domingo, novembro 12, 2006

O Problema de Sócrates.

Apesar do fascismo escolástico que recusa a discussão do assunto, quanto mais leio Platão mais convencido fico da natureza heteronímica de Sócrates. Sei bem que esta é uma questão arrumada pelos epistomologistas mais sérios de todo o planeta académico, mas como não sou académico, tenho toda a liberdade para me divertir com o assunto. O que se segue é um exercício descarado de pura especulação, mas, pelos deuses todos da sabedoria clássica, não me parece menos especulativa a ideia geralmente aceite de que o iniciático palrador que fundou o pensamento ocidental tenha existido realmente como um homem de carne e osso. Eu explico.


TESE: SÓCRATES, O ANIMAL PERFEITO.

Sócrates no leito de morte - Jacques-Louis David (1787)


Vida e morte de um mito.

A versão oficial é convenientemente picaresca: Sócrates nasce em Atenas, provavelmente no ano de 470 A.C., para se tornar um dos principais pensadores da antiguidade. Filho de um escultor e de uma parteira (facto que lhe possibilitou vários exercícios metafóricos), passa por aristocrata durante toda a sua vida. Em jovem aprende música e literatura, mas cedo acaba por se dedicar exclusivamente à meditação e ao desvario filosófico, actividade de que faz profissão se bem que recusando peremptoriamente a cobrança de honorários. Já adulto notabiliza-se como cidadão íntegro, soldado intrépido e intelectual credenciado. Combate heroicamente as várias batalhas da Guerra do Peloponeso, e - por isso - são-lhe atribuídos alguns cargos públicos que cumpre com desinteressado escrúpulo. Na verdade, o grande Moscardo não deseja trabalhar nem precisa de ganhar a vida. Ostentando a sua austeridade, prefere simplesmente viver à conta das festanças entre os amigos que por acaso até fazem consistente parte da nata social de Atenas.
Casado com Xântipe, tem constantes problemas matrimoniais, provavelmente derivados do alheamento que dedicava aos assuntos materiais e domésticos, tanto como por causa do seu conhecido gosto por colóquios bem regados e simpósios orgíacos (convém informar a gentil audiência que Sócrates seria um reputadíssimo seca adegas, conhecido por permanecer sóbrio mesmo quando todos na festa já estavam completamente bêbados).
Apesar dos diversos chamamentos faz sempre o possível por se conservar afastado da vida pública e política, servindo a cidade por viver justamente e por formar cidadãos sábios, honestos e temperados. Tudo isto à borla e por antítese dos sofistas, que agiam para seu próprio proveito e formavam grandes egoístas, capazes unicamente de se acometerem uns contra os outros e escravizar o próximo.
Sócrates era porém um revolucionário. Armado da sua dialéctica prosápia sai pelas ruas a fazer perguntas incómodas, a pregar a ética, a reduzir os dogmas a cinzas e as convicções a fumo. Libertário por essência, incomoda deveras a Oligarquia dos 30, que se agita em desconfortos e protestos. Às páginas tantas, Mileto, Anito e Licon, três importantes burocratas da tinania ateniense do pós-guerra do Peloponeso, acabam por acusá-lo de impiedade, de corromper a mocidade e de negar os deuses da pátria. Sócrates entrega-se ao julgamento com toda a calma do mundo e aproveita a audiência para mais uma sábia palestra. Para escapar à cicuta só tem que mostrar algum comedido arrependimento mas Sócrates recusa semelhante ignomínia e insistindo na necessidade de uma sentença exemplar, acaba por ser condenado pelos jurados, que transpiram embaraço.
Da sentença à execução passa 30 dias de conferências de imprensa na sua cela transformada em Grande Auditório. No entretanto, um dos seus discípulos - Criton - prepara a fuga do Mestre, mas Sócrates recusa a hipótese, por não querer desobedecer às leis da pátria. No dia marcado, deixa umas palavras solenes aos seus discípulos e ingere tranquilamente o veneno. Tem 71 anos.


Pensamento e Método.

Sócrates nunca escreve uma linha, prefere dar-se descontraidamente à palheta com mulheres e crianças, pedintes e escravos, ricos e pobres. Nunca fundará uma escola, opta por filosofar alto nos espaços públicos, nos fóruns e nos ginásios. Respeitando obstinadamente o método dialéctico e interrogativo (maiêutica), que leva o interlocutor a esbarrar em contradições e a confrontar-se com os seus dogmas, o diálogo socrático (na verdade um monólogo entrecortado por interjeições de concordância vindos da audiência, mesmo que hostil) procura a catarse e a educação para o auto-conhecimento, única fonte de sabedoria.
Sócrates preocupa-se sobretudo com as questões elementares da existência humana, procurando definições gerais para os conceitos de justiça, amor e virtude, e definindo a alma como uma singularidade ética e racional, coisa que apenas irá influenciar decisivamente o pensamento ocidental para todo o sempre. Em certo sentido até Cristo é socrático: só é feliz quem é moral. E só através da perfeição moral é liberta a alma da vida terrena para as esferas celestes. Viveremos o tempo que for preciso e as vidas que forem necessárias até aprendermos a portarmo-nos como deve ser.
Isto tudo apesar de um discurso eminentemente anti-programático. Sócrates não facilita a vida a ninguém. Não se chega à frente com verdades absolutas e praticamente não oferece respostas às suas próprias perguntas. Como Descartes fará um bom bocado de tempo depois, o humilde pagão gosta de instalar a dúvida e usa-a como instrumento do saber.


Os suspeitos do costume.

Como não era dado à pena, a existência e o pensamento de Sócrates deve-se fundamentalmente aos testemunhos de 3 homens: Platão, Xenofonte e Aristóteles. Não incluo Plutarco, como é costume bibliográfico, porque não o considero uma fonte directa. Plutarco viveu três séculos depois do decorrer da acção e era já um poeta greco-romano, interessado sobretudo em entreter os césares com os mitos de Atenas. Levá-lo a sério como testemunho da vida de Sócrates é equivalente a darmos como certa a existência real de Ricardo Reis mediante o relato do último ano da sua vida feito por Saramago.
Platão escreveu mais de duas dezenas de Diálogos, que chegaram inteiros à modernidade. Com a exceção do último - As Leis - em todos os outros Sócrates é um dos personagens, e na maioria deles é o personagem principal.
Existe uma certa controvérsia entre os estudiosos a respeito de quais são os diálogos em que Platão reproduz realmente a doutrina do seu mestre, por oposição àqueles em que se limita a utilizar o velho moscardo para expressar a sua própria filosofia. De qualquer maneira, é geralmente aceite que muitos dos Diálogos são relatos de factos historicamente ocorridos, constituindo a fonte primeira para o conhecimento da vida de Sócrates.
Xenofonte deixou-nos em "Ditos e feitos Memoráveis de Sócrates", a segunda fonte mais importante sobre a pessoa e o pensamento do incómodo inquiridor. No entanto, nesta obra, Xenofonte relata que Sócrates conhece bem diversos assuntos alieníginas à tradição académica ateniense. Como o filósofo nunca se ausentou da Cidade, a não ser para andar à cabeçada com os espartanos, e não consta que tivesse grandes contactos com os congéneres do sul da Itália, nem com os da Ásia Menor, nem que se desse a viagens ao Egipto ou à Pérsia, não está bem claro como é que o santo homem dominava esses assuntos.
Aristóteles refere-se um punhado de vezes a Sócrates mas em função da sua filosofia e não da sua biografia.



ANTÍTESE: SÓCRATES, O HOMEM IMPOSSÍVEL.

A Escola de Atenas - Rafael (1509 - 1510)



Super-Estruturas: Estado e Academia.

É minha convicção que a figura de Sócrates não é histórica, mas literária: um heterónimo de Platão. Para elaborar convenientemente os argumentos a favor desta ideia, convém começar pelas super-estuturas psicológicas e institucionais e entender a democracia dos cidadãos de Atenas, bem como a sua abordagem à filosofia como disciplina literária.
As regras da democracia helénica não são as da democracia liberal do século XVIII. Numa cidade de 230 mil pessoas, 150 mil eram escravos e 60 mil mulheres, ambos os segmentos sem qualquer direito político. Restavam portanto 20 mil homens, que eram facilmente manipulados por uma elite de aristocratas e burocratas que detinham os cargos públicos. Deve também dizer-se que a democracia, em Atenas, aconteceu de cima para baixo: foram as elites que ofereceram os direitos à massa urbana e rural e não o contrário. Não houve qualquer evento revolucionário em Atenas e o poder - em termos políticos, sociais e económicos - nunca mudou de mãos nas transições entre as oligarquias e as democracias. Dou um exemplo: quando Atenas perde a guerra do Peloponeso, Esparta instala no poder 30 tiranos. A maior parte deles eram funcionários das instituições públicas do anterior regime. Alguns seriam, segundo Platão e inclusivamente, discípulos de Sócrates. Daqui se conclui que a mobilidade social da República era pouco mais ou menos equivalente a zero. Um nobre será um nobre, um plebeu será um plebeu até que a morte os conduza à igualdade das cinzas.
Depois, há que ter sempre em mente, para compreender o meu argumento, que a tradição filosófica grega é eminentemente literária e oral, ou seja: não ensaística. O seu processo pedagógico evolui através de rábulas, de parábolas e da construção de personagens que se debatem numa comédia de costumes. A filosofia apreende-se como uma dramaturgia e ensina-se pelo diálogo. É, fundamentalmente, um charada.
Acresce que todo o imaginário ideológico sobre o qual decorre a acção é dominado por duas escolas adversárias: a da Academia de Atenas e a da corrente Sofista. A primeira é fundada por Anaxágoras (500-428), será dirigida, no seu apogeu, por Platão e é dialéctica e moralista. A segunda é essencialmente retórica, niilista e mercenária. Um sofista é uma espécie de Maquievel pré-histórico, disposto a justificar filosoficamente qualquer acto do seu príncipe, a troco de justa avença. É claro que esta visão cínica dos sofistas se deve ao lamentável facto de terem ficado para a posteridade apenas nas linhas de Platão e Aristóteles, seus adversários de sempre.


Uma história mal contada.

O primeiro facto biográfico de Sócrates começa logo por ser muito suspeito: de origem plebeia, terá desde cedo uma vidinha boa de aristocrata, primus inter pares. Dir-me-ão que o homem conquistou o seu estatuto através do bravo comportamento em combate, o que é de uma inocência que dói. O filho de uma parteira e de um escultor (leia-se: pedreiro) seria apenas mais um soldado nas fileiras do exército, cujas façanhas, por muito heróicas que se manifestassem, estariam invariavelmente condenadas ao anonimato (Aquiles, o maior guerreiro da história da humanidade, para ser o herói de Homero teve que descender dos deuses).
O facto da mãe de Sócrates ser parteira é também estranhamente coincidental com o entendimento que o sábio mostrava da filosofia: o conhecimento é intrinseco ao indíviduo, permanece adormecido no útero da sua alma e compete ao filósofo apenas ajudar a tornar consciente, a parir, essa sabedoria moral. Convenhamos que dá mesmo jeito à metáfora, não é?
A juventude de Sócrates é curiosa: a sua educação baseia-se em duas disciplinas caras a Platão (a música e a literatura) e, sabe-se lá porquê - acaba por embicar com a filosofia. Não se lhe conhece um mestre, um professor ou a frequência de qualquer academia. Como Platão (e como Aristóteles), confessa-se influenciado por Anaxágoras (outro condenado pelos cidadãos de Atenas) e despreza os sofistas. Ora, numa cidade que deu à estampa da história mais filósofos por metro quadrado que pedras na via ápia, este é o único caso de um pensador que surge por geração espontânea. Não pertence a qualquer escola das ideias do seu tempo, é um desalinhado. Não aprendeu a pensar com ninguém, é um auto-didata. Faz lembrar um pouco aqueles personagens do Kafka, transparentes e isolados, sem relações com o mundo que transcendam o estrito âmbito da funcionalidade narrativa. Sócrates não tem professores, tem discípulos. Não tem amigos, tem interlocutores. Não se apaixona (se exceptuarmos o episódio de Alcíbiades, que é relatado por Plutarco e que tem a credibilidade de uma aventura de Dan Brown), não vai às putas, não tem fraquezas nem vícios e nunca se encoleriza. É humilde e honrado, soldado bravo e intelectual sensível (uma impossibilidade ontológica), austero sem deixar de marcar insaciável presença nas orgias dos ricos. Se a tudo isto, adicionarmos a proverbial alergia ao dracma e o total desinteresse pela vida material (não faz simplesmente sentido que o maior pensador da antiguidade se comportasse como um mendigo, vivendo do vinho esmolado e do ar mediterrânico) começamos a perceber que não é de um ser humano que estamos a falar, mas sim de um personagem de ficção.
O seu casamento também é de banda desenhada. Sendo portador das notáveis qualidades já citadas não se percebe porque raio aceita casar com Xântipe, uma megera (cito Platão) sem interesses físicos, intelectuais ou financeiros, de quem passa a vida a fugir a sete pés. Porém, se pensarmos no horror e na desconfiança que Platão - um maricas dos sete costados - tinha às mulheres, entendemos melhor a dicotomia: Sócrates representa o homem modelar que define a virtude e a grandiosidade; Xântipe traduz a mulher comum, que sintetiza a vilania e a mesquinhez. Desconfio até que Platão devia concordar com Nietzsche neste ponto: um filósofo casado pertence à comédia.
Seja como for, Sócrates mostra-se, em vida como na morte, mais digno que Jesus Cristo. Este, pelo menos, tem ataques de mau feitio, dorme com prostitutas e não esconde o sofrimento do calvário nem o suplício da cruz. A forma como Sócrates leva até ao fim o seu processo judicial e como, sendo inocente, na verdade, aceita a pena máxima com toda a naturalidade e algum excesso de zelo até, é, de todo em todo, extraterráquea. Além disso, este episódio do julgamento de Sócrates parece-me, em si mesmo, bastante improvável. Anaxágoras, por motivos que excederam largamente a simples palheta subversiva, também foi acusado de impiedade, mas a pena ficou-se pelo exílio. E não cabe na cabeça de ninguém com juízo que um colectivo de juízes contrafeito, mandatado por uma oligarquia que incluia alguns dos seus discípulos, condene Sócrates à morte por ser um moscardo da sensibilidade. Da mesma forma que é difícil acreditar que um homem de carne e osso exija a sua própria condenação, tanto mais dado o pormenor infeliz de estar inocente!


