domingo, agosto 14, 2005

Este é grande.

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Gosto à brava deste aventureiro marinheiro. Casado com uma mulher nobre e fiel, sabe que pode partir para a viagem sem perigos de desonra. É esperto e é romântico (rara alquímica!). Gosto do Ulisses porque o homem não usa a cabeça só porque dá jeito ao elmo, tem presença de espírito e é assertivo e é pertinaz e resolve problemas e segue o seu caminho à procura não se sabe bem do quê. Isto, claro está, para além de estar sempre a querer regressar a casa (um gajo que percorre todo o mundo antigo para conseguir chegar a casa desperta-me uma ternura imensa). Gosto deveras deste construtor de barcos e de cavalos, deste engenheiro da aventura que - protegido por Atena, a Deusa dos Olhos Garços - se faz um herói como deve ser. E até mais que um mito grego, solidifica-se num deus católico e irlandês. Não é de se meter em brigas, mas vence a barbárie da violência, com violência se necessário for, com astúcia se proveito de superior qualidade lhe trouxer a inteligência. É corajoso mas não é parvo, e passa montes de tempo na proa, a perscrutar o horizonte mediterrânico, na senda da origem das coisas. Gosto dele.

Este é pequeno.

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Não gosto nada deste guerreiro interesseiro. Não gosto deste gajo que faz birras na presença de reis, que é invejoso de escravos e, mais cruel que valente, mais mercenário que soldado, permanece um enormíssimo maricas (afinal, quem é que alguma vez morreu com uma seta enfiada no tornozelo?). Armado em parvo e armado aos cucos, amantiado com um primo imberbe (e péssimo esgrimista), esmagando exércitos com a sua magnífica Excalibur de calibre helénico 3000 AC, Aquiles é, mesmo assim, um frouxo. É um frouxo porque faz tudo pelas razões erradas. Até quando entrega a Príamo o corpo morto e violentado do seu filho, o cavaleiro não é nobre porque fica pequenino de remorsos. Depois de ter cavalgado as sete colinas de Tróia com o cadáver de Heitor de rojo pelo mato, insultando de tragédia e ignomínia a alma troiana, corrompendo rituais sagrados e retirando ao seu adversário a glória da morte em combate, Aquiles é seguramente o bandido palhaço que vai ter remorsos. Não gosto dele.
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sábado, agosto 13, 2005

Ode ao Coentro

O mar das ameijoas sabe-me a seara lavrada:
bebo depois a sopa açorda - água de um moínho,
salpicada pelo tempero de um pico daninho.

Dizes-me coisas que voam pelo fluir da enseada
e confias em mim para me perder no caminho.
Essas aves são as palavras que bebo como vinho.

Conforta-me o gosto bravio da erva cozinhada
e o filete de pata roxa tem uma pitada de cominho.
É do teu lado da planície que a garça faz o ninho.

E quando se fecha a tarde no abraço da nortada,
é o aroma da flor que me chama, e eu entro
na tasquinha do Sr. António onde impera o coentro.
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quarta-feira, agosto 10, 2005

mixed feelings

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Estou exultante porque chegaram os valentes astronautas à boa e velha terra sãos e salvos (e com eles talvez todo um programa espacial). É o regresso do velho mito grego do retorno, agora com redenção da tecnologia humana, em directo na CNN e com um final feliz ainda por cima.
Estou triste porque não vivo ainda e não viverei nunca a idade matura da conquista espacial; que é o mesmo que dizer: da expansão verdadeiramente endémica do Virús Sapiens-Sapiens. Não consegui encontrar o link para a notícia de 5 de Agosto do DN mas acreditem em mim: um dos utensílios que o astronauta reparador levou consigo para consertar a estrutura cerâmica que impede o veículo espacial de se volatilizar quando entra na atmosfera terreste foi... fita adesiva. Sim, ou o Diário de Notícias está a abusar da minha credulidade ou a malta da NASA achou de facto pertinente apetrechar o seu mecânico estelar com a alquímica ferramenta que nós, cá em baixo, usamos para os mais prosaicos fins quotidianos, como selar uma encomenda postal ou isolar a corrente eléctrica. É verdade que o santo homem só precisou mesmo de alguma habilidade manual para executar a inédita tarefa, mas, por deus, a fita adesiva ia servir para quê?
O pomar da História está a apodrecer de provas: não é o estado que lança a humanidade para o mistério do porvir. É, sobretudo, a iniciativa individual - ou a ganância coorporativa - que movimenta com eficácia o homem na incessante viagem que faz do passado para o presente. A NASA está já fora do seu tempo. É corpo morto. Porque o tempo da conquista espacial é agora, o das empresas privadas.

Um Verão do Lado de Swan.

