sexta-feira, maio 15, 2015

Davidoff Lights

Sou tão fútil.
Há um amigo meu que está a morrer porque ninguém confia o suficiente nele para lhe dar um fígado.
E eu, fútil, não tenho jeito para acompanhar a morte do meu amigo que está, impaciente, à espera de morrer por falta de um fígado.
Sou tão fútil.
Há um amigo meu que tem um ego difícil, não mais difícil que o meu ego, claro. Só que eu sou fútil e este meu amigo beija-me na boca à porta do café onde vai beber café todos os dias e isto é ser mais corajoso do que tu, querido leitor, alguma vez te atreverás.
Sou tão fútil.
A minha mãe, isto não é uma metáfora, caralho, a minha mãe acha que eu sou mesquinho e invejoso.
Tudo o que eu consigo achar sobre mim, por acaso, é que não sou nem uma coisa nem outra. Serei, gentil visitante deste miserável blog, um canalha ou um anjo, não interessa na verdade porque a única coisa que te posso prometer é que não sou mesquinho nem invejoso embora seja
Tão fútil
Que até enerva.
Tenho dois amigos em Guimarães que não acreditam em mim. A minha namorada não acredita em mim. A minha ex-mulher não acredita em mim. A rapariga que me fez mudar de cidade também não. O meu irmão mais novo desconfia e o mais velho não quer realmente saber. O meu pai está aqui está morto, a minha mãe está aqui está cega, e eu estou a fazer do blog uma espécie de facebook, bem sei, até porque eu
Sou tão fútil.
Mas tão fútil
Que dá nervos.
Tenho um amigo que chega grosso ao sítio onde era suposto engrossar-se. Mas eu sou tão fútil que não chego a perceber a razão fundamental que ele tem.
Sou tão fútil.
Mas tão fútil
Que as estrelas passam a pixeis.
Faço de conta que aprendo espanhol e que sou uma criatura funcional. Faço de conta que tenho uma profissão. Que tenho uma vida para além da fantasmática sucessão absurda das coisas. Faço de conta que escrevo uns textos interessantes para o deus me livro e a coisa mais importante que escrevi para o deus me livro foi um poema do Ary que o meu editor rejeitou. Faço de conta que sou esperto mas sou tão, mas tão
Fútil.
Tão mas tão
Estúpido.
Tão fútil, tão estúpido,
que fico fodido quando não consigo mostrar ao meu irmão mais novo
que até sou mais ou menos competente no Gran Turismo 6.
Sou tão fútil
Mas tão fútil
que até quando cito, com propriedade, o bom e o velho do Nietzsche
os meus amigos mais amigos meus acham que os insulto porque sei citar o bom e o velho e
Sou tão fútil,
Mas tão fútil, gentil e paciente leitor,
que devias na verdade evitar a missão de chegar a este ponto
final.

quinta-feira, abril 30, 2015

Uma história gay.


1998. Stephin Merritt está às voltas com o mais que ambicioso projecto de se "apresentar ao mundo" com 100 músicas de amor. Um ano depois vão acabar por ser apenas 69 e esse maravilhoso e inspirado triplo CD ficará para sempre agarrado às paredes da posteridade ("69 Love Songs" estará no olimpo da música pop até que se calem as musas). Mas no entretanto, a vida vem em socorro do artista. Num bar gay de Nova York conhece Reno Dakota, por quem se apaixona compulsivamente. Reno, porém, parece responder às suas abordagens de forma fria e distante. Merritt aproveita a rejeição para a necessária e inevitável construção lírica:

Reno, Dakota
There's not an iota
Of kindness in you
You know you enthrall me
And yet you don't call me
It's making me blue
Pantone 292

Reno, Dakota
I'm reaching my quota
Of tears for the year
Alas and alack
You just don't call me back
You have just disappeared
It makes me drink beer

I know you're a recluse
You know that's no excuse
Reno, that's just a ruse
Do not play fast and loose
With my heart

Reno, Dakota
I'm no Nino Rota
I don't know the score
Have I annoyed you
Or is there a boy who
Well, he's just a whore
I've had him before

It makes me drink more

O poema, cantado por Claudia Gonson, irá rebentar numa melodia folk minimal, mas poderosa, que dura apenas um prodigioso minutinho, e é uma das mais carismáticas faixas de "69 Love Songs".



E a história acabaria aqui, não fora o zelo inquiridor de Kerthy Fix e Gail O'Hara. No seu documentário de 2010 "Stange Powers - Stephin Merritt and The Magnetic Fields" os realizadores acabam por descobrir o objecto da paixão de Merritt e documentam a história, contada pelo lado de Reno. Este explica as razões da sua indiferença, que não sendo politicamente correctas, não deixam de ter a sua piada, num poema que é uma autêntica versão alternativa de Reno Dakota:

Dear Stephin Merritt
please stop I can't bear it
Don't call anymore
My answer machine
will continue to scream
Though it's tired and sour
But you're not gonna score

Dear Stephin Merritt
you've dangled your carrot
in form of a song
That eponymous ditty
is bitting and witty
your message is strong
But you've got me all wrong

From up in my tower
I watch with a powerfull lust
for brown gold and rust
Boys of colour are just
what I must

So dear Setphin Merritt
just dump out that claret
try sleeping at night
I'm wishing you well
but that snow ball in hell
has the same sorry plight
And though we try as we might
we're both hopelessly white



A elegância meio despudorada e a mestria lírica com que Reno responde a Stephin (reparem que o poema segue a estrutura sónica, métrica e rimática da versão original, como se issso fosse fácil) leva-nos a perceber, afinal, talvez, a razão pela qual o segundo se apaixonou pelo primeiro. E, na verdade, esta história tem um final feliz: Merritt conseguiu arrancar à vida uma música (mesmo contra as suas próprias convicções, como veremos mais à frente, num outro artigo desta série). E Dakota ganhou os seus 15 wharolianos minutos de fama.

Para quem se interessa pelas razões últimas da arte, porém, este não será exactamente um momento de elevação. Mas, pensando bem, que interesse realmente têm essas últimas razões? As primeiras são, regra geral, bem mais convicentes. E, claro, muito mais saborosas.

quarta-feira, abril 29, 2015

O Público mata-me.




































Já há uns anos largos que não sou leitor desse orgão oficial do Bloco de Esquerda chamado "Público". Mas hoje, para mal do meu sistema nervoso, passei pela edição online e reparei numa caixinha que titulava assim os incidentes em Baltimore: "O caos chegou a Baltimore, onde a indignação se juntou à probreza".
Ora, parece que a indignação e a pobreza justificam, para a miserável redacção do Público, o vandalismo e o crime. Para que se incendeie, com impunidade e, até, legitimidade moral, um automóvel da polícia, basta estar indignado. E se o gentil leitor pertence, como eu, a uma classe sócio-económica mais desfavorecida, temos os dois bons motivos para combinar um assalto à Worten. Em desespero de causa, podemos até ferir mortalmente, a tiros de pistola, dois ou três agentes da lei.
Esta mentalidade cheguevarista que distorce a moral até ao nível da anarquia absoluta e que é muito própria da esquerda radical contemporânea será, em última análise, autofágica. A desvalorização da ordem social, é, claro, extremamente infantil e, por isso, muito perigosa, mas prejudicará toda a gente por igual. O Público não é produto de uma civilização que justifica e aceita os desvios deliquentes da turba enraivecida. Pelo contrário. E o Público deixaria de existir muito rapidamente, se os ideiais do seu conselho de redacção imperassem na sociedade onde se insere.

terça-feira, abril 21, 2015

A culpa e os afogados.

