quinta-feira, setembro 20, 2018

Haikus da Baía #02


Rasgando ao largo as ondas sóbrias,
a lancha da Marinha traz pressa de aportar.
Devem ter ficado sem gelo
para o scotch.


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Nem sempre é fácil discernir
a linha do horizonte.
Às vezes o mar e o céu encontram-se
no mesmo Pantone.


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Oiço ao longe
o lamento de uma motorizada
que sobe a falésia.
É maior o barulho
que a aventura.


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Quando Deus fez a baía,
já sabia que o homem
lá iria inventar um porto.


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A saudade é uma traineira que regreessa à doca
pela conclusão da tarde.
A ansiedade é uma traineira que parte da doca
pelo despontar da manhã.


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Todos os barcos têm um naufrágio no seu destino.
Os barcos felizes naufragam no mar.
Os barcos tristes naufragam em terra.


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O gin tónico sabe-me melhor quando Deus
manda cessar o vento.


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Um veleiro de velas arriadas
é uma contradição a motor.


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A Marinha manobra,
fingindo batalhas navais,
enquanto o traficante deixa a sua mercadoria
na praia ao lado.


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Só a brisa e as gaivotas
desafiam o silêncio.
Ninguém parte para a guerra
numa tarde assim pacífica.

A incerteza chegou à termo-dinâmica.

"What we find is that because the thermometer no longer has a well-defined energy and is actually in a combination of different states at once, that this actually contributes to the uncertainty in the temperature that we can measure."
H. J. D. Miller

Em 1927, Heisenberg postulou, no seu célebre Princípio da Incerteza, que quanto mais procuras a verdadeira posição de uma partícula, pior é para a tua sabedoria sobre a sua posição num dado momento.
Em Junho deste ano, H. J. D. Miller e J. Anders publicaram um paper na Nature Communications que acrescenta à incerteza topográfica, a incerteza termo-dinâmica: estipular a temperatura de uma partícula sub-atómica é um exercício de loucos. A partícula pode ter duas temperaturas em simultâneo (ou nenhuma, na verdade) como o gato de Schrödinger podia estar morto ou vivo. Sempre que tentamos saber, sempre que tentamos medir, o termómetro ensandece. E a realidade quântica também.
Se preferirem à densidade do paper de que falo, a amigabilidade da notícia sobre o paper, está aqui uma menos má.
O legado de Heisenberg, de Bohr e de Schrödinger permanecem assim como uma espécie de maldição. É quase trágico verificar que nos últimos cem anos a física tem caminhado muito mais para o abismo da incerteza do que para o cume do absoluto.

quarta-feira, setembro 19, 2018

O Egas e o Becas são paneleiros.

O Egas e o Becas saíram do armário. Porque o autor destes dois personagens da Rua Sésamo é paneleiro, o Egas e o Becas também são.
Não importa se se trata apenas de dois bonecos. São dois bonecos paneleiros. São um casal de paneleiros.
Não importa se se trata de dois bonecos que representam duas crianças. As crianças também podem ser paneleiras.
Não importa se se trata de dois bonecos que entreteram e entretêm várias gerações de crianças que não estão nem devem estar, obviamente, interessadas nas opções sexuais de dois bonecos. Até porque os bonecos, que eu saiba, não têm sexo.
Nada disto importa, para Mark Saltzman, o paneleiro que os criou. O importante é que toda a gente saiba que ele, Saltzman, leva no cú. E que, na sua mente delirante, os seus bonecos também levam no cú.
Se isto não fosse tão nojento, seria até cómico. Mas é mesmo só, exclusivamente, puramente, nojento.

terça-feira, setembro 18, 2018

Um pacífico Atlântico.


La Vuelta 2018 ou a vingança do gémeo mais fraco.



Na primeira prova de 3 semanas da época de 2018 - o Giro d'Itália, Simon Yates dominou a concorrência nos primeiros quinze dias. Na terceira semana claudicou entre o cansaço extremo e a recuperação épica de Chris Froome, que acabou por vencer a prova numa só etapa (que ficará para sempre nos anais da história do ciclismo profissional)
Depois deste anti-clímax, Simon, que aqui há um ano atrás era considerado o mais fraco dos gémeos Yates, descansou. Evitou o tour e voltou em força  na Vuelta, onde se mostrou de longe o melhor ciclista em prova, deixando estrelas de primeira grandeza como Quintana (que mais uma vez confirmou que não tem fibra de campeão), Valverde, Aru, Nibali, Pinot e Zakarin a milhas e milhas de espaço-tempo.
A vitória de Yates, bem como a integral composição do pódio desta Vuelta, confirmam uma tendência óbvia da época de 2018: há uma nova geração de ciclistas que parece muito promissora. Para além de Yates, que soma apenas 26 anos (a maturidade competitiva no ciclismo surge só depois dos 26/27 anos), Atletas como Enric Mas (23 anos, segundo na Vuelta), Miguel Angel Lopez (24 anos, terceiro na Vuelta e terceiro no Giro) e Richard Carapaz (25 anos, quarto no Giro) vão dar que falar já na próxima época. Isto para não falar de  Primož Roglic, que apesar de ter 29 anos chegou há muito pouco tempo ao circuito internacional e já deixou muita gente de queixo caído ao terminar o Tour deste ano em quarto lugar.
A época de 2019, aliás, promete imenso: haverá mesmo muita gente disponível para conquistar as três grandes voltas e alguns, como Chris Froome, Tom Dumoulin e Vincenzo Nibali, por exemplo, com muitas contas a ajustar com o destino.
Ainda agora é Setembro e já sonho com o fim de Maio.

Summer chill #02


segunda-feira, setembro 17, 2018

Figurinha mal criada do mês.

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O ténis é dos poucos desportos que mantêm a sua virtude e espectacularidade quando praticados por senhoras. O problema é que Serena Williams não é nenhuma senhora e, sempre que aparece em cena, dá a sensação que a televisão fica escangalhada ou que o ténis é um desporto para mostrengos. Mal criada, arrogante, manhosa, deselegante, gorda e feia, Serena devia dedicar-se a qualquer outra actividade que não estragasse a retina a tanta gente. Levantamento de pesos, por exemplo.
E devia parar de se fazer de vítima: parece-me muito nitidamente que, sendo multimilionária e multicampeã, tem pouco de que se queixar.

Entre o medo e a esperança: contributos para a problemática da Inteligência Artificial.

Nos dias que correm danados, quando o assunto em questão é a Inteligência Artificial, a pergunta que ouvimos mais vezes já não é se vamos ter máquinas mais inteligentes do que nós. Vamos tê-las de certeza. A pergunta que surge mais frequente é se isso pode acabar com a raça humana ou levá-la a novos patamares de evolução.

Deixo aqui as opiniões válidas, bem formadas, bem informadas e competentemente argumentadas de Sam Harris, um dos gurus da Intellectual Dark Web, que defende a razão pessimista com um tom talvez excessivamente apocalítico, e de Max Tegmark, o brilhante cosmólogo do MIT, que opta por um registo que oscila perigosamente entre o optimismo e a ingenuidade.

A Inteligência Artificial vai acabar com a humanidade, segundo Sam Harris:


A Inteligência Artificial vai exponenciar a humanidade, segundo Max Tegmark:


Eis um assunto difícil e complexo como o diabo. Mas há na cabine telefónica desta conversa dois elefantes magenta que Sam Harris, tipicamente, e Max Tegmark, estranhamente, não conseguem identificar nas suas breves Ted Talks (se calhar precisamente por serem breves).

