segunda-feira, junho 04, 2012

Jornal de Letras | Janeiro/Junho 2012

Inicio aqui, com 35 anos de atraso, o resgisto das minhas leituras. Como esta nova rubrica não tem compromissos retroactivos (a lista dos livros da minha vida até 2007 pode ser encontrada aqui, aqui e aqui), eis o que li entre Janeiro e Maio deste triste ano de 2012.

A Rainha Vitória - Jacques de Langlade - Publicações Europa América
Uma biografia pobre no estilo e discreta no conteúdo. Levei-a até ao fim porque vinha lançado pela leitura de "Os Três Imperadores" de Miranda Carter, a suculenta história dos três netos de Vitória (Eduardo VII, Guilherme II e Nicolau II) cujas desavenças levaram à eclosão da Primeira Grande Guerra.

No Coração Desta Terra - J. M Coetzee - Publicações Dom Quixote
Relato poderoso, na primeira pessoa, de uma fazendeira sul africana, solitária e sensível, que acaba por assassinar o pai. A critica tratou logo de estabelecer uma relação metafórica entre a protagonista e os negros colonizados e entre o pai dela e os brancos colonizadores, (o fardo do homem branco vem sempre a propósito), mas este romance vai muito para além da idiotia politicamente correcta.

O Corpo Enquanto Arte - Don DeLillo - Relógio d'Água
O meu primeiro livro de Don DeLillo. Não gostei nada. Mas, ainda assim, acredito que o homem tem mais do que isto para oferecer e tenho mais dois ou três romances dele na prateleira das leituras prioritárias.

A Viagem do Elefante - José Saramago - Caminho
Não é o melhor de Saramago, mas a crónica da viagem entre Lisboa e Viena empreendida pelo elefante que D. João III ofereceu ao Arquiduque Maximiliano da Áustria é uma muito simples maravilha.

História da Filosofia - 1º Volume - Dos Pré-Socráticos à Idade Média - Juan Manuel Navarro Cordon e Tomas Calvo Martinez - Edições 70
É a terceira vez que leio esta obra, que revisito desde os tempos de liceu, para combater o esquecimento. Faz-me sempre bem ler filosofia.

O Retorno - Dulce Maria Cardoso - Tinta da Cinha
Uma arrepiante narrativa sobre um tema tabu da Terceira República: o regresso a Portugal, forçado e caótico e humilhante, de meio milhão de portugueses, decorrente do processo de descolonização que se seguiu ao 25 de Abril. O melhor romance em língua portuguesa que li nos últimos anos. Inspirador.

Matadouro Cinco - Kurt Vonnegut - Bertrand Editora
A genial historieta de Billy Pilgrim, testemunha do pesadelo de Dresden, cobaia de extraterrestres e próspero optometrista. Um romance num milhão.

Bibliotecas Cheias de Fantasmas - Jacques Bonnet - Quetzal
Um livro para quem gosta de livros e tem muitos. A logística das bibliotecas e o labirinto da literatura. Muito bom.

História Natural da Destruição - W. G. Sebald - Teorema
Ainda embalado pelo romance de Vonnegut, deparo-me com este grave conjunto de ensaios de Sebald. No original alemão o livro chama-se Luftkrieg und Literatur (Guerra Aérea e Literatura), título que é eloquente por si só. Sebald dedica-se à tarefa ingrata de se perguntar porque raio é que a literatura germânica do pós-guerra é tão silenciosa no que diz respeito aos bombardeamentos massivos a que foram sujeitas as cidades alemãs no fim da guerra (Dresden, Colónia, Hamburgo, Berlim, etc.). Um livrinho bastante deprimente, que dá que pensar.

quinta-feira, maio 31, 2012

Obama Toon Factory #3

Não há pai para o cavalcanti, filho.

Estou a ler uma biografia, outra, do Fernando Pessoa. É escrita por um brasileiro, o que é pena, mas o homem até tem a decência de não ter um estilo. É uma espécie de ghost writer porque tem, ao invés, a pretensão de estar a escrever uma auto-biografia, com aspas por todo o lado. Ora se o Fernandinho não escreveu uma foi porque não quis (de certeza que não foi por preguiça). Portanto, o senhor autor brasileiro cavalcanti, que está sempre aflitinho para apequenar Portugal na sua biografia que - ele acha - podia ter sido escrita pelo biografado, devia estar quieto ou escrever a biografia de um poeta brasileiro, ou angolano, ou cabo verdiano ou madeirense ou assim. O senhor cavalcanti, filho, devia abster-se de ter pretensões, mas - apesar de tudo - sigo com a leitura para a frente. E estou a aprender algumas coisas - é verdade. Estou a aprender que o Fernandinho tinha medo de trovoadas e só vestia no melhor alfaiate do Chiado, a 200 escudos o fato. Estou a aprender que o Fernandinho fumava deveras e encenava brincadeiras, com as sobrinhas. Estou a aprender que o Fernandinho tinha para cima de 300 selos, em colecção. Estou a aprender que o Fernandinho usava lentes finas, quando a miopia exigia fundos de garrafa, porque era um vaidoso dos olhos. Estou a aprender que o Fernandinho era muitíssimo educado, um cavalheiro, até. Estou a aprender uma série exaustiva de detalhes importantes e impressionantes sobre o Fernandinho. Deve ser por causa deste rol interminável de informações luminosas e profundas sobre a vida e a essência ontológica do imortal poeta que o senhor josé carlos de vasconcelos vai ao ponto de escrever em prefácio que esta é uma obra literária (por oposição a uma lista de compras) monumental absolutamente extraordinária invulgar original consistente e apaixonada.
Agora sou eu que sei perfeitamente o que diria o Fernandinho perante a obra literária do senhor cavalcanti, filho, consultor da Unesco e do Banco Mundial, ex-ministro e reputadíssimo homem de leis no Recife: "ora bolas para a gente ter que aturar isto!"

terça-feira, maio 29, 2012

Adeus Doutor.


Esperto como o raio, por ideias e actos
És o Ulisses do corpo humano;
O campeão da verdade dos factos
No hospital catedral do engano.

És o tipo de gajo que é capaz
De contar anedotas num velório.
E enquanto desdenhas da morte voraz,
Desafias Deus no bloco operatório.

Toda a gente mente mas tu acertas, tu não recuas.
Adeus Doutor, vou ter saudades tuas.
Adeus Doutor, vou ter saudades tuas.

És são de cabeça, não desiludes o diabo
Nem hesitas perante os dilemas da ética:
Limitas-te a escolher entre a tv por cabo
E a ressonância magnética.

Curas à distância, tratas à bengalada
E resolves a dor com drogas duras.
És o coxo mais elegante na manada
Do romance de aventuras.

Foste até de cana não por uma estadia, mas por duas.
Adeus Doutor, vou ter saudades tuas.
Adeus Doutor, vou ter saudades tuas.

Tens um amigo só, e é ofício de monge
Aturar o Wilson por cento e oitenta episódios.
Devo-te dizer que prefiro de longe
Às tua amizades, os teus ódios.

Gostas de putas e de rock sinfónico,
Tocas piano e falas mandarim.
És mais sofista que platónico
E encontras agora, por hora, o teu fim.

Motard do apocalipse, mestre zen de capicuas.
Adeus Doutor, vou ter saudades tuas.
Adeus Doutor, vou ter saudades tuas.

Monster trucks, boxe e pornografia,
Um diagnóstico diferencial por semana.
E coragem para tirar uma ecografia
Às profundezas da alma humana.

Gostas de tele-novelas e de rock sinfónico,
Tocas guitarra e arranhas japonês.
A tua prática heroica é um santo tónico
que alivia as dores da estupidez.

Sê fiel a ti próprio que no Inferno há gajas nuas.
Adeus Doutor, vou ter saudades tuas.
Adeus Doutor, vou ter saudades tuas.

Esperto como o raio, lúcido como Pilatos,
És um Hipócrates de laboratório;
O campeão da verdade dos factos
No hospital-catedral do teu consultório.

És um género de génio sem causa
uma espécie de rebelde no purgatório.
Mas enquanto Deus faz uma pausa,
salvas vidas no bloco operatório.

