Em baixo seguem apenas alguns dos projectos cuja autoria envaidece o Senhor Primeiro Ministro desta República Portuguesa. Traduzem bem o ponto zero a que chegámos: triunfam na política e nos negócios, na cultura e nas universidades, estes rasquinhas rasteiros, sem inteligência e sem sensibilidade, sem coragem ou virtude; ocupam os lugares que deviam ser de gente decente com os seus gordos rabos de gente média e média baixa. É pavoroso.
quarta-feira, fevereiro 13, 2008
Um pedido de desculpas à República da Indonésia.
Perante a selvajaria e a estupidez crónica dos timorenses, acho que os portugueses devem um pedido de desculpas à Indonésia. Afinal, Suharto sempre tinha razão e há povos que não se sabem comportar sem o aviso do chicote. A solução para o problema destes macaquinhos é retirar-lhes a soberania sobre o petróleo e deixá-los em paz na idade da pedra. Cada vez que esta república das bananas é notícia é pelos piores motivos e é uma vergonha enorme. Se era para isto que queriam a independência, não valia a pena o incómodo.
A propósito de desculpas e da natureza humana, o mea culpa do governo australiano pelos supostos crimes do homem branco contra os aborígenes é completamente imbecil. Estes aborígenes, que vivem hoje mais limpinhos e saudáveis e gordinhos do que alguma vez na história da sua raça, são homens e como outros quaisquer seriam capazes das maiores infâmias - se surgisse a oportunidade. O que nos ensina o passado da espécie humana (e o presente também) é que aqueles que agora são vítimas, serão depois os carrascos. Os que estão hoje inocentes, culpados serão de qualquer crime arrepiante, um dia destes. Os cordeiros passam a lobos num instante e vice versa e não vale mesmo a pena estar para aqui com cuidados humanistas. O Homem é um animal bárbaro, um produto infectado de várias raivas que não presta para nada e ponto final.
A propósito de desculpas e da natureza humana, o mea culpa do governo australiano pelos supostos crimes do homem branco contra os aborígenes é completamente imbecil. Estes aborígenes, que vivem hoje mais limpinhos e saudáveis e gordinhos do que alguma vez na história da sua raça, são homens e como outros quaisquer seriam capazes das maiores infâmias - se surgisse a oportunidade. O que nos ensina o passado da espécie humana (e o presente também) é que aqueles que agora são vítimas, serão depois os carrascos. Os que estão hoje inocentes, culpados serão de qualquer crime arrepiante, um dia destes. Os cordeiros passam a lobos num instante e vice versa e não vale mesmo a pena estar para aqui com cuidados humanistas. O Homem é um animal bárbaro, um produto infectado de várias raivas que não presta para nada e ponto final.
sábado, fevereiro 09, 2008
Eis, finalmente, o meu lado :K
Depois de muitos esforços e cambalhotas lá consegui arranjar maneira tecnológica de partilhar com a ilustre e escassa audiência umas cançõezinhas de minha lavra. O projecto fanaticamente individual chama-se :Kubrik e, até indicação em contrário, os próximos posts dedicados a este assunto apresentam temas cuja letra, música, voz (falada) e video são da minha autoria (direitos de imagem à parte), com a ajuda do GarageBand e do IMovie HD. Os poemas já foram editados algures no tempo, aqui no blog, mas como sofreram alterações voltam a entrar ao barulho, literalmente.
Boa sorte, querido ouvinte.
"Eles andam aí" - One:Kubrik
Vêm lá dos confins do espaço
em busca dos desertos americanos.
Aconchegados em discos de aço
vão chegando os marcianos.
Olhos espirais, antenas telepatas
e espertas orelhas pontiagudas:
são assim p'ró feinho os piratas
do Triângulo das Bermudas.
Uns vêm e deixam saudades,
outros por fome de carne humana.
Contra todas as probabilidades
visitam-nos uma vez por semana.
Eles andam aí.
Alienígenas indígenas
de planetários corsários,
Eles andam aí.
Não há como negar o facto:
eles andam aí e são apanhados
a construir aeroportos no mato
e a ceifar o trigo dos prados.
Arriscam-se à bestial pestilência
dos encontros de grau terceiro.
Amiúde, deixam descendência,
são fornicadores em passeio.
Habitam há que tempos a História,
deixaram-nos príncipes e faraós,
(as pirâmides são prova e memória
de que nunca estivemos sós).
Eles andam aí.
Marcianos bacanos,
Extraterráqueos batráquios,
Eles andam aí.
Escreveram tábuas e pautas
para mitos, cultos e religiões:
são os deuses astronautas
que aterram aos trambolhões.
Podem até ser sapiens em férias,
do século D.C. quarenta e tal.
Tiram fotografias, trocam pilhérias,
vêem em safari temporal.
Na verdade nem me interessa
de onde vêem e para onde vão.
Gosto é de os ver assim com pressa
em imagens de baixa resolução.
Eles andam aí.
Répteis com projecteis
Psicopatas de três patas,
Eles andam aí.
Eles andam aí.
Alienígenas indígenas
de planetários corsários,
Eles andam aí.
Eles andam aí.
segunda-feira, fevereiro 04, 2008
sexta-feira, fevereiro 01, 2008
Objecção
Morrem cedo quem os deuses amam? Treta.
Que o diga o velho cegueta
de Buenos Aires, bibliotecário do universo:
os deuses amavam-no e vice-verso.
É até lamentável que Rimbaud só tenha bebido
uma cerveja no inferno.
Com mais tempo para ser sofrido
reinventava o poema moderno.
O paneleirão do Proust foi-se aos cinquenta
mas deve ter ido contrariado.
Para chegar à página 35.480
até a mãe tinha traficado.
Ser-se jovem não é o mesmo que ser-se capaz.
Homero nunca foi rapaz
e é por isso que a literatura é feliz.
Já Joyce, se chegou a avô, foi porque quis!
Por isso, tu desculpa, Fernando, a contradição
e Mário - descansa em paz pela eternidade,
mas não estou em crer nessa religião
dos deuses da puberdade.
O teu querido Camões não se pode queixar.
Para quem andou com putas, piratas e reis
não foi nada mau sobrar
até aos cinquenta e seis.
Nem te serve de exemplo o Almada, cujo tesão
lhe durou mais que a memória.
Viveu o suficiente para aparecer na televisão
e isso é que é ficar para a história!
Tu próprio não sobreviveste por ai além
mas isso não é argumento, pensando bem
só talvez o Ricardo Reis tenha morrido de velhice
(a rábula do Saramago é uma aldrabice).
Acaso achas que te amaram os deuses especialmente
por causa dessa cirrose terminal?
"Encara a realidade de frente":
não foi a beber que chegaste a imortal.
E que outros monstros lindos sairiam da tua penada
se fosse mais fraco o absinto da Arcada?
Não te tinham feito mal nenhum ou prejudicado
mais uns anos de devaneio pelo Chiado.
Mais a mais o que é a morte
senão um momento de sorte?
Ninguém tem mérito nisso.
E a obra adolescente é como um dente postiço.
Que o diga o velho cegueta
de Buenos Aires, bibliotecário do universo:
os deuses amavam-no e vice-verso.
É até lamentável que Rimbaud só tenha bebido
uma cerveja no inferno.
Com mais tempo para ser sofrido
reinventava o poema moderno.
O paneleirão do Proust foi-se aos cinquenta
mas deve ter ido contrariado.
Para chegar à página 35.480
até a mãe tinha traficado.
Ser-se jovem não é o mesmo que ser-se capaz.
Homero nunca foi rapaz
e é por isso que a literatura é feliz.
Já Joyce, se chegou a avô, foi porque quis!
Por isso, tu desculpa, Fernando, a contradição
e Mário - descansa em paz pela eternidade,
mas não estou em crer nessa religião
dos deuses da puberdade.
O teu querido Camões não se pode queixar.
Para quem andou com putas, piratas e reis
não foi nada mau sobrar
até aos cinquenta e seis.
Nem te serve de exemplo o Almada, cujo tesão
lhe durou mais que a memória.
Viveu o suficiente para aparecer na televisão
e isso é que é ficar para a história!
Tu próprio não sobreviveste por ai além
mas isso não é argumento, pensando bem
só talvez o Ricardo Reis tenha morrido de velhice
(a rábula do Saramago é uma aldrabice).
Acaso achas que te amaram os deuses especialmente
por causa dessa cirrose terminal?
"Encara a realidade de frente":
não foi a beber que chegaste a imortal.
E que outros monstros lindos sairiam da tua penada
se fosse mais fraco o absinto da Arcada?
Não te tinham feito mal nenhum ou prejudicado
mais uns anos de devaneio pelo Chiado.
Mais a mais o que é a morte
senão um momento de sorte?
Ninguém tem mérito nisso.
E a obra adolescente é como um dente postiço.
quinta-feira, janeiro 31, 2008
"If man is five...
...Then the Devil is six
And if the Devil is six
Then God is seven
This monkey's gone to heaven"
Pixies, ao vivo, no David Lettermann Late Show da CBS. 2007 d.C.
Muita lindo.
Darwin segundo Dilbert.
"Primeiro, existiam algumas amibas. As amibas mutantes adaptaram-se melhor ao ambiente, pelo que se transformaram em macacos. Depois, surgiu a gestão da qualidade total."
Scott Adams - O Princípio de Dilbert
Scott Adams - O Princípio de Dilbert
terça-feira, janeiro 15, 2008
Sobre a lei do tabaco.
Nunca, depois de 33 anos de terceira república e 40 de existência, uma lei fodeu assim a minha maneira de estar vivo. Nunca. Incluo aqui toda a legislação que sustenta o fascismo tributário a que sou sujeito e a escumalha demente que tem, durante a duração deste durar, governado o meu país. Nunca, como agora, me senti assim desprezado, vilipendiado, posto à parte, submetido, amordaçado, combatido, marginalizado, compelido e traído.
Para além de todo o ridículo de uma lei mal nascida, mal pensada, mal escrita e mal feita, está o seu espírito: humilhar, isolar, submeter o cidadão fumador a um jugo infame que, em última análise, o obrigue a deixar de fumar.
E toda esta política de Francis Dracon, e toda esta ciência de Nicolau Maquiavel apenas para diminuir as despesas do serviço público de saúde em pobres e curtos pontos percentuais, dois ou três se quisermos sonhar quimeras. Ah, desgraçado serviço público de saúde cujo orçamento, em grandessíssima parte, serve para pagar às pessoas que lá trabalham. Cujo orçamento, em significativa fatia, já deve ser pago pelos impostos que os fumadores pagam para fumarem! Ah, infeliz a condição do contribuinte castrado!
Onde é que eu vou poder estar a jantar com os meus amigos? Ou perguntado de outra maneira: vivo em democracia quando sou impedido da sociabilidade, sou um homem livre quando me impõem a chantagem do chicote?
Estou finalmente a pensar em abrir um clube de combate. Por enquanto, fica só o hino pró-tabagista do momento, com o poema mais certo de todos os assertivos poemas que foram, ou virão a ser escritos sobre este assunto (é garantido).
"Say goodbye to everyone
You have ever known
You are not gonna see them ever again
I can't shake this feeling I've got
My dirty hands, have I been in the wars?
The saddest thing that I'd ever seen
Were smokers outside the hospital doors"
Para além de todo o ridículo de uma lei mal nascida, mal pensada, mal escrita e mal feita, está o seu espírito: humilhar, isolar, submeter o cidadão fumador a um jugo infame que, em última análise, o obrigue a deixar de fumar.
E toda esta política de Francis Dracon, e toda esta ciência de Nicolau Maquiavel apenas para diminuir as despesas do serviço público de saúde em pobres e curtos pontos percentuais, dois ou três se quisermos sonhar quimeras. Ah, desgraçado serviço público de saúde cujo orçamento, em grandessíssima parte, serve para pagar às pessoas que lá trabalham. Cujo orçamento, em significativa fatia, já deve ser pago pelos impostos que os fumadores pagam para fumarem! Ah, infeliz a condição do contribuinte castrado!
Onde é que eu vou poder estar a jantar com os meus amigos? Ou perguntado de outra maneira: vivo em democracia quando sou impedido da sociabilidade, sou um homem livre quando me impõem a chantagem do chicote?
Estou finalmente a pensar em abrir um clube de combate. Por enquanto, fica só o hino pró-tabagista do momento, com o poema mais certo de todos os assertivos poemas que foram, ou virão a ser escritos sobre este assunto (é garantido).
"Say goodbye to everyone
You have ever known
You are not gonna see them ever again
I can't shake this feeling I've got
My dirty hands, have I been in the wars?
The saddest thing that I'd ever seen
Were smokers outside the hospital doors"
domingo, janeiro 13, 2008
Turismo Infinito
"Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir."
"É-se feliz na Austrália, desde que lá se não vá."
Álvaro de Campos
De certa forma, podemos dizer que a obra de Fernando Pessoa é uma viagem. Uma viagem por dentro dele e para fora do mundo concreto. Uma viagem multi-dimensional e para-geográfica sem serviço de fronteiras nem medos de jet lag. Uma viagem que não tem partida, nem regresso, nem destino, nem roteiro, porque a poesia não precisa de acumular milhas. Uma viagem ao derradeiro abismo que é o do mistério da existência.