Uma conspiração de espertos.

Tenho consciência de que, em favor do ponto de vista que defendo, terei de vos convencer que Platão contou com a cumplicidade das restantes fontes que testemunham a vida real de Sócrates, o que até não é assim muito difícil. Para já porque Platão, Xenofonte e Aristóteles são contemporâneos. Depois porque são amigos. Acresce que partilham a mesma cor política. E por último, talvez o mais importante: se Aristóteles é discípulo de Platão, Xenofonte é fã deste e os dois acreditam firmemente no novo conceito que o seu mestre inventou para revolucionar para sempre a história do pensamento: o ser humano é constituído dualmente por um corpo e por uma alma.
Da maneira que vejo as coisas, o que estava em causa era de tal forma importante que tanto Xenofonte como Aristóteles não hesitaram em corroborar a existência de Sócrates, alimentando a falácia em nome de uma nova e fundamental visão moral do homem. (Lembro, a título comparativo, a cumplicidade estética e filosófica entre Almada Negreiros e Fernando Pessoa, que teve resultados surpreendentes como as famosas dedicatórias de Almada a Álvaro de Campos. Tudo em nome de um triunfo do Modernismo). Não custa nada imaginar um acordo de cavalheiros, baseado numa sensibilidade espistemológica mútua, que possibilitasse a criação de um personagem credível sobre as eras.
Em qualquer caso, a solicitação de Platão não é exigente: a Aristóteles, cabe a missão nada complicada de utilizar na sua obra, a espaços, a figura intelectual de Sócrates, corroborando o seu património filosófico e não biográfico. Já Xenofonte, dedica a Sócrates uma compilação de textos sem grande interesse, redundantes e elogiosos (como o episódio do Oráculo de Delfos), nitidamente redigidos por encomenda.


Mais achas para a fogueira.

Encontramos mais razões para desconfiar da existência real de Sócrates se pensarmos em Homero, que sendo a grande referência literária do Ocidente, provavelmente nunca existiu como ser humano concreto (tudo indica que se trata de um alter ego utilizado por sucessivos escribas que passaram ao papiro a tradição oral da literatura cosmogónica grega). Se soubermos que o verdadeiro nome de Platão era Arístocles e que ele sim fez as tais viagens que faltavam a Sócrates para dominar os assuntos todos de que fala Xenofonte. Se percebermos que toda a filosofia de Sócrates explora a distorção entre o aparente e o real, manifesta integralmente através da Alegoria da Caverna. Se consciencializarmos que há textos atribuídos a Platão que não são de Platão. Se tivermos sempre presente que mesmo outros personagens da acção como Criton, o fiel e prestável discípulo de Sócrates ou Mileto, Anito e Licon, os seus três acusadores, devem a sua existência apenas aos escritos de Platão. Se equacionarmos todas estas variáveis, não é disparatado conceber que este é um universo, de todo em todo, ficcionado. Só não o vê, a olho nú, quem não quer.



SÍNTESE: SÓCRATES, O HETERÓNIMO IDEAL.

Sócrates afasta Alcibiades do prazer sensual - Jean-Baptiste Régnaul (1785)



Enumeradas as contradições e os lapsos, já dissecada a sintaxe do crime, resta-me a semântica do seu motivo.
Decendente de Codros, rei mítico de Atenas, corre nas veias de Platão o puro sangue azul da divina linhagem; o homem é um aristocrata Classe A que não pode ser herói aos quadradinhos da filosofia explicada ao cidadão comum (o mesmo argumento tem sido utilizado desde o princípio do Século XX em favor da hipótese de Francis Bacon ser o verdadeiro autor de grande parte das peças de Shakespeare, não passando o bom William de um limitado produtor teatral que de bom grado oferecia o seu nome como protecção ao lorde chanceler, redactor de grandes e sucessivos blockbusters, já que na Inglaterra Isabelina a criação dramática estava uns degraus abaixo da conduta exigida a um nobre).
Ora, de forma a consagrar a dimensão oral e literária da filosofia grega, Platão precisava de um personagem moralmente superior, um super-herói acima das necessidades e dos vícios próprios da condição humana, cuja voz impoluta trouxesse legitimidade a uma Filosofia da Ética e pregasse pelas ruas a nova verdade. Um homem de origem humilde que não ofendesse os pobres, mas de comportamento exemplar e esmerada educação para viver com naturalidade entre os poderosos e ser reconhecido por eles. Um profeta Zen e um guerreiro temível. Enfim e em síntese, 19 séculos antes de um certo alemão torturado pelas enxaquecas, Platão teve que inventar o seu próprio Zaratustra.
A virtude sobre-humana com que Platão dotou Sócrates percebe-se. Para desacreditar os sofistas e o seu esquema amoral da consciência humana, para afirmar que as exigências do corpo devem ser vencidas de forma a atingir a transcendência da alma, será necessário alguém que não tenha um passado realmente vivido, uma falha de carácter, um erro cometido, uma injustiça perpetrada, uma ressaca mal curada, um insulto a despropósito, uma vaidade declarada, uma fraqueza da carne. E é claro que este tipo de gente só se pode encontrar nos territórios infindáveis do reino do faz de conta.
Assim, à conveniência de um herói que se recusa a escrever uma linha que seja- justificando-se a ausência de testemunho próprio e a necessidade de um narrador - junta-se a utilidade de um indivíduo cujo discurso é a 100% coerente com a sua praxis quotidiana.
A filosofia de Sócrates é, também, apropriadamente ambígua. O Mestre não confessa mais do que a sua ignorância perante o mistério, deixando a verdade filosófica para o capitulo subjectivo de cada alminha. O grande pensador não ilumina com respostas, elucida com perguntas. Assim, fica liberto o programa de acção para que seja Platão a estabelecer os sólidos paradigmas do pensamento clássico, baseados numa rudimentar Filosofia do Não, meio visionária por só ter sido re-encontrada em Bachelard, vinte e três séculos depois. Sócrates, o profeta, abre assim caminho para Platão, o redentor. Enquanto um pergunta pelo que é justo, o outro define a justiça. Enquanto um se interroga sobre a beleza, o outro determina o que é belo. Enquanto um faz implodir os velhos dogmas o outro cria uns dogmas novos e assim por diante. Na competição pelo primeiro lugar das olímpiadas da posteridade é, naturalmente, Platão que sai a ganhar (ninguém alimenta uma paixão socrática, mas todos sabemos o que quer dizer um amor platónico). O que é aliás de inteira justiça.

Em resumo: porque a história da vida de Sócrates é de telenovela e tem lapsos evidentes e tem contradições profundas, eu alimento suspeições. Porque as fontes que testemunham a sua existência real são escassas e dominadas pela interacção com Platão, eu entretenho desconfianças. Porque Platão precisava de um personagem absolutamente moral - portanto ficcional - que lhe vendesse a mercadoria filosófica já madura de sentido ético, eu proponho o revisionismo. Porque é Platão que acaba por fechar o sistema que Sócrates deixa em aberto, eu alvitro a heteronímia. O disfarce. O fingimento.
Erasmo conclui o seu célebre Elogio da Loucura desculpando-se perante aqueles que o acharam desvairado: é que falou como uma mulher. Considerando o horror de Platão pelo género feminino e o seu obsessivo gosto pelas charadas, imagino que lhe agradaria um final assim.

segunda-feira, novembro 06, 2006

7 pérolas da Colecção do Dr. Rau.

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5 - JEAN-HONORÉ FRAGONARD
Retrato de François-Henri, Duque de Harcourt.

1769, Óleo sobre tela, 81.5 cmx65 cm.

Último campeão Rococó do Antigo Regime, Jean-Honoré Fragonard (1732 – 1806) é um belo personagem da história trivial da arte. Os seus cenários configuram-se entre o bucólico e o frívolo, os temas são ou galantes ou enjoativos, impera a vida profana da clientela - aristocratas de segunda e burgueses de primeira - e a escola do alto barroco já estava esgotada quando o homem começou a pintar. Também há quem goste de pensar que o mestre francês, em vez de velho-do-restelo-do-barroco é um pioneiríssimo percursor do romantismo. Tese da treta: Fragonard pintava os mesmos bucólicos ambientes que Goya antes de enloquecer porque a escolástica da sua época assim o exigia e não por visões vanguardistas da filosofia liberal do futuro.
Dito isto, há que virar a face à moeda e perceber que a técnica de Fragonard é prodigiosa (só mesmo com muito talento é que se consegue tornar razoavelmente interessante o chatérrimo assunto da menina no baloiço) e que o mestre nos deixou generosamente para cima de meio milhar de obras (sem contar com esboços e desenhos e gravuras e o diabo), cálculo que, convenhamos, não deixa de ser impressionante.
Neste magnífico retrato do Duque de Harcourt - uma das suas 15 Fantasias - o génio de Fragonard revela-se bem: confiando na minha memória era capaz de jurar que se trata de uma tela grande e não é o caso, distorção perceptiva que muito se deve ao enorme poder visual da obra. Ao seu mediatismo agitado e grandiloquente. Tudo vibra de movimento na posição estática do Senhor Duque. Dir-se-ia que corre uma ventania danada, mas trata-se nitidamente de um plano interior, de estúdio. O aristocrata é retratado com a panache de um super-herói do século XVIII embora as primeiras 4 páginas de resultados do Google não consigam justificar a glória imortal do retratado. Quero eu dizer que há um excesso, um exagero, uma falsidade neste boneco que são verdadeiramente arrebatadoras. Quero eu dizer que fiquei com a ideia que, para Fragonard, a arte é uma mentira. Neste contexto, acho que gostei da sensação de ser enganado.

terça-feira, outubro 31, 2006

A posse de ontem

"Sei que perdi tantas coisas que não poderia contá-las e que essas perdas são agora o que é meu. Sei que perdi o amarelo e o preto e penso nessas impossíveis cores. Como não pensam os que vêem. O meu pai morreu e está sempre a meu lado. Quando quero escandir versos de Swinburne, faço-o, dizem-me, com a voz dele. Só o que morreu é nosso, só é nosso o que perdemos. Ilíon passou, mas Ilíon perdura no hexágono que a chora. Israel aconteceu quando era uma nostalgia. Todo o poema, com o tempo, é uma elegia. Nossas são as mulheres que nos deixaram, já não sujeitas à véspera, que é a angústia e aos alarmes e terrores da esperança. Não há outros paraísos que não sejam paraísos perdidos."

JORGE LUIS BORGES

quinta-feira, outubro 26, 2006

Filinto, o apóstata.

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Nasci – logo a meus pais custou dinheiro
o baptismo, que Deus nos dá de graça.
Tive uso de razão – perdi a graça –
dei-me ao rol – chegou a Páscoa – dei dinheiro.

Quis casar com uma moça – mais dinheiro.
Brinquei com ela – não brinquei de graça:
que aos nove meses me custou a graça
para o Mergulhador capa e dinheiro.