Toda a gente mente, mas é à verdade que nos habituas.
Adeus Doutor, vou ter saudades tuas.

Foste dentro e não por uma vez, maluco, mas por duas.
Adeus Doutor, vou ter saudades tuas.

Motard intoxicado pelo desenho estupefaciente das ruas.
Adeus Doutor, vou ter saudades tuas.

Uma coisa é certa: no inferno há gajas nuas.
Adeus Doutor, vou ter saudades tuas.
Adeus Doutor, vou ter saudades tuas.

Adeus Doutor, vou ter saudades tuas.

segunda-feira, maio 21, 2012

45 rotações por minuto.


Dou voltas e voltas ao sol,
já são quarenta e cinco, com esta.
Não deixo rasto nem prole,
dou voltas e voltas ao sol,
numa órbita funesta.

Giro e viro e rodo rotativo
sobre mim mesmo, em elipse.
Repito o trajecto de ser vivo,
giro e viro e rodo rotativo
até ao virar do apocalipse.

Dou voltas e voltas ao sol
já são quarenta e cinco, redondas.
Nesta espiral sem controle,
dou voltas e voltas ao sol,
e oscilo no vórtice das ondas.

Giro e viro e rodo repetitivo
mais uma vez e outra vez ainda.
Volto ao movimento cativo,
giro e viro e rodo repetitivo,
numa órbita desavinda.

Dou voltas e voltas ao sol,
já são quarenta e cinco, com esta.
Não deixo marca nem prole,
mas rodarei em volta do sol
pelo tempo que me resta.

Giro e viro e rodo rotativo
sobre o eixo da luz e do eclipse.
Repito o movimento primitivo,
giro e viro e rodo e vivo
até ao virar do apocalipse.

sexta-feira, maio 18, 2012

Obama Toon Factory #2


Para o que lhe havia de dar.



Depois de garantir que ficaria para a história do rock alternativo, como supremo trovador dos Bloc Party, Kele Okereke deve ter tido uma espécie de AVC melódico e agora faz coisas destas. Poderoso, não? Como dizem os Wombats: I never knew I was a techno fan.


quinta-feira, maio 17, 2012

Obama Toon Factory


Arquitectura Instantânea: 30 pisos em 15 dias.



Não estou geralmente do lado da indústria chinesa, mas isto aqui agrada-me deveras: com engenho, arte, módulos pré-fabricados e gente a trabalhar 24 horas por dia, a empresa chinesa Broad Group levantou um prédio de 30 pisos em duas semaninhas apenas.
O hotel, construído na província de Hunan, na China, no passado mês de Dezembro, tem 17 mil metros quadrados e, segundo a Academia Chinesa de Investigação em Edifícios, o imóvel está preparado para resistir a terramotos de magnitude 9 na escala de Richter, proeza conseguida graças à estrutura diagonal, baixo peso e construção em aço.
E é assim, como diria Kurt Vonnegut, que se percebe a vitalidade tecnológica e económica de uma nação. E é assim que o Ocidente vai perdendo a corrida das civilizações. Enquanto os gregos votam para ir à falência, os franceses fingem que têm pena dos gregos, os alemães tentam desastradamente segurar o que sobra da economia europeia, os americanos discutem o casamento dos homossexuais e os portugueses (alguns) assinam manifestos pela justiça social e pelo retorno da boa vida sem esforço, os chineses constroem arranha-céus ao minuto.
30 andares em 15 dias. E é assim.


sexta-feira, maio 04, 2012

Uma fita no labirinto.



Para que a vida de um pacato proprietário de uma loja de ferragens em Buenos Aires faça algum sentido, terá que cair uma vaca do céu, algures na China. Atrevo-me a supor que "Un Cuento Chino", de Sebastián Borensztein, é um filme de que Jorge Luis Borges gostaria bastante. Pela minha parte, posso dizer apenas que é um prodigioso bocadinho de cinema.

Todos contra todos.


"The condition of man is a condition of war of everyone against everyone."

Thomas Hobbes, Leviathan - 1651

Enquanto tentava enfiar as subtilezas da cultura helénica
Na cabeçorra de Alexandre (tarefa ingrata e esforço monumental),
Aristóteles saiu-se com esta máxima de retalho:
"O homem é um ser eminentemente social."
Eminentemente social, o caralho!

Tenho até a certeza que o velho mestre de Estagira
Não desejaria ficar preso à posteridade por uma nota de rodapé
Na folha digital de Mark Zuckerberg do século quarenta e um.
Convenhamos, os gregos não bebiam café
E na altura em que disse o que disse Aristóteles precisava dum.

Quanto ao lamechas do Rosseau, o homem só nasce bom na imaginação
Deste palerma, de resto é nado condenado ao inferno da sua intestina inquietude
E ao inverno que faz cá fora.
E se é a sociedade que corrompe no individuo a sua genética virtude,
Não me parece sã solução guilhotinar dez aristocratas por hora.

E que dizer de Voltaire, que já sabia muito bem que não vivemos
No melhor dos mundos possíveis e muito pelo contrário
(Anexo o terramoto de Lisboa e respectivas tabelas de mortandade),
E mesmo assim era um fraco, era um ordinário,
E mesmo assim era um parvo pela humanidade.

Por estas e por outras é que ficou a sociologia infectada
De filhos da puta como Marx e Proudhon,
Tão preocupados com o bem estar de operários e carpinteiros
Que se esqueceram do que o capitalismo tem de bom:
Tampões para as senhoras e mercedes para os cavalheiros.

Eu cá prefiro o pensamento do grande Thomas Hobbes,
Que postulou: o homem é o lobo do homem e este é o império do medo.
Por isso, o melhor é preparar o monarca para o conservatório
Da tirania esclarecida, porque mais tarde ou mais cedo
A revolução cairá nas mãos de um Robespierre aleatório.

Eu cá prefiro, mas de longe, a prosápia do Max Stirner,
Que mandou o socialismo para as urtigas
E que escreveu em vez disso,
Com o espírito de quem despede certezas antigas,
Que o homem tem na propriedade do eu o seu único compromisso.

E mais não digo, que tudo o que sei é produto
Da ignorância que se levanta.
Mas uma certeza tenho, ainda que na verdade não acerte:
A vida é uma guerra santa
De todos contra todos enquanto o diabo se diverte.

segunda-feira, abril 23, 2012

Titanic

Em caso de emergência, há que aceitar o caos.
É esquecer os heróis que não há e arranjar rapidamente um lugar na barca dos maus
Da fita.
Na ausência do colete salva-vidas, conhaque há-de servir muito bem
E não adianta chamar pela mãe
Que ficou em Londres, meia orgulhosa, meia aflita.
Mais cedo ou mais tarde, o naufrágio sempre acontece
E precisamente quando não há maneira de emitir uma merda de um SOS,
Que a sorte é maldita.
O melhor é ir preparado com um poema do Álvaro de Campos e uma camisola
De lã. Não vale a pena ir para o inferno com ideias de esmola
E cara bonita.
Em caso de emergência, há que aceitar o longe e a distância,
E, sobretudo, renegar a ambulância,
Não vá o barulho das sirenes acordar o diabo, que dormita.
No próximo icebergue saimos para as vantagens de um mergulho em pelo:
Nem o whisky precisa de gelo, 
Nem o Willy se arrebita.
Acima de tudo, evitar o fútil pânico: se o bote mete água por todo o lado, 
Não há remédio senão atravessar a nado
O Atlântico que se agita.

sábado, abril 14, 2012

sábado, abril 07, 2012

Do fundo do tempo, sai um poema.