Há já umas boas décadas para cá que o Mediterrâneo afoga homens e sonhos com uma voracidade arrepiante. Desgraçados do Magreb, refugiados do Médio Oriente, expoliados do Sudeste Africano e infelizes de toda a parte acabam por sucumbir ao falso pacifismo deste mar intestino e denso, carregado de ódios. Metem-se aos magotes em jangadas impensáveis e em porões sobrelotados na vaga expectativa de uma promessa de liberdade e prosperidade que a Europa, lamentavelmente, já não está em condições de cumprir.
Mas este facto - o do velho continente não ter condições materiais nem políticas nem sociais para receber esta gente inúmera de braços abertos - não pode servir para transferir a responsabilidade da tragédia para os ombros do Ocidente, como têm estado a fazer certos imbecis como Loris De Filippi ou António Guterres.
Não, por Deus, a culpa não é nossa. Se os desgraçados, os refugiados, os expoliados, os perseguidos, os esfomeados e os infelizes de toda a parte naufragam abundantemente nas rotas de Ulisses, a culpa só pode ser originária dos países vilões e das organizações bandidas que os desgraçam, que os expoliam, que os perseguem, que os deixam à fome e que os fazem infelizes ao ponto de preferirem morrer afogados do que permanecerem nas suas terras.
A Europa não tem culpa que os senhores do Estados Islâmico façam aquilo que fazem. A Europa não tem culpa que os rapazes do Boko Haram façam aquilo que fazem. A Europa não tem culpa da guerra na Síria, na Líbia, na Somália, na Eritreia. A Europa não tem culpa da miséria no Mali, da fome no Sudão, do caos na Algéria e da corrupção no Egipto. A Europa não tem culpa que estados disfuncionais e draconianos atirem com os seus cidadãos para a morte certa. Não, não, não. Não somos nós os culpados.

terça-feira, abril 14, 2015

Tristes loucos furiosos. Ou talvez não.



Handsome Furs . What About Us

Os primeiros segundos são algo deprimentes, mas ao terceiro minuto acontece algo de belo.

Tóxicos como sempre, inspirados como nunca.


Desde o seu primeiro disco, de 2008, que Mike Jollet e os insubordinados The Airborne Toxic Event têm contribuído pela medida grande para acreditarmos que é muito difícil assassinar o rock. Até os mass murderers que distribuem, com a displicência dos incautos e a arrogância dos duros de ouvido, grammys para isto e EMAs para aquilo, não têm hipótese nenhuma na sua intenção genocida, pelo menos enquanto deixarem gente assim à solta, com liberdade para a explosão criativa.
Mas mesmo os génios têm direito a momentos menores. Such Hot Blood, o último trabalho que estes rapazinhos de Los Feliz - LA tinham editado, em 2013, constituiu uma desilusão do tamanho deste mundo e do outro. A vingança serve-se, porém, com dois anos de frigorífico: este Dope Machines (Epic Records - 2015) não é apenas um grande disco. É uma afirmação de talento, coragem e resiliência. É a prova de que a reinvenção compensa, por muito trabalho que isso nos dê e por muito desagradável que se apresente o clima, quando saímos para fora da zona de conforto. Muito apropriadamente, Jollet parece bastante inseguro e quase consegue ser humilde (o que é uma novidade nele) logo à entrada, no grandiloquente tema bandeira de Dope Machines - Wrong:

I see the look in your eyes
Am I trying too hard?
Am I doing this right?
(...)

I believe I was wrong
Probably most of my life
Or I'm just hearing it wrong
I’m just watching the fire light



O disco varia loucamente entre o puritanismo electro-pop e a vocação épica que está no DNA da banda. De tal forma que, em certos momentos, como em "California", parece que alguém convenceu o Bruce Springsteen a embebedar-se com os New Order. E, por esquizofrénica que pareça a mistura, a verdade é que resulta (dores de cabeça incluídas). As guitarras berram tão alto como os sintetizadores, Jollet consegue fazer barulho sobre isso tudo e há um constante desiquilibrio emocional que consegue ser tocante, mesmo quando a intenção não é essa. Até porque esta terra não é para lamechas. Só os heróis conseguem chegar até aqui.

Por exemplo, em "The Thing About Dreams", um tema que tem o efeito de um prozac ao pequeno-almoço, a atitude já é mais apropriadamente confiante:

And the hell with the rest,
You gave them your best.

E está tudo dito. Ou talvez não, porque, para compensar os fãs pela descompensação psicótica e o brilhantismo histérico que percorre quase integralmente a duração de Dope Machines, os Airborne Toxic Event oferecem, em anexo, uma coisa completamente diferente: "Songs of God and Whiskey" reúne 10 temas acústicos de tom biblíco, que são, por si só, uma verdadeira opereta do Oeste; um western inteiro de aventuras e desventuras.

Duas sínteses pelo preço de uma antítese. Eis a definição de um bom negócio, segundo os impagáveis The Airborne Toxic Event.

Jornal de Letras | Janeiro/Março 2015

Jerusalém - Gonçalo M. Tavares - Caminho
A segunda obra que leio deste rapaz, é também outra obra-prima. Jerusalém é um romance intrincado, mas parcimonioso, multi-dimensional mas construído por vozes interiores; discreto mas febril, que se desenvolve quase no domínio do inconsciente, sem perder uma contenção essencial que preside ao ritmo dos parágrafos. As personagens vivem sobrepostas numa falsa oposição, que se dilui no sentido de um anti-climax que é previsível sem ser vulgar. Está tudo muito bem calibrado, nesta novela. Muito bem medido. Muito bem escrito.


Responsabilidade e Juízo - Hanna Arendt - Dom Quixote
Edição que reúne vários ensaios e conferências da uma das figuras maiores do pensamento do pós-guerra, e cujo perfil já tracei (mais ou menos) aqui. A análise de Arendt à temática do mal, e como lidar filosófica e juridicamente com a sua presença imanente no decurso da hitória, continua absolutamente contemporânea e deve ser revisitada.


A Casa das Rosas - de Andréa Zamorano - Quetzal

Se há mania literária que tem perdurado dentro e fora da sua geografia, essa mania é o realismo mágico. E esta primeira novela de Andréa Zamorano, brasileira de origem, portuguesa de estado civil, tem quanto baste desse infindável filão: uma ditadura militar, um patriarca poderoso que oscila entre a loucura e a vilania, um fiel e nobre jardineiro, um poeta que irá ser personagem do Roberto Bolano, uma heroína que fala com saguis. E a morte, como elemento estruturante da narrativa.
Ainda assim, há qualquer coisa de insólito neste breve romance. Há qualquer coisa que não é Laura Esquivel nem Isabel Allende nem nada que se pareça. Que prende e arrepia. Há aqui, nestas páginas, qualquer coisa de sinistro, que dá comichão e levanta o cabelo.
É que Andréa Zamorano vai buscar a Córtazar e a Borges, mais que a outros mestres, mais óbvios, da literatura sul-americana, as referências para uma arquitectura elíptica e surpreendente, onde encontra a sua identidade de contadora de histórias. A essa virtude, soma a autora um óbvio talento para discursos interiores mais ou menos caledescópicos, mais ou menos fantasmagóricos, que exercem sobre o leitor uma espécie de exorcismo.
E se podemos, aqui e ali, questionar a direcção em que somos movidos por Andréa Zamorano, a verdade é que as últimas 20 páginas do seu iniciático romance são verdadeiramente alucinantes e dão direito à revelação de um cadáver emparedado e à antecipação do grande terramoto da Cidade do México.
Não está nada mal, para começar.


História da Filosofia, Os filósofos e os Textos - 3º Volume: Filosofia Contemporânea - Edições 70
Terminei finalmente a minha terceira (ou quarta?) ronda por esta história da filosofia. Este é, claro, o volume mais difícil dos 3, porque os filósofos contemporâneos não facilitam nada no que respeita à densidade das doutrinas, embora fiquem, regra geral, a milhas dos seus predecessores. Vou enconstar estes 3 volumes por uns anos na respectiva estante, até porque entretanto já descobri uma história da filosofia bem mais interessante - a de Will Durant - de que darei testemunho mais à frente no tempo.


Alejo Carpentier - Concerto Barroco - Antígona
Um exemplo acabado de como um escritor com talento para dar e vender (basta ler as primeiras duas ou três páginas do romance para percebermos isso) se deixa estatelar, rapidamente, com estrondo e espalhafato, no asfalto gorduroso e fatal de uma espécie de manifesto marxista sem pés nem cabeça, na pior tradição da literatura cubana arregimentada a um castrismo vulgar e entediante. A crítica diz que Alexandro Carpentier é um percursor do realismo mágico. O autor disse que esta obra era a sua "suma teológica". Eu desisti a meio, o que é muito raro e - por isso - muito significativo.