Morreu minha mulher – não lhe achei graça
e menos graça ao arbitral dinheiro
da oferta; que o prior não vai de graça.

Se o ser cristão requer sempre dinheiro,
como cumprem com dar graças de graça
os que as graças nos vendem por dinheiro?

Filinto Elísio (1734 - 1819)


Filinto Elísio, pseudónimo do Padre Francisco Manuel do Nascimento, foi um dos mais importantes poetas do Neoclassicismo português. Apesar de ser clérigo, era admirador de Horácio, defensor dos ideais iluministas e enciclopedistas, das revoluções francesa e americana e fã dos autores racionalistas franceses, proibidos pela Inquisição. Por causa destas suas temerárias preferências, acabou por fugir para França, exilando-se em Paris em 1778 e estabelendo relações de amizade com o poeta Lamartine. As suas poesias foram publicadas em Paris em onze volumes entre 1817 e 1819, seguindo-se uma segunda edição em Lisboa de vinte e dois volumes entre 1836 e 1840. Além de poeta era tradutor, vertendo para português os Mártires de Chateaubriand, as Fábulas de Lafontaine e Púnica de Sílio Itálico.
O seu estilo segue os preceitos da estética classicista arcádica, sendo um defensor enérgico do purismo da língua. Não obstante os formalismos, muitos dos seus poemas reflectem uma grande intensidade emocional, no que têm de revolta e de sofrimento pessoais, sendo, neste contexto, um precursor do romantismo.
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Quando o porteiro me inspeccionou com sentido de comiseração e se permitiu, amavelmente, a liberdade de fazer notar que me achava com cara de cavalo cansado, expressão que não recusei - este senhor porteiro possui em terras remotas do Alto Minho uma mão cheia de éguas e um esplendoroso par de garanhões, pelo que sabe muito de cavalos cansados - assenti, deixei baixar as olheiras sobre o rosto pálido e admiti o óbvio.
- Foi de facto uma manhã de cão, meu amigo, um dia para assinalar no calendário com uma grande e pesada cruz.
Tinha amanhecido com chuva por entre um cinzentão frio e esfarrapado que a metereologia da TV garantia manter-se sem esperança de tréguas. Nada tinha corrido bem nesse dia. Despertei ainda chocado com o deplorável espectáculo com que o glorioso nos tinha flagelado na véspera, zangado comigo e com o colchão e com a exiguidade da casa-de-banho e com a cor dos azulejos. Golpeei-me com a porcaria da gillete mais fiável do mundo e confrontei-me com a exigência de empacotar, de uma dura assentada, os comprimidos para a tensão arterial, a circulação e o reumático - imposição de ritual satânico, pouco menos que alucinogénica, com que enfrento a precaridade de um novo dia, uma vez mais agravado pela recusa de um trânsito intestinal decente.
Verificada, por entre uma expressividade de palavrões, a insólita inexistência do descafeinado com que habitualmente empurro a diabólica composição, seguiu-se a dramática constatação da falta de cigarros com que sempre combino e combato, cinicamente, a feroz rotina dos quinze comprimidos diários.
Restava-me agora a dura prova de enfrentar, já derreado ao peso de uma derrota anunciada, o carão granítico da médica de família, uma coisa de bata branca, de peito esquecido em casa, lisa como uma tábua de engomar, inquisitorial, sem lábios e de percetível cheiro a formol. Esperava-me para uma consulta que não solicitara, que me era imposta pela força tirânica da agenda de sequência clínica, incontornável, com a qual mantenho guerra aberta há 12 anos, pelo menos. O chaço não pegou e, a praguejar maldições, lá arranquei para o Centro de Saúde da área de residência, empunhando um chapéu de chuva que o meu primo esquecera lá por casa, por ocasião de uma recente jantarada.
Encharcado, cabisbaixo, entalado no desconforto de uma oscilante cadeira da gasta sala de espera, aguardei o chamamento que viria com a costumada hora de atraso. Ocorreu-me na altura que havia esquecido a placa dentária. Óptimo. Iria oferecer-lhe o meu pior sorriso de sempre, bem aberto para sublinhar o bom dia sombrio na abertura de hostilidades com que normalmente a esquálida doutora inicia o estafado “então, como vai isso?” de circunstância, sem ponta de cordialidade, cheia de rugas da azeda disposição do costume, certa de que, no final, acabaria por perscrever a química habitual dos últimos 2 anos para a sustentação do estado geral do utente, definição para velhotes sem grande margem de sobrevivência, agora parece que um pouco mais agravada pelos cortes do orçamento da Saúde, segundo o último caderno de encargos a observar severamente em nome da contenção das despesas e, sobretudo, o inesperado aumento da longevidade dos beneficiários de provecta idade.

Chegada enfim a hora da verdade, entrego-lhe a longa lista dos resultados das últimas análises que me impôs por entre um sorriso de esperança que não classifico, obrigada pelas regras que compaginam o catálogo das inevitáveis chatices e em conformidade com a benevolente decisão superior dos senhores recentemente chegados ao governo destas coisas terrivelmente sérias da saúde pública.
Insinua o nasal marcadamente aquilino no velho processo do meu historial clínico, num estudo cuidado de um denso código de gatafunhos a descodificar por algum especialista maior, quando interessar à eventualidade da autópsia, e arranca com um suspiro sofrido o interrogatório habitual:
- E como vai essa micção?
- Mijo bem. Ainda não conspurco o tampo da sanita..
- O problema da próstata, segundo a análise, regista um aumento pouco significativo. Sem preocupações para já. Não sugere a aplicação da argália, por enquanto. Na sua idade, é um bom sinal. E o trânsito intestinal?
- Irregular, relutante, em esforço, sempre acompanhado duma intensa e incontrolada libertação de gases.
- É natural, na sua idade. Fadiga intestinal. Desgraçadamente não podemos lutar contra o tempo. É claro que há por aí uma enormidade de laxantes a que não devemos, no seu caso, dar a menor importância, de forma a evitar efeitos colaterais como por exemplo a criação de bolsas intestinais tipo estufa e flatulências muito desagradáveis. A tensão arterial está como sempre. Um horror! Por outro lado o seu problema de colonoscopia evidencia a partir do exame rectal um desenvolvimento incipiente de pólipos que a seu tempo observaremos com rigor no sentido de uma muito provável intervenção cirúrgica. No caso das artroses, embora dolorosas, têm tido o tratamento adequado e está nas mãos de um grande senhor. O Dr. Pimentão pode parecer-lhe um cómico mas é um professor de primeira linha. Fizeram-se já as punções que se aconselham para esse tipo de insuficiência mas, na verdade, não há recuperação possível. No que respeita às ancas, que lhe provocam crescentes problemas de mobilidade, de penosa incomodidade, dizem-nos as últimas radiografias que obrigam a uma dupla cirurgia de resultados sempre imprevisíveis, na sua idade. Bem vê, trata-se de uma justaposta disfunção das articulações laterais,acentuada por uma forte distorção espinal. Essa sua coluna é de chanfrar. Já experimentou o apoio de canadianas? Quanto à crise de soluços que por vezes o afligem em sequências de 2 a 3 dias, vamos tentar controlá-la com o “Protom”, uma bomba que tem apresentado excelentes resultados neste tipo de singularidades. Outro aspecto de relevo tem que ver com o facto de, com a sua idade, nunca ter tido uma dor de cabeça. É, na história clínica, uma impossibilidade. Vamos ter de submetê-lo a um TAC exaustivo para perceber esse estranho aspecto do seu enigmático metabolismo. Homem, na verdade o senhor apresenta-se como um notável compêndio de sobrevivência!
Temos agora o problema da circulação, que ganha de facto, e no contexto da sua respeitável idade, uma importância maior, associada que está ao nível do colesterol um tanto acima do normal. Vamos insistir na prescrição dos comprimidos habituais, estabilizantes cuja tomada, creio, observa rigorosamente. Neste caso, devemos estar atentos ao agravamento da esclerose múltipla, sempre de recear no desenvolvimento deste tipo de patologias.
No que se refere à evolução das operações a que se sujeitou oportunamente, carótidas e inguinais duplas, não se manifesta qualquer desvio periférico anormal, o que é excelente para a sua idade. As ocasionais e ligeiras dores na zona hepática de que se queixou são isso mesmo. Pequenas incomodidades ocasionais. Sem importância que suscite preocupações.
Para já, a leitura do seu último electrocardiograma revela apenas uma ligeira arritmia. Recomenda-se muita pantufa, esforços comedidos, alimentação cuidada, frugal, nada de fritos, enchidos, alcoól, tabaco e sobretudo - um aviso fundamental - a interdição de qualquer envolvência de carácter sexual sustentada por esses estimulantes que por aí são irresponsavelmente publicitados. Penso que, quanto a este assunto e dada a sua idade, o senhor não carecerá de outras explicações.
No que diz respeito à questão oftalmológica - essas cataratas que lhe foram diagnosticadas - como no que se refere aos dentes que lhe faltam, o Centro de Saúde não pode responder por absoluta carência de meios técnicos e competências adequadas. Note-se porém que uma mastigação deficiente, por ausência dos trituradores, pode induzir às dificuldades intestinais que já mencionámos. É uma questão que terá a ver com uma observação de polipectomia, no ângulo esplénico do cólon, também fora da nossa capacidade de intervenção.
Afora os aspectos de que tratámos, deve, apesar de tudo, sentir-se um homem inteiro. Um felizardo. São como um pero, muito embora aquela piada velha e relha, venerável citação de sempre: isto de viver acaba mal. Por isso, anime-se, vitamine-se e pense positivo. Vê como, por exemplo, demos cabo daquela última amigdalite que, na sua idade, é maleita de frequência pouco simpática?

Saído da reconfortante consulta, observo ainda a sala de espera repleta do costumado amontoado de velhas carcaças, arquejantes, babosas, espirrantes, descoloridas, numa sombria envolvência de resignação, na espera do favor de lhes traçarem apressadamente o receituário habitual que ameniza o caminho da estreita e dura vereda para o fim, após o clínico lhes fechar o processo, com a singileza do rótulo “procedimento habitual, sem alternativa ou recuperação provável”. Antes de sair de cena, registo o cartaz espalmado ao largo de quasi toda a parede do velório, num fundo de azulão forte:
ANTES DE ENGRAVIDAR FALE COM O SEU MÉDICO.
USE A CAMISINHA - SEXO SEGURO.
Havia ali um generoso convite ao revigorante milagre de viver.
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sábado, outubro 21, 2006

Rap solitário - III

Não há nada pior no mundo do que ter amigos. As mulheres podem devastar o coração. Os amigos reduzem a cinzas a sensibilidade.

sexta-feira, outubro 20, 2006

Fotopsicografia de Robert Tyre Jones III


Não parece, mas o golf é um desporto de masoquistas. De endinheirados masoquistas, regra geral, mas nem por isso menos adeptos do mal estar de corpo e alma. Jogo de planeamento em tempo real e precisão sobre-humana, castiga severamente os atletas por pequenos lapsos, atira-os para o inferno dos bancos de areia e a malária dos lagos, para a ratoeira dos bosques e a maldição dos ventos; todos e mais algum instrumentos de tortura criados por sádicos arquitectos e outros grandes diabos da paisagística.


Provavelmente, ninguém como Robert Tyre Jones the Third (Atlanta, 1902-1971) sofreu alegremente as piores agruras do jogo. Os erros consumiam-lhe o espírito, as derrotas escavacavam-lhe o metabolismo, a pressão matava-o. Mas também é verdade que as diversas úlceras e o terrível problema neurológico que acabou por o consumir - efeitos directos do stress da competição - contam pouco em função da aura de glória que coroa esta notável espécie de pessoa.


Bobby Jones é ainda hoje considerado um intérprete tecnicamente perfeito da modalidade, e será sempre uma das grandes referências da história do Golf. Mas é talvez pelas suas lendárias características humanas que permanecerá imortal por dentro dos séculos. Verdadeiro cavalheiro, homem honrado, de grande honestidade e apurado sentido ético, o seu fair-play é proverbial: num célebre playoff do Open dos Estados Unidos, Jones tinha uma pancada difícil a executar, no rough junto à margem do green. Quando se preparava para dar a pancada, o ferro tocou ligeiramente na bola, provocando-lhe um ligeiro movimento. Jones alertou os marshals e o seu adversário para o facto, dado que ninguém, nem no público, se deu conta da falta. Sendo a única testemunha do seu próprio erro, Jones confirmou-o e solicitou a falta (que equivale ao registo de mais uma pancada). Este enormíssimo campeão, que viria a perder o Open exactamente por essa única pancada, ao ser congratulado por um marshal pelo magnífico exercício de integridade, replicou: "O sr. não cumprimentará por certo um ladrão por não roubar. Esta é forma como o Golf deve ser sempre jogado."