Até 26 de Janeiro, a Sala Garrett do Teatro Nacional D. Maria II encerra e sintetiza o safari metafísico de Álvaro de Campos, Bernardo Soares, Fernando Pessoa - o ortónimo - e Alberto Caeiro numa encenação eficaz de Ricardo Pais, sobre o excelente dispositivo cénico de Manuel Aires Mateus. Podemos discutir a selecção dos textos, podemos objectar isto e aquilo sobre o Álvaro de Campos de João Reis, mas quando as palavras de Pessoa começam a ecoar no palco, quando as magníficas, grandiloquentes, alquímicas, penta-essenciais palavras do mais genial poeta do século XX (é dizer pouco) começam a tomar conta da sala, tudo se resume a um máximo denominador comum: a infinita odisseia da literatura.
Façam o favor de ir, portanto, ao teatro.
"É-se feliz na Austrália, desde que lá se não vá."
Álvaro de Campos
De certa forma, podemos dizer que a obra de Fernando Pessoa é uma viagem. Uma viagem por dentro dele e para fora do mundo concreto. Uma viagem multi-dimensional e para-geográfica sem serviço de fronteiras nem medos de jet lag. Uma viagem que não tem partida, nem regresso, nem destino, nem roteiro, porque a poesia não precisa de acumular milhas. Uma viagem ao derradeiro abismo que é o do mistério da existência.
Até 26 de Janeiro, a Sala Garrett do Teatro Nacional D. Maria II encerra e sintetiza o safari metafísico de Álvaro de Campos, Bernardo Soares, Fernando Pessoa - o ortónimo - e Alberto Caeiro numa encenação eficaz de Ricardo Pais, sobre o excelente dispositivo cénico de Manuel Aires Mateus. Podemos discutir a selecção dos textos, podemos objectar isto e aquilo sobre o Álvaro de Campos de João Reis, mas quando as palavras de Pessoa começam a ecoar no palco, quando as magníficas, grandiloquentes, alquímicas, penta-essenciais palavras do mais genial poeta do século XX (é dizer pouco) começam a tomar conta da sala, tudo se resume a um máximo denominador comum: a infinita odisseia da literatura.
Façam o favor de ir, portanto, ao teatro.
quinta-feira, janeiro 10, 2008
quarta-feira, janeiro 09, 2008
Ciência económica de ginásio.
José Sócrates, muito provavelmente na companhia do seu mais querido ministro - a besta das finanças - esteve a pensar, a pensar e a pensar e decidiu que, de todos os sectores da economia nacional, o que deve ser aliviado do jugo tributário é o sector dos ginásios, baixando significativamente o IVA a que estavam até agora sujeitos. Com esta genial iniciativa, que acresce harmoniosamente aos recentes fascismos decorrentes da sua visão asséptica da vida, pretende o Primeiro Ministro que os portugueses façam mais desporto, deixem de fumar, comam cozido à portuguesa devidamente plastificado e bebam não mais que um copo de vinho à refeição (condescendendo aqui um pouco com os portugueses que não conduzem, sendo que estes poderão beber, talvez, dois copos).
Qualquer dia, José Sócrates vai legislar sobre quantas vezes por mês é que os portugueses devem foder, quantas gargalhadas lhes serão permitidas por dia, qual a melhor estratégia que devem seguir para, quando limpam o rabo, não gastarem muito papel, que livros é que devem ler, que discos é que devem ouvir, qual a quantidade mínima de haxixe por ano que podem fumar, em que banco é que devem colocar o seu dinheiro (no BCP, obviamente, agora que foi nacionalizado), quantos quilómetros é que podem fazer com os automóveis que compraram a preços exorbitantes para pagar a disfunção do Estado, a que horas é que podem ligar o aquecimento, em que bolso do casaco é que devem guardar a carteira, como é que devem andar vestidos, com que mão é que podem masturbar-se, etc., etc., etc.
Ora, parece-me a mim, não querendo de forma alguma fazer a apologia de Salazar, personagem que me é absolutamente antipático, que nem este tiranete se atreveria a tanto. E comparativamente, no que concerne à política financeira (sacar cada vez mais, dar cada vez menos), o velho de Santa Comba Dão, convenhamos, era um aprendiz de feiticeiro.
Uma última nota sobre o post anterior, respeitante ao infeliz discurso de ano novo de Cavaco Silva: a Brisa, empresa de capitais públicos que custa milhões de euros por ano em indemnizações e subvenções pagas pelo estado, tem, para 1800 empregados, uma frota de 800 automóveis. E uma média de custos com combustível de 10.000 euros por ano, por funcionário. Mas é com os ordenados das empresas privadas que o PR se preocupa. Ora, com o devido respeito, vá V. Exa. bardamerda.
Qualquer dia, José Sócrates vai legislar sobre quantas vezes por mês é que os portugueses devem foder, quantas gargalhadas lhes serão permitidas por dia, qual a melhor estratégia que devem seguir para, quando limpam o rabo, não gastarem muito papel, que livros é que devem ler, que discos é que devem ouvir, qual a quantidade mínima de haxixe por ano que podem fumar, em que banco é que devem colocar o seu dinheiro (no BCP, obviamente, agora que foi nacionalizado), quantos quilómetros é que podem fazer com os automóveis que compraram a preços exorbitantes para pagar a disfunção do Estado, a que horas é que podem ligar o aquecimento, em que bolso do casaco é que devem guardar a carteira, como é que devem andar vestidos, com que mão é que podem masturbar-se, etc., etc., etc.
Ora, parece-me a mim, não querendo de forma alguma fazer a apologia de Salazar, personagem que me é absolutamente antipático, que nem este tiranete se atreveria a tanto. E comparativamente, no que concerne à política financeira (sacar cada vez mais, dar cada vez menos), o velho de Santa Comba Dão, convenhamos, era um aprendiz de feiticeiro.
Uma última nota sobre o post anterior, respeitante ao infeliz discurso de ano novo de Cavaco Silva: a Brisa, empresa de capitais públicos que custa milhões de euros por ano em indemnizações e subvenções pagas pelo estado, tem, para 1800 empregados, uma frota de 800 automóveis. E uma média de custos com combustível de 10.000 euros por ano, por funcionário. Mas é com os ordenados das empresas privadas que o PR se preocupa. Ora, com o devido respeito, vá V. Exa. bardamerda.
quinta-feira, janeiro 03, 2008
Ciência económica de sacristia.
"Devo à providência a graça de ser pobre."
António de Oliveira Salazar
Por curiosidade mórbida - ou falta de inspiração - fui à procura do que tinha escrito aqui nos anteriores janeiros. Acontece que, no de 2005, tive o desplante de prosar umas opiniões muito simpáticas sobre o Dr. Aníbal Cavaco Silva, por ocasião da oposição divertida que fazia a certas pretensões inconscientes do Dr. Santana Lopes, na circunstância e desgraçadamente primeiro ministro da minha pátria. Agora que temos um outro desgraçado primeiro ministro e o Dr. Aníbal como Chefe de Estado, estou deveras envergonhado do que escrevi. Em Portugal, estamos sempre pior a cada dia que passa. É mais ou menos como o S. L. e Benfica: nunca mais conseguimos chegar ao ponto zero.
Vem esta conversa sobretudo a propósito do discurso de ano novo com que o Sr. Presidente da República decidiu presentear a infeliz plateia. Tive o privilégio de não assistir à missa, mas já percebi que algures por entre a liturgia sugeriu o Dr. Cavaco Silva que os ordenados dos administradores e altos executivos das grandes empresas privadas lhe incomodam o débil sistema moral. Se calhar, o Dr. Cavaco Silva estava a falar na qualidade de accionista destas empresas, mas se foi esse o caso não creio que a utilização do seu outro emprego para canalizar estas preocupações de algibeira seja correcta. Quando muito, que mandasse como agente plenipotenciário o chefe de gabinete da Presidência da República às assembleias gerais do psi 20. Já não dava tanto nas vistas. O problema é que o dr. Aníbal não falou como accionista, mas como Presidente da República e, assim, o dislate é realmente grave. O Chefe de Estado de um dos estados mais imorais do mundo civilizado não tem legitimidade absolutamente nenhuma para comentar o que se ganha ou deixa de ganhar nas empresas privadas, grandes ou pequenas, generosas ou avaras. O Chefe de Estado deve antes estar grato pela missão patriótica que é administrar uma empresa em Portugal e reconhecido pela contribuição draconiana a que são sujeitas estas empresas que lhe pagam a luxúria do cargo e a babilónia toda de que é máximo representante. O Dr. Aníbal Cavaco Silva devia ter vergonha na cara e protestar ao invés com os ordenados astronómicos do infeliz governador do Banco de Portugal, dos administradores da Caixa Geral de Depósitos e restantes máfias de outras empresas públicas que vivem à custa de roubar os portugueses que trabalham... em empresas privadas. O Dr. Aníbal Cavaco Silva deveria fazer o favor de se meter na sua vidinha anódina de enfatuadinho de Boliqueime e ficar calado que é assim que serve os interesses da nação e da decência.
Eu, que não sou patrão nem accionista nem administrador de coisa alguma, para além da minha alegre barriguinha, eu, que não ganho ordenado nem terei algum dia direito a subsídios, eu que não custo nada a ninguém e que hei-de morrer falido mas nem por isso vergado à indigência, estou muito à vontade para dizer isto: o meu país não gosta de ricos. Não gosta de empresários bem sucedidos e desconfia dos investidores. O meu país roi-se de inveja quando vê dinheiro em alguém, ignorando ou escondendo a verdade que é só uma: são os detentores do capital aqueles que mais capacidade têm para gerar riqueza e prosperidade para todos.
Portugal é uma nação de invejosos, e mesmo os que chegam a ricos da pior maneira possível (através do tributo medieval sobre um povo de tesos), continuam a invejar os ricos, inclusivamente aqueles que enriqueceram de formas muito mais civilizadas, como por exemplo, investindo os seus ganhos e trabalhando a sério e criando riqueza e originando empregos. Cavaco Silva, como a maior parte dos seus súbditos, acredita que é mais fácil a um elefante passar por entre o buraco da agulha que a um rico aceder ao reino dos céus. Assim, há-de esta eminência contribuir, mesmo que ao seu pequeno jeito, para um país cadáver. E eu desejo-lhe, para 2008, que caia do banco a baixo, como o outro conhecido sacristão que, ao contrário do que muitos teimam em pensar, também não gostava nada que se ganhasse muito dinheiro em Portugal.
António de Oliveira Salazar
Por curiosidade mórbida - ou falta de inspiração - fui à procura do que tinha escrito aqui nos anteriores janeiros. Acontece que, no de 2005, tive o desplante de prosar umas opiniões muito simpáticas sobre o Dr. Aníbal Cavaco Silva, por ocasião da oposição divertida que fazia a certas pretensões inconscientes do Dr. Santana Lopes, na circunstância e desgraçadamente primeiro ministro da minha pátria. Agora que temos um outro desgraçado primeiro ministro e o Dr. Aníbal como Chefe de Estado, estou deveras envergonhado do que escrevi. Em Portugal, estamos sempre pior a cada dia que passa. É mais ou menos como o S. L. e Benfica: nunca mais conseguimos chegar ao ponto zero.
Vem esta conversa sobretudo a propósito do discurso de ano novo com que o Sr. Presidente da República decidiu presentear a infeliz plateia. Tive o privilégio de não assistir à missa, mas já percebi que algures por entre a liturgia sugeriu o Dr. Cavaco Silva que os ordenados dos administradores e altos executivos das grandes empresas privadas lhe incomodam o débil sistema moral. Se calhar, o Dr. Cavaco Silva estava a falar na qualidade de accionista destas empresas, mas se foi esse o caso não creio que a utilização do seu outro emprego para canalizar estas preocupações de algibeira seja correcta. Quando muito, que mandasse como agente plenipotenciário o chefe de gabinete da Presidência da República às assembleias gerais do psi 20. Já não dava tanto nas vistas. O problema é que o dr. Aníbal não falou como accionista, mas como Presidente da República e, assim, o dislate é realmente grave. O Chefe de Estado de um dos estados mais imorais do mundo civilizado não tem legitimidade absolutamente nenhuma para comentar o que se ganha ou deixa de ganhar nas empresas privadas, grandes ou pequenas, generosas ou avaras. O Chefe de Estado deve antes estar grato pela missão patriótica que é administrar uma empresa em Portugal e reconhecido pela contribuição draconiana a que são sujeitas estas empresas que lhe pagam a luxúria do cargo e a babilónia toda de que é máximo representante. O Dr. Aníbal Cavaco Silva devia ter vergonha na cara e protestar ao invés com os ordenados astronómicos do infeliz governador do Banco de Portugal, dos administradores da Caixa Geral de Depósitos e restantes máfias de outras empresas públicas que vivem à custa de roubar os portugueses que trabalham... em empresas privadas. O Dr. Aníbal Cavaco Silva deveria fazer o favor de se meter na sua vidinha anódina de enfatuadinho de Boliqueime e ficar calado que é assim que serve os interesses da nação e da decência.
