quinta-feira, outubro 26, 2006

Filinto, o apóstata.

Photobucket - Video and Image Hosting

Nasci – logo a meus pais custou dinheiro
o baptismo, que Deus nos dá de graça.
Tive uso de razão – perdi a graça –
dei-me ao rol – chegou a Páscoa – dei dinheiro.

Quis casar com uma moça – mais dinheiro.
Brinquei com ela – não brinquei de graça:
que aos nove meses me custou a graça
para o Mergulhador capa e dinheiro.

Morreu minha mulher – não lhe achei graça
e menos graça ao arbitral dinheiro
da oferta; que o prior não vai de graça.

Se o ser cristão requer sempre dinheiro,
como cumprem com dar graças de graça
os que as graças nos vendem por dinheiro?

Filinto Elísio (1734 - 1819)


Filinto Elísio, pseudónimo do Padre Francisco Manuel do Nascimento, foi um dos mais importantes poetas do Neoclassicismo português. Apesar de ser clérigo, era admirador de Horácio, defensor dos ideais iluministas e enciclopedistas, das revoluções francesa e americana e fã dos autores racionalistas franceses, proibidos pela Inquisição. Por causa destas suas temerárias preferências, acabou por fugir para França, exilando-se em Paris em 1778 e estabelendo relações de amizade com o poeta Lamartine. As suas poesias foram publicadas em Paris em onze volumes entre 1817 e 1819, seguindo-se uma segunda edição em Lisboa de vinte e dois volumes entre 1836 e 1840. Além de poeta era tradutor, vertendo para português os Mártires de Chateaubriand, as Fábulas de Lafontaine e Púnica de Sílio Itálico.
O seu estilo segue os preceitos da estética classicista arcádica, sendo um defensor enérgico do purismo da língua. Não obstante os formalismos, muitos dos seus poemas reflectem uma grande intensidade emocional, no que têm de revolta e de sofrimento pessoais, sendo, neste contexto, um precursor do romantismo.
Photobucket - Video and Image Hosting

Quando o porteiro me inspeccionou com sentido de comiseração e se permitiu, amavelmente, a liberdade de fazer notar que me achava com cara de cavalo cansado, expressão que não recusei - este senhor porteiro possui em terras remotas do Alto Minho uma mão cheia de éguas e um esplendoroso par de garanhões, pelo que sabe muito de cavalos cansados - assenti, deixei baixar as olheiras sobre o rosto pálido e admiti o óbvio.
- Foi de facto uma manhã de cão, meu amigo, um dia para assinalar no calendário com uma grande e pesada cruz.
Tinha amanhecido com chuva por entre um cinzentão frio e esfarrapado que a metereologia da TV garantia manter-se sem esperança de tréguas. Nada tinha corrido bem nesse dia. Despertei ainda chocado com o deplorável espectáculo com que o glorioso nos tinha flagelado na véspera, zangado comigo e com o colchão e com a exiguidade da casa-de-banho e com a cor dos azulejos. Golpeei-me com a porcaria da gillete mais fiável do mundo e confrontei-me com a exigência de empacotar, de uma dura assentada, os comprimidos para a tensão arterial, a circulação e o reumático - imposição de ritual satânico, pouco menos que alucinogénica, com que enfrento a precaridade de um novo dia, uma vez mais agravado pela recusa de um trânsito intestinal decente.
Verificada, por entre uma expressividade de palavrões, a insólita inexistência do descafeinado com que habitualmente empurro a diabólica composição, seguiu-se a dramática constatação da falta de cigarros com que sempre combino e combato, cinicamente, a feroz rotina dos quinze comprimidos diários.
Restava-me agora a dura prova de enfrentar, já derreado ao peso de uma derrota anunciada, o carão granítico da médica de família, uma coisa de bata branca, de peito esquecido em casa, lisa como uma tábua de engomar, inquisitorial, sem lábios e de percetível cheiro a formol. Esperava-me para uma consulta que não solicitara, que me era imposta pela força tirânica da agenda de sequência clínica, incontornável, com a qual mantenho guerra aberta há 12 anos, pelo menos. O chaço não pegou e, a praguejar maldições, lá arranquei para o Centro de Saúde da área de residência, empunhando um chapéu de chuva que o meu primo esquecera lá por casa, por ocasião de uma recente jantarada.
Encharcado, cabisbaixo, entalado no desconforto de uma oscilante cadeira da gasta sala de espera, aguardei o chamamento que viria com a costumada hora de atraso. Ocorreu-me na altura que havia esquecido a placa dentária. Óptimo. Iria oferecer-lhe o meu pior sorriso de sempre, bem aberto para sublinhar o bom dia sombrio na abertura de hostilidades com que normalmente a esquálida doutora inicia o estafado “então, como vai isso?” de circunstância, sem ponta de cordialidade, cheia de rugas da azeda disposição do costume, certa de que, no final, acabaria por perscrever a química habitual dos últimos 2 anos para a sustentação do estado geral do utente, definição para velhotes sem grande margem de sobrevivência, agora parece que um pouco mais agravada pelos cortes do orçamento da Saúde, segundo o último caderno de encargos a observar severamente em nome da contenção das despesas e, sobretudo, o inesperado aumento da longevidade dos beneficiários de provecta idade.

Chegada enfim a hora da verdade, entrego-lhe a longa lista dos resultados das últimas análises que me impôs por entre um sorriso de esperança que não classifico, obrigada pelas regras que compaginam o catálogo das inevitáveis chatices e em conformidade com a benevolente decisão superior dos senhores recentemente chegados ao governo destas coisas terrivelmente sérias da saúde pública.
Insinua o nasal marcadamente aquilino no velho processo do meu historial clínico, num estudo cuidado de um denso código de gatafunhos a descodificar por algum especialista maior, quando interessar à eventualidade da autópsia, e arranca com um suspiro sofrido o interrogatório habitual:
- E como vai essa micção?
- Mijo bem. Ainda não conspurco o tampo da sanita..
- O problema da próstata, segundo a análise, regista um aumento pouco significativo. Sem preocupações para já. Não sugere a aplicação da argália, por enquanto. Na sua idade, é um bom sinal. E o trânsito intestinal?
- Irregular, relutante, em esforço, sempre acompanhado duma intensa e incontrolada libertação de gases.
- É natural, na sua idade. Fadiga intestinal. Desgraçadamente não podemos lutar contra o tempo. É claro que há por aí uma enormidade de laxantes a que não devemos, no seu caso, dar a menor importância, de forma a evitar efeitos colaterais como por exemplo a criação de bolsas intestinais tipo estufa e flatulências muito desagradáveis. A tensão arterial está como sempre. Um horror! Por outro lado o seu problema de colonoscopia evidencia a partir do exame rectal um desenvolvimento incipiente de pólipos que a seu tempo observaremos com rigor no sentido de uma muito provável intervenção cirúrgica. No caso das artroses, embora dolorosas, têm tido o tratamento adequado e está nas mãos de um grande senhor. O Dr. Pimentão pode parecer-lhe um cómico mas é um professor de primeira linha. Fizeram-se já as punções que se aconselham para esse tipo de insuficiência mas, na verdade, não há recuperação possível. No que respeita às ancas, que lhe provocam crescentes problemas de mobilidade, de penosa incomodidade, dizem-nos as últimas radiografias que obrigam a uma dupla cirurgia de resultados sempre imprevisíveis, na sua idade. Bem vê, trata-se de uma justaposta disfunção das articulações laterais,acentuada por uma forte distorção espinal. Essa sua coluna é de chanfrar. Já experimentou o apoio de canadianas? Quanto à crise de soluços que por vezes o afligem em sequências de 2 a 3 dias, vamos tentar controlá-la com o “Protom”, uma bomba que tem apresentado excelentes resultados neste tipo de singularidades. Outro aspecto de relevo tem que ver com o facto de, com a sua idade, nunca ter tido uma dor de cabeça. É, na história clínica, uma impossibilidade. Vamos ter de submetê-lo a um TAC exaustivo para perceber esse estranho aspecto do seu enigmático metabolismo. Homem, na verdade o senhor apresenta-se como um notável compêndio de sobrevivência!
Temos agora o problema da circulação, que ganha de facto, e no contexto da sua respeitável idade, uma importância maior, associada que está ao nível do colesterol um tanto acima do normal. Vamos insistir na prescrição dos comprimidos habituais, estabilizantes cuja tomada, creio, observa rigorosamente. Neste caso, devemos estar atentos ao agravamento da esclerose múltipla, sempre de recear no desenvolvimento deste tipo de patologias.
No que se refere à evolução das operações a que se sujeitou oportunamente, carótidas e inguinais duplas, não se manifesta qualquer desvio periférico anormal, o que é excelente para a sua idade. As ocasionais e ligeiras dores na zona hepática de que se queixou são isso mesmo. Pequenas incomodidades ocasionais. Sem importância que suscite preocupações.
Para já, a leitura do seu último electrocardiograma revela apenas uma ligeira arritmia. Recomenda-se muita pantufa, esforços comedidos, alimentação cuidada, frugal, nada de fritos, enchidos, alcoól, tabaco e sobretudo - um aviso fundamental - a interdição de qualquer envolvência de carácter sexual sustentada por esses estimulantes que por aí são irresponsavelmente publicitados. Penso que, quanto a este assunto e dada a sua idade, o senhor não carecerá de outras explicações.
No que diz respeito à questão oftalmológica - essas cataratas que lhe foram diagnosticadas - como no que se refere aos dentes que lhe faltam, o Centro de Saúde não pode responder por absoluta carência de meios técnicos e competências adequadas. Note-se porém que uma mastigação deficiente, por ausência dos trituradores, pode induzir às dificuldades intestinais que já mencionámos. É uma questão que terá a ver com uma observação de polipectomia, no ângulo esplénico do cólon, também fora da nossa capacidade de intervenção.
Afora os aspectos de que tratámos, deve, apesar de tudo, sentir-se um homem inteiro. Um felizardo. São como um pero, muito embora aquela piada velha e relha, venerável citação de sempre: isto de viver acaba mal. Por isso, anime-se, vitamine-se e pense positivo. Vê como, por exemplo, demos cabo daquela última amigdalite que, na sua idade, é maleita de frequência pouco simpática?

Saído da reconfortante consulta, observo ainda a sala de espera repleta do costumado amontoado de velhas carcaças, arquejantes, babosas, espirrantes, descoloridas, numa sombria envolvência de resignação, na espera do favor de lhes traçarem apressadamente o receituário habitual que ameniza o caminho da estreita e dura vereda para o fim, após o clínico lhes fechar o processo, com a singileza do rótulo “procedimento habitual, sem alternativa ou recuperação provável”. Antes de sair de cena, registo o cartaz espalmado ao largo de quasi toda a parede do velório, num fundo de azulão forte:
ANTES DE ENGRAVIDAR FALE COM O SEU MÉDICO.
USE A CAMISINHA - SEXO SEGURO.
Havia ali um generoso convite ao revigorante milagre de viver.
Photobucket - Video and Image Hosting

sábado, outubro 21, 2006

Rap solitário - III

Não há nada pior no mundo do que ter amigos. As mulheres podem devastar o coração. Os amigos reduzem a cinzas a sensibilidade.

sexta-feira, outubro 20, 2006

Fotopsicografia de Robert Tyre Jones III


Não parece, mas o golf é um desporto de masoquistas. De endinheirados masoquistas, regra geral, mas nem por isso menos adeptos do mal estar de corpo e alma. Jogo de planeamento em tempo real e precisão sobre-humana, castiga severamente os atletas por pequenos lapsos, atira-os para o inferno dos bancos de areia e a malária dos lagos, para a ratoeira dos bosques e a maldição dos ventos; todos e mais algum instrumentos de tortura criados por sádicos arquitectos e outros grandes diabos da paisagística.