Somando títulos profissionais tão sonantes como o Grand Slam (foi o único na história do jogo a conseguir ganhar os 4 maiores torneios do Golf numa época só), Bobby Jones nunca abdicou do seu estatuto de amador, dedicando-se apenas em part-time ao treino e recusando as fortunas e maus hábitos da prática profissional do desporto. Desconfio que este facto se deverá em parte à ausência de preocupações financeiras, dada a linhagem paterna de industriais, e ao transbordante talento académico: bacharel de Ciência em Engenharia Mecânica, bacharel de Artes em Literatura Inglesa (Harvard), Robert Tyre Jones demorou apenas um aninho para se formar em Direito, ofício de que fez profissão, como advogado.


Abandonando o Golf, a conselho médico, com apenas 28 anos, Bobby Jones é adorado no seu país e foi, até John Glenn, o único americano a ser premiado por duas vezes com a célebre parada de Nova Iorque. É hoje considerado um dos grandes cinco mitos do desporto americano dos anos 20 e o melhor desportista amador de todos os tempos. Sofrendo horrores e castigado pelos nervos, acusando muito o insustentável peso do par mas dando invariavelmente a provar aos seus adversários o doce da sua leal cordialidade e o fel do seu jogo devastador, este é um herói inteiro do Século XX. Mais put menos put.


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quinta-feira, outubro 12, 2006

If We Must Die

If we must die, let it not be like hogs
Hunted and penned in an inglorious spot,
While round us bark the mad and hungry dogs,
Making their mock at our accursed lot.

If we must die, O let us nobly die,
So that our precious blood may not be shed
In vain; then even the monsters we defy
Shall be constrained to honor us though dead!

O kinsmen we must meet the common foe!
Though far outnumbered let us show us brave,
And for their thousand blows deal one deathblow!

What though before us lies the open grave?
Like men we'll face the murderous, cowardly pack,
Pressed to the wall, dying, but fighting back!

Claude McKay - 1919

quarta-feira, outubro 11, 2006

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Coisas contemporâneas da idade da pedra.

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O teste nuclear falhado dos norte coreanos acabou por ser uma coisa simpática. Primeiro porque falhou, pelo que ganhámos aqui uns meses de alívio, depois porque serviu de pretexto para um repreensão por parte de um alto diplomata da República Popular da China, o único país que consegue manter o cinismo necessário para alimentar relações frutuosas com Kim Il Sung (Chavez e Castro também são amiguinhos mas o sentido das proporções torna-os despiciendos). Seja como for, é por estas e por outras que nunca como hoje foi tão ameaçador o espectro da agressão nuclear. Qual guerra fria qual quê. É um crime de honra permitir que, em pleno Século XXI, trezentos e tal anos depois da Revolução Francesa, quatrocentos e tal anos depois da Revolução Inglesa, exista um estado como o que governa a Coreia do Norte. É um dequeles anacronismos terríveis com que se debate o actual planetário. Se fizermos a observação comparada do cronograma da evolução civilizacional, os desgraçados súbditos de Kim il Sung lá vão sobrevivendo - sabe-se lá como e ignora-se porquê - a um regime cuja inspiração deve remontar às mais ferozes tiranias da antiguidade clássica; os árabes estão atrasados 800 anos; os Persas retrocederam 16 séculos, o Paquistão vive um pesadelo de tiranias desde que é nação; na Índia, "a maior democracia do mundo" (democracia não significa liberdade), o regime de castas separa à nascença os que vão ser inacreditavelemnte miseráveis e os que vão ser inevitavelmente poderosos, deprimente determinismo mais velho que a própria História. Na China, pode-se enriquecer, mas não se pode votar, procedimento adminstrativo mais ou menos dentro do espírito da Dinastia Ming (Séc. XV). A nação que vai liderar o mundo e dominar o século vive ainda esmagada por um regime fascista, aparatchik, draconiano e multi-milionário. Na América do Sul os políticos podem traficar droga e mergulhar em corrupções, se forem eleitos pela esquerda. Podem perpetrar golpes de estado, podem invocar o diabo na Assembleia Geral das Nações Unidas, podem ter pides e milícias, podem portar-se como bandoleiros e capitães de roça do século XVIII, porque foram eleitos pela esquerda (eleições não querem dizer democracia). Na Rússia, ainda há jornalistas que morrem por causa daquilo que escrevem, como acontecia com Estaline, ou o Czar Nicolau. Nos Estados Unidos da América, ainda se ensinam os estudos primários como se Darwin nunca tivesse feito a tal viagem aos Galápagos: na Segunda-feira era o verbo, na quarta o mundo estava feito, no Sábado de manhã cria-se Adão, ao fim da tarde dá-se-lhe uma Eva para criada de quarto, em anexo vem o pecado e está pronto o universo porque chegou o dia santo de domingo, que é para descanso do pessoal. Em África, os tempos recuam à idade da selvajaria; os governos tratam com espantosa ineficiência as nações que governam, mas mostram-se de germânica operacionalidade na arte do genocídio étnico. É impressionante a quantidade de pessoas que se podem matar com uma catana e uma garrafa de aguardente. Na Europa, morre-se devagarinho, como foi devagarinho que a Roma imperial se perdeu. De preguiça ideológica, de obesidade filosófica e de anemia moral. Em cidades como Paris, Londres, Madrid ou Hamburgo, as vozes mais poderosas e mobilizadoras que se levantam são as dos líderes religiosos muçulmanos, que convidam alarvemente à aniquilação do infiel a troco de uma tantas gajas no bordel do paraíso. Como é bom de ver, não são só os americanos que têm esta fraqueza de trocar favores de cama com o inimigo. E pronto, foi o telejornal de 10 de Outubro de 2006. Voltamos a encontrar-nos aqui, no seu canal hospitalar de sempre, amanhã, à mesma hora. E não perca já a seguir, Prós e Contras com os palhaços do costume: hoje vão a debate as lamentáveis declarações daquele ordinário alemão que é Papa e que só contribuiram para aumentar o já muitíssimo justificado ódio dos seguidores do Grande Profeta, abençoado seja o seu nome. Boa noite.
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segunda-feira, outubro 02, 2006

7 pérolas da Colecção do Dr. Rau.

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4 - CANALETTO - Praça de S. Marcos
1740-1750, óleo sobre tela, 58.5x103 cm.

Giovanni Antonio Canale (1697 – 1768), conhecido para a posteridade por Canaletto, ganhou fama pelas suas magistrais representações dos canais da Veneza e é um personagem de conteúdo biográfico assim para o desinteressante, não fosse o seu descarado talento. Enquanto os paisagistas da sua época esgalhavam uns roughs dos cenários para depois se fecharem no estúdio e desenvolverem a obra, Canaletto iniciava e concluía todo o trabalho no mesmo sítio, o que muitas vantagens lhe trazia, principalmente no que respeita ao detalhe, à minúcia e ao preciosismo: as suas imagens são intensas de vida humana e quase de valor antropológico. Este amor picuinhas por Veneza, este rigorososo compromisso para com a realidade etnográfica da sua cidade natal rendeu-lhe um endinheirado clube de fãs em Inglaterra mas, em ultima análise, acabou por lhe amputar a criatividade. Por causa da Guerra da Sucessão Austríaca, os patronos ingleses deixaram de poder visitar Veneza e, quando Canalleto se vê obrigado a ir acampar para Londres (a velha história da montanha e do profeta), não se dá nada bem com a mudança de cenário. Há diferenças grandes entre o palácio dos Doges e a mansão Isabelina. Há diferenças enormes entre a cidade mediterrânica, luminosa e festiva, e a metrópole bretã, invernosa e protestante. Há diferenças de cores e de cheiros, de sons e de costumes e o mestre não consegue adaptar nem a sua vida nem a sua pintura. Para Canaletto, imigrar foi como que um caminhar para a cova da história da arte e, nesse sentido, este é um senhor que morreu duas vezes.
Funerais à parte, permanecem dois factos importantes. O primeiro: nesta pobre reprodução em blog da magnífica Praça de S. Marcos segundo Canalleto, não nos é permitida a resolução suficiente para se perceber que o homem é um verdadeiro e peregrino precursor do impressionismo. Apesar da incrível pormenorização cenográfica, a composição é de dot em dot, pincelada aqui, pincelada ali. A aparente contradição entre impressionismo e preciosismo cai ao zero absoluto.
O segundo: por aparente paradoxo, as mais notáveis representações paisagísticas de Veneza chegam-nos dois e três séculos depois da sua proverbial grandiosidade. Esta Veneza que vemos aqui, não é já a cidade capital comercial do mundo ocidental, a delicada e educada e burguesa Babilónia dos séculos XIV e XV. Mas, ainda assim, surge-nos sempre pungente de vida e riquezas, de tradições e exibicionismos. Mesmo assim parece uma cidade cosmopolita, opulenta, colonialista, dir-se-ia imperial. Ao meu lado, no M.N.A.A, uma senhora dizia ao seu marido: está aqui um cão muito mal desenhado que parece um macaco. O prestável marido lá lhe explicou então que se tratava precisamente de um macaco. Que era natural encontrar um macaco na Praça de S. Marcos, grande portal da aldeia global de outras eras. O facto porém é mais pertinente para a ciência histórica do que pode imaginar esta inquisitiva senhora que, com olhar crítico, chumbava o Mestre no díficil domínio da regra anatómica. A verdade é que as representações de Canalleto muito contribuíram para consubstanciar as teses de monstros sagrados como Braudel, que tentaram, com algum sucesso, demonstrar que a consolidação das rotas atlânticas registada no século XVI não faliu a vocação comercial do Mediterrâneo nos séculos posteriores. A ideia da decadência de cidades como Génova e Veneza nos séculos XVI e XVII está a perder fôlego académico, porque se encontraram entretanto registos de actividade comercial, financeira, portuária e naval muito contraditórios à tese universalmente aceite até ao segundo terço do século XX. Mas também porque podemos ter esta certeza: se o macaco está na tela de Canaletto, é porque estava na Praça de S. Marcos. E se estava lá naquele dia, a lógica probabilística recomenda ao senso que outros símios por ali deveriam passear, com naturalidade, pelo correr dos dias. E se outros símios passeavam com essa regularidade toda na Praça de S. Marcos é porque este ainda era o centro de um negócio tentacular sobre o Mediterrâneo e não de uma cidade falida pela aventura portuguesa ou pela cobiça castelhana.
Canalleto tinha afinal razão: é sempre importante prestarmos atenção ao detalhe. Até porque é a única maneira de entendermos o panorama.

sábado, setembro 30, 2006

A walk down Memory Lane.

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1986. Entro para dentro da faculdade que ia ser minha. Eu digo: toda minha. Tirei um curso superior em matraquilhos e outro em saber levantar-me às 6 da manhã para chegar à Junqueira a tempo de ir jogar matraquilhos. Foi aqui, neste palácio de verdade que me formei. Quero dizer: o meu copo formou-se. O meu fígado formou-se. O meu coração formou-se. O meu cérebro também. O meu currículo não. Não ia nada às aulas e tive os melhores professores que um parvo de um paulo hasse paixão pode um dia sonhar que vai ter. O Senhor Professor Marques Bessa. O Senhor Professor Luís Bettencourt. O Senhor Professor Reboredo Seara. O Senhor Professor Adriano Moreira. Não era de todo um popular da faculdade e experimentei, mesmo assim, a alegria absoluta de ser de companhia. Cresci imenso. Diverti-me muito. Namorei deveras. De vez em quando fui feliz, feliz como só podemos ser felizes: sem dar por isso mas deixando memória para que 20 anos depois se perceba a felicidade. Saí sem tubo nem estatuto, saí ignorante na mesma, inadaptado como sempre, mas saí um gajo mais giro (é garantido). Um gajo com mais amigos e mais estórias. Um gajo com património de barriga e pontapé certeiro de avançado no espeto. Tive muita sorte em ter ido parar ao I.S.C.S.P.

Hoje jantei com uma certa malta da faculdade. Não completamente a minha malta, mas completamente pessoas de quem gosto e que já nem me reconhecem ao primeiro reconhecimento, dada a falta de cabelo e os 20 anos de distância. Hoje jantei com a malta que já lá estava quando fui para lá e - o que é mais - que já lá estava muito acima daquilo que eu nunca serei. Malta que deixou o liceu com médias de 18, de 19, de 20 valores. Malta que sabia que raio estava a fazer na universidade. Malta que (estava-se mesmo a ver) ia aonde queria ir e - 20 anos depois - chegou lá. São vencedores e eu gosto deles e eu gosto de saber que estudei (quase nada) no sítio que pariu estrategicamente* esta gente boa, esta gente sã, esta gente válida que produz proles e riquezas e sorrisos desinteressados, que se casa e que se divorcia com elegância, que conduz empresas como quem não quer a coisa, que faz notícia, que é a notícia, que está nos bastidores, que está na ribalta, que é influente, que é realizadora. Eu, que não sou nada disto, juro que gosto disto.