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O Guadiana Internacional; que vibra com as marés oceânicas e que, por isso, mantém este caudal majestático sobre o deserto acidentado do Sudeste Alentejano; é uma nação de memórias, um país líquido e prenhe de castros antigos e ódios ancestrais, de margens abrutas e ventosas com chilrreantes canaviais que de noite competem com o silêncio ensurdecedor das estrelas objectivamente falaciosas em cada pulsar. Combray, o idílio de Proust - esse anjo monocórdico que me fala por santas metáforas (que me fala de aristocratas que limpam o monóculo como quem muda um penso), Combray, o verdadeiro paraíso perdido, não tem o Guadiana de grande caudal salgado, agreste e venerável, falso de correntes, perigo fluvial e amigo de marinheiros, que lhe dê banho à literatura! Combray, por todo o amor que Proust tem pelos nomes, não ganha em glória nem em sonoplastia a Guerreiros do Rio, Guerreiros do Rio, caramba, um nome de uma terra como devem ser os nomes das terras que marcam a presença funesta dos homens!; um etimologismo grandioso e quizilento onde se encerra a paz que há no mundo e a insuficiência que há no homem. Combray, claro está, é um terreno para construtores de utopias: não dá lugar às realidades comesinhas da história ou da geografia e envolve Swan no primeiro mistério da existência, ele que é sujeito primordial do sindroma de Adão. Odette, o segundo patamar metafísico, substitui o pecado por culpa e, talvez por isso, lembra-me não o Guadiana mas antes o Cardeal inverso deste Alentejo que me liberta, e nele uma boca de sarjeta aberta sobre o tecido aldeão da Zambujeira, cuspindo a céu aberto e fechada rua o mijo que eu deitei por fora na casa de banho de um bar cujo nome obsceno suicidaria de pronto o bom do Marcel. Sem preocupações com a MTV, Proust passa ao lado do Festival do Sudoeste e vinga-se em Swan que se perde dentro da leitura que faço dele, uma espécie de rapto trans-material (beem him up, Scotty), para o transportar até ao reino da luz oblíqua, principado da razão pura. Passam as horas e esquecem-se os anos e as palavras permanecem estáticas, perfeitas, pérfidas e divinas. Swan deambula pelos corredores dramáticos do amor à procura em Vermeer de uma saída para o tédio, afinal fingindo e fugindo como eu da multidão que suja a bela paisagem flamenga da Costa Vicentina. Swan, o indisposto e indolente, o autómato da emoção, sem um rumo e expoliado de destinos, reverso inverso de um sentido para a vida - como um escravo regularmente sodomizado por deus - irmão gémeo de um nado morto, abandonado no ventre imenso de uma história que vive para além da cronologia relojoeira do Sapiens, nobre sobre a tragédia que o humilha, lembra-me outro amigo de Verão: Bach, ele mesmo maior que os deuses, compondo música celestial para adormecer um simples príncipe ou anunciando gloriosamente a entrada física e abjecta de um reles aristocrata na Câmara da Liga; Bach desperdiçando o talento extra-terrestre em merdas, como Swan ao sol negro do amor anti-cristão pela Senhora de Cressy.
Neste Verão, houve um certo paragrafar de Proust, um certo frasear de Bach, um certo conversar no Oceano, uma certa paixão que nasce quando amamos subitamente pessoas que conhecemos de súbito, outra certa perdição que nasce quando amamos para sempre alguém que sempre amámos, um certo amigo que acorda e sorri - e que só por isso nos faz felizes -, um sereno mergulhar no abismo de uma certa Praia, uma específica e romanesca sabedoria de um certo Rio, um determinado ladrar grato de um cão que amamos. Neste Verão houve consubstância ontológica. Afinal, é bom ter férias.

Dramaturgia do crime (ou a má criação)

Downtown Los Angeles, quarto de hotel manhoso.
O cadáver estende-se horroroso
num disparate de fragmentos coagulados
sobre a colcha, a alcatifa e os cortinados.
Philip Marlowe apaga o cigarro na poça de sangue mais à mão,
coça o nariz e diz fodasse, que puta de confusão.
Agatha Christie ruburiza numa vitoriana censura da sintaxe
enquanto Sherlock Holmes enfia a lupa nos invólucros usados do tampax.
Chega entretanto Colombo, coxeando da perna boa e de gabardine infecta
desconfia logo de um incógnito penetra;
atrás vem Ventoinha, o inspector que detecta
a arma do crime: uma escova de dentes de afiadas cunhas
com que Perry Mason se entretém a tirar o sebo da unhas.
Crime disse ela, Miss Marple que entra em cena,
já bolorenta de atrites e demais maleitas de madalena,
procurando o amparo de Hercule Poirot que em dieta de emoções
vai cofiando o bigode como quem coça os colhões.
Todos contra todos, decidem-se a resolver o mistério
para redenção da hotelaria e salvação do império.
Até que Marlowe se chateia e vai de boleia,
até que Agatha se irrita e desabita,
até que Sherlock se aborrece e desaparece,
até que Colombo se mira e retira,
até que Ventoinha se perde e despede,
Até que Mason se corta e sai pela porta,
Até que a velha tralha se espalha,
até que Hercule se basta e leva a pasta,
para não ficar ninguém no quarto manhoso
a não ser o cadáver horroroso
que se suicidou às postas
(por um negócio de apostas
em cavalos doentes),
com uma escova de dentes.

sexta-feira, julho 08, 2005

O terror vencedor.