Eu, que não sou patrão nem accionista nem administrador de coisa alguma, para além da minha alegre barriguinha, eu, que não ganho ordenado nem terei algum dia direito a subsídios, eu que não custo nada a ninguém e que hei-de morrer falido mas nem por isso vergado à indigência, estou muito à vontade para dizer isto: o meu país não gosta de ricos. Não gosta de empresários bem sucedidos e desconfia dos investidores. O meu país roi-se de inveja quando vê dinheiro em alguém, ignorando ou escondendo a verdade que é só uma: são os detentores do capital aqueles que mais capacidade têm para gerar riqueza e prosperidade para todos.
Portugal é uma nação de invejosos, e mesmo os que chegam a ricos da pior maneira possível (através do tributo medieval sobre um povo de tesos), continuam a invejar os ricos, inclusivamente aqueles que enriqueceram de formas muito mais civilizadas, como por exemplo, investindo os seus ganhos e trabalhando a sério e criando riqueza e originando empregos. Cavaco Silva, como a maior parte dos seus súbditos, acredita que é mais fácil a um elefante passar por entre o buraco da agulha que a um rico aceder ao reino dos céus. Assim, há-de esta eminência contribuir, mesmo que ao seu pequeno jeito, para um país cadáver. E eu desejo-lhe, para 2008, que caia do banco a baixo, como o outro conhecido sacristão que, ao contrário do que muitos teimam em pensar, também não gostava nada que se ganhasse muito dinheiro em Portugal.
sábado, dezembro 29, 2007
Para um ano novo moderadamente alegre.
W. A. Mozart - 29ª Sinfonia - 1º Mov. Allegro Moderato - Maestro Karl Bohm
sexta-feira, dezembro 21, 2007
quinta-feira, dezembro 20, 2007
sexta-feira, dezembro 14, 2007
Sobre a União Europeia.
Não sou nenhum europeísta maluco, talvez porque não saiba o que quer dizer a palavra, mas faço questão, ainda assim, de massacrar a gentil audiência de euro-cépticos com os seguintes fenómenos da física dos objectos políticos:
I - O Momento Histórico - Esta é, para todos os efeitos, a primeira constituição federal da história do Continente. Lembro que andámos para aqui uns bons 2500 anos à batatada, na perseguição desse sonho de uma Europa una. Pois bem,já a temos. Sem batatada nenhuma e através de um processo mais ou menos representativo (estes príncipes foram eleitos, afinal).
II - A Paz Duradoura - Exceptuando os conflitos dos Balcãs e da Tetchenia, que resultaram da queda do império soviético, sendo por isso fenómenos mais ou menos expectáveis (à luz de outros declínios imperiais, podia ter sido bem pior), a Europa vive em paz há 62 anos. Não tenho a certeza, mas deve ser um recorde absoluto. E é para mim cristalino, que estas longas férias da guerra são essencialmente devidas ao projecto de uma Europa Federal.
III - A Febre Referendária - Proveniente de sectores que, geralmente, desprezam o método, este clamar pelo referendo é um bocadinho irresponsável, eu acho. É um bocadinho irresponsável referendar um tratado que, para além de ser o produto bruto de séculos de volição histórica, é a nota de rodapé de uma constituição também indexada a princípios enunciados noutros tratados ainda, todos eles escritos na alienígena filologia da burocracia central europeia, todos eles produtos complexos e vis da intrincada vilania que é a diplomacia das nações. Que legitimidade pode resultar de uma resposta que é dada a uma pergunta impossível? E, já agora, se o problema é o da ausência de legitimidade popular directa, interrogo-vos: os jacobinos tinham essa legitimidade popular e foi o que foi. Os nazis também a chegaram a ter e o espectáculo foi o que se viu. Liberais e absolutistas, republicanos e monárquicos, comunistas e fascistas, facínoras de todos os géneros sempre acabaram por ter, a dado passo, o favor das massas. Regra geral, deu-se um festim de ferro, fogo e sangue. Ao invés, a actual Constituição da República Portuguesa, que eu saiba, não foi referendada. A magna Carta também não foi sujeita ao critério público e, em 1787, os pais fundadores não foram perguntar aos americanos como é que eles queriam que fosse esgalhado o documento iniciático da sua federação. Devemos, por princípio e dentro dos limites que nos impõe a moral democrática, desconfiar do juízo do povo e valorizar o peso da sua imensa ignorância.
Mais a mais, no caso presente, bastava que em dois ou três países de média escala, a coisa desse para o torto para que toda a Coisa desse para o torto. E depois, como que é que ficávamos? Com o perigosíssimo mosaico de nacionalidades apoiado numa mera integração económica, equilíbrio precário de interesses e rivalidades? Regressados à decadência óbvia em que nos encontrávamos a meio do Século XX, seria mais sorridente o nosso futuro?
Meus caros, a integração federal europeia é sobretudo uma inevitabilidade.
IV - O Argumento Humorístico - O argumento de que a União não é mais que a coutada dos interesses económicos e políticos de três ou quatro potencias de significado global faz-me rir. O pressuposto parece sugerir que, sem a União, estas nações predadoras assumiriam um comportamento filantrópico. Que deixariam de vitimizar e subjugar aos seus caprichos capitalistas os países de escala menor. Sinceramente, não percebo como é que este ponto de vista tem tantos adeptos, dada a falência do seu sistema lógico e as evidências históricas. Mas basta o exemplo da Rússia contemporânea e da sua relação com os estados vizinhos e com a UE, para perceber o equívoco.
V - O Argumento Patético - Outro dos argumentos brilhantes contra o tratado agora assinado é o de que o dito documento implica o fim do tristemente célebre Modelo Social Europeu, trucidado às mãos dos valores maléficos do neo-liberalismo. Dá-me vontade de voz dizer, almas que tanto receiam por esse socialismo decrépito: acordem. O Modelo Social Europeu, se algum dia fez sentido, foi no contexto de uma Europa em reconstrução, com taxas de natalidade utópicas e margens de progressão económica espectaculares. Hoje em dia não passa de um travão à competitividade e prosperidade, um incentivo à paralisia, um atentado ao mérito individual e um obstáculo ao desenvolvimento e à realização dos povos. Se os europeus são hoje uma cambada de putos mal criados, mimados e gordos, muito exigentes nos seus direitos e muito avaros nas suas obrigações, se são hoje cidadãos sem valores ideológicos que transcendam o seu conforto e as suas regalias, sem sentido critico nem juízo moral, muito se deve a esse malfadado modelo que os educou num facilitismo materialista e super protector, carregado de um humanismo gorduroso absolutamente execrável. Se este tratado permitir de facto uma revolução do Modelo Social Europeu, coisa de que duvido muito, essa será, de longe, a sua primeira grande virtude.
VI - O Problema das Identidades - É claro que a União Europeia é uma super-estrutura que irrita qualquer um. É disfuncional e distante, aparatosa de protocolos, exuberante de burocracias e anafada de cinismos. É imbecil de pequenos fascismos e arrogâncias desnecessárias e é óbvio que tem dificuldades práticas na difícil missão de sustentar a convergência universal entre povos diferentes e culturas contrárias. É verdade que o caminho da integração federal passa pelo desaparecimento de rituais e de manias, de tradições e de convenções, de valores e de identidades. Mas, pergunto-vos, conhecem algum processo civilizacional que triunfe historicamente sem o sacrifício dos seus resíduos de idiossincrasia? E não faria a globalização, em última análise, esse mesmo desagradável trabalho caso persistíssemos no rendilhado esotérico dos nacionalismos irredutíveis e das teimosias de tribo? E não tenho eu, tuguinha, mais em comum com um finlandês do que terei com um asiático? E não correremos nós o risco, sem uma Europa forte e íntegra, de uma colonização económica e cultural, a prazo, levada a cabo por povos efectivamente antípodas? Parece-me melhor ser parceiro de um polaco do que criado de um chinês.
Mal ou bem, na Europa partilhamos um belo e vasto imaginário de valores. As origens religiosas e filosóficas, o património histórico de alianças e desavenças, desgraças e glórias: um conteúdo ontológico comum, que transcende objectivamente as divergências.
VII - A Questão Inglesa - Os ingleses são um povo soberbo pelo qual tenho uma imensa simpatia. São até os meus bárbaros preferidos, mas, caramba, têm de uma vez por todas que se decidir. Ou bem que desistem do seu querido provincianismo de ilhéus e adoptam um comportamento decente, ou tomam uma decisão adulta, uma vez na sua história de infantes, e abandonam a União. Ao fazer-se esperar para a assinatura do tratado, traindo a tradição secular da pontualidade britânica - o senhor Gordon Brown - personagem aliás detestável como detestável bastante era o anterior residente do rés-do-chão número 10 da Downing Street (é lindo que o primeiro ministro de Sua Majestade viva e trabalhe numa espécie de T3) - quis manifestar solenemente uma relutância desdenhosa por toda esta coisa do Tratado. O senhor Gordon Brown, como a maior parte dos Ingleses, acha desagradável que o que começou por ser um excelente negócio se tenha transformado agora numa inconveniência. Uma coisa é mugir a vaca; outra é levá-la ao pasto. Este cinismo de crápula é abjecto. Estou zangado.
VIII - A Questão Turca - No dia em que a Turquia muçulmana assinar o tratado de adesão à União Europeia eu volto aqui a este postal para o apagar. Escreverei então outro, abrindo inscrições para uma milícia armada que tome de assalto em simultâneo a Comissão Europeia e o Parlamento Europeu e sodomize de pronto todos os seus funcionários, do porteiro ao Durão Barroso.
IX - A Presidência Portuguesa - Por muito que me custe - e custa - devo confessar que fiquei impressionado com a performance do aparelho diplomático português e com o talento de José Sócrates para mestre de cerimónias. Direi do primeiro ministro aproximadamente aquilo que Borges disse do chimpanzé, se lhe fosse dada um quantidade infinita de tempo: deste, que poderia escrever a Odisseia, do outro que rescreveria a história para que a esta se subtraissem as ideias e se somassem as vaidades. Felizmente para leitores e eleitores, Borges especulava apenas sobre a dúbia matemática das probabilidades e Sócrates, que sabe receber muito bem, não faz a mínima ideia do que conspiram os seus convidados. E sabem que mais? Ainda bem.
sexta-feira, dezembro 07, 2007
Adenda: os cento e quarenta e seis livros que mudaram a minha vida.
138 - Cultura, de Dietrich Schwanitz
139 - Diplomacia, de Henry Kissinger
140 - O Comportamento Sexual do Homem, de Alfred C. Kinsey
141 - A Força da Razão, de Oriana Fallaci
142 - Os Versículos Satânicos, de Salman Rushdie
143 - O Fogo de Prometeu, de Charles Lumsden e Edward Wilson
144 - Genética e Política, De R.C. Lewontin, S. Rose e L. J. Kamin
145 - O Futuro da Liberdade, de Fareed Zakaria
146 - Guerreiros de Deus - Ricardo Coração de Leão e Saladino, de James Reston Jr.
139 - Diplomacia, de Henry Kissinger
140 - O Comportamento Sexual do Homem, de Alfred C. Kinsey
141 - A Força da Razão, de Oriana Fallaci
142 - Os Versículos Satânicos, de Salman Rushdie
143 - O Fogo de Prometeu, de Charles Lumsden e Edward Wilson
144 - Genética e Política, De R.C. Lewontin, S. Rose e L. J. Kamin
145 - O Futuro da Liberdade, de Fareed Zakaria
146 - Guerreiros de Deus - Ricardo Coração de Leão e Saladino, de James Reston Jr.
segunda-feira, dezembro 03, 2007
Adenda: os cento e trinta e sete livros que mudaram a minha vida.
119 - Bartleby, de Herman Melville
120 - Crítica da Razão Pura, de Immanuel Kant
121 - A Conversa de Bolzano, de Sándor Márai
122 - Homens e Bichos, de Axel Munthe
123 - O Livro de S. Michel, de Axel Munthe
124 - Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde
125 - 08/15 - A Caserna, de Hans Hellmut Kirst
127 - Sancirilo, de A. M. Pires Cabral
128 - O Único e a Sua Propriedade, de Max Stirner
129 - Mitologia da Saudade, de Eduardo Lourenço
130 - Introdução à História, de Marc Bloch
131 - Sonetos, de Florbela Espanca
132 - Expedição à Terra, de Arthur C. Clarke
133 - A Ilha misteriosa, de Júlio Verne
134 - Um Lugar ao Sol, de Erico Veríssimo.
135 - Estranho Estrangeiro - Uma Biografia de Fernando Pessoa, de Robert Bréchon
136 - Queres fazer o favor de te calares, de Raymond Carver.
137 - A Ilha, de Aldous Huxley
120 - Crítica da Razão Pura, de Immanuel Kant
121 - A Conversa de Bolzano, de Sándor Márai
122 - Homens e Bichos, de Axel Munthe
123 - O Livro de S. Michel, de Axel Munthe
124 - Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde
125 - 08/15 - A Caserna, de Hans Hellmut Kirst
127 - Sancirilo, de A. M. Pires Cabral
128 - O Único e a Sua Propriedade, de Max Stirner
129 - Mitologia da Saudade, de Eduardo Lourenço
130 - Introdução à História, de Marc Bloch
131 - Sonetos, de Florbela Espanca
132 - Expedição à Terra, de Arthur C. Clarke
133 - A Ilha misteriosa, de Júlio Verne
134 - Um Lugar ao Sol, de Erico Veríssimo.