Provavelmente, ninguém como Robert Tyre Jones the Third (Atlanta, 1902-1971) sofreu alegremente as piores agruras do jogo. Os erros consumiam-lhe o espírito, as derrotas escavacavam-lhe o metabolismo, a pressão matava-o. Mas também é verdade que as diversas úlceras e o terrível problema neurológico que acabou por o consumir - efeitos directos do stress da competição - contam pouco em função da aura de glória que coroa esta notável espécie de pessoa.


Bobby Jones é ainda hoje considerado um intérprete tecnicamente perfeito da modalidade, e será sempre uma das grandes referências da história do Golf. Mas é talvez pelas suas lendárias características humanas que permanecerá imortal por dentro dos séculos. Verdadeiro cavalheiro, homem honrado, de grande honestidade e apurado sentido ético, o seu fair-play é proverbial: num célebre playoff do Open dos Estados Unidos, Jones tinha uma pancada difícil a executar, no rough junto à margem do green. Quando se preparava para dar a pancada, o ferro tocou ligeiramente na bola, provocando-lhe um ligeiro movimento. Jones alertou os marshals e o seu adversário para o facto, dado que ninguém, nem no público, se deu conta da falta. Sendo a única testemunha do seu próprio erro, Jones confirmou-o e solicitou a falta (que equivale ao registo de mais uma pancada). Este enormíssimo campeão, que viria a perder o Open exactamente por essa única pancada, ao ser congratulado por um marshal pelo magnífico exercício de integridade, replicou: "O sr. não cumprimentará por certo um ladrão por não roubar. Esta é forma como o Golf deve ser sempre jogado."


Somando títulos profissionais tão sonantes como o Grand Slam (foi o único na história do jogo a conseguir ganhar os 4 maiores torneios do Golf numa época só), Bobby Jones nunca abdicou do seu estatuto de amador, dedicando-se apenas em part-time ao treino e recusando as fortunas e maus hábitos da prática profissional do desporto. Desconfio que este facto se deverá em parte à ausência de preocupações financeiras, dada a linhagem paterna de industriais, e ao transbordante talento académico: bacharel de Ciência em Engenharia Mecânica, bacharel de Artes em Literatura Inglesa (Harvard), Robert Tyre Jones demorou apenas um aninho para se formar em Direito, ofício de que fez profissão, como advogado.


Abandonando o Golf, a conselho médico, com apenas 28 anos, Bobby Jones é adorado no seu país e foi, até John Glenn, o único americano a ser premiado por duas vezes com a célebre parada de Nova Iorque. É hoje considerado um dos grandes cinco mitos do desporto americano dos anos 20 e o melhor desportista amador de todos os tempos. Sofrendo horrores e castigado pelos nervos, acusando muito o insustentável peso do par mas dando invariavelmente a provar aos seus adversários o doce da sua leal cordialidade e o fel do seu jogo devastador, este é um herói inteiro do Século XX. Mais put menos put.


Photobucket - Video and Image Hosting

quinta-feira, outubro 12, 2006

If We Must Die

If we must die, let it not be like hogs
Hunted and penned in an inglorious spot,
While round us bark the mad and hungry dogs,
Making their mock at our accursed lot.

If we must die, O let us nobly die,
So that our precious blood may not be shed
In vain; then even the monsters we defy
Shall be constrained to honor us though dead!

O kinsmen we must meet the common foe!
Though far outnumbered let us show us brave,
And for their thousand blows deal one deathblow!

What though before us lies the open grave?
Like men we'll face the murderous, cowardly pack,
Pressed to the wall, dying, but fighting back!

Claude McKay - 1919

quarta-feira, outubro 11, 2006

Photobucket - Video and Image Hosting

Coisas contemporâneas da idade da pedra.

Photobucket - Video and Image Hosting

O teste nuclear falhado dos norte coreanos acabou por ser uma coisa simpática. Primeiro porque falhou, pelo que ganhámos aqui uns meses de alívio, depois porque serviu de pretexto para um repreensão por parte de um alto diplomata da República Popular da China, o único país que consegue manter o cinismo necessário para alimentar relações frutuosas com Kim Il Sung (Chavez e Castro também são amiguinhos mas o sentido das proporções torna-os despiciendos). Seja como for, é por estas e por outras que nunca como hoje foi tão ameaçador o espectro da agressão nuclear. Qual guerra fria qual quê. É um crime de honra permitir que, em pleno Século XXI, trezentos e tal anos depois da Revolução Francesa, quatrocentos e tal anos depois da Revolução Inglesa, exista um estado como o que governa a Coreia do Norte. É um dequeles anacronismos terríveis com que se debate o actual planetário. Se fizermos a observação comparada do cronograma da evolução civilizacional, os desgraçados súbditos de Kim il Sung lá vão sobrevivendo - sabe-se lá como e ignora-se porquê - a um regime cuja inspiração deve remontar às mais ferozes tiranias da antiguidade clássica; os árabes estão atrasados 800 anos; os Persas retrocederam 16 séculos, o Paquistão vive um pesadelo de tiranias desde que é nação; na Índia, "a maior democracia do mundo" (democracia não significa liberdade), o regime de castas separa à nascença os que vão ser inacreditavelemnte miseráveis e os que vão ser inevitavelmente poderosos, deprimente determinismo mais velho que a própria História. Na China, pode-se enriquecer, mas não se pode votar, procedimento adminstrativo mais ou menos dentro do espírito da Dinastia Ming (Séc. XV). A nação que vai liderar o mundo e dominar o século vive ainda esmagada por um regime fascista, aparatchik, draconiano e multi-milionário. Na América do Sul os políticos podem traficar droga e mergulhar em corrupções, se forem eleitos pela esquerda. Podem perpetrar golpes de estado, podem invocar o diabo na Assembleia Geral das Nações Unidas, podem ter pides e milícias, podem portar-se como bandoleiros e capitães de roça do século XVIII, porque foram eleitos pela esquerda (eleições não querem dizer democracia). Na Rússia, ainda há jornalistas que morrem por causa daquilo que escrevem, como acontecia com Estaline, ou o Czar Nicolau. Nos Estados Unidos da América, ainda se ensinam os estudos primários como se Darwin nunca tivesse feito a tal viagem aos Galápagos: na Segunda-feira era o verbo, na quarta o mundo estava feito, no Sábado de manhã cria-se Adão, ao fim da tarde dá-se-lhe uma Eva para criada de quarto, em anexo vem o pecado e está pronto o universo porque chegou o dia santo de domingo, que é para descanso do pessoal. Em África, os tempos recuam à idade da selvajaria; os governos tratam com espantosa ineficiência as nações que governam, mas mostram-se de germânica operacionalidade na arte do genocídio étnico. É impressionante a quantidade de pessoas que se podem matar com uma catana e uma garrafa de aguardente. Na Europa, morre-se devagarinho, como foi devagarinho que a Roma imperial se perdeu. De preguiça ideológica, de obesidade filosófica e de anemia moral. Em cidades como Paris, Londres, Madrid ou Hamburgo, as vozes mais poderosas e mobilizadoras que se levantam são as dos líderes religiosos muçulmanos, que convidam alarvemente à aniquilação do infiel a troco de uma tantas gajas no bordel do paraíso. Como é bom de ver, não são só os americanos que têm esta fraqueza de trocar favores de cama com o inimigo. E pronto, foi o telejornal de 10 de Outubro de 2006. Voltamos a encontrar-nos aqui, no seu canal hospitalar de sempre, amanhã, à mesma hora. E não perca já a seguir, Prós e Contras com os palhaços do costume: hoje vão a debate as lamentáveis declarações daquele ordinário alemão que é Papa e que só contribuiram para aumentar o já muitíssimo justificado ódio dos seguidores do Grande Profeta, abençoado seja o seu nome. Boa noite.
Photobucket - Video and Image Hosting

segunda-feira, outubro 02, 2006

7 pérolas da Colecção do Dr. Rau.

Photobucket - Video and Image Hosting

4 - CANALETTO - Praça de S. Marcos
1740-1750, óleo sobre tela, 58.5x103 cm.

Giovanni Antonio Canale (1697 – 1768), conhecido para a posteridade por Canaletto, ganhou fama pelas suas magistrais representações dos canais da Veneza e é um personagem de conteúdo biográfico assim para o desinteressante, não fosse o seu descarado talento. Enquanto os paisagistas da sua época esgalhavam uns roughs dos cenários para depois se fecharem no estúdio e desenvolverem a obra, Canaletto iniciava e concluía todo o trabalho no mesmo sítio, o que muitas vantagens lhe trazia, principalmente no que respeita ao detalhe, à minúcia e ao preciosismo: as suas imagens são intensas de vida humana e quase de valor antropológico. Este amor picuinhas por Veneza, este rigorososo compromisso para com a realidade etnográfica da sua cidade natal rendeu-lhe um endinheirado clube de fãs em Inglaterra mas, em ultima análise, acabou por lhe amputar a criatividade. Por causa da Guerra da Sucessão Austríaca, os patronos ingleses deixaram de poder visitar Veneza e, quando Canalleto se vê obrigado a ir acampar para Londres (a velha história da montanha e do profeta), não se dá nada bem com a mudança de cenário. Há diferenças grandes entre o palácio dos Doges e a mansão Isabelina. Há diferenças enormes entre a cidade mediterrânica, luminosa e festiva, e a metrópole bretã, invernosa e protestante. Há diferenças de cores e de cheiros, de sons e de costumes e o mestre não consegue adaptar nem a sua vida nem a sua pintura. Para Canaletto, imigrar foi como que um caminhar para a cova da história da arte e, nesse sentido, este é um senhor que morreu duas vezes.
Funerais à parte, permanecem dois factos importantes. O primeiro: nesta pobre reprodução em blog da magnífica Praça de S. Marcos segundo Canalleto, não nos é permitida a resolução suficiente para se perceber que o homem é um verdadeiro e peregrino precursor do impressionismo. Apesar da incrível pormenorização cenográfica, a composição é de dot em dot, pincelada aqui, pincelada ali. A aparente contradição entre impressionismo e preciosismo cai ao zero absoluto.
O segundo: por aparente paradoxo, as mais notáveis representações paisagísticas de Veneza chegam-nos dois e três séculos depois da sua proverbial grandiosidade. Esta Veneza que vemos aqui, não é já a cidade capital comercial do mundo ocidental, a delicada e educada e burguesa Babilónia dos séculos XIV e XV. Mas, ainda assim, surge-nos sempre pungente de vida e riquezas, de tradições e exibicionismos. Mesmo assim parece uma cidade cosmopolita, opulenta, colonialista, dir-se-ia imperial. Ao meu lado, no M.N.A.A, uma senhora dizia ao seu marido: está aqui um cão muito mal desenhado que parece um macaco. O prestável marido lá lhe explicou então que se tratava precisamente de um macaco. Que era natural encontrar um macaco na Praça de S. Marcos, grande portal da aldeia global de outras eras. O facto porém é mais pertinente para a ciência histórica do que pode imaginar esta inquisitiva senhora que, com olhar crítico, chumbava o Mestre no díficil domínio da regra anatómica. A verdade é que as representações de Canalleto muito contribuíram para consubstanciar as teses de monstros sagrados como Braudel, que tentaram, com algum sucesso, demonstrar que a consolidação das rotas atlânticas registada no século XVI não faliu a vocação comercial do Mediterrâneo nos séculos posteriores. A ideia da decadência de cidades como Génova e Veneza nos séculos XVI e XVII está a perder fôlego académico, porque se encontraram entretanto registos de actividade comercial, financeira, portuária e naval muito contraditórios à tese universalmente aceite até ao segundo terço do século XX. Mas também porque podemos ter esta certeza: se o macaco está na tela de Canaletto, é porque estava na Praça de S. Marcos. E se estava lá naquele dia, a lógica probabilística recomenda ao senso que outros símios por ali deveriam passear, com naturalidade, pelo correr dos dias. E se outros símios passeavam com essa regularidade toda na Praça de S. Marcos é porque este ainda era o centro de um negócio tentacular sobre o Mediterrâneo e não de uma cidade falida pela aventura portuguesa ou pela cobiça castelhana.
Canalleto tinha afinal razão: é sempre importante prestarmos atenção ao detalhe. Até porque é a única maneira de entendermos o panorama.

sábado, setembro 30, 2006

A walk down Memory Lane.