O primeiro elefante é a questão da consciência. Acho estranho que Tegmark não integre a consciência no seu discurso, porque ele é precisamente um dos cientistas contemporâneos que está a trazer a consciência para o âmbito da Matemática. Acho típico que Sam Harris não fale neste assunto porque é um ateu tão radical que nem deve gostar muito da palavra consciência. Mas seja como for, esta é uma das pedras de toque quando toca a música das máquinas divinas.

É que o que está aqui em jogo é o processo inverso do Genesis. No Antigo Testamento, é Deus que cria o Homem. No Século XXI será o Homem que cria Deus. Porque uma máquina com capacidades de processamento próprias do chip quântico, se for programada para aprender e se for ligada à Internet pode rapidamente tornar-se omni-presente, omni-potente: divina. Acontece que o Deus do Antigo Testamento não é de todo a mais simpática das figuras literárias, muito pelo contrário (perguntem a Job). Não queremos criar uma máquina que proceda como esse Deus. Mas também não queremos criar um máquina destituída de leis morais, que funcione da forma mais eficiente possível, porque um computador quântico pode muito bem acreditar que a forma mais eficiente possível de lidar com a humanidade seja aniquilá-la.

A esta máquina tem assim que ser oferecido um motor consciente. A capacidade de distinguir entre o bem e o mal. A capacidade de encontrar um equilíbrio entre a ordem e o caos, a eficiência e a decência, o moralmente certo e o moralmente errado.

O problema é que a referência moral é a humana. Não é a da máquina. Porém, é aqui mesmo que entra a outra omissão elefantina nos argumentos das duas estrelas TED: muito provavelmente, os sistemas de inteligência artificial da segunda metade do Século XXI serão integrados na realidade biológica do ser humano. Máquina e Homem, Deus e Criado - ou Deus e Criador - serão o mesmo ente: o Sapiens 2.0, verdadeiro ex-machina, finalmente disponível num futuro próximo de ti, jovem leitor. Assim, a máquina não precisaria de uma consciência de si própria, porque seria escrava da consciência do seu portador humano.

Não, não estou a ser optimista. Ao suspeitar que a integração da Inteligência Artificial no corpo do homem será bastante provável a médio prazo não quero concluir um final feliz. Enquanto o homem for homem, enquanto Deus for Deus, não há finais felizes. Mas, como acontece tantas vezes na Futurologia, como acontece tantas vezes na História, é difícil fazer as contas no presente do indicativo.

Sendo certo que a tecnologia não vai parar de evoluir (até porque é um produto humano), podemos acreditar com sensatez que dentro de 20 a 40 anos teremos ao nosso dispor sistemas computacionais ontologicamente mais competentes do que nós. Mas a tendência será também a de integrar esses sistemas na rede neural humana. É isso que temos feito até aqui, na verdade. O que é um smartphone senão um complemento orgânico, um attach ao sistema nervoso da relação que o Sapiens tem com o mundo?

A ideia da máquina malevolente de olho vermelho, de Arthur C. Clark e Stanley Kubrick, é literária e cinematograficamente fabulosa. Mas não me parece que o futuro do homem seja assaltado por este género de sistemas operativos da era analógica. Até porque, neste contexto, as leis de Asimov continuam a ser válidas, desde que programadas como mandamentos:

[ 1 ] A robot may not injure a human being, or, through inaction, allow a human being to come to harm.
[ 2 ] A robot must obey orders given it by human beings except where such orders conflict with the First Law.
[ 3 ] A robot must protect its own existence as long as such protection does not conflict with the First or Second Law. 


Seja como for, prossigamos com ambição, porque a inteligência artificial pode de facto transportar a condição humana para um outro patamar ontológico; e com cautela, porque sabemos o suficiente de história, de ciência (e de literatura), para não confiar cegamente num futuro risonho.

domingo, setembro 16, 2018

Hockney, o último génio.



Relativizando tudo ao aniquilar qualquer critério e - assim - toda a possibilidade de uma Crítica, o Pós-Modernismo assassinou as artes e é muito fácil entrarmos hoje numa qualquer galeria de coisas contemporâneas para nos sentirmos insultados. Para percebermos que algo está podre no reino do vale tudo e da arte por conceito.

Como sempre, porém, há ainda gente que se salva e arte que vale em absoluto. Que vibra, que comunica, que é inteligível. E David Hockney é, talvez, o mais genial pintor vivo: uma espécie de último grande mestre.


Cruzando referências que oscilam entre Claude Monet e Edward Hopper, entre Francis Bacon e Pablo Picasso, entre Vincent van Gogh e Andrew Wyeth (outro dos últimos grandes mestres, mas este já falecido); Hockney não tem medo do cliché, porque toda a arte é construída sobre convenções. São as convenções que fazem da arte a suprema forma de comunicação. São as convenções - os lugares comuns - que permitem o olhar original, a ruptura, a inovação, os modernismos.


É precisamente pela originalidade com que representa o real, é precisamente por fazer da normalidade uma singularidade, que David Hockney é genial. As suas obras vibram pelas nossas retinas adentro, penetram imageticamente na alma para criarem momentos de eternidade,  sensações de transcendência. Fazem, na verdade, exactamente o que a arte deve fazer: alteram o nosso processo de percepção das coisas.


Olhamos para um quadro deste homem e o tempo cristaliza num iato de espanto e de serenidade. É uma variante da magia branca. Estamos perante algo que é puro, que é autêntico. Os retratos de Hockney, por exemplo, têm verdadeiramente pessoas verdadeiras lá dentro.


Parece que o célebre “Retrato de um Artista (Piscina de Duas Figuras)”, de 1972, pode vir a ser um dos mais caros de um artista vivo. A leiloeira Christie’s estima a venda em mais de 68 milhões de euros.


O valor exorbitante parece-me apenas justo. Sinceramente. O trabalho deste velho pioneiro britânico não tem preço. Vai ficar para sempre. Serve de herança e de testemunho de uma civilização que está a morrer.


Haikus da Baía #01



O meu cão cego
aprecia a vista:
a virtude da baía
não precisa de olhos bons.


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"A justiça militar
está para a justiça
como a música militar
está para a música"
Diz o meu sogro.

Faço-lhe continência.


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Os sinos chamam à missa
mas a maré não sobe por causa disso.


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Se fossem ainda mais pobres
os meus versos morreriam de fome.


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A mosca é a pior
invenção de deus
e deus é a melhor
invenção do homem.


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O céu nocturno esconde
mais do que mostra.
É por isso que a lua tem as suas fases.

A luz fixa dos planetas
desenha órbitas na escuridão.
E dá-me vontade de foguetões.


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A cadeira de baloiço
que me embala o fim de tarde
faz de mim um ioiô.


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Todas as tardes têm um fim diferente.
A Mãe Natureza nunca se aborrece.


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A traineira arrasta-se
na direcção da doca.
Traz o pregado
que vou comer mais logo.


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O vinho transforma a paisagem.
Depois de três copos a baía
fica ainda mais bonita.

terça-feira, setembro 11, 2018

Summer chill.