Nas últimas quarenta e oito horas, eu vi: um gajo esquizofrénico na Escócia, de capacete, bandeira greenpeace e farda para o combate, arremessar pedregulhos contra polícias que iam fugindo como podiam. E homens e mulheres (cujo pecado capital será dirigirem-se para o emprego que têm em Londres) assassinados, decepados, feridos, aviltados, aterrorizados por um outro esquizofrénico, que, se tivesse livre acesso ao tecido multicolor, também gritava Quioto. Só me faltou o bom do Geldorf, que devia organizar um concerto a favor das vítimas da paz.
O mundo, como roda hoje, dá vontade de vomitar.

O Inverno de Vivaldi.

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É natural que escape ao ouvido, mas não pode fugir ao escrutínio de quem quer saber: Antonio Vivaldi foi ordenado sacerdote aos 25 anos (1703) e em 1737 (34 anos depois) é acusado pela igreja de, muito simplesmente, nunca ter celebrado missa. Quem se dá ao delírio de ouvir repetidamente o Alegro non molto do Inverno deste mestre, percebe bem que não existe Deus nenhum na alma do homem. Nas palavras de Vivaldi (e em sua própria defesa numa carta endereçada ao Marquês de Montivoglio): "Posso sair para passear depois do jantar, mas nunca vou a pé. Esta é a razão pela qual nunca celebro missa." E, na mesma carta, de forma ainda mais lapidar: "Estive em Roma três vezes para estrear uma ópera em tempo de Carnaval, mas nunca celebrei lá missa."
Este bom, velho, nobre, hipocondríaco e virtuoso bocado de ser humano soube fazer sempre o exercício necessário para ganhar o seu lugar na história da humanidade. E - como é claro - nada disto está directamente relacionado com um Deus estúpido que - para além de não existir - é imerecedor de uma caminhada. E indigno de um concerto em Roma. Mesmo em tempo de Carnavaladas.
Vivaldi, treinado e orquestrado para ser devoto, mandou a igreja para o diabo que a pudesse em boa hora carregar. E, perdendo nenhum tempo com coisas insubstantivas como dizer a missa, dedicou-se alegremente a compor a música que, 3 bons séculos depois, ainda diviniza as quatro mutações da natureza.

sábado, junho 18, 2005

Barbearia


Ah, ir ao barbeiro como quem recomeça!
Ir de cara lavada, ir, erudito, ao barbeiro para renascer!
E o barbeiro, que está lá para a redenção, redimir-me!
E o vizinho que está lá a gastar o tempo, absolver-me do tempo!
E a minha imagem ridícula, despropositadamente punk e própria de cliente de barbeiro,
com muito cabelo num hemisfério e nenhum no outro hemisfério;
e a minha imagem ridícula em apartheid capilar que está ali para me salvar, salvar-me!
Ah, ir ao barbeiro e começar de novo!
(1996)

quinta-feira, junho 16, 2005

Orwell e o falecido Dr. Cunhal.

