quarta-feira, setembro 06, 2006

A biblioteca dos silêncios.

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Se há uma merdinha que me chateia à brava nisto de ter um blog, é a de não ter tempo - ou espírito - para escrever sobre tudo e mais alguma coisa. É uma vergonha ficar para aqui calado dias a fio com tanta cena desinteressante e desinteressada que me passa por esta cabeçorra cota, já um bocado afanada no juízo e na memória.
E se há falha grande nestes conteúdos bizarros do blogville, a primeira é de certeza esta triste: escreve-se aqui muito pouco sobre livros. Que chatice de blog onde se escreve tão pouco sobre livros. Mas, caramba, que vos hei-de dizer eu, alma ociosa e ignorante, sobre Edward Gibbon? De que vos posso falar se estiver para aqui a falar do Mediterrâneo segundo Braudel ou do Tempo segundo Proust? Como posso eu, mesmo que num momento de raro esclarecimento, explicar a glória da História Universal da Infâmia? Alguma sugestão? Que palavras podem ser usadas para comentar a verdadeira Obra ao Branco que é esta mulher a quem chamavam Marguerite Yourcenar (a única belga com um lugar na história)? Sim, expliquem-me por favor como é que é isto de esgalhar um post sobre Os Doze Césares (já tentei e desisti) ou sobre As Origens Sociais da Ditadura e da Democracia, ou até, de forma mais descontraída, sobre O Vermelho e o Negro do meu querido Stendhal, sobre o Cândido do meu amado Voltaire ou o Memorial do Convento do canalha do Saramago.
É muito complicado para mim, que escrevo sobre quase tudo aquilo em que sou iletrado, escrever sobre a minha ileteracia e não é por ter lido e sonhado com o Admirável Mundo Novo, com o regresso de Ulisses, com o delírio em tempo real de Joyce, com os relatos mercenários de Cícero ou com as rimas de Dylan Thomas que deixo de ser valentemente ignorante.
Eu lamento imenso, mas é para mim muito difícil falar-vos de Álvaro de Campos. Outrossim de Walt Whitman. É deprimente, mas não sou audaz quanto baste para despejar umas certezas sobre a literatura russa, o teatro isabelino, a grande novela anglosaxónica e o estranhíssimo comunismo místico do romance sul-americano.
Serei sempre incapaz de vos aborrecer com aquilo que possa considerar sobre o génio paneleiro de Oscar Wilde, a virtude de Somerset Maugham, o negro coração de Joseph Conrad, as aguarelas beatnick de Allen Ginsberg ou os manifestos do bravo do Almada. Não percebo sequer como é que alguém tem o desplante de fazer crítica sobre a obra de Nietzsche, de Bachelard, de Anaxágoras ou de Filo de Alexandria.
Pois é: não sou gajo para isto. O máximo que consigo é conversar. Até porque, sobre livros, podíamos muito simplesmente ficar a conversar durante a noite toda da vida. É deliciosamente mais irresponsável por causa de não haver registo e é muito mais divertido por conta dos copos.

sábado, setembro 02, 2006

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O Anacleto, mais conhecido pelo Gadelhas, é um típico produto da sobrevivência de solavanco; homem movido por acasos e azares de má fortuna, nú de ambições, sem horizontes nem perspectivas nem luzes no fim do túnel. Um amigão de infância e da Escola 6 do bom professor Carrilho, que distribuía generosamente sandes de atum pelos olheirentos famintos da 3ª classe, pelos descalços de fundilhos fanados, de olhos esbugalhados de medo de tudo e de nada, coxos de frieiras gretadas e nódoas roxas por tudo o que era orelha.
Fizemos juntos a instrução primária. Sabíamos a tabuada na ponta da língua, discutíamos, hesitantes, as horrorosas coisas da gramática e a impenetrável questão dos quebrados, mas rompemos, afinal, triunfantemente, os odiosos portões da escola, ofendidos e humilhados pelo duro percurso de uma instrução ganha frequentemente de mão estendida à pesada régua do castigo, aplicado conscenciosamente por gente crescida, educada na mesmíssima escola, dentro dos mesmos trilhos de intolerância.
Figura popular do Bairro, aceite com benevolência e pelo menos 2 taças de vinho tinto pelas esquinas atascadas do costume, Anacleto foi enrugando naturalmente, vende agora lotaria e pensos rápidos e namorisca preserverantemente uma multidão de miúdas da praça do peixe, o que lhe tem valido, amiúde, algumas contundências e equimoses de monta.
O último desaguisanço sentimental do Gadelhas, num dramático rompimento de relações muito comentado no sitio, traduziu-se numa declaração escrita, devidamente selada e remetida via CTT, à Anastácia dos Cogumelos, última mas muito sofrida paixoneta, cujo teor exibiu junto da rapaziada mais próxima e que vale por uma honrosa afirmação de intransigência. Transcrevo, em pleno acordo com o amigo Gadelhas, a dramática missiva.

"Bolinhas, juro-te pela minha rica saúde e à fé de quem sou que não vou gramar que esse emplastro do Farturas seja agora o teu ai jesus e que não vai passar copo e meio que não tenha as ventas tratadas à maneira. Não passa dum ranhoso de tola abaulada, de chinelo roto e fundilho no cú. O 1º Prémio do Tango que sacou nos Alunos de Apolo foi tanga. Mas já que não distingues um macho sério de um petinga ordinário, acabaram-se os marmelanços na escada da manhosa da tua avó e está arrumado o tarantantan do costume. O anel que desempenhei para te dar no Natal vais fazer o favor de o meteres onde muito bem sabes e que tem largueza de sobra. Olarilas!
Para já, digo-te que os óculos escuros que te dei, feito camelo, pela Páscoa, não valem um chavo e para dizer a verdade ficas um horror com essa porcaria espetada no nasal nojento. Vê mas é se engordas essas gâmbeas, penteia esse monte de sebo casposo que te cobre a estúpida cabeçorra e passa pelo Chanfrado das Dentaduras para ver se consegues matar esse bafiento hálito de gata prenha. E, já agora, agradeço que faças o favor de fugir, para que não me topes com a malta da tasca, por via das bocas.
E mais nada que não estou para estes faróis e garinas como tu, de cueca a tresandar a fénico, papo eu à dúzia, ao pequeno almoço."


Parece claro que o Gadelhas tem convicções muito fortes sobre como tratar estas delicadas questões e o tom folclórico da peça parece afirmá-lo como um cronista popular a ter em conta, logo que sair do hospital onde o visitei recentemente, acamado e maltratado, depois de uma pouco satisfatória troca de argumentos com o ordinário do Farturas.

quarta-feira, agosto 30, 2006

Avaria

Não adormeço de noite,
nem acordo para o dia.
Não sei a quantas ando,
não sei porquê ou quando:
avaria.

A vida está escangalhada,
é de caos que morro.
Que cesse o ruído tonto
para que grite de pronto:
socorro.

Rebentou finalmente
a máquina da abundância.
O café sai sem espuma
e Deus chama uma:
ambulância.

O automóvel da razão
tem cancro na bateria.
Falham mudanças e travões,
gripam os pistões:
avaria.

Perdem-se as comunicações
do mundo mecânico.
Digital, analógico e divino,
o universo entra em desatino:
pânico.

O frigorífico enregela,
o ferro de engomar desfalece.
O amplificador calou-se,
o velho cadeado soltou-se:
SOS.

A cidade toda colapsa,
em curto circuíto e agonia.
Cala-se o gerador central,
o carburador queima mal:
avaria.

Afundam-se os continentes
e não há quem acuda.
A civilização vai a cair
e não há ninguém para pedir:
ajuda.

A fé é um transistor inútil
e o chip da esperança berrou.
A estação de reciclagem
já não retempera a coragem:
acabou.

terça-feira, agosto 29, 2006

7 pérolas da Colecção do Dr. Rau.

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2 - GUIDO RENI - David Decapita Golias
1606-1607, óleo sobre tela, 174.5x133 cm.

Por razões de sensibilidade pessoal, esta pérola tem que ser muito bem explicada.
Guido Reni (1575-1642) é um daqueles pintores ecléticos e comprometidos que banalizaram o barroco e, muito sinceramente, não me diz grande coisa. Nascido e criado em Bolonha, é em Roma, a soldo dos papas, que faz o seu melhor trabalho; nomeadamente o fresco de Casino dell'Aurora, nos paços do Palácio Pallavicini-Rospigliosi, que o imortalizou e que nem me aquece nem me arrefece.
Acontece porém que esta representação do velho mito-do-aparentemente-fraco-contra-o-aparentemente-forte é uma coisa, no mínimo, impactante. Para já porque é enorme para além do que pode ser grande uma tela (e esta é-o): o gesto do pequeno David é amplo, o corpo prostrado de Golias é titânico, sem que a diferença de escala nos pareça fictícia (o punho da espada de Golias, nas mãos de David, é muito importante para a conversa).
Além disso, sucede que Guido Reni é uma espécie de antítese de Caravaggio (coisa que não lhe desculpo), fugindo muito das cenografias mais densas, trágicas e lúgubres da bíblia para se focar antes em ambientes metrosexuais, aéreos, pueris e pacíficos, fazendo recurso a uma abordagem classicista que já na sua época se tornava um pouco estafada, mas que rendia ainda sólidos florins. Ora, nesta magnífica obra, abre-se a exepção: o momento é intenso e terrífico. Está-se mesmo a ver que o grandalhão vai perder o sagrado contacto entre a goela e o esófago. A coisa não vai correr bem. Antecipa-se o sangue e vive-se o horror. Mas, acima de tudo, nota-se a ausência da dicotomia herói e vilão, triunfando a lúcida dialéctica entre o derrotado e o vencedor: Golias, indefeso, não parece assim um tipo tão desprezível que mereça este impiedoso fim e David, na sua arrogante púrpura, vai desfechar o golpe terminal sem aparente problema de consciência: está sereno e coradinho, com o joelho convenientemente assente nos rins do gigante, mas sem vestígios de um ódio de morte. Tem até, na sua pequenez de menino cínico, um certo ar profissional.
E é precisamente aqui, neste momento ausente de valores prosaicos, neste gesto suspenso entre a certeza da decapitação imediata e a inutilidade moral da vingança, que está o bichinho danado que me captou e deliciou o olhar.
Pronto, está explicado.

Um blog de bom gosto.

O fusco lusco é um blog de um amigo meu (acho que ele não fica zangado por lhe chamar amigo, já que não nos conhecemos assim há muito tempo). Por isso, é claro que a minha análise é completamente subjectiva, mas, em todo o caso, é de mera justiça editar este post para dizer que o blog é mesmo porreiro porque:

• é completamente sem pretensão nenhuma;

• não fala muito de política, nem odeia ninguém, nem está para cá com merdas (nesse aspecto - e em muitos outros - é bastante diferente deste meu blog);

• o autor é uma pessoa de gostos muito qualificados e traz sempre à baila assuntos giros, inteligentes e pertinazes, muitos deles sinais do tempo e de todo em todo merecedores da breve leitura (o homem sabe escrever curto e bem);

• o lusco-fusco é, em suma, aquilo que a blogosfera devia ser mais: um acto de partilha. E um elogio das pequenas e grandes artes contemporâneas.