Pela Estrada Fora #10


Sigo pela margem norte da Ribeira de Seixe, até à foz. Está um belo dia de verão. À excepção de dois ou três turistas que passam de bicicleta, ninguém. Do outro lado da Ribeira, a vila de Odeceixe espreita, silenciosa. A tarde está tão calma que quase enerva. Como não conheço a estrada, que é estreita e sinuosa, prossigo devagar. Estou de bem com a vida. Mas dava agora tudo pela liberdade, pela ferocidade, pela velocidade de um autódromo. 

Um poema do Álvaro que eu desconhecia.

Estranhamente, li hoje, pela primeira vez, este poema. Pensava que já tinha lido todos os poemas do Álvaro de Campos. Pensava que isso era possível. Não é.

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A alma humana é porca como um ânus
E a Vantagem dos caralhos pesa em muitas imaginações.

Meu coração desgosta-se de tudo com uma náusea do estômago.
A Távola Redonda foi vendida a peso,
E a biografia do Rei Artur, um galante escreveu-a.
Mas a sucata da cavalaria ainda reina nessas almas, como um perfil distante.

Está frio.
Ponho sobre os ombros o capote que me lembra um xaile —
O xaile que minha tia me punha aos ombros na infância.
Mas os ombros da minha infância sumiram-se antes para dentro dos meus ombros.
E o meu coração da infância sumiu-se antes para dentro do meu coração.

Sim, está frio...
Está frio em tudo que sou, está frio...
Minhas próprias ideias têm frio, como gente velha...
E o frio que eu tenho das minhas ideias terem frio é mais frio do que elas.

Engelho o capote à minha volta...
O Universo da gente... a gente... as pessoas todas!...
A multiplicidade da humanidade misturada
Sim, aquilo a que chamam a vida, como se só houvesse outros e estrelas...
Sim, a vida...
Meus ombros descaem tanto que o capote resvala...
Querem comentário melhor? Puxo-me para cima o capote.

Ah, parte a cara à vida!
Levanta-te com estrondo no sossego de ti!

A baía em paz.




Emergência: eis uma boa Teoria de Tudo.

"Nature is a language expressing itself."
Klee Irwin

A Teoria da Emergência apresenta-nos o universo como um processo temporalmente não linear de criação de consciência. Desta teoria, gosto. É coerente com o estado da matemática contemporânea e é demonstrável através do método científico. Faz sentido de tal forma que toda a gente pode compreender a sua lógica. E traz imensa consolação, traz imenso significado, à vida humana: quem tu foste, és ou serás influi perpetuamente no processo universal de ganho de consciência. Dos bits de informação do tamanho de 1 Planck às células, do ser humano às estrelas, há um movimento no sentido da obtenção de uma consciência universal, em que todos participamos e participaremos sempre. E este sempre tem a ver com um conceito não linear (ou não cronológico) do tempo. O futuro é construido pelo passado mas o passado também é construído pelo futuro, de tal forma que essa consciência universal que é produto de toda a energia, de toda a História, de toda a informação do cosmos existe desde sempre, na verdade.

Esta teoria consegue de facto explicar coisas tão diabólicas como a "Double-Slit Experience", integrando e predizendo constantes fundamentais como a Velocidade da Luz, a Constante de Planck, a Constante de Estrutura Fina, o Princípio da Incerteza e a Proporção Áurea.
Precisa de 8 dimensões matriciais, como a Teoria das Cordas, assume que a realidade é constituída por bits de informação, como a Teoria do Multiverso e as Teorias do Universo como Simulação, mas não se esgota em conclusões disparatadas, intratáveis ou niilistas que não trazem qualquer tipo de consolação filosófica.

Nestes 30 minutos de vídeo, a Teoria é bem explicadinha. E fácil de perceber, o que não é dizer pouco.


domingo, setembro 09, 2018

Scriptorium #02





Um caminho.

Não vou, muito provavelmente, estar vivo quando a Apple ou a Samsung lançarem o seu primeiro computador, o seu primeiro sistema operativo, de processador quântico. Ou, mesmo que esteja vivo, já não me servirá de grande coisa. Os computadores de processador quântico vão transformar o Sapiens 1.0 no Sapiens 2.0. E, o mais certo, é que nessa altura o conceito de computador já tenha sofrido bastantes alterações, de tal forma que não seja uma máquina exterior ao corpo, mas antes um complemento cibernético da arquitectura humana.

Seja como for, o processo científico e industrial está a dar os seus primeiros passos. A ideia central é tirar partido de fantasmáticas "anomalias" do comportamento das partículas como a superposição e o entanglement, de tal forma que o actual código binário multiplique a sua produtividade na ordem dos milhares percentuais. A diferença entre um bit e um qubit é que um bit ou é zero ou é um. Um qubit pode ser, no mesmo momento, zero e um. Mais: pode ser o zero e o um de outro qubit. Isto levanta todos os potenciais que podemos imaginar, em termos de capacidade de processamento. E, também, do que será capaz de fazer a inteligência artificial na segunda metade do século XXI (para o bem e para o mal, como sempre).

Não se trata de uma revolução para agora, independentemente do que possam dizer os mais optimistas. Existem grandes dificuldades ao nível da coerência energética das partículas e é preciso trabalhar consistente e afincadamente em múltiplas frentes tecnológicas para que um computador quântico esteja à venda, a um preço de classe média, numa Worten perto de ti, caro leitor. Para que caiba em cima ou em baixo da tua secretária. Para que consiga ser completamente imune ao ambiente do teu escritório. Para que consiga manter estáveis temperaturas abaixo do zero absoluto.

Mas, como este vídeo bem demonstra, nos anos 50 do século passado também era precisa uma sala enorme para manter a funcionar um computador com um centésimo da capacidade de processamento do teu actual telemóvel.

Por isso, vamos deixar a malta trabalhar e ver o que é que sai daqui.



quinta-feira, setembro 06, 2018

A baía em cinzas.


Why a right winger?

É muito frequente acontecer-me isto: numa conversa qualquer, digo de repente que sou de direita e as pessoas ficam a olhar para mim, meio confusas, meio assustadas, sem saber se estão a falar com um nazi ou com um tipo que apenas discorda de uma certa visão normalizada das coisas. A semana passada aconteceu-me isto com um casal que muito estimo e que não via há anos. Como ela é britânica, escrevi este email para eles em inglês, que na verdade serve bem de manifesto, até porque é sucinto:

People get often puzzled when I say, upfront, the I am a right wing guy. Not a social democrat. Not center-right. Not right leaning. Right wing. After all I don't have swastikas tattooed on my body. I don't look like an extremist. I don't go around in white hoods spanking black guys. I don't come across as a tyrant. I smoke pot and come from a lower middle class in the outskirts of Lisbon. Though I have worked hard during my entire adult life, I own a very proletarian VW Golf and a T2 house in Damaia (a very unimpressive suburb of Lisbon) and that's about it. Thus, it's easy to perceive that I'm not rich and will not inherit anything from anyone. So, why a right winger?
To put it as simple as I can (so not to bother you with rethorics): because I strongly believe in liberty, individualism and responsibility. I believe In liberty as a tool for people to suppress tyranny and take as much control as possible of their destinies; I believe in the individual so he remains human in the midst of social convergence; and I believe in responsibility so I can resist the temptation to establish desires as rights, and assume my own faults with the same legitimacy that I take credit for my virtues.

