um estilo de vida.

sexta-feira, novembro 04, 2011

Obra prima do momento x2

Depois de uma noite com o meu amigo Zé Aguiar, fiquei a ganhar dois momentos-obras-primas que desconhecia por completo (o abismo da minha ignorância é aterrador).


Music for 18 Musicians (Primeira Secção) - Steve Reich


Jesus' Blood Never Failed Me Yet - Gavin Bryars, Tramp & Tom Waits

Por estas e por outras é que ter amigos compensa.

sábado, outubro 29, 2011

Göbekli Tepe e a razão da religião.


Göbekli Tepe. Fixa este nome, caro leitor. Aqui, numa colina do sudeste da Turquia, prova-se que tudo o que julgávamos saber sobre as origens da religião, da arte e do engenho humano estava errado.
Göbekli Tepe é uma área de culto com onze mil anos. O templo que vemos nas imagens tem cerca de oito mil anos e foi erigido - cinco milénios antes das primeiras fundações de Stonehenge - por gente nómada, caçadores recolectores que não dominavam a escrita, a metalurgia ou a roda. As magníficas colunas aqui representadas, que pesam cerca de cinco toneladas e ascendem a seis metros de altura, são delicadamente decoradas com figuras de animais, deuses e sacerdotes, numa inaudita manifestação espiritual e artística. É que este é o primeiro templo conhecido que antecede o Neolítico e é aqui que tudo se complica.


Até agora, acreditava-se que fora a revolução do Neolítico - ou seja, a invenção da agricultura e a sedentarização - que teria levado ao desenvolvimento estrutural da religião e isto parecia fazer todo o sentido: aqui há coisa de 9600 anos, o fim da idade do gelo teria proporcionado, pela proliferação da fauna e da flora, condições para a domesticação de plantas e animais e a respectiva povoação em permanência de certos locais. Depois da fixação humana em aldeias agrícolas, a religião surgia naturalmente como resposta a uma actividade profundamente dependente dos factores climatéricos não dominados pelo agricultor, que ficava à mercê dos caprichos dos deuses para obter uma boa colheita. Dentro desta linha de pensamento, a criação de locais de culto implicava a pre-existência de uma sociedade sedentária com níveis elementares de especialização profissional e cooperação social.
Ora, o que Göbekli Tepe demonstra é que o processo pode ter sido inverso. Senão em todas as circunstâncias da evolução humana, pelo menos em algumas terá sido a religião que gerou o desenvolvimento agrícola e não o inverso: com o degelo, o espanto por um novo mundo natural que se revelava, a reverência pela capacidade de mudança e regeneração de um ecossistema que passa a enquadrar as 4 estações do ano conduz à prática religiosa. A criação de locais de culto megalíticos, onde são celebrados rituais periódicos por milhares de pessoas terá implicado a necessidade de um pensamento logístico que providenciasse alimentação e abrigo para as multidões reverentes. O fenómeno religioso cria assim condições para a invenção da agricultura e da domesticação dos animais, a sedentarização, a manifestação artística e a complexidade dos papéis sociais.


A noção de que a capacidade de transcendência do Sapiens é a sua primeira ferramenta no caminho para a modernidade seria ainda hoje herética, se a evidência arqueológica em Göbekli Tepe não surgisse com esta notável eloquência, com esta arrogante elegância, com esta irónica magnitude. Isto embora o bom senso nos ensine - de caras - que a religião é resultado da imaginação humana e que a criatividade tem sido - a par com a agressividade e a ganância - um dos grandes motores da história. O problema da ciência, como de qualquer outra actividade humana, é que vive de dogmas. E os dogmas, mais tarde ou mais cedo, demonstram-se incapazes de explicar a natureza do cosmos. E é assim que aprendemos, todos os dias, que aquilo que pensamos saber está errado. E é assim que aprendemos, todos os dias, como somos ignorantes de tudo.

domingo, outubro 16, 2011

Indignada ou invejosa?