Visitem que vale a pena. É aqui.

quarta-feira, agosto 23, 2006

Génios em dó maior.

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Este foi, em tempos, um blog sobre coisas porreiras como a Música. Convenhamos que já desafina o tamanho do silêncio corruptor da ideia mãe. Interrompo-o para falar de Outkast. E para falar de mim.

Coerentemente deselegante, começo por mim: não sou um gajo da "partilha de ficheiros". Compro música na Fnac e no iTunes e esta merda de achar que alguém tem que comprar música para que a indústria da música sobreviva deixa-me, só às vezes, em complicados lencóis. Por exemplo: não sei partilhar com a minha querida e escassa audiência o som que me inspira.

O som que me inspira neste preciso momento chegou-me pelo vento da MTV aqui há uns quinze dias, mas só desde ontem, vinte e dois de Agosto, é que está sorridente na bancada do bom capitalismo: Idlewild, o musical dos Outkast, está no ar e é a puta da loucura. Nem sei se o filme é de jeito e calculo que não, mas aposto na banda sonora na razão de um para dez.

Todos vós que, felizmente para todos vós, partilham e baixam música aqui e ali, baixem e partilhem esta: "Morris Brown - Featuring Morris Brown College Band". Os outros palermas como eu pagam duzentos mil-reis no iTunes (1 euro para os menores de 30 anos). Em todo o caso, compensa à brava. Juro.

segunda-feira, agosto 21, 2006

7 pérolas da Colecção do Dr. Rau.

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1 - FRA ANGELICO - S. Miguel
1424-1425, folha de ouro sobre madeira, 35.5x14 cm

Esta coisinha linda que aqui está é um dos primeiros trabalhos conhecidos de Fra Angelico (1395-1455), o beato dominicano que, entre Roma e Florença, soube encontrar o caminho difícil e peregrino do Gótico para o Renascimento. Se bem repararem, a delicada figura do Arcanjo S. Miguel parece suspender-se de leveza insustentável sobre o dragão fatalmente trespassado. A anca inclina-se, quase num trejeito feminino, para ganhar um movimento ligeiro e gracioso.
A representação é substancial para além da sua extraordinária beleza. Em 1424, a pintura de retábulos era, com a excepção do trabalho de Giotto, composta por figuras rígidas e estáticas, retratadas segundo os medievos canônes da mitologia cristã. Este arcanjo maricas, despido de armaduras e trajando um sedoso exemplar da alta costura florentina, debroado a ouro, todo ele fleuma e elegância, é já Fra Angelico a interpretar os tempos. E a pintar em conformidade.

sexta-feira, agosto 18, 2006

Mártires para consumo do Ocidente.

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No Nova Floresta descobri uma série de dados e links absolutamente arrepiantes sobre o niilismo mais grosseiro e o fanatismo mais nojento da propaganda islamita. Até Goebbels coraria de vergonha.
Só para concretizar um pouco: o infeliz representado na foto, um mártir para os editores do Independent, é realmente um actor/realizador/agente do Hezzbolah que usa cadáveres de crianças encontradas entre os escombros de locais bombardeados pelas forças israelitas para fins de guerra mediática. Se o take não sai "bem" à primeira, este incrível personagem (e há mais destes) volta a colocar a criança nos escombros para recomeçar outra vez a cena do pai destruído pela dor. É, de verdade, nauseabundo.
Para além da obrigatória visita ao excelente Nova Floresta, vale a pena, por muito que custe à sensibilidade, visitar este outro blog, onde a história é revelada integralmente.
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"Temos que saber. Vamos saber."
David Hilbert - Discurso em Königsberg - 1930

Só posso iniciar este post assim: não percebo nada de Matemática. Sou mesmo um zero grande e até o tal boi infeliz, que proverbialmente condenámos à contemplação ignorante de Versalhes, interpreta uma equação de terceiro grau ou um exercício de cálculo diferencial com mais entendimento do que este vosso criado.
Em todo o caso, o deprimente facto não me inibe o entusiasmo. A Matemática é a primeira ciência e amo-a como qualquer Pitágoras que se preze. Dito isto, adiante.


POR DEUS, UMA CIÊNCIA EXACTA TEM QUE SER EXACTA.

Para um matemático a sério, doi à brava saber que a sua disciplina é uma ciência inconsistente. Quero eu dizer: que não está fechada completamente dentro da sua encruzilhada de lógicas porque, aqui e ali, existem contradições maçadoras e paradoxos inaceitáveis. O caos teima em deixar estigmas sobre o perfeito pensamento humano.
Para um matemático a sério como David Hilbert (1862-1943) este estado corrompido das coisas incorruptíveis não podia realmente continuar. A 8 de Agosto de 1900, na intervenção de abertura do Segundo Congresso Internacional de Matemáticos de Paris, Hilbert demonstra que se resumem afinal e "apenas" a 23, os engulhos indemonstráveis, os abjectos paradoxos, as vergonhosas contracantigas que durante séculos teimaram em desafinar a precisão harmónica, estética, intelectual e científica da Sinfonia do Número.
Para este enorme génio alemão - que atravessou, com a sua centelha, todo o espectro teórico da Matemática - resolvidas fossem estas irritantes charadas e a àlgebra e a geometria, a trigonometria e a lógica, a teoria dos números e o cálculo, os campos todos enfim do saber matemático unir-se-iam em uníssono e uniforme logaritmo de exactidão selada.
Lançado o repto, escusado será dizer que a comunidade científica regressou para os gabinetes das várias academias com uma obsessão missionária, ou melhor dizendo, com 23 seculares enxaquecas. Não é exagerado dizer que a Matemática de todo o século XX está marcada pela tese de Hilbert, muito simplesmente porque o santo homem soube orientar, com ousadia e prosápia, o pensamento científico para as áreas em debate.
Com o tempo, os seus problemas foram sendo, na sua grande parte, resolvidos. Uns revelaram-se depois de importância marginal, outros conduziram o espírito humano para as eloquentes conquistas - e misérias - do século das grandes guerras. O problema (eterno) é que certas soluções tiveram apenas o mérito de Pandora: uma vez reveladas libertavam outros monstros desconhecidos, outras aberrações da lógica sistémica, outros tiques quânticos muitíssimo danosos para a consistência da grande arquitectura de deus.


AS SETE PERGUNTAS-DE-UM-MILHÃO-DE-DÓLARES.

Exactamente cem anos depois e inspirados por essa mítica noite de Paris, os senhores que mandam no respeitabílissimo Clay Mathematics Institute of Cambridge, decidiram criar o prémio Clay, que atribui muito simplesmente um milhão de dólares a quem encontrar solução consistente para um destes sete problemas:

• Conjectura de Birch e Swinnerton-Dyer
• Conjectura de Hodge
• Equações de Navier-Stokes
• P versus NP
• Conjectura de Poincaré
• Hipótese de Riemann
• Teoria de Yang-Mills

Estes são, para a matemática contemporânea, os escolhos que restam no caminho para a paz de espírito. Para sabermos aquilo que devemos saber (leia-se: tudo), há que partir estas pedras.
Dada a natureza apelativa do prémio, esperavam-se resultados e a verdade é que eles estão a chegar. Parece que já temos um campeão, embora esteja a ser um bocadinho difícil encontrá-lo. Mas para contar a história como deve ser contada, comecemos por meter as mãos na matemática propriamente dita.


A CONJECTURA DE POINCARÉ OU "DEVES ESTAR A GOZAR!"

Jules Henri Poincaré (1854 - 1912), matemático, físico e filósofo, provavelmente o último universalista da Matemática, grande mago em óptica, eletricidade, telegrafia, capilaridade, elasticidade, termodinâmica, mecânica quântica, teoria da relatividade e cosmologia, discordava do fundamentalismo de Einstein e foi o primeiro a considerar a possibilidade de caos num sistema determinista. Isto não o impediu porém de perseguir bravamente o bug da incerteza. A inconsistência de que precisava para se irritar encontrou-a nos seus estudos de análise topográfica, em 1905. Por muito estranho que pareça, Poincaré chega à lamentável conclusão que qualquer variedade tridimensional fechada e com grupo fundamental trivial é homeomorfa a uma esfera tridimensional. Hã? Agora em português plano: tudo o que não tem buracos deve ser uma esfera.
Não, não estou a gozar. A mais fina matemática do homem que caminhou nas calmas pela superfície lunar demonstra cruamente que qualquer corpo tridimensional estável e fechado - um cubo, por exemplo - não passa de uma esplêndida bola!
Como é óbvio, o próprio Poincaré foi o primeiro a tentar refutar a sua demonstração, mas debalde. O infeliz génio já tinha libertado mais um monstrinho. No caso, um monstrinho de notável longevidade. E que agora parece entregar a corrupta alma ao aborrecido criador da grande desordem cósmica...


O RASPUTIN DA GEOMETRIA DIFERENCIAL.

Para bem da sanidade mental da terráquea comunidade científica, um alienígena chamado Grigori Yakovlevich Perelman, descobriu a pólvora sagrada e podemos enfim respirar de alívio. Porque se está claro desde sempre e para toda a gente que um cubo não deve ser uma esfera, para os matemáticos só agora se fez luz: a Conjectura do mestre Poincaré sofre de equívocos.
Grigori Perelman, Gisha para os amigos que nem se sabe bem quem são, é um daqueles cromos que justificam bem a iconografia excêntrica atribuída aos sábios. Nascido em S. Petersburgo no ano de 1966, foi um estudante brilhantíssimo, somou prémios e prestígio, doutorou-se na Universidade natal e por lá ficou a cogitar, espantando de vez em quando os seus correlegionários com algumas sentenças de prodigiosa invenção, principalmente no campo da geometria diferencial. É tímido, averso a honrarias, alérgico às tentações materiais e tem a figura chapada de Rasputin, com longos cabelos, barbas intermináveis, unhas por cortar e semblante alienado. Nas horas vagas, aventura-se pelas florestas à procura de cogumelos. É basicamente um eremita muitíssimo esperto e ninguém fazia ideia do que ia naquela cabecinha divina até que, num belo dia de Novembro de 2002 edita na net o primeiro paper do seu "Esboço de uma Prova Ecléctica". A Coisa cai como uma bomba de ácido sulfúrico entre os pares. Em 2003, viaja relutantemente às capitais mundiais da matemática (Princeton, Stanford, Yale, UCLA, and so on), para dar conta do seu trabalho e distribuir os 3 volumes da tese de 1000 páginas de equações abreviadas e prosa esotérica. A sensação é a de um climax operático. As afirmações de Gisha implicam verdadeiras revoluções do pensamento matemático, não por demonstrarem o óbvio (a esfera deve ser uma esfera, o cubo deve ser um cubo), mas pela assombrosa abordagem metodológica e pelo virtuosismo técnico da demonstração em si. Alguns extasiados colegas americanos comparam a beleza absoluta das suas equações à arte de Botticelli. Só para dar ideia do fôlego desta Obra ao Branco, Bruce Kleiner, catedrático de Yale mandatado para explicar aos colegas a demonstração de Gisha, passou os últimos 3 aninhos da sua vida apenasmente envolto na tarefa. Ele e outros consagrados académicos têm vindo a confirmar, passo a passo, a validade da Prova Ecléctica.