* A tradição pedagócica do Instituto de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Técnica de Lisboa é a de educar líderes.

quinta-feira, setembro 21, 2006

O melhor disco pop da história universal do libido.

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"I decided I'd write one hundred love songs as a way of introducing myself to the world. Then I realized how long that would be. So I settled on sixty-nine."

"69 Love Songs is not remotely an album about love. It's an album about love songs, which are very far away from anything to do with love."


-Stephin Merritt-

Os Magnetic Fields não vêem nada a propósito mas o senhor Stephin Merritt é um magnífico herói e eu já há muito que lhe devo um post. Paneleirão grandiloquente, é um artista. Compositor indomável, é um palhaço rico no circo dos imortais. Poeta inspirado, Merrit é um músico daqueles que nascem de 10 em 10 milhões de músicos.
Lançado no já distante ano de 1999, 69 Love Songs debita um volume prodigioso de criatividade só para aí comparável a uma obra prima do barroco ou coisa que o valha. Estes 3 discos guardam autênticas maravilhas folk, supremas epifanias punk, pungentes suicídios grunge, espectaculares orgias beatnick, desesperados lamentos blues, violentas paixões soul e intermináveis traições rock n'roll. Da canção medieval ao registo grunge, do orgasmo esquecido à redenção da entrega, está lá tudo dentro do pacote. É impressionante. Nem vale a pena falar da beleza das melodias porque é preciso ouvir, ouvir e ouvir até saber trauteá-las todas no duche. Sobre as letras, o melhor mesmo é dar um exemplo:

---------------------------------
I DON'T BELIEVE IN THE SUN

They say there's a sun in the sky
but me, I can't imagine why
There might have been one
before you were gone
but now all I see is the night, so

I don't believe in the sun
How could it shine down on everyone
and never shine on me
How could there be
such cruelty.

The only sun I ever knew
was the beautiful one that was you
Since you went away
it's nighttime all day
and it's usually raining too

I don't believe in the sun
How could it shine down on everyone
and never shine on me
How could there be
such cruelty.

The only stars there really are
were shining in your eyes
There is no sun except the one
that never shone on other guys
The moon to whom the poets croon
has given up and died
Astronomy will have to be revised

I don't believe in the sun
How could it shine down on everyone
and never shine on me
How could there be
such cruelty.
---------------------------------

Nada mau, hã? Agora é só multiplicar por 69. A verdade conclusiva é só uma (e que me desculpem os visados): quem ainda não ouviu esta Obra está por fora da verdadeira história da pop.

quarta-feira, setembro 20, 2006

7 pérolas da Colecção do Dr. Rau.

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3 - JAN VAN GOYEN - Tempestade
1637, óleo sobre madeira, 23.5x36.5 cm.

É uma pena, mas esta pérola assim, em reprodução mínima e digital, não se percebe. Não se percebe o encanto, não se percebe a intensidade cénica e não se percebe sobretudo a solidão quieta do camponês. Observada na parede do M.N.A.A., percebe-se melhor: ele está de costas mas eu cá vi perfeitamente o fascínio despreocupado que ilumina o seu olhar. A tempestade aproxima-se, ameaçadora sobre os restos de luz solar que obstinadamente o iluminam ainda. As árvores corroboram a ameaça, o horizonte sopra sarilhos e a paisagem toda movimenta-se atormentada. Mas ele não. Está de perna traçada, contemplando a borrasca. Não tem pressa de chegar a lado nenhum e parece encontrar-se num ermo distante, a milhas de um abrigo que o redima. Este facto é que, para ser sincero, nem no Museu se percebe. E foi precisamente o mistério dessa permanência, como uma espécie de atitude zen sobre o abismo; foi precisamente esse despreocupado olhar sobre a tempestade que me violentou a imaginação.
Jan van Goyen pintou mais de mil e duzentas coisas destas nos sessenta anos que passeou pelo planeta: paisagens urbanas e paisagens fluviais e mais paisagens bucólicas e outras tantas paisagens rurais, sempre dentro do espírito naturalista de que foi um seguidor inveterado. Mestre na criação de atmosferas poderosas e monocromáticas, que na verdade dominam e animam todo o conteúdo imagético, van Goyen não é propriamente um génio do seu tempo e, apesar de ter deixado algumas marcas na escola holandesa do século XVII, nunca alcançou grande reputação em vida (muito porque somava à ocupação de artista a de homem de negócios, para a qual, segundo parece, não tinha talento nem carácter).
Seja como for, este boneco é magnífico, caramba, e eu sou-lhe muito grato, Sr. Jan van Goyen.

domingo, setembro 10, 2006

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Chegou ao court com um vestido de noite arrebatador e ganhou o U.S. Open limpinho, 6-4, 6-4 contra uma excelente adversária, Justine Henin-Hardenne, que até não jogou nada mal. É terrivelmente bela, e hoje foi terrivelmente demolidora. Sharapova vai fazer história porque sabe jogar ténis, porque é muito forte mentalmente e porque torna mais bonitos os monitores televisivos de todo o mundo, o que, convenhamos, não é dizer pouco.
Agora vou de férias uma semaninha e já volto.

quarta-feira, setembro 06, 2006

A biblioteca dos silêncios.

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Se há uma merdinha que me chateia à brava nisto de ter um blog, é a de não ter tempo - ou espírito - para escrever sobre tudo e mais alguma coisa. É uma vergonha ficar para aqui calado dias a fio com tanta cena desinteressante e desinteressada que me passa por esta cabeçorra cota, já um bocado afanada no juízo e na memória.
E se há falha grande nestes conteúdos bizarros do blogville, a primeira é de certeza esta triste: escreve-se aqui muito pouco sobre livros. Que chatice de blog onde se escreve tão pouco sobre livros. Mas, caramba, que vos hei-de dizer eu, alma ociosa e ignorante, sobre Edward Gibbon? De que vos posso falar se estiver para aqui a falar do Mediterrâneo segundo Braudel ou do Tempo segundo Proust? Como posso eu, mesmo que num momento de raro esclarecimento, explicar a glória da História Universal da Infâmia? Alguma sugestão? Que palavras podem ser usadas para comentar a verdadeira Obra ao Branco que é esta mulher a quem chamavam Marguerite Yourcenar (a única belga com um lugar na história)? Sim, expliquem-me por favor como é que é isto de esgalhar um post sobre Os Doze Césares (já tentei e desisti) ou sobre As Origens Sociais da Ditadura e da Democracia, ou até, de forma mais descontraída, sobre O Vermelho e o Negro do meu querido Stendhal, sobre o Cândido do meu amado Voltaire ou o Memorial do Convento do canalha do Saramago.
É muito complicado para mim, que escrevo sobre quase tudo aquilo em que sou iletrado, escrever sobre a minha ileteracia e não é por ter lido e sonhado com o Admirável Mundo Novo, com o regresso de Ulisses, com o delírio em tempo real de Joyce, com os relatos mercenários de Cícero ou com as rimas de Dylan Thomas que deixo de ser valentemente ignorante.
Eu lamento imenso, mas é para mim muito difícil falar-vos de Álvaro de Campos. Outrossim de Walt Whitman. É deprimente, mas não sou audaz quanto baste para despejar umas certezas sobre a literatura russa, o teatro isabelino, a grande novela anglosaxónica e o estranhíssimo comunismo místico do romance sul-americano.
Serei sempre incapaz de vos aborrecer com aquilo que possa considerar sobre o génio paneleiro de Oscar Wilde, a virtude de Somerset Maugham, o negro coração de Joseph Conrad, as aguarelas beatnick de Allen Ginsberg ou os manifestos do bravo do Almada. Não percebo sequer como é que alguém tem o desplante de fazer crítica sobre a obra de Nietzsche, de Bachelard, de Anaxágoras ou de Filo de Alexandria.
Pois é: não sou gajo para isto. O máximo que consigo é conversar. Até porque, sobre livros, podíamos muito simplesmente ficar a conversar durante a noite toda da vida. É deliciosamente mais irresponsável por causa de não haver registo e é muito mais divertido por conta dos copos.

sábado, setembro 02, 2006

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O Anacleto, mais conhecido pelo Gadelhas, é um típico produto da sobrevivência de solavanco; homem movido por acasos e azares de má fortuna, nú de ambições, sem horizontes nem perspectivas nem luzes no fim do túnel. Um amigão de infância e da Escola 6 do bom professor Carrilho, que distribuía generosamente sandes de atum pelos olheirentos famintos da 3ª classe, pelos descalços de fundilhos fanados, de olhos esbugalhados de medo de tudo e de nada, coxos de frieiras gretadas e nódoas roxas por tudo o que era orelha.
Fizemos juntos a instrução primária. Sabíamos a tabuada na ponta da língua, discutíamos, hesitantes, as horrorosas coisas da gramática e a impenetrável questão dos quebrados, mas rompemos, afinal, triunfantemente, os odiosos portões da escola, ofendidos e humilhados pelo duro percurso de uma instrução ganha frequentemente de mão estendida à pesada régua do castigo, aplicado conscenciosamente por gente crescida, educada na mesmíssima escola, dentro dos mesmos trilhos de intolerância.
Figura popular do Bairro, aceite com benevolência e pelo menos 2 taças de vinho tinto pelas esquinas atascadas do costume, Anacleto foi enrugando naturalmente, vende agora lotaria e pensos rápidos e namorisca preserverantemente uma multidão de miúdas da praça do peixe, o que lhe tem valido, amiúde, algumas contundências e equimoses de monta.
O último desaguisanço sentimental do Gadelhas, num dramático rompimento de relações muito comentado no sitio, traduziu-se numa declaração escrita, devidamente selada e remetida via CTT, à Anastácia dos Cogumelos, última mas muito sofrida paixoneta, cujo teor exibiu junto da rapaziada mais próxima e que vale por uma honrosa afirmação de intransigência. Transcrevo, em pleno acordo com o amigo Gadelhas, a dramática missiva.

"Bolinhas, juro-te pela minha rica saúde e à fé de quem sou que não vou gramar que esse emplastro do Farturas seja agora o teu ai jesus e que não vai passar copo e meio que não tenha as ventas tratadas à maneira. Não passa dum ranhoso de tola abaulada, de chinelo roto e fundilho no cú. O 1º Prémio do Tango que sacou nos Alunos de Apolo foi tanga. Mas já que não distingues um macho sério de um petinga ordinário, acabaram-se os marmelanços na escada da manhosa da tua avó e está arrumado o tarantantan do costume. O anel que desempenhei para te dar no Natal vais fazer o favor de o meteres onde muito bem sabes e que tem largueza de sobra. Olarilas!
Para já, digo-te que os óculos escuros que te dei, feito camelo, pela Páscoa, não valem um chavo e para dizer a verdade ficas um horror com essa porcaria espetada no nasal nojento. Vê mas é se engordas essas gâmbeas, penteia esse monte de sebo casposo que te cobre a estúpida cabeçorra e passa pelo Chanfrado das Dentaduras para ver se consegues matar esse bafiento hálito de gata prenha. E, já agora, agradeço que faças o favor de fugir, para que não me topes com a malta da tasca, por via das bocas.
E mais nada que não estou para estes faróis e garinas como tu, de cueca a tresandar a fénico, papo eu à dúzia, ao pequeno almoço."


Parece claro que o Gadelhas tem convicções muito fortes sobre como tratar estas delicadas questões e o tom folclórico da peça parece afirmá-lo como um cronista popular a ter em conta, logo que sair do hospital onde o visitei recentemente, acamado e maltratado, depois de uma pouco satisfatória troca de argumentos com o ordinário do Farturas.

quarta-feira, agosto 30, 2006

Avaria

Não adormeço de noite,
nem acordo para o dia.
Não sei a quantas ando,
não sei porquê ou quando:
avaria.

A vida está escangalhada,
é de caos que morro.
Que cesse o ruído tonto
para que grite de pronto:
socorro.

Rebentou finalmente
a máquina da abundância.
O café sai sem espuma
e Deus chama uma:
ambulância.

O automóvel da razão
tem cancro na bateria.
Falham mudanças e travões,
gripam os pistões:
avaria.