Photobucket - Video and Image Hosting

1986. Entro para dentro da faculdade que ia ser minha. Eu digo: toda minha. Tirei um curso superior em matraquilhos e outro em saber levantar-me às 6 da manhã para chegar à Junqueira a tempo de ir jogar matraquilhos. Foi aqui, neste palácio de verdade que me formei. Quero dizer: o meu copo formou-se. O meu fígado formou-se. O meu coração formou-se. O meu cérebro também. O meu currículo não. Não ia nada às aulas e tive os melhores professores que um parvo de um paulo hasse paixão pode um dia sonhar que vai ter. O Senhor Professor Marques Bessa. O Senhor Professor Luís Bettencourt. O Senhor Professor Reboredo Seara. O Senhor Professor Adriano Moreira. Não era de todo um popular da faculdade e experimentei, mesmo assim, a alegria absoluta de ser de companhia. Cresci imenso. Diverti-me muito. Namorei deveras. De vez em quando fui feliz, feliz como só podemos ser felizes: sem dar por isso mas deixando memória para que 20 anos depois se perceba a felicidade. Saí sem tubo nem estatuto, saí ignorante na mesma, inadaptado como sempre, mas saí um gajo mais giro (é garantido). Um gajo com mais amigos e mais estórias. Um gajo com património de barriga e pontapé certeiro de avançado no espeto. Tive muita sorte em ter ido parar ao I.S.C.S.P.

Hoje jantei com uma certa malta da faculdade. Não completamente a minha malta, mas completamente pessoas de quem gosto e que já nem me reconhecem ao primeiro reconhecimento, dada a falta de cabelo e os 20 anos de distância. Hoje jantei com a malta que já lá estava quando fui para lá e - o que é mais - que já lá estava muito acima daquilo que eu nunca serei. Malta que deixou o liceu com médias de 18, de 19, de 20 valores. Malta que sabia que raio estava a fazer na universidade. Malta que (estava-se mesmo a ver) ia aonde queria ir e - 20 anos depois - chegou lá. São vencedores e eu gosto deles e eu gosto de saber que estudei (quase nada) no sítio que pariu estrategicamente* esta gente boa, esta gente sã, esta gente válida que produz proles e riquezas e sorrisos desinteressados, que se casa e que se divorcia com elegância, que conduz empresas como quem não quer a coisa, que faz notícia, que é a notícia, que está nos bastidores, que está na ribalta, que é influente, que é realizadora. Eu, que não sou nada disto, juro que gosto disto.

* A tradição pedagócica do Instituto de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Técnica de Lisboa é a de educar líderes.

quinta-feira, setembro 21, 2006

O melhor disco pop da história universal do libido.

Photobucket - Video and Image Hosting

"I decided I'd write one hundred love songs as a way of introducing myself to the world. Then I realized how long that would be. So I settled on sixty-nine."

"69 Love Songs is not remotely an album about love. It's an album about love songs, which are very far away from anything to do with love."


-Stephin Merritt-

Os Magnetic Fields não vêem nada a propósito mas o senhor Stephin Merritt é um magnífico herói e eu já há muito que lhe devo um post. Paneleirão grandiloquente, é um artista. Compositor indomável, é um palhaço rico no circo dos imortais. Poeta inspirado, Merrit é um músico daqueles que nascem de 10 em 10 milhões de músicos.
Lançado no já distante ano de 1999, 69 Love Songs debita um volume prodigioso de criatividade só para aí comparável a uma obra prima do barroco ou coisa que o valha. Estes 3 discos guardam autênticas maravilhas folk, supremas epifanias punk, pungentes suicídios grunge, espectaculares orgias beatnick, desesperados lamentos blues, violentas paixões soul e intermináveis traições rock n'roll. Da canção medieval ao registo grunge, do orgasmo esquecido à redenção da entrega, está lá tudo dentro do pacote. É impressionante. Nem vale a pena falar da beleza das melodias porque é preciso ouvir, ouvir e ouvir até saber trauteá-las todas no duche. Sobre as letras, o melhor mesmo é dar um exemplo:

---------------------------------
I DON'T BELIEVE IN THE SUN

They say there's a sun in the sky
but me, I can't imagine why
There might have been one
before you were gone
but now all I see is the night, so

I don't believe in the sun
How could it shine down on everyone
and never shine on me
How could there be
such cruelty.

The only sun I ever knew
was the beautiful one that was you
Since you went away
it's nighttime all day
and it's usually raining too

I don't believe in the sun
How could it shine down on everyone
and never shine on me
How could there be
such cruelty.

The only stars there really are
were shining in your eyes
There is no sun except the one
that never shone on other guys
The moon to whom the poets croon
has given up and died
Astronomy will have to be revised

I don't believe in the sun
How could it shine down on everyone
and never shine on me
How could there be
such cruelty.
---------------------------------

Nada mau, hã? Agora é só multiplicar por 69. A verdade conclusiva é só uma (e que me desculpem os visados): quem ainda não ouviu esta Obra está por fora da verdadeira história da pop.

quarta-feira, setembro 20, 2006

7 pérolas da Colecção do Dr. Rau.

Photobucket - Video and Image Hosting

3 - JAN VAN GOYEN - Tempestade
1637, óleo sobre madeira, 23.5x36.5 cm.

É uma pena, mas esta pérola assim, em reprodução mínima e digital, não se percebe. Não se percebe o encanto, não se percebe a intensidade cénica e não se percebe sobretudo a solidão quieta do camponês. Observada na parede do M.N.A.A., percebe-se melhor: ele está de costas mas eu cá vi perfeitamente o fascínio despreocupado que ilumina o seu olhar. A tempestade aproxima-se, ameaçadora sobre os restos de luz solar que obstinadamente o iluminam ainda. As árvores corroboram a ameaça, o horizonte sopra sarilhos e a paisagem toda movimenta-se atormentada. Mas ele não. Está de perna traçada, contemplando a borrasca. Não tem pressa de chegar a lado nenhum e parece encontrar-se num ermo distante, a milhas de um abrigo que o redima. Este facto é que, para ser sincero, nem no Museu se percebe. E foi precisamente o mistério dessa permanência, como uma espécie de atitude zen sobre o abismo; foi precisamente esse despreocupado olhar sobre a tempestade que me violentou a imaginação.
Jan van Goyen pintou mais de mil e duzentas coisas destas nos sessenta anos que passeou pelo planeta: paisagens urbanas e paisagens fluviais e mais paisagens bucólicas e outras tantas paisagens rurais, sempre dentro do espírito naturalista de que foi um seguidor inveterado. Mestre na criação de atmosferas poderosas e monocromáticas, que na verdade dominam e animam todo o conteúdo imagético, van Goyen não é propriamente um génio do seu tempo e, apesar de ter deixado algumas marcas na escola holandesa do século XVII, nunca alcançou grande reputação em vida (muito porque somava à ocupação de artista a de homem de negócios, para a qual, segundo parece, não tinha talento nem carácter).
Seja como for, este boneco é magnífico, caramba, e eu sou-lhe muito grato, Sr. Jan van Goyen.

domingo, setembro 10, 2006

Photobucket - Video and Image Hosting

Chegou ao court com um vestido de noite arrebatador e ganhou o U.S. Open limpinho, 6-4, 6-4 contra uma excelente adversária, Justine Henin-Hardenne, que até não jogou nada mal. É terrivelmente bela, e hoje foi terrivelmente demolidora. Sharapova vai fazer história porque sabe jogar ténis, porque é muito forte mentalmente e porque torna mais bonitos os monitores televisivos de todo o mundo, o que, convenhamos, não é dizer pouco.
Agora vou de férias uma semaninha e já volto.

quarta-feira, setembro 06, 2006

A biblioteca dos silêncios.

Photobucket - Video and Image Hosting

Se há uma merdinha que me chateia à brava nisto de ter um blog, é a de não ter tempo - ou espírito - para escrever sobre tudo e mais alguma coisa. É uma vergonha ficar para aqui calado dias a fio com tanta cena desinteressante e desinteressada que me passa por esta cabeçorra cota, já um bocado afanada no juízo e na memória.
E se há falha grande nestes conteúdos bizarros do blogville, a primeira é de certeza esta triste: escreve-se aqui muito pouco sobre livros. Que chatice de blog onde se escreve tão pouco sobre livros. Mas, caramba, que vos hei-de dizer eu, alma ociosa e ignorante, sobre Edward Gibbon? De que vos posso falar se estiver para aqui a falar do Mediterrâneo segundo Braudel ou do Tempo segundo Proust? Como posso eu, mesmo que num momento de raro esclarecimento, explicar a glória da História Universal da Infâmia? Alguma sugestão? Que palavras podem ser usadas para comentar a verdadeira Obra ao Branco que é esta mulher a quem chamavam Marguerite Yourcenar (a única belga com um lugar na história)? Sim, expliquem-me por favor como é que é isto de esgalhar um post sobre Os Doze Césares (já tentei e desisti) ou sobre As Origens Sociais da Ditadura e da Democracia, ou até, de forma mais descontraída, sobre O Vermelho e o Negro do meu querido Stendhal, sobre o Cândido do meu amado Voltaire ou o Memorial do Convento do canalha do Saramago.
É muito complicado para mim, que escrevo sobre quase tudo aquilo em que sou iletrado, escrever sobre a minha ileteracia e não é por ter lido e sonhado com o Admirável Mundo Novo, com o regresso de Ulisses, com o delírio em tempo real de Joyce, com os relatos mercenários de Cícero ou com as rimas de Dylan Thomas que deixo de ser valentemente ignorante.
Eu lamento imenso, mas é para mim muito difícil falar-vos de Álvaro de Campos. Outrossim de Walt Whitman. É deprimente, mas não sou audaz quanto baste para despejar umas certezas sobre a literatura russa, o teatro isabelino, a grande novela anglosaxónica e o estranhíssimo comunismo místico do romance sul-americano.
Serei sempre incapaz de vos aborrecer com aquilo que possa considerar sobre o génio paneleiro de Oscar Wilde, a virtude de Somerset Maugham, o negro coração de Joseph Conrad, as aguarelas beatnick de Allen Ginsberg ou os manifestos do bravo do Almada. Não percebo sequer como é que alguém tem o desplante de fazer crítica sobre a obra de Nietzsche, de Bachelard, de Anaxágoras ou de Filo de Alexandria.
Pois é: não sou gajo para isto. O máximo que consigo é conversar. Até porque, sobre livros, podíamos muito simplesmente ficar a conversar durante a noite toda da vida. É deliciosamente mais irresponsável por causa de não haver registo e é muito mais divertido por conta dos copos.