Vamos morrer esta noite.
Nós, os impotentes, os alienados, os marginais da cidade utópica, vamos morrer esta noite.
Nós, os ousados da poesia, os intrépidos da filosofia, os protagonistas dos pesadelos dos outros; nós, os alquimistas do ferro e do fogo, vamos, em gloriosa senda suicida, morrer como morrem os deuses, serenamente, esta noite.
Nós, os corsários ontológicos do cosmos, os astronautas do lodo psicológico do homem, nós, os únicos filhos da puta verdadeiramente salvos perante os céus, vamos ébrios, vamos nus, de pila ao léu e saltitante, em escândalo e escárnio, morrer esta noite.
Nós, os bandidos da literatura, os carrascos da utopia, os coveiros da inocência, os inventores da discórdia; nós, os infames, os indignos, os loucos furiosos, os perversos, vamos morrer esta noite.
Nós, os anti-cristos, os zaratustras, os super-homens ao contrário, os larápios da calúnia, os escroques da inteligência, os impiedosos profetas da desgraça; nós, os intelectuais do esgoto; nós, os vampiros do sangue das palavras, nós, os que queimamos bandeiras com o lança chamas da mais absoluta descrença, vamos cansados, vamos vencidos, morrer de ódio esta noite.
Antes que a bruma do tempo nos devore os ideais zero e que os uivos da populaça nos calem o grito vácuo, antes que a sirene do Apocalipse cumpra o seu serviço de cinzas e nos roube a determinação de cessar por cessar, vamos, sem medo e sem esperança, sem hinos e sem fados, morrer esta noite.
Nós, os que vamos velozes pela estrada sem fim do des-sentido; nós, os que não temos medo da próxima curva; nós, que forçamos as esporas no lombo do cavalo de Satanás; nós, os mais rápidos pederastas do universo e os chulos da insanidade à velocidade da luz; nós, os príncipes valentes do reino da má vontade, vamos morrer esta noite na maior praça da cidade.

- 1985 -

domingo, março 18, 2012

O Fogo de Santo Anselmo ou Sunset Limited.


"Logo existe, sem dúvida, no entendimento e na realidade, algo maior do que o qual nada se pode pensar."
Santo Anselmo (1033/34-1109). Conclusão do Argumento Ontológico. Proslogion, c. II

Jantava ontem na companhia de, entre outros ilustres, alguns comensais de formação em ciências, quando um destes cavalheiros se sai com o seu definitivo argumento ontológico em favor da inexistência de Deus: se Ele existisse como entidade omnipotente, facilmente cairia na armadilha de produzir algo superior às suas forças, digamos, um calhau de tal forma imenso que Ele próprio não o poderia suportar. Perdido assim o super-poder da omnipotência (deixou Deus de ser potente sobre o calhau), está também perdido por simples cálculo de lógica o estatuto divino, sobrando o trono cósmico para algo superior a Ele, digamos, o calhau imenso.
Estava eu muito divertido a apreciar o espírito deste companheiro, quando me lembro de Anselmo de Cantuária, o grande pioneiro e fundador dos argumentos ontológicos. Empenhado em demonstrar racionalmente a existência de Deus, o bom e velho santo postulou assim: Deus existe porque não conseguimos imaginar nada superior a Deus. Se conseguíssemos pensar em algo superior a Deus, essa nova realidade intelectual seria por definição a entidade divina e assim sucessivamente. Ora, se isto se passa no entendimento é possível, apenas possível, que se passe também na realidade. Escusado será dizer então que Deus existe para manter o campo de possibilidades dentro de uma constante estável, de tal forma que a realidade não entre em parafuso. 
Convenhamos que isto está carregadinho de bruxaria quântica por todo o lado e não é por acaso que o célebre arcebispo de Cantuária era um pensador da escola de Santo Agostinho e que este era um platónico dos quatro costados e que Heisenberg afirmou um dia que as conclusões da física contemporânea se aproximam mais dos postulados de Platão de que dos cálculos de Aristóteles (o que é bastante assustador).
Nem é por mera coincidência que Kurt Gödel - provavelmente o mais genial matemático do Século XX - tenha dedicado uma boa parte da sua vida a tentar demonstrar a impossibilidade de uma explicação plausível da realidade que não leve Deus em conta.
Os argumentos ontológicos constituem quase sempre excelentes refeições para físicos e matemáticos e é por isso que o ateu de espírito, professor emérito, estimado comensal que na mesa onde me sentava divertia a sua plateia burguesa, usa precisamente a mesma aritmética radical de Santo Anselmo, para estar em desacordo com ele. 

Porém, parece-me claramente escandaloso que nenhum dos ilustres acima referidos se aperceba do elefante cor de rosa que está sentado com jeitos de buda no brilhante salão desta conversa: Deus existe, claro que sim e muito simplesmente porque não é possível ao homem suportar o peso da Sua inexistência.
Deus existe no intelecto humano - é um facto - e deriva exclusivamente da ignorância manifesta pelo homem perante os mistérios naturais e perante o abismo filosófico que está montado na sua consciência.
Mas para que Deus seja real, não pode ser apenas um conceito mental, ou um reflexo intuitivo. Terá que ser imanente na realidade e transcendente sobre as teologias. Deus, a existir, é imune a tratados escolásticos, teoremas da incompletude, metáforas de restaurante e dialécticas de sacristia. E, assim sendo, parece-me muito provável que se esteja completamente nas tintas para o dramalhão que é a história da humanidade e para os dilemas metafísicos da alma. Quero eu dizer, a existir Deus, a sua imanência não nos servirá rigorosamente para nada. Não há qualquer evidência na história ou na natureza que demonstre que somos os filhos eleitos seja de quem for e, a sermos filhos de alguém, é apenas sensato dizer que o criador não parece estar muito preocupado com o destino dos criados.
Em conclusão, podemos afirmar com alguma segurança que Deus existe como objecto intelectual de consolação. Afirmar mais do que isto torna-se um jogo muito perigoso, para crentes tanto como para ateus. Um jogo que estamos condenados a perder, mesmo com um poker de sábios - ou de santos - na mão.

Nesta cena épica, escrita por Cormac Mccarthy e interpretada por Tommy Lee Jones e Samuel Jackson, o ateu procura arrasar a fé do crente com uma explosão de argumentos ontológicos. A sua Crítica da Razão Prática é eloquente. Mas a Razão Pura não lhe deixa alternativas para além do suicídio. O crente, por outro lado, abraça as dores da vida com sentido de missão e continuará lá amanhã, na estação ferroviária da esperança, pronto para salvar uma outra alma perdida das garras locomotoras do Sunset Limited. Mas sofrerá na mesma a indignidade da existência. E será igualmente vítima da solidão extrema a que o condenou Jesus Cristo.


The Sunset Limited - Dir.: Tommy Lee Jones

sexta-feira, março 02, 2012

The New Stuttgart City Library - Germany

"I have always imagined that Paradise will be a kind of library."
Jorge Luis Borges


Korean architect Eun Young Yi’s proposal was selected in 1999 from 235 competition entries as the plan for the new central library of the City of Stuttgart.
The building of the 80-million Euro (about $108 mil. US) Stadtbibliothek am Mailänder Platz  began three years ago and the opening ceremonies took place last month.


Yi has created a monolithic cube with two floors underground and nine above. Essentially all of the building, both inside and out is white. The main library floors circle an open-plan with the levels connected by open staircases. Books line the outer walls of each floor.
As a cool nod to the fact that the building is a storehouse of words, the word “library” is installed in four languages on the outside walls. On the North wall in German (the local language), West in English (lingua franca), South in Arabic (the language of ancient knowledge and of Stuttgart’s sister city, Cairo) and East in Korean (Yi’s native language).


Yi’s company, Yi Architects is based in Cologne and Seoul. Its work includes public projects ranging from museums and universities to offices and city plans.

Fonte: The Cool Hunter

sábado, fevereiro 25, 2012

Tintin meets Indiana Jones ou o Segredo do Licorne segundo Steven Spielberg.



O génio de Hergé sempre foi muito mal tratado pela indústria audiovisual, e eu nem sou, à partida, um fan incondicional de filmes de animação, mas esta malha do mestre Spielberg deixou-me completamente siderado. Um fita de aventuras a sério, para a posteridade. Como é para a posteridade quase tudo o que faz Steven Spielberg.

Rocketville #3 - Projecto Daedalus.