135 - Estranho Estrangeiro - Uma Biografia de Fernando Pessoa, de Robert Bréchon
136 - Queres fazer o favor de te calares, de Raymond Carver.
137 - A Ilha, de Aldous Huxley
sábado, novembro 24, 2007
Os cento e dezoito livros que mudaram mesmo a minha vidinha.
Estive para aqui hesitante. Montes de tempo. Desde que falei por convite Da Condição Humana sobre os dez livros que não mexeram nadinha comigo, fiquei a pensar nos outros todos que mudaram à brava a minha pequenina concepção das coisas. É mais que certo o facto de me falharem para aí umas trezentas obras primas, mas para já a lista dos livros da minha vida, enumerados sem qualquer tipo de ordem que transcenda o produto caótico da memória e incluindo história, filosofia, romance e poesia, tudo ao barulho, é esta:
1 - Ilíada, de Homero
2 - Odisseia, de Homero
3 - Poesias Completas, de Álvaro de Campos
4 - História Universal da Infâmia, de Jorge Luís Borges
5 - O Vermelho e o Negro, de Stendhal
6 - Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust*
7 - Ulisses, de James Joyce
8 - Folhas de Erva, de Walt Whitman
9 - A Obra ao Negro, de Margerite Yourcenar
10 - Memórias de Adriano, de Margerite Yourcenar
11 - Juliano, de Gore Vidal
12 - As Vinhas da Ira, de John Steinbeck
13 - Bairro de Lata, de John Steinbeck
14 - Declínio e Queda do Império Romano, de Edward Gibbon
15 - As Origens Sociais da Ditadura e da Democracia, de Barrington Moore Junior
16 - Memórias do Mediterrâneo, de Fernand Braudel
17 - Gramática das Civilizações, de Fernand Braudel
18 - O Coração das Trevas, de Joseph Conrad
19 - O Fantasma do Rei Leopoldo, de Adam Hochschild
20 - A Selva, de Ferreira de Castro
21 - Memorial do Convento, de José Saramago
22 - História do Cerco de Lisboa, de José Saramago
23 - Ensaio Sobre a Cegueira, de José Saramago
24 - O Crime do Padre Amaro, de Eça de Queiroz
25 - Os Maias, de Eça de Queiroz
26 - Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley
27 - Sobre a Democracia e Outros Assuntos, de Aldous Huxley
28 - Doutor Fausto, de Thomas Mann
29 - Fausto, de Christopher Marlowe
30 - A Montanha Mágica, de Thomas Mann
31 - Servidão Humana, de Somerset Maughan
32 - D. Quixote de La Mancha, de Cervantes
33 - Crime e Castigo, de Fédor Dostoievski
34 - Guerra e Paz, de Leão Tolstoi
35 - A Familia Golovlev, de Saltykov-Chtchedrine
36 - Novelas do Defunto Ivan Petróvitch Bélkin, de Aleksandr Púchkin
37 - Short Stories, de Anton Tchekov
38 - O Deus das Pequenas Coisas, de Arundhati Roy
39 - A República, de Platão
40 - O Anticristo, de Nietzsche
41 - O Perfume, de Patrick Suskind
42 - Quem Governa? de António Marques Beça
43 - Iluminações - Uma Cerveja no Inferno, de Jean Arthur Rimbaud
44 - Em Busca de Klingsor, de Jorge Volpi
45 - A Dor Industriosa, de Andrew Miller
46 - Cândido, de Voltaire
47 - A Imortalidade, de Milan Kundera
48 - A Filosofia do Não, de Gaston Bachelard
49 - As Palavras das Cantigas, de Ary dos Santos
50 - O Pintor de Batalhas, de Arturo Pérez-Reverte
51 - Um Estranho Numa Terra Estranha, de Robert A. Heinlein
52 - O Senhor dos Aneis, de J. R. R. Tolkien
53 - Os Doze Césares, de Suetonio
54 - Esta Noite a Liberdade, de Dominique Lapierre e Larry Collins
55 - O Castelo, de Franz Kafka
56 - O Processo, de Franz Kafka
57 - A Metamorfose, de Franz Kafka
58 - Nome de Guerra, de Almada Negreiros
59 - Eurico o Presbítero, de Alexandre Herculano
60 - O Livro do Desassossego, de Bernardo Soares
61 - A Mensagem, de Fernando Pessoa
62 - Tomai lá do O’neil, de Alexandre O'neil
63 - Nós, de Levgueni Ziamantine
64 - Utopia, de Thomas More
65 - 1984, de George Orwell
66 - O Pavilhão dos Cancerosos, de Alexandre Soljenitsine
67 - A Luz em Agosto, de William Faulkner
68 - O Som e a Fúria, de William Faulkner
69 - A Sangue Frio, de Truman Capote
70 - Hamlet de William Shakespeare
71 - A Paixão do Jovem Werther, de Goethe
72 - Kafka à Beira Mar, de Haruki Murakami
73 - Os Lusíadas, de Luís de Camões
74 - Sonetos, de Florbela Espanca
75 - Textos de Intervenção Cultural e Social, de Fernando Pessoa
76 - Trópico de Capricórnio, de Henry Miller
77 - Cosmos, de Carl Sagan
78 - Uma Breve História do Tempo, de Stephen W. Hawking
79 - O Sorriso do Flamingo, de Stephen Jay Gould
80 - O Erro de Descartes, de António Damásio
81 - Da Falsificação de Euros aos Pequenos Mundos, de Jorge Buesco
82 - Mais Rápido que a Luz, de João Magueijo
83 - Borges e a Matemática, de Guillermo Martinez
84 - Cultura, de Dietrich Schwnitz
85 - Fausto, de Christopher Marlowe
86 - Paraíso Perdido, de John Milton
87 - Decameron, de Giovanni Boccaccio
88 - O Nome da Rosa, de Umberto Eco
89 - Irei Cuspir-vos nos Túmulos, de Boris Vian
90 - O Caso da Rapariga Sem Rumo, de Erle Stanley Gardner
91 - Diário Minimo, de Umberto Eco
92 - História da Beleza, de Umberto Eco**
93 - Três Homens num Bote, de J. K. Jerome
94 - Uma Conspiração de Estúpidos, de John Kennedy Toole
95 - Inimigos, Uma História de Amor, de Isaac Bashevis Singer
96 - A Música do Acaso, de Paul Auster
97 - A Mancha Humana, de Philip Roth
98 - História da Vida Privada, de Philippe Ariés e Georges Dubys
99 - O Limpo e o Sujo - A Higiene do Corpo desde a Idade Média, de Georges Vigarello
100 - A Fogueira das Vaidades, de Tom Wolfe
101 - As Ligações Perigosas, de Laclos
102 - A Peste, de Albert Camus
103 - A Náusea, de Jean Paul Sartre
104 - Poesia, de Almada Negreiros
105 - Antologia do Cadáver Esquisito, de Mário Cesariny
106 - A Confissão de Lúcio, de Mário de Sá Carneiro
107 - Cem Anos de Solidão, de Gabriel Garcia Marquez
108 - Amor em Tempos de Cólera, de Gabriel Garcia Marquez
109 - Teresa Baptista Cansada da Guerra, de Jorge Amado
110 - A Tia Júlia e o Escrevedor, de Mario Vargas Llosa
111 - História de Uma Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar, de Luis Sepúlveda
112 - O Mundo de Sofia, de Jostein Gaarder
113 - Money, de Martin Amis
114 - História de Portugal, de A. H. de Oliveira Marques
115 - Aventuras de João Sem Medo, de José Gomes Ferreira
116 - O Cavaleiro da Dinamarca, de Sophia de Mello Breyner Andresen
117 - Moby Dick, de Herman Melville
118 - O Apelo da Selva, de Jack London
* Vou no quarto volume.
** Estou quase a acabar.
1 - Ilíada, de Homero
2 - Odisseia, de Homero
3 - Poesias Completas, de Álvaro de Campos
4 - História Universal da Infâmia, de Jorge Luís Borges
5 - O Vermelho e o Negro, de Stendhal
6 - Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust*
7 - Ulisses, de James Joyce
8 - Folhas de Erva, de Walt Whitman
9 - A Obra ao Negro, de Margerite Yourcenar
10 - Memórias de Adriano, de Margerite Yourcenar
11 - Juliano, de Gore Vidal
12 - As Vinhas da Ira, de John Steinbeck
13 - Bairro de Lata, de John Steinbeck
14 - Declínio e Queda do Império Romano, de Edward Gibbon
15 - As Origens Sociais da Ditadura e da Democracia, de Barrington Moore Junior
16 - Memórias do Mediterrâneo, de Fernand Braudel
17 - Gramática das Civilizações, de Fernand Braudel
18 - O Coração das Trevas, de Joseph Conrad
19 - O Fantasma do Rei Leopoldo, de Adam Hochschild
20 - A Selva, de Ferreira de Castro
21 - Memorial do Convento, de José Saramago
22 - História do Cerco de Lisboa, de José Saramago
23 - Ensaio Sobre a Cegueira, de José Saramago
24 - O Crime do Padre Amaro, de Eça de Queiroz
25 - Os Maias, de Eça de Queiroz
26 - Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley
27 - Sobre a Democracia e Outros Assuntos, de Aldous Huxley
28 - Doutor Fausto, de Thomas Mann
29 - Fausto, de Christopher Marlowe
30 - A Montanha Mágica, de Thomas Mann
31 - Servidão Humana, de Somerset Maughan
32 - D. Quixote de La Mancha, de Cervantes
33 - Crime e Castigo, de Fédor Dostoievski
34 - Guerra e Paz, de Leão Tolstoi
35 - A Familia Golovlev, de Saltykov-Chtchedrine
36 - Novelas do Defunto Ivan Petróvitch Bélkin, de Aleksandr Púchkin
37 - Short Stories, de Anton Tchekov
38 - O Deus das Pequenas Coisas, de Arundhati Roy
39 - A República, de Platão
40 - O Anticristo, de Nietzsche
41 - O Perfume, de Patrick Suskind
42 - Quem Governa? de António Marques Beça
43 - Iluminações - Uma Cerveja no Inferno, de Jean Arthur Rimbaud
44 - Em Busca de Klingsor, de Jorge Volpi
45 - A Dor Industriosa, de Andrew Miller
46 - Cândido, de Voltaire
47 - A Imortalidade, de Milan Kundera
48 - A Filosofia do Não, de Gaston Bachelard
49 - As Palavras das Cantigas, de Ary dos Santos
50 - O Pintor de Batalhas, de Arturo Pérez-Reverte
51 - Um Estranho Numa Terra Estranha, de Robert A. Heinlein
52 - O Senhor dos Aneis, de J. R. R. Tolkien
53 - Os Doze Césares, de Suetonio
54 - Esta Noite a Liberdade, de Dominique Lapierre e Larry Collins
55 - O Castelo, de Franz Kafka
56 - O Processo, de Franz Kafka
57 - A Metamorfose, de Franz Kafka
58 - Nome de Guerra, de Almada Negreiros
59 - Eurico o Presbítero, de Alexandre Herculano
60 - O Livro do Desassossego, de Bernardo Soares
61 - A Mensagem, de Fernando Pessoa
62 - Tomai lá do O’neil, de Alexandre O'neil
63 - Nós, de Levgueni Ziamantine
64 - Utopia, de Thomas More
65 - 1984, de George Orwell
66 - O Pavilhão dos Cancerosos, de Alexandre Soljenitsine
67 - A Luz em Agosto, de William Faulkner
68 - O Som e a Fúria, de William Faulkner
69 - A Sangue Frio, de Truman Capote
70 - Hamlet de William Shakespeare
71 - A Paixão do Jovem Werther, de Goethe
72 - Kafka à Beira Mar, de Haruki Murakami
73 - Os Lusíadas, de Luís de Camões
74 - Sonetos, de Florbela Espanca
75 - Textos de Intervenção Cultural e Social, de Fernando Pessoa
76 - Trópico de Capricórnio, de Henry Miller
77 - Cosmos, de Carl Sagan
78 - Uma Breve História do Tempo, de Stephen W. Hawking
79 - O Sorriso do Flamingo, de Stephen Jay Gould
80 - O Erro de Descartes, de António Damásio
81 - Da Falsificação de Euros aos Pequenos Mundos, de Jorge Buesco
82 - Mais Rápido que a Luz, de João Magueijo
83 - Borges e a Matemática, de Guillermo Martinez
84 - Cultura, de Dietrich Schwnitz
85 - Fausto, de Christopher Marlowe
86 - Paraíso Perdido, de John Milton
87 - Decameron, de Giovanni Boccaccio
88 - O Nome da Rosa, de Umberto Eco
89 - Irei Cuspir-vos nos Túmulos, de Boris Vian
90 - O Caso da Rapariga Sem Rumo, de Erle Stanley Gardner
91 - Diário Minimo, de Umberto Eco
92 - História da Beleza, de Umberto Eco**
93 - Três Homens num Bote, de J. K. Jerome
94 - Uma Conspiração de Estúpidos, de John Kennedy Toole
95 - Inimigos, Uma História de Amor, de Isaac Bashevis Singer
96 - A Música do Acaso, de Paul Auster
97 - A Mancha Humana, de Philip Roth
98 - História da Vida Privada, de Philippe Ariés e Georges Dubys
99 - O Limpo e o Sujo - A Higiene do Corpo desde a Idade Média, de Georges Vigarello
100 - A Fogueira das Vaidades, de Tom Wolfe
101 - As Ligações Perigosas, de Laclos
102 - A Peste, de Albert Camus
103 - A Náusea, de Jean Paul Sartre
104 - Poesia, de Almada Negreiros
105 - Antologia do Cadáver Esquisito, de Mário Cesariny
106 - A Confissão de Lúcio, de Mário de Sá Carneiro
107 - Cem Anos de Solidão, de Gabriel Garcia Marquez
108 - Amor em Tempos de Cólera, de Gabriel Garcia Marquez
109 - Teresa Baptista Cansada da Guerra, de Jorge Amado
110 - A Tia Júlia e o Escrevedor, de Mario Vargas Llosa
111 - História de Uma Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar, de Luis Sepúlveda
112 - O Mundo de Sofia, de Jostein Gaarder
113 - Money, de Martin Amis
114 - História de Portugal, de A. H. de Oliveira Marques
115 - Aventuras de João Sem Medo, de José Gomes Ferreira
116 - O Cavaleiro da Dinamarca, de Sophia de Mello Breyner Andresen
117 - Moby Dick, de Herman Melville
118 - O Apelo da Selva, de Jack London
* Vou no quarto volume.