ONDE ESTÁ O GISHA?

Candidato óbvio ao milhão de dólares do prémio Clay, contendente fortíssimo à mais prestigiada honraria que os matemáticos são capazes de oferecer a um matemático - a Fields Medal - Grigori Yakovlevich Perelman comportou-se, no apogeu académico da sua vida, de acordo com a sua reputação: chegou, demonstrou, maravilhou a audiência e desapareceu do mapa. Depois da última ronda de conferências nos Estados Unidos, regressou à Mãe Rússia, indiferente aos chorudos convites que choveram, e consta que se demitiu do Instituto Steklov de S. Petersburgo. Não responde aos emails, não se lhe conhece uma morada ou um número de telefone. É evidente que não está para ninguém. Não quer saber de prémios; prefere ir à procura de cogumelos. Não precisa de empregos; faz profissão na floresta. Ao barulho da glória prefere o silêncio do Inverno pátrio, onde ninguém lhe interrompe as intermináveis contas de cabeça.


MORAL DA HISTÓRIA

A Matemática pode não passar de uma charada engendrada por deuses cruéis. Mas, por todos os Números Reais, produz mais heróis épicos que a literatura de Homero!


Fontes:
international herald tribune
wikipedia
history.mcs
clay mathematics Institute

quarta-feira, agosto 16, 2006

Um blog necessário.

Descobri finalmente um blog em português dedicado à causa do Ocidente e à monitorização da ameaça islâmica. Se calhar há mais, mas este é tudo aquilo que deve ser. O Observatório da Jihad é lúcido, corajoso, combativo e necessário. Bravo.
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- FASCÍCULO QUATRO -

Foi modesta a venda de arte de D. Hortense Luz e pobre a comissão do convalescente Ruben Perdigoto.
Adiadas, por unanimidade, quaisquer propostas de serões do mesmo cariz no Salão Nobre da Junta, foi omitida, por pudor, a natureza dos acontecimentos que se referiram. Por entre os doces perfumes do insenso de sacristia, na quieta melancolia de seculares retábulos das vestutas coisas sagradas, o Padre Tristão tomou em suas santas mãos o rosto macerado do acólito Perdigoto paralhe dizer que são assim os ínvios e tormentosos caminhos e desígnios do Senhor. Que a arte, Segismundo d'Ávila, D. hortense Luz, o penoso sacrifício das suas partes, são, sem apelo, as impenetráveis escarpas que nos elevam a Deus. Que riscasse dos seus caminhos as ruelas e becos de fama duvidosa. Assim, se pouparia a exposições nos serviços de urgência em nada compatíveis com as piedosas determinantes da fé. Que não facilitasse, de costas, a vida ao Demónio.
Consta que a polícia local se debateu com notória dificuldade em dar corpo à participação da delicada ocorrência, na entremeada ambiguidade de termos como agnosticismo, heresia, naturezas mortas, sacos testiculares e bosta de boi, do que resultou um muito impreciso relatório final.
Segismundo d'Ávila compareceu, imperturbável, para o necessário complemento da curiosa instrução do processo. Esclareceu, condescendente, a questão da bosta e o mais subjacente ao serão de arte, vincando de forma precisa que a visão do nabo murcho, entre outras atrocidades inenarráveis, lhe afectara o siso, o rigor crítico, o sentido das coisas, bem como e marcadamente a mutilante cueca da D. Hortense, de facto uma deslumbrante afirmação de natureza viva.
Remetido ao foro psiquiátrico, não obstante a sua manifesta relutância, saíu sem o agravo de culposa acção. Consta que se passeia agora, igual a si mesmo, pelos caminhos do Buqueirão dos Anjos. Distante e senhorial, de juba cinzenta aos ventos, cigarrilha fumegante ao canto do lábio carnudo, húmido e sensual, distribui - parcimoniosamente e a pedido - o seu fino cartão de visita: "Segismundo d'Ávila, negociante de Arte Sacra".

-FIM-

domingo, agosto 06, 2006

The Charge of the Light Brigade

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-The Charge of the Light Brigade as seen from the Russian positions on the Fedioukine Hills.-


1.
Half a league, half a league,
Half a league onward,
All in the valley of Death
Rode the six hundred.
"Forward, the Light Brigade!
"Charge for the guns!" he said:
Into the valley of Death
Rode the six hundred.

2.
"Forward, the Light Brigade!"
Was there a man dismay'd?
Not tho' the soldier knew
Someone had blunder'd:
Their's not to make reply,
Their's not to reason why,
Their's but to do and die:
Into the valley of Death
Rode the six hundred.

3.
Cannon to right of them,
Cannon to left of them,
Cannon in front of them
Volley'd and thunder'd;
Storm'd at with shot and shell,
Boldly they rode and well,
Into the jaws of Death,
Into the mouth of Hell
Rode the six hundred.

4.
Flash'd all their sabres bare,
Flash'd as they turn'd in air,
Sabring the gunners there,
Charging an army, while
All the world wonder'd:
Plunged in the battery-smoke
Right thro' the line they broke;
Cossack and Russian
Reel'd from the sabre stroke
Shatter'd and sunder'd.
Then they rode back, but not
Not the six hundred.

5.
Cannon to right of them,
Cannon to left of them,
Cannon behind them
Volley'd and thunder'd;
Storm'd at with shot and shell,
While horse and hero fell,
They that had fought so well
Came thro' the jaws of Death
Back from the mouth of Hell,
All that was left of them,
Left of six hundred.

6.
When can their glory fade?
O the wild charge they made!
All the world wondered.
Honor the charge they made,
Honor the Light Brigade,
Noble six hundred.

-Alfred, Lord Tennyson-


The Battle of Balaclava
Date: 25th October 1854
Place: On the southern Crimean coast in the Ukraine.
Combatants: British, French and Turkish troops against the Imperial Russian Army.
Generals: Lieutenant General the Earl of Raglan commanded the British Army, General Saint-Arnaud commanded the French Army. Prince Menshikov commanded the Russian Army. The Russian commander of the Balaclava assault was General Liprandi, Menshikov’s second in command.

terça-feira, agosto 01, 2006

As dioptrias da justiça.

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O aparelho judicial e jurídico da Terceira República tem dois grandes inimigos: o condutor e o contribuinte. Conduzir depois de ter bebido dois copos de vinho e um Johnie Walker, isto sim, é matéria para arruinar a vida a um cidadão, que tem logo direito a cadastro criminal, prisão preventiva - e na reincidência escandalosa - chilindró garantido. Dever uns milhares de euros ao estado (sem se saber bem os milhões de euros que o estado deve aos contribuintes), esse sim é crime capital que justifica a estratégia draconiana da exposição delatora, desonrosa e reles (não, não estou na lista).
Agora, se um bando assassino de adolescentes mata à pancada o desgraçado de um maricas qualquer, o Ministério Público pede que se faça justiça recorrendo a uma cartilha, mais asneira, menos asneira, do género seguinte: "Sr. dr. juíz, queira compreender que estes tristes rapazes, vítimas de uma sociedade indigna da sua inocência, combatiam o tédio das suas singelas e imaculadas vidinhas pela aplicação periódica de uma quantas bárbaras e, enfim, terminais cacetadas no miserável canastro do triste paneleiro-sem-abrigo-nem-vergonha-que-estava-mesmo-a-pedi-las. Não tinham más intenções, para além da motivação lúdica, nem sabiam bem o que estavam a fazer com o corpo morto quando o esconderam e são até crianças devotas à causa cristã, clientes do reputado colégio de uns senhores padres que os educam para serem grandes homens nesta nação que para o futuro tem assim mais aberto o caminho. Vossa Excelência entenderá que, neste contexto, o Ministério exija somente uma reprimendazita, assim qualquer coisa que não chegue a um ano de recolhimento, se possível no fraldário da Cruz Vermelha."
Nada de acusações de homicídio voluntário ou involuntário, nada de sugestões de ocultação do cadáver, nada de saber e investigar como é que um colégio interno gerido pela igreja cria monstros destes, nada, portanto, de decente. O juíz, do alto da sua supra-poderosa ignorância, concorda e sai-se com esta pérola (sic): "Tratou-se de uma brincadeira de mau gosto e espero que as penas aplicadas sirvam de emenda." A defesa, apesar de tudo, insiste em advogar satã e protesta e ameaça e rebola-se na ignomínia dos recursos.
A justiça em Portugal transformou-se num sistema espectacularmente imoral e isto já para não estar aqui com conversas sobre a clemente e convenientemente parcimoniosa jurisprudência para com pedófilos da alta sociedade, mãezinhas que fazem simplesmente desaparecer os seus filhos debaixo da primeira cova que encontram, políticos que despacham a favor dos amigos e em desfavor da lei de república 4 dias antes de deixarem o governo, autarcas fora-da-lei que fogem para o Brasil e regressam para as eleições (nem D. Afonso VI tinha lata p'ra isto); presidentes de clubes desportivos que servem putas aos árbitros depois do jantarzinho que também fizeram o favor de pagar; proxonetas de negócio tão sujo como chorudo, que são libertados com umas pulseiras de tornozelo xpto/gps, depois descartáveis com qualquer alicate da loja dos trezentos, de forma a que possam fugir (outra vez) para o Brasil; antigos pides e confessos assassinos que regressam à pátria para morrer em paz; terroristas do verão quente que são condecorados pela Presidência da República; traficantes de heroína do Casal Ventoso a quem o Dr. João Soares ofereceu uns belos apartamentos na condição ponderada de que não traficassem mais no Casal Ventoso (os novos proprietários traficam agora na Rua Sidónio da Silva) e todos os militantes do Bloco de Esquerda. Para esta gentalha (e outra muita que seria exaustivo descrever em detalhe) a Terceira República mostra a face bonacheirona de quem se peida depois da refeição, a complacência desenterrada das comunas de 68, o humanitarismo bolorento de sacristia, a pedante, francesa e imunda tolerância.
A Justiça em Portugal é a piada mais fraquinha do anedotário dos deuses da democracia e isto já para não falar do Procurador Geral da República que temos e que vai terminar o seu infame, vergonhoso, incompetente, indigno, suspeito e malandro mandato como se nada fosse: impune e inimputável, incólume e sereno. Este imbecil dos sete costados será um dia também condecorado por uma futura e equivalententemente imbecil Presidência da República, e haverá uma rua em Lisboa com o seu nome, e será talvez retratado o seu rosto de rato estúpido para a posteridade, num boneco a cores do Júlio Pomar devidamente colocado no mais nobre dos salões nobres da Procuradoria Geral da República. Este senhor, que só fez merda, que foi conivente ou que foi cúmplice ou que foi autor moral de crimes contra o estado, contra os cidadãos e contra uma noção mínima de decência pública, é uma glória. O desgraçado do cidadão que está atrasado para uma reunião em Coimbra e que descuidadamente leva o seu carrinho pela A1 a 160 km por hora, é um bandido.
A justiça em Portugal é uma vergonha grande e isto já para não falar naquele gajo que tem porte de arma e pode andar armado pelas ruas mesmo que tenha bebido 20 bagaços. É legal. É porreiro. Uma arma de fogo é muito menos perigosa que um automóvel. E isto já para não falar do alegre Presidente de uma Câmara falida que continua a oferecer festivais disto e celebrações daquilo e eventos daqueloutro, porque deu as devidas ordens para que não se pague nada a fonecedor nenhum. É legítimo. Não é por tesura de fundos que os votos deixam de ser comprados. Aqueles que prestaram, entretanto, os serviços ao município e que tornaram possíveis os festivais e as celebrações e os eventos e que ficam anos para receber as devidas facturas e que, por isso, não têm dinheirinho para pagar o IVA e o IRS e o IRC e o IMI e a Segurança Social e a puta que os pariu, esses são os canalhas, esses são os metralhas, esses que se lixaram a trabalhar, esses que fazem mais do que apenas viver à conta de quem trabalha, esses são os marginais.
Aos crápulas, aos assassinos, aos bandidos, aos terroristas e aos traidores, devemos mostrar misericórdia, caramba. Quanto aos outros, é apertar com eles. Afinal, para que precisa Portugal de gente decente?