But Jordan B. Peterson, explains it a lot better:

"How could the world be freed from the terrible dilemma of conflict, on the one hand, and psychological and social dissolution, on the other? The answer was this: through the elevation and development of the individual, and through the willingness of everyone to shoulder the burden of Being and to take the heroic path. We must each adopt as much responsibility as possible for individual life, society and the world. We must each tell the truth and repair what is in disrepair and break down and recreate what is old and outdated. It is in this manner that we can and must reduce the suffering that poisons the world. It's asking a lot. It's asking for everything. But the alternative - the horror of authoritarian belief, the chaos of the collapsed state, the tragic catastrophe of the unbridled natural world, the existential angst and weakness of the purposeless individual - is clearly worse."

Taken from "12 Rules For Life - An Antidote to Chaos"

That's it.

Elon Musk entre a fraude e a comédia.

Elon Musk é um comediante. E isso está muito bem. O problema é quando as pessoas levam os comediantes a sério. E isso é que já não está nada bem.

Sou um incondicional da exploração espacial e desejo ardentemente o relançamento da aventura cósmica como eixo fundamental para a realização da humanidade. Não acho, sinceramente, que Marte seja o destino mais interessante. Há locais no sistema solar bem mais apelativos para a ciência como Enceladus, a sexta lua de Saturno, ou Europa, outra insignificante lua de Jupiter, que encerram, debaixo de finas camadas de gelo, oceanos de água tépida.

Mas por mim, tudo bem. Se é Marte o objectivo, que se cumpra o objectivo. Na minha maneira de ver as coisas, vale sempre a pena deixar a atmosfera da terra nem que seja para visitar uma rocha estéril à deriva no espaço. Nesta matéria, o que conta mais é a glória da aventura.

O projecto de Musk, porém, mexe-me imenso com os nervos da irritação. E mexe assim comigo, é assim irritante, porque é muito feio mentir desta maneira. Iludir as pessoas desta maneira. Falsificar a realidade desta maneira.

A SpaceX nunca explicou como é que vai reduzir os custos da aventura cinco milhões de vezes, como afirma que é necessário para que o projecto seja viável. Nunca explicou como tenciona proteger os astronautas da radiação com que vão ser atingidos durante as viagens. Nunca explicou como é que vai criar energia e inventar as estruturas para proteger os colonos das temperaturas extremas do planeta e para criar ambientes pressurizados e ricos em oxigénio onde eles possam viver. Nunca explicou como é que vai alimentar esta gente toda. Como é que vai ter água para dar de beber a esta gente toda. Nunca explicou como é que esta gente toda vai procriar ou sequer sobreviver num ambiente super hostil e com pressões gravíticas radicalmente diferentes das que existem na Terra (ninguém sabe ao certo como se desenrolará um parto num planeta que exerce um terço da pressão gravítica da Terra). Nunca explicou como é que vai conseguir lançar mais de mil missões em cerca de 60 anos. Nunca explicou onde é que vai arranjar o diabo do dinheiro para tudo isto, sendo que esta será, de longe, a mais cara iniciativa da história da humanidade e sendo que nem sequer se percebe quais as riquezas que o planeta oferece para justificar o investimento.

O único trunfo que a SpaceX tem na sua cómico-trágica manga é o facto de ter um foguetão que é capaz de sair da atmosfera e entrar outra vez na atmosfera para voltar a sair dela e regressar outra vez e assim sucessivamente até que entretanto alguma coisa corra mal. O foguetão reutilizável é uma boa ideia. Mas, gentil leitor, não resolve grande coisa se o teu sonho for passar um fim de semana nas montanhas rochosas do Planeta Vermelho. E não resolve mesmo nada se a tua ambição for a que Musk diz ser a dele: a colonização massiva de Marte no espaço de um século.

Na verdade, o projecto Marte de Elon Musk não tem qualquer sustentabilidade técnica, contabilística ou científica. É uma mera manobra publicitária, como a a maior parte das iniciativas empresariais do milionário canadiano. É um belo PowerPoint. Mas é apenas isso.

A prova derradeira da fraude de que falo é esta mais que amadora, mais que hesitante, mais que incompleta, mais que vaga, mais que não científica apresentação do projecto, por parte de quem o dirige: Paul Wooster, o engenheiro que chefia o projecto.



Que tristeza, senhores.

Elon Musk não passa de um charlatão. Mas, como é um charlatão a que as pessoas parecem achar alguma piada (mais vale cair em graça do que ser engraçado), está de facto a enganar meio mundo. Ainda por cima, com a mais quimérica das promessas: a da conquista espacial.

Eu cá acho que não devemos brincar com sonhos assim. Mas isto sou eu que não tenho sentido de humor nenhum nem vejo qual é a piada que tem este comediante.

Fontes:
Business Insider
New York Post
Inc.com
The Guardian
The Conversation

quarta-feira, setembro 05, 2018

Um terraço no paraíso.




Acampei uns dias da semana passada em casa de um grande amigo, que trabalhou 30 anos para concretizar um sonho. Não herdou, não chulou, não pediu, não desistiu. Persistiu. E depois de um árduo percurso profissional, arregaçou as mangas e fez de uma habitação quase devoluta uma casa encantadora, com um pequeno e maravilhoso terraço que oferece uma vista magnífica sobre a enseada de Odeceixe.
O meu querido amigo é a prova provada que o mérito e a persistência compensam. E que é sempre possível concretizar - e até às vezes superar - os sonhos com que entretemos a esperança. Se estivermos dispostos a trabalhar no duro, bem entendido.

segunda-feira, setembro 03, 2018

O regresso do Ladrão do Ananás.

The Pineapple Thief. Uma banda de encher os tímpanos que está de regresso com "Dissolution". Fico feliz logo à primeira audição. Estes rapazes nunca desiludem. É bom som que nunca mais acaba.



The Pineapple Thief . Far Below

Da solidão.

Se considerarmos a expansão acelerada do Universo, os seus 46 mil milhões de anos-luz de raio e que todas as regiões do espaço contêm em média o mesmo número de galáxias, verificamos que 97% das galáxias já estão fora do alcance de viagens à velocidade da luz.

O Universo desaparece assim, do que é observável e do que é alcançável, à velocidade incrível de 20.000 estrelas por segundo.

Se a raça humana tivesse surgido uns milhares de milhões de anos mais tarde, não existiriam astrónomos. Contemplaríamos um céu nocturno negro como a morte. Muito provavelmente, nunca chegaríamos a ter consciência do cosmos.

A sós, sem o apelo dos astros, sem o mistério da infinitude, sem a verdadeira consciência das escalas, que árvore de conhecimento, que edifício moral, que aparelho filosófico triunfaria?

Dou graças a Deus por ter nascido no momento certo da história da Constante Cosmológica.

Fonte: HypeScience


sexta-feira, agosto 24, 2018

O mito da minoria radical no mundo islâmico.

Ben Shapiro faz as contas: há no mundo mais muçulmanos radicais do que muçulmanos tolerantes. São cerca de 700 milhões. E muitos deles vivem tranquilamente nos países ocidentais.



É o que é: um pesadelo.

quinta-feira, agosto 23, 2018

O universo que não devia ser.