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A história avalia o génio dos homens escassas vezes pelas suas glórias, mas frequentemente pelos seus desvarios.
O caso raro é Orwell: dando a perceber à humanidade que a utopia não era concretizável dentro do contexto da natureza humana, inventou este belo e verdadeiro complexo semântico da Distopia. E se é verdade que, 20 anos antes, Ievgueni Zamantiane já nos tinha alertado para esta coisa tenebrosa de procurar deus nos sonhos organizacionais dos homens, foi ele, George, que instalou em definitivo o problema. Com essa proeza, ganhou um lugarzito na bancada da posteridade.
O caso prosaico é Cunhal: nunca percebeu a inevitabilidade distópica (em português direito: o supra-poderoso potencial para o desastre egotista do indivíduo), e por teimar no dogma, por casmurrar no dislate, vencerá a lei da morte, sim, mas em décadas apenas.
A presença heróica que dure por centúrias e milénios na memória dos homens, sairá sempre mais cara ao protagonista. Estaline, por exemplo, pagou o preço mais caro de todos (na verdade, tratou-se de um péssimo investimento). Mas, começando pelo princípio, Ulisses pagou e inventou a imortalidade com um valente par de cornos, mais 52 tempestades; Aquiles pagou com a morte do amante; Sócrates pagou ao beber pelo mesmíssimo cálice com que, um bocado depois, Cristo foi levado à cruz (a este, também não lhe saiu a eternidade em conta); Aristóteles pagou com a medievalidade na Europa, Alexandre pagou com a pressa da morte; César com a infâmia dos Césares, Átila com a retirada de Roma (um mistério); Constantino com uma civilização inteira (um disparate); S. Tomás de Aquino com a virgindade; Shakespeare pagou a glória eterna com um espaço em branco; Bórgia com a reputação; Da Vinci com a inconsistência; Velazquez pagou com o mau hálito dos reis e, a dobrar, com o mau feitio dos papas; Mozart pagou com a infância; Newton com uma maçã na cabeça; Cromwell com o líbido dos exércitos; Kant com o provincianismo; Robespierre com o seu próprio remédio; Napoleão com uma úlcera no cérebro e a Goethe (como antes a Marlowe) ficou-lhe caríssima a imortalidade, sendo até necessário um primeiro comércio com o Diabo; Bismark pagou com a Alemanha; Einstein com a fotografia no jornal; Hitler largou as despesas da embalagem facínora e equivalentes à fortuna de Charlie Chaplin, mais um bigode lamentável; Churchill pagou acima do razoável com a derrota maluca nas eleições de 45 (ou 46?), Picasso, com uma camisola de marinheiro gay, Spielberg com o síndroma Miguel Ângelo e assim sucessivamente até à banca rota do mercado financeiro que é o da salvação das almas.
Álvaro Cunhal, não pagou o preço justo (até porque morre de velho) e, sobretudo, estava demasiado errado e era excessivamente teimoso para aceder ao Olimpo. A sua inteligência, a sua sensibilidade de artista, a sua argúcia natural, não convencem os deuses.

quarta-feira, junho 08, 2005

Ter um blog compensa

Apesar de abandonado pelo dono e, naturalmente, desertificado de públicos, o blogville ainda me consegue dar alegrias. Hoje recebi um email muito simpático do Engenheiro Rui Moura, de que falei em Janeiro, quando toda a conversa sobre a fraude ambientalista começou. Na altura mencionei-o pela sua lúcida e corajosa participação numa edição do Expresso da Meia Noite sobre as grandes questões ambientais. No seu mail, o Engenheiro mostra-se solidário com os pontos de vista que aqui coloquei sobre o assunto, facto que muito me honra. Mas quem de facto estiver interessado em saber a verdade sobre as reais evoluções climáticas a nível global deve visitar o blog dele , cujo rigor científico e o carácter pedagógico colocam as minhas considerações ao nível da rábula humorística.
Já agora: este blog não morreu. Sofre apenas e temporariamente do meu desleixo fásico.

sexta-feira, maio 06, 2005

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Um Portugal competitivo.

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Grande jogo e enorme conquista do Sporting na Holanda. Em três anos, Portugal está em 4 finais europeias, o que coloca o País no seu devido lugar, como potência futebolística emergente. Somando estes sucessos com o fenómeno Mourinho e a influência dos jogadores portugueses nas grandes equipas do velho continente, podemos concluir que, ao menos no que diz respeito ao pontapé na bola, temos um país competitivo.

terça-feira, abril 26, 2005

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SOS Hubble

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Por estes dias, discute-se na NASA a viabilidade do Hubble. Como se pudéssemos já passar sem ele. Como se não fosse um crime de lesa-humanidade desistir da jóia da coroa da ciência contemporânea. Agora que vimos a luz, vamos ficar cegos outra vez?

Ah, um congresso como deve ser.

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No fim-de-semana que celebra os 31 anos de Terceira República, o CDS esclareceu os portugueses sobre aquilo que falamos quando é de democracia que estamos a falar. Há muito tempo que não acontecia um congresso assim (para aí desde que o palerma do Meneses foi corrido do Coliseu dos Recreios) e foi edificante. Ribeiro e Castro ganhou - a sós e em tempo real - contra um candidato muito forte e sem apresentar listas nem precisar de assumir compromissos, ou seja: só com política e sem politiquices. O lamentável Expresso da semana que passou colocava Ribeiro e Castro no fundo da escala dos altos e dos baixos, por ser um candidato incompetente, distraído e condenado e blá, blá e pois, pois. A falabaratice dos analistas debochava de um partido cadáver que ninguém queria liderar e coisa e tal. Pois agora calem-se, senhores. Calem-se o mais silenciosamente que forem capazes de se calar.