Ontem eram a geração à rasca, hoje são os indignados. A extrema esquerda está sempre a esconder-se por dentro de eufemismos deste género. Os ideais não mudam, são os de sempre, mas a nomenclatura está em perpétua metamorfose. O PSR - Partido Socialista Revolucionário - passou rapidamente a Bloco de Esquerda, para ganhar legitimidade eleitoral através da cosmética e quando o Partido Comunista vai a votos não é PC, é APU, é CDU, é um outro acrónimo qualquer inventado à pressão para aliviar os incautos do peso da ideologia paleolítica e dos equívocos históricos.
Ora, eu acho que esta gente devia, em boa verdade, assumir a sua indigência e declarar apenas isto: "olá, sou contra a propriedade privada e estou aqui para ver se convenço a malta a ir roubar um plasma à Worten." Seria talvez mais eficaz mas, sobretudo, seria concerteza mais honesto.

domingo, outubro 09, 2011

terça-feira, outubro 04, 2011

Speed Freak (2)


Agradecimentos: João Paulo Fernandes (fotografias) e Alexandre (alimentação eléctrica)

Deus é grande.

E uma coisa é certa: ainda sou perfeitamente capaz de me embebedar.

Em desacordo com o silêncio.

Tempos houve em que aqui no blog se escrevia fartamente, bem e mal. Escreve-se quase nada, nos tempos de agora. Escrevo cada vez menos que é como quem diz: penso cada vez menos.
Não tenho vagar para pensar. Não porque me escasseie o tempo, mas porque me falta o tesão. Mantenho-me neste silêncio que é um silêncio resultado da dificuldade de entender o mundo. E da humildade a que os anos obrigam. E da arrogância que os anos exigem. Limito-me a alguns, moderados, hábitos de sempre: a música a bombar, os livros a sério, as corridas virtuais. Este blog transformou-se num registo de costumes. Sim, coitado do Blogville, tão vulgar de existências! Sim coitado do seu autor, tão despejado de inspiração que consegue apenas um ou dois poemetas por trimestre, se tanto! E sim, outrossim, coitado do Hasse Paixão que está agora mesmo a rebolar-se convulsivamente por saudades da inocência do outro maluco que dissertava aqui sobre a heteronímia de Platão, o erro de Einstein, as Variações de Goldberg, a herança de Homero, as Vozes da Poesia Europeia ou a Mitologia da Saudade.
Pobre blogger sem musas, que é feito de ti, tagarela?

sábado, outubro 01, 2011

Obra prima do momento - o ataque dos nerds.


Two Door Cinema Club | Undercover Martyn

Estes irlandeses são bastante esquisitóides, mas o som até manda ventania.

quinta-feira, setembro 29, 2011

Speed Freak (1)

Doze anos de insistência e finalmente uma slot enorme, a bombar a 100%, com vinte e cinco automóveis por onde pegar. Lindo, não é?

De acordo com o silêncio:

"Não é possível eu dizer para alguém: Fale mais alto, berre, pois sou surdo. Como pode abandonar-me o único dos sentidos que em mim deveria ser maior que nos outros?
Ludwig van Beethoven

Ai, meus irmãos! Sabemos talvez um pouco demasiado sobre todos nós! E muitos há que se nos tornam transparentes, mas ainda assim não o suficiente para que os consigamos penetrar. É difícil viver entre os homens: é tão difícil o silêncio.
Friedrich Nietzsche

Oh, eu morro, Horácio. O potente veneno já vence o meu espírito. Não posso viver para ouvir as notícias da Inglaterra, mas eu deveras prevejo que a eleição brilha sobre Fortinbras. Ele tem meu voto moribundo; diga-se-lhe isso, com os incidentes, grandes e pequenos, que serviram de motivação. O resto é... silêncio. (Morre).
Hamlet - William Shakespeare

Obra prima do momento ou a banda das cento e cinquenta malhas (3)



The Pigeon Detectives | Everybody Wants Me

Obra prima do momento ou a banda das cento e cinquenta malhas (2)




The Pigeon Detectives | I'm Not Sorry

terça-feira, setembro 27, 2011

Obra prima do momento ou a banda das cento e cinquenta malhas (1)



The Pigeon Detectives | Take Her Back 

Destes rapazinhos aqui conheço três discos. Destes 3 discos seleccionei "apenas" 30 músicas para a playlist do itunes onde só coloco grandes malhas. Impressionante. É um heat atrás do outro. Pinguins Detectives. Sim, senhor. Uma banda que recomendo vivamente para aliviar o aborrecimento da existência.

sexta-feira, setembro 23, 2011

Anti-Facebook: admoestação à Terceira República.