O Projeto Daedalus foi o primeiro estudo credível de viabilidade para uma missão interestelar, usando recursos da década de 1970 e projecções sobre a tecnologia existente no final do Século XX.
Um dos principais objetivos era simplesmente o de estabelecer se o voo interestelar poderia ser realizado. A conclusão foi de que era possível, mas que seria muito difícil e oneroso.
O potencial da fusão nuclear como um mecanismo de propulsão que permitiria o voo interestelar tem sido reconhecido desde a primeira metade do século XX. A ideia foi proposta inicialmente em 1947, por Stanislaw Ulam, um astrofísico de Los Alamos. No seguimento das propostas de Ulam, Ted Taylor iniciou o projeto Orion em 1958.
Pouco mais de uma década mais tarde, Alan Bond, da Sociedade Interplanetária Britânica acreditava que era o momento certo para investigar a viabilidade da fusão para uma missão interestelar. Ele discutiu a ideia com outros membros da sociedade e o projeto Daedalus nasceu.


O Projeto Daedalus durou pouco mais de 5 anos - de 10 de Janeiro de 1973 a 15 de Maio de 1978. Foram investidas aproximadamente 100.000 horas de trabalho, num projecto que integrou 13 designers principais e dezenas de consultores científicos.
O coração do Daedalus era constituído pelo propulsor de fusão nuclear, no qual pequenas ampolas de combustível seriam injectadas a alta velocidade numa câmara de reacção e inflamadas por feixes de electrões de alta energia. Conceptualmente, a ideia não é muito diferente de um motor de combustão interna de injecção electrónica convencional, em que pequenas gotas de gasolina são injetadas numa câmara de combustão e inflamadas.
Os produtos resultantes da fusão na câmara de reacção seriam canalizados axialmente para a retaguarda do veículo principal por um número de bobinas de campo, que actuavam como um catalisador magnético. Este material ejectado seria responsável pelo impulso geral do veículo.


Daedalus seria construída em órbita e teria uma massa inicial de 54 mil toneladas. Foi projectada para ser uma nave de dois estágios, com a primeira fase transportando 46 mil toneladas de combustível e a segunda fase transportando 4 mil toneladas. Após uma fase de impulso total de quase quatro anos, o engenho iria alcançar a velocidade máxima de 12,2% da velocidade da luz para atingir o seu objectivo (estrela de Barnard, localizada a cerca de seis anos-luz de distância da Terra) cinquenta anos depois.
Daedalus foi desenhada como uma sonda não tripulada e iria permanecer no sistema solar de Barnard durante um período de tempo relativamente curto (cerca de dois dias, o suficiente para atravessar todo sistema), durante o qual iria reunir dados científicos importantes.


Uma das características notáveis do projeto Daedalus foi o uso de Hélio 3 em ampolas de combustível. O Hélio 3 é um dos combustíveis mais difíceis de inflamar, já que exige uma temperatura de ignição superior, quando comparado a outros combustíveis de fusão. No entanto, a sua libertação de energia é uma dos mais elevadas entre os diversos combustíveis de fusão, proporcionando assim um maior impulso.







Fontes: Wikipedia | Discovery News | The Atlantic

O rosto da conspiração.


Há um livro maldito e alegremente ignorado que se chama "Uma Conspiração de Estúpidos" (só o título merece um prémio Nobel, porque não há melhor definição da humanidade). Este livro, posso dizer isto com algum amor à verdade, custou a vida ao seu autor, John Kennedy Toole, que, cansado das rejeições das editoras, decidiu suicidar-se e foi a sua mãe, 11 anos depois da morte do filho, que conseguiu publicar o romance, que é bastante genial e que acabou por ganhar o Pulitzer Prize de 1981.
Isto tudo para dizer que finalmente dei de caras com o Ignatius J. Reilly, o protagonista da Conspiração. É este gajo na foto, que veio direitinha de um blog do outro mundo, que se dedica muito simplesmente a materializar os rostos de personagens célebres da literatura, através de recursos tecnológicos de inspiração forense. Agora não me digam, por favor, que a tecnologia é fútil. Se serve para isto, é gloriosa.

Um pássaro na gaiola virtual.


The Walls | Bird in a Cage

"The band are not present but are projected onto a screen. The Walls perform 'Bird in a Cage' from their forthcoming album 'Stop the Lights' at the Temple House Festival, Sligo in Sept. 2010. They've developed a two-man show that ingeniously features the full band without the actual musicians being present. It means they can do shows abroad where the budget doesn't allow for bringing the extra personnel. This is one of the first few gigs they've performed this way and they hope to travel to the US and Europe with it next year. The new album is a multi-layered affair, less guitar-based than their previous work, but featuring lots of synths, brass, mandolin and of course guitars. So performing this way means they can still showcase the songs as they are meant to be heard and the audience still get to see all the musicians involved. Not all the songs are performed like this. Some are stripped down to vocals, guitars or keyboards and percussion but there are always interesting visuals as well. According to Joe the show is 'an ongoing work in progress where the only limits are your imagination'.
'Bird in a Cage' is an autobiographical story of growing up in Dublin and moving to the west of Ireland as a young boy and the apprehension and finally the happiness that the experience brings."


Fonte: 101 Watts

sexta-feira, fevereiro 24, 2012

A natureza da besta.

Escrito durante a leitura d'O Retorno, de Dulce Maria Cardoso.

Eu devo ser um monstro.
Devo ser um monstro ignorante, é o que é.
Eu devo ser um ogre, como o outro,
Devo não ser daqui,
Devo ser de um exo-planeta qualquer
Que dista milhões de anos-trevas daqui.
Eu devo ser estúpido ou, pelo menos,
Surdo de inteligência.

Eu devo ser um monstro, sim,
Um alienígena que não pode ligar para casa,
Um exilado de lado nenhum,
Um retornado sem África.
Sim, sim, eu sou o gajo que no dia da independência de Angola ficou apátrida.
Eu que nunca estive em Angola, que até odeio Angola,
Que até detesto angolanos, não por serem pretos,
Mas por serem angolanos,
Fiquei desprovido de um país, nesse dia.

Devo ser um refugiado da Cidade de Deus;
Ninguém me ia querer lá, na cidade perfeita,
Espiritual, pan-utópica de Santo Agostinho.
Ou melhor: eu não me quero nessa cidade;
Porque sou eu que sou um monstro e não os outros
Santos como Santo Agostinho,
Que não são da mesma espécie que eu,
Que não são da mesma ordem do ser:
Eu sou de outra ordem. Sou esquisito,
Sou de alma disforme, sou de estranhar.

Eu devo ser um monstro daqueles que assustam as crianças,
Daqueles que se escondem nos armários das crianças
Ou debaixo da cama delas.
Eu devo ser daquele tipo de monstros
De que os guionistas de Hollywood parecem gostar,
Se bem que gostam tanto deles porque é tudo treta e ficção
- Na realidade ninguém gosta desses monstros e o que é mais,
Monstros como eu não gostam lá muito deles próprios,
Principalmente porque cheiram mal do karma;
Principalmente porque têm mau hálito no pensamento
E não levam jeito para os negócios.

Eu devo ser mesmo uma besta vinda directamente de um lugar remoto
Do espaço-tempo porque, para além de achar que não sou deste lugar,
Também suspeito que não sou deste tempo.
Não sou deste tempo dos maricas que adoptam crianças.
Não sou deste tempo das crianças que não se sabem comportar.
Não sou deste tempo em que mentir é o mesmo que dizer a verdade.
Não sou deste tempo em que o telejornal sabe a verdade absoluta
E não sou deste tempo em que os cientistas já desistiram da verdade absoluta
E não sou deste tempo em que já não tem piada anunciar a morte de Deus
(Como a piada que tinha Nietzsche)
E não sou deste tempo em que ninguém acredita em nada a não ser
Nos seus direitos adquiridos.
Como se o simples facto de nascer,
Como se o simples facto de existir
Fosse suficiente para ter direitos.
Como se o simples facto de ter um direito a um dado momento,
Seja prova de que esse direito vai permanecer eternamente a partir daí,
Divino e imutável,
Como se fosse evidente que no cosmos há uma lei
Que nega a mutação do pensamento político
E do circunstancialismo económico e do contexto social.

Eu devo ser um monstro porque aqui, agora, não me sinto em casa,
Não me sinto em paz,
Não sinto que sou daqui, do Porto
Como nunca senti que fosse daí, de Lisboa,
Como nunca senti que fosse de qualquer tempo ou lugar em especial.