quarta-feira, abril 20, 2005

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O desastroso - e criminoso - legado de João Paulo II só podia dar nisto: a eleição de Ratzinger, o cacique mor da Opus Dei, para Papa. Dan Brown inspirou-se nele para criar o personagem Manuel Aringarosa - o Bispo maléfico do Código DaVinci - e analisando a composição do Conclave é difícil imaginar um cardeal menos adequado para o cargo. A eleição relâmpago - concretizada em menos de 48 horas, diz bem do poder da máfia de deus e da fragilidade dos poucos cardeais lúcidos com que conta o Vaticano. Assim sendo, vamos ter, na próxima década, uma igreja de costas viradas para o mundo, fechada num dogma rico em formalismos e liturgias medievais, pobre em semântica pastoral e completamente alheada da realidade. É verdade que os verdadeiros ensinamentos de Cristo se diluem vertiginosamente, à medida que caminhamos pelo futuro a dentro. Mas, caramba, é ignóbil que seja precisamente a igreja dos seus apóstolos quem primeiro suje com corrupção, alienação e vácuo espiritual uma herança moral e filosófica que é em grande parte responsável pelo que de melhor constitui a civilização ocidental.

quarta-feira, abril 13, 2005

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O zero constitucional.

"Na Europa, muita coisa é inventada duas vezes, sendo a primeira vez na Grécia, em Atenas, e a segunda na Europa dos primórdios da modernidade; é esse o caso, por exemplo, da democracia, do teatro e também da filosofia."
- Dietrich Schwanitz - Cultura

A Constituição da União Europeia deveria ser a carta de um novo modelo regimental sobre as nações da Europa. Deveria ser a referência do pensamento ocidental contemporâneo sobre os mecanismos da democracia, do seu aperfeiçoamento e do aprofundamento dos valores que consideramos universais.
A Constituição da União Europeia devia estar para as cartas constitucionais resultantes das revoluções americana e francesa, como estas para o pensamento político dos atenienses antigos: um testemunho iluminado da evolução do pensamento - e do sentimento - humano.
A Constituição da União Europeia deveria ter sido construída pelos seus reais constituintes: os povos da Europa. Deveria ter sido discutida, problematizada, polemizada, corrigida, analisada, estudada, recriada, rescrita, emendada, pensada, participada, deveria ter sido sujeita a uma década inteira de debate aberto, de combate aceso, de ataques ferozes e de defesas eloquentes.
Esta Constituição deveria ser a bandeira para o relançamento moral e ideológico da Europa. Deveria ser uma terceira invenção da democracia, a assumpção de algo de novo capaz de rejuvenescer o velho continente.
Mas não. Trata-se apenas de uma circular entre burocratas, papel esotérico e desinteressante, documento de arquivo, procedimento protocolar. Simples peça de hardware na rede informática da decadência. E, por isso, mesmo que rectificada pelas gentes ignorantes do seu conteúdo, nunca será instrumento do progresso histórico. Nunca será - em suma - um ideal. E logo agora, que tanto precisávamos de alguma coisa em que acreditar.
A Constituição da União Europeia é o exemplo acabado de uma oportunidade perdida.

sexta-feira, abril 08, 2005

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Cansaço

Todos os que me estão mais ou menos próximos que me perdoem ou que não me desculpem, mas a verdade média é que estou só. Não estou só como quem está sozinho. Estou só como quem não tem a devida companhia. Estou só como um gorila na cidade. Estou só como um violino na discoteca. Estou só como um monstro na vila da perfeição. Estou só como um princípe na aldeia dos macacos. Estou cansado das pessoas que se cansam de mim. Estou cansado das pessoas que se cansam comigo. Estou cansado da mediocridade dos outros e da minha inerente mediocridade. Onde é que estão os abençoados de Cristo?

domingo, março 27, 2005



A fraude ambientalista: o aquecimento global.