Perdem-se as comunicações
do mundo mecânico.
Digital, analógico e divino,
o universo entra em desatino:
pânico.

O frigorífico enregela,
o ferro de engomar desfalece.
O amplificador calou-se,
o velho cadeado soltou-se:
SOS.

A cidade toda colapsa,
em curto circuíto e agonia.
Cala-se o gerador central,
o carburador queima mal:
avaria.

Afundam-se os continentes
e não há quem acuda.
A civilização vai a cair
e não há ninguém para pedir:
ajuda.

A fé é um transistor inútil
e o chip da esperança berrou.
A estação de reciclagem
já não retempera a coragem:
acabou.

terça-feira, agosto 29, 2006

7 pérolas da Colecção do Dr. Rau.

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2 - GUIDO RENI - David Decapita Golias
1606-1607, óleo sobre tela, 174.5x133 cm.

Por razões de sensibilidade pessoal, esta pérola tem que ser muito bem explicada.
Guido Reni (1575-1642) é um daqueles pintores ecléticos e comprometidos que banalizaram o barroco e, muito sinceramente, não me diz grande coisa. Nascido e criado em Bolonha, é em Roma, a soldo dos papas, que faz o seu melhor trabalho; nomeadamente o fresco de Casino dell'Aurora, nos paços do Palácio Pallavicini-Rospigliosi, que o imortalizou e que nem me aquece nem me arrefece.
Acontece porém que esta representação do velho mito-do-aparentemente-fraco-contra-o-aparentemente-forte é uma coisa, no mínimo, impactante. Para já porque é enorme para além do que pode ser grande uma tela (e esta é-o): o gesto do pequeno David é amplo, o corpo prostrado de Golias é titânico, sem que a diferença de escala nos pareça fictícia (o punho da espada de Golias, nas mãos de David, é muito importante para a conversa).
Além disso, sucede que Guido Reni é uma espécie de antítese de Caravaggio (coisa que não lhe desculpo), fugindo muito das cenografias mais densas, trágicas e lúgubres da bíblia para se focar antes em ambientes metrosexuais, aéreos, pueris e pacíficos, fazendo recurso a uma abordagem classicista que já na sua época se tornava um pouco estafada, mas que rendia ainda sólidos florins. Ora, nesta magnífica obra, abre-se a exepção: o momento é intenso e terrífico. Está-se mesmo a ver que o grandalhão vai perder o sagrado contacto entre a goela e o esófago. A coisa não vai correr bem. Antecipa-se o sangue e vive-se o horror. Mas, acima de tudo, nota-se a ausência da dicotomia herói e vilão, triunfando a lúcida dialéctica entre o derrotado e o vencedor: Golias, indefeso, não parece assim um tipo tão desprezível que mereça este impiedoso fim e David, na sua arrogante púrpura, vai desfechar o golpe terminal sem aparente problema de consciência: está sereno e coradinho, com o joelho convenientemente assente nos rins do gigante, mas sem vestígios de um ódio de morte. Tem até, na sua pequenez de menino cínico, um certo ar profissional.
E é precisamente aqui, neste momento ausente de valores prosaicos, neste gesto suspenso entre a certeza da decapitação imediata e a inutilidade moral da vingança, que está o bichinho danado que me captou e deliciou o olhar.
Pronto, está explicado.

Um blog de bom gosto.

O fusco lusco é um blog de um amigo meu (acho que ele não fica zangado por lhe chamar amigo, já que não nos conhecemos assim há muito tempo). Por isso, é claro que a minha análise é completamente subjectiva, mas, em todo o caso, é de mera justiça editar este post para dizer que o blog é mesmo porreiro porque:

• é completamente sem pretensão nenhuma;

• não fala muito de política, nem odeia ninguém, nem está para cá com merdas (nesse aspecto - e em muitos outros - é bastante diferente deste meu blog);

• o autor é uma pessoa de gostos muito qualificados e traz sempre à baila assuntos giros, inteligentes e pertinazes, muitos deles sinais do tempo e de todo em todo merecedores da breve leitura (o homem sabe escrever curto e bem);

• o lusco-fusco é, em suma, aquilo que a blogosfera devia ser mais: um acto de partilha. E um elogio das pequenas e grandes artes contemporâneas.

Visitem que vale a pena. É aqui.

quarta-feira, agosto 23, 2006

Génios em dó maior.

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Este foi, em tempos, um blog sobre coisas porreiras como a Música. Convenhamos que já desafina o tamanho do silêncio corruptor da ideia mãe. Interrompo-o para falar de Outkast. E para falar de mim.

Coerentemente deselegante, começo por mim: não sou um gajo da "partilha de ficheiros". Compro música na Fnac e no iTunes e esta merda de achar que alguém tem que comprar música para que a indústria da música sobreviva deixa-me, só às vezes, em complicados lencóis. Por exemplo: não sei partilhar com a minha querida e escassa audiência o som que me inspira.

O som que me inspira neste preciso momento chegou-me pelo vento da MTV aqui há uns quinze dias, mas só desde ontem, vinte e dois de Agosto, é que está sorridente na bancada do bom capitalismo: Idlewild, o musical dos Outkast, está no ar e é a puta da loucura. Nem sei se o filme é de jeito e calculo que não, mas aposto na banda sonora na razão de um para dez.

Todos vós que, felizmente para todos vós, partilham e baixam música aqui e ali, baixem e partilhem esta: "Morris Brown - Featuring Morris Brown College Band". Os outros palermas como eu pagam duzentos mil-reis no iTunes (1 euro para os menores de 30 anos). Em todo o caso, compensa à brava. Juro.

segunda-feira, agosto 21, 2006

7 pérolas da Colecção do Dr. Rau.

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1 - FRA ANGELICO - S. Miguel
1424-1425, folha de ouro sobre madeira, 35.5x14 cm

Esta coisinha linda que aqui está é um dos primeiros trabalhos conhecidos de Fra Angelico (1395-1455), o beato dominicano que, entre Roma e Florença, soube encontrar o caminho difícil e peregrino do Gótico para o Renascimento. Se bem repararem, a delicada figura do Arcanjo S. Miguel parece suspender-se de leveza insustentável sobre o dragão fatalmente trespassado. A anca inclina-se, quase num trejeito feminino, para ganhar um movimento ligeiro e gracioso.
A representação é substancial para além da sua extraordinária beleza. Em 1424, a pintura de retábulos era, com a excepção do trabalho de Giotto, composta por figuras rígidas e estáticas, retratadas segundo os medievos canônes da mitologia cristã. Este arcanjo maricas, despido de armaduras e trajando um sedoso exemplar da alta costura florentina, debroado a ouro, todo ele fleuma e elegância, é já Fra Angelico a interpretar os tempos. E a pintar em conformidade.

sexta-feira, agosto 18, 2006

Mártires para consumo do Ocidente.

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No Nova Floresta descobri uma série de dados e links absolutamente arrepiantes sobre o niilismo mais grosseiro e o fanatismo mais nojento da propaganda islamita. Até Goebbels coraria de vergonha.
Só para concretizar um pouco: o infeliz representado na foto, um mártir para os editores do Independent, é realmente um actor/realizador/agente do Hezzbolah que usa cadáveres de crianças encontradas entre os escombros de locais bombardeados pelas forças israelitas para fins de guerra mediática. Se o take não sai "bem" à primeira, este incrível personagem (e há mais destes) volta a colocar a criança nos escombros para recomeçar outra vez a cena do pai destruído pela dor. É, de verdade, nauseabundo.
Para além da obrigatória visita ao excelente Nova Floresta, vale a pena, por muito que custe à sensibilidade, visitar este outro blog, onde a história é revelada integralmente.
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"Temos que saber. Vamos saber."
David Hilbert - Discurso em Königsberg - 1930

Só posso iniciar este post assim: não percebo nada de Matemática. Sou mesmo um zero grande e até o tal boi infeliz, que proverbialmente condenámos à contemplação ignorante de Versalhes, interpreta uma equação de terceiro grau ou um exercício de cálculo diferencial com mais entendimento do que este vosso criado.
Em todo o caso, o deprimente facto não me inibe o entusiasmo. A Matemática é a primeira ciência e amo-a como qualquer Pitágoras que se preze. Dito isto, adiante.


POR DEUS, UMA CIÊNCIA EXACTA TEM QUE SER EXACTA.

Para um matemático a sério, doi à brava saber que a sua disciplina é uma ciência inconsistente. Quero eu dizer: que não está fechada completamente dentro da sua encruzilhada de lógicas porque, aqui e ali, existem contradições maçadoras e paradoxos inaceitáveis. O caos teima em deixar estigmas sobre o perfeito pensamento humano.
Para um matemático a sério como David Hilbert (1862-1943) este estado corrompido das coisas incorruptíveis não podia realmente continuar. A 8 de Agosto de 1900, na intervenção de abertura do Segundo Congresso Internacional de Matemáticos de Paris, Hilbert demonstra que se resumem afinal e "apenas" a 23, os engulhos indemonstráveis, os abjectos paradoxos, as vergonhosas contracantigas que durante séculos teimaram em desafinar a precisão harmónica, estética, intelectual e científica da Sinfonia do Número.
Para este enorme génio alemão - que atravessou, com a sua centelha, todo o espectro teórico da Matemática - resolvidas fossem estas irritantes charadas e a àlgebra e a geometria, a trigonometria e a lógica, a teoria dos números e o cálculo, os campos todos enfim do saber matemático unir-se-iam em uníssono e uniforme logaritmo de exactidão selada.
Lançado o repto, escusado será dizer que a comunidade científica regressou para os gabinetes das várias academias com uma obsessão missionária, ou melhor dizendo, com 23 seculares enxaquecas. Não é exagerado dizer que a Matemática de todo o século XX está marcada pela tese de Hilbert, muito simplesmente porque o santo homem soube orientar, com ousadia e prosápia, o pensamento científico para as áreas em debate.
Com o tempo, os seus problemas foram sendo, na sua grande parte, resolvidos. Uns revelaram-se depois de importância marginal, outros conduziram o espírito humano para as eloquentes conquistas - e misérias - do século das grandes guerras. O problema (eterno) é que certas soluções tiveram apenas o mérito de Pandora: uma vez reveladas libertavam outros monstros desconhecidos, outras aberrações da lógica sistémica, outros tiques quânticos muitíssimo danosos para a consistência da grande arquitectura de deus.


AS SETE PERGUNTAS-DE-UM-MILHÃO-DE-DÓLARES.

Exactamente cem anos depois e inspirados por essa mítica noite de Paris, os senhores que mandam no respeitabílissimo Clay Mathematics Institute of Cambridge, decidiram criar o prémio Clay, que atribui muito simplesmente um milhão de dólares a quem encontrar solução consistente para um destes sete problemas:

• Conjectura de Birch e Swinnerton-Dyer
• Conjectura de Hodge
• Equações de Navier-Stokes
• P versus NP
• Conjectura de Poincaré
• Hipótese de Riemann
• Teoria de Yang-Mills

Estes são, para a matemática contemporânea, os escolhos que restam no caminho para a paz de espírito. Para sabermos aquilo que devemos saber (leia-se: tudo), há que partir estas pedras.
Dada a natureza apelativa do prémio, esperavam-se resultados e a verdade é que eles estão a chegar. Parece que já temos um campeão, embora esteja a ser um bocadinho difícil encontrá-lo. Mas para contar a história como deve ser contada, comecemos por meter as mãos na matemática propriamente dita.


A CONJECTURA DE POINCARÉ OU "DEVES ESTAR A GOZAR!"

Jules Henri Poincaré (1854 - 1912), matemático, físico e filósofo, provavelmente o último universalista da Matemática, grande mago em óptica, eletricidade, telegrafia, capilaridade, elasticidade, termodinâmica, mecânica quântica, teoria da relatividade e cosmologia, discordava do fundamentalismo de Einstein e foi o primeiro a considerar a possibilidade de caos num sistema determinista. Isto não o impediu porém de perseguir bravamente o bug da incerteza. A inconsistência de que precisava para se irritar encontrou-a nos seus estudos de análise topográfica, em 1905. Por muito estranho que pareça, Poincaré chega à lamentável conclusão que qualquer variedade tridimensional fechada e com grupo fundamental trivial é homeomorfa a uma esfera tridimensional. Hã? Agora em português plano: tudo o que não tem buracos deve ser uma esfera.
Não, não estou a gozar. A mais fina matemática do homem que caminhou nas calmas pela superfície lunar demonstra cruamente que qualquer corpo tridimensional estável e fechado - um cubo, por exemplo - não passa de uma esplêndida bola!
Como é óbvio, o próprio Poincaré foi o primeiro a tentar refutar a sua demonstração, mas debalde. O infeliz génio já tinha libertado mais um monstrinho. No caso, um monstrinho de notável longevidade. E que agora parece entregar a corrupta alma ao aborrecido criador da grande desordem cósmica...