"Apóstolo do erro, moralistas e políticos! Depois de tantos indícios da vossa cegueira, pretendeis esclarecer o género humano? Se as vossas ciências ditadas pela sabedoria só serviram para perpetuar a indigência e os sofrimentos, dai-nos antes ciências ditadas pela loucura, conquanto elas acalmem os furores e aliviem a miséria dos povos. Eis filósofos, os frutos amargos das vossas ciências; indigência e mais indigência: entretanto afirmais ter aperfeiçoado a razão, quando soubestes apenas conduzir-nos de abismo em abismo."
Charles Fourier | Teoria dos Quatro Movimentos | 1808

terça-feira, setembro 20, 2011

Da natureza do riso.


Na imagem, Torres agoniza, após ter falhado um golo de baliza aberta. E os malucos do Man United mal se aguentam de felicidade. Um dos meus novelistas preferidos - Stendhal - diria: "Rimo-nos pelo prazer do amor-próprio."* E diria muito acertadamente. O humor é uma arma de nós contra os outros, de mim contra ti; uma espécie de tique tribal, um instrumento de afirmação pessoal.


Agradecimentos: Futebol Veteranos de Tremez
* Do Riso - Um Ensaio Filosófico Sobre um Tema Difícil

Obra prima do momento - Redux.




The Airborn Toxic Event | All I Ever Wanted

sábado, setembro 17, 2011

Uma cosmogonia na Casa da Música.



Wagner demorou 26 anos a escrever o Anel do Nibelungo, uma obra para mais de cem músicos com cerca de quinze horas de duração, que estabelece um cânone supremo sobre a cultura alemã. Este fim-de-semana, na Casa da Música, desenrola-se uma feliz adaptação sintetizada para 20 músicos (Remix Ensemble) e 9 horas de comprimento. Estou neste momento, saído da segunda jornada - A Valquíria, a meio da aventura. Às 21h00 volto para lá. E amanhã lá estarei outra vez, até ao fim do sonho mítico de Wagner. E, na expectativa da vingança de Siegfried, sinto-me neste momento um ser humano verdadeiramente privilegiado.

sexta-feira, setembro 16, 2011

Obra prima do momento - A bombar com aparato sinfónico.



The Airborn Toxic Event | All I Ever Wanted (Live from Walt Disney concert Hall)

Anti-Facebook: a opinião das massas.

Não submeta as suas ideias ao voto popular. A opinião das massas raramente é inocente e muitas vezes está errada. Maioria não é sinónimo de certo, nem tão pouco dá qualquer garantia.

In "Dez Mandamentos da Universidade Criativa" - IADE - 2011

quarta-feira, setembro 14, 2011

O rosto da depressão.