No princípio das coisas (leia-se Big Bang) matéria e anti-matéria deviam estar presentes na mesma quantidade no pontinho sub-quântico onde tudo estava enfiado. O problema é que, nesse caso, o Big Bang não criaria qualquer universo, porque a matéria e a anti-matéria deviam anular-se num absoluto nada. Esta foi a conclusão a que chegaram cientistas do CERN, muito recentemente.
Pelos vistos, aconteceu que nesse momento iniciático existia mais matéria do que anti-matéria e foi por causa disso que o universo, como o conhecemos hoje, se tornou possível. Ora, não existe nenhuma razão, há luz das leis da física, para que tal assimetria entre matéria e antimatéria acontecesse.
O cosmos como uma anomalia. É esta a realidade que nos oferece a ciência.
Não é lá muito consolador, pois não?


Anti-Festivais #12

Ou o enunciado de uma lei da pop contemporânea: quanto melhor a banda, pior o clip.



Fairchild . Breathless

Jordan Peterson e os dogmas da física e da metafísica.

A propósito da tendência dogmática e da militância ateísta típica dos físicos contemporâneos, de que falo no post anterior, eis oito minutos de dialéctica jordaniana, que reforçam o meu ponto de vista.



Na medida em que os dogmas científicos são relativamente simétricos aos dogmas religiosos, o que podemos fazer é tentar a edificação de plataformas não dogmáticas para a ciência e para a religião. Eis um caminho sensato, porque é moralmente aceitável, e válido, porque os resultados podem ser avaliados e mensurados. Pela História.

Os últimos dias da Física. Ou talvez não.

As linhas que se seguem vão parecer-te, gentil leitor, um produto pessimista e cínico, escrito por um gajo bastante cínico e pessimista. Estás perdoado. Mas a verdade é que aqui se relata apenas o que um tipo que é leigo em ciências, embora um leigo curioso e atento, vai recolhendo em leituras e pesquisas várias sobre o estado em que o conhecimento do cosmos se encontra. E esse estado é miserável. Mas atenção a um facto surpreendente: vais acabar por encontrar mais pessimismo, vais acabar por encontrar mais cinismo em certos cientistas e em certos filósofos de que falo, do que neste teu humilde escriba.

É claro que, acreditando na análise de Jim Holt, o infame filósofo americano autor de "Why Does the World Exist?", este texto não vale a fonte de letra em que está escrito porque não há nenhuma razão especial, nenhum significado transcendente, nenhum paradigma científico que possa explicar a existência das coisas. As coisas existem e é tudo. O universo nem sequer é uma realidade elegante: é constituído sobretudo por vácuo e sempre que a rara matéria se manifesta, manifesta-se em desordem, em caos, em enigma, em charada, em fealdade, em sofrimento. Cientistas, filósofos e outros perguntadores podem arrumar as botas: a realidade é um fenómeno aleatório, banal, indecifrável e desinteressante, e tudo o que o ser humano pode fazer é resignar-se.

Eu percebo perfeitamente esta espécie de rendição de Jim Holt, mas não concordo com ela. Até porque, muito sinceramente, mesmo que a realidade seja indecifrável para um ser humano, num determinado contexto epistemológico, não quer dizer que a cifra seja inexistente ou epistemologicamente impossível. E mesmo que o cosmos seja um produto desinteressante para Jim Holt, não quer dizer que seja desinteressante para mim.

Uma outra  concepção cosmogónica muito popular, acoplada à força à Teoria das Cordas, de que já falei aqui no blog, é a do Multiverso. Físicos como Lawrence Krauss propõem a existência de uma plataforma primordial, niilista, não consumidora de energia, que concebe universos aleatórios sem dificuldade nenhuma e em quantidade infindável. O nosso universo é apenas mais um de um conjunto infinito de universos com propriedades diferentes e leis distintas. Num sistema assim, qualquer universo que queiras imaginar, paciente leitor, não é só possível: é provável. Isto é de tal forma disparatado, é de tal forma impossível de ser comprovado com as ferramentas que temos ao nosso dispor, que não contribui em nada para o entendimento do cosmos. Nem para o entendimento do Homem.


Teorias como a de Holt e a de Krauss proliferam hoje em dia por boas razões: uma teoria unificadora das realidades celestes e quânticas mostra-se cada vez mais complicada de conseguir, muito por causa de todos os conceitos incompatíveis que tem necessariamente de compatibilizar.


O exemplo mais eloquente desta espécie de falência técnica é a Teoria das Cordas, aquela que está mais perto de se poder considerar uma Teoria de Tudo no panorama da física contemporânea.

A teoria sustenta que os gravitões assim como os electrões, os fotões e a maior parte das partículas sub-atómicas, não são partículas pontuais, mas filamentos de energia imperceptivelmente minúsculos, ou "cordas", que vibram de maneiras diferentes e que é em função dessa vibração que acontecem as trocas de energia no universo, tanto ao nível quântico como newtoniano. O interesse pela teoria das cordas aumentou em meados da década de 1980, quando os físicos perceberam que ela dava descrições matematicamente consistentes da gravidade quântica. Mas as cinco versões conhecidas da teoria das cordas eram todas perturbadas por inconsistências de cálculo. Os teóricos poderiam calcular o que acontece quando duas cordas gravitacionais colidem a altas velocidades, mas não quando há uma confluência de gravitões suficientemente extremos para formar um buraco negro. Em 1995, o físico Edward Witten encontrou várias indicações de que estas teorias se encaixavam numa teoria coerente não perturbada, que ele apelidou de Teoria M. A teoria M é na verdade uma batota: parece-se com cada uma das teorias das cordas em diferentes contextos físicos, mas não tem limites sobre o seu regime de validade, um requisito importante - e lógico - para uma teoria unificadora minimamente credível. Na verdade, a Teoria M deixou mais perguntas que respostas, até porque o que realmente acontece é que não temos maneira de a validar, no sentido científico do termo, já que as escalas que estabelece, tanto no espectro sub-atómico como no espectro cósmico são inalcançáveis através dos recursos tecnológicos da observação humana. A Teoria M não poderia ser provada nem que tivéssemos ao nosso dispor colidores de partículas cem mil vezes mais potentes do que o LHC, que é o maior e mais poderoso actualmente em operação.

A própria existência de buracos negros, fundamental para a física Einsteiniana e - por consequência - para validar o pensamento de Stephen Hawking bem como de 90% dos físicos em actividade, é constantemente colocada em causa e basta ler este artigo aqui ou este aqui para perceber que poucas certezas temos sobre este assunto. Sempre que leres num jornal, caro leitor, que um buraco negro foi observado, é porque a notícia foi escrita por alguém que não sabe o que é um buraco negro:

Frequently one sees science press headlines describing observations of black holes: the discovery of a black hole at the galactic center or the discovery of a pair of orbiting super massive black holes in merging galaxies or the aLIGO detection of gravitational waves created in the spin-down merger of a pair of binary black holes. These days, there are so many astrophysical observations on Earth and in space that are attributed to black holes that questioning their existence seems rather absurd.
However, it is important to point out that a black hole's event horizon, the region where time comes to a complete halt, has never been observed. Further, Hawking radiation, the predicted emission of thermal photons arising from quantum effects at the event horizon, has never been detected. The fact is that the term "black hole" is commonly used to indicate any collapsed stellar object that is more massive than a neutron star. Most of the "black hole" observations that we hear about come from emissions from the accretion discs of such massive compact objects, which may or may not actually be black holes.