sábado, setembro 02, 2006

Photobucket - Video and Image Hosting

O Anacleto, mais conhecido pelo Gadelhas, é um típico produto da sobrevivência de solavanco; homem movido por acasos e azares de má fortuna, nú de ambições, sem horizontes nem perspectivas nem luzes no fim do túnel. Um amigão de infância e da Escola 6 do bom professor Carrilho, que distribuía generosamente sandes de atum pelos olheirentos famintos da 3ª classe, pelos descalços de fundilhos fanados, de olhos esbugalhados de medo de tudo e de nada, coxos de frieiras gretadas e nódoas roxas por tudo o que era orelha.
Fizemos juntos a instrução primária. Sabíamos a tabuada na ponta da língua, discutíamos, hesitantes, as horrorosas coisas da gramática e a impenetrável questão dos quebrados, mas rompemos, afinal, triunfantemente, os odiosos portões da escola, ofendidos e humilhados pelo duro percurso de uma instrução ganha frequentemente de mão estendida à pesada régua do castigo, aplicado conscenciosamente por gente crescida, educada na mesmíssima escola, dentro dos mesmos trilhos de intolerância.
Figura popular do Bairro, aceite com benevolência e pelo menos 2 taças de vinho tinto pelas esquinas atascadas do costume, Anacleto foi enrugando naturalmente, vende agora lotaria e pensos rápidos e namorisca preserverantemente uma multidão de miúdas da praça do peixe, o que lhe tem valido, amiúde, algumas contundências e equimoses de monta.
O último desaguisanço sentimental do Gadelhas, num dramático rompimento de relações muito comentado no sitio, traduziu-se numa declaração escrita, devidamente selada e remetida via CTT, à Anastácia dos Cogumelos, última mas muito sofrida paixoneta, cujo teor exibiu junto da rapaziada mais próxima e que vale por uma honrosa afirmação de intransigência. Transcrevo, em pleno acordo com o amigo Gadelhas, a dramática missiva.

"Bolinhas, juro-te pela minha rica saúde e à fé de quem sou que não vou gramar que esse emplastro do Farturas seja agora o teu ai jesus e que não vai passar copo e meio que não tenha as ventas tratadas à maneira. Não passa dum ranhoso de tola abaulada, de chinelo roto e fundilho no cú. O 1º Prémio do Tango que sacou nos Alunos de Apolo foi tanga. Mas já que não distingues um macho sério de um petinga ordinário, acabaram-se os marmelanços na escada da manhosa da tua avó e está arrumado o tarantantan do costume. O anel que desempenhei para te dar no Natal vais fazer o favor de o meteres onde muito bem sabes e que tem largueza de sobra. Olarilas!
Para já, digo-te que os óculos escuros que te dei, feito camelo, pela Páscoa, não valem um chavo e para dizer a verdade ficas um horror com essa porcaria espetada no nasal nojento. Vê mas é se engordas essas gâmbeas, penteia esse monte de sebo casposo que te cobre a estúpida cabeçorra e passa pelo Chanfrado das Dentaduras para ver se consegues matar esse bafiento hálito de gata prenha. E, já agora, agradeço que faças o favor de fugir, para que não me topes com a malta da tasca, por via das bocas.
E mais nada que não estou para estes faróis e garinas como tu, de cueca a tresandar a fénico, papo eu à dúzia, ao pequeno almoço."


Parece claro que o Gadelhas tem convicções muito fortes sobre como tratar estas delicadas questões e o tom folclórico da peça parece afirmá-lo como um cronista popular a ter em conta, logo que sair do hospital onde o visitei recentemente, acamado e maltratado, depois de uma pouco satisfatória troca de argumentos com o ordinário do Farturas.

quarta-feira, agosto 30, 2006

Avaria

Não adormeço de noite,
nem acordo para o dia.
Não sei a quantas ando,
não sei porquê ou quando:
avaria.

A vida está escangalhada,
é de caos que morro.
Que cesse o ruído tonto
para que grite de pronto:
socorro.

Rebentou finalmente
a máquina da abundância.
O café sai sem espuma
e Deus chama uma:
ambulância.

O automóvel da razão
tem cancro na bateria.
Falham mudanças e travões,
gripam os pistões:
avaria.

Perdem-se as comunicações
do mundo mecânico.
Digital, analógico e divino,
o universo entra em desatino:
pânico.

O frigorífico enregela,
o ferro de engomar desfalece.
O amplificador calou-se,
o velho cadeado soltou-se:
SOS.

A cidade toda colapsa,
em curto circuíto e agonia.
Cala-se o gerador central,
o carburador queima mal:
avaria.

Afundam-se os continentes
e não há quem acuda.
A civilização vai a cair
e não há ninguém para pedir:
ajuda.

A fé é um transistor inútil
e o chip da esperança berrou.
A estação de reciclagem
já não retempera a coragem:
acabou.

terça-feira, agosto 29, 2006

7 pérolas da Colecção do Dr. Rau.

Photobucket - Video and Image Hosting

2 - GUIDO RENI - David Decapita Golias
1606-1607, óleo sobre tela, 174.5x133 cm.

Por razões de sensibilidade pessoal, esta pérola tem que ser muito bem explicada.
Guido Reni (1575-1642) é um daqueles pintores ecléticos e comprometidos que banalizaram o barroco e, muito sinceramente, não me diz grande coisa. Nascido e criado em Bolonha, é em Roma, a soldo dos papas, que faz o seu melhor trabalho; nomeadamente o fresco de Casino dell'Aurora, nos paços do Palácio Pallavicini-Rospigliosi, que o imortalizou e que nem me aquece nem me arrefece.
Acontece porém que esta representação do velho mito-do-aparentemente-fraco-contra-o-aparentemente-forte é uma coisa, no mínimo, impactante. Para já porque é enorme para além do que pode ser grande uma tela (e esta é-o): o gesto do pequeno David é amplo, o corpo prostrado de Golias é titânico, sem que a diferença de escala nos pareça fictícia (o punho da espada de Golias, nas mãos de David, é muito importante para a conversa).
Além disso, sucede que Guido Reni é uma espécie de antítese de Caravaggio (coisa que não lhe desculpo), fugindo muito das cenografias mais densas, trágicas e lúgubres da bíblia para se focar antes em ambientes metrosexuais, aéreos, pueris e pacíficos, fazendo recurso a uma abordagem classicista que já na sua época se tornava um pouco estafada, mas que rendia ainda sólidos florins. Ora, nesta magnífica obra, abre-se a exepção: o momento é intenso e terrífico. Está-se mesmo a ver que o grandalhão vai perder o sagrado contacto entre a goela e o esófago. A coisa não vai correr bem. Antecipa-se o sangue e vive-se o horror. Mas, acima de tudo, nota-se a ausência da dicotomia herói e vilão, triunfando a lúcida dialéctica entre o derrotado e o vencedor: Golias, indefeso, não parece assim um tipo tão desprezível que mereça este impiedoso fim e David, na sua arrogante púrpura, vai desfechar o golpe terminal sem aparente problema de consciência: está sereno e coradinho, com o joelho convenientemente assente nos rins do gigante, mas sem vestígios de um ódio de morte. Tem até, na sua pequenez de menino cínico, um certo ar profissional.
E é precisamente aqui, neste momento ausente de valores prosaicos, neste gesto suspenso entre a certeza da decapitação imediata e a inutilidade moral da vingança, que está o bichinho danado que me captou e deliciou o olhar.
Pronto, está explicado.

Um blog de bom gosto.

O fusco lusco é um blog de um amigo meu (acho que ele não fica zangado por lhe chamar amigo, já que não nos conhecemos assim há muito tempo). Por isso, é claro que a minha análise é completamente subjectiva, mas, em todo o caso, é de mera justiça editar este post para dizer que o blog é mesmo porreiro porque:

• é completamente sem pretensão nenhuma;

• não fala muito de política, nem odeia ninguém, nem está para cá com merdas (nesse aspecto - e em muitos outros - é bastante diferente deste meu blog);

• o autor é uma pessoa de gostos muito qualificados e traz sempre à baila assuntos giros, inteligentes e pertinazes, muitos deles sinais do tempo e de todo em todo merecedores da breve leitura (o homem sabe escrever curto e bem);

• o lusco-fusco é, em suma, aquilo que a blogosfera devia ser mais: um acto de partilha. E um elogio das pequenas e grandes artes contemporâneas.

Visitem que vale a pena. É aqui.

quarta-feira, agosto 23, 2006

Génios em dó maior.

Photobucket - Video and Image Hosting

Este foi, em tempos, um blog sobre coisas porreiras como a Música. Convenhamos que já desafina o tamanho do silêncio corruptor da ideia mãe. Interrompo-o para falar de Outkast. E para falar de mim.

Coerentemente deselegante, começo por mim: não sou um gajo da "partilha de ficheiros". Compro música na Fnac e no iTunes e esta merda de achar que alguém tem que comprar música para que a indústria da música sobreviva deixa-me, só às vezes, em complicados lencóis. Por exemplo: não sei partilhar com a minha querida e escassa audiência o som que me inspira.

O som que me inspira neste preciso momento chegou-me pelo vento da MTV aqui há uns quinze dias, mas só desde ontem, vinte e dois de Agosto, é que está sorridente na bancada do bom capitalismo: Idlewild, o musical dos Outkast, está no ar e é a puta da loucura. Nem sei se o filme é de jeito e calculo que não, mas aposto na banda sonora na razão de um para dez.

Todos vós que, felizmente para todos vós, partilham e baixam música aqui e ali, baixem e partilhem esta: "Morris Brown - Featuring Morris Brown College Band". Os outros palermas como eu pagam duzentos mil-reis no iTunes (1 euro para os menores de 30 anos). Em todo o caso, compensa à brava. Juro.

segunda-feira, agosto 21, 2006

7 pérolas da Colecção do Dr. Rau.

Photobucket - Video and Image Hosting

1 - FRA ANGELICO - S. Miguel
1424-1425, folha de ouro sobre madeira, 35.5x14 cm

Esta coisinha linda que aqui está é um dos primeiros trabalhos conhecidos de Fra Angelico (1395-1455), o beato dominicano que, entre Roma e Florença, soube encontrar o caminho difícil e peregrino do Gótico para o Renascimento. Se bem repararem, a delicada figura do Arcanjo S. Miguel parece suspender-se de leveza insustentável sobre o dragão fatalmente trespassado. A anca inclina-se, quase num trejeito feminino, para ganhar um movimento ligeiro e gracioso.
A representação é substancial para além da sua extraordinária beleza. Em 1424, a pintura de retábulos era, com a excepção do trabalho de Giotto, composta por figuras rígidas e estáticas, retratadas segundo os medievos canônes da mitologia cristã. Este arcanjo maricas, despido de armaduras e trajando um sedoso exemplar da alta costura florentina, debroado a ouro, todo ele fleuma e elegância, é já Fra Angelico a interpretar os tempos. E a pintar em conformidade.

sexta-feira, agosto 18, 2006

Mártires para consumo do Ocidente.