As Leis Fundamentais da Estupidez Humana - Carlo Cipolla - Padrões Culturais Editora
Brilhante e sintético tratado que explica lindamente o que é um estúpido e porque é que existem tantos e como é quase impossível às pessoas que não são estúpidas viverem sem o perigoso e altamente destrutivo impacto das que o são. O ensaio, que assume algum rigor científico (dentro daquilo que é possível em ciências sociais) demonstra e postula cinco leis fundamentais, a saber:
1 - Cada um de nós subestima sempre e inevitavelmente o número de indivíduos estúpidos em circulação.
2 - A probabilidade de uma pessoa ser estúpida é independente de qualquer outra característica dessa mesma pessoa.
3 - Uma pessoa estúpida é aquela que causa dano a outra pessoa ou grupo de pessoas, sem que disso resulte alguma vantagem para si, ou podendo até vir a sofrer um prejuízo.
4 - As pessoas não estúpidas desvalorizam sempre o potencial nocivo das pessoas estúpidas. Em particular, os não estúpidos esquecem-se constantemente que, em qualqer momento, lugar e situação, tratar e / ou associar-se com indivíduos estúpidos revela-se infalivelmente um erro que se paga muito caro.
5 - A pessoa estúpida é o tipo de pessoa mais perigosa que existe.


Os Filósofos e o Amor - Aude Lancelin e Marie Lemonnier - Tinta da China


"O amor é o mal."
Arthur Schopenhauer

"Um filósofo casado pertence à comédia."
Friederich Nietzsche

O amor é o tema maldito da filosofia. Com raras excepções, os filósofos têm achado, nos dois mil e quinhentos anos que já conta a arte do pensamento especulativo, que a razão pela qual as mulheres e os homens se entregam passional e espalhafatosamente uns aos outros constitui um assunto menor. Vá-se lá saber porquê. Não fora a intensidade dessa volúpia, tudo seria bastante diferente do que é (inclusivamente a demografia), mas, de Tales de Mileto a Ludwig Wittgenstein, é díficil encontrar obra que se deixe sensibilizar pelas regras da atracção humana.
Apesar deste triste facto - ou até por causa dele - Aude Lancelin e Marie Lemmonnier tiveram a ousadia de ir à procura do amor na filosofia, e - é preciso dizê-lo - fizeram-no com brilhantismo e erudição. 
"Os Filósofos e o Amor", uma edição de 2015 da Tinta da China com tradução (excelente) de Carlos Vaz Marques e prefácio de Eduardo Lourenço, é um livrinho fascinante. Fascinante, para já, por causa do registo filológico adoptado pelas autoras. Não é todos os dias que lemos textos dedicados à filosofia que utilizem uma nomenclatura assim desassombrada: enquanto Nietzsche é um "astronauta do espírito", Schopenhauer é um "lobisomem do líbido". Kirkegaard tem um "esqueleto semi-marreco" e é um "verdadeiro anti-viagra". Montaigne é "felpudo como um macaco e careca como um ovo" e ficamos sem saber o que fazer à informação de que o seu pénis não era especialmente longo. Nem especialmente grosso. Há muitas páginas de autêntica comédia neste seríssimo tratado, que fazem da sua leitura uma entretida mistura de sabedoria e cuscovilhice.
As autoras são, como era expectável, vítimas do escasso espólio existente, pela razão apontada no primeiro parágrafo, mas não se atrapalham: se os filósofos eleitos dedicaram ao amor menos páginas do que seria conveniente, as suas aventuras e desventuras amorosas, as suas miseráveis, patéticas e gloriosas vidas, dão pano para mangas. Acresce que a erudição das duas académicas francesas, devidamente complementada por um irreverente trabalho de pesquisa bibliográfica, acabam por contornar as dificuldades iniciais de forma a que o leitor se depare com um trabalho enxuto, mas repleto de substância; e de originalidade inquestionável.
O ensaio selecciona dez filósofos (na verdade são treze, porque Platão implica Sócrates, Heidegger traz Arendt pelo braço e Sartre não passa sem Beauvoir), cujas biografias são cruzadas com aquilo que escreveram sobre o tema, mesmo - outra vez - quando escreveram pouco, embora o critério esteja longe de ser aleatório: os heróis escolhidos são talvez aqueles que mais valorizaram - ou desvalorizaram - o amor. E aqui surge uma nova dificuldade. É que, muitos destes filósofos, e principalmente Lucrécio, Mantaigne, Schopenhauer, Kierkegaard e, claro, Niietzsche, apresentam, na obra e na vida, uma concepção mais ou menos terrorista do amor romântico. Nalguns casos, são verdadeiros nemessis do envolvimento passional, noutros, autênticos campeões do líbido pelo líbido. E se, em Platão, o amor é uma espécie de elevador da glória que nos transporta para o belo absoluto e a eternidade das ideias, já em Montaigne lemos um indisfarçável libertinismo suportado eticamente por uma abordagem céptica do romance, em Schopenhauer surpreende-nos o nojo existencial pelo coito e e em Kirkegaard a insuportável recusa da felicidade amorosa. Assim, quando chegamos a Nietzsche, já estamos psicologicamente preparados para o espectáculo circense que nos é oferecido: o niilista rei de todos os cépticos-anti-românticos da história universal cai com estrondo no rídiculo de se apaixonar louca e platonicamente por uma rapariguinha de dezoito anos.
Isto já para não falar no desafio tremendo que é incluir Immanuel Kant num ensaio sobre o amor. Kant amava, talvez, o campanário da vila de Königsberg, a biblioteca local e um ideário iniciático e puritano que fosse determinar o comportamento moral dos homens para toda a posteridade. Mas pouco mais. Em certo sentido, é um homem sem biografia. Ainda assim, as duas detectives que nos guiam por este contínuo do espaço-tempo venusiano conseguem encontrar na obra e na vida do austero idealista alemão alguns detalhes surpreendentes e alguns vestígios de paixão mundana, missão que qualquer pessoa de bom senso consideraria - à partida - absolutamente impossível. 
A propósito de milagres, há um outro nestas páginas: o que salva Jean Paul Sartre da sua impenitente infelidade. E Simone de Beauvoir da sua triste sina.
Encontramos enfim alguma redenção para esta intensa e divertida torrente de factos biográficos e confissões mais ou menos folclóricas, finalmente libertos do pudor de uns e do cinismo de outros, na conclusão partilhada por Stendhal, Proust e Sartre, de que o amor é mais que o amor, é também essa célebre "vontade de poder", de que falam todos os filósofos desde Nietzche: "O amor não pode resumir-se ao simples facto de se possuir uma mulher, mas visa, através da mulher, a conquista do mundo inteiro".
Convenhamos: é difícil terminar de forma mais coerente, universalista e... romântica. Afinal, o amor e a filosofia deviam dar-se melhor. É através de um que se resolve a outra.


O Sorriso Aos Pés da Escada - Henry Miller - Padrões Culturais Editora
Deprimente e banal conto escrito em hora de inspiração zero por um dos mais carismáticos novelistas americanos do século XX. O protagonista é um palhaço em busca de um sentido para a vida. Se soubesse o que sei hoje, não tinha pegado nisto. A edição da Padrões Culturais é ainda por cima aviltada por umas ilustrações muito horríveis de Frederico Rocha, que são a cereja em cima de um bolo impróprio para consumo. BAH!

quinta-feira, março 26, 2015

Ponto Gif

O ponto gif mal alcança
o comprimento infindável do teu largo passo
de astronauta.

E tu, rapaz, és uma estampa,
pá.

O desgraçado do Augusto
parece um anão ordinário na companhia
de Deus.

Não tenho talento para maricas, mas tu, Fernando,
enamoras-me.

quarta-feira, março 25, 2015

Produto televisivo de excelência.



Festival da canção de 1976. Ary dos Santos escreve para a música de Fernando Tordo e a voz de Carlos do Carmo um dos mais belos poemas sónicos já redigidos na língua pátria. A canção fica em 6º lugar, mas tem direito a um encore, agora com a intervenção gloriosa do glorioso poeta. Se não tiverem paciência para o Carlos do Carmo, saltem para o minuto 1'45 e garanto-lhes que o bom do Ary vos oferecerá uma experiência de levantar pelo e cabelo. Isto sim, é televisão.

terça-feira, março 24, 2015

Morre o poeta; as palavras não.

Sobre Um Poema

Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.

Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
- a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.

- Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
- E o poema faz-se contra o tempo e a carne.



Herberto Helder . 1930-2015

sexta-feira, março 20, 2015

Só para quem gosta de Rugby.