John G. Crammer . Do Black Holes Really Exist?


O problema epistemológico que se levanta, em consequência destas dificuldades em conseguir uma teoria unificadora, relaciona-se directamente com os limites da evidência científica.


Chegados a este ponto de incerteza, os cientistas, principalmente os físicos, entraram em puro desespero de causa. No século XX, os astrofísicos adoravam esta tirada:"Um físico precisa de um filósofo como um pássaro precisa de um ornitólogo". No Século XXI já não parecem assim tão arrogantes: ainda recentemente, num célebre encontro em Munique, convidaram filósofos mais ou menos complacentes com a causa da sua ingorância para responderem a esta questão: o facto de uma teoria científica não poder ser provada pela ciência retira-lhe validade? A esta pergunta de natureza eminentemente religiosa, alguns filósofos responderam pressurosamente que sim, que é possível sim senhor. E nem é preciso de dizer mais nada sobre este triste evento de Munique.

Eu acho sinceramente que esta abordagem apocalíptica e desesperançada não faz sentido nenhum. Em primeiro lugar porque se é óbvio que as ciências relativas ao estudo do cosmos estão mergulhadas numa crise existencial sem precedentes, existem outras disciplinas que estão muito bem de saúde: há avanços grandes nos ramos da biologia que integram a realidade sub-atómica, as neuro ciências estão pujantes e registam-se passos de gigante nas áreas da computação quântica, só para dar três exemplos. 

Arrisco até afirmar que o beco sem saída aparente em que se enfiou a astro-física é sobretudo o resultado de um posicionamento ideológico e militantemente ateísta dos físicos mais mediáticos e influentes. Se homens como Hawking, Degrasse Tyson e Krauss se dedicassem mais à ciência e menos à política e à religião, talvez as coisas tivessem entretanto corrido melhor. Os dogmas nunca ajudam e há pouca gente mais dogmática do que os contemporâneos catedráticos da física cósmica.

Por outro lado, parece-me também que não se está a dar o devido valor às possibilidades da matemática. A história da ciência ensina-nos que o cálculo matemático precede a observação do fenómeno sobre o qual incide. Einstein acertou nas contas antes que Hubble percebesse que as contas estavam certas, por exemplo. E a capacidade que a matemática tem para criar novas linguagens e novos utensílios de conhecimento; a manifesta aptidão que demonstra para transcender o âmbito daquilo que é conhecido e desbravar novos territórios sem necessitar de actos de fé, ou justificações filosóficas, tem que ser capitalizada. 




Um bom exemplo é o de Cohl Fuhrey, a professora de Cambridge que está a abrir novos caminhos  através da exploração dos octoniões, números que expressam realidades de oito dimensões. Estes números têm propriedades distintas da álgebra convencional, e por isso permitem uma navegação diferente pelos mistérios do cosmos. O trabalho de Fuhrey pode contribuir decisivamente para o estabelecimento de elos de compatibilidade entre conceitos que até aqui têm permanecido incompatíveis ou incomensuráveis, aproximando as axiomas quânticos dos paradigmas newtonianos e estabelecendo vias verdes para uma teoria unificadora que seja simultaneamente sensata e demonstrável.



Por outro lado, parece que nos estamos a esquecer que os limites da observação da realidade natural podem ser - e são de facto - ultrapassados com frequência. No mapa The Ends of Evidence que coloquei em cima, afirma-se graficamente que nada pode ser observado antes da célebre imagem do Ruído Cósmico de Fundo. Porém, ainda esta semana um grupo de investigadores da Universidade de Cornell, liderado por Daniel An, publicou um paper que demonstra ser possível detectar radiação cósmica de universos cronologicamente anteriores ao nosso. Esta observação conduz-nos bem para lá do campo de observação possível assinalado no mapa.

A história da ciência humana é uma longa rábula de erros e equívocos. De trabalhos forçados e esforçados. De pequenas e grandes misérias, de falhanços e de recuos. Mas é também um percurso glorioso no sentido do desconhecido que atribui uma certa nobreza, um certo encanto, ao animal sapiens. Não podemos simplesmente desisitir. Não podemos simplesmente substituir a física pela filosofia da física. Não podemos reduzir esta odisseia no sentido do absoluto a um caminho de cabras, marcado apenas por valores relativos.

A ciência humana é muito responsável, no Ocidente, pelo assassinato do Deus judaico-cristão em nome da verdade dos factos. Não pode agora abdicar dessa missão. Até porque sem a ciência nada resta ao homem. E é tarde demais para rescuscitar Jeová.

terça-feira, agosto 21, 2018

Há gelo na Lua.


Explorando a Lua é, provavelmente, o livro de banda desenhada mais marcante da minha vida. A certa altura, Tintim escorrega por uma fenda rochosa da superfície lunar, só para descobrir que há gelo no satélite.

Ontem, um grupo de cientistas liderado por Shuai Li publicou um paper num dos sites da Academia Norte Americana de Ciências que demonstra a existência de gelo nos 2 polos da Lua, em locais que estão permanentemente escondidos dos raios solares.

Hergé tinha razão. Só é pena que não exista mais gente com visão neste triste século XXI e que a lua esteja às moscas desde o princípio dos anos 70.


Um discurso para Setúbal - Anúncios de imprensa #01

De vez em quando cai aqui no blog algum trabalho que vou fazendo, quando me parece mais divertido. Este é um caso. Convenhamos: não é todos os dias que encontramos clientes que permitam linhas de copy como as desta campanha.




domingo, agosto 19, 2018

Anti-Festivais #11

Ainda com os histriónicos Nothing But Thieves: uma versão acústica de Itch, electrificada pela voz de Conor Mason. A banda sonora para um Agosto infinito.



Nothing But Thieves . Itch . VM Sessions

Raça dos nomes.

Quando era adolescente já existiam maricas. Chamávamos-lhes maricas. Só depois de os maricas se tornarem paneleiros, com manifestações na avenida da Liberdade, é que lhes começámos a chamar paneleiros. As fufas eram fufas ou eram lésbicas e assim foi durante décadas. Os travestis, foram travestis durante imenso tempo. Não interessava realmente ao bem comum, à razão substantiva e à proficiência da gramática se o travesti tinha pila ou não tinha pila (ninguém tem nada a ver com isso, na verdade). Era um tipo que, no mínimo, já tinha tido uma pila e que gostava de se vestir de mulher. E até existiam umas ruas em Lisboa onde homens vestidos de mulheres entravam dentro de carros de homens vestidos de homens e isso também parecia mais ou menos normal porque nessa era paleolítica já sabíamos que há gente para tudo, até para o carnaval de Torres Vedras.

Nesses distantes anos do Século XX, chamávamos velhos aos velhos e bêbados aos bêbados e drogados aos drogados e atrasados mentais aos atrasados mentais e paralíticos aos paralíticos e isso tornava a vida mais fácil para os que eram idosos, alcóolicos, tetraplégicos ou retardados e para os que não tinham esses problemas. Os que não tinham esses problemas, bem entendido, tinham outros, porque a espécie humana é mesmo assim: problemática.