Photobucket - Video and Image Hosting

No Nova Floresta descobri uma série de dados e links absolutamente arrepiantes sobre o niilismo mais grosseiro e o fanatismo mais nojento da propaganda islamita. Até Goebbels coraria de vergonha.
Só para concretizar um pouco: o infeliz representado na foto, um mártir para os editores do Independent, é realmente um actor/realizador/agente do Hezzbolah que usa cadáveres de crianças encontradas entre os escombros de locais bombardeados pelas forças israelitas para fins de guerra mediática. Se o take não sai "bem" à primeira, este incrível personagem (e há mais destes) volta a colocar a criança nos escombros para recomeçar outra vez a cena do pai destruído pela dor. É, de verdade, nauseabundo.
Para além da obrigatória visita ao excelente Nova Floresta, vale a pena, por muito que custe à sensibilidade, visitar este outro blog, onde a história é revelada integralmente.
Photobucket - Video and Image Hosting

"Temos que saber. Vamos saber."
David Hilbert - Discurso em Königsberg - 1930

Só posso iniciar este post assim: não percebo nada de Matemática. Sou mesmo um zero grande e até o tal boi infeliz, que proverbialmente condenámos à contemplação ignorante de Versalhes, interpreta uma equação de terceiro grau ou um exercício de cálculo diferencial com mais entendimento do que este vosso criado.
Em todo o caso, o deprimente facto não me inibe o entusiasmo. A Matemática é a primeira ciência e amo-a como qualquer Pitágoras que se preze. Dito isto, adiante.


POR DEUS, UMA CIÊNCIA EXACTA TEM QUE SER EXACTA.

Para um matemático a sério, doi à brava saber que a sua disciplina é uma ciência inconsistente. Quero eu dizer: que não está fechada completamente dentro da sua encruzilhada de lógicas porque, aqui e ali, existem contradições maçadoras e paradoxos inaceitáveis. O caos teima em deixar estigmas sobre o perfeito pensamento humano.
Para um matemático a sério como David Hilbert (1862-1943) este estado corrompido das coisas incorruptíveis não podia realmente continuar. A 8 de Agosto de 1900, na intervenção de abertura do Segundo Congresso Internacional de Matemáticos de Paris, Hilbert demonstra que se resumem afinal e "apenas" a 23, os engulhos indemonstráveis, os abjectos paradoxos, as vergonhosas contracantigas que durante séculos teimaram em desafinar a precisão harmónica, estética, intelectual e científica da Sinfonia do Número.
Para este enorme génio alemão - que atravessou, com a sua centelha, todo o espectro teórico da Matemática - resolvidas fossem estas irritantes charadas e a àlgebra e a geometria, a trigonometria e a lógica, a teoria dos números e o cálculo, os campos todos enfim do saber matemático unir-se-iam em uníssono e uniforme logaritmo de exactidão selada.
Lançado o repto, escusado será dizer que a comunidade científica regressou para os gabinetes das várias academias com uma obsessão missionária, ou melhor dizendo, com 23 seculares enxaquecas. Não é exagerado dizer que a Matemática de todo o século XX está marcada pela tese de Hilbert, muito simplesmente porque o santo homem soube orientar, com ousadia e prosápia, o pensamento científico para as áreas em debate.
Com o tempo, os seus problemas foram sendo, na sua grande parte, resolvidos. Uns revelaram-se depois de importância marginal, outros conduziram o espírito humano para as eloquentes conquistas - e misérias - do século das grandes guerras. O problema (eterno) é que certas soluções tiveram apenas o mérito de Pandora: uma vez reveladas libertavam outros monstros desconhecidos, outras aberrações da lógica sistémica, outros tiques quânticos muitíssimo danosos para a consistência da grande arquitectura de deus.


AS SETE PERGUNTAS-DE-UM-MILHÃO-DE-DÓLARES.

Exactamente cem anos depois e inspirados por essa mítica noite de Paris, os senhores que mandam no respeitabílissimo Clay Mathematics Institute of Cambridge, decidiram criar o prémio Clay, que atribui muito simplesmente um milhão de dólares a quem encontrar solução consistente para um destes sete problemas:

• Conjectura de Birch e Swinnerton-Dyer
• Conjectura de Hodge
• Equações de Navier-Stokes
• P versus NP
• Conjectura de Poincaré
• Hipótese de Riemann
• Teoria de Yang-Mills

Estes são, para a matemática contemporânea, os escolhos que restam no caminho para a paz de espírito. Para sabermos aquilo que devemos saber (leia-se: tudo), há que partir estas pedras.
Dada a natureza apelativa do prémio, esperavam-se resultados e a verdade é que eles estão a chegar. Parece que já temos um campeão, embora esteja a ser um bocadinho difícil encontrá-lo. Mas para contar a história como deve ser contada, comecemos por meter as mãos na matemática propriamente dita.


A CONJECTURA DE POINCARÉ OU "DEVES ESTAR A GOZAR!"

Jules Henri Poincaré (1854 - 1912), matemático, físico e filósofo, provavelmente o último universalista da Matemática, grande mago em óptica, eletricidade, telegrafia, capilaridade, elasticidade, termodinâmica, mecânica quântica, teoria da relatividade e cosmologia, discordava do fundamentalismo de Einstein e foi o primeiro a considerar a possibilidade de caos num sistema determinista. Isto não o impediu porém de perseguir bravamente o bug da incerteza. A inconsistência de que precisava para se irritar encontrou-a nos seus estudos de análise topográfica, em 1905. Por muito estranho que pareça, Poincaré chega à lamentável conclusão que qualquer variedade tridimensional fechada e com grupo fundamental trivial é homeomorfa a uma esfera tridimensional. Hã? Agora em português plano: tudo o que não tem buracos deve ser uma esfera.
Não, não estou a gozar. A mais fina matemática do homem que caminhou nas calmas pela superfície lunar demonstra cruamente que qualquer corpo tridimensional estável e fechado - um cubo, por exemplo - não passa de uma esplêndida bola!
Como é óbvio, o próprio Poincaré foi o primeiro a tentar refutar a sua demonstração, mas debalde. O infeliz génio já tinha libertado mais um monstrinho. No caso, um monstrinho de notável longevidade. E que agora parece entregar a corrupta alma ao aborrecido criador da grande desordem cósmica...


O RASPUTIN DA GEOMETRIA DIFERENCIAL.

Para bem da sanidade mental da terráquea comunidade científica, um alienígena chamado Grigori Yakovlevich Perelman, descobriu a pólvora sagrada e podemos enfim respirar de alívio. Porque se está claro desde sempre e para toda a gente que um cubo não deve ser uma esfera, para os matemáticos só agora se fez luz: a Conjectura do mestre Poincaré sofre de equívocos.
Grigori Perelman, Gisha para os amigos que nem se sabe bem quem são, é um daqueles cromos que justificam bem a iconografia excêntrica atribuída aos sábios. Nascido em S. Petersburgo no ano de 1966, foi um estudante brilhantíssimo, somou prémios e prestígio, doutorou-se na Universidade natal e por lá ficou a cogitar, espantando de vez em quando os seus correlegionários com algumas sentenças de prodigiosa invenção, principalmente no campo da geometria diferencial. É tímido, averso a honrarias, alérgico às tentações materiais e tem a figura chapada de Rasputin, com longos cabelos, barbas intermináveis, unhas por cortar e semblante alienado. Nas horas vagas, aventura-se pelas florestas à procura de cogumelos. É basicamente um eremita muitíssimo esperto e ninguém fazia ideia do que ia naquela cabecinha divina até que, num belo dia de Novembro de 2002 edita na net o primeiro paper do seu "Esboço de uma Prova Ecléctica". A Coisa cai como uma bomba de ácido sulfúrico entre os pares. Em 2003, viaja relutantemente às capitais mundiais da matemática (Princeton, Stanford, Yale, UCLA, and so on), para dar conta do seu trabalho e distribuir os 3 volumes da tese de 1000 páginas de equações abreviadas e prosa esotérica. A sensação é a de um climax operático. As afirmações de Gisha implicam verdadeiras revoluções do pensamento matemático, não por demonstrarem o óbvio (a esfera deve ser uma esfera, o cubo deve ser um cubo), mas pela assombrosa abordagem metodológica e pelo virtuosismo técnico da demonstração em si. Alguns extasiados colegas americanos comparam a beleza absoluta das suas equações à arte de Botticelli. Só para dar ideia do fôlego desta Obra ao Branco, Bruce Kleiner, catedrático de Yale mandatado para explicar aos colegas a demonstração de Gisha, passou os últimos 3 aninhos da sua vida apenasmente envolto na tarefa. Ele e outros consagrados académicos têm vindo a confirmar, passo a passo, a validade da Prova Ecléctica.


ONDE ESTÁ O GISHA?

Candidato óbvio ao milhão de dólares do prémio Clay, contendente fortíssimo à mais prestigiada honraria que os matemáticos são capazes de oferecer a um matemático - a Fields Medal - Grigori Yakovlevich Perelman comportou-se, no apogeu académico da sua vida, de acordo com a sua reputação: chegou, demonstrou, maravilhou a audiência e desapareceu do mapa. Depois da última ronda de conferências nos Estados Unidos, regressou à Mãe Rússia, indiferente aos chorudos convites que choveram, e consta que se demitiu do Instituto Steklov de S. Petersburgo. Não responde aos emails, não se lhe conhece uma morada ou um número de telefone. É evidente que não está para ninguém. Não quer saber de prémios; prefere ir à procura de cogumelos. Não precisa de empregos; faz profissão na floresta. Ao barulho da glória prefere o silêncio do Inverno pátrio, onde ninguém lhe interrompe as intermináveis contas de cabeça.


MORAL DA HISTÓRIA

A Matemática pode não passar de uma charada engendrada por deuses cruéis. Mas, por todos os Números Reais, produz mais heróis épicos que a literatura de Homero!


Fontes:
international herald tribune
wikipedia
history.mcs
clay mathematics Institute

quarta-feira, agosto 16, 2006

Um blog necessário.