Porque quem não gosta, não vai perceber o que é difícil e o que é belo e o que é vertiginoso na performance do incrível Tyrese Johnson-Fisher que, segundo dizem, conta apenasmente 15 aninhos de existência (tenho dúvidas).

Mais um cromo para a caderneta das grandes malhas.



British India . Wrong Direction

terça-feira, março 17, 2015

O traidor ataca outra vez.

Depois de dois mandatos incapazes, cuja herança, caríssima para o Ocidente em geral e para a América em particular, só o avançar da história será capaz de revelar em toda a sua miséria; depois de um rol patético e infame de recuos e retiradas, de hesitações e cobardias, de equívocos e meias vontades que condenaram a política externa americana à impotência total; depois de, pela primeira vez na história das relações diplomáticas dos Estados Unidos da América, ter posicionado a Casa Branca como inimigo feudal de Israel (um erro geoestratégico e também de política interna que é difícil de medir, dada a sua inacreditável magnitude); depois de falhar todas as suas principais apostas, todas as suas primordiais promessas, e de as falhar com estrondo; depois de ter feito tudo o que era possível para adulterar as virtudes que fizeram da América uma potência e - de certa forma - o porto seguro e quartel general da liberdade individual e dos valores do Ocidente, este islamita que os americanos - num ataque de esquizofrenia sem precedentes na história universal - elegeram, por duas vezes, como seu líder máximo, tem nos últimos meses mostrado, com uma honestidade que até aqui não se lhe conhecia e que só deriva de um natural desespero de causas, a sua face mais tenebrosa. Aqui há umas semanas, num arremedo ignorante e espantosamente demagógico, comparou o terrorismo islâmico às cruzadas. E hoje, num impulso desculpatório da sua incompetência e cobardia, culpou George W. Bush pelo surgimento do Estado Islâmico.
Obama, o Pequeno, nunca deve ter lido um livro de história na puta da vida e deve saber tanto das nove cruzadas (na verdade foram doze) como eu sei de feixes hertzianos - ou menos. Comparar uma realidade histórica complexa, que tem origem em tensões existentes no mediterrâneo desde a baixa idade média, que envolveu uma multiplicidade incrível de variáveis étnicas, religiosas, económicas e geográficas e que decorreu durante dois séculos com o que está agora a acontecer no levante é admissível num programa televisivo de vocação humoristica do género Saturday Night Live mas é um analogismo difícil de aceitar quando é proferido pelo Presidente dos Estados Unidos da América. Alguém devia dar-se ao trabalho (bem sei que fútil) de explicar a este energúmeno que as cruzadas são, na sua vertente política, uma tentativa de travar a hegemonia económica, militar e religiosa que a veloz e ameaçadora expansão muçulmana impôs no Mediterrâneo. Alguém deveria ensinar a Obama que Jerusalém foi ocupada pelos califas em 638 e bastante desvalorizada e martirizada a partir daí, e que, sendo uma cidade santa para os cristãos, estes se sentiram na obrigação de a libertar. Alguém deveria perder cinco pedagógicos minutos com este imbecil de forma a que ele conseguisse perceber que os horrores perpetrados pelos cristãos foram do mesmo género dos horrores perpretados pelos muçulmanos, porque guerra é guerra e na guerra não há humanistas e na idade média o horror tinha, de qualquer forma, uma valorização completamente diferente da que tem hoje. Alguém devia encaixar a informação pertinente na cabeça pequena deste pequeno rapaz que nem todos os califas eram saladinos e que nem todos os cristãos eram templários genocidas e que, apesar da presença farta de genocidas dos dois lados das trincheiras, os actos de guerra e chacina do Estado Islâmico são bastante mais virulentos que aqueles perpetrados e historicamente registados no decorrer de dois séculos de cruzadas. Infelizmente, parece que ninguém quer perder tempo a ensinar história a Obama e, por isso, Obama vai continuar a proferir estes dislates e a insultar toda a gente com a sua ignorância levezinha de pop star, que deve ser a única coisa para a qual tem realmente algum jeito.
Mas, mais ofensiva ainda é a afirmação de hoje. Culpar a anterior administração republicana pela génese do Estado Islâmico é mais ou menos a mesma coisa que culpar o Presidente Wilson pelo surgimento do Nacional Socialismo na Alemanha dos anos 30 ou Abraham Lincoln pela segregação racial nos estados do sul da América no século XX. Para além de não fazer sentido nenhum, é uma afirmação infame e vergonhosa. Até porque tenta disfarçar o indisfarçável: o Estado Islâmico só foi possível porque a administração Obama decidiu, de forma irrealista, impensada e precipitada, retirar do Iraque sem primeiro criar condições militares, políticas e sociais para que não acontecesse precisamente o que aconteceu.
Barak Obama termina assim o seu último mandato respeitando o barbarismo intelectual e a vilania ideológica com que o iniciou: anti-americano por definição, não desiste da sua sagrada missão de destruir os valores morais e materiais da civilização ocidental. E a história remota e recente serve-lhe às mil maravilhas, porque, para a esquerda radical a que pertence de coração, a história não é o que foi. É o que devia ter sido.

quinta-feira, março 12, 2015

Censores de rede social: puta que os pariu.

"Ha desinfectantes para limpar as canalizações. Mas para a imundície destas almas não existe desinfectante moral."
Jean Seul de Méluret (Fernando Pessoa) . Os Senhores Proxenetas

Não frequento redes sociais para lém dos blogs e do Youtube, mas chega-me de fonte fidedigna a informação que a deliciosa crónica que João Pedro George publicou a semana passada no Observador foi agredida loucamente pelos indignados deste país (somos um país de pessoas indignadas).
Eu também estou indignado claro, na inescapável medida em que sou tão português como a generalidade dos portugueses, mas, comparativamente, a minha indignação está de pernas para o ar. Eu estou indignado porque as pessoas que não encontraram, no texto luminoso, profundamente literário e de grande seriedade jornalística de João Pedro George, mais que razões para se sentirem ofendidas, não deviam ser possuidoras de megafones mediáticos que propaguem a sua mais profunda ignorância de tudo, a sua mais assustadora cultura do zero.
Hoje, em Portugal, não podemos dizer certas coisas do romancista a, b ou c porque parece que os romancistas são uns monstros sagrados intocáveis porque escrevem romances. Não há nada de especial numa pessoas que escreve romances. Para se ser especial a escrever romances é preciso escrevê-los com excelência técnica e criativa. E saber defendê-los perante a crítica. Neste sentido, será porventura útil conseguir articular sobre aquilo que se escreve. O texto de JPG tenta apenasmente demonstrar - e depois ridicularizar - a leviendade com que os autores portugueses articulam o seu trabalho. Qual é o mal disto? Nenhum e pelo contrário: isto é bastante higiénico.
Mas ainda que não fosse de utilidade óbvia, pertinência clara e salubridade invulgar, o divertidíssimo texto de JPG continuaria a ser divertido e continuaria a ser virtuoso. É talvez útil regressar atrás, no espaço-tempo da literatura portuguesa, para percebermos que a vitalidade criativa advém de uma fundamental atitude de manifesto, de ruptura, de violência sintática e semântica sobre um determinado status quo. Vou só dar dois exemplos: a Geração de 70 e a geração do Orpheu. A quem seria hoje permitido, sem o esmagamento da indignação, escrever algo como "As Farpas"? E como poderia José de Almada Negreiros, o grande, redigir algo parecido com o "Manifesto Anti-Dantas" se já existisse na altura um mecanismo de censura grupal e conformismo social como o Facebook? E que aconteceria a Fernando Pessoa depois de redigir pérolas modernistas altamente agressivas e até insultuosas como o "Ultimatum" ou o "Aviso Por Causa Da Moral"? Seria literalmente passado a ferro por esta gente grotesca, espécie de rebanho de beatas aflitas, histericamente acometidas de um impulso fascista que só se percebe no entendimento da sua própria miséria moral e cultural.
Felizmente, há ainda, mesmo que residuais, espaços de liberdade neste país. E gente inteligente e desassombrada e corajosa que diz o que tem a dizer sem medos nem complexos. Gente como João Pedro George. Quanto aos outros - os censores de zuckerberg, os alienados do bem e do mal, os empertigados da escolástica do costume, os moralistas de algibeira - podem ir bardamerda. Não são eles que fazem História. Não são eles que elevam os povos e as culturas. Não são eles que levantam a civilização. Não são eles que inventam a reinventam a arte.