** Estou quase a acabar.
quinta-feira, novembro 15, 2007
quarta-feira, novembro 14, 2007
terça-feira, novembro 13, 2007
Elogio do silêncio.
Apesar de ser republicano, devo confessar que, nos últimos anos, não houve líder político que me tenha dado uma alegria comparável à recente alegria que me deu o bom do Rei dos espanhóis: porque não te calas ò labrego de serviço e palhaço rico da esquerda terceiro mundista, tu de verdade e precisamente o grande fascista parasita da estupidez humana, ditadorzeco compra votos, tiranete de ouro negro, mas não tão negro como o teu humor televisivo aos domingos de manhã ou aos sábados à tarde que o inferno não tem feiras, espécie de big brother no passeio dos tristes, canalha sem vergonha nem propósito para além da ordinarice de seres um rasca? Porque não te calas ò infeliz? E, já agora, que se recomenda o silêncio, porque não emudeces tu também, Fidel que nunca mais emudeces? E tu Lula, Mobutu, Musharraf, Ahmadinejad, Bento XVI, porque tanto pias? E tu Mário Soares e tu Lopes, Menezes, Sócrates, Louçã, Loureiro, Jardim, e tu Portas - fecha a matraca! E tu Filipe Vieira, Pinto da Costa, Rui Santos, queres fazer o favor de te calares? Diogo Freitas do Amaral, Teixeira dos Santos, Rui Pereira, porque não fazes silêncio, fala barato de má origem? E tu Miguel Esteves Cardoso, José António Saraiva, Baptista Bastos, Rui Zink, Herman José, não preferes fazer pouco barulho porquê? Sim, tu eterno feminino em Ana Gomes, Joana Amaral Dias, Odete Santos, Manuela Eanes, Hillary Clinton, Cristina Kirchner, Júlia Pinheiro, Ana Bola, Clara Ferreira Alves, Fátima Campos Ferreira, sim, Fátima Campos Ferreira, pá, deixa falar os outros ò grande martelo pneumático da incontinência oral! E tu ainda Al Gore, Michael Moore, Noam Chomsky, cala-te e cala-te ò picareta imparável do dislate!
É que, se o silêncio é de ouro, camarada, o teu calar é diamantino.
terça-feira, novembro 06, 2007
Santos
Está claro que o tempo perdido é parisiense.
Nenhum sonhador lisboense
se preocuparia com o lado de Guermantes
e até o bom do Swan subiria a penantes
por esta rua alva incendiada da prantos,
travessa que atravessa o bairro de Santos.
O que cantava o outro sobre as manhãs de Setembro,
digo eu de Novembro.
Esta claridade de Lisboa, este S. Martinho Sem Frio
iluminado de céu e de rio,
este choque cromático entre o branco e o azul:
é uma quimera de Sul.
O poeta da tarde mais tarde que a tarde física,
esqueceu-se da metafísica.
É numa manhã assim, numa manhã madrugada,
transparente e tatuada
de sombras acesas contra o triunfo da luz,
que nos salvamos da cruz.
E o maluco do alemão que foi vender ao diabo
a sua única flor de nabo,
nunca acordou em Lisboa nestes dias de Outono
que nos roubam o sono,
que nos devolvem a glória e o oxigénio.
Aqui, senhores, é o sol que é o génio.
E quem diz que é no Verão mais fácil a vida,
ainda não desceu esta avenida.
Nenhum sonhador lisboense
se preocuparia com o lado de Guermantes
e até o bom do Swan subiria a penantes
por esta rua alva incendiada da prantos,
travessa que atravessa o bairro de Santos.
O que cantava o outro sobre as manhãs de Setembro,
digo eu de Novembro.
Esta claridade de Lisboa, este S. Martinho Sem Frio
iluminado de céu e de rio,
este choque cromático entre o branco e o azul:
é uma quimera de Sul.
O poeta da tarde mais tarde que a tarde física,
esqueceu-se da metafísica.
É numa manhã assim, numa manhã madrugada,
transparente e tatuada
de sombras acesas contra o triunfo da luz,
que nos salvamos da cruz.
E o maluco do alemão que foi vender ao diabo
a sua única flor de nabo,
nunca acordou em Lisboa nestes dias de Outono
que nos roubam o sono,
que nos devolvem a glória e o oxigénio.
Aqui, senhores, é o sol que é o génio.
E quem diz que é no Verão mais fácil a vida,
ainda não desceu esta avenida.
segunda-feira, outubro 29, 2007
Assim, sou obrigado a acreditar nos benefícios da pena de morte.
No que diz respeito à Teoria Geral do Direito da Morte, este vosso dedicado amigo é um tipo um bocado inconsistente. Sou, por princípio, contra a pena capital e tenho muitas dúvidas e resistências em relação ao aborto. Mas sou a favor da eutanásia e concordo com o suicídio (não acho nada cobarde um gajo optar por se matar e penso até ser de valentia um gesto assim higiénico). Há aqui, mesmo assim, uma lógica: acredito que ninguém tem direito a tirar a vida a outra pessoa, mas toda a gente tem legitimidade para terminar com a sua própria existência.
Porém, quando leio no Expresso que um canalha qualquer teve a indecência espantosa de prender um cão faminto a uma parede de uma galeria de arte para fazer da morte do animal um objecto da exposição, tenho que dizer: este homem devia morrer já. Mas é que era já. Puta que o pariu, dêem-lhe imediatamente um tiro.
Porém, quando leio no Expresso que um canalha qualquer teve a indecência espantosa de prender um cão faminto a uma parede de uma galeria de arte para fazer da morte do animal um objecto da exposição, tenho que dizer: este homem devia morrer já. Mas é que era já. Puta que o pariu, dêem-lhe imediatamente um tiro.
Esta linda é do meu amigo Nuno Miguel Silva:
"Este ano, o Prémio Nobel da Paz foi atribuído a um powerpoint."
quinta-feira, outubro 25, 2007
Idealismo ao vivo.
An end Has a Start - EDITORS
Este blog sofre de repetição. Não por higiene estética - sou mais sujo do que isso - mas por causa do idealismo alemão. Insisto no mesmo esquema dialéctico de razões:
"I don’t think that it’s
Gonna rain again today,
There's a devil at your side,
But an angel on the way
Someone hit the light,
Cause there's more here to be seen,
When you caught my eye,
I saw everywhere I'd been
And what I go to...
You came on your own,
And that's how you'll leave,
With hope in your hands,
And air to breathe,
I won’t disappoint you,
As you fall apart,
Some things should be simple,
Even an end has a start,
Someone hit the light,
Cause there's more here to be seen,
When you caught my eye,
I saw everywhere I'd been
And what I go to...
You came on your own,
And that's how you'll leave,
With hope in your hands,
And air to breathe,
You'll lose everything,
But in the end,
Still my broken limbs,
Will find time to mend
More and more people I
Know are getting ill
(Put something good on the,
Ashes now be still)
You came on your own,
That's how you'll leave,
With hope in your hands,
And air to breathe,
You'll lose everything,
But in the end,
Still my broken limbs,
Will find time to mend
You came on your own,
That's how you'll leave, x2
You came on your own x2
quarta-feira, outubro 24, 2007
O Mito Mediterrânico
INTERROMPIDO POR APOLOGIAS À OPINIÃO DOMINANTE
E ILUSTRADO COM SUPER-HERÓIS DO ATLÂNTICO.
Em louvor de minha Mãe, Maria Adelaide Hasse, que combate pela discórdia.

Lamento imenso mas Portugal não é um país mediterrânico. A maior parte das pessoas inteligentes que conheço não estão de acordo comigo - o que é uma pena, porque deviam - mas, peço desculpa, reitero e repito: Portugal é um país Atlântico.
Com os vales raros do Mediterrâneo podemos partilhar a vinha, mas o vinho é português. De Marrocos podemos ter a azeitona e a laranja e a paisagem algarvia mas não somos do Magrebe. Não somos berberes, nem tuaregues, nem o diabo. Somos romanos e visigodos, somos celtas e vândalos e suevos, somos judeus, persas e xiitas - também - mas não somos de Meca nem nos prometemos a Jerusalém.

Eu tenho muita pena mas se ainda se dá por um muito vago sotaque mourisco, a verdade é que já não somos árabes há uns tempos e foi só até Coimbra, bem vistas as coisas. Podemos ter, para lá do Sado, a arquitectura clara e minimal da Europa helénica, mas não somos de lá e é claro que somos lentos e lerdos como os balcânicos, mas não somos dos Balcâs e se o alfabeto chegou pelo comerciante fenício, pelo escriba de Alexandria ou pelo governador de Pompeia, nem por isso somos sírios, egípcios ou etruscos, caramba! Somos mais o produto do esperma de saxões e visigodos, bárbaros do norte todos. Não pariram aqui as prostitutas da Babilónia, não chegaram cá os bulícios genéticos da Macedónia ou os maneirismos culturais de Constantinopla, um poucochinho só de Cartágo e da Grécia Clássica o mito iniciático da cidade de Lisboa, apenas. Veneza, Génova, Barcelona, que cagalhão deixaram pelas praias ocidentais? Zero: somos mais de Sagres, apesar de Joyce, somos mais de Dublin que qualquer grego, somos mais celtas, bretões e normandos e galegos e bascos, porque somos mais da costa norte, agreste em vez de temperamental. Dramática ao invés de trágica. Porque as nossas praias acabam em falésias em vez de montanhas, porque às ilhas não se chega de remos, porque o pastor não desce pelos mesmos caminhos, porque o peixe é diverso e outrossim a faina, porque não inventámos a literatura, porque lhe demos um banho salgado de alto mar e de alto risco: só à brisa fresca deste oceano se inventa a sardinha e se cozinha o petisco.

Que me desculpem os pragmáticos e os funcionalistas, mas a mais sagrada cruz que o português tem de suportar, contente, é a da vigília do Atlântico. Estamos aqui alerta, estamos por aqui quietos a olhar o mar, num desafio de guarda nacional republicana. E esta vigília não é curta de milhas nem tresanda de civilizações: o horizonte é imenso, virgem e inescapável. Ulisses nunca poderia ser um herói português muito simplesmente porque a sua ambição máxima é a de voltar, vivo, a casa. Isto faz sentido num Mediterrâneo intenso, sobrepovoado de diferenças e problemas imobiliários, onde a casa de um homem é o seu castelo. Fernão Mendes Pinto, esse sim, é um herói português porque tem ambições oceânicas: a sua odisseia é a da peregrinação propriamente dita, a aventura desalmada, mal afortunada, lá do outro lado do esférico. O regresso é de somenos. Pero vaz de Caminha deixa-se ficar pelas arábias e Fernão de Magalhães entretém-se a circumnavegar até à morte. Até Camões, que amava Homero, só faz regressar o Bom do Vasco ao Canto penúltimo. Nenhum português se daria aos trabalhos insanos a que se submeteu Odisseu, porque a casa da mariquinhas não é um castelo, é uma plataforma de lançamento. Uma ideia argonauta própria de quem passa a vida com os olhos embalados pelas marés do Atlântico. O Grego sonha em voltar. O Português sonha em partir. É diferente. Toda a diferença de uma linha costeira: se tem o mar de frente ou um oceano por fronteira.

Lamentavelmente, ainda há uns ilustres que concordam comigo, que me redimem desta solidão fenomenológica: Braudel, Pessoa, Almada, o meu querido Professor António Marques Beça, e mais uns indecisos como Oliveira Marques ou Eduardo Lourenço. Talvez porque equacionam que o Mediterrâneo rico e imperial, o Mediterrâneo dividido em riquezas, engarrafamento étnico de grandes interesses civilizacionais, acabou quando D. João II se decidiu a sonhar, já talvez enfadado daquele marinho horizonte de aventuras por cumprir. Ou apenas porque sabem que o clima, em Portugal, não é mediterrânico; que o relevo é antípoda; que a península ibérica está rodeada sobretudo pelo Oceano Atlântico e que Portugal é o país mais ocidental da Europa. Ou provavelmente porque intuem que o marinheiro português tem mais em comum com um lars viking do que com um sinbad bizantino. E todo o português é um marinheiro. Daí a deriva. Daí o nevoeiro.