Depressão é a incapacidade de construir um futuro. Rollo May


O rumor em Washington é que Barack Obama sofre de um grave caso de depressão.
Tem boas razões para isso. Tem boas razões para estar deprimido aquele que vai ficar para a posteridade como o pior presidente da história dos Estados Unidos da América.
Tem boas razões para cair numa tristeza patológica quem finalmente, tardiamente, conclui que não está minimamente preparado para o mais exigente emprego que o império tem para oferecer. Tem boas razões para não querer sair da cama o infiel que quis fazer da América uma grande Islândia, com serviço Nacional de Saúde e tudo. Tem boas razões para se sentir baixo, inútil, incapaz, o senhor que prometeu dois milhões e meio de empregos inexistentes e que se limitou a perder quatro vírgula nove milhões de empregos existentes. Tem razões para encarar seriamente o suicídio o irresponsável que elevou a dívida federal de 3 para 11 por cento do produto interno bruto. Sim, é natural que precise desesperadamente de uma dose farta de fluoxetina o infame que praticamente mandou fechar a NASA. O palerma que gastou não sei quantos biliões de dólares da bolsa do contribuinte para estimular um programa de "green jobs" que, só na Califórnia gerou o número astronómico de setecentos empregos e em toda a federação, menos de trinta mil. O mesmo palerma não tem, de facto, razões para sorrir quando pensa que foi anunciar o falso triunfo da mesma política nas instalações da Solyndra, empresa exemplo, financiada pela sua administração, que entretanto já tinha gasto todo o dinheiro e que anunciou a falência um ano depois do triunfante discurso. Um fraquinho incompetente que usou o desastre do Golfo para vender o seu abstruso plano ecológico e que falhou até em trazer os jogos olímpicos para Chicago, tem mesmo que estar com graves problemas de auto-estima.
Um tagarela que gosta de reinventar a história com discursos adolescentes que, sem deixarem de ser pomposos, são prolixos em referências inexactas e equívocos de colegial; um mãos largas que tornou os apparatchiks do estado nos funcionários mais bem pagos do país; um estarolas que fez crescer a dívida federal de dez triliões de dólares em 2008 para catorze triliões de dólares em 2010; um gastador crónico que está sempre a querer sacar mais dinheiro aos outros para continuar a alimentar o vício de gastar, convenhamos, não pode estar feliz.
E sim, sim, tem excelentes razões para sucumbir ao insustentável peso da existência o desgraçado do pedante que devolve aos ingleses o busto de Churchill; o ignorante que casou com outra ignorante que não sabe que lhe é interdito o contacto físico com a Rainha de Inglaterra; a criatura que é Nobel da Paz sem saber ler nem escrever e que mesmo assim não conseguiu fechar Guantanamo (Deus é grande, não é?) nem deixar de bombardear a Líbia sem o famoso beneplácito do Conselho de Segurança das Nações Unidas (só aos presidentes eleitos pelo democratas é concedido o livre arbítrio em relação a possíveis agressões internacionais); o miserável maometano que se verga perante os príncipes sauditas como um vulgar e bom súbdito, que vai permitindo ao Irão elevar-se como uma potência nuclear, que prefere a diplomacia com terroristas do que defender o seu aliado natural, o seu aliado de sempre no médio oriente: Israel.
Percebe-se bem que esteja nas lonas, sem ânimo e sem energia, o homenzinho que, sem apelo nem aviso, desactivou o escudo nuclear que protegia a Polónia, que mandou retirar do Iraque com o trabalho a meio, desonrando assim as vidas dos soldados americanos que lá se perderam; que mandou retirar do Afeganistão com o trabalho a meio, desonrando assim as vidas dos soldados americanos que lá se perderam e garantindo um triunfo de profundo alcance geo-estratégico aos radicais islâmicos.
É natural que precise de se esticar no divã do psicólogo o atrasado mental que tem feito tudo, mas tudo, para apequenar o que um dia constituiu a grandeza da América: o individualismo e a liberdade de iniciativa, a imaginação e a capacidade industrial, o voluntarismo e a volição civilizadora, a ideia de um estado de direito, magro, decente, criado pelos cidadãos para servir os cidadãos, tímido nos impostos e valente nas guerras, altruísta nos valores e imperialista na diplomacia.
Barack Obama tem boas razões para ter vergonha e tem boas razões para desistir e tem boas razões para pedir perdão aos pais fundadores, semi-deuses cuja herança veio usurpar. Em apenas 3 anos, o feiticeiro que vendia esperança aos crédulos, revelou-se o logótipo humano da desilusão global, o falso profeta, o vil herói, a promessa de polipropileno que realmente sempre foi. A cara chapada deste deprimente início de século.

Obama e Israel:




Obama e o escândalo Solyndra:


Obama em negação:


A herança de Obama:

sábado, setembro 10, 2011

Anti-Facebook: a queda.

"Caí pela escada abaixo subitamente,
E até o som de cair era a gargalhada da queda.
Cada degrau era a testemunha importuna e dura
Do ridículo que fiz de mim."

Álvaro de Campos

Vêm aí os hunos.


O maior espectáculo do mundo está de volta. Deste fim-de-semana até ao fim de Fevereiro, é porrada que ferve, à mistura com alguns ataques de brilhantismo. As long as the Devil plays quarterback, may God Bless America.

quarta-feira, setembro 07, 2011

Anti-Facebook: um recado de Gibbon.

"Os Godos reuniram os livros de todas as bibliotecas e estavam prestes a incendiar esta pilha funerária da sabedoria grega, se um dos seus chefes, dotado de um sentido político mais refinado que os compatriotas, não os tivesse dissuadido de tal desígnio com a profunda observação de que, enquanto os gregos estivessem ocupados com o estudo dos livros, jamais se dedicariam ao exercício das armas. O sagaz conselheiro raciocinou como um bárbaro ignorante. Nas mais civilizadas e poderosas nações, génios de todos os géneros têm-se desenvolvido quase ao mesmo tempo, e a idade da razão foi, regra geral, a idade da virtude e do sucesso militar."