E uma última nota: só um boi cego-surdo é que não repara que as afirmações de Lobo Antunes sobre a sua obra são invariavelmente ridículas e vazias de conteúdo. E não é de agora. O senhor não diz nem nunca disse nada de jeito. As entrevistas que lhe fazem são sobretudo momentos de glorificação do autor. Mas jamais um momento de esclarecimento para o leitor. Ou de profundidade para o crítico.


segunda-feira, março 09, 2015

Sul

O mundo é redondo
E por muito que se tente fugir para a frente,
Mais cedo ou mais tarde,
Acabamos por regressar ao ponto de onde partimos.

João Lagido . Sul


Rumo ao Sul.
Atravesso o tempo na orientação mágica
da bússola da memória.
O meu regresso é uma fuga,
o meu destino é onde estou
e eu estou
em movimento.

Voltar é partir sem ter caminho;
uma odisseia de cegos,
uma peregrinação tonta,
sem a redenção da luz.
Há quem te avise contra os perigos
de te transportares para o ponto no espaço,
momento no tempo,
em que foste feliz;
mas ninguém sabe ao certo o que dizer
quando o que procuras é
o trilho certo
para viveres outra vez
a tua mais íntima miséria.

Rumo ao Sul.
A maré teima em afastar o estuário
do meu cálculo marinheiro.
Pressinto já, porém, o verde-grito do arrozal,
o apelo calado das águas do Sado
e adivinho, talvez, agora,
um verso do Bocage.

Deus sabe o que procuro ali, por trás da praia,
na profundidade esguia
da península.
Cumpro o meu regresso contra correntes e naufrágios
e montanhas e desgraças;
deixo-me castigar pelos ventos da viagem
e purificar pelas águas do mundo;
Sou vítima de todas as coordenadas
e carrasco de todos os mapas:
Ulisses fez-me companhia na perdição
e Eneias foi testemunha do tudo e do nada
na saga circular a que submeti
a existência.

Rumo ao Sul.
Não encontrei no caminho de ida mais do que distâncias,
Não encontrei no caminho de volta senão demoras.
Mas há um sinal, um marco, uma referência, um bom porto,
um túmulo que me guia
e que encerra a tragédia escapista do meu percurso incivilizado,
do meu trajecto simétrico de homem-pêndulo,
nómada de mim mesmo,
sextante desarranjado,
sal grosso em terra fértil.

Há uma cruz, no fim da estrada, que é a minha Estrela do Norte.

Grávidos de literatura.

Creio bem que o ecossistema literário português sofreu um abalo terra-transformador com o genial, surpreendente, assertivo e gargalhante texto que João Pedro George publicou a semana passada no Observador. Reparem só neste parágrafo:

"Em Portugal, pelos vistos, o único talento necessário para escrever livros é ser possuído, como aconteceu com a Virgem Maria, por uma espécie de sopro que engendra, sem os próprios escritores darem bem por isso, vindos não se sabe donde, romances, livros de poemas (incluindo edições de autor, edições críticas, edições definitivas, edições póstumas, etc.), temas, estilos, intrigas, personagens, diálogos, comparações, intertextualidades, polifonias, etc. Por exemplo, Caminho Como Uma Casa Em Chamas, o último romance de Lobo Antunes, apareceu-lhe há meses quando estava a descer o estore da sala (ao mesmo tempo que coçava os dedos dos pés na alcatifa, fazendo estalar as articulações). António Lobo Antunes sentiu uma reverberação, um repentino arrebatamento de energia. Algo golpeou-lhe depois a retina, os olhos moveram-se debaixo das pálpebras e lacrimejaram. Sem conseguir controlar a sua expressão e os músculos faciais, o corpo do escritor português começou a aumentar. Lobo Antunes empalideceu, benzeu-se e o suor correu-lhe pela cara. Sentiu uma vertigem e desmaiou. Quando despertou – “onde estou eu?!”, bradou –, viu em cima da secretária o novo livro."

Há momentos em que se percebe que ainda vive alguma inteligência, neste país Portugal.

Rocketville #16 Retro_Spaceships


sexta-feira, março 06, 2015

A impossibilidade do alcoolismo em Fernando Pessoa: um ensaio em cinco tragos.

 Crónica publicada a 26/02/15




“Conta-se que um poeta maldito do segundo império, Theodore Pelloquet, vagabundo e bêbedo que ficou afásico, ao tentar no seu leito de morte exprimir aos seus próximos a sua última vontade só conseguiu pronunciar a primeira sílaba: abs…, sem que se conseguisse saber se queria um copo de absinto ou a absolvição dos seus pecados por um padre.” 
Robert Bréchon . Estranho Estrangeiro - Uma biografia de Fernando Pessoa


I – Tantas páginas em branco e tão pouco tempo.
Fernando Pessoa. Nascido a 13 de Junho de 1888, morrido a 30 de Novembro de 1935. Tendo vivido, assim, 47 anos, 5 meses e 17 dias, criou, nesse lapso, qualquer coisa como cerca de 130 autores fictícios (1). Dezenas desses autores fictícios deixaram obra que chegue para ocupar as academias de todo o mundo com séculos de pós-graduações, mestrados e doutoramentos. A sua vasta, complexa e inspirada obra heteronímica não tem paralelo na história da literatura universal, mas apenas como hortónimo já é o poeta mais importante do século XX português, rivalizando com Camões para o título nacional absoluto. A obra que Pessoa construiu no breve percurso da sua existência não está ainda, 80 anos depois da sua morte, inteiramente publicada. Inteiramente estudada. Inteiramente lida. A célebre arca não parece ter um fundo e o bom do Virgem Negra, para além do poeta-milagre que foi, também foi editor, dramaturgo, novelista, crítico literário, ensaísta, filósofo, politólogo e economista, tendo deixado à posteridade incontável obra sobre uma imensa pluralidade de temas, em português, inglês e francês.
Para além desta carga de trabalhos, o poeta da “Mensagem” escrevia cartas como se não houvesse amanhã. Correspondia-se com Mário de Sá Carneiro, com Jorge Luís Borges, com Adolfo Casais Monteiro, com Gaspar Simões (que viria a ser o seu primeiro editor e biógrafo), com António Botto, com Jaime Cortesão, com José Régio, com Camilo Pessanha, com Almada Negreiros, com Santa Rita Pintor, com os directores dos jornais que o irritavam e com os directores dos jornais que não o irritavam, com os seus professores de Durban, com astrólogos de Londres, com psiquiatras de Paris, com editores em toda a parte, com a Ofélia (correspondia-se imenso com a Ofélia!) e com mais uma quantidade inquietante de gente, só para falar das cartas que enviou, porque entretanto escreveu muitas que se esqueceu de levar aos serviços postais. O Fernando era aquele tipo de sujeito educado que mandava uma carta só para avisar que ia chegar meia hora atrasado (2).
A somar a esta quantidade devastadora de cartas assinadas com nome próprio, também criou bastante correspondência em nome de autores fictícios e heteronímicos. Umas vezes escreviam uns para os outros, outras vezes escreviam para gente de carne e osso e, outras ainda, escreviam para personagens imaginários, criados para efeitos meramente cenográficos fora do âmbito da criação literária (talvez a mais prodigiosa carta de amor jamais escrita na língua portuguesa é aquela que a Corcunda escreve ao Serralheiro).
Como eminência parda do modernismo português e co-fundador da Orpheu, Fernando Pessoa produzia com regularidade, em seu nome e em nome da multidão que o habitava, uma variedade enorme de conteúdos para os media da altura (manifestos, textos de intervenção política e social, poemas, ensaios, etc., etc.) e, claro, sempre sobre os assuntos mais díspares que podemos imaginar. Alguns destes textos são de grande fôlego literário e dizem-nos muito sobre o Modernismo português em geral e o pensamento do autor em particular. Só Álvaro de Campos escreveu dois dos manifestos mais espectaculares já registados pela história da literatura portuguesa: Aviso por Causa da Moral e Ultimatum.
Como a sua caligrafia, também a sua pena era perfeitamente transversal. Até um roteiro de Lisboa em Inglês, o senhor se lembrou de escrever (para ser editado apenas em 1992) (3).



Pessoa com costa Brochado, a beber... café.