domingo, julho 30, 2006

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- FASCÍCULO TRÊS -

Segismundo d'Ávila movia-se, de sorriso cáustico e cigarrilha fumegante, por entre a mole que cercava os bolinhos e os biscoitos com um afã que o escrivão da Junta registaria na acta como inequívoca colagem à arte, sem precedentes na história de outros sucessos e assembleias gerais regulamentares.
Foi por esta altura, quando os bandulhos estavam já agradavelmente confortados, que Segismundo se deu de frente com D. Hortense Luz - olhos nos olhos - ela ofegante, entumecida de calores e emoções a que, seguramente, o Padre Tristão não teria acesso no confessionário; ele crispado, tomado de fulgores que lhe ruborizavam o carão. Conta-se que lhe segredou algo junto do auditivo. Segundo depoimentos credíveis de circunstantes mais próximos terá declarado sem peias que as pendurezas em exibição não valiam a bosta de um boi, uma merda para reter nos anais da arte menor e, ainda, que o nabo e as nabiças mereciam menos do que simplesmente serem plantados nos escarninhos da sua opulenta rabada.
Consta que se gerou um movimento de viva contestação e no momento em que José Fagundes, no exercício das suas elevadas funções se aproximou, temeroso, para quebrantar o burburinho, já Segismundo d'Ávila rasgava brutalmente e de um só golpe o decote da artista até à cueca relampejante de multicoloridas lantejoulas e outras enternecedoras fantasias chinesas. O espanto geral deu lugar a um silêncio aterrador. Ruben Perdigoto, titubeante, de careta franzida e cinzenta palidez arrostou a fleuma da Segismundo.
- Herege!
Segismundo d'Ávila ajustou a gravata tom de abóbora madura e encarou-o, circunspecto.
- Sou agnóstico. A presunção de heresia não me atinge. Não há deus nem nesse seu cú sem vergonha.
Hortense, ainda mal refeita do golpe, erguia as mãos numa muda súplica, enquanto Segismundo alapava todo o peso da sua mão na pálida bochecha do temente rato de sacristia que, por deplorável acréscimo, ainda oscilante, recebeu, sem outros arrebiques de palavrosa agressividade, a lustrosa biqueira de fino sapato da Charles no delicado e justo lugar do vaso testicular, caindo logo após na fria pedra do salão nobre da junta do senhor Fagundes.
Pelo que se diz, pouco restou de apendice testicular à piedosa criatura, o que, valha a verdade, sempre era coisa de menor valia.

(cont.)

domingo, julho 23, 2006

A primeira praia.

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Esta é a primeira praia marítima de Portugal, para quem desce da Galiza, ou a última, para quem sobe de Viana do Castelo. Chama-se Praia do Moledo e a imagem não lhe faz justiça porque foi tirada da marginal, que não acompanha a sua magnífica extensão nem alcança a espectacular foz do Rio Minho, onde há quilómetros de um areal imaculado, deserto, selvagem e encantador. Onde tive apenas por companhia o Forte do Cão, insular ameaça de canhões apontados para a margem espanhola; o oceano, que rebenta em branco puro sobre o verde profundo da maré; a brisa suave, que me acariciou o corpo e que me refrescou a emoção; a areia grossa, autêntica, brilhante; o cheiro marinho do meu país que assim começa.
Sempre achei que a norte do Tejo não havia condições de veraneio, mas aqui, no Moledo, localidade vizinha de Caminha (722 anos de foral!), orla mágica do Minho, princípio e fim de Portugal, encontrei uma das praias mais bonitas que já vi. Sim, aqui mesmo, ofereceram-me os deuses do olimpo lusitano um dia simplesmente perfeito.

sábado, julho 22, 2006

Sobre a moral da guerra.

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Tenho ultimamente ouvido - e lido - grandes desvarios sobre os acontecimentos do Médio Oriente. O desvario que mais tem pegado é o de que Israel está a reagir às actividades pacifistas do Hezbolah sem o devido sentido das proporções. No Expresso, a D. Clara Ferreira Alves, sabe-se lá porque raio de delírio diftérico, pôs-se a escrever umas coisas sobre o assunto (estou-lhe mesmo a ver a expressão sobranceira de quem leva a luz às massas): pelos vistos, os israelitas deveriam estar conformados com o facto de serem o alvo natural dos rockets que, com regularidade suiça e pontaria desastrada largam do sul do Líbano. O Estado de Israel deveria habituar-se às bombas que explodem - estas sim - indiscriminadamente nas suas ruas. Não é agora por uns soldadinhos terem caído na ratoeira que há desculpa para ripostar. A D. Clara Ferreira Alves confirma, do alto de seu saber perito, que é despropocionada a ofensiva militar, cujo comandante em chefe é um homem laico, eleito por processos democráticos no contexto de um estado de direito. A D. Clara Ferreira Alves não acha que é despropocionada a selvajaria primeira, perpetrada por uma corja de bandidos profissionais, bárbaros sacerdotes e assassinos de deus, uma organização que é fascista a sério, criada e alimentada pelo Irão, país simpático e cordato, que toma há décadas como refém o povo do sul do Libano (a Síria tem coutada mais a Norte). Que eu saiba, a D. Clara Ferreira Alves nunca escreveu sobre os libaneses que morreram às mãos de Arafat ou de Khomeini ou de Hafez el Assad, mas faz questão agora de se lamentar por Beirute.
É verdade e, caramba, imensamente lamentável, que estão a morrer inocentes nas ruas desta cidade mártir. Mas, pelos anjos da lógica, que dizer dos inocentes que morrem todos os dias em Israel, noutras muitas cidades sacrificadas?
Mais a mais, toda a gente de senso sabe muito bem que é precisamente atrás de estruturas civis e de vidas humanas que se esconde a Hezzbolah. Que é com crianças que faz a guerra. Que é com inocentes que encena os sacrifícios. É natural que a D. Clara Ferreira Alves ignore que não há uma forma limpa de combater a sujidade maior do terrorismo. Perdendo algum tempo na leitura das suas crónicas, percebe-se que esta senhora ignora realidades várias. O que já não é admissível é que a sua ignorância nos seja revelada assim, com ares professorais e pretensões de seriedade.

A guerra é sempre imoral. É por natureza imoral. Afirmar que a morte de civis e a destruição de infra-estruturas não militares é um acto contrário às leis morais da guerra, como o fez hoje na SIC Notícias o inevitável Sr. Dr. Nuno Rogeiro, é de uma vilania arrepiante. É que o Sr. Dr. Nuno Rogeiro, experimentado pirata, sabe muito bem que é precisamente com as baixas civis - dos dois lados da barricada - que estes terríveis islamitas fazem a guerra e manipulam a opinião ingénua e impressionável da plateia global. Mais: o Sr. Dr. Nuno Rogeiro tem plena consciência que não há registo na história universal do ódio de uma guerra que não tenha sacrificado sangue inocente. O Sr. Dr. não ignora os inocentes de Dresden, concerteza, aposto que até se lembra da forma prática como os americanos acabaram com a guerra no Pacífico e não acredito que se tenha já esquecido do divertimento preferido dos exércitos de Napoleão ou da proverbial simpatia do invasor russo. Prefere porém, o Sr. Dr., a verdade de plástico e a ética do soundbyte. Uma vergonha.

O que está em causa no médio-oriente é o choque entre dois modelos civilizacionais. Ou - se quiserem - dois paradigmas oníricos: a sociedade com que eu sonho é antípoda da sociedade com que sonha o radical islâmico. Acontece que são precisamente os radicais islâmicos aqueles que dominam hoje o mundo muçulmano. Acontece que são precisamente os radicais islâmicos que amaldiçoam e ameaçam a minha possibilidade de sonhar. Que desrespeitam a minha diferença. Que insultam a minha inteligência. Que fragilizam a minha liberdade com bombas, com misseís, com raptos, com reptos, com pragas, com interdições e com merdas e com vinganças e com o despotismo de deus. Já ninguém se lembra dos incontáveis milhões de inocentes que morreram na Europa para acabar com o despotismo de deus? Por muito menos do que isto, já tanta gente foi despachada para o inferno, senhores. Motivos bem mais ligeiros, acabaram por elevar multidões de almas ao céu, senhoras.

Israel tem motivos de sobra para fazer esta guerra. E a Europa devia entender isso porque Israel trava por nós uma batalha decisiva. São os israelitas que estão na linha da frente. São eles que primeiro explodem nos autocarros.
Podemos e devemos sofrer por cada vida que cai por terra, no horror diário da guerra. Mas temos também a responsabilidade de honrar o venerável compromisso das liberdades individuais, da democracia laica e do estado de direito. Custe o que custar.


Nota: a imagem em cima foi retirada de um site de propaganda do Hezzbolah. Para esta organização escuteira, boa publicidade é uma parada militar com crianças armadas, pisando bandeiras.

Um deus descartável.