Edward Gibbon | Declínio e Queda do Império Romano

Auto-Retrato como Apóstolo Paulo - 1661


De todos os auto-retratos de Rembrandt (e são uns quantos), este é o que mais me fascina. Não pelo tema do apóstolo que considero de importância marginal, mas talvez pela autenticidade com que o mestre se mostra, sem esconder a fraca figura e a usura dos anos. Mas talvez pelo olhar resignado e sábio de quem sabe já da vida o que a vida permite que se saiba, mas talvez pelas sobrancelhas arqueadas, interrogativas, num feitiço de mago antigo. Mas talvez porque sempre que vejo Rembrandt assim, pelos olhos dele, o oiço a perguntar-se: "afinal, porque raio andei para aqui metido em trabalhos?" A obra deste homem prodigioso está toda ela envolta num manto de sinceridade pungente, de verdade indomável. Mas este retrato em especial arrepia-me até ao fundo da alma. Mesmo.

terça-feira, setembro 06, 2011

Anti-Facebook: famous last words.

"Conta-se que um poeta maldito do segundo império, Theodore Pelloquet, vagabundo e bêbedo que ficou afásico, ao tentar no seu leito de morte exprimir aos seus próximos a sua última vontade só conseguiu pronunciar a primeira sílaba: abs..., sem que se conseguisse saber se queria um copo de absinto ou a absolvição dos seus pecados por um padre."

Robert Bréchon - Estranho Estrangeiro - Uma biografia de Fernando Pessoa

quinta-feira, setembro 01, 2011

Davidoff Lights


No último cigarro é que está o mistério.
A desfocada presença dos deuses ajuda ao entendimento do mundo e
há glória grande no derradeiro sopro nicotoíde
que se esfuma em sonhos brancos de solidão e desespero.
Não importa que falem os filósofos sobre a angústia sem filtro,
que protestem as multidões em baforadas de despeito:
no último cigarro é que está o mistério.
Fumar vale a pena por causa disso.
Disso de podermos consumir os deuses enevoados,
génios efervescentes à procura de uma saída da lamparina da história
que é um maço de tabaco.
Fumar faz bem aos pulmões da razão
e é com tristeza imensa e saudade grande
que nos despedimos da beata derradeira na gare mundana e ferroviária
de um cinzeiro.
Adeus, adeus, cilindro-falo, muleta da existência,
companheiro dos nervos e das insónias,
fiel depositário da confiança nenhuma, cinza pura no chão do Inverno.
Aspiro, inspiro, recebo a bênção e a libertação no carvão em fogo,
por dentro da mortalha:
no último cigarro é que está o mistério.
Photobucket

segunda-feira, agosto 29, 2011

Há um buraco no céu.


Há um buraco no tempo e eu entro.
Há um paradoxo pela memória adentro,
Um negativo inverso que se faz tarde e eu vou.
Há um epicírculo, um centro, um vórtice que se fechou,
Por onde o vácuo se esgota e a morte se dissemina.
Há um buraco escancarado na consciência assassina,
Um autismo elíptico, sinusoidal, genomático,
Um síndroma celular de gatilho automático,
Uma singularidade voraz, uma convocatória,
Uma doença de cadáveres na peste fotográfica da história.
Olho lá para o fundo e afundo-me:
É ao diabo que dedico esta dedicatória.
Regresso ao inferno com febre de me perder,
Dou-me para ser esquecido e esqueço-me de me esquecer.
Há um buraco no céu com rugas de sangue e eu entro e eu sou
Esse apocalipse que me chama para onde estou,
De volta e sem retorno, de vez e eu vou.

Há um buraco no céu e eu entro,
Há um paradoxo pela memória adentro.
Há um vórtice que me devora e a vertigem cresceu.
Há um buraco anti-matéria na súplica de Orpheu,
Um fantasma anónimo que desapareceu.
Há uma fonte que secou e não sei de que nascente nasceu.
Há uma súbita ausência de tudo o que aconteceu.
Há um um iato, um silêncio, um vazio redondo no estrondo que se deu,
Há um poço sem fundo no fim do mundo,
Há um buraco sem véu nas velas do céu,
Há um vento que beija o deserto que ardeu,
Há tanto para ganhar como o que se perdeu
E eu já não sei se a vida que existe é a vingança de Prometeu
Ou uma cratera lunar no azul que amanheceu.
Há um buraco no céu e a alegria morreu
E a alegria morreu.

sábado, agosto 20, 2011

Blues Explosion #2



Black Keys - I Got Mine

Obra prima do momento - Cinema



Das Weisse Band, de Michael Haneke. Uma fita para a eternidade.