II – Actividades curriculares e extra-curriculares
Pessoa era, também e por isso mesmo, um estudioso obsessivo. Erudito em autores tão diversos como Shakespeare, Edgar Allan Poe, John Milton, Lord Byron, John Keats, Percy Shelley, Alfred Tennyson, Baudelaire, Camões, Cesário Verde, Padre António Vieira e… Bandarra; refundador do mito do Quinto Império, zeloso leitor de filósofos clássicos e modernos, astrólogo amador, filatelista até um certo ponto, ocultista perito e conhecedor profundo das ciências e das artes do seu tempo, o santo homem teve que ler por ele e, no mínimo, por mais uma mão cheia de tipos que viajavam dentro dele (a sua biblioteca está cheia de edições assinadas por autores fictícios e heteronímicos). Mais a mais, é imperativo acrescentar a esta equação o deprimente facto de que Pessoa sempre precisou de trabalhar para ganhar a vida. Com esse fim, foi correspondente comercial a tempo inteiro, na maior parte da sua existência adulta, e tradutor, jornalista e publicitário em part-time.
Por cima disto tudo, e para concluir esta muito extensa lista de afazeres, sabe-se que era um tio dedicado e um daqueles solteirões que têm um jeito meio irritante com as crianças, não regateando o tempo que consumia com elas em brincadeiras, charadas e jogos mímicos (4).





































Fernando Pessoa descendo o Chiado sem trocar o passo.


III – Velocidade furiosa.
Se o prezado leitor ficou enfartado com os dois primeiros tragos deste ensaio, tem boas razões para isso. A vida e a obra de Fernando Pessoa resultam necessariamente num ataque cardíaco, dada a azáfama danada e exaustiva. Como é que o santo homem teve tempo para tudo isto?
É verdade que Pessoa é conhecido pelos seus episódios de criatividade frenética e velocista,dos quais o mais conhecido – e lendário – é o da Noite Triunfal de 8 de Março de 1914, em que redige de uma assentada os 49 poemas que cumprem “O Guardador de Rebanhos”, do mestre Caeiro (5). Mas ainda assim, só um sujeito altamente disciplinado, fortemente determinado e tendencialmente sóbrio é que consegue produzir toda esta quantidade delirante de obras primas, entre outras papeladas.
Ora, é precisamente neste ponto que a versão oficial dos biógrafos do insigne poeta não faz sentido nenhum. É que, de uma maneira geral, de Robert Bréchon a Cavalcanti Filho, todos constroem a imagem de uma figura diletante, melancólica e anémica, quase preguiçosa, que se arrasta entre o Martinho e o Chiado, numa ociosidade ébria. Gaspar Simões, que o conheceu muito bem em vida, é, curiosamente, o mais prudente nas alegações sobre os hábitos de consumo de bebidas alcoólicas do seu amigo (6), mas o alcoolismo é uma referência constante nos estudos biográficos que lhe são dedicados. Cavalcanti Filho chega a enumerar, na sua recente biografia-tipo-lista-de-compras, todos os vinhos e espirituosos que Pessoa emborcava, segundo o autor brasileiro, em quantidades industriais (7).
Pois bem, entre o copo de vinho aqui, a aguardente ali, a justa ressaca, o namorar da Ofélia, o deambular parasita pelas ruas da Baixa e o necessário cumprimento das obrigações profissionais, é pertinente perguntar sobre o elefante verde que está sentado no sofá magenta desta sala de espera: então e quando é que o Fernando Pessoa está a escrever, afinal?




 No Martinho da Arcada, entre amigos e cervejas.


IV – Da tasca ao opiário.
Como o Sócrates de Platão, o autor da Tabacaria nunca se dá por bêbado. Segundo os seus biógrafos, aguenta bem o álcool. Bebe, bebe, bebe, mas vai direitinho pela Rua do Carmo a baixo. Ninguém o vê trocar o passo. Não se lhe conhece uma infâmia por mau vinho, nem uma gritaria de taberna. Esta estoicidade do poeta perante a influência da bebida é bastante conveniente para a sua reputação de seca adegas, embora na verdade se saiba que os alcoólatras são os primeiros a cederem ao poder etílico, na medida em que têm permanentemente um nível de álcool muito elevado no sangue.
O Absinto é outro dos assuntos preferidos dos biógrafos e pseudo-biógrafos do génio da Ode Triunfal. É impossível saber se o paciente leitor tem ideia do que falamos quando falamos de uma bebedeira de Absinto, mas é algo de muito pouco recomendável. A bebida, destilada da planta medicinal que lhe dá o nome, é altamente aditiva e tem poderes alucinogénios. É talvez a beberagem alcoólica mais parecida com uma droga dura que podemos imaginar.
Para se perceber o poder destrutivo do absinto, basta revisitar as aflições que do seu consumo resultaram em personagens como Charles Baudelaire, Paul Verlaine, Arthur Rimbaud, Van Gogh, Oscar Wilde, Henri de Toulouse-Lautrec e Edgar Allan Poe. Uma boa geração de impressionistas da Belle Époque foram criativamente anulados pelo vício do Absinto. Consumida em excesso, esta não é uma bebida que permita a funcionalidade social ou intelectual e não se percebe, mais uma vez, como é que Fernando Pessoa podia abusar regularmente do Absinto e manter a proficiência lírica e ensaística no seu regular nível olímpico.
Para piorar ainda mais as coisas, nas últimas décadas tem pegado muito a conversa de que Pessoa se dedicava ao consumo do ópio. Esta tese é ainda mais radical, já que o ópio é uma droga que exige e implica largos períodos de letargia, agravando ainda mais a escassez de tempo dedicado à escrita na agenda do poeta. Sim é verdade: Pessoa escreveu que “tomava” ópio. Sim, é verdade: escreveu que o vinho é o melhor da vida. Mas estamos a falar do mais fingidor dos poetas alguma vez paridos. Álvaro de Campos, por exemplo, projectava navios enquanto se embriagava, se drogava loucamente e fazia sexo com máquinas. Lá no mundo imaginário de Álvaro de Campos, claro. Ricardo Reis deliciou-se com as prostitutas de Lisboa e Bernardo Soares era um amante impetuoso, lascivo e competente, que deixava a balzaquiana Olga exaurida de prazeres (8). Apesar disto, há muita gente mais ou menos respeitável que acredita que Fernando Pessoa morreu virgem (4,7).
Sim, é verdade: o homem visitava tabernas, casas de pasto, botequins. Sim, bebia uns copos sózinho ou na companhia boémia dos modernistas com que se dava. Sim, embriagava-se normalmente, como convinha aos personagens da sua ficção íntima e do ecossistema social que habitava. Mas há uma diferença grande, que toda a gente compreende bem, entre a episódica copofonia e a constante alcoolemia. Uma diferença tão grande como entre a ficção e a realidade.





































Em flagrante delitro no Abel Pereira da Fonseca.


V – Entre o namoro e a morte, um epílogo.
Um dos fenómenos mais tristes do mito de Fernando Pessoa é o que foi montado à volta da sua morte, tantas e tantas vezes erradamente atribuída a uma “cólica hepática” associada à cirrose. É necessário afirmar que este diagnóstico é falso. Fernando Pessoa foi vítima de uma pancreatite aguda e não evidenciou à altura da sua morte quaisquer sinais distintivos de cirrose hepática (9).
Esta persistente falácia ilustra com rigor a qualidade do modelo argumentativo da tese do alcoolismo, que é realmente fraquinha em factos, mas nem seria preciso mencioná-la. Ou o Virgem Negra era imune aos efeitos destrutivos da embriaguez crónica – o mais funcional dos alcoólatras desde que Baco organizou a primeira orgia – ou simplesmente não bebia tanto como toda a gente que é perita nele afirma que ele bebia. A vastidão assombrosa e múltipla da obra que desenvolveu não deixa muita margem de manobra para uma vida de vício. E, no belo, pungente e extenso relato que Ofélia Queiroz partilhou com a sua sobrinha-neta Maria da Graça Queiroz (10), a única menção que o grande amor de Fernando Pessoa faz a este assunto refere-se ao famoso retrato do poeta a beber vinho no Abel Pereira da Fonseca (com a legenda: “Fernando Pessoa em flagrante delitro”), que lhe foi parar às mãos através do seu sobrinho Carlos Queiroz e que deu lugar a um reatar do namoro, 9 anos depois da sua primeira conclusão. De resto, nada, rigorosamente nenhuma referência ao que Pessoa bebia, muito ou pouco. Se Ofélia Queiroz algum dia o viu embriagado, não quis deixar essa memória para a posteridade. Isto embora a ilustre senhora não mostre a mesma parcimónia sobre outras excentricidades, manias e fraquezas do namorado.
E para concluir, uma perguntinha só: se Pessoa era um amante assim desvairado do vinho, porque diabo é que o bom do Almada Negreiros o imortalizou a beber café?