Platão diria que eu devo ser algo,
Kant diria que eu tenho que ser algo, 
São Tomás de Aquino diria que eu acredito que sou algo
E o francês que não sabia o que estava a dizer
Diria que eu julgo que sou alguém porque penso nisso
E para cúmulo da idiotia, Aristóteles achava que eu seguramente existo
Só porque sou movimento, e logo, consequência de qualquer coisa
Que existiu antes de mim.
Ora merda.
Eu não sou nada, não devo ser nada, não tenho que ser nada,
Não tenho que acreditar que sou alguma coisa,
E nem por isso é o meu movimento escasso
A causa de consequências que me transcendem para que a vida faça sentido.
Não é preciso ser filósofo para perceber que a vida não faz sentido nenhum.
Pelo menos para mim, que sou um monstro,
Que sempre fui um monstro,
Que sempre serei um monstro,
O monstro.
Monstro.

Gosto desta palavra.

quarta-feira, fevereiro 22, 2012

Tão bonito que não precisa de vídeo.



Heartless Bastards | Only For You

GJ1214b: àgua em estado líquido, a 230º centígrados.


Esta é uma representação artística do GJ1214b, uma super-Terra que orbita uma estrela anã vermelha a 40 anos-luz da Terra. As recentes observações do telescópio espacial Hubble demonstram que se trata de um planeta constituído essencialmente por água e envolto numa atmosfera extremamente densa e húmida. As elevadas temperaturas e as elevadas pressões podem formar materiais exóticos como "gelo quente" e "água superfluída". Mais pequeno que Urano e maior que a Terra, O GJ1214b apresenta-se assim como um novo tipo de mundo, completamente diferente dos planetas do nosso sistema solar e de todos os exo-planetas conhecidos até agora.

sexta-feira, fevereiro 17, 2012

Carreira 28


POR ARTUR PAIXÃO


Carreira 28. Campo de Ourique / Martim Moniz. Viagem de marcante sabor turístico, muito aprazível, percorrendo, ronceiramente, a Estrela com a sua mui digna catedral, cruza o Chiado, desce ao centro da baixa Pombalina, sobe até à Sé, roça a feira da Ladra e o casario de Alfama, empina-se até a Graça após o que desce os Anjos para desembocar na Almirante Reis e tranquiliza-se, por fim, no Martim Moniz para retornar pela mesma via ao ponto de partida,
Não há outra carreira que proporcione lugares tão fascinantes de Lisboa.
Espreito pela janela a que me encosto os pequenos grandes detalhes do percurso descobrindo novos aspectos que aqui e ali antes se me haviam escapado.
- Dá-me licença? O sujeito acomoda-se a meu lado no único banco disponível, pequenote, sessenta e tal anos, descarnado, com um tufo de cabelos grisalhos na meia calva.
- Uma viagem muito agradável esta, não acha? Faço-a todos os santos dias e não me canso nunca, a caminho do meu maldito psiquiatra. E a verdade é que sempre se descobrem coisas novas pelo mesmo caminho, novidades nas coisas por onde se havia passado sem que as tivéssemos topado.
- É verdade. Também acontece comigo.
- O que me falta ultimamente nestas viagens é a companhia da Greta Garbo ou da Grace, aquela deliciosa senhora do Mónico, que se espatifou com a caranguejola precipício abaixo, lembra-se?
- Desculpe mas a Greta não deve ser do seu tempo e não me perece provável que a adorável princesa Grace pudesse viajar consigo na 28. Estão ambas fora do seu tempo e realidade
- A Kim Novak , uma mulher espantosa, disse-me exactamente o mesmo, docemente encostada toda aquela sumptuosidade no meu ombro, mas como discordar daquela opulência? Porque sabe? Não se trata duma questão de realidade ou tempo mas mais precisamente de colagens às coisas do espírito. O meu psiquiatra é precisamente da mesma opinião. Diz-me que recebe com frequência a Monroe e o Stalone e outros notáveis presentes e passados em perfeita sintonia quanto à sua competência nesta difícil ciência. Claro que vejo na sua evidente complexidade de discordância senão de arrogância um sinal tão evidente como a exibição dessa agressiva gravata dum encarnado intolerável em contraponto com a garridice da minha camisola verde.
- Talvez deva mudar de psiquiatra…
- Claro que não e essa observação foge à questão dado que o doutor é um ferrenho simpatizante do Belenenses e precisa, coitado, do meu apoio. O amigo é, evidentemente do Benfica eu do Sporting, esse grande pilar do desporto nacional o que, de há muito tempo a esta parte me arrasta para o homem do Belenenses, derreado por uma depressão prolongada porque se as coisas não mudam em Alvalade e depressa, afundo-me num problema sem saída.
- Essas coisas da Greta, da Grace, da Kim Novak e outras que tais mais do seu assistente psiquiátrico não fazem sentido.
- Tem razão com certeza. Diga-me, onde está o Belenenses? Onde pára o Sporting, esse desgraçado grémio falido a quem como que religiosamente contribuo com a minha quota mensal sabe Deus com que sacrifício para me remeter afinal para um achincalhante motivo de troça permanente? E os senhores de sorriso aberto, escarninho, inchados como patos ao vento. Ainda ontem, trocando impressões com o filho do meu grande amigo Kirk Douglas, chegámos à conclusão que há que fazer tábua rasa deste inadmissível desclassificado e escarnecidosportinguismo, e começar do zero nem quem seja nos distritais.
- Não é caso para isso. Não desespere. Haja esperança homem. São ciclos.
- Esse é o tipo de conversa que tive com o Obama que é primo afastado do Hulk. Não vou nessa e ele também me pareceu apreensivo e que de momento o Partido Republicano proibe-o de tentar reunir fundos para reabilitar uma entidade falida. Tanto mais que até o José Eduardo dos Santos, de mãos dadas com o BCP, não querem nem ouvir falar do assunto, muito menos o estafermo da Merkel.
- Pois meu amigo, a situação está preta. Chegamos ao fim da linha. Mas se isso o ajuda a verdade a que a minha gravata encarnada é um pretexto para não me chatearem. É que na verdade sou um sportinguista de pequenino, de raiz.

terça-feira, janeiro 31, 2012

Kepler: um ano e meio de descobertas.



Estes são os sistemas solares com mais de um planeta em trânsito que foram descobertos até agora pelo observatório espacial Kepler, que constitui a primeira missão da NASA destinada a encontrar exo-planetas. As dimensões relativas das órbitas e dos planetas estão correctas.

sexta-feira, janeiro 27, 2012

Rocketville #2 - A visão de Hergé.


Editados em 1953 e 54, os dois volumes da Série Tintin consagrados à viagem à Lua são um clássico da BD. Considerando a época em que foi criado, o célebre foguetão foi muito bem concebido e revela a preocupação de Hergé em respeitar parâmetros tecnológicos credíveis.


O motor principal é aparentemente um propulsor termo-nuclear contínuo do estilo NERVA, abastecido com plutónio. O local de lançamento integra um reactor que produz o combustível. A nave desloca e aterra com um foguete químico auxiliar abastecido por ácido nítrico e anilina, de forma a impedir a contaminação do solo na Terra e na Lua. Todos os procedimentos de lançamento e acoplagem são tecnicamente correctos.


Em toda a aventura existe apenas um erro técnico: os astronautas deitam-se nos seus beliches de aceleração de barriga para baixo, posição que é a pior possível para o efeito. Este erro deveu-se muito provavelmente a um equívoco de interpretação do diagrama do foguetão lunar de Von Braun. Nesse diagrama, os membros da tripulação que controlam os monitores de navegação estão de facto deitados de barriga para baixo. Mas os astronautas que se encontram nas estações de aceleração estão deitados de barriga para cima.




HERGÉ ROCKET

1. Radio and radar aerial
2. Reserve tanks
3. Control cabin
4. Living quarters
5. Stores
6. Storage tanks, air, water, etc.
7. Auxiliary engine propellant tanks
8. Air lock and storage compartments
9. Vehicle and storage deck
10. Anti-radiation shield
11. Motors
12. Exhaust nozzle
13. Stabilizing fins
14. Landing-support fairing
15. Shock absorbers
2. AIR-LOCKS
16. Passenger air-lock
17. Protective-clothing room
18. Cargo-loading air-lock
19. Air-lock control room
3. CONTROL CABIN
20. Control desk
21. Air-refrigeration plant
22. Work table
23. Observation equipment
24. Laboratory
4. LIVING QUARTERS
25. Electric cooker
26. Refrigerator
27. Air purifier
28. Bunks
29. Lockers



Fontes: Atomic Rockets | Spaceship Handbook

quarta-feira, janeiro 25, 2012

Sangue no frigorífico.