"O Coronel Sanders cruzou os braços e fitou Hoshino nos olhos.
- Quem é Deus?
A questão obrigou Hoshino a pensar. O Coronel Sanders não lhe deu tréguas.
- Sim, qual é o aspecto Dele? O que é que ele faz?
- Não me pergunte a mim. Deus é Deus. Está em toda a parte, vê tudo o que fazemos, distingue o bem do mal.
- Mais parece um árbitro de futebol.
- Sim, não anda longe disso.
- Isso quer dizer que Deus usa calções, corre de apito na boca e sempre de olho no relógio?
- O senhor sabe bem que não é isso que quero dizer - Replicou Hoshino.
- E os deuses japoneses são da família dos deuses estrangeiros? Ou serão antes inimigos?
- Como é que eu hei-de saber?
- Escuta uma coisa que te vou dizer, meu caro Hoshino. Deus só existe na cabeça das pessoas. Aqui no Japão, o conceito de Deus sempre foi entendido de uma maneira aberta. Vê só o que aconteceu a seguir à guerra. Douglas McArthur ordenou ao divino imperador que deixasse de ser Deus, e ele obedeceu, fazendo um discurso em que se dizia um homem vulgar, igual aos outros. E foi assim que, depois de 1946, ele deixou de ser Deus. São assim os deuses japoneses - adaptam-se e ajustam-se à realidade. Aparece um militar americano qualquer pendurado num cachimbo barato, altera a ordem e pronto, muda tudo - não há Deus para ninguém. Uma atitude muito pós-moderna. Quando dá jeito que Deus esteja aqui, Ele está. Quando não dá, Ele deixa de estar. Se é isso que é ser Deus, vou ali e já venho."

HARUKI MURAKAMI
-KAFKA À BEIRA-MAR-

quinta-feira, julho 13, 2006

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- FASCÍCULO DOIS -

Foi o caso que decidiu a Junta de Freguesia, por altura dos idos de Março, acordar o sempre lamentável torpor estético dos fregueses - somente os devidamente registados no último censo - reunindo-os para desfrutarem da exposição de pintura de naturezas mortas, organizada para prover a algumas carências da prendada autora, D. Hortense Luz, viúva, notável poetisa e espírita conceituada. Anunciado generoso beberete, arrancadas à naftalina fatiotas de uso para solenidades maiores, deslocaram-se as gentes para o serão cultural.
Segismundo d'Ávila figurava na ponderada lista de convivas, sendo que se lhe solicitara, com respeito, na sua qualidade de homem das artes, uma dissertação crítica final, quanto às capacidades de D. Hortense Luz na difícil representação da natureza morta, inspiração que vestia de magnífico luto dada a recente e dolorosa partida do notabilíssimo esposo, notário reformado, homem muito religioso e contribuinte assíduo para o seminário da diocese.
Considerou Segismundo que o convite tão dignificantemente posto pela cáfila de palermas da Junta não afectaria a sua indiferença por eventos daquela pequenez e, antes, lhe proporcionaria uma oportunidade para desnudar certas complexidades e dogmas da arte menor que antevia no horror do nabo morto, esparramado no barro de hilariantes arabescos, da murcha gardénia tristemente espartilhada em qualquer jarrão de plástico de feira e de outras obscenidades que sabia inevitáveis naqueles objectos de mansa estupidez.
Não lhe era indiferente a artista D. Hortense. Com efeito, havia-a lobrigado antes, empanturrando a trágica viuvez em cremes de chantili pelos lugares do costume, lubricamente embrulhada de negro curto, decote vasto, salto alto para sugestivo suporte da acentuada rabadilha e outras magnificências que surpreendentemente o haviam perturbado, que lhe tinham movido a gélida fleuma e penetrado a férrea armadura da sua impassibilidade.
Naquele dia, as vermelhuscas bochechas de José Fagundes, benquisto Presidente da Junta, sacudiam-se de gozo na recepção janota, aprimorado de cravo rubro na lapela, sensibilizado pelo transparente entusiasmo dos seus correligionários, congregados em notável euforia junto do bufete pungente de cor e acaramelados mimos, expressamente encomendados na Primorosa do Chiado. Acotovelavam-se os grupinhos, esfarrapavam-se os finos biscoitos e os celebrados queques de manteiga, olhavam-se compenetradamente as naturezas mortas a 2 euros o metro quadrado, entre múrmurios cautelosos e pálidos sorrisos. Saracoteava-se a festejada D. Hortense, dente aberto num sorriso escancarado, oferecendo queques e chá, movimentando as contundentes nádegas enquanto anotava, conscensiosamente, alguns metros quadrados de venda apalavrada.
Sempre colado à insigne criatura, o ex-seminarista Ruben Perdigoto - que fora, em tempos, do foro íntimo do notário tão dolorosamente arrancado à vida e era agora acólito do bom padre Tristão nas missas de Domingo - sorria, servil. Devotado às coisas da sacristia, presença abençoada, dizia-se, na preparação das sagradas coisas do culto de Deus, notório homossexual, gábiru de orgias inconfessáveis que não teriam merecido o consenso da rígida directoria do seminário; do qual, pela indecente figura, fora afastado; a Ruben Perdigoto interessava-lhe mais a comissão estabelecida com D. Hortense sobre a venda da arte que elogiava, recomendava e impunha aos mais cépticos.

(cont.)

terça-feira, julho 11, 2006

A bola pode continuar redonda.

Assim como está, o futebol adormece qualquer cocainómano. Na final de ontem, o Campeão do Mundo fez uma segunda parte de anedotário: os italianos não conseguiram simplesmente jogar a bola e este triste facto é bem ilustrativo de um Mundial que foi, como já tinha sido o anterior, consistentemente lamentável. A beleza do jogo - que se fundamenta essencialmente na espectacularidade plástica dos movimentos de ataque - foi subjugada por um realismo cínico, interesseiro e cobardolas que está rapidamente a aniquilar o objecto da maior paixão de massas dos últimos 60 anos. Parece-me assim que as iluminárias da FIFA devem considerar seriamente a prossecução de uma reforma profunda nas regras do jogo, libertando-o das mordaças tácticas e devolvendo-lhe a dignidade perdida.

Eis assim, uma humilde mas indignada contribuição para o think tank do sr. Blatter:


SETE FINTAS BLOGVILLE

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Finta 1 - Composição da Equipa - Uma equipa de futebol deve apresentar-se em campo com dez jogadores. Para já, porque é a única maneira de ter mais equipas a jogar só com um trinco, o que aumentará logo a qualidade do espectáculo. Depois, por aquilo que se ganha em espaço para jogar e em tempo para pensar o jogo.

Finta 2 - Tempo de jogo - A cronometragem da partida deve obedecer ao apito do árbitro. O cronómetro pára a contagem no momento em que o juíz interrompe um lance e recomeça-a quando o juíz manda jogar. Se a bola sai, o cronómetro pára. Se é golo, o cronómetro pára. Se um jogador está lesionado, o cronómetro pára.
Com duas partes de 30 minutos de tempo real de jogo já não havia cá fitas e fingimentos e merdas que só são uma grandessíssima vergonha. E os espectador, que pagou bilhete ou sporttv, sempre terá a certeza que vai de facto ver uma hora de jogo jogado.

Finta 3 - Disciplina - A lógica disciplinar dos cartões e das expulsões é - e sempre foi - desadequada. É desadequada porque se parte do princípio que o espectáculo sobrevive à expulsão dos seus artistas. É desadequada porque não pode ter em atenção o calor da disputa, o erro humano, a emoção e a carga de nervos. A frustração e o desespero. É desadequada porque é humilhante. Não me interessa nada que o trauliteiro italiano leve uma cabeçada (deve ter sido bem merecida), mas desagrada-me bastante a expulsão de Zidane, no último jogo da sua magnífica carreira de futebolista.
De qualquer forma, a redução proposta no item 1 implica também uma revisão nas leis disciplinares, de forma a não corrermos o risco de ter jogos a serem disputados por cinco ou seis gatos pingados para cada lado.
A solução encontrada no hóquei em gelo é porventura mais adequada, se for introduzida com os necessários ajustamentos: uma falta violenta ou três faltas consecutivas conduzem o jogador à "box" onde permanecerá cinco minutos, após os quais pode voltar à partida. Em caso de agressão, o jogador permanecerá na box durante dez minutos. Enquanto um jogador permanece na box a equipa não o pode substituir.
Esta solução permitirá a génese de uma nova dimensão no jogo, aquilo a que no hóquei em gelo se designa por "PowerPlay". As equipas em vantagem numérica têm sempre uma pressão acrescida para jogar ao ataque e marcam-se, naturalmente, mais golos nestas situações. Em vez de estigmatizar o jogador, assumimos o futebol como um desporto de contacto e, tirando partido da natural apetência do ser humaqno para a violência, enriquecemos a dinâmica do jogo e a qualidade do espectáculo.

Finta 4 - Reposição da bola em jogo - O lançamento da linha lateral tem que começar rapidamente a ser efectuado com os pés. Afinal, não é por causa das mãozinhas que o Ronaldinho Gaúcho é conhecido. E depois, a introdução da bola com um pontapé tornará inevitavelmente esta situação de jogo muito mais interessante para o avançado e bem mais desagradável para o defesa. Diminuiam os cortes para a bancada, aumentavam os centros perigosos para a área, subia a média de golos por jogo.

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Finta 5 - Dimensões do terreno e da baliza - Não faz sentido que um campo de jogo tenha medidas definidas entre 90 e 120 de comprimento e 45 e 90 de largura. As medidas devem ser fixadas sem intervalos. Como não concordo com o aumento das dimensões para além destes limites máximos (receio perder consistência de passe e homogenuidade de movimentos e as regras 1 e 3 também não o aconselham), proponho 80x110.
Acho porém que não faz mal nenhum aumentarmos as medidas das balizas, muito pelo contrário. Há no entanto que ter o cuidado de não desvalorizar o papel do Guarda-Redes, que é uma verdadeira pérola da geometria descritiva, uma quixotesca figura de novela-prima e substância essencial para um bom espectáculo de futebol (na figura 1 retirei a pequena área porque acho que o Guarda-Redes deve ser protegido em toda a sua zona de intervenção). As medidas que proponho estão na figura em cima, e resultam de aturados estudos estatísticos e análises de ergonomia (leia-se: 2 minutos de senso comum).

Finta 6 - Fora de Jogo - A regra do fora-de-jogo deve ser aplicada apenas nos últimos 30 metros de cada metade do terreno. Assim, facilitariamos as transições, promovendo partidas mais agressivas e mais rápidas, sem sacrificar a coerência estrutural do jogo.

Finta 7 - Arbitragem e tecnologia - O jogo deve ser arbitrado por uma equipa de 6 juízes, a saber: dois no campo (um para cada metade do terreno), dois fiscais de linha e dois assistentes fora das 4 linhas - um no campo, outro na Régie. Os árbitros estão telecomunicantes e - sempre que se justifique - o jogo pára para verificação do lance em vídeo, sendo perfeitamente possível concluir o procedimento em 30 segundos, um minuto no máximo.
Porque o ser humano não tem a capacidade ubíqua de registar visualmente dois campos de acção em simultâneo, a cibernética deve ser incorporada na determinação dos foras-de-jogo (chips no equipamento dos jogadores) e há de uma vez por todas que desenvolver um qualquer sistema de leitura óptica da linha de golo.


É claro que há muito mais fintas na minha cabeça. Mas não quero ser exaustivo e o princípio básico é o do título deste post: a bola deve continuar "redonda para os dois lados". O resto pode mudar. Diz-nos a experiência e a inteligência que é precisamente isso que se faz àquilo que está mal.
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sexta-feira, julho 07, 2006

Para variar, um post importante.