A história de Portugal só fez sentido enquanto foi virada para o Atlântico. E quem não percebe isto é que é romântico.
E ILUSTRADO COM SUPER-HERÓIS DO ATLÂNTICO.
Em louvor de minha Mãe, Maria Adelaide Hasse, que combate pela discórdia.
Lamento imenso mas Portugal não é um país mediterrânico. A maior parte das pessoas inteligentes que conheço não estão de acordo comigo - o que é uma pena, porque deviam - mas, peço desculpa, reitero e repito: Portugal é um país Atlântico.
Com os vales raros do Mediterrâneo podemos partilhar a vinha, mas o vinho é português. De Marrocos podemos ter a azeitona e a laranja e a paisagem algarvia mas não somos do Magrebe. Não somos berberes, nem tuaregues, nem o diabo. Somos romanos e visigodos, somos celtas e vândalos e suevos, somos judeus, persas e xiitas - também - mas não somos de Meca nem nos prometemos a Jerusalém.
Eu tenho muita pena mas se ainda se dá por um muito vago sotaque mourisco, a verdade é que já não somos árabes há uns tempos e foi só até Coimbra, bem vistas as coisas. Podemos ter, para lá do Sado, a arquitectura clara e minimal da Europa helénica, mas não somos de lá e é claro que somos lentos e lerdos como os balcânicos, mas não somos dos Balcâs e se o alfabeto chegou pelo comerciante fenício, pelo escriba de Alexandria ou pelo governador de Pompeia, nem por isso somos sírios, egípcios ou etruscos, caramba! Somos mais o produto do esperma de saxões e visigodos, bárbaros do norte todos. Não pariram aqui as prostitutas da Babilónia, não chegaram cá os bulícios genéticos da Macedónia ou os maneirismos culturais de Constantinopla, um poucochinho só de Cartágo e da Grécia Clássica o mito iniciático da cidade de Lisboa, apenas. Veneza, Génova, Barcelona, que cagalhão deixaram pelas praias ocidentais? Zero: somos mais de Sagres, apesar de Joyce, somos mais de Dublin que qualquer grego, somos mais celtas, bretões e normandos e galegos e bascos, porque somos mais da costa norte, agreste em vez de temperamental. Dramática ao invés de trágica. Porque as nossas praias acabam em falésias em vez de montanhas, porque às ilhas não se chega de remos, porque o pastor não desce pelos mesmos caminhos, porque o peixe é diverso e outrossim a faina, porque não inventámos a literatura, porque lhe demos um banho salgado de alto mar e de alto risco: só à brisa fresca deste oceano se inventa a sardinha e se cozinha o petisco.
Que me desculpem os pragmáticos e os funcionalistas, mas a mais sagrada cruz que o português tem de suportar, contente, é a da vigília do Atlântico. Estamos aqui alerta, estamos por aqui quietos a olhar o mar, num desafio de guarda nacional republicana. E esta vigília não é curta de milhas nem tresanda de civilizações: o horizonte é imenso, virgem e inescapável. Ulisses nunca poderia ser um herói português muito simplesmente porque a sua ambição máxima é a de voltar, vivo, a casa. Isto faz sentido num Mediterrâneo intenso, sobrepovoado de diferenças e problemas imobiliários, onde a casa de um homem é o seu castelo. Fernão Mendes Pinto, esse sim, é um herói português porque tem ambições oceânicas: a sua odisseia é a da peregrinação propriamente dita, a aventura desalmada, mal afortunada, lá do outro lado do esférico. O regresso é de somenos. Pero vaz de Caminha deixa-se ficar pelas arábias e Fernão de Magalhães entretém-se a circumnavegar até à morte. Até Camões, que amava Homero, só faz regressar o Bom do Vasco ao Canto penúltimo. Nenhum português se daria aos trabalhos insanos a que se submeteu Odisseu, porque a casa da mariquinhas não é um castelo, é uma plataforma de lançamento. Uma ideia argonauta própria de quem passa a vida com os olhos embalados pelas marés do Atlântico. O Grego sonha em voltar. O Português sonha em partir. É diferente. Toda a diferença de uma linha costeira: se tem o mar de frente ou um oceano por fronteira.
Lamentavelmente, ainda há uns ilustres que concordam comigo, que me redimem desta solidão fenomenológica: Braudel, Pessoa, Almada, o meu querido Professor António Marques Beça, e mais uns indecisos como Oliveira Marques ou Eduardo Lourenço. Talvez porque equacionam que o Mediterrâneo rico e imperial, o Mediterrâneo dividido em riquezas, engarrafamento étnico de grandes interesses civilizacionais, acabou quando D. João II se decidiu a sonhar, já talvez enfadado daquele marinho horizonte de aventuras por cumprir. Ou apenas porque sabem que o clima, em Portugal, não é mediterrânico; que o relevo é antípoda; que a península ibérica está rodeada sobretudo pelo Oceano Atlântico e que Portugal é o país mais ocidental da Europa. Ou provavelmente porque intuem que o marinheiro português tem mais em comum com um lars viking do que com um sinbad bizantino. E todo o português é um marinheiro. Daí a deriva. Daí o nevoeiro.
A história de Portugal só fez sentido enquanto foi virada para o Atlântico. E quem não percebe isto é que é romântico.
quarta-feira, outubro 17, 2007
domingo, outubro 14, 2007
Gente em vez de malta.
Não quero estar a bater sempre no mesmo ceguinho, mas a recente coroação de Al Gore como o grande campeão da paz ambiental, o príncipe perfeito entre os mais perfeitos profetas do apocalipse - versão terceiro milénio actualizada e revista - é um fenómeno tristemente divertido e bem próprio destes dias insanos. É claro e apenas justo que não seja um cientista, mas um palhaço rico vindo directamente do grande circo da política internacional a receber este Nobel. A verdade incoveniente do Sr. Gore é uma verdade eleitoralista, plastificada, mediática, charmosa, insubstantiva; é um gingle, uma campanha, um disfarce, uma manobra, uma invenção, em resumo: um entertenimento. Mas não será nunca científica. Ao excelso Comité Norueguês entrego os meus mais calorosos cumprimentos, por ter contribuído, à sua pequena e rasteira maneira, para a total descredibilização do grande mito climático. Um embuste em traje de gala mostra sempre que os reis vão nús.
De qualquer forma, a curto ou médio prazo, as grandes cabeças do Comité arriscam-se a ter um Prémio Nobel da Paz que acumula o cargo com a Presidência dos Estados Unidos da América e a chefia maior das forças armadas do Império. É de gargalhada imaginar esta pomba Gore na Situation Room, avaliando os diferentes planos de ataque aéreo a Teerão. Quantos são, quantos são? Quantos são os que vão morrer hoje?
Já ver Santana Lopes em triunfo no Congresso parece-me bem estranho. E é mesmo paranormal que este senhor Filipe Menezes tenha chegado aonde chegou sem uma boa ideia que seja. Nada vezes nada e, pelos deuses da república, há-de subir a primeiro ministro! É de natureza esotérica o declínio miserável do Partido Social Democrata e é transcendente que ainda não exista um Partido Liberal nesta terra, mas o que é realmente de literatura fantástica é este facto-milagre-de-fátima: a Europa entregou a Durão Barroso e a José Sócrates o poder executivo para concretizar a sua primeira Constituição Federal, nada mais, nada menos. Agora contem lá isto ao extraterrestre que passar aí por casa, a ver se ele acredita. Do Atlântico aos Urais, não há nada de melhorzinho?
A autêntica falência das lideranças no mundo Ocidental é provavelmente o nosso mais dramático - e risível - problema. A certo momento dá-me sempre a ideia que os grandes intérpretes da história contemporânea não passam de pequenos Faustos, condenados pela luxúria do poder a um mediocre inferno de banalidades e invejas de pátio. E se isto é verdade lá fora, em Portugal, deus meu, a coisa é insuportável. Políticos à parte, porque são os marretas que são, e excluindo aquela gente que é sempre a mesma e que é importante porque diz, como um comentador da bola, coisas bonitas e inteligentes na televisão, onde é que estão os os líderes morais, económicos, associativos, desportivos e sindicais de um Portugal novo? Onde é que está a geração que realmente reformará um dia este país? É que aquilo que existe é tão fraquinho e mal criado que não inspira nem um Whitman que seja.
É muito triste dizer isto, mas em Portugal nem os banqueiros têm maneiras.
quinta-feira, outubro 04, 2007
quinta-feira, setembro 27, 2007
Os insondáveis desígnios da República.
Mendes e Menezes estão a transformar as directas num folhetim à sua verdadeira dimensão: gente rasteira gosta destas coisas. E se Mendes é um rato, Menezes é uma barata. Como animais, são brilhantes sobreviventes; como líderes políticos, uma lástima impressionante. O que talvez seja bom. Porque a direita existe e tem significado na sociedade portuguesa, mas está orfã de representação competente nas estruturas institucionais da república, talvez a morte clínica do PSD gere o pudor suficiente para que se crie, finalmente, um partido liberal em Portugal. Por isso, e pensando bem, vão em frente coveiros, continuem o belo trabalhinho e não se interrompam por nada deste mundo. O que levam a enterrar, no fim, para além de vós próprios, será sempre coisa desprovida de valor.
quarta-feira, setembro 19, 2007
A Idade Média não é a Idade das Trevas.
OU O LIVRO DAS HORAS DO DUQUE DE BERRY
EM DEFESA E ARGUMENTO DA CROMÁTICA MEDIEVAL .
Ainda há muita malta que pensa em cinzentos quando julga a Idade Média. Ainda há grandes cabeças que sonham uma medievalidade infernal de fogueiras e descolorida de cenografias. O que não falta é gente esperta a ignorar a revolução comercial (a mais importante de todas, a bem ver, porque criou a burguesia - mãe de todas as revoluções posteriores) ou a invenção da polifonia, sem a qual os nossos ouvidos por certo morreriam de sede. Mas a maior injustiça de todas é a de ignorar a génese das cores primárias. O mundo Medieval, como é encomendadeo por Jean Valois, o Magnífico, Duque de Berry e patrono das artes, neste seu livro das horas "Les Trés Riches Heures", é um verdadeiro triunfo do Pantone. Vibram ultravioletas e contrastes, incendeiam-se cenários e guarda-roupas, tudo salta cá para fora num festim de cores directas. Ou o dito duque tomava ácidos ou algo está errado: não consigo ver trevas, só vejo luz.
É claro que a percepção disfuncional é de razão relativamente prosaica: a malta confunde a Antiguidade Tardia com a Alta Idade Média, a malta reduz tudo à fogueira da Inquisição e ao fascismo dos príncipes, a malta não vê para além das pestes e das fomes e espalha-se ao comprido. A malta não percebe, ou ignora, que a Idade Média é ainda época do Império Romano (do Oriente), esse Bizâncio criativo e prolixo que enfeitava com fausto grande parte de um Mediterrâneo hiperactivo e capitalista.
Quem faz carreira académica à custa de uma visão conveniente e preguiçosa da história, devia ser obrigado a decorar as confissões de Santo Agostinho e as sumas de S. Tomás de Aquino. Devia perceber as diferenças na ética e na estética para depois não vir dizer que andámos qinze séculos com o Aristóteles às costas e sem imaginação nas carótidas. Não acredito nada na versão manhosa, embrulhada em embalagem de mercearia escolástica, que nos vendem os vendilhões da espistemologia.
É preciso, talvez, equacionar que essa tal tristonha, ditadora, tenebrosa e fundamentalmente estúpida Idade Média pariu aquilo a que hoje chamamos o Estado. Inventou a prensa e a imprensa, a novela, o relógio mecânico, a caravela, a fundição do ferro, o moinho de água. Aperfeiçou a óptica e a arquitectura, desenvolveu a bússola e o astrolábio, revolucionou a cartografia, fundou as primeiras universidades, canonizou a arte poética.
É preciso olhar para estas iluminuras do bom duque e ver, através delas, um outro mundo médio. Uma outra escala de tons.
EM DEFESA E ARGUMENTO DA CROMÁTICA MEDIEVAL .
Ainda há muita malta que pensa em cinzentos quando julga a Idade Média. Ainda há grandes cabeças que sonham uma medievalidade infernal de fogueiras e descolorida de cenografias. O que não falta é gente esperta a ignorar a revolução comercial (a mais importante de todas, a bem ver, porque criou a burguesia - mãe de todas as revoluções posteriores) ou a invenção da polifonia, sem a qual os nossos ouvidos por certo morreriam de sede. Mas a maior injustiça de todas é a de ignorar a génese das cores primárias. O mundo Medieval, como é encomendadeo por Jean Valois, o Magnífico, Duque de Berry e patrono das artes, neste seu livro das horas "Les Trés Riches Heures", é um verdadeiro triunfo do Pantone. Vibram ultravioletas e contrastes, incendeiam-se cenários e guarda-roupas, tudo salta cá para fora num festim de cores directas. Ou o dito duque tomava ácidos ou algo está errado: não consigo ver trevas, só vejo luz.