Não há males que durem para sempre. É verdade. Por exemplo, parece que a produção televisiva e cinematográfica dos países escandinavos está a mudar. Para melhor. Em vez da lenta esquizofrenia inspirada pelos strindbergs e alimentada pelos bergmans deste mundo, que durou décadas e mais décadas de sonolência neo-realista (e cujo único resultado positivo foi o cinema de Lars Von Trier), o que nos chega agora do frio são obras que se fundamentam na qualidade técnica, na intensidade dramática, no ritmo da narrativa e na profundidade arquitectural dos personagens. No cinema e na televisão, bombam por estes dias produtos-primos de uma nova visão do audio-visual que vem do frio. E que congela em definitivo, se bem que tardiamente, a nefasta influência socialistóide dos eruditos de algibeira de uma Europa de outros tempos.

quarta-feira, janeiro 18, 2012

Obra prima da semana.



Isto aqui é tão pop que só dura uma semana. Mas, talvez por isso ou ainda porém, é belo, na sua muito própria superfície das coisas. Senão vejamos:

I can barely look at you, don't tell me who you lost it to
Didn't we say we had a deal, didn't I say how bad I'd feel?
Everyone needs a helping hand, who said I would not understand?
Someone up the social scale for when you're going off the rails have

Post break-up sex that helps you forget your ex
What did you expect from post break-up sex

Leave it 'till the guilt consumes, I found you in the nearest room
All our friends were unaware, most had just passed out downstairs
To think I'd hoped you'd be ok, no I can't think of what to say
Maybe I misunderstood but I can't believe you're feeling good from

Post break-up sex that helps you forget your ex
What did you expect from post break-up sex

When you love somebody but you find someone
And it all unravels and it comes undone

Post break-up sex that helps you forget your ex
What did you expect from post break-up sex

Post break-up sex that helps you forget your ex
What did you expect from post break-up sex


The Vaccines | Post Break-up Sex

sábado, janeiro 14, 2012

Rocketville #1 - A visão de Wernher Von Braun.



Esta é a nave que, em 1952, Von Braun projectou para levar o homem à Lua. Propulsionado por 30 reactores, o engenho é enorme (ligeiramente mais alto que a estátua da liberdade), comparado com o módulo lunar "Eagle" que levou Neil Armstrong e Buzz Aldrin até à superfície da Lua a 20 de Julho de 1969.


Esboço original de W. Von Braun


Os motores estão localizados nas duas esferas inferiores enquanto a esfera superior funciona como cápsula habitacional de cinco andares para a tripulação, com cockpit, laboratório, observatório e dormitório. Por baixo desta esfera, montados sobre uma plataforma giratória que permite a rotação de 360 graus da cápsula, estão os braços de acoplagem.
A Nave integra 18 tanques que armazenam 800 mil galões de Hidrazina - combustível que é ainda hoje usado como propulsor de satélites. Mais de metade destes tanques são ejectados depois do lançamento, efectuado numa estação orbital.
A navegação seria realizada através de giroscópios gigantes ("control moment gyros"), ao contrário do método utilizado posteriormente pela NASA ("reaction control thrusters").

Von Braun concebeu este projecto (e mais outros 35) para um conjunto de artigos em que estava a trabalhar para a revista Collier's, entitulado "“Man Will Conquer Space Soon!”, onde previa para breve uma viagem tripulada até à Lua.


Ilustração de Fred Freeman


Deck 1: Control Deck. Workstations for Captain, Pilot, Flight Engineer, and Radio Operator. Telescope in the center is for taking navigational sightings through the iris-shuttered astrodome. Note ladderway on the right.
Deck 2: Navigation Deck. The large table is the chart recorder. An analog device indicates the spacecraft's current position, which can be compared to the planned position printed on the chart. On the right is the auxiliary astrodome and telescope/tracking camera. On the left is the shower, placed here due to lack of any other place to put it.
Deck 3: Crew Deck. The normal crew complement is 30, but the quarters has contour chairs for 60 in case another spacecraft in the expedition has a catastrophic failure. The spare chairs are folded up on the walls and stanchions. To the right is the ship's mess and kitchen.
Deck 4: Storage Deck. General storage. Also contains the main electrical distribution panel. The toilet is also located here (but isn't shown).
Deck 5: Consumables Deck. Oxygen, drinking water, grey water.
Deck 6: Main air lock.




Fontes: Atomic Rockets | Astronautix

sexta-feira, janeiro 13, 2012

Histórias da NFL.

Uma das dez mil razões que justificam a minha paixão pela NFL é que esta liga produz histórias incríveis ao mesmo ritmo que os quarterbacks lançam para touchdown.
A temporada 2011/2012 foi, no que concerne a esta prodigiosa capacidade de gerar rábulas, absolutamente fenomenal. Por agora deixo aqui uma, que é a mais eloquente, mas, calhando, outras se seguirão.


O ESTRANHO CASO DE TIM TEBOW, O ANTI-QUARTERBACK.

Numa liga que é cada vez mais a liga dos quarterbacks e cada vez menos a liga dos running backs (leia-se: passa-se mais a bola do que se corre com ela), o novo grande herói americano tinha todas as hipóteses de falhar a sua primeira época a titular. Tanto mais que não começou a titular. Os Denver Broncos iniciaram a época com Kyle Orton no lugar de maestro, mas com um registo de quatro derrotas para uma vitória apenas, mandaram Kyle Orton para a orquestra de Kansas City e deram a Tim uma oportunidade de mostrar o seu jogo. Ora, acontece que Tim Tebow não gosta nada de passar a bola. Prefere mil vezes correr com ela. E sempre que tem de passá-la, o gesto técnico não é assim muito bonito, é esforçado, é contra-natura e a bola sai-lhe das mãos com uma trajectória de parafuso assimétrico de tal forma errática que parece sempre chegar ao seu destino como por milagre. Mas se os wide receivers não vão nunca fazer grandes números numa equipa com Tim Tebow a quarterback, o mesmo se pode dizer dos running backs. É que o rapaz acredita em correr com a bola, desde que seja ele a fazê-lo. A título ilustrativo desta tendência para o protagonismo, a ESPN passa inúmeras vezes um segmento em que, entre duas jogadas, um Tebow muito zangado dirige-se ao banco e esclarece, aos berros, a sua equipa técnica de que só há ali um gajo que corre com a bola: ele.
É assim fácil perceber porque é que muita gente desconfiava que Timothy Richard Tebow não iria fazer muitos amigos na NFL. E que a maior parte dos críticos condenava o homem ao fracasso total. Ora o que aconteceu foi precisamente o contrário. Contra tudo e contra todos, invertendo o recorde negativo dos broncos de 1-4 para 8-5 nos seus primeiros 8 jogos na NFL e contribuindo decisivamente para o apuramento dos Denver Broncos para os play-offs, algo que já não acontecia há uns anos largos, o vencedor do Heisman Trophy de 2006 (que distingue anualmente o melhor jogador de futebol universitário) tornou-se rapidamente na maior atracção da NFL, fazendo subir as audiências a novos recordes e criando, em tempo real, a "Mile High Magic" (referência à altitude da cidade de Denver e à magia de Tebow).
Tim Tebow é um atleta extraordinário e nem seria de esperar outra coisa de um quarterback que não receia correr para cima de linebackers que pesam cento e cinquenta quilos. Mas acima de tudo, são as suas qualidades humanas que o elevam às alturas do mito vivo. Competitivo como ninguém e corajoso até à insanidade (no liceu, jogou 15 minutos com uma fractura na tíbia, tendo corrido nesse período 54 jardas para um touchdown), devoto acólito da igreja do seu pai e líder nato, o rapazinho parece ter um talento único para congregar as equipas em torno de um objectivo, que é vencer, mesmo que isso implique o sacrifício das estatísticas, das convenções tácticas e da simples beleza do jogo pelo ar.
Os Denver Broncos terminaram a época regular em apuros, perdendo os três últimos jogos, nos quais Tebow se mostrou absolutamente incapaz de lançar a bola ou construir o mais débil fio de jogo. No último jogo aconteceu uma outra história dentro desta história. Os Broncos recebiam os Chiefs (precisamente o franchise para onde tinha sido enviado Kyle Orton) e precisavam de ganhar para garantir a passagem aos playoffs sem ficar à espera que outras equipas "dessem um jeitinho". Porém, Kyle Orton jogava aqui a sua honra e, perante um adversário totalmente desinspirado, os Kansas Chiefs humilharam a cidade de Denver e deixaram nas mãos dos Oakland Raiders o sucesso ou insucesso da temporada de Tim Tebow. Foi precisamente nessa altura que os deuses decidiram intervir: Oakland perdeu o último jogo da época e abriu assim as portas a Denver, que, com um dúbio recorde de oito vitórias e oito derrotas conseguia ainda assim permanecer na prova.