O RASPUTIN DA GEOMETRIA DIFERENCIAL.

Para bem da sanidade mental da terráquea comunidade científica, um alienígena chamado Grigori Yakovlevich Perelman, descobriu a pólvora sagrada e podemos enfim respirar de alívio. Porque se está claro desde sempre e para toda a gente que um cubo não deve ser uma esfera, para os matemáticos só agora se fez luz: a Conjectura do mestre Poincaré sofre de equívocos.
Grigori Perelman, Gisha para os amigos que nem se sabe bem quem são, é um daqueles cromos que justificam bem a iconografia excêntrica atribuída aos sábios. Nascido em S. Petersburgo no ano de 1966, foi um estudante brilhantíssimo, somou prémios e prestígio, doutorou-se na Universidade natal e por lá ficou a cogitar, espantando de vez em quando os seus correlegionários com algumas sentenças de prodigiosa invenção, principalmente no campo da geometria diferencial. É tímido, averso a honrarias, alérgico às tentações materiais e tem a figura chapada de Rasputin, com longos cabelos, barbas intermináveis, unhas por cortar e semblante alienado. Nas horas vagas, aventura-se pelas florestas à procura de cogumelos. É basicamente um eremita muitíssimo esperto e ninguém fazia ideia do que ia naquela cabecinha divina até que, num belo dia de Novembro de 2002 edita na net o primeiro paper do seu "Esboço de uma Prova Ecléctica". A Coisa cai como uma bomba de ácido sulfúrico entre os pares. Em 2003, viaja relutantemente às capitais mundiais da matemática (Princeton, Stanford, Yale, UCLA, and so on), para dar conta do seu trabalho e distribuir os 3 volumes da tese de 1000 páginas de equações abreviadas e prosa esotérica. A sensação é a de um climax operático. As afirmações de Gisha implicam verdadeiras revoluções do pensamento matemático, não por demonstrarem o óbvio (a esfera deve ser uma esfera, o cubo deve ser um cubo), mas pela assombrosa abordagem metodológica e pelo virtuosismo técnico da demonstração em si. Alguns extasiados colegas americanos comparam a beleza absoluta das suas equações à arte de Botticelli. Só para dar ideia do fôlego desta Obra ao Branco, Bruce Kleiner, catedrático de Yale mandatado para explicar aos colegas a demonstração de Gisha, passou os últimos 3 aninhos da sua vida apenasmente envolto na tarefa. Ele e outros consagrados académicos têm vindo a confirmar, passo a passo, a validade da Prova Ecléctica.


ONDE ESTÁ O GISHA?

Candidato óbvio ao milhão de dólares do prémio Clay, contendente fortíssimo à mais prestigiada honraria que os matemáticos são capazes de oferecer a um matemático - a Fields Medal - Grigori Yakovlevich Perelman comportou-se, no apogeu académico da sua vida, de acordo com a sua reputação: chegou, demonstrou, maravilhou a audiência e desapareceu do mapa. Depois da última ronda de conferências nos Estados Unidos, regressou à Mãe Rússia, indiferente aos chorudos convites que choveram, e consta que se demitiu do Instituto Steklov de S. Petersburgo. Não responde aos emails, não se lhe conhece uma morada ou um número de telefone. É evidente que não está para ninguém. Não quer saber de prémios; prefere ir à procura de cogumelos. Não precisa de empregos; faz profissão na floresta. Ao barulho da glória prefere o silêncio do Inverno pátrio, onde ninguém lhe interrompe as intermináveis contas de cabeça.


MORAL DA HISTÓRIA

A Matemática pode não passar de uma charada engendrada por deuses cruéis. Mas, por todos os Números Reais, produz mais heróis épicos que a literatura de Homero!


Fontes:
international herald tribune
wikipedia
history.mcs
clay mathematics Institute

quarta-feira, agosto 16, 2006

Um blog necessário.

Descobri finalmente um blog em português dedicado à causa do Ocidente e à monitorização da ameaça islâmica. Se calhar há mais, mas este é tudo aquilo que deve ser. O Observatório da Jihad é lúcido, corajoso, combativo e necessário. Bravo.
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- FASCÍCULO QUATRO -

Foi modesta a venda de arte de D. Hortense Luz e pobre a comissão do convalescente Ruben Perdigoto.
Adiadas, por unanimidade, quaisquer propostas de serões do mesmo cariz no Salão Nobre da Junta, foi omitida, por pudor, a natureza dos acontecimentos que se referiram. Por entre os doces perfumes do insenso de sacristia, na quieta melancolia de seculares retábulos das vestutas coisas sagradas, o Padre Tristão tomou em suas santas mãos o rosto macerado do acólito Perdigoto paralhe dizer que são assim os ínvios e tormentosos caminhos e desígnios do Senhor. Que a arte, Segismundo d'Ávila, D. hortense Luz, o penoso sacrifício das suas partes, são, sem apelo, as impenetráveis escarpas que nos elevam a Deus. Que riscasse dos seus caminhos as ruelas e becos de fama duvidosa. Assim, se pouparia a exposições nos serviços de urgência em nada compatíveis com as piedosas determinantes da fé. Que não facilitasse, de costas, a vida ao Demónio.
Consta que a polícia local se debateu com notória dificuldade em dar corpo à participação da delicada ocorrência, na entremeada ambiguidade de termos como agnosticismo, heresia, naturezas mortas, sacos testiculares e bosta de boi, do que resultou um muito impreciso relatório final.
Segismundo d'Ávila compareceu, imperturbável, para o necessário complemento da curiosa instrução do processo. Esclareceu, condescendente, a questão da bosta e o mais subjacente ao serão de arte, vincando de forma precisa que a visão do nabo murcho, entre outras atrocidades inenarráveis, lhe afectara o siso, o rigor crítico, o sentido das coisas, bem como e marcadamente a mutilante cueca da D. Hortense, de facto uma deslumbrante afirmação de natureza viva.
Remetido ao foro psiquiátrico, não obstante a sua manifesta relutância, saíu sem o agravo de culposa acção. Consta que se passeia agora, igual a si mesmo, pelos caminhos do Buqueirão dos Anjos. Distante e senhorial, de juba cinzenta aos ventos, cigarrilha fumegante ao canto do lábio carnudo, húmido e sensual, distribui - parcimoniosamente e a pedido - o seu fino cartão de visita: "Segismundo d'Ávila, negociante de Arte Sacra".

-FIM-

domingo, agosto 06, 2006

The Charge of the Light Brigade

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-The Charge of the Light Brigade as seen from the Russian positions on the Fedioukine Hills.-


1.
Half a league, half a league,
Half a league onward,
All in the valley of Death
Rode the six hundred.
"Forward, the Light Brigade!
"Charge for the guns!" he said:
Into the valley of Death
Rode the six hundred.

2.
"Forward, the Light Brigade!"
Was there a man dismay'd?
Not tho' the soldier knew
Someone had blunder'd:
Their's not to make reply,
Their's not to reason why,
Their's but to do and die:
Into the valley of Death
Rode the six hundred.

3.
Cannon to right of them,
Cannon to left of them,
Cannon in front of them
Volley'd and thunder'd;
Storm'd at with shot and shell,
Boldly they rode and well,
Into the jaws of Death,
Into the mouth of Hell
Rode the six hundred.

4.
Flash'd all their sabres bare,
Flash'd as they turn'd in air,
Sabring the gunners there,
Charging an army, while
All the world wonder'd:
Plunged in the battery-smoke
Right thro' the line they broke;
Cossack and Russian
Reel'd from the sabre stroke
Shatter'd and sunder'd.
Then they rode back, but not
Not the six hundred.

5.
Cannon to right of them,
Cannon to left of them,
Cannon behind them
Volley'd and thunder'd;
Storm'd at with shot and shell,
While horse and hero fell,
They that had fought so well
Came thro' the jaws of Death
Back from the mouth of Hell,
All that was left of them,
Left of six hundred.

6.
When can their glory fade?
O the wild charge they made!
All the world wondered.
Honor the charge they made,
Honor the Light Brigade,
Noble six hundred.

-Alfred, Lord Tennyson-


The Battle of Balaclava
Date: 25th October 1854
Place: On the southern Crimean coast in the Ukraine.
Combatants: British, French and Turkish troops against the Imperial Russian Army.
Generals: Lieutenant General the Earl of Raglan commanded the British Army, General Saint-Arnaud commanded the French Army. Prince Menshikov commanded the Russian Army. The Russian commander of the Balaclava assault was General Liprandi, Menshikov’s second in command.

terça-feira, agosto 01, 2006

As dioptrias da justiça.

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O aparelho judicial e jurídico da Terceira República tem dois grandes inimigos: o condutor e o contribuinte. Conduzir depois de ter bebido dois copos de vinho e um Johnie Walker, isto sim, é matéria para arruinar a vida a um cidadão, que tem logo direito a cadastro criminal, prisão preventiva - e na reincidência escandalosa - chilindró garantido. Dever uns milhares de euros ao estado (sem se saber bem os milhões de euros que o estado deve aos contribuintes), esse sim é crime capital que justifica a estratégia draconiana da exposição delatora, desonrosa e reles (não, não estou na lista).
Agora, se um bando assassino de adolescentes mata à pancada o desgraçado de um maricas qualquer, o Ministério Público pede que se faça justiça recorrendo a uma cartilha, mais asneira, menos asneira, do género seguinte: "Sr. dr. juíz, queira compreender que estes tristes rapazes, vítimas de uma sociedade indigna da sua inocência, combatiam o tédio das suas singelas e imaculadas vidinhas pela aplicação periódica de uma quantas bárbaras e, enfim, terminais cacetadas no miserável canastro do triste paneleiro-sem-abrigo-nem-vergonha-que-estava-mesmo-a-pedi-las. Não tinham más intenções, para além da motivação lúdica, nem sabiam bem o que estavam a fazer com o corpo morto quando o esconderam e são até crianças devotas à causa cristã, clientes do reputado colégio de uns senhores padres que os educam para serem grandes homens nesta nação que para o futuro tem assim mais aberto o caminho. Vossa Excelência entenderá que, neste contexto, o Ministério exija somente uma reprimendazita, assim qualquer coisa que não chegue a um ano de recolhimento, se possível no fraldário da Cruz Vermelha."
Nada de acusações de homicídio voluntário ou involuntário, nada de sugestões de ocultação do cadáver, nada de saber e investigar como é que um colégio interno gerido pela igreja cria monstros destes, nada, portanto, de decente. O juíz, do alto da sua supra-poderosa ignorância, concorda e sai-se com esta pérola (sic): "Tratou-se de uma brincadeira de mau gosto e espero que as penas aplicadas sirvam de emenda." A defesa, apesar de tudo, insiste em advogar satã e protesta e ameaça e rebola-se na ignomínia dos recursos.
A justiça em Portugal transformou-se num sistema espectacularmente imoral e isto já para não estar aqui com conversas sobre a clemente e convenientemente parcimoniosa jurisprudência para com pedófilos da alta sociedade, mãezinhas que fazem simplesmente desaparecer os seus filhos debaixo da primeira cova que encontram, políticos que despacham a favor dos amigos e em desfavor da lei de república 4 dias antes de deixarem o governo, autarcas fora-da-lei que fogem para o Brasil e regressam para as eleições (nem D. Afonso VI tinha lata p'ra isto); presidentes de clubes desportivos que servem putas aos árbitros depois do jantarzinho que também fizeram o favor de pagar; proxonetas de negócio tão sujo como chorudo, que são libertados com umas pulseiras de tornozelo xpto/gps, depois descartáveis com qualquer alicate da loja dos trezentos, de forma a que possam fugir (outra vez) para o Brasil; antigos pides e confessos assassinos que regressam à pátria para morrer em paz; terroristas do verão quente que são condecorados pela Presidência da República; traficantes de heroína do Casal Ventoso a quem o Dr. João Soares ofereceu uns belos apartamentos na condição ponderada de que não traficassem mais no Casal Ventoso (os novos proprietários traficam agora na Rua Sidónio da Silva) e todos os militantes do Bloco de Esquerda. Para esta gentalha (e outra muita que seria exaustivo descrever em detalhe) a Terceira República mostra a face bonacheirona de quem se peida depois da refeição, a complacência desenterrada das comunas de 68, o humanitarismo bolorento de sacristia, a pedante, francesa e imunda tolerância.
A Justiça em Portugal é a piada mais fraquinha do anedotário dos deuses da democracia e isto já para não falar do Procurador Geral da República que temos e que vai terminar o seu infame, vergonhoso, incompetente, indigno, suspeito e malandro mandato como se nada fosse: impune e inimputável, incólume e sereno. Este imbecil dos sete costados será um dia também condecorado por uma futura e equivalententemente imbecil Presidência da República, e haverá uma rua em Lisboa com o seu nome, e será talvez retratado o seu rosto de rato estúpido para a posteridade, num boneco a cores do Júlio Pomar devidamente colocado no mais nobre dos salões nobres da Procuradoria Geral da República. Este senhor, que só fez merda, que foi conivente ou que foi cúmplice ou que foi autor moral de crimes contra o estado, contra os cidadãos e contra uma noção mínima de decência pública, é uma glória. O desgraçado do cidadão que está atrasado para uma reunião em Coimbra e que descuidadamente leva o seu carrinho pela A1 a 160 km por hora, é um bandido.
A justiça em Portugal é uma vergonha grande e isto já para não falar naquele gajo que tem porte de arma e pode andar armado pelas ruas mesmo que tenha bebido 20 bagaços. É legal. É porreiro. Uma arma de fogo é muito menos perigosa que um automóvel. E isto já para não falar do alegre Presidente de uma Câmara falida que continua a oferecer festivais disto e celebrações daquilo e eventos daqueloutro, porque deu as devidas ordens para que não se pague nada a fonecedor nenhum. É legítimo. Não é por tesura de fundos que os votos deixam de ser comprados. Aqueles que prestaram, entretanto, os serviços ao município e que tornaram possíveis os festivais e as celebrações e os eventos e que ficam anos para receber as devidas facturas e que, por isso, não têm dinheirinho para pagar o IVA e o IRS e o IRC e o IMI e a Segurança Social e a puta que os pariu, esses são os canalhas, esses são os metralhas, esses que se lixaram a trabalhar, esses que fazem mais do que apenas viver à conta de quem trabalha, esses são os marginais.
Aos crápulas, aos assassinos, aos bandidos, aos terroristas e aos traidores, devemos mostrar misericórdia, caramba. Quanto aos outros, é apertar com eles. Afinal, para que precisa Portugal de gente decente?