Rocketville #0_Código Postal ou o elogio do foguetão.





Sonho com o dia em que deuses astronautas me elevem da terra,
À boleia de um opiário sideral.
Não me importa o destino nem o improvável regresso ao planetário natal.
Não quero saber das saudades:
Nas profundezas do espaço hei-de encontrar Portugal.
Anseio por que me raptem lagartos indígenas de galáxias obscuras,
Mestres e divindades e imperadores das alturas,
Almirantes rendidos às forças do mal,
Astronautas que me elevem da terra, numa boleia sideral.
Sacrifico-me às piores torturas, à agonia das imponderabilidades
E ao esquecimento final;
Quero é partir foguetão, com tonturas e fatalidades de inércia astral!
E não me venham com as saudades:
Há um cosmos de localidades
E eu, com mil diabos, hei-de encontrar Portugal.

domingo, agosto 07, 2011

No Reino de Artur

FICÇÃO CRIADA A PARTIR DOS HABITANTES DAS ESTÓRIAS DE ARTUR PAIXÃO

Floriano do Ó roda nos dedos a pastilha para a azia
Que traz na alma,
Enquanto o Homem das Massas
Disserta sobre conteúdos e audiências e emborca um escocês de 12 anos
Como se no guião do destino não houvesse amanhã.
Não fosse já bastante o martírio, entra p'lo escritório,
De litrada em punho no desabrigo da sua filosofia,
Malaquias da Saudade, cambaleando numa gritada infernal
Sobre a falência de Deus.
Atrás dele, como um paparazzi na perseguição do escândalo,
Vem o Rúben Perdigoto;
E atrás dele, como um inquisidor na urgência da fogueira,
Vem o padre Tristão.

Está instalado o bordel.

Floriano do Ó aguenta-se, cada vez mais pequenino
Na sua cadeira de tédio.
Para enganar o ruído trauteia para dentro,
Num inglês inventado, acordes sinceros:
Ai gotchiú ander mai sequine
Não há Francisco Alberto, como o Francisco Alberto Sinatra.

O escritório tem cinco lugares sentados, apenasmente
E já se dá pelo incómodo da polifonia abundante por metro quadrado
Quando chega Segismundo d'Ávila, artista plástico.
Traz o fumo do seu cigarro francês e a pretensão indefinida
De quem fuma tabaco estrangeiro.
Traz sarilhos e promete um pontapé bem acertado
No complexo genital de Rúben Perdigoto,
"Que é por causa das tosses, e da Hortense Luz,
Essa viúva impoluta que ousaste corromper,
Seminarista do diabo!"
Ao apelo das primeiras porradas, responde Anacleto Gadelhas,
Gorila de serviço e pistoleiro do pôr do sol,
Rompendo pela sala como o Jonh Calmeirão no seu cavalo branco,
Mas na verdade apeado de todo, até de bom senso e, acto contínuo,
Sai um pontapé na boca do Padre Tristão
E mais um estaladão na bochecha vermelhusca de Malaquias e

Fica a questão da metafísica mais que resolvida.

Floriano do Ó resiste, cada vez mais diminuto
No seu banquinho de sonhos.
Pesam-lhe os olhos interruptores
Enquanto entre o céu e o inferno
Se plasma a corrente alternada:
Agora nos braços da Gervásia, agora na tasca do Azambrino.

Uma coisa é certa no universo e essa coisa
É o caos e o caos tem uma gravidade própria e por isso
Atrai mais confusão ainda, numa espiral esfomeada de factores exponenciais.
Agora é a Anástácia dos Cogumelos,
A fiel e farta secretária do Homem das Massas
(E que lhe dá secretaria de todas as maneiras
Que se podem imaginar)
Que cai histericamente em cena, anunciando o apocalipse:
"Patrãozinho, patrãozinho, é melhor raspar-se que o meu Farturas
Vem aí para o matar!"
Nem tempo para o pânico, nem instante
Para a presença de espírito,
Eis o Farturas enraivecido que surge disparado
Pela janela panorâmica
(Com vista para o centro histórico de Mem Martins
E a ria da Bobadela).