Por esta altura, já ninguém no seu perfeito juízo acreditava que Tim Tebow e companhia poderiam constituir uma séria ameaça aos Pittsburgh Steelers - eternos favoritos da NFL - que se deslocavam a Denver com a disposição de quem tem que cumprir um mero formalismo. Ora acontece que um ressuscitado Tebow lançou perto de 400 jardas e dois touchdowns de se lhe tirar o chapéu, correu para mais outro touchdown e eliminou os Steelers com uma limpeza arrepiante (e uma ajudinha grande da sua impecável linha defensiva). No vídeo em cima, está a primeira e única jogada do prolongamento (os Steelers são os Steelers e mesmo um Ben Rothliesberger lesionado obrigou os Broncos ao esforço extra), em que Tebow, num momento de suprema ironia, lança a bola para um incrível touchdown de 80 jardas, calando todas os críticos e assegurando em 8 segundos um lugar na posteridade.
Os Denver Broncos estão agora nas meias-finais da sua conferência, deslocando-se no próximo fim-de-semana a Boston, para enfrentar os mais que temíveis New England Patriots de Tom Brady, provavelmente um dos três melhores quarterbacks da história da NFL. Mas tudo é possível. O importante, segundo Tim Tebow, é acreditar. Acreditar em Deus, acreditar na vitória, acreditar na magia. E eu, que sou ateu por filosofia e que sou céptico por natureza, acredito nos Denver Broncos.


segunda-feira, janeiro 09, 2012

Mathew White e a estatística de tudo.

"Matar uma pessoa é o máximo que se pode fazer-lhe."

Matthew White. Este homem é qualquer coisa. Estatístico e bibliotecário, decidiu inventar uma nova maneira de interpretar a história, oferecendo uma visão brilhante do percurso humano que é suportada apenas pelos factos. Este magnífico livrinho aqui, por exemplo, dedica-se à grave tarefa de contar cadáveres. É de gargalhada, porque Matthew White mantém o seu fino sentido de humor na trincheira das piores chacinas, mas é sobretudo esclarecedor porque os números não são equívocos, mesmo quando derivam de simples estimativas.
Ao contrário do que supomos, as guerras entre estados têm matado menos gente do que as que são travadas por hordas tribais, falanges nacionalistas, milícias de mercenários, bandos de bandidos, colunas de bárbaros, legiões de escravos, esquadrões revolucionários ou exércitos confederados. Ao contrário do que supomos, o caos é pior que a tirania: os maiores genocídios da história tendem a resultar mais da quebra de autoridade do que do exercício de autoridade. Ao contrário do que supomos, o mundo político foi e é extremamente desorganizado. As estruturas de poder tendem a ser informais e temporárias. Muitos dos protagonistas deste livro, homens como Estaline, Cromwell, Tamerlão, César ou Aníbal, exerceram a autoridade suprema sem deterem um cargo formal no governo. A maior parte das guerras não se iniciam de forma clara, com declaração e mobilização (ou o inverso) e não terminam com rendições e tratados. Os soldados e as nações mudam, sem qualquer problema, de lado a meio das guerras. Por vezes, até a meio das batalhas. Ao contrário do que supomos, a guerra mata mais civis do que militares e o soldado tem, geralmente, a profissão mais segura que se pode ter em tempos de guerra. Ao contrário do que supomos, a grande parte dos maiores criminosos da história morrem pacificamente, de velhice. Ao contrário do que supomos, a violência genocida é o maior motor da história e podemos afirmar calmamente, perante a mais erudita assembleia de sábios, que a mais importante figura do Século XX foi um assassino de massas, mesmo quando assassinou apenas uma pessoa (é o caso de Gavrilo Princip, que, ao enviar para o inferno o Arquiduque Franz Ferdinand, coloca em movimento uma cadeia de acontecimentos que vai gerar cerca de 80 milhões de mortos).
O Grande Livro das Coisas Horríveis é uma pérola e uma poderosa arma intelectual que podemos usar para descontruir por completo o humanismo pegajoso e ingénuo que reina sobre o pensamento e o discurso sócio-político contemporâneo. E também para reforçar uma evidência que já está demonstrada desde a antiguidade clássica (Anaximandro): a destruição é "justa" e necessária, porque está intimamente relacionada com a criação. É necessário que caiam impérios para existirem impérios, e assim sucessivamente até ao fim da literatura, quero dizer, da humanidade.
Mas, muito para além da atrocitologia (a ciência histórica das atrocidades humanas), Matthew White leva o processo estatístico aos 360 graus do horizonte histórico: no seu magnífico portal Historical Atlas of the Twentieth Century o homem reduz - ou amplia - tudo aos números. E estes falam com eloquência sobre o passado e sobre o futuro. Afinal, se a História existe, é para que se aprenda com ela.

domingo, janeiro 08, 2012

Moleskine Power | Da natureza da imagem.


Francis Albert Sinatra

I've Got You Under My Skin | Frank Sinatra | Live at Madison Square Garden | 1974