De qualquer forma, esta maneira explícita de chamar os bois pelos seus naturais substantivos próprios reduzia bastante a latitude necessária à geração de falsas expectativas: um atrasado mental sabia à partida que não ia ser engenheiro aeronáutico, um bêbado aprendia a conviver bem com a improbabilidade de uma carreira como neurocirurgião e um paralítico não sonhava com uma posição activa no regimento dos bombeiros voluntários lá da terra. Além disso, quando os drogados eram apenas drogados, não dependiam de ninguém. Conseguiam drogar-se com total independência. Quando passaram a tóxico-dependentes começámos a perceber que estavam reféns de montes de pessoas e de instituições de quem deveras necessitavam para se drogarem convenientemente, o que não faz sentido nenhum: se uma pessoa até ali tinha conseguido drogar-se sem chatear ninguém, para quê complicar?

Creio que hoje temos imensos atrasados mentais em lugares de poder na sociedade portuguesa precisamente porque deixámos de os tratar por atrasados mentais. Começámos a utilizar linguagem técnica e indecifrável até para as pessoas sãs, quanto mais para os doentes do cérebro. Se chamamos a um atrasado mental “pessoa com dificuldades cognitivas associadas a patologias regressivas de ordem psicossomática”, como é que o atrasado mental consegue perceber quem é? Pode até acontecer que, dada a extensa, sonora e pomposa nomenclatura, se julgue amado pelos deuses ao ponto de poder vir a ser um advogado de sucesso, um deputado eloquente ou um carismático primeiro-ministro.

A questão da raça também estava mais ou menos definida. Se um gajo era preto, correspondíamos apropriadamente com o substantivo adequado: este gajo é preto. Se era branco, a mesma coisa. Se estava entre o branco e o preto, para não lhe chamarmos cinzento, chamavamos-lhe mulato, que é uma bela palavra parida pela Língua Portuguesa. Já a malta do Índico era monhé ou patrícia e ninguém ficava com problemas de estômago por causa disso. É certo que as coisas começaram a ficar complicadas quando, algures nos anos 80, caiu em moda dizer que os pretos eram “de cor”.
Esta denominação tinha um problema sério: quando dizemos que alguém é de cor, ou essa pessoa está presente, manifestando a sua evidência cromática, ou é necessário estabelecer previamente o contexto sócio-linguístico. Caso contrário, a pergunta de volta será inevitavelmente esta: mas essa pessoa de cor, de que cor é? E isto, gentil leitora, paciente leitor, é redundante o suficiente para corromper o bom fluxo do complexo processo da comunicação humana.

Estranhamente, não aconteceu o mesmo com os brancos. Não começámos a falar de pessoas brancas como se fossem pessoas de nenhuma cor, ou ausentes de cor, ou descoloridas. Os brancos continuaram a ser brancos. Ainda hoje são brancos, embora agora sejam brancos supremacistas, brancos colonialistas, brancos opressores, brancos patriarcais ou brancos sexistas. E parece que já não há mulheres brancas, muito simplesmente porque as mulheres não podem ser sexistas, nem opressoras e muito menos patriarcais. São, sim, vítimas do homem branco e, como vítimas, não podem ser brancas. Na mesma ordem de razão, começam também a rarear os homens negros, porque os homens negros são vítimas do homem branco e, como vítimas, não podem ser homens.

Nessa era da minha puberdade, o sexo não tinha consciência de classe e a raça não tinha preocupações de género. E esta ingenuidade taxonómica funcionava razoavelmente bem. As mulheres percebiam perfeitamente que eram mulheres, os homens que eram homens e os outros que eram diferentes. As crianças não tinham os confusos problemas fenomenológicos dos nossos tempos: chamavam mãe à mãe e pai ao pai e não esperavam ter dois pais ou duas mães ou dois pais e uma mãe ou uma mãe e dois pais ou o diabo que os carregue.

O problema contemporâneo de podermos ter 65 substantivos para distribuir fundamentalmente entre dois sexos biológicos, ou de termos 155 termos técnicos para qualificar alguém que é pura e simplesmente atrasado mental, não é tanto político como é existencial. Porque se dividimos as pessoas numa miríade de categorias, o que acontece é que acabamos por não identificar ninguém. Um tipo que é branco, drogado e burro, já não é branco, drogado e burro: é um cidadão alegadamente do sexo masculino, caucasiano, heterossexual ortodoxo, opressor de povos e tóxico-dependente com dificuldades cognitivas de largo espectro. A rapariga que é preta, paralítica e inteligente já não é preta, paralítica e inteligente: é uma cidadã de origem africana, vítima ancestral do colonialismo do homem branco, que apresenta desafios motores e traumas psíquicos decorrentes da exposição dos seus ascendentes ao esclavagismo, traumas esses que lhe garantem capacidades intelectuais acima da média e altos índices de inteligência emocional.

Convenhamos: esta nomenclatura não é nada efectiva nem é nada ética. Tem um problema funcional, porque a hiper-categorização conduz à igualização, roubando o individual ao indivíduo, a diversidade ao diverso e a humanidade ao humano. Tem um problema ético, porque toda a ética é uma estética e imaginem, por exemplo, a dificuldade que terá o poeta da segunda metade do século XXI quando quiser escrever uns cândidos versos de amor dedicados a um ser cuja identidade sexual é de "Terceiro Género". Ou de género "Não Binário".

O esforço concertado no sentido de igualizar géneros e raças e religiões e civilizações e histórias e filosofias e classes sociais, arrasando tudo ao zero absoluto, é, para além de irritante, completamente inútil: não é por inventarmos géneros até ao infinito que as crianças vão deixar de nascer como sempre nasceram: umas com pilinha, outras com pi-pi. Não é por forçar a homogenia que as pessoas vão ser mais ou menos pálidas, mais ou menos coloridas, mais ou menos vis, mais ou menos virtuosas.

Que raça de mania.

Jornal de Letras - De Amore, de Armando Silva Carvalho



“O amor é o dia.”

Armando Silva Carvalho, o decano da poesia portuguesa, tem um épico e consagrado trajecto lírico. Não é por acaso. O homem escreve como um grego. E sente como um romano.

Em “De Amore” (Assírio & Alvim, 2015), a sua poesia quase prosa sem deixar de ser suprema, vem repleta de ressonâncias clássicas, é quase aforística sem querer, é poderosa especialmente nos substantivos, que ganham um peso monumental. Mesmo quando a balança se desequilibra com os chumbos da vida:

“Que peso tem agora a dor nessa balança 
cujo fiel nem tu consegues
acertar?”


O decaimento clássico conduz a um inevitável, mas delicioso kitsch, que soa ao século um antes de Cristo. Como Horácio, Armando Silva Carvalho cativa bem mais pela sábia exuberância do que pela economia. O autor não tem medo das palavras. E da sua representação na percepção média do leitor.

“Este amor está preso aos pés da terra,
o seu cale é de ferro,
cresce na minha boca, estremece e resiste
nas frágeis construções
da nossa antiga, privada, fiel
arquitectura.”


E é do amor, afinal, que se trata. O amor adolescente, masturbativo, desorientado, assustador; o amor maduro, da mulher amada – e da mulher perdida; o amor melancólico, fúnebre, elegíaco. O amor marítimo, português e saudoso; o amor dos outros e pelos outros, porque “ninguém ama sozinho”. O amor individual, intestino, de ser e estar vivo; o amor das palavras e do drama que encerram; e, por fim, o amor primeiro, cosmogónico, que é, claramente, um exercício gravítico entre corpos, porque “matéria atrai matéria”.