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Foi hoje lançado no Porto o livro "Pequenas histórias sem importância" do meu querido Pedro Serrazina, que deve ser para aí mais uma obra prima deste menino-prodígio-e-pessoa-absolutamente-impecável. Façam o favor de comprar já e ler logo a seguir.

Por estes dias, segundo creio, sairá a muito aguardada edição em livro do Nova Frente, o notabilíssimo blog do meu não menos estimado amigo Bruno Oliveira Santos. Façam o favor de ficar atentos.

Muito agradecido.

terça-feira, julho 04, 2006

Cinco Quinas de Desprezo.

"Quanto mais estrangeiros vi, mais amei a minha Pátria."
-Dormont De Belloy-

Holandeses, ingleses e franceses, espanhóis, ucranianos e suecos perfazem todos, cabeça por cabeça, um verdadeiro rebanho de boas razões para se ser Português. Depois de a Selecção Nacional ter cometido apenas 3 faltas nos primeiros 45 minutos dos quartos-de-final (suprema bofetada na tromba imbecil da imprensa britânica), ainda vêm agora estas bestas contorcer-se em conferências de imprensa manhosas, cuidadosamente arquitectadas no balneário da indignidade humana e nas redacções dos esgotos de Paris. O que se pergunta e o que se responde, em combinado passo-de-tango-no-bordel, é discurso pestilento de gente verdadeiramente embrenhada na orgia da estupidez, de gente apenasmente assustada com a coragem que a malta das quinas tem demonstrado em campo. Este mundial tem enjoado bastante, no que diz respeito à falabaratice estrangeira.

A citação que ilustra este postal - e a minha indignação - é de um francês, bem sei. Mas todas as nações, por muito deficitárias que sejam em qualidade humana - e a França é um bastante exemplo de mediocridade - têm os seus génios de trazer por casa. Como patinho feio da Europa, Portugal não devia ter chegado a este patamar da competição. Eu percebo isso. Mas não poderiam todos estes turistas da treta que mostraram até aqui um futebolzinho envergonhado, velhote, sorporífero e cobarde (qualquer bardamerda eliminava aquele Brasil tristonho) fazer-me o favor piedoso de parar com os peidos mediáticos de quadrúpede metabolismo e vegetal inteligência? Por muito pouco natural que seja a presença da Selecção Portuguesa no sacrossanto beliche da elite do futebol mundial, não poderiam todos estes craques de polipropileno aparecer menos na televisão e aproveitar esse precioso bocado de tempo para ir mais aos treinos? Não poderiam poupar-se e poupar-me ao espectáculo excrescente da sua própria vilania?

Independentemente do que aconteça na meia-final, a conquista é já evidente e não tem nada a ver com futebol. Este mundial foi uma excelente maneira de tornar evidente aos portugueses que os países da grande civilização ocidental estão também consideravelmente infestados de sapiens da mais baixa condição. Que o problema da heroicidade ausente e da decadência das elites não é um exclusivo português. Que o nível da imprensa internacional está bem abaixo daquele que a muito custo ainda conseguimos manter. Que outros para além de nós também sofrem do caos filosófico, moral e operacional em que nos afundamos todos, neste antigo pântano de tribos fraticidas que é a Europa.

terça-feira, junho 27, 2006

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- FASCÍCULO UM -

Segismundo d'Ávila, artista plástico. Cartão de visita em esmerado dourado, distribuído com parcimónia em eventos de certificado relevo. Uma personalidade de apresentação marcante, habitualmente encenada em tom azul, riscado de branco manso, calça vincada a preceito, sapato de brilho cuidado, a gravata sem sombra de ruga, lançada em torno do largo pescoço e sempre entre a agressividade de um vermelho berro ou de um amarelo torrado, de abóbora madura.
Parco de palavras, sóbrio de gestos, insondável, exibia uma compostura de solenidade cinzenta, que o impunha nos circuítos mais discretos onde se insinuava raramente pelo verbo, mas decisivamente pela relevante elegância de maneiras.
Dizia-se, a recato, que provinha de feudo abastado, de sangue azul, embora empobrecido pelo cair das gerações, já sem o esplendor do treta avô, venerável ancião metido a coisas de corte, de respeitável ciência e considerada prestação.
Orfão de mãe, devota senhora que se finara de coisa ruim, filho de um considerado cambista da Baixa subitamente arruinado pela intrusão do euro no mercado dos dinheiros - e que desaparecera sem dizer água vai - Segismundo vivia agora com uma suposta prima, ainda jovem, de opulências marcadas pelos langores que lhe escorriam, abençoados, pelos olhos magros, inigualáveis, muito vistos, dizia-se, pelas fraldas das noites pombalinas. Dizia-se ainda que era ela que lhe provia as sopas e os salmonetes e outras elementares necessidades, sem uso porém de noites de acamada envolvência.
Da respeitável actividade plástica não se lhe creditava coisa nenhuma. Nada de catálogo, nenhuma referência. Dos proventos que lhe enchiam o prato, das contas do alfaiate nada se sabia. Que jogava nos estoris e na bolsa. Que manipulava negócios escuros. Que arriscava em traficâncias de muito risco e fama vergonhosa. Coisas de polícia.
Segismundo flutuava amavelmente pelos cotovelos do bairro, distante, de cigarrilha em riste, de juba farta e prateada ao vento, portador senhorial de um mundo de mistérios. De sorriso sarcástico caído do canto do lábio carnudo, húmido, de uma sensualidade insuspeita, de olhar cinzento metálico, intimidante, passeava-se pelas coisas da vida sem paixão, do alto de uma gélida impassibilidade.
É verdade que se detinha, ocasionalmente, na observação sem pudor do mulherão com quem se cruzava, retardando o passo, de olho metido no traseiro da fêmea curvada sobre as montras de moderna lingerie. Talvez por razões puramente estéticas, como seria aceitável num homem da cor e da forma.
Segismundo d’Ávila era, assim, um personagem de relevo abstrato, não sugeria motivo de crónica, objecto de caixa alta, coisa notável de referência. Era apenas mais um dos muitos fantasmas que cruzam os caminhos do bairro sem que se saiba quem são, de onde vieram ou para onde vão. Coisas vazias que se movem sem destino, de olhos num horizonte perdido. Todavia, algo lhe veio alterar a rotina. Nada de estrondo, mas e tão só uma nota alacre, diferente, no curso da torrente sem convulsões da sua discreta existência.
(cont.)

Um blog a meias.

Depois de muito o aborrecer com solicitações de prosa e exigências de literatura, teve por fim o meu santo Pai que se resignar às súplicas deste ensandecido progénito: o que se segue é o primeiro episódio da sua contribuição para o enriquecimento conceptual do Blogville. Nos próximos tempos, tenho assim o prazer de partilhar com o Artur Paixão este blog, que sofria em abundância de solidão.

segunda-feira, junho 26, 2006

Um mundial normal.

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1 - Devo desde já dizer que acho o futebol um "desporto" de contacto físico. A abominável FIFA está a a tentar forçar a natureza dos homens ao ponto em que uma merda de uma porrada sem significado ontológico para o decorrer do jogo (competição com valor ontológico) vale um cartão amarelo e depois é só uma questão de nervos até que o maior craque de qualquer equipa fique de fora no próximo jogo. E, sendo que o futebol é bonito por causa do craques, isto não é defender o futebol. Expulsar o Deco daquela maneira não é defender o futebol.

2 - Este mundial tem sido uma fantástico sorporífero. Ao contrário das grandes figuras do dirigismo político da Terceira República, não tenho a sesta por hábito. Mas adormeço a meio da tarde, a ver a Argentina a jogar à bola. Durmo sobre os jogos porque tenho, mais coisa menos coisa, a certeza sobre os resultados. A normalidade impera e que mais posso dizer? A selecção nacional, ao menos, mantém-me acordado.

3 - Por acaso, acho que nunca escrevi aqui no blog as grandes patifarias que já disse sobre o Sr. Scolari, o que é uma pena. Essa reprovável lacuna impede-me agora de afirmar com acrescida propriedade: DESCULPE LÁ, MISTER. O sargento deu hoje uma conferência de imprensa absolutamente impecável (tomara Sócrates para um dia de festa) e mais que os resultados ou as exibições (que não têm sido - comparativamente - tão más assim) conseguiu inegavelmente estar neste momento a treinar uma EQUIPA de 23 jogadores.

4 - O jogo de hoje indexa com flagrante propósito ao último post que por aqui deixei sobre o futebol contemporâneo em geral e o Mundial 2006 em particular: quando os lamentáveis holandeses jogam uma bola cuja posse lhes tinha sido atribuída por lesão de um jogador português, cai por relva qualquer noção pseudo britânica, olímpica, caveilheresca, romanesca ou ética que possamos querer alimentar em relação ao fenómeno. O futebol, hoje, é mais importante que a noção medieval de cavalaria. É até mais importante do que a qualquer noção ética. Num campeonato do mundo, ganhar é a Ética.

5 - A Selecção Nacional fez hoje, dia 25 de Junho de 2006, História. E fê-lo porque está constituída por jogadores que entendem a natureza do circo. É óbvio para toda a gente que esta equipa pode e sabe jogar muito mais bonito do que joga. Esse foi, aliás, o o erro que sempre cometemos, com resultados absolutamente catastróficos. Agora sim, amadurecemos. Agora sim, ultrapassámos a fase em que tinhamos que provar que sabiamos jogar à bola. Agora sim, podemos ser campeões do mundo (!).

6 - Gostava de escrever um dia sobre o Luís Figo. É claro que tinha que ser num dia bom, num dia em que musas eloquentes me empurrassem para o abismo da glória que é só dele. O homem é um exemplo. Para toda a gente.

7 - Não sei se a malta deu por isso, mas o Sr. Blatter proferiu hoje algumas sábias palavras, logo a seguir ao jogo e por causa do jogo; o que é, de todo em todo, rarissímo, senão inédito. O Sr. Blatter, que efusivamente manifestou a sua alegria por ter oferecido ao planeta uma guerra de 99 minutos, acrescentou louvores grandes à selecção portuguesa, que considerou a melhor equipa em campo, tanto no que respeita à técnica como à táctica, considerando ainda, e inacreditavelmente, que a arbitragem estave uns furos abaixo da qualidade do jogo. Este discurso é de tal forma surrealista (leia-se: justo) que não me admira nada se o Figo vier a ser castigado a posteriori pela cabeçada que deu num infeliz de um holandês qualquer que - aqui entre nós - estava mesmo a pedir uma cabeçada na cana do nariz. Há coisas que são boas demais para serem boas.