—
1 – Jerónimo Pizarro e Patricio Ferrari – Fernando Pessoa – Eu sou uma Antologia – 136 Autores Fictícios, Tinta da
China, Lisboa 2013
2 – Fernando Pessoa, Correspondência (1905-1922), Relógio d’Água; Fernando Pessoa, Correspondência (1923-
1935), Assírio & Alvim
3 – arquivopessoa.net
4 – Robert Bréchon, Estranho Estrangeiro, Quetzal, Lisboa, 1996
5 – casafernandopessoa.cm-lisboa.pt
6 – João Gaspar Simões, Vida e Obra de Fernando Pessoa – História duma Geração, Bertrand, Lisboa, 1950
7 – José Paulo Cavalcanti Filho, Fernando Pessoa, Uma Quase Autobiografia, Porto, 2012
8- Salomó Dori, A Vida Sexual de Fernando Pessoa, Palimpsesto, 2009
9 – Francisco Fonseca Ferreira, A Penumbra do Génio, Livros Horizonte, Lisboa, 2002
10 – O Fernando e eu, Relato da Ex.mª Senhora Dona Ophélia Queiroz, destinatária destas Cartas de Fernando

quinta-feira, fevereiro 26, 2015

Pessoa em movimento.

 photo Fernando Pessoa descendo o Chiado com Augusto Ferreira Gomes.gif

Fernando Pessoa com Augusto Ferreira, no Chiado.

Condensado de solo de guitarra.



André Antunes, de 23 anos, reuniu alguns monstros sagrados da guitarra num medley eléctrico sobre a simpática base harmónica de "Get Lucky", dos Daft Punk.
O resultado é brilhante. Simplesmente brilhante.

terça-feira, fevereiro 24, 2015

Viagem à floresta do folk.

Crónica Publicada a 19/02/15.

 


De uma maneira ou de outra, a tradição folk anglo-saxónica tem sobrevivido bem à voracidade das épocas e à inconstância das manias, integrando-se transversalmente e com profundidade melódica em fenómenos de vastidão antípoda como os The Magnetic Fields do fim de século XX, os Wilco do princípio do século XXI ou os Manchester Orchestra de agora.
Apóstolos desta seita prolixa e interminável, os Bear’s Den lançaram no fim de 2014 um primeiro trabalho que soa como um décimo sexto. Maturo, parcimonioso mas quase fundamentalista na obsessão com as harmonias, carregado com um conjunto de poemas inspirados e convenientemente sorumbáticos, “Islands” (Communion Records, 2014) é um disco que deixa outras bandas menos convictas da sua inerente herança folk, como os The Lumineers, a milhas de distância, no caminho da floresta.
 


Logo no primeiro minuto de “Agape”, o tema de abertura, está uma espécie de manifesto. Se o gentil leitor ouvir apenas estes acordes iniciais ficará razoavelmente informado sobre a odisseia que os três músicos de West London têm para lhe propor. Um tema forte como o raio.
“The Love You Stole” transporta algo dos paleolíticos Big Country para uma redefinição da balada. Saltando de uma viagem psico-revivalista a Pompeia (“Above The Clouds Of Pompeii”), para uma trova de gentil-homem que evoca com brilhantismo algumas experiências sónicas do grande Stephin Merritt (“Isaac”), o audiente é confrontado mais à frente com o poder épico de “Think of England”, uma canção que dá vontade de apanhar imediatamente uma boleia do Mayflower ou qualquer coisa aventurosa e marítima deste género. O banjo, que é a peça lírica por excelência dos Bear’s Den, tem reinado até aqui mas, aqui chegados, é imperador.Em “Magdalene” já estamos completamente imersos pelo arvoredo do folclore celta e, no trilho sombrio que se estende entre “When You Brake” e “Elysium”, ficamos cada vez mais próximos do grande deus-urso. 
O disco vai num crescendo indie-folk assumidíssimo, quase sem rock nenhum, até ao apogeu estético que os seus ouvidos, paciente leitor, vão consumir com deleite. “Bad Blood” é o fim do trilho, o triunfo do mato, o covil de todas as coisas. A razão da música no coração da floresta.

Mais uma pérola.


sexta-feira, fevereiro 20, 2015

Isto começa a ser viciante:



Bear's Den . Think Of England

You're not drinking as much as you used to.
I'm the same old, same old.
 

quarta-feira, fevereiro 18, 2015

Só para quem gosta de corridas.



Ron Howard é um cineasta absolutamente imprevísivel, que está sempre a oscilar entre a competência e a mediocridade. É tão capaz de realizar objectos fílmicos decentes e com peso na cultura pop contemporânea, como Apollo 13, Frost/Nixon, Cinderella Man ou A Beautiful Mind, como de dirigir verdadeiros cataclismos do bom senso e do bom gosto, como Far And Way, Backdraft ou o lamentável Da Vinci Code (é difícil fazer de Tom Hanks um actor medíocre, mas Ron Howard conseguiu cumprir a desgraça).
Por sorte, em Rush, uma espécie de biopic dedicada à célebre rivalidade entre Nikki Lauda e James Hunt, Ron mostra o seu melhor lado. Para quem gosta de corridas de automóveis, das boas e velhas corridas de automóveis, o filme enche as medidas e mata muitas saudades. É que a acção centra-se no ano paleolítico de 1976, altura em que a Fórmula 1 era um espectáculo operático de alta intensidade ontológica e antológica, que colocava na arena uns monolugares monstruosos, completamente analógicos, que faziam um barulho do escafandro, gastavam que nem doidos e assassinavam recorrentemente os seus domesticadores. Lauda e Hunt eram excelentes domesticadores. E enquanto o inglês escapou incólume da aventura, o austríaco pagou caro pela glória, como toda a gente sabe. Howard conta a história com desenvoltura técnica (a coerência estética e dinâmica entre as sequências digitais e a imagem real é um ponto forte da fita), sentido épico e fluência dramática, os actores são convincentes na transfiguração, e a história é, na sua maior parte, contada como aconteceu realmente, o que é raro num filme produzido pela máquina de debitar mentiras que é Hollywood e de que Ron Howard, para o bem e para o mal, é indefectível campeão.
Já quem não gosta assim tanto de automobilismo, se calhar o melhor é ver as cinquenta sombras de grey ou uma outra merda qualquer.

sexta-feira, fevereiro 13, 2015

Pura combustão.



Desde que foi colocado em órbita, em 2010, o Observatório de Dinâmica Solar da NASA tirou 200 milhões de imagens à estrela que nos aquece. O resultado são estes quatro minutos e meio de deslumbramento.

Momento de rara beleza. Mesmo.