É claro que a percepção disfuncional é de razão relativamente prosaica: a malta confunde a Antiguidade Tardia com a Alta Idade Média, a malta reduz tudo à fogueira da Inquisição e ao fascismo dos príncipes, a malta não vê para além das pestes e das fomes e espalha-se ao comprido. A malta não percebe, ou ignora, que a Idade Média é ainda época do Império Romano (do Oriente), esse Bizâncio criativo e prolixo que enfeitava com fausto grande parte de um Mediterrâneo hiperactivo e capitalista.
Quem faz carreira académica à custa de uma visão conveniente e preguiçosa da história, devia ser obrigado a decorar as confissões de Santo Agostinho e as sumas de S. Tomás de Aquino. Devia perceber as diferenças na ética e na estética para depois não vir dizer que andámos qinze séculos com o Aristóteles às costas e sem imaginação nas carótidas. Não acredito nada na versão manhosa, embrulhada em embalagem de mercearia escolástica, que nos vendem os vendilhões da espistemologia.
É preciso, talvez, equacionar que essa tal tristonha, ditadora, tenebrosa e fundamentalmente estúpida Idade Média pariu aquilo a que hoje chamamos o Estado. Inventou a prensa e a imprensa, a novela, o relógio mecânico, a caravela, a fundição do ferro, o moinho de água. Aperfeiçou a óptica e a arquitectura, desenvolveu a bússola e o astrolábio, revolucionou a cartografia, fundou as primeiras universidades, canonizou a arte poética.
É preciso olhar para estas iluminuras do bom duque e ver, através delas, um outro mundo médio. Uma outra escala de tons.
terça-feira, setembro 18, 2007
Carta aberta a Tenzin Gyatso.
Perdoa-me a liberdade impúdica desta carta pública, mestre, mas devo dizer-te duas ou três. É um dever ético confessar-te que me fazes lembrar um personagem roubado ao Tintin no Tibete: essas sobrancelhas de vilão BD, com vida própria lá no alto da tua jovial inquisição, essa compostura miópe e bem disposta de caixa-de-óculos-de-deus, esse manto púrpuro de imperador da razão prática, essas tuas pitorescas idiossincrasias de guru deixam-me completamente nas nuvens, santidade. Agrada-me sobremaneira a tua elegância verdadeiramente metafísica. Enfrentas políticos e jornalistas, tiranos e idólatras, bispos e apóstatas com a mesma complacência com que, lá nas tuas montanhas do paraíso, se apascentam as cabras mais irrequietas. Parece que nada te chateia, querido lama. Dá a impressão de achares que tudo faz sentido neste impossível universo e dir-se-ia até que não estás lá muito preocupado com o drama da condição humana. És um autêntico Merlin e não vai ser agora a grande távola da ignorância tribal que te vai incomodar o feitiço. Sim, devo dizer-te que gosto da tua versão mimética do eterno sorriso de Buda, das tuas gargalhadas sobre o protocolo, da tua aura de super alma e tu tens uma aura de facto, meu amigo. Nesse sentido, desconfio que serás parente de Gabriel, esse assim como tu luminoso arcanjo e campeão da ironia, com provas dadas no interminável anedotário das religiões. És em definitivo o único líder espiritual que eu conheço que me faz rir no telejornal e fico muito contente por teres vindo a Portugal sem que te obrigassem a aturar os cavacos e os sócrates da pocilga do estado. Estou em crer, ò sublime manifesto vivo do Bodhisattva da Compaixão, que a infâmia dos bandidos oficiais não te perturba o sono. E que o fardo da divindade não te pesa nessas pernas cansadas de bom e velho monge, espécie de Master Yoda em sandálias. É que a Força está mesmo contigo e, o que é mais, Dalai Lama: és um fixe, man.
segunda-feira, setembro 10, 2007
Billie Jean. Agora em Português.
Ela era mais do tipo miss malveira, bela fiteira
Eu disse tudo bem mas nem penses que eu sou o tal
que vai dançar e rodar pelo chão
Ela disse que eu sou o tal que vai dançar e rodar pelo chão
Disse que se chamava Joana Trama e fez um drama
p'ra todos verem que podem sonhar ser o tal
que vai dançar e rodar pelo chão
Sempre me disseram p’ra ter cuidado com o que faço
não andar por aí a destruir corações às miúdas
A minha mãe sempre me disse p’ra ter cuidado com quem amo
p’ra ter cuidado com o que faço, porque mentir é um embaraço
Ei, ei
A joana não é minha amante
ela é que pensa que o culpado sou eu
mas o puto não é meu.
Ela diz que o pai sou eu, mas o filho não é meu.
Dias e dias e a noite é bela com a lei do lado dela
Já não se atura a criatura cheia de cenas e planos
só porque dançámos e rodámos pelo chão
Por isso ouve meu irmão, pensa duas vezes nesta canção
(Pensa duas vezes)
Contou à outra que dançámos até às três, olhou de revés
e mostrou a foto: a outra passou-se porque o puto tem os meus olhos
Vais dançar e rodar pelo chão
Sempre me disseram p’ra ter cuidado com o que faço
não andar por aí a destruir corações às miúdas
Mas ela apareceu a meu lado toda doce e perfumada
isto aconteceu de madrugada e ela deu-me uma morada
Ei, ei
A joana não é minha amante
ela é que pensa que eu sou um tal de romeu
mas o puto não é meu.
A joana não é minha amante
ela é que pensa que o culpado sou eu
mas o puto não é meu.
Ela diz que o pai sou eu, mas o filho não é meu.
A joana não é minha amante
A joana não é minha amante
A joana não é minha amante
A joana não é minha amante
Os filhos da meia noite (III).
"Power will go to the hands of rascals, rogues and freebooters. All Indian leaders will be of low calibre and men of straw."
Winston Churchill, on the eve of Indian Independence - 1947
Em guerra com a Índia desde sempre, potência regional por geografia e nuclear por desgraça, nação de bandidos e fanáticos governada por vilões e mal feitores, o Paquistão, infeliz invenção do Senhor Jinnah (em má hora nascido e morrido tarde demais), é um problema grande. É uma dor de cabeça. E um perigo para a saúde pública.
Depois do 11 de Setembro, a administração Bush cometeu a suprema loucura de considerar este nefasto país como um aliado na guerra contra o terrorismo. Ora, o Paquistão consubstancia, hoje em dia, a maior ameaça terrorista no Planeta Terra, ponto final, parágrafo. Daqui nunca veio e nunca virá nada de bom. E a aparente boa notícia de que o senhor Pervez Musharraf está para cair de pantanas do cimo do seu militarizado poleirinho é afinal uma péssima notícia. Por muito incompetente e tiranozóide que possa ser este generaleco de baixa caserna, de certeza absoluta que um outro grande líder do género Aiatolá-taliban-islamita-esquizofrénico surgirá do lodo da história para aterrorizar o resto do mundo.
Winston Churchill, que tinha muito olho para estas coisas, sempre esteve certo. A independência da Índia, como foi feita e na altura em que foi feita, revela-se, a cada ano que passa, uma catástrofe das grandes.
Dez livros que NÃO mudaram a minha vida.
Não sou grande maluco destes desafios em cadeia, que se usam na blogosfera. Além disso, preferia de longe falar dos 10 livros que mudaram a minha vida (boa ideia para um post), mas vindo o convite de quem vem, não há senão que cumprir. É claro que me vão falhar algumas preciosidades, e devo alertar que incluo na lista apenas aqueles escritos que tive a coragem de ler até ao fim (valha-me deus!).
1 - A Conquista da Felicidade, de Bertrand Russel. Carregadinha de um humanismo absolutamente insuportável, esta obra essencial da filosofia de algibeira do século XX é de evitar, para higiene do pensamento.
2 - O Físico Prodigioso, de Jorge de Sena. Esta pequenita peça de literatura, em versão leite condensado, foi-me vivamente aconselhada por uma montanha de esclarecidos amigos. Em vão, claro. Não me aqueceu nem me arrefeceu.
3 - O Amante, de Marguerite Duras. Muito simplesmente porque não há cú que aguente esta senhora.
4 - Retalhos da Vida de um Médico, de Fernando Namora. Salvo honrosas e excelentes excepções, o neo-realismo português nunca mexeu muito comigo. Este livrinho então, meu deus, deixou-me perfeitamente estático.
5 - Constantino, Guardador de Vacas e de Sonhos, de Alves Redol. Aqui há coisa de 30 anos atrás, torturavam as crianças com esta obra ao negro. É por estas e por outras que há muita malta da minha geração que pensa que Homero é um avançado do Panatinaikos.
6 - Fora de Horas, de Paulo Castilho. Um exemplo de como um mau romance pode ganhar prémios, agradar à critica e vender ao quilo. Uma seca do princípio ao fim.
7 - Psicopata Americano, de Bret Easton Ellis. Neste livro há um capítulo inteiro dedicado ao amor que o personagem central dedica aos Genesis. Nem é preciso dizer mais nada. Muito mau.
8 - Eva Luna, de Isabel Allende. O realismo mágico e a teologia da libertação. A América do Sul não é isto, caramba. Gasp!
9 - Só, de António Nobre. Nas palavras do Autor: "O livro mais triste que há um Portugal!". Eu concordo. Que tristeza, senhores.
10 - A Profecia Celestina, de James Redfield. Uma chatice, uma fraude, uma apoplexia.
1 - A Conquista da Felicidade, de Bertrand Russel. Carregadinha de um humanismo absolutamente insuportável, esta obra essencial da filosofia de algibeira do século XX é de evitar, para higiene do pensamento.
2 - O Físico Prodigioso, de Jorge de Sena. Esta pequenita peça de literatura, em versão leite condensado, foi-me vivamente aconselhada por uma montanha de esclarecidos amigos. Em vão, claro. Não me aqueceu nem me arrefeceu.
3 - O Amante, de Marguerite Duras. Muito simplesmente porque não há cú que aguente esta senhora.
4 - Retalhos da Vida de um Médico, de Fernando Namora. Salvo honrosas e excelentes excepções, o neo-realismo português nunca mexeu muito comigo. Este livrinho então, meu deus, deixou-me perfeitamente estático.
5 - Constantino, Guardador de Vacas e de Sonhos, de Alves Redol. Aqui há coisa de 30 anos atrás, torturavam as crianças com esta obra ao negro. É por estas e por outras que há muita malta da minha geração que pensa que Homero é um avançado do Panatinaikos.
6 - Fora de Horas, de Paulo Castilho. Um exemplo de como um mau romance pode ganhar prémios, agradar à critica e vender ao quilo. Uma seca do princípio ao fim.
7 - Psicopata Americano, de Bret Easton Ellis. Neste livro há um capítulo inteiro dedicado ao amor que o personagem central dedica aos Genesis. Nem é preciso dizer mais nada. Muito mau.
8 - Eva Luna, de Isabel Allende. O realismo mágico e a teologia da libertação. A América do Sul não é isto, caramba. Gasp!
9 - Só, de António Nobre. Nas palavras do Autor: "O livro mais triste que há um Portugal!". Eu concordo. Que tristeza, senhores.
10 - A Profecia Celestina, de James Redfield. Uma chatice, uma fraude, uma apoplexia.
quarta-feira, agosto 29, 2007
terça-feira, agosto 28, 2007
Como naquele quadro do Hopper em que lemos sexo mas a palavra não é essa.
DEZ RELATOS DO ABSURDO COPIADOS DA VIDA E COLIGIDOS EM ANEDOTÁRIO - 1991/2002
Um. No cruzamento dos semáforos que apanho para sair do meu bairro costuma estar sempre um doido sinaleiro que manda avançar os automóveis quando cai o vermelho e insulta profusamente os condutores que arrancam com o sinal verde. Numa destas manhãs submersas o insano sinalético não compareceu no seu local de trabalho. Parei no verde, arranquei no vermelho e fodi o carrinho todo contra um autocarro.
Dois. Estou no segundo dia do meu primeiro emprego. No momento em que o chefe, pessoa muito educada, entra no meu gabinete para me cumprimentar, solto um violento espirro. A mão com que protejo o ambiente do cosmos de perdigotos é presenteada com uma virulenta, pegajosa e inominável mole de ranho. O chefe estende-me a dele para o cumprimento, sem reparar que o membro que pretende apertar traz agarrado um verme muco, de verde flourescência. Viro-me para o computador e finjo que não é nada comigo mas o bom do dr. insiste no cumprimento e fica, de mão estendida e paciente, na expectativa. E agora?
Três. Que horas são? Atendo o telefone e pergunto que horas são. A tipa diz-me que são oito e vinte da manhã e que está no aeroporto e que o bilhete de identidade dela ficou na minha carteira e que precisa dele para fazer o check-in e que eu tenho que levantar mas é o rabo da cama e levar-lho lá e que o avião parte às oito e quarenta e cinco. Desligo e visto umas calças que estavam no chão, pego na carteira e nas chaves do carro e corro para a porta e estou descalço caralho, estou descalço e são oito e vinte e três. Volto atrás, calço os chinelos e saio de casa, entro no carro e bute que já são oito e vinte cinco. Eu vivo em Benfica. Acesso à segunda circular entre o caos e a inconsciência, oito e trinta e três. Quando vou entre a Luz e o Colombo passo-me e desato a buzinar como se estivesse grávido ou anunciasse o armagedão. Resultou. Fodasse para aqui e anda com essa merda para ali e estou na Rotunda do Aeroporto às oito e quarenta e três. Já não dá tempo, fodasse, já não dá tempo e estou nas partidas internacionais mas de gaja nem vê-la. Oito e quarenta e oito. Abro a carteira, procuro, procuro e não encontro. Chegou a Zurique à hora marcada. Disse-me depois que se lembrou a tempo que tinha o bilhete de identidade junto com os documentos do carro.