Deixei para o fim este assunto, porque é o que de longe melhor representa as fragilidades do dogma ambientalista.
Para já quero dizer que não há dúvida nenhuma que o planeta está a aquecer... No ocidente do hemisfério Norte. No hemisfério Sul e mesmo em vastas regiões da América do Norte e da Ásia tal fenómeno não é pura e simplesmente verificável. Acresce que, como já aqui escrevi, as temperaturas de um dado ecossistema físico-planetário não se podem reduzir a médias. A complexidade do sistema é de tal ordem que qualquer tentativa de fechar num logaritmo a sua multiplicidade térmica é de uma arrogância absolutamente não científica. Mas vamos supor - meramente pelo prazer académico da suposição - que se verificava de facto um aumento das temperaturas a nível global. Ora, tal fenómeno seria até normal, considerando que estamos ainda a sair da última Idade do Gelo. Mas mesmo que o não fosse, não existem factos científicos que nos garantam que a subida das temperaturas se deva ao denominado "efeito de estufa". E admitindo ainda assim que o efeito de estufa fosse mais do que aquilo que é - uma teoria - seria difícil provar que esse fenómeno se deve com toda a certeza à actividade humana. As temperaturas aumentaram e diminuiram dramaticamente ao longo da imensa e venerável idade do planeta, sem precisarem dos gases nocivos da nossa indústria, que está aliás para o mapa cronológico da Terra como um nanosegundo está para a o calendário de um ano cristão. As conclusões paradigmáticas e - estas sim - científicas (porque respeitadoras do método e demonstráveis na realidade) da recentemente falecida Dra. Petra Udelhofen ajudam-nos a perceber que um hipotético efeito de estufa e o consequente aquecimento global podem depender directamente da cíclica intensificação dos fluxos de radiação solar que atingem a terra e não da quantidade de dióxido de carbono libertada pela civilização.
Por outro lado, os cenários mais alarmantes que nos são apresentados referem-se a aumentos de temperatura na ordem de 2ºC a 3ºC em 100 anos, que não terão nenhuma consequência apocalítptica no equílibrio hídrico do planeta: os 30 a 40 cm de subida do nível das águas com que nos tentam aterrorizar deixam logo de ser dramáticos se pensarmos que no século XX assistimos a uma subida do nível da água entre 10 e 25 cm, em grande parte devido à expansão térmica da água por aquecimento e não por fusão de glaciares. A boa lógica dos glaciares é até a inversa: a Antárctida contribuirá a prazo para a diminuição do nível dos mares, já que o gelo derretido irá arrefecer a água e provocar assim uma consequente contracção térmica. Nas palavras do Professor Buescu, a ideia de que icebergues que se soltam e derretem devido ao aquecimento global vão contribuir para a subida do nível dos mares é apenasmente "patética" e um erro elementar que qualquer caloiro de Física sabe detectar. Na verdade, um bloco de gelo que se derrete na água deixa o seu nível inalterado. Se parte do gelo flutua é porque a sua densidade é menor do que a da água em estado líquido e até Arquimedes já sabia que um icebergue desloca um volume de água que é equivalente ao seu peso. Quando derrete, deixa no mar um volume igual ao que já ocupava (pode fazer a experiência em casa, colocando uma pedra de gelo num copo, enchendo-o de água até ao limite e verificando que depois do gelo derreter, nem uma gota escorreu para fora do copo).
Só para terminar, gostaria ainda de esclarecer o seguinte: se tenho recorrentemente trazido este assunto à conversa do blog não é para tranquilizar as pessoas. É mais para, muito humildemente, contrariar o mainstream de inverdades, incorrecções e simples dislates que nos são fornecidos constantemente pela enorme diversidade de meios da comunicação contemporânea. Sempre achei que o planeta não é tão frágil como muitas vezes - vezes de mais - nos é dito. Mas atenção, o mesmo não é verdadeiro para a civilização que implementamos desenfreada e irresponsavelmente à sua superfície. O recente episódio no Índico é bem eloquente sobre o potencial de destruição apocalítica de que a mãe natureza ciclicamente faz recurso. Entre a erupção de grandes vulcões, a queda de meteoritos, a eclosão de explosões massivas no campo solar e as constantes mutações climáticas que estão no âmbito do equilíbrio natural da Terra, podemos e devemos temer o pior. Para amanhã, ou para daqui a 65.000 anos. O relógio do planeta mede em segundos os nossos milénios, mas não se atrasa nunca.