Bear's Den . Bad Blood

Sever the ties,
Cut me out,
And fill up the hole
That I tied and I tried and I tried to fill
Oh but I lied and I'll lie at will
Just to keep your feet off the floor
And to keep my wolves from your door

Forgive me for I am not acting myself
But these bees in my breath have to come out
Well you give me no reason to doubt your word
But I still somehow still have my reasons
And I'm sorry I don't mean to scare you at all
I'm just trying to drain all this bad blood
All this bad blood
All my bad blood

Well I slashed your tires
And I locked your doors
So no one gets out
But there's a rupture to the structure
Of this house that we built
And I fucked it yeah I fucked it and I fucked it until
Those wolves they took all they could

Forgive me for I am not acting myself
But these bees in my breath have to come out
Well you give me no reason to doubt your word
But I still somehow still have my reasons
I'm sorry, I don't mean to scare you at all
I'm just trying to drain all this bad blood
All this bad blood
All my bad blood
All my bad blood
All my bad blood
All my bad blood

As I walk down he road of old St. Augustine
I recall a choir singing in some orchard
Well the tighter you hold, yeah they're still gonna go
Until all you remember is the courtship
Well I know I was far from perfect
But I was just dying to drain all my bad blood
All my bad blood
All my bad blood 

quinta-feira, fevereiro 12, 2015

A quem é que os alemães vão pedir uma indemenização por isto aqui:


Há 70 anos atrás, a 13 de Fevereiro de 1945, os aliados conduziram aquele que é, talvez, o mais infame bombardeamento da história da II Guerra Mundial. Infame, porque a guerra estava já ganha. Infame, porque foram despejadas sobre Dresden cerca de 4.000 toneladas de bombas incendiárias. Infame porque morreram 25.000 civis numa noite apenas. Infame porque a razão para a chacina se deveu apenas à vontade de aniquilar a estrutura industrial alemã.
Infame enfim, ainda hoje, porque, entre cineastas, romancistas, jornalistas, historiadores e políticos, há muito poucas almas com coragem para documentar o apocalipse de Dresden. Kurt Vonnegut escreveu, a propósito da sua experiência "ao vivo" da terrível noite de Dresden, a caleidoscópica obra prima "Matadouro Cinco", e, na literatura, que eu saiba, é tudo. Hoje, os senhores que conduzem a redacção do The Atlantic, lembraram-se. Mas é pouco, muito pouco para tanto horror.
No momento em que os gregos "exigem" algo tardiamente indemenizações à Alemanha pelos estragos da guerra (lembro que o governo grego vigente no momento da ocupação pelas forças do eixo era fascista e que a guerra civil que se seguiu à libertação do país só terminou em 1949), eu pergunto: e que a quem é que os alemães vão pedir compensação por esta atrocidade perfeitamente evitável?

Rocketville #15 Retro_Spaceships


quinta-feira, fevereiro 05, 2015

No jardim do bem e do mal.

Ontem li na Sábado um artigo do José Pacheco Pereira que me deixou com o queixo ao nível do mar. Reparem só neste meio parágrafo:

"Ouvindo estas vozes, exigindo que a única política europeia seja "levar o Syriza à derrota" para evitar o contágio, sem transigências e com toda a dureza, eu penso como nestes últimos anos nós não tivemos só discussões políticas e ideológicas (poucas aliás, a sério), alimentámos o mal. O mal. Nalguns sítios da nossa sociedade gerámos, alimentámos, engordámos, trouxemos à luz do dia gente má, muito má, que mandou e manda em nós, instilando arrogância, desprezo pelos mais fracos, insensibilidade face à miséria, gente que olha os gregos como se fossem untermenschen." 

Deuses. Parece que, para JPP, quem acha apenas justo e prudente que os gregos paguem o que devem é uma espécie de acólito de satã. E quem, como eu, não vê de ânimo leve a ascensão do Syriza aos círculos mais altos do poder na Europa, não passa de um sádico. O maniqueísmo escandaloso e, de certa forma, doentio, que JPP usa abundantemente como figura de estilo neste texto, não está à altura do seu perfil intelectual, é estranhíssimo e, sobretudo, preocupante.
Percebo que JPP se sinta nostálgico de uma revolução qualquer e a qualquer custo, mas não é de certeza o Syriza que a vai fazer, porque a Grécia precisa de dinheiro muito antes de precisar de revoluções.
Percebo que defenda os cidadãos europeus que fazem sacrifícios e passam mal e perdem empregos e caem na miséria. Mas, caramba, porque raio é que o distinto historiador e opinion maker decidiu acreditar que Tsipras e Varoufakis e companhia vão conseguir inverter a tendência de descida na qualidade de vida dos gregos? No preciso momento em que escrevo este texto, Wolfgang Schäuble, o inflexível ministro das finanças alemão, acabou de deixar o seu congénere grego com um sorriso amarelo de todo o tamanho ao anunciar em conferência de imprensa conjunta que "concorda em discordar" com o seu congénere, assumindo a ausência de qualquer acordo e reiterando que a Alemanha já ajudou a Grécia mais do que seria razoável. As perspectivas de curto e médio prazo para uma redução da austeridade na península helénica não podem ser optimistas. Ao invés, as coisas podem começar a correr mesmo muito mal. Se a Grécia sair do Euro, o que é que o JPP pensa que vai acontecer ao povo grego? Os actuais e sofríveis níveis de vida vão cair rapidamente, de tal forma que o actual período de austeridade trará lendária nostalgia àqueles que JPP agora defende: os pobres vão ficar mais pobres, os remediados vão ficar menos remediados e assim sucessivamente até ao caos absoluto da economia e da nação.
Isto já para não falar do conjunto de valores niilistas e absolutamente anti-civilizacionais que estão escarrapachados no programa político do Syriza e que transporta o entusiasmo retórico de José Pacheco Pereira para um patamar de non-sense só admissível numa rábula dos Monty. Tenho a certeza que o notável autor não tem qualquer simpatia pelos fundamentos ideológicos desta gente. E que os acha tão perigosos como eu.
Mas, assim sendo, a que se deve este recurso aos abismos do bem e do mal, esta insidiosa arquitectura moral, este fascismo ético?
Sinceramente, há coisas que não se percebem. E eu cada vez percebo menos das razões que movem Pacheco Pereira.

Bomba eléctrica.



The Hobbes Fan Club. Uma banda com um nome destes só pode dar em algo de excepcional. Algo como o solo de guitarra desta música, que não podia debitar mais conteúdo lírico, sob o risco de implosão voltaica.

segunda-feira, fevereiro 02, 2015

Super Bowl Drama #2


É muito raro termos um Super Bowl sem drama, mas os últimos minutos do duelo de hoje, entre os New England Patriots e os Seatle Seahawks, foram completamente insanos.
A perder por dez pontos no final do terceiro quarter, Tom Brady, com dois passes para touchdown, conseguiu levar os rapazes de Foxborough a uma vantagem de 4 pontos, deixando apenas dois minutos ao adversário para reagir. Acontece que os Seahawks não são propriamente uma equipa de maricas, e, a vinte segundos do fim, estavam a uma jarda do título, depois de um catch acrobático e surreal de Jermaine Kearse. Com dois downs para jogar, tudo o que Russell Wilson tinha que fazer era dar a bola ao melhor running back da liga, o imparável Marshawn Lynch, a.k.a. The Beast Mode, e somar o título. Ao invés, numa decisão absolutamente inacreditável que deixou toda a gente de queixo caído, o quarterback dos Seahawks lançou disparatadamente a bola para a end zone, só para ser interceptada por Malcom Butler, o rookie cornerback de New England, oferecendo assim a glória aos Patriots e a Tom Brady, que se junta ao restrito grupo dos quarterbacks sagrados do futebol americano, com 4 títulos conquistados.
Na América, hoje, só se faz uma pergunta: What the hell were they thinking?

Super Bowl XLIX highlights on Youtube

Super Bowl Drama #1


Da queda do homem.

"Caí pela escada abaixo subitamente,
E até o som de cair era a gargalhada da queda.
Cada degrau era a testemunha importuna e dura
Do ridículo que fiz de mim."
 

Álvaro de Campos


A pior queda que Deus inventou não é aquela bíblica, do Homem Original. A pior queda, a queda livre e absoluta, é a de malhar no ridículo.
Convenhamos: o gajo que come a maçã proíbida na perspectiva de uma pinocada gratuita é tão trágico como um pomar. Mas o gajo que dá uma trinca no fruto seminal sem perspectiva de pinocada alguma é trágico como Wagner. A intensidade da tragédia não tem comparação por causa do índíce de ridicularia: Adão tinha uma razão para a queda aparatosa - uma razão sensata e válida que toda a gente dotada de orgãos genitais percebe perfeitamente. Acabou por fazer má figura. Mas não fez figura triste. E não há pior tortura para o homem moral que o suplício de fazer triste figura. Daí Cervantes: o Adão que cumpre a asneira histórica de trincar a maçã sem sequer ter a intenção de dar a queca na gaja é completamente quixotesco. E cai rapidamente na pior espécie de teatro grego que pode existir na história universal da literatura: o circo do ridículo.
A tragédia, como é claro, não advém da realidade; é, ao invés e invariavelmente, o produto de uma ilusão ou o resultado de um equívoco. É que não há tragédia sem farsa e não há existência sem a presença do ridículo. Na verdade, é precisamente com o rídiculo da existência que os deuses se vingam de nós.