Quatro. A malta foi toda em excursão de camionagem prometer e pagar as devidas promessas a Nossa Senhora de Fátima. Para lá uns pasteis de bacalhau entre a reza dos terços, uns padres nossos em favor do garrafão e outros tantos avés marias com arroz de tomate. Para cá seria o mesmo menu, não fosse o motorista ter adormecido em serviço e a desgovernada camioneta seguir abismo abaixo rumo à morte de todos. No gigantesco velório, o padre da aldeia que de um dia para o outro se tinha visto sem trinta e duas das sessenta e uma almas do seu rebanho, falou sobre os insondáveis desígnios de Deus, embora não se tenha pronunciado sobre a gratidão de Nossa Senhora.
Cinco. Eles conhecem-se desde que se lembram um do outro mas só começaram a namorar quando ele comprou um carro. Entretanto descobriram o crédito à habitação e casaram-se. Compraram logo uma televisão, um video, uma aparelhagem e a mobília de quarto. Os pais dela contribuiram com a mobília da sala e os dele ofereceram os electrodomésticos para a cozinha. Um ano depois já tinham um filho e dois automóveis. Passados uns tempos adquiriram um computador, uma máquina de Café Expresso e uma viagem às Caraíbas. Cinco anos mais tarde separaram-se por causa de um cão que tinham comprado no centro comercial. Pouco depois ela abandonou o cão para se recasar com ele. Fartaram-se de fazer compras pela net e como já não havia cão tiveram mais um filho, mudaram de casa, de automóveis, de mobílias e divorciaram-se de seguida.
Seis. O tipo tinha para aí uns cinquenta anos de uma existência sem vícios. Não fumava, não bebia, fornicava o pouco que é o normal para quem era casado há trinta anos e nunca foi às putas. Por medos da sífilis. Cedo se deitava e cedo se erguia, tinha cuidados com o sal e outras especiarias inconvenientes à vida saudável. Fazia umas corridas na mata, para se manter em forma, e morreu ontem com um cancro nos pulmões.
Sete. Trata-se de um daqueles jantares que acontecem para que um gajo saque uma queca de vez em quando: ninguém se conhece muito bem mas toda a gente espera foder. Por entre as conversas de circunstância e o bacalhau com natas vem o Artur Albarran à baila e claro, a má língua. E toda a gente maldisse o que tinha a maldizer até que alguém descobriu que a dona da casa tinha sido casada com o próprio e que a criancinha que já estava na cama era filha dele. A silenciosa anfitriã passou rapidamente às sobremesas e nessa noite, ninguém fodeu.
Oito. Vou pela rua abaixo e um filho da mãe que vem a subir vira-se para mim a querer saber as horas e eu digo-lhas. Ele olha para o relógio dele, corrige as horas que eu lhe disse que eram e continua calçada acima. E eu fico parado, estúpido, sem me lembrar porque raio é que estava a descer a rua.
Nove. Conheço esta matrona que correu com um marido que tinha porque:
a) O gajo não a fodia;
b) Tinha mau vinho e muita sede;
c) Já não havia comunicação.
Posto isto iniciou a sua vida de solteira, até que na terceira semana começou a sentir as cócegas viscerais da solidão. Fez muitos telefonemas, socializou muito, embebedou-se outrossim e recomeçou a fumar ganza. Quatro semanas mais tarde não aguentava mais, comprou um computador e ligou-se à web que é onde agora toda a gente se deve ligar. Não tinha o diabo acabado de coçar o seu único olho e já conhecera um potencial namorado no acolhedor ambiente de um chatroom erótico cheio de nível. Disponível o parceiro virtual, com celeridade o trouxe para a mais tangível das realidades domésticas, sendo que hoje tem um marido que:
a) Não a fode;
b) Tem mau vinho e muita sede;
c) Não comunica;
d) Vive à custa.
Dez. Um gajo perde o telemóvel. E, sem saber, apenas decidiu que o perdeu. Até que chega um dia, três telemóveis e alguns anos depois, que entra no sotão, abre o bau das ferramentas, retira a caixa do berbequim e lá dentro, metafísico, insondável e já sofrendo de desactualização aguda, está esse megafone portátil, desencontrado nos contratempos de um passado difuso. E que, como é claro, já não serve para coisa alguma se não para alimentar o Mistério.
Um. No cruzamento dos semáforos que apanho para sair do meu bairro costuma estar sempre um doido sinaleiro que manda avançar os automóveis quando cai o vermelho e insulta profusamente os condutores que arrancam com o sinal verde. Numa destas manhãs submersas o insano sinalético não compareceu no seu local de trabalho. Parei no verde, arranquei no vermelho e fodi o carrinho todo contra um autocarro.
Dois. Estou no segundo dia do meu primeiro emprego. No momento em que o chefe, pessoa muito educada, entra no meu gabinete para me cumprimentar, solto um violento espirro. A mão com que protejo o ambiente do cosmos de perdigotos é presenteada com uma virulenta, pegajosa e inominável mole de ranho. O chefe estende-me a dele para o cumprimento, sem reparar que o membro que pretende apertar traz agarrado um verme muco, de verde flourescência. Viro-me para o computador e finjo que não é nada comigo mas o bom do dr. insiste no cumprimento e fica, de mão estendida e paciente, na expectativa. E agora?
Três. Que horas são? Atendo o telefone e pergunto que horas são. A tipa diz-me que são oito e vinte da manhã e que está no aeroporto e que o bilhete de identidade dela ficou na minha carteira e que precisa dele para fazer o check-in e que eu tenho que levantar mas é o rabo da cama e levar-lho lá e que o avião parte às oito e quarenta e cinco. Desligo e visto umas calças que estavam no chão, pego na carteira e nas chaves do carro e corro para a porta e estou descalço caralho, estou descalço e são oito e vinte e três. Volto atrás, calço os chinelos e saio de casa, entro no carro e bute que já são oito e vinte cinco. Eu vivo em Benfica. Acesso à segunda circular entre o caos e a inconsciência, oito e trinta e três. Quando vou entre a Luz e o Colombo passo-me e desato a buzinar como se estivesse grávido ou anunciasse o armagedão. Resultou. Fodasse para aqui e anda com essa merda para ali e estou na Rotunda do Aeroporto às oito e quarenta e três. Já não dá tempo, fodasse, já não dá tempo e estou nas partidas internacionais mas de gaja nem vê-la. Oito e quarenta e oito. Abro a carteira, procuro, procuro e não encontro. Chegou a Zurique à hora marcada. Disse-me depois que se lembrou a tempo que tinha o bilhete de identidade junto com os documentos do carro.
Quatro. A malta foi toda em excursão de camionagem prometer e pagar as devidas promessas a Nossa Senhora de Fátima. Para lá uns pasteis de bacalhau entre a reza dos terços, uns padres nossos em favor do garrafão e outros tantos avés marias com arroz de tomate. Para cá seria o mesmo menu, não fosse o motorista ter adormecido em serviço e a desgovernada camioneta seguir abismo abaixo rumo à morte de todos. No gigantesco velório, o padre da aldeia que de um dia para o outro se tinha visto sem trinta e duas das sessenta e uma almas do seu rebanho, falou sobre os insondáveis desígnios de Deus, embora não se tenha pronunciado sobre a gratidão de Nossa Senhora.
Cinco. Eles conhecem-se desde que se lembram um do outro mas só começaram a namorar quando ele comprou um carro. Entretanto descobriram o crédito à habitação e casaram-se. Compraram logo uma televisão, um video, uma aparelhagem e a mobília de quarto. Os pais dela contribuiram com a mobília da sala e os dele ofereceram os electrodomésticos para a cozinha. Um ano depois já tinham um filho e dois automóveis. Passados uns tempos adquiriram um computador, uma máquina de Café Expresso e uma viagem às Caraíbas. Cinco anos mais tarde separaram-se por causa de um cão que tinham comprado no centro comercial. Pouco depois ela abandonou o cão para se recasar com ele. Fartaram-se de fazer compras pela net e como já não havia cão tiveram mais um filho, mudaram de casa, de automóveis, de mobílias e divorciaram-se de seguida.
Seis. O tipo tinha para aí uns cinquenta anos de uma existência sem vícios. Não fumava, não bebia, fornicava o pouco que é o normal para quem era casado há trinta anos e nunca foi às putas. Por medos da sífilis. Cedo se deitava e cedo se erguia, tinha cuidados com o sal e outras especiarias inconvenientes à vida saudável. Fazia umas corridas na mata, para se manter em forma, e morreu ontem com um cancro nos pulmões.
Sete. Trata-se de um daqueles jantares que acontecem para que um gajo saque uma queca de vez em quando: ninguém se conhece muito bem mas toda a gente espera foder. Por entre as conversas de circunstância e o bacalhau com natas vem o Artur Albarran à baila e claro, a má língua. E toda a gente maldisse o que tinha a maldizer até que alguém descobriu que a dona da casa tinha sido casada com o próprio e que a criancinha que já estava na cama era filha dele. A silenciosa anfitriã passou rapidamente às sobremesas e nessa noite, ninguém fodeu.
Oito. Vou pela rua abaixo e um filho da mãe que vem a subir vira-se para mim a querer saber as horas e eu digo-lhas. Ele olha para o relógio dele, corrige as horas que eu lhe disse que eram e continua calçada acima. E eu fico parado, estúpido, sem me lembrar porque raio é que estava a descer a rua.
Nove. Conheço esta matrona que correu com um marido que tinha porque:
a) O gajo não a fodia;
b) Tinha mau vinho e muita sede;
c) Já não havia comunicação.
Posto isto iniciou a sua vida de solteira, até que na terceira semana começou a sentir as cócegas viscerais da solidão. Fez muitos telefonemas, socializou muito, embebedou-se outrossim e recomeçou a fumar ganza. Quatro semanas mais tarde não aguentava mais, comprou um computador e ligou-se à web que é onde agora toda a gente se deve ligar. Não tinha o diabo acabado de coçar o seu único olho e já conhecera um potencial namorado no acolhedor ambiente de um chatroom erótico cheio de nível. Disponível o parceiro virtual, com celeridade o trouxe para a mais tangível das realidades domésticas, sendo que hoje tem um marido que:
a) Não a fode;
b) Tem mau vinho e muita sede;
c) Não comunica;
d) Vive à custa.
Dez. Um gajo perde o telemóvel. E, sem saber, apenas decidiu que o perdeu. Até que chega um dia, três telemóveis e alguns anos depois, que entra no sotão, abre o bau das ferramentas, retira a caixa do berbequim e lá dentro, metafísico, insondável e já sofrendo de desactualização aguda, está esse megafone portátil, desencontrado nos contratempos de um passado difuso. E que, como é claro, já não serve para coisa alguma se não para alimentar o Mistério.
terça-feira, agosto 21, 2007
Danko Jones ou o Pedal para ganhar a Volta a França cinco vezes por ano:
- I Want You -
- I Love Living in the City -
- Lovercall -
- Baby Hates Me -
Os filhos da meia-noite (II).
"A missão de governar as Índias foi, por qualquer misterioso desígnio da Providência, posta aos ombros da raça inglesa."
- Rudyard Kipling. 1889 -
1 - Causa e consequência
É preciso vir o Presidente da República dizer que quem comete um crime deve ser tratado como um criminoso. É preciso meter a jogar, em simultâneo e na mesma posição, dois laterais direitos para se ser despedido. É preciso paciência. Daquela chinesa.
2 - O Deus das Pequenas Coisas
A Indía nunca existiu. O Paquistão nunca existiu. Até àquela trágica meia noite de 15 de Agosto de 1947, a única coisa parecida com uma nação que os nativos conheciam era muito simplesmente a Inglaterra. 60 anos depois, o Paquistão continua dominado pelo despotismo, militar ou religioso, e a Índia só parece sexy porque os editores ocidentais não sabem do que é que estão a falar. A India não é bonita. A India é de castas, senhores. A Índia é um inferno, é desumana, é injusta, é pobre, pobre, pobre, é miserável. Ah, e a propósito, é preciso ter muita fé para ser Gandhi. É preciso mover montanhas ou saber contar quantos seixos habitam o rio.
3 - Esta noite, a liberdade
Este livrinho dos excelentes Dominique Lapierre e Larry Collins (também autores de outras jóias da história do Século XX como "Oh, Jerusalém" e "Paris já está a arder?"), tem muito do que é preciso saber sobre o assunto da Independência da Índia. Para além da morte de 2 millhões de pessoas em 48 horas e o êxodo esfomeado de mais dez milhões de almas, o relato é colorido por quatro terríficos personagens: Lord Mountbatten, como Rei Artur em desespero de causa; Gandhi, que interpreta o feiticeiro Gandalf, Nehru que faz de Fausto e o inevitável Jinnah, que se sai muito bem na pele do Diabo. A Liberdade, claro está, acaba por custar os olhos da cara. Seja como for, este é um belo livro para levar para a praia.
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