sábado, março 26, 2005

O fémur apresenta-se irreverente. Brilha irónico à luz dolorosa e fluorescente da sala de espera do banco de urgências de Santa Maria. Devo dizer que sofro como um condenado. Dói-me a fractura em exposição e a fragilidade exposta. Dói-me o orgulho e o osso erecto, fálico, sobre a pele esfacelada. Merda, merda, merda. Três da tarde de um magnífico sábado de Junho e eu aqui perneta, e eu aqui dorido da vida, envergonhado de um acidente sem maiúsculas, e eu aqui a ser insultado por lâmpadas indiscretas, vítima da curiosidade das crianças e da piedade fingida desta gente que habita os hospitais públicos, gente sinistrada, gente solitária, gente hipocondríaca, gente aflita, gente angustiada, gente indiferente, gente suja, gente apenas gente. Tudo porque um cachorro decidiu atravessar a rua no exacto momento em que decidi esforçar a pedalada. Ia a descer. Azar do caraças ir a descer e a dar gás à vertigem, disparado pelo asfalto a 40 quilómetros por hora. Da canela para baixo é que já não sinto nada e estou a ficar com o estômago revoltado por causa do sangue nas peúgas. Tarda nada vomito no oleado vomitado deste calabouço para ciclistas infelizes. De súbito e com estrépito, uma gordinha cheia de nódoas numa bata que um dia foi branca dá entrada na antecâmera da agonia. Pornógrafos de todo o mundo, retirem as enfermeiras de cena. Não há realismo numa enfermeira sexy. A moçoila passa a língua pelos lábios que de facto não existem e, com jeitos de sargento miliciano, cospe: a bicicleta, de quem é? Como não me abetece responder e é muito provável que nenhum dos restantes atrasados de espírito tenham chegado ali a pedalar, faz-se um silêncio meio comprometido. O diabo é que a gaja insiste: quem é o engraçadinho que deixou a bicicleta em cima de uma maca? Aproveito a deixa e digo-lhe: ah, esse engraçadinho sou eu. E o que está a geringonça a fazer em cima de uma maca? Quer saber a inquisidora mor. E eu satisfaço-lhe a curiosidade: senhora dona enfermeira, a minha bicla sofreu um grave acidente ao tentar evitar a morte trágica de um cachorro indefeso, imagine, uma cambalhota a 40 à hora! A pobre bicicleta não se aguentava em pé, pelo que deduzi que precisava de tratamento urgente antes que lhe sobreviesse uma comatose terminal. Coloquei-a na maca na esperança de que um dos elementos do zeloso pessoal médico a conduzisse aos cuidados intensivos. Constato agora que tal esforço foi em vão. E porque me encontro neste magnífico salão palaciano à coisa de duas horas pressuponho que por esta altura o desgraçado veículo cicloturístico faz já parte do clube dos cadáveres esquecidos pelo que agradecia que o acondicionassem condignamente na morgue rodoviária do hospital. No que me diz respeito, garanto-lhe que não pretendo levantar o tutu deste excelente cadeirão, produto da mais fina carpintaria clínica, abrindo talvez uma reticente excepção perante a remota e eventual hipótese de ser chamado algures no tempo da minha insignificante existência para que me façam o devido curativo. Como pode facilmente observar, estou mais necessitado de uma intervenção cirúrgica do que de levantamento e arremesso de bicicletas em avançado estado de decomposição. A pobre criatura engole a língua, olha horrorizada para o desastre anatómico que exibo não sem alguma vaidade e sai com maior determinação do que entrou. A verdade é que o meu discorrer retórico, que raras vezes me deixa ficar mal, não caiu em saco roto. Momentos depois sou levado solenemente, como um tesouro da sinistralidade urbana, para o fulcro e o frémito dos cuidados hospitalares: radiografias, testes, análises e enfim, bloco operatório. Metem-me qualquer coisa nas veias e adormeço antes que as pálpebras se fechem. Quando acordo, já não me doi a perna, ou melhor, já não me doi apenas a perna: doi-me tudo, a cabeça, a razão, o gesso e a roupa interior. Sentado na cama está o meu velhote, entre o alívio e o embaraço. Como é que te sentes? E antes que eu consiga responder: mas que história é essa de pores a bicicleta em cima de uma maca? O meu muito querido e muito palerma paizote, espectacularmente preocupado com a sanidade mental do filho e sem saber que a bicicleta tinha ficado na Gomes Pereira, o local do crime. O meu muitíssimo abstruso e crédulo papá que nem sequer pôs a hipótese de ser completamente impossível a um ser humano com uma fractura exposta na perna esquerda arrastar uma bicicleta destroçada até ao hospital de Santa Maria. Reúno todas as forças para lhe dar uma gentil e complacente palmadinha no joelho e asseguro-lhe: pai, essa bicicleta não era a minha bicicleta. Eu quis trazê-la comigo mas os gorilas da ambulância não foram nisso. Agora vai comprar o Record e deixa-me dormir mais um bocadinho. (1997)

segunda-feira, março 21, 2005


A fraude ambientalista: a camada de ozono.

Graças aos alarmismos cavalgantes debitados sem parcimónia nas décadas de 80 e 90, a Camada de Ozono voltou hoje aos níveis de 1950. Isto, claro está, só foi possível graças a reconversões industriais que custaram milhões e milhões em dinheiro e empregos. E porquê? Para compreendermos o ridiculo desta questão é preciso pensar só nisto: a que latitude, com a camada de ozono intacta, corresponderia a radiação UV-B hoje recebida em Lisboa? 180 km a Sul. Assim sendo a redução de espessura da camada fez dos lisboetas vítimas da radiação na mesma medida em que o eram os habitantes de Odeceixe, lá pelo ano 1905. Por isso - e seguindo uma lógica linear, muito do agrado dos ecologistas - recomendaria a quem sofre de hipocondrias relacionadas com este assunto que não vá passar férias de Verão para o Algarve. Se for para a praia da Adraga, arrepios à parte, terá muito menos hipóteses de contrair cancro de pele...

domingo, março 20, 2005


Confiança

"Em Salónica conheço alguém que me lê.
E em Bad Nauheim.
Já são dois."