Descobri finalmente um blog em português dedicado à causa do Ocidente e à monitorização da ameaça islâmica. Se calhar há mais, mas este é tudo aquilo que deve ser. O Observatório da Jihad é lúcido, corajoso, combativo e necessário. Bravo.
Photobucket - Video and Image Hosting

- FASCÍCULO QUATRO -

Foi modesta a venda de arte de D. Hortense Luz e pobre a comissão do convalescente Ruben Perdigoto.
Adiadas, por unanimidade, quaisquer propostas de serões do mesmo cariz no Salão Nobre da Junta, foi omitida, por pudor, a natureza dos acontecimentos que se referiram. Por entre os doces perfumes do insenso de sacristia, na quieta melancolia de seculares retábulos das vestutas coisas sagradas, o Padre Tristão tomou em suas santas mãos o rosto macerado do acólito Perdigoto paralhe dizer que são assim os ínvios e tormentosos caminhos e desígnios do Senhor. Que a arte, Segismundo d'Ávila, D. hortense Luz, o penoso sacrifício das suas partes, são, sem apelo, as impenetráveis escarpas que nos elevam a Deus. Que riscasse dos seus caminhos as ruelas e becos de fama duvidosa. Assim, se pouparia a exposições nos serviços de urgência em nada compatíveis com as piedosas determinantes da fé. Que não facilitasse, de costas, a vida ao Demónio.
Consta que a polícia local se debateu com notória dificuldade em dar corpo à participação da delicada ocorrência, na entremeada ambiguidade de termos como agnosticismo, heresia, naturezas mortas, sacos testiculares e bosta de boi, do que resultou um muito impreciso relatório final.
Segismundo d'Ávila compareceu, imperturbável, para o necessário complemento da curiosa instrução do processo. Esclareceu, condescendente, a questão da bosta e o mais subjacente ao serão de arte, vincando de forma precisa que a visão do nabo murcho, entre outras atrocidades inenarráveis, lhe afectara o siso, o rigor crítico, o sentido das coisas, bem como e marcadamente a mutilante cueca da D. Hortense, de facto uma deslumbrante afirmação de natureza viva.
Remetido ao foro psiquiátrico, não obstante a sua manifesta relutância, saíu sem o agravo de culposa acção. Consta que se passeia agora, igual a si mesmo, pelos caminhos do Buqueirão dos Anjos. Distante e senhorial, de juba cinzenta aos ventos, cigarrilha fumegante ao canto do lábio carnudo, húmido e sensual, distribui - parcimoniosamente e a pedido - o seu fino cartão de visita: "Segismundo d'Ávila, negociante de Arte Sacra".

-FIM-

domingo, agosto 06, 2006

The Charge of the Light Brigade

Photobucket - Video and Image Hosting
-The Charge of the Light Brigade as seen from the Russian positions on the Fedioukine Hills.-


1.
Half a league, half a league,
Half a league onward,
All in the valley of Death
Rode the six hundred.
"Forward, the Light Brigade!
"Charge for the guns!" he said:
Into the valley of Death
Rode the six hundred.

2.
"Forward, the Light Brigade!"
Was there a man dismay'd?
Not tho' the soldier knew
Someone had blunder'd:
Their's not to make reply,
Their's not to reason why,
Their's but to do and die:
Into the valley of Death
Rode the six hundred.

3.
Cannon to right of them,
Cannon to left of them,
Cannon in front of them
Volley'd and thunder'd;
Storm'd at with shot and shell,
Boldly they rode and well,
Into the jaws of Death,
Into the mouth of Hell
Rode the six hundred.

4.
Flash'd all their sabres bare,
Flash'd as they turn'd in air,
Sabring the gunners there,
Charging an army, while
All the world wonder'd:
Plunged in the battery-smoke
Right thro' the line they broke;
Cossack and Russian
Reel'd from the sabre stroke
Shatter'd and sunder'd.
Then they rode back, but not
Not the six hundred.

5.
Cannon to right of them,
Cannon to left of them,
Cannon behind them
Volley'd and thunder'd;
Storm'd at with shot and shell,
While horse and hero fell,
They that had fought so well
Came thro' the jaws of Death
Back from the mouth of Hell,
All that was left of them,
Left of six hundred.

6.
When can their glory fade?
O the wild charge they made!
All the world wondered.
Honor the charge they made,
Honor the Light Brigade,
Noble six hundred.

-Alfred, Lord Tennyson-


The Battle of Balaclava
Date: 25th October 1854
Place: On the southern Crimean coast in the Ukraine.
Combatants: British, French and Turkish troops against the Imperial Russian Army.
Generals: Lieutenant General the Earl of Raglan commanded the British Army, General Saint-Arnaud commanded the French Army. Prince Menshikov commanded the Russian Army. The Russian commander of the Balaclava assault was General Liprandi, Menshikov’s second in command.

terça-feira, agosto 01, 2006

As dioptrias da justiça.

Photobucket - Video and Image Hosting

O aparelho judicial e jurídico da Terceira República tem dois grandes inimigos: o condutor e o contribuinte. Conduzir depois de ter bebido dois copos de vinho e um Johnie Walker, isto sim, é matéria para arruinar a vida a um cidadão, que tem logo direito a cadastro criminal, prisão preventiva - e na reincidência escandalosa - chilindró garantido. Dever uns milhares de euros ao estado (sem se saber bem os milhões de euros que o estado deve aos contribuintes), esse sim é crime capital que justifica a estratégia draconiana da exposição delatora, desonrosa e reles (não, não estou na lista).
Agora, se um bando assassino de adolescentes mata à pancada o desgraçado de um maricas qualquer, o Ministério Público pede que se faça justiça recorrendo a uma cartilha, mais asneira, menos asneira, do género seguinte: "Sr. dr. juíz, queira compreender que estes tristes rapazes, vítimas de uma sociedade indigna da sua inocência, combatiam o tédio das suas singelas e imaculadas vidinhas pela aplicação periódica de uma quantas bárbaras e, enfim, terminais cacetadas no miserável canastro do triste paneleiro-sem-abrigo-nem-vergonha-que-estava-mesmo-a-pedi-las. Não tinham más intenções, para além da motivação lúdica, nem sabiam bem o que estavam a fazer com o corpo morto quando o esconderam e são até crianças devotas à causa cristã, clientes do reputado colégio de uns senhores padres que os educam para serem grandes homens nesta nação que para o futuro tem assim mais aberto o caminho. Vossa Excelência entenderá que, neste contexto, o Ministério exija somente uma reprimendazita, assim qualquer coisa que não chegue a um ano de recolhimento, se possível no fraldário da Cruz Vermelha."
Nada de acusações de homicídio voluntário ou involuntário, nada de sugestões de ocultação do cadáver, nada de saber e investigar como é que um colégio interno gerido pela igreja cria monstros destes, nada, portanto, de decente. O juíz, do alto da sua supra-poderosa ignorância, concorda e sai-se com esta pérola (sic): "Tratou-se de uma brincadeira de mau gosto e espero que as penas aplicadas sirvam de emenda." A defesa, apesar de tudo, insiste em advogar satã e protesta e ameaça e rebola-se na ignomínia dos recursos.
A justiça em Portugal transformou-se num sistema espectacularmente imoral e isto já para não estar aqui com conversas sobre a clemente e convenientemente parcimoniosa jurisprudência para com pedófilos da alta sociedade, mãezinhas que fazem simplesmente desaparecer os seus filhos debaixo da primeira cova que encontram, políticos que despacham a favor dos amigos e em desfavor da lei de república 4 dias antes de deixarem o governo, autarcas fora-da-lei que fogem para o Brasil e regressam para as eleições (nem D. Afonso VI tinha lata p'ra isto); presidentes de clubes desportivos que servem putas aos árbitros depois do jantarzinho que também fizeram o favor de pagar; proxonetas de negócio tão sujo como chorudo, que são libertados com umas pulseiras de tornozelo xpto/gps, depois descartáveis com qualquer alicate da loja dos trezentos, de forma a que possam fugir (outra vez) para o Brasil; antigos pides e confessos assassinos que regressam à pátria para morrer em paz; terroristas do verão quente que são condecorados pela Presidência da República; traficantes de heroína do Casal Ventoso a quem o Dr. João Soares ofereceu uns belos apartamentos na condição ponderada de que não traficassem mais no Casal Ventoso (os novos proprietários traficam agora na Rua Sidónio da Silva) e todos os militantes do Bloco de Esquerda. Para esta gentalha (e outra muita que seria exaustivo descrever em detalhe) a Terceira República mostra a face bonacheirona de quem se peida depois da refeição, a complacência desenterrada das comunas de 68, o humanitarismo bolorento de sacristia, a pedante, francesa e imunda tolerância.
A Justiça em Portugal é a piada mais fraquinha do anedotário dos deuses da democracia e isto já para não falar do Procurador Geral da República que temos e que vai terminar o seu infame, vergonhoso, incompetente, indigno, suspeito e malandro mandato como se nada fosse: impune e inimputável, incólume e sereno. Este imbecil dos sete costados será um dia também condecorado por uma futura e equivalententemente imbecil Presidência da República, e haverá uma rua em Lisboa com o seu nome, e será talvez retratado o seu rosto de rato estúpido para a posteridade, num boneco a cores do Júlio Pomar devidamente colocado no mais nobre dos salões nobres da Procuradoria Geral da República. Este senhor, que só fez merda, que foi conivente ou que foi cúmplice ou que foi autor moral de crimes contra o estado, contra os cidadãos e contra uma noção mínima de decência pública, é uma glória. O desgraçado do cidadão que está atrasado para uma reunião em Coimbra e que descuidadamente leva o seu carrinho pela A1 a 160 km por hora, é um bandido.
A justiça em Portugal é uma vergonha grande e isto já para não falar naquele gajo que tem porte de arma e pode andar armado pelas ruas mesmo que tenha bebido 20 bagaços. É legal. É porreiro. Uma arma de fogo é muito menos perigosa que um automóvel. E isto já para não falar do alegre Presidente de uma Câmara falida que continua a oferecer festivais disto e celebrações daquilo e eventos daqueloutro, porque deu as devidas ordens para que não se pague nada a fonecedor nenhum. É legítimo. Não é por tesura de fundos que os votos deixam de ser comprados. Aqueles que prestaram, entretanto, os serviços ao município e que tornaram possíveis os festivais e as celebrações e os eventos e que ficam anos para receber as devidas facturas e que, por isso, não têm dinheirinho para pagar o IVA e o IRS e o IRC e o IMI e a Segurança Social e a puta que os pariu, esses são os canalhas, esses são os metralhas, esses que se lixaram a trabalhar, esses que fazem mais do que apenas viver à conta de quem trabalha, esses são os marginais.
Aos crápulas, aos assassinos, aos bandidos, aos terroristas e aos traidores, devemos mostrar misericórdia, caramba. Quanto aos outros, é apertar com eles. Afinal, para que precisa Portugal de gente decente?

domingo, julho 30, 2006

Photobucket - Video and Image Hosting

- FASCÍCULO TRÊS -

Segismundo d'Ávila movia-se, de sorriso cáustico e cigarrilha fumegante, por entre a mole que cercava os bolinhos e os biscoitos com um afã que o escrivão da Junta registaria na acta como inequívoca colagem à arte, sem precedentes na história de outros sucessos e assembleias gerais regulamentares.
Foi por esta altura, quando os bandulhos estavam já agradavelmente confortados, que Segismundo se deu de frente com D. Hortense Luz - olhos nos olhos - ela ofegante, entumecida de calores e emoções a que, seguramente, o Padre Tristão não teria acesso no confessionário; ele crispado, tomado de fulgores que lhe ruborizavam o carão. Conta-se que lhe segredou algo junto do auditivo. Segundo depoimentos credíveis de circunstantes mais próximos terá declarado sem peias que as pendurezas em exibição não valiam a bosta de um boi, uma merda para reter nos anais da arte menor e, ainda, que o nabo e as nabiças mereciam menos do que simplesmente serem plantados nos escarninhos da sua opulenta rabada.
Consta que se gerou um movimento de viva contestação e no momento em que José Fagundes, no exercício das suas elevadas funções se aproximou, temeroso, para quebrantar o burburinho, já Segismundo d'Ávila rasgava brutalmente e de um só golpe o decote da artista até à cueca relampejante de multicoloridas lantejoulas e outras enternecedoras fantasias chinesas. O espanto geral deu lugar a um silêncio aterrador. Ruben Perdigoto, titubeante, de careta franzida e cinzenta palidez arrostou a fleuma da Segismundo.
- Herege!
Segismundo d'Ávila ajustou a gravata tom de abóbora madura e encarou-o, circunspecto.
- Sou agnóstico. A presunção de heresia não me atinge. Não há deus nem nesse seu cú sem vergonha.
Hortense, ainda mal refeita do golpe, erguia as mãos numa muda súplica, enquanto Segismundo alapava todo o peso da sua mão na pálida bochecha do temente rato de sacristia que, por deplorável acréscimo, ainda oscilante, recebeu, sem outros arrebiques de palavrosa agressividade, a lustrosa biqueira de fino sapato da Charles no delicado e justo lugar do vaso testicular, caindo logo após na fria pedra do salão nobre da junta do senhor Fagundes.
Pelo que se diz, pouco restou de apendice testicular à piedosa criatura, o que, valha a verdade, sempre era coisa de menor valia.