8 - Estou feliz, hoje. A culpa é desta malta que cagou as cuecas, que suou as estopinhas, que deu o coirão. Que sacrificou o corpo a sério, como o corpo deve ser sacrificado para a devida salvação do espírito (ah, Cristo!). Estou feliz, hoje, muito também por causa do diabo do Maniche, que chuta sempre muito direitinho à baliza.
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domingo, junho 25, 2006

podcast

o planeta todo acelera e queima gasóleo sobre a minha cabeça de plástico
como um vento veloz de ruído fantástico

sobre a minha cabeça e contra os meus ouvidos atordoados estereofónicos
zumbe a multimédia dos ardinas mneumónicos

chega disparado a grande velocidade o relato interminável o impossível banzé
da civilização toda ao soco e ao pontapé

overload, overquota, overdose que vem pelo chicote do falecido senhor satanás
doi-me fundo no cérebro a informação voraz

sofro de não ter alma que chegue para os pods sobre isto e os blogs sobre aquilo
nem em alexandria era maior a biblioteca que o nilo

nem borges nos seus sonhos de livreiro sonhou com uma estante mais extensa
que as estepes desertas da geografia imensa

não tenho tempo, não tenho ram, não tenho paz e não não tenho espaço
cego ensurdeço e já nem sei o que faço

quarta-feira, junho 21, 2006

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O senhor lá no alto chama-se Dwyane Wade e, nos 6 jogos que duraram estas finais da NBA (de que foi o MVP), marcou só 208 pontos (média de 34,6 por jogo), contribuindo decisivamente para a conquista histórica dos Miami Heat. Histórica porque é a primeira vez que a equipa ascende ao olimpo da competição e histórica porque há 30 anos que não acontecia o que aconteceu desta vez: depois de terem perdido os primeiros dois jogos em Dallas, os Heat ganharam os 3 seguintes em Miami e voltaram ao Texas para sacar a quarta vitória sucessiva e assegurar o título sem que fosse preciso recorrer à negra.
É claro que Shaquille O'Neal, Antoine Walker e Jason Williams também ajudaram e é óbvio que a pergunta estampada na foto é só uma provocaçãozinha para aqueles que acham que o basket profissional norte-americano morreu com o adeus de Jordan. Mas, caramba, este menino (acho eu que é o MVP mais novo na história das finais da NBA) é realmente um prodígio. E voa que se farta.
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"Porque será que para o psiquiatra uma hora só tem cinquenta minutos? O que é que eles fazem com os outros dez minutos? Se calhar ficam sentados a pensar: bolas, este tipo é mesmo tarado. Nem acredito nas coisas que ele disse. Que grande maluco. Quem é que vem a seguir? Oh não, outro que sofre da cabeça."
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terça-feira, junho 13, 2006

Na arena.

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Correndo o risco de me repetir aqui no blog: o futebol de alta competição não é um desporto. É, por acaso, a antítese disso. Também não era por desporto que se atiravam os cristãos aos leões, nem por cavalheirismo que se esfolavam os lutadores gregos, nem por graciosidade de espírito que se faziam correr as quadrigas.
O local é sempre a arena e a febre é invariavelmente a de sangue. O futebol é um excelente substituto da guerra, porque canaliza de forma irrepreensível a pulsão tribal e predadora do bicho humano. É também, um ópio poderoso. Não será jamais a manifestação ética e estética que por umas primevas dezenas de anos entreteu a audiência. O relvado transformou-se num parque para deuses mal educados, destituídos da galantaria britânica. Deuses que simulam penaltis e são sacaninhas. Deuses que imploram por um cartão amarelo, que é devido ao outro deus adversário, que decidiu canelar. Deuses que têm medo de sofrer um golo e jogam para o um a zero. Deuses que sabem fazer gestos feios. Deuses que ganham 120 mil contos por mês e não sabem falar português. Deuses que chutam à baliza e acertam no orgasmo das multidões. Deuses que sobem ao céu e descem ao inferno enquanto o diabo remove uma remela.
No caso vertente da imagem, Koller conhece em menos de meia hora a glória do gladiador triunfante e a miséria do condenado às galés: depois de marcar o primeiro golo da República Checa neste mundial, magoa-se a sério e provavelmente está fora do campeonato.
Os mundias são cada vez pior jogadinhos (no sentido da espectacularidade estética do jogo), na inversa proporção da esmagadora focagem mediática. À medida que a pressão aumenta, os artistas vão desaparecendo de cena. Nedved, Robben e Figo fazem a diferença, mas é pouco ainda assim. O futebol que se joga hoje em dia é fechado, nervoso, envergonhado, armadilhado, calculista, venenoso, prudente.

E pensar que 4 em cada 10 portugueses acham que a selecção portuguesa vai ser campeã do mundo...
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quinta-feira, junho 01, 2006

Prometeu, o bom bandido.

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"Encobre o teu Céu ò Zeus
com nebuloso véu e,
semelhante ao jovem que gosta
de recolher cardos
retira-te para os altos do carvalho ereto
Mas deixa que eu desfrute a Terra,
que é minha, tanto quanto esta cabana
que habito e que não é obra tua
e também minha lareira que,
quando arde, sua labareda me doura.
Tu me invejas!"

Johann Wolfgang von Goethe - 1774


Se bem que literariamente prenhe, o mito criacionista dos gregos, como a grande parte dos mitos criacionistas, é uma história da carochinha absolutamente destituída de bom senso e bom gosto, mesmo considerando que se trata de uma rábula com uns valentes milhares de anos.

Senão vejamos:

No princípio não era o verbo; era o caos. A matéria universal apresentava um aspecto assim para o desagradável, as sementes das coisas por vir boiavam em confusa promiscuidade no pestilento pântano primordial, sendo que a terra não era terra, o mar não era mar e o ar, absolutamente irrespirável. É claro que este estado de coisas não podia perpetuar-se e os deuses intervieram finalmente, separando a terra do mar e o céu de ambos.
Um dos deuses (não que se saiba exactamente qual, nem precisamente porquê) decidiu elaborar sobre a Obra e atribuiu aos rios e lagos os seus lugares, levantou montanhas, esgravatou vales, plantou os bosques, rompeu as fontes, lavrou os campos férteis e as áridas planícies, permitindo que os peixes tomassem a devida posse do mar, que as aves se assenhoreassem do ar e que os quadrúpedes herdassem a terra.
Feito isto, alguém (outra incerteza) deu por falta de um animal sapiens, capaz de reinar sobre este tão-bem-arrumado-planeta-novinho-em-folha; um bicho mais esperto mas, por necessidade instrumental, ainda assim um imbecil quanto bastasse para ser capaz de venerar a desordenada, promíscua e sanguinolenta família residente no Olimpo. Ora é precisamente aqui que Prometeu, o nosso herói, entra em cena.
Filho de Jápeto e Clímene ou de Jápeto e Ásia ou talvez de Jápeto e Têrmis (de novo a dúvida) Prometeu pertencia à estirpe dos Titãs, gigantescos e truculentos semi-deuses, descendentes de Urano e Gaia e inimigos fervorosos dos deuses olímpicos. Apesar da animosidade, Prometeu e seu desastrado irmão Epimeteu receberam de Zeus (ou de Cronos, também não há certezas), a feliz incumbência de conceber e concretizar o homem. Epitemeu, porém, desperdiçou os seus talentos a caracterizar os outros animais da terra, tarefa tão trabalhosa e criativa como dar carapaças às tartarugas, mamilos aos mamíferos, veneno aos escorpiões, penas aos pássaros, dentes aos tubarões e sabor à carne do porco. É claro que, quando chegou a hora de atribuir super poderes ao bicho homem, Epimeteu estava de rastos. Prometeu, cuja primeira tarefa era apenas a de controle de qualidade sobre o trabalho do irmão (o prudente conceito da gestão contemporânea é quase tão antigo como o defecar de cócoras), acabou por se ver a mãos com o trabalho propriamente dito e, muito prosaico, toma um punhado de terra, mistura-a com água, e do barro que surge faz o homem à semelhança dos deuses. Deu-lhe o porte erecto, de maneira que, por oposição aos animais que têm o rosto voltado para a terra, o homem levante a cabeça para o céu e olhe as estrelas (leia-se: deu-lhe a capacidade da abstração metafísica). Mas a tarefa não estava por ali concluída. Ao animal recém-criado faltava ainda a chama da tecnologia (leia-se: a liberdade de espírito). À revelia dos deuses, que estavam já completamente satisfeitos com o produto (um frankestein com volição mística mas sem auto-determinação), Prometeu decide subir ao céu e acender a sua tocha no sol - fogo sagrado e proíbido, propriedade de Zeus - para trazer o fogo ao homem. Com esse Dom, este assegura a sua superioridade sobre todos os outros animais. O fogo permite-lhe construir as armas com que subjuga as feras e a caça, bem como as ferramentas com que cultiva a terra; a lareira aquece a sua moradia, de maneira a tornar-se relativamente independente do clima e, inevitavelmente, a manipulação térmica possibilita a cunhagem da moeda!
Tomando conhecimento do crime de Prometeu, Zeus encoleriza-se (como é sabido, a cólera de Zeus não era tão parcimoniosa como a de Aquiles), e decide, em primeira instância, castigá-lo desta curiosa maneira: com a colaboração dos restantes sócios divinos cria Pandora, a mulher primeira, e envia-a por correio olímpico para casa de Epimeteu, que, contra os avisados conselhos do irmão, a aceita de bom grado, juntamente com uma estranha caixa que a bela top model trazia a tiracolo. O problema é que, uma vez aberta, a caixinha revelou-se um verdadeiro holocausto pan-biológico, dispersando a doença e o ódio pela existência humana e sobre as gerações.
Não satisfeito com a desfeita, e talvez presumindo que a invenção da mulher, apesar de tudo, seria mais um presente formidável do que um castigo terrível, Zeus ordena a Hefesto (o Neptuno de van Baburen, representado em cima), que aprisione Prometeu e o vá acorrentar a um rochedo no cimo do monte Cáucaso, onde todos os dias uma águia (na verdade um abutre) lá iria debicar-lhe o fígado. Vistas bem as coisas, a determinação régia tem algo de sádico: Prometeu era um titã imortal, pelo que, por muito roído que fosse, o seu fígado voltava invariavelmente a regenerar-se. Acontece que a intenção era deixar o desgraçado neste suplício durante 30.000 anos, sem direito a redução de pena por bom comportamento.
Sendo de carácter literário, a história não podia acabar assim. Eventualmente, Prometeu é libertado por Héracles, que havendo concluído os seus doze aventurosos trabalhos, padecia deveras da carência de adrenalina (eis, muito provavelmente, o primeiro Junkie).