domingo, julho 30, 2006

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- FASCÍCULO TRÊS -

Segismundo d'Ávila movia-se, de sorriso cáustico e cigarrilha fumegante, por entre a mole que cercava os bolinhos e os biscoitos com um afã que o escrivão da Junta registaria na acta como inequívoca colagem à arte, sem precedentes na história de outros sucessos e assembleias gerais regulamentares.
Foi por esta altura, quando os bandulhos estavam já agradavelmente confortados, que Segismundo se deu de frente com D. Hortense Luz - olhos nos olhos - ela ofegante, entumecida de calores e emoções a que, seguramente, o Padre Tristão não teria acesso no confessionário; ele crispado, tomado de fulgores que lhe ruborizavam o carão. Conta-se que lhe segredou algo junto do auditivo. Segundo depoimentos credíveis de circunstantes mais próximos terá declarado sem peias que as pendurezas em exibição não valiam a bosta de um boi, uma merda para reter nos anais da arte menor e, ainda, que o nabo e as nabiças mereciam menos do que simplesmente serem plantados nos escarninhos da sua opulenta rabada.
Consta que se gerou um movimento de viva contestação e no momento em que José Fagundes, no exercício das suas elevadas funções se aproximou, temeroso, para quebrantar o burburinho, já Segismundo d'Ávila rasgava brutalmente e de um só golpe o decote da artista até à cueca relampejante de multicoloridas lantejoulas e outras enternecedoras fantasias chinesas. O espanto geral deu lugar a um silêncio aterrador. Ruben Perdigoto, titubeante, de careta franzida e cinzenta palidez arrostou a fleuma da Segismundo.
- Herege!
Segismundo d'Ávila ajustou a gravata tom de abóbora madura e encarou-o, circunspecto.
- Sou agnóstico. A presunção de heresia não me atinge. Não há deus nem nesse seu cú sem vergonha.
Hortense, ainda mal refeita do golpe, erguia as mãos numa muda súplica, enquanto Segismundo alapava todo o peso da sua mão na pálida bochecha do temente rato de sacristia que, por deplorável acréscimo, ainda oscilante, recebeu, sem outros arrebiques de palavrosa agressividade, a lustrosa biqueira de fino sapato da Charles no delicado e justo lugar do vaso testicular, caindo logo após na fria pedra do salão nobre da junta do senhor Fagundes.
Pelo que se diz, pouco restou de apendice testicular à piedosa criatura, o que, valha a verdade, sempre era coisa de menor valia.

(cont.)

domingo, julho 23, 2006

A primeira praia.

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Esta é a primeira praia marítima de Portugal, para quem desce da Galiza, ou a última, para quem sobe de Viana do Castelo. Chama-se Praia do Moledo e a imagem não lhe faz justiça porque foi tirada da marginal, que não acompanha a sua magnífica extensão nem alcança a espectacular foz do Rio Minho, onde há quilómetros de um areal imaculado, deserto, selvagem e encantador. Onde tive apenas por companhia o Forte do Cão, insular ameaça de canhões apontados para a margem espanhola; o oceano, que rebenta em branco puro sobre o verde profundo da maré; a brisa suave, que me acariciou o corpo e que me refrescou a emoção; a areia grossa, autêntica, brilhante; o cheiro marinho do meu país que assim começa.
Sempre achei que a norte do Tejo não havia condições de veraneio, mas aqui, no Moledo, localidade vizinha de Caminha (722 anos de foral!), orla mágica do Minho, princípio e fim de Portugal, encontrei uma das praias mais bonitas que já vi. Sim, aqui mesmo, ofereceram-me os deuses do olimpo lusitano um dia simplesmente perfeito.

sábado, julho 22, 2006

Sobre a moral da guerra.

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Tenho ultimamente ouvido - e lido - grandes desvarios sobre os acontecimentos do Médio Oriente. O desvario que mais tem pegado é o de que Israel está a reagir às actividades pacifistas do Hezbolah sem o devido sentido das proporções. No Expresso, a D. Clara Ferreira Alves, sabe-se lá porque raio de delírio diftérico, pôs-se a escrever umas coisas sobre o assunto (estou-lhe mesmo a ver a expressão sobranceira de quem leva a luz às massas): pelos vistos, os israelitas deveriam estar conformados com o facto de serem o alvo natural dos rockets que, com regularidade suiça e pontaria desastrada largam do sul do Líbano. O Estado de Israel deveria habituar-se às bombas que explodem - estas sim - indiscriminadamente nas suas ruas. Não é agora por uns soldadinhos terem caído na ratoeira que há desculpa para ripostar. A D. Clara Ferreira Alves confirma, do alto de seu saber perito, que é despropocionada a ofensiva militar, cujo comandante em chefe é um homem laico, eleito por processos democráticos no contexto de um estado de direito. A D. Clara Ferreira Alves não acha que é despropocionada a selvajaria primeira, perpetrada por uma corja de bandidos profissionais, bárbaros sacerdotes e assassinos de deus, uma organização que é fascista a sério, criada e alimentada pelo Irão, país simpático e cordato, que toma há décadas como refém o povo do sul do Libano (a Síria tem coutada mais a Norte). Que eu saiba, a D. Clara Ferreira Alves nunca escreveu sobre os libaneses que morreram às mãos de Arafat ou de Khomeini ou de Hafez el Assad, mas faz questão agora de se lamentar por Beirute.
É verdade e, caramba, imensamente lamentável, que estão a morrer inocentes nas ruas desta cidade mártir. Mas, pelos anjos da lógica, que dizer dos inocentes que morrem todos os dias em Israel, noutras muitas cidades sacrificadas?
Mais a mais, toda a gente de senso sabe muito bem que é precisamente atrás de estruturas civis e de vidas humanas que se esconde a Hezzbolah. Que é com crianças que faz a guerra. Que é com inocentes que encena os sacrifícios. É natural que a D. Clara Ferreira Alves ignore que não há uma forma limpa de combater a sujidade maior do terrorismo. Perdendo algum tempo na leitura das suas crónicas, percebe-se que esta senhora ignora realidades várias. O que já não é admissível é que a sua ignorância nos seja revelada assim, com ares professorais e pretensões de seriedade.

A guerra é sempre imoral. É por natureza imoral. Afirmar que a morte de civis e a destruição de infra-estruturas não militares é um acto contrário às leis morais da guerra, como o fez hoje na SIC Notícias o inevitável Sr. Dr. Nuno Rogeiro, é de uma vilania arrepiante. É que o Sr. Dr. Nuno Rogeiro, experimentado pirata, sabe muito bem que é precisamente com as baixas civis - dos dois lados da barricada - que estes terríveis islamitas fazem a guerra e manipulam a opinião ingénua e impressionável da plateia global. Mais: o Sr. Dr. Nuno Rogeiro tem plena consciência que não há registo na história universal do ódio de uma guerra que não tenha sacrificado sangue inocente. O Sr. Dr. não ignora os inocentes de Dresden, concerteza, aposto que até se lembra da forma prática como os americanos acabaram com a guerra no Pacífico e não acredito que se tenha já esquecido do divertimento preferido dos exércitos de Napoleão ou da proverbial simpatia do invasor russo. Prefere porém, o Sr. Dr., a verdade de plástico e a ética do soundbyte. Uma vergonha.

O que está em causa no médio-oriente é o choque entre dois modelos civilizacionais. Ou - se quiserem - dois paradigmas oníricos: a sociedade com que eu sonho é antípoda da sociedade com que sonha o radical islâmico. Acontece que são precisamente os radicais islâmicos aqueles que dominam hoje o mundo muçulmano. Acontece que são precisamente os radicais islâmicos que amaldiçoam e ameaçam a minha possibilidade de sonhar. Que desrespeitam a minha diferença. Que insultam a minha inteligência. Que fragilizam a minha liberdade com bombas, com misseís, com raptos, com reptos, com pragas, com interdições e com merdas e com vinganças e com o despotismo de deus. Já ninguém se lembra dos incontáveis milhões de inocentes que morreram na Europa para acabar com o despotismo de deus? Por muito menos do que isto, já tanta gente foi despachada para o inferno, senhores. Motivos bem mais ligeiros, acabaram por elevar multidões de almas ao céu, senhoras.

Israel tem motivos de sobra para fazer esta guerra. E a Europa devia entender isso porque Israel trava por nós uma batalha decisiva. São os israelitas que estão na linha da frente. São eles que primeiro explodem nos autocarros.
Podemos e devemos sofrer por cada vida que cai por terra, no horror diário da guerra. Mas temos também a responsabilidade de honrar o venerável compromisso das liberdades individuais, da democracia laica e do estado de direito. Custe o que custar.


Nota: a imagem em cima foi retirada de um site de propaganda do Hezzbolah. Para esta organização escuteira, boa publicidade é uma parada militar com crianças armadas, pisando bandeiras.

Um deus descartável.

"O Coronel Sanders cruzou os braços e fitou Hoshino nos olhos.
- Quem é Deus?
A questão obrigou Hoshino a pensar. O Coronel Sanders não lhe deu tréguas.
- Sim, qual é o aspecto Dele? O que é que ele faz?
- Não me pergunte a mim. Deus é Deus. Está em toda a parte, vê tudo o que fazemos, distingue o bem do mal.
- Mais parece um árbitro de futebol.
- Sim, não anda longe disso.
- Isso quer dizer que Deus usa calções, corre de apito na boca e sempre de olho no relógio?
- O senhor sabe bem que não é isso que quero dizer - Replicou Hoshino.
- E os deuses japoneses são da família dos deuses estrangeiros? Ou serão antes inimigos?
- Como é que eu hei-de saber?
- Escuta uma coisa que te vou dizer, meu caro Hoshino. Deus só existe na cabeça das pessoas. Aqui no Japão, o conceito de Deus sempre foi entendido de uma maneira aberta. Vê só o que aconteceu a seguir à guerra. Douglas McArthur ordenou ao divino imperador que deixasse de ser Deus, e ele obedeceu, fazendo um discurso em que se dizia um homem vulgar, igual aos outros. E foi assim que, depois de 1946, ele deixou de ser Deus. São assim os deuses japoneses - adaptam-se e ajustam-se à realidade. Aparece um militar americano qualquer pendurado num cachimbo barato, altera a ordem e pronto, muda tudo - não há Deus para ninguém. Uma atitude muito pós-moderna. Quando dá jeito que Deus esteja aqui, Ele está. Quando não dá, Ele deixa de estar. Se é isso que é ser Deus, vou ali e já venho."

HARUKI MURAKAMI
-KAFKA À BEIRA-MAR-