É a cegada total.

Floriano do Ó sobrevive, cada vez mais ínfimo
No seu periclitante tripé de fantasias.
Vai-se encolhendo para dentro da orquestra
Do sono, numa beatitude de falsete:
Ai gotchiú dipe ine da arte ove mi
Não há Francisco Alberto, como o Francisco Alberto Sinatra.

Ainda assim, ia correndo a vida muito bem,
Entre facadas e desmaios, com sangue na alcatifa
E vinho tinto nos cortinados,
Com dentadas de última ceia e promessas
De "como-te vivo!",
Se não marcasse inesperada, infeliz e truculenta presença
O bom do Serafino Condesso
E toda a respectiva tropa testamentária, a saber:
Leopoldina - sua consorte,
Fagundes - seu primo,
Felismina da Vacaria - seu consolo,
Ti Timóteo - seu taberneiro e
Gamito da Pá - seu coveiro.
Claro está, é tudo apanhado no fogo cruzado
Dos cornos postos a nú e tirados a limpo e, claro está:

É o faroeste completo.

Floriano do Ó adormece, quântica silhueta
No abismo do seu trapézio de acrobata
Sinistrado. Mandem vir os palhaços!
E entre o circo, o sono e o sonho,
A corrente alternada continua a bombar:
Agora nos braços da Gervásia, agora na tasca do Azambrino.

E entre o circo, o sono e o sonho,
Há uma voz que vem do fundo do poço da vida:
Sou dipine mai arte déte iúar aparte ove mi.

quarta-feira, julho 20, 2011

Obra prima do momento - Artes plásticas


Christina's World - Andrew Wyeth (1917-2009)
The woman crawling through the tawny grass was the artist's neighbor in Maine, who, crippled by polio, "was limited physically but by no means spiritually." Wyeth further explained, "The challenge to me was to do justice to her extraordinary conquest of a life which most people would consider hopeless." He recorded the arid landscape, rural house, and shacks with great detail, painting minute blades of grass, individual strands of hair, and nuances of light and shadow. In this style of painting, known as magic realism, everyday scenes are imbued with poetic mystery.