Wook.pt - De AmoreNaquele que é, talvez, o mais belo momento de todo o livro, o poema “Fósseis do Amor da Escrita”, vinga essa eroticidade fatalista e carnal que é telúrica e rochosa, numa espécie de desenho sexual do cabo das tormentas:

“Pensemos na melhor explicação do mundo
do prazer.
O sabedor erótico
serpenteia as imagens nessa senda densa
de efusões de guerra enlanguescida
 
e de nervosas redes
na memória.

E vê-las passar no poema, 
nos estratos das rochas junto ao Cabo,
nessa carta de pedra, que o tempo escreve ao mar
com a mão do vento, extensa, milenária.

(…)

Sentindo o fornicar, mentalizando
o ardor,
ó palavras do ócio a laborar no vácuo,
acabai por ora
a tímida vertigem da invocação,
arrefecei as pedras no rigor do nada, tolhidas,
colhidas, recolhidas em sólido
sangue, vivo.”


A literatura relaciona-se assim com a geofísica do amor, e de uma forma tão poderosa que conseguimos, dir-se-ia, sentir o vento das palavras.

E a propósito de ventanias descobrimos, entretanto, um curioso retrato lírico de Saramago e Penélope, aves míticas propulsionadas a jacto pelos céus do mundo, encontrando abrigo seguro e descanso breve no improvável cenário vulcânico de Lanzarote e fechando, juntos, uma história de amor que será, por si só, literária.

Mas, à narrativa passional, é implícita a inevitabilidade da morte. Metade deste livro, as “42 Canções Entre 2 Portas”, é um exercício de luto pela irmã do autor, Genoveva. O propósito elegíaco é de tal forma pungente e inspirado, que transcende a dor exclusiva do poeta, para agregar firmemente o sofrimento de quem fica vivo, perante a saída de cena de alguém que se ama.

“Eu sou a grande viúva
que o tempo acomodou aos dias
do desejo.
Levo o amado,
e o amado é o mundo.”


Armando Silva Carvalho lança-nos para dentro do seu universo com corajosa e sincera volúpia, mas também nos eleva para um cosmos de sensações que conhecemos e de versos que nos são familiares sem que alguma vez os tivéssemos lido. Há, para o leitor de “De Amore“, a gratificante promessa de um território imaterial que é intimamente partilhado com o poeta.

Soturno e melancólico, grave e operático, “De Amore” é um daqueles livros que não têm idade e que, por isso, podem durar para sempre. Afinal, a morte não tem leis iguais para toda a gente. A não ser quando se está vivo. No último poema das “42 Canções”, Armando Silva Carvalho confessa: “Sou um europeu de luto”.

Não somos todos?

quinta-feira, agosto 16, 2018

Jordan Peterson no seu melhor.

Geralmente, os vídeos do Peterson que coloco aqui no blog são tão grandes e densos que ninguém os vê, por certo. Mas aqui temos um vídeo que dura 8 minutinhos apenas e mostra o homem no que ele faz melhor: acender a luz sobre as evidências. Bum:


Anti-Festivais #10

Ainda no espírito de tributo aos Gang of Youths, eis uma versão electrizante de um tema deles, interpretada por outra banda que tem energia e talento que nunca mais acaba.



Nothing But Thieves cover Gang of Youths "What Can I Do If The Fire Goes Out?"

Para que o panorama não seja completamente tenebroso,

é preciso dizer que nem todas as faculdades americanas estão condenadas ao fascismo sobre a opinião. A de Chicago, por exemplo, acabou com as limitações à liberdade de expressão elegendo um magnífico documento, o "Report of the Committee on Freedom of Expression", como parecer fundamental sobre a matéria. A certa altura o Report explode de eloquência:

"Of course, the ideas of different members of the University community will often and quite naturally conflict. But it is not the proper role of the University to attempt to shield individuals from ideas and opinions they find unwelcome, disagreeable, or even deeply  offensive.
Although the University greatly values civility, and although all members of the University community share in the responsibility for maintaining a climate of mutual respect, concerns about civility and mutual respect can never be used as a justification for closing off discussion of ideas, how ever offensive or disagreeable those ideas may be to some members of our community."


Cerca de 30 universidades americanas subscreveram entretanto a filosofia que está subjacente a este texto.
Boas notícias, portanto.

Lindsay Shepperd e o escândalo Wilfred Laurier.

Outro dos episódios escandalosos - e perigosos - que é eloquente sobre o actual estado das universidades norte-americanas em particular e ocidentais em geral, foi o que aconteceu na universidade canadiana Wilfred Laurier.
Lidsay Shepperd, uma jovem professora assistente, cometeu o erro imperdoável de passar, numa das suas aulas, um vídeo de Jordan Peterson (gravado a partir de uma emissão da televisão pública canadiana), onde o filósofo-psicólogo-herói-deste-blog fazia a crítica da Comissão para os Direitos Humanos de Ontário (uma espécie de autoridade fascistóide para a equalização de género, raça e classe social). De pronto, foi chamada à direcção para ser admoestada, avisada sobre as limitações à liberdade de expressão e ameaçada com penalizações de vária ordem, na medida em que Jordan Peterson simplesmente não devia ser ouvido por alunos desta faculdade. A sua voz devia ser censurada. Acontece que Lindsay - conhecedora do sistema hostil à liberdade de expressão que vigora nesta instituição - gravou toda a reunião e divulgou essa gravação. A grtavação acabou por ser publicada na imprensa, tornou-se viral e o escândalo caiu na rua: Como sempre nestes casos, Lindsay foi agredida e encostada à extrema direita e vilipendiada e ameaçada. O caso está neste momento a correr nos tribunais canadianos (a rapariga processou as 3 pessoas que convocaram a reunião de admoestação e ameaça - dois professores e uma funcionária da administração), mas a universidade já concedeu que a tal reunião nem sequer devia ter acontecido. Isto embora esse texto de concessão, assinado pela presidente da universidade, alerte para os perigos de passar a mensagem de Peterson sem o devido contexto. Leia-se: sem advertir os alunos de que Peterson é uma espécie de nazi dos tempos modernos. Ora, Jordan Peterson é tudo menos um agente de qualquer mensagem totalitária, muito pelo contrário. Peterson está à procura de valores morais que tragam significado à vida humana, de respostas para o sofrimento. Peterson procura por Deus, procura pela verdade, procura clareza. As suas palestras são mais de auto-ajuda do que ideológicas. São brilhantes, dialécticas, contraditórias muitas vezes, complexas na sua maioria, mas nunca, nunca, nunca advogam qualquer tipo de fascismo, de racismo ou intenção totalitária. O que faz, na maior parte das vezes, é precisamente alertar para os actuais perigos do totalitarismo que grassa nas sociedades ocidentais e advêm das políticas de identidade de género e de raça que uma certa esquerda tem vindo a impor na imprensa, nas faculdades e nos centros de decisão judiciária.
Vale a pena ver este vídeo, em que Peterson conversa com dois professores da Wilfred Laurier sobre este caso, para perceber a dimensão horrífica do problema.



Ou este, mais curto e explícito sobre o caso, com Lindsay e um dos poucos professores da Laurier que ficou do lado dela (David Heskell, também presente no vídeo anterior).