(cont.)

domingo, julho 23, 2006

A primeira praia.

Photobucket - Video and Image Hosting

Esta é a primeira praia marítima de Portugal, para quem desce da Galiza, ou a última, para quem sobe de Viana do Castelo. Chama-se Praia do Moledo e a imagem não lhe faz justiça porque foi tirada da marginal, que não acompanha a sua magnífica extensão nem alcança a espectacular foz do Rio Minho, onde há quilómetros de um areal imaculado, deserto, selvagem e encantador. Onde tive apenas por companhia o Forte do Cão, insular ameaça de canhões apontados para a margem espanhola; o oceano, que rebenta em branco puro sobre o verde profundo da maré; a brisa suave, que me acariciou o corpo e que me refrescou a emoção; a areia grossa, autêntica, brilhante; o cheiro marinho do meu país que assim começa.
Sempre achei que a norte do Tejo não havia condições de veraneio, mas aqui, no Moledo, localidade vizinha de Caminha (722 anos de foral!), orla mágica do Minho, princípio e fim de Portugal, encontrei uma das praias mais bonitas que já vi. Sim, aqui mesmo, ofereceram-me os deuses do olimpo lusitano um dia simplesmente perfeito.

sábado, julho 22, 2006

Sobre a moral da guerra.

Photobucket - Video and Image Hosting

Tenho ultimamente ouvido - e lido - grandes desvarios sobre os acontecimentos do Médio Oriente. O desvario que mais tem pegado é o de que Israel está a reagir às actividades pacifistas do Hezbolah sem o devido sentido das proporções. No Expresso, a D. Clara Ferreira Alves, sabe-se lá porque raio de delírio diftérico, pôs-se a escrever umas coisas sobre o assunto (estou-lhe mesmo a ver a expressão sobranceira de quem leva a luz às massas): pelos vistos, os israelitas deveriam estar conformados com o facto de serem o alvo natural dos rockets que, com regularidade suiça e pontaria desastrada largam do sul do Líbano. O Estado de Israel deveria habituar-se às bombas que explodem - estas sim - indiscriminadamente nas suas ruas. Não é agora por uns soldadinhos terem caído na ratoeira que há desculpa para ripostar. A D. Clara Ferreira Alves confirma, do alto de seu saber perito, que é despropocionada a ofensiva militar, cujo comandante em chefe é um homem laico, eleito por processos democráticos no contexto de um estado de direito. A D. Clara Ferreira Alves não acha que é despropocionada a selvajaria primeira, perpetrada por uma corja de bandidos profissionais, bárbaros sacerdotes e assassinos de deus, uma organização que é fascista a sério, criada e alimentada pelo Irão, país simpático e cordato, que toma há décadas como refém o povo do sul do Libano (a Síria tem coutada mais a Norte). Que eu saiba, a D. Clara Ferreira Alves nunca escreveu sobre os libaneses que morreram às mãos de Arafat ou de Khomeini ou de Hafez el Assad, mas faz questão agora de se lamentar por Beirute.
É verdade e, caramba, imensamente lamentável, que estão a morrer inocentes nas ruas desta cidade mártir. Mas, pelos anjos da lógica, que dizer dos inocentes que morrem todos os dias em Israel, noutras muitas cidades sacrificadas?
Mais a mais, toda a gente de senso sabe muito bem que é precisamente atrás de estruturas civis e de vidas humanas que se esconde a Hezzbolah. Que é com crianças que faz a guerra. Que é com inocentes que encena os sacrifícios. É natural que a D. Clara Ferreira Alves ignore que não há uma forma limpa de combater a sujidade maior do terrorismo. Perdendo algum tempo na leitura das suas crónicas, percebe-se que esta senhora ignora realidades várias. O que já não é admissível é que a sua ignorância nos seja revelada assim, com ares professorais e pretensões de seriedade.

A guerra é sempre imoral. É por natureza imoral. Afirmar que a morte de civis e a destruição de infra-estruturas não militares é um acto contrário às leis morais da guerra, como o fez hoje na SIC Notícias o inevitável Sr. Dr. Nuno Rogeiro, é de uma vilania arrepiante. É que o Sr. Dr. Nuno Rogeiro, experimentado pirata, sabe muito bem que é precisamente com as baixas civis - dos dois lados da barricada - que estes terríveis islamitas fazem a guerra e manipulam a opinião ingénua e impressionável da plateia global. Mais: o Sr. Dr. Nuno Rogeiro tem plena consciência que não há registo na história universal do ódio de uma guerra que não tenha sacrificado sangue inocente. O Sr. Dr. não ignora os inocentes de Dresden, concerteza, aposto que até se lembra da forma prática como os americanos acabaram com a guerra no Pacífico e não acredito que se tenha já esquecido do divertimento preferido dos exércitos de Napoleão ou da proverbial simpatia do invasor russo. Prefere porém, o Sr. Dr., a verdade de plástico e a ética do soundbyte. Uma vergonha.

O que está em causa no médio-oriente é o choque entre dois modelos civilizacionais. Ou - se quiserem - dois paradigmas oníricos: a sociedade com que eu sonho é antípoda da sociedade com que sonha o radical islâmico. Acontece que são precisamente os radicais islâmicos aqueles que dominam hoje o mundo muçulmano. Acontece que são precisamente os radicais islâmicos que amaldiçoam e ameaçam a minha possibilidade de sonhar. Que desrespeitam a minha diferença. Que insultam a minha inteligência. Que fragilizam a minha liberdade com bombas, com misseís, com raptos, com reptos, com pragas, com interdições e com merdas e com vinganças e com o despotismo de deus. Já ninguém se lembra dos incontáveis milhões de inocentes que morreram na Europa para acabar com o despotismo de deus? Por muito menos do que isto, já tanta gente foi despachada para o inferno, senhores. Motivos bem mais ligeiros, acabaram por elevar multidões de almas ao céu, senhoras.

Israel tem motivos de sobra para fazer esta guerra. E a Europa devia entender isso porque Israel trava por nós uma batalha decisiva. São os israelitas que estão na linha da frente. São eles que primeiro explodem nos autocarros.
Podemos e devemos sofrer por cada vida que cai por terra, no horror diário da guerra. Mas temos também a responsabilidade de honrar o venerável compromisso das liberdades individuais, da democracia laica e do estado de direito. Custe o que custar.


Nota: a imagem em cima foi retirada de um site de propaganda do Hezzbolah. Para esta organização escuteira, boa publicidade é uma parada militar com crianças armadas, pisando bandeiras.

Um deus descartável.

"O Coronel Sanders cruzou os braços e fitou Hoshino nos olhos.
- Quem é Deus?
A questão obrigou Hoshino a pensar. O Coronel Sanders não lhe deu tréguas.
- Sim, qual é o aspecto Dele? O que é que ele faz?
- Não me pergunte a mim. Deus é Deus. Está em toda a parte, vê tudo o que fazemos, distingue o bem do mal.
- Mais parece um árbitro de futebol.
- Sim, não anda longe disso.
- Isso quer dizer que Deus usa calções, corre de apito na boca e sempre de olho no relógio?
- O senhor sabe bem que não é isso que quero dizer - Replicou Hoshino.
- E os deuses japoneses são da família dos deuses estrangeiros? Ou serão antes inimigos?
- Como é que eu hei-de saber?
- Escuta uma coisa que te vou dizer, meu caro Hoshino. Deus só existe na cabeça das pessoas. Aqui no Japão, o conceito de Deus sempre foi entendido de uma maneira aberta. Vê só o que aconteceu a seguir à guerra. Douglas McArthur ordenou ao divino imperador que deixasse de ser Deus, e ele obedeceu, fazendo um discurso em que se dizia um homem vulgar, igual aos outros. E foi assim que, depois de 1946, ele deixou de ser Deus. São assim os deuses japoneses - adaptam-se e ajustam-se à realidade. Aparece um militar americano qualquer pendurado num cachimbo barato, altera a ordem e pronto, muda tudo - não há Deus para ninguém. Uma atitude muito pós-moderna. Quando dá jeito que Deus esteja aqui, Ele está. Quando não dá, Ele deixa de estar. Se é isso que é ser Deus, vou ali e já venho."

HARUKI MURAKAMI
-KAFKA À BEIRA-MAR-

quinta-feira, julho 13, 2006

Photobucket - Video and Image Hosting

- FASCÍCULO DOIS -

Foi o caso que decidiu a Junta de Freguesia, por altura dos idos de Março, acordar o sempre lamentável torpor estético dos fregueses - somente os devidamente registados no último censo - reunindo-os para desfrutarem da exposição de pintura de naturezas mortas, organizada para prover a algumas carências da prendada autora, D. Hortense Luz, viúva, notável poetisa e espírita conceituada. Anunciado generoso beberete, arrancadas à naftalina fatiotas de uso para solenidades maiores, deslocaram-se as gentes para o serão cultural.
Segismundo d'Ávila figurava na ponderada lista de convivas, sendo que se lhe solicitara, com respeito, na sua qualidade de homem das artes, uma dissertação crítica final, quanto às capacidades de D. Hortense Luz na difícil representação da natureza morta, inspiração que vestia de magnífico luto dada a recente e dolorosa partida do notabilíssimo esposo, notário reformado, homem muito religioso e contribuinte assíduo para o seminário da diocese.
Considerou Segismundo que o convite tão dignificantemente posto pela cáfila de palermas da Junta não afectaria a sua indiferença por eventos daquela pequenez e, antes, lhe proporcionaria uma oportunidade para desnudar certas complexidades e dogmas da arte menor que antevia no horror do nabo morto, esparramado no barro de hilariantes arabescos, da murcha gardénia tristemente espartilhada em qualquer jarrão de plástico de feira e de outras obscenidades que sabia inevitáveis naqueles objectos de mansa estupidez.
Não lhe era indiferente a artista D. Hortense. Com efeito, havia-a lobrigado antes, empanturrando a trágica viuvez em cremes de chantili pelos lugares do costume, lubricamente embrulhada de negro curto, decote vasto, salto alto para sugestivo suporte da acentuada rabadilha e outras magnificências que surpreendentemente o haviam perturbado, que lhe tinham movido a gélida fleuma e penetrado a férrea armadura da sua impassibilidade.
Naquele dia, as vermelhuscas bochechas de José Fagundes, benquisto Presidente da Junta, sacudiam-se de gozo na recepção janota, aprimorado de cravo rubro na lapela, sensibilizado pelo transparente entusiasmo dos seus correligionários, congregados em notável euforia junto do bufete pungente de cor e acaramelados mimos, expressamente encomendados na Primorosa do Chiado. Acotovelavam-se os grupinhos, esfarrapavam-se os finos biscoitos e os celebrados queques de manteiga, olhavam-se compenetradamente as naturezas mortas a 2 euros o metro quadrado, entre múrmurios cautelosos e pálidos sorrisos. Saracoteava-se a festejada D. Hortense, dente aberto num sorriso escancarado, oferecendo queques e chá, movimentando as contundentes nádegas enquanto anotava, conscensiosamente, alguns metros quadrados de venda apalavrada.
Sempre colado à insigne criatura, o ex-seminarista Ruben Perdigoto - que fora, em tempos, do foro íntimo do notário tão dolorosamente arrancado à vida e era agora acólito do bom padre Tristão nas missas de Domingo - sorria, servil. Devotado às coisas da sacristia, presença abençoada, dizia-se, na preparação das sagradas coisas do culto de Deus, notório homossexual, gábiru de orgias inconfessáveis que não teriam merecido o consenso da rígida directoria do seminário; do qual, pela indecente figura, fora afastado; a Ruben Perdigoto interessava-lhe mais a comissão estabelecida com D. Hortense sobre a venda da arte que elogiava, recomendava e impunha aos mais cépticos.