O Testamento

POR ARTUR PAIXÃO

Serafino Condesso, natural de Bordaleja de Baixo, portador do B.I. 222771, casado, em pleno uso das suas faculdades mentais, declara como é de usança e seu direito, expressar as suas últimas vontades, porque não tarda um fósforo estão por aí os abutres do costume para medir o caixote que a coisa está mesmo por um fio, o que, francamente não me chateia mesmo nada.
Estou farto de reumatóides, artroses, artrites, dificuldades respiratórias, prisão de ventre e uma outra data de chatices que me injectam e cápsulas esquisitas com que me atulham as goelas já faz uma quantidade de luas e suas fases. Recuso-me admitir mais clisteres, transfusões de sangue e, sobretudo, aquela maldita vara que segura o saco do soro.
Assim, cedo a quem interessar a Leopoldina, minha consorte, sem quaisquer condições, bem como a minha sogra, veneno puro, velha gaiteira de costumes inclassificáveis. Em pleno uso dos meus direitos de cidadania como claramente determina a Constituição, lego parte do jardim da minha freguesia, urinol incluído, um décimo da sua superfície a bem da comunidade porque, se bem entendo, é espaço de minha e vossa propriedade. Ao Tesouro Público, aos glutões da Fiscalidade que sempre ignorei, deixo-lhes gostosamente a hipoteca a que não liguei peva e, evidentemente, os quinze ou vinte IRS por liquidar. Dos poucos terrenos circundantes do casebre, aproveitem os rabanetes e as urtigas que dão excelentes sopas.
À Nação, enquanto isso mesmo, à politica e aos Srs. Políticos que a vão destruindo pedra sobre pedra segundo li no jornal O Diabo até ao último pelintra, não deixo coisa nenhuma senão as pesadas despesas de que haverá gordo registo nas contas finais do hospital.
Órfão e sem descendência – A Leopoldina é uma ribeira seca conforme foi certificado cientificamente – resta-me um monte de ossos e um canto do olho que vislumbra, ainda, o excelente par de mamas da enfermeira Adozinda – que Deus a proteja – que se vai arrastando em torno da minha maca com sofrida ternura.
Ao meu único primo, o Anacleto, deixo-lhe a incumbência de liquidar as últimas quotas ao Bordalegense que não satisfiz por absoluta insuficiência de fundos como justa compensação dos dinheiros em que não pus o olho aquando da última poda de que me encarregou e também como paga das indecências que acamou com a Leopoldina enquanto me derreava a cavar-lhe a vinha. Não deve ter safado um único cochicho de prazer, o coitado, com aquela espécie de vagem seca, mas cá se fazem cá se pagam.
Não interessará a ninguém mas deixo, contudo, o testemunho da minha miserável incapacidade de ter sido alguém – dizem que por ter tido convulsões em pequeno e muita tosse convulsa - não passar duma besta quadrada, não ter sabido amar senão o meu gatito a quem a Leopoldina já deve ter torcido o pescoço e não entender isso que tanto ouvi dizer que a vida é bela quando em todo o tempo sempre me senti uma inutilidade, um tronco nodoso à deriva na Ribeira Grande.
É verdade que vivi alguns pequenos prazeres com a boa da D. Felismina na vacaria onde me pedia para a ajudar a mungir a Florbela, um amor de vaca tal qual a sua dona e o pôr do sol da ponta do casebre enquanto me regalava com uma lata de sardinhas com o gatito e um garrafão de tinto verde que não paguei ao Ti Timóteo, que certamente não vai ralar-se um copo que seja com o desaforo.
Vêm aí os Srs. Doutores, solenemente cabisbaixos para o que deve ser o seu último veredicto. Vou fazer o impossível para lhes abrir um sorriso amigo, grato com as atenções que me dispensaram apesar da imposição dos malditos clisteres.
Por último, ficaria também muito grato a alguma boa alma que fizesse o favor de repor num dos oratórios da capela de S. Gervásio uma imagem barroca que dali subtraí sem intuitos criminosos, num momento de devoção inexplicável que o patrono da freguesia de certo me perdoará e a quem prestarei contas senão já saldadas.
Devem existir ainda alguns trocos debaixo do meu travesseiro que gostava fossem entregues aos coveiros. Isto se a puta da minha sogra não os trocou por tinto do Dão por que sempre manifestou comovente predilecção.
O porteiro do hospital, o Sr. Gamito, um gajo impecável e a querida mulher da limpeza fizeram-me o subido favor de testemunhar esta tristeza por obrigatória e estúpida exigência legal. Assina Serafino Condesso que vai desta para melhor, ex-vassoureiro da Junta de Freguesia de Bordaleja de Baixo, com todo o respeito pelo Sr. Presidente da mesma, um péssimo cantoneiro mas um copo do antigos.

Obra prima do momento - Pop


Walking Disasters - The Wombats

sábado, julho 16, 2011

Tortour de France.



Eles sobem, eles malham, eles suam, gemem, ralham,
perseguem e são perseguidos,
escapam do pelotão como da prisão os bandidos.
E há sempre um infeliz que a dois metros da meta
acaba por ser apanhado,
e há sempre um desgraçado que dá de fuças com a sarjeta
ou vai em frente contra o arame farpado.
Puta de vida montada no selim,
toca de trepar Pirinéus acima e pelos Alpes de seguida e até ao fim!

Eles drogam-se, alteram-se, injectam-se e é muito natural:
quem pedala assim não está no seu estado normal
e quem corre por sobressalto muito se cansa
na tortura de asfalto, na loucura do alto do Tour de França.

Obra prima do momento - Biografia



"O desconforto de Lamsdorff - que era considerável - foi partilhado por toda a comitiva imperial [russa] que considerava os encontros com o kaiser um completo martírio. Guilherme dava-lhes lições sobre bailado russo, colocava-lhes questões pessoais bruscas, trocava-lhes deliberadamente os nomes e ria-se ruidosamente. Pior ainda, pregava partidas humilhantes ao seu próprio séquito diante deles - dando palmadas no traseiro do seu chefe do Estado-Maior ou cortando os suspensórios de alguém - de modo que os russos ficavam sem saber para onde olhar. O ministro da corte, Fredericks, disse que cada encontro com o kaiser o deixava completamente destroçado."

Os Três Imperadores - Miranda Carter