A ideia de que a mulher é criada como veículo de punição do homem, o aparente amadorismo com que o universo, a terra, e os seres vivos são construídos, a incrivel assumpção de que a liberdade de espírito vai contra a vontade dos deuses, as contradições e insuficiências da narrativa e os seus eminentes contornos pitorescos, que se alargam entre a inventiva gótica e o conto infantil, não impediram porém que o criacionismo grego fornecesse prolixa inspiração a muitos dos grandes génios da literatura.
A história foi popularizada por Hesíodo e teatralizada pela primeira vez por Ésquilo, no século V A.C., com o título de Prometeus Desmotes (Prometeu Agrilhoado) e, na Idade Média, veio muito a propósito dos desgraçados que iam parar à fogueira. Talvez por isso, o Romantismo acabou por formatar um universo simbólico co-relacionado, em que Prometeu assume a forma humana e representa a sede de conhecimento, e a sua captura do fogo proíbido, a audácia e a generosidade humanas que permitem a partilha do saber, mesmo quando entidades plenipotenciárias e de mau génio o interditam.
No seu belíssimo "Prometheus", um curto e eloquente poema de 8 estrofes, Goethe descreve um homem extraordinário, que se nega a venerar deuses ou a ser submisso. A partir de então a imagem de Prometeu na cultura ocidental é a de um género de Che Guevara do Mediterrâneo Clássico, que luta contra a repressão das massas e a mordaça dos poderosos. Por estas e por outras é que Karl Marx considerava Prometeu o seu herói favorito.

Conclusão: não deixa de ser divertido pensar que o paradigma criacionista da civilização fundadora do Ocidente é interpretada por um gigantone rebelde actuando por sua conta e risco; e que os triunfos tecnológicos, científicos e filosóficos da humanidade têm como origem mítica, não a vontade dos deuses, mas um obstinado e libertário free-lancer dotado de um esquema moral que é, na sua essência, herético. Esta contradição entre a fé incondicional e o livre arbítrio da razão individual sobra abundantemente pela história a dentro e, por muito mal editada que seja a novela, a verdade é que, como sempre, os gregos contaram primeiro todas as histórias que no decorrer das eras posteriores vieram a ser (re)contadas.
Prometeu, o bom bandido de Protágoras, de Ésquilo, de Platão, de Rousseau, de Mary Shelley, o paladino da revolução de Descartes e, provavelmente, o único santo de Bachelard; Prometeu, o pirata do fogo sagrado, arde ainda, de verdade, na nossa lógica de todos os dias. Mais bicada menos bicada.


Fontes:
wikipedia
mundo dos filósofos
no mistake
instituto camões
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"Não tenho medo de voar, embora haja muita gente que tenha, e eu sem forma de argumentar contra isso.
Acho que o medo de andar de avião é bastante racional, porque os seres humanos não podem voar. Os seres humanos deviam ter medo de voar da mesma forma que os peixes deviam ter medo de guiar. Se puserem um peixe atrás de um volante, é provável que ele diga: isto não está certo. Eu não devia estar a fazer isto. Isto não é lugar para mim."

segunda-feira, maio 29, 2006

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Na imagem, Jason Terry, o mágico base dos Dallas, passa pelo MVP da época regular e Senhor Mãozinhas - Steve Nash - para afundar mais dois pontos, no jogo de Sexta-Feira.
Estamos em finais de conferência e a NBA mostra o que vale: é tudo jogadinho hoje como se não houvesse mais bola amanhã. Os play-of deste ano passaram a lenda, depois das séries serem disputadas com unhas e dentes, quase todas, a sete jogos. Tenho visto coisas que desafiam a física, a lógica e a filosofia, na NBA. Mas este ano, isto está mesmo muito próximo da transcendência.

sexta-feira, maio 26, 2006

Sobre o parvalhão anónimo.

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Na blogosfera, como na vida, percebe-se que os parvos sabem bem que são parvos. Têm a verdadeira e dolorosa consciência do facto e envergonham-se. É por isso que nunca assinam as idiotias com que, em má hora, infestam os blogs alheios (que espertos!).

É muito raro ler um comentário inteligente deixado por um anónimo, não é?

quarta-feira, maio 24, 2006

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"Não tem muito que saber. É apenas necessário tocar as notas certas no tempo exacto que o instrumento faz o resto."
Johann Sabastian Bach, quando cumprimentado pelo seu virtuoso domínio do cravo.

Confesso que me sinto bastante culpado de um delito que é partilhado pela multidão: no que diz respeito à epistemologia da música, a ideia comum é a de que Barroco é Bach primeiro e Vivaldi depois. Ora, sucede que hoje à noite fui conduzido por um querido amigo à impressionante aventura dos Tafelmusik, uma entidade sonora que se dedica a avisar os incautos acerca da falibilidade dos preconceitos com que interpretamos a música criada nos sécs. XVII e XVIII, ao mesmo tempo que performa um espectáculo verdadeiramente único por uma montanhada de razões, a saber:

• O CCB resolveu presentear Lisboa com um só espectáculo. Este de que falo.

• O Grande Auditório não estava apinhado com os pequeno-burgueses-ávidos-das-festas-da-música. Nem estava apinhado, ponto. Respirava-se!

• Tafelmusik é uma feliz, consagrada e competentíssima orquestra constituída por 18 humanóides absolutamente geniais, que estão alegremente empenhados em que a malta perceba - e valorize - a componente lúdica da música barroca.

• O espectáculo desta noite teve como estrela do norte as maravilhosas "Metamorfoses" de Ovídio, o que só por si é contar bastante, mas, ainda assim, que dizer disto: "Tenho cavernas no flanco da montanha / onde o sol nunca te afligirá."

No entretanto das encantatórias rábulas de Ovídio, estive muito contente e em puro deleite a ouvir obras-primas de Jean-Philipe Rameau, Jean Baptiste Lully, Marian Marais e Alessando Marcello. Vivaldi também constava do reportório, mas Bach, ironicamente, não.
A "Tempestade" de Marais é um momento extra-terráqueo de glória e arte, tanto como a história quasi-homérica de Céix e Alcione para a qual a peça foi escrita. Mas momentos como este, encheram cheinha uma noite perfeita de Barroco.
Hoje, posso dizer que fiquei um bocadinho menos ignorante.
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quinta-feira, maio 18, 2006

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Dr. House. Excêntrico Jesus Cristo do serviço nacional de saúde americano. Um gajo lindo e visceral. Um herói moderno. Um actor a sério. Todo ele é líder das audiências da minha inteligência emocional. E agora, que comprou uma moto de cair para o lado (250 cv/140 kg com suporte de titânio para a bengala), compete com Homero na corrida para a história sagrada. House não é um humanista. Salva vidas apenas porque é integro para com o destino a que foi condenado. Mais nada do que brio profissional. Rigorosamente mais nada.

quarta-feira, maio 10, 2006

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"I am actually not at all a man of science."
Sigmund Freud, carta a Wilhelm Fliess - 1900.

Provavelmente, o maior impostor da história moderna, Sigmund Freud infectou a mentalidade ocidental de uma catrefada de falsidades de tal forma inacreditáveis que só podemos chegar a uma conclusão: a ciência humana está ainda na sua fase embrionária, e somos todos quase tão crédulos e ignorantes como aquele velhote desgrenhado da Macedónia que dividia o universo em três ou quatro esferas celestes, aqui há uns dois mil e quinhentos anos atrás.
Iniciando a sua carreira com uma grandiloquente defesa das qualidades terapêuticas da cocaína, e indicando-a abundantemente aos desgraçados que lhe chegavam ao consultório (alguns morreram da receita), Freud é o engenhoso fundador de patologias inexistentes como a Histeria ou o "Reflexo Neurótico Nasal", estigmas derivados, segundo este ilustre falsificador, de uma tendência excessiva para a masturbação e curáveis com recurso à dita droga ou a intervenções cirúrgicas de masmorra medieval.
Em vez de ser rapidamente encarcerado no hospício mais radical de Viena, Freud sobreviveu aos desastres com a persistência dos aprendizes de feiticeiro e, escapando para a frente, cria a sua segunda grande invenção: o líbido imparável das crianças. Para Freud, cada alminha já nasce de pau feito, lamentavelmente apontado para a mãe, em cujos seios encontra desde logo a redenção orgásmica. A história, a política, a economia e a religião explicar-se-iam assim à sombra de um cartoon grego: inclinado desde logo para o sexo que o pariu, o menino fundamenta os seus dias primevos - e o seu ego estrutural - num ódio surdo de ciúmes para com o seu pai. Isto, claro está, é apenas nojento e fica distante de qualquer rigor científico como a Terra está longe do centro da sua galáxia.
Fazendo uma imaginativa e quase poética, mas absolutamente não científica, interpretação dos sonhos que convenientemente fundamentavam as suas teorias mais delirantes, publicando terapias revolucionárias que, na verdade, não curavam ninguém, Freud foi alegremente ignorando o conhecimento mais disciplinado do seu tempo: genética e cultura eram factores menosprezáveis e o positivismo não mais que um tique de ratos de laboratório. O homem, segundo Sigmund, não passa de um escravo do seu inconsciente, essa massa oculta, imaterial e brejeira, sempre disponível para lançar o indivíduo nos mais perversos conflitos. Tudo o resto é preconceito de gente moralista ou preciosismo de académicos destituídos do pantone da criatividade.
Sobre este montão de imbecilidades, Freud cria até um aparelho filosófico multi-dimensional, que compreende toda a fenomenologia humana, aniquila a metafísica e eleva ao altar/divã uma espécie de super-homem/mega-falo; sapiens niilista que conquista a salvação pela transferência de todos os traumas para o colo paternal e semi-divino do psicanalista. Charlatão maior entre os grandes vendedores de tónico capilar, imaginativo e teimoso profeta da falácia, Sigmund Freud é uma vergonha para a epistemologia. E um embaraço enorme para todos nós, que comprámos, baratinho, os seus dogmas de algibeira no supermercado da desinformação.

Uma conspiração de estúpidos.

Bem sei que parece ficção, mas é realidade da grossa: depois da dissolução da antiga Comissão para os Direitos Humanos da ONU - precisamente por causa de ser constituída por nações que não os respeitavam (o último país a presidir este infame organismo foi a Líbia!) - eis que surge agora uma Comissão novinha em folha, de tal forma correctora dos erros anteriores que até dá assento a países como a China, a Arábia Saudita e Cuba, proverbiais paladinos da dignidade humana e das liberdades individuais.
No dia em que acabarem com a Organização das Nações Unidas eu vou ser um homem feliz.

terça-feira, maio 02, 2006

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"As pessoas são capazes de matar por um lugar para estacionar em Nova Iorque porque pensam: se não conseguir este lugar, posso não arranjar outro. Vou ficar meses à procura até que alguém saia do Hamptons. Porque toda a gente sabe que em Nova Iorque há muitos mais carros do que lugares para estacionar. Vemos carros a andar por Nova Iorque a noite inteira. Parece aquele jogo das cadeiras, só que toda a gente se sentou por volta de 1964."

Bocage: de luz e trevas - 3

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Camões, grande Camões, quão semelhante
Acho teu fado ao meu, quando os cotejo!
Igual causa nos fez perdendo o Tejo
Arrostar co'o sacrílego gigante:

Como tu, junto ao Ganges sussurrante
Da penúria cruel no horror me vejo;
Como tu, gostos vãos, que em vão desejo,
Também carpindo estou, saudoso amante:

Ludíbrio, como tu, da sorte dura
Meu fim demando ao Céu, pela certeza
De que só terei paz na sepultura:

Modelo meu tu és... Mas, oh tristeza!...
Se te imito nos transes da ventura,
Não te imito nos dons da Natureza.