(cont.)

terça-feira, julho 11, 2006

A bola pode continuar redonda.

Assim como está, o futebol adormece qualquer cocainómano. Na final de ontem, o Campeão do Mundo fez uma segunda parte de anedotário: os italianos não conseguiram simplesmente jogar a bola e este triste facto é bem ilustrativo de um Mundial que foi, como já tinha sido o anterior, consistentemente lamentável. A beleza do jogo - que se fundamenta essencialmente na espectacularidade plástica dos movimentos de ataque - foi subjugada por um realismo cínico, interesseiro e cobardolas que está rapidamente a aniquilar o objecto da maior paixão de massas dos últimos 60 anos. Parece-me assim que as iluminárias da FIFA devem considerar seriamente a prossecução de uma reforma profunda nas regras do jogo, libertando-o das mordaças tácticas e devolvendo-lhe a dignidade perdida.

Eis assim, uma humilde mas indignada contribuição para o think tank do sr. Blatter:


SETE FINTAS BLOGVILLE

Photobucket - Video and Image Hosting

Finta 1 - Composição da Equipa - Uma equipa de futebol deve apresentar-se em campo com dez jogadores. Para já, porque é a única maneira de ter mais equipas a jogar só com um trinco, o que aumentará logo a qualidade do espectáculo. Depois, por aquilo que se ganha em espaço para jogar e em tempo para pensar o jogo.

Finta 2 - Tempo de jogo - A cronometragem da partida deve obedecer ao apito do árbitro. O cronómetro pára a contagem no momento em que o juíz interrompe um lance e recomeça-a quando o juíz manda jogar. Se a bola sai, o cronómetro pára. Se é golo, o cronómetro pára. Se um jogador está lesionado, o cronómetro pára.
Com duas partes de 30 minutos de tempo real de jogo já não havia cá fitas e fingimentos e merdas que só são uma grandessíssima vergonha. E os espectador, que pagou bilhete ou sporttv, sempre terá a certeza que vai de facto ver uma hora de jogo jogado.

Finta 3 - Disciplina - A lógica disciplinar dos cartões e das expulsões é - e sempre foi - desadequada. É desadequada porque se parte do princípio que o espectáculo sobrevive à expulsão dos seus artistas. É desadequada porque não pode ter em atenção o calor da disputa, o erro humano, a emoção e a carga de nervos. A frustração e o desespero. É desadequada porque é humilhante. Não me interessa nada que o trauliteiro italiano leve uma cabeçada (deve ter sido bem merecida), mas desagrada-me bastante a expulsão de Zidane, no último jogo da sua magnífica carreira de futebolista.
De qualquer forma, a redução proposta no item 1 implica também uma revisão nas leis disciplinares, de forma a não corrermos o risco de ter jogos a serem disputados por cinco ou seis gatos pingados para cada lado.
A solução encontrada no hóquei em gelo é porventura mais adequada, se for introduzida com os necessários ajustamentos: uma falta violenta ou três faltas consecutivas conduzem o jogador à "box" onde permanecerá cinco minutos, após os quais pode voltar à partida. Em caso de agressão, o jogador permanecerá na box durante dez minutos. Enquanto um jogador permanece na box a equipa não o pode substituir.
Esta solução permitirá a génese de uma nova dimensão no jogo, aquilo a que no hóquei em gelo se designa por "PowerPlay". As equipas em vantagem numérica têm sempre uma pressão acrescida para jogar ao ataque e marcam-se, naturalmente, mais golos nestas situações. Em vez de estigmatizar o jogador, assumimos o futebol como um desporto de contacto e, tirando partido da natural apetência do ser humaqno para a violência, enriquecemos a dinâmica do jogo e a qualidade do espectáculo.

Finta 4 - Reposição da bola em jogo - O lançamento da linha lateral tem que começar rapidamente a ser efectuado com os pés. Afinal, não é por causa das mãozinhas que o Ronaldinho Gaúcho é conhecido. E depois, a introdução da bola com um pontapé tornará inevitavelmente esta situação de jogo muito mais interessante para o avançado e bem mais desagradável para o defesa. Diminuiam os cortes para a bancada, aumentavam os centros perigosos para a área, subia a média de golos por jogo.

Photobucket - Video and Image Hosting

Finta 5 - Dimensões do terreno e da baliza - Não faz sentido que um campo de jogo tenha medidas definidas entre 90 e 120 de comprimento e 45 e 90 de largura. As medidas devem ser fixadas sem intervalos. Como não concordo com o aumento das dimensões para além destes limites máximos (receio perder consistência de passe e homogenuidade de movimentos e as regras 1 e 3 também não o aconselham), proponho 80x110.
Acho porém que não faz mal nenhum aumentarmos as medidas das balizas, muito pelo contrário. Há no entanto que ter o cuidado de não desvalorizar o papel do Guarda-Redes, que é uma verdadeira pérola da geometria descritiva, uma quixotesca figura de novela-prima e substância essencial para um bom espectáculo de futebol (na figura 1 retirei a pequena área porque acho que o Guarda-Redes deve ser protegido em toda a sua zona de intervenção). As medidas que proponho estão na figura em cima, e resultam de aturados estudos estatísticos e análises de ergonomia (leia-se: 2 minutos de senso comum).

Finta 6 - Fora de Jogo - A regra do fora-de-jogo deve ser aplicada apenas nos últimos 30 metros de cada metade do terreno. Assim, facilitariamos as transições, promovendo partidas mais agressivas e mais rápidas, sem sacrificar a coerência estrutural do jogo.

Finta 7 - Arbitragem e tecnologia - O jogo deve ser arbitrado por uma equipa de 6 juízes, a saber: dois no campo (um para cada metade do terreno), dois fiscais de linha e dois assistentes fora das 4 linhas - um no campo, outro na Régie. Os árbitros estão telecomunicantes e - sempre que se justifique - o jogo pára para verificação do lance em vídeo, sendo perfeitamente possível concluir o procedimento em 30 segundos, um minuto no máximo.
Porque o ser humano não tem a capacidade ubíqua de registar visualmente dois campos de acção em simultâneo, a cibernética deve ser incorporada na determinação dos foras-de-jogo (chips no equipamento dos jogadores) e há de uma vez por todas que desenvolver um qualquer sistema de leitura óptica da linha de golo.


É claro que há muito mais fintas na minha cabeça. Mas não quero ser exaustivo e o princípio básico é o do título deste post: a bola deve continuar "redonda para os dois lados". O resto pode mudar. Diz-nos a experiência e a inteligência que é precisamente isso que se faz àquilo que está mal.
Image hosting by Photobucket

sexta-feira, julho 07, 2006

Para variar, um post importante.

Photobucket - Video and Image Hosting

Foi hoje lançado no Porto o livro "Pequenas histórias sem importância" do meu querido Pedro Serrazina, que deve ser para aí mais uma obra prima deste menino-prodígio-e-pessoa-absolutamente-impecável. Façam o favor de comprar já e ler logo a seguir.

Por estes dias, segundo creio, sairá a muito aguardada edição em livro do Nova Frente, o notabilíssimo blog do meu não menos estimado amigo Bruno Oliveira Santos. Façam o favor de ficar atentos.

Muito agradecido.

terça-feira, julho 04, 2006

Cinco Quinas de Desprezo.

"Quanto mais estrangeiros vi, mais amei a minha Pátria."
-Dormont De Belloy-

Holandeses, ingleses e franceses, espanhóis, ucranianos e suecos perfazem todos, cabeça por cabeça, um verdadeiro rebanho de boas razões para se ser Português. Depois de a Selecção Nacional ter cometido apenas 3 faltas nos primeiros 45 minutos dos quartos-de-final (suprema bofetada na tromba imbecil da imprensa britânica), ainda vêm agora estas bestas contorcer-se em conferências de imprensa manhosas, cuidadosamente arquitectadas no balneário da indignidade humana e nas redacções dos esgotos de Paris. O que se pergunta e o que se responde, em combinado passo-de-tango-no-bordel, é discurso pestilento de gente verdadeiramente embrenhada na orgia da estupidez, de gente apenasmente assustada com a coragem que a malta das quinas tem demonstrado em campo. Este mundial tem enjoado bastante, no que diz respeito à falabaratice estrangeira.

A citação que ilustra este postal - e a minha indignação - é de um francês, bem sei. Mas todas as nações, por muito deficitárias que sejam em qualidade humana - e a França é um bastante exemplo de mediocridade - têm os seus génios de trazer por casa. Como patinho feio da Europa, Portugal não devia ter chegado a este patamar da competição. Eu percebo isso. Mas não poderiam todos estes turistas da treta que mostraram até aqui um futebolzinho envergonhado, velhote, sorporífero e cobarde (qualquer bardamerda eliminava aquele Brasil tristonho) fazer-me o favor piedoso de parar com os peidos mediáticos de quadrúpede metabolismo e vegetal inteligência? Por muito pouco natural que seja a presença da Selecção Portuguesa no sacrossanto beliche da elite do futebol mundial, não poderiam todos estes craques de polipropileno aparecer menos na televisão e aproveitar esse precioso bocado de tempo para ir mais aos treinos? Não poderiam poupar-se e poupar-me ao espectáculo excrescente da sua própria vilania?

Independentemente do que aconteça na meia-final, a conquista é já evidente e não tem nada a ver com futebol. Este mundial foi uma excelente maneira de tornar evidente aos portugueses que os países da grande civilização ocidental estão também consideravelmente infestados de sapiens da mais baixa condição. Que o problema da heroicidade ausente e da decadência das elites não é um exclusivo português. Que o nível da imprensa internacional está bem abaixo daquele que a muito custo ainda conseguimos manter. Que outros para além de nós também sofrem do caos filosófico, moral e operacional em que nos afundamos todos, neste antigo pântano de tribos fraticidas que é a Europa.