Gunter Eich
- In Rosa do Mundo

A fraude ambientalista: poluição atmosférica.

Ao contrário do que toda a gente parece pensar, a libertação de gases ditos nocivos para a atmosfera diminuiu eloquentemente, nos países do primeiro mundo, desde 1950. Já escrevi isto não sei quantas vezes e já o disse a toda a gente que conheço, mas não me importo de repetir nem me canso do exemplo lapidar: a última vez que respirar o ar de Londres foi tão recomendável como é hoje em dia vivia-se o ano de 1585!
É claro que no Terceiro Mundo a poluição do ar tem vindo a piorar muito significativamente, já que faz recurso agora à tecnologia comparativamente mais "suja" utilizada pelos países industrializados do príncipio do Século XX. Porém, está estatísticamente demonstrado que a poluição produzida por um país em desenvolvimento tem tendência a diminuir abruptamente a partir de um limiar de 2500 dólares anuais per capita. Mais uma vez o senso comum é displicente: "o crescimento económico promove um ambiente menos poluído" e é de crer que, na ausência de novas e revolucionárias variáveis, a situação só irá melhorar.
A propósito, alguém ainda se lembra da chuva ácida? A "Hiroxima ambiental" deveria, pelo que nos foi dito e redito durante os anos 80, ter deixado as florestas da Europa Central reduzidas a cinza radioactiva. Bom, está hoje conclusivamente demonstrado que o grau de acidez das chuvas não afecta o desenvolvimento das árvores. Existem até - e ironicamente - algumas espécies que agradecem o facto (!!!!!). Na verdade, a área florestal da Europa Central aumentou nos últimos 20 anos.

segunda-feira, março 14, 2005

GT4 adiction

Não é que alguém se queixe, mas por descargo de consciência fica o aviso à navegação: enquanto não me passar a febre da velocidade, não estarei disponível para a blogosfera. Vruum!

domingo, março 06, 2005


Quinze bocados do mundo concreto.

I - Kellog inventou os corn flakes para combater a masturbação masculina (por oposição aos afrodisíacos ovos com bacon do pequeno almoço tradicional anglosaxónico).

II - José Socrates foi recrutar ao Bloco de Esquerda o Ministro dos Negócios Estrangeiros. Morreu o sonho do Portugal Atlântico.

III - A verdadeira paz está na solidão.

IV - No estado da Virginia, a actividade sexual praticada sob a luz eléctrica só foi legalizada no fim da Segunda Guerra Mundial.

V - Cravinho não faz parte, ainda bem.

VI - Não é verdade que a inteligência europeia da Idade Média acreditasse que a a Terra era plana.

VII - Constâncio não figura e é pena.

VIII - Um espirro sai do nariz a 160 quilómetros por hora.

IX - Vitorino desapareceu e é grave.

X - É possível demonstrar matematicamente que uma atitude de cooperação premeia invariavelmente um dado ser vivo num dado ecossistema.

XI - Até 1889, a idade de consentimento para o sexo conjugal nos Estados Unidos variou entre os 7 e os 10 anos de idade.

XII - 8 ministros não militantes e um governo enxuto. Boa.

XIII - O centro de um buraco negro massivo é do tamanho de um grão de areia. Com o peso do sol, multiplicado por 3 milhões.

XIV - A primeira pandemia global foi a sífilis.

XV - Thomas Edison tinha medo do escuro.

Revisitação dos Anos Noventa - V

“I’m so ugly, that’s ok ‘cause so are you.”
Kurt Cobain - Nevermind

quinta-feira, março 03, 2005


O que eu durmo, muito ou pouco, é igual ao litro. Porque hão-de as pessoas que me são distantes (ou que pensam que me são próximas) clamar maldições pelo meu sono prolixo? Porque hão-de aqueles que fingem alguma preocupação, preocuparem-se comigo? Quero ser claro: se eu durmo 16 horas seguidas, que mal vem ao mundo? Mesmo a esse pequeno mundo das relações que as pessoas gostam de alimentar, a qualquer custo. Quando eu durmo tenho a certeza que não estou a aborrecer ninguém. Tenho a certeza que não estou a ofender ninguém, que não estou a magoar ninguém, merda, quando estou a dormir liberto menos carbono, excreto menos líquidos, menos sólidos, menos suores e espermas e sangue; quando estou acordado perco mais sangue do que quando estou a dormir! Por isso, deixem-me dormir. Por amor do vosso deus, deixem-me na paz do meu. Quero que me entendam: seja de que sonho sofrer, que se importam realmente as regras do cosmos? (1995)