POR ARTUR PAIXÃO

Meu grande amigo ignorado no teu espaço e no meu tempo, pelo menos desde a minha juventude que ditou uma admiração que permanece, inquebrável, e empatia para todo o sempre. Será um tanto meloso mas não retiro uma vírgula.
Enquanto arrumo estas linhas, tenho em fundo essa voz, confundida no imenso caleidoscópio da elegância com que sempre te exibiste nos palcos do mundo, demasiado pequeno para ti, bem sei, excepto no Porto, onde tiveste de sofrer as agruras da fria nortada daquelas paragens que te lixou o brilho e uns dos teus 20/30 capachinhos, diria de muito bom gosto e indispensáveis para atapetar a mais notável das calvas de pelo menos 50/60 anos de inigualável actividade, por entre uma chusma de medíocres danados por te chegar aos calcanhares. Com algumas excepções que acompanhaste sem vedetismos ou arrogâncias, que dispensavas generosamente. Aliás, era suficiente a tua presença. Única.
Nos meus 80 anos vida, calcula que mantenho religiosamente arrumados pelo menos 60 dos teus - parece que se diz - “long-plays”; eu que tenho grande dificuldade em distinguir o inglês do javanês; aqueles em vinil que podiam servir de tampa a uma terrina de amassada de torresmos, e agora que te revivo diariamente tenho para aí uma sacada duns bons 50 quilos de cassetes e CD´S que não faço ideia de como compartimentar em termos de respeito dado que não disponho de espaço no cubículo em que me arrumo com um quarto, exígua cozinha para trabalhar uma fritura de migas e uma pia medieval para os despejos que adivinhas, por outro lado não é concebível arrecadar parte do teu imenso espólio sob o miserável catre onde alinho, pela noite, os ossos enquanto te oiço até cerrar as pestanas e sendo tão leves, à parte a tua voz, é sempre um testemunho pelo tanto de belo que nos deixaste. Neste exacto momento ouço o dueto com o também inesquecível amigo, o Sammy Davis. Era assim um bocado para o torradinho e vítima dum ligeiro estrabismo que, por sinal, lhe ia muito bem.
Tiveste momentos inesquecíveis com amigalhaços da maior de que não esqueço, por exemplo, o dueto com a tua filha. Uma efeméride que te honrou e constitui uma afirmação de amor filial que te enriqueceu, dado que nesta questão de amores nunca foste constante, pelo menos aos duros que nunca chegaram ao fundo da tua sensibilidade ou jamais te conheceram de facto, personagem à deriva de permanentes solicitações com que foste confrontado sem defesa possível, especialmente após as noitadas de outra galáxia em que te entregaste, antes e depois à embriaguês da Ava Gardner e depois mais esta e aquela e mais outras, não importa se antes ou depois duma copaneira de marca.
Estou certo que agiste sempre a contento com ou sem capachinho. Com ou sem acessórios não se fez o homem que foste. Essa é também a opinião da minha sogra, uma senhora de critica severa muito respeitável.
Diz-se que desfrutaste dum bom empurrão da rapaziada da Máfia e de outros grupelhos de muito má reputação. Mas não importa se os usaste ou foste usado, é perfeitamente irrelevante. Porque no fim, o que fica é a Voz, a história, o grande senhor.
Declarou-se agora que encarnaste um filmezeco pornográfico num desses pasquins ordinários, segundo eco duma biografia não autorizada, de há uma catrefa de anos, em que desempenhavas um viril “O homem da Máscara Negra” por uma miserável retribuição de 70 e poucos dólares numa situação pouco credível de penúria. Esquece. Lembras-te da tua inolvidável interpretação no “Até à Eternidade”? foi mais do que a tua inteira remissão.
Lembro-me que quando da minha juventude também participei numa cena não muito edificante com uma senhora de muito traquejo com uma rabadilha como que movida a pilhas extras fortes que me preparou, com carinhoso profissionalismo, um montão de indecências que não me fazem corar um bocadinho e, antes me marcou para cometimentos que me deram carta de alforria e fez subir a fasquia da minha reputação um bom par de patamares. Tudo a troco de cem paus o minuto.
Estou agora a ouvir-te no “L.A. Is My Lady” em fundo. Segue-se a espantosa mistura com o bom do Jobim sobre a garota de Ipanema, recordas? que bateu no fundo à dureza do calceteiro e do mais empedernido estivador. Fica para a eternidade, garanto-te com a chancela da minha sogra e até do ordinário do meu senhorio.
Também memorável aquela desgarrada com o Tony Bennett.
Apreciei a tua recusa de te fazeres ouvir com aquele palonço do Elton Jones. Subiste muito na minha consideração pela tua indisponibilidade para emparelhares com esse fedelho contra-natura, mesmo tendo sido assegurado que não estaria a menos de 20 metros de distância da tua insigne figura, por providência cautelar. De facto, seria desastroso embarcares na abertura do espectáculo com a balada da bela e do monstro como essa figurinha ridícula sugerira.
Não há espaço para uma referência mais ampla da colossal discografia. Mas não queria deixar uma homenagem sentida àquele miúdo, um tal Robbie Wiliams, pronto para uma porta escancarada para o sucesso, que no circunspecto Albert Hall de Londres, no decurso dum inesquecível serão, apoiado pela magnífica Orquestra Sinfónica de Londres, a certo tempo, iniciou ele próprio o teu espantoso My Way - diz-se aqui, “À Minha Maneira”, rodeado dum friso de garotas do tipo “agarrem-me, por favor segurem-me”, e interrompeu-se de súbito para te projectar num ecrã gigante para terminares a canção por entre um silêncio mágico, comovido, para depois rebentar numa imparável explosão incontida de emoção. Inesquecível! Mora naquele rapaz um respeito muito grande e um seguidor absolutamente fiel.
Devo dizer-te, que nessa mesma linha e saudade, por alguns restos de noite já com uns abafados no saco a caminho de penantes, cantarolo-te, tentando comedidamente gingar à tua maneira inigualável, o que acaba em sérias dificuldades para acertar com a chave da porta e um significativo olhar de reprovação da consorte. Incompreensões, 'tás a ver?
Não é por acaso que alguns estarolas aqui do Bairro me chamavam o Sinatra de faz de conta, agora já não, que perdi o pio.
Os fados não permitiram que ao menos por um fugidio momento nos cruzássemos para te homenagear ao menos com uma taça de Esporão de reserva, um espanto do nosso Alentejo, estendendo-se por uma planície de sonho, de paz e muita bolota, qualquer coisa como um Paraíso meio adormecido que os teus concidadãos de Nova Iorque, cegos de tanto néon, nunca entenderiam mesmo antes de se encharcarem com as suas discretas botijas de Whisky de bolso. Aliás nem saías daqui por uma boa temporada, se te fosse dado degustar um leitão assado na Bairrada, apoiado num espumante de tarar num pequeno lugarejo do nosso jardim à beira mar plantado.
Estou próximo de ti porque por enquanto deves permanecer no Purgatório, na expectativa do julgamento final e aí não se dobram facilmente às brejeirices que te preenchem o canastro. Quando chegar o momento, com essa admirável dicção diz apenas, com humildade - Sou a voz. Não é justo julgar um artista da tua dimensão com o mesmo critério que usarão comigo, um simples funileiro reformado. E proclamar alto e bom som que estou e estarei sempre contigo. Se houver por aí malta do género Count Baisie vamos armar uma festa de estalo contigo.
Por último queria registar um apontamento que me escapou no “Até À Eternidade”, com um desenho sóbrio, brilhante, totalmente em contraponto com a esfuziante coreografia de, por exemplo, “Um dia em Nova Yorque” em que comparticipas com o Geny Kelly, dançando tanto quanto essa também inesquecível figura. Com todo esse talento, encarnavas o que quisesses. Até o Robin dos Bosques, excepto um regresso ao Porto.
Por fim, meu amigo Francis: quando eu também chegar por aí sussurra-me ao ouvido, se não for possível juntar essa flagelada multidão - diz-se por aqui que por aí são pouco dados a permitir o espírito associativo - “Nova Iorque, Nova Iorque”.
Entretanto fico-me, por agora, a reviver-te com o admirável Jobim e a espantosa Garota de Ipanema.

Garota de Ipanema | Frank Sinatra e António Carlos Jobim  | 1967

quinta-feira, janeiro 05, 2012

The Tale of the Tomato Garden.

An old Italian lived alone in New Jersey. He wanted to plant his annual tomato garden, but it was very difficult work, as the ground was so hard. His only son, Vincent, who used to help him, was in prison. The old man wrote a letter to his son and described his predicament:

Dear Vincent,
I am feeling pretty sad, because it looks like I won't be able to plant my tomato garden this year. I'm just getting too old to be digging up a garden plot. I know if you were here my troubles would be over. I know you would be happy to dig the plot for me, like in the old days.
Love, Papa


A few days later he received a letter from his son.

Dear Pop,
Don't dig up that garden. That's where the bodies are buried.
Love, Vinnie


At 4 a.m. the next morning, FBI agents and local police arrived and dug up the entire area without finding any bodies. They apologized to the old man and left. That same day the old man received another letter from his son.

Dear Pop,
Go ahead and plant the tomatoes now. That's the best I could do under the circumstances.
Love you, Vinnie

100 dólares, para começar bem o ano.



Several Woman's magazines
Stacked up on top of a picture of me
When I tried to call
No one answered

It's not even that I'm all angry
Just kind of confused why you do this thing
You said, there's an understanding

I offer you a small dog in the kitchen
I just wanted you to feel at home

And that's why I'm fine
I am fine, I am fine, I am fine
I just need 100 dollars
And I am fine, I am fine, I am completely fine
I just need 100 dollars
From you
And you and you
And you and you

Andy Hull (Manchester Orchestra) | 100 Dollars

Ano Z.

Pieter Bruegel o velho | O Triunfo da Morte (detalhe) | 1562


Dois mil e doze, trazes azares de dois mil e treze, trazes incêndios em jardins zoológicos, trazes jazigos e jazes na urna do medo, promessa aziaga; dois mil e doze do fim-do-mundo no zurzir dos profetas, ano zagalote; zerzelim venenoso; dois mil e doze, dúzia de ovos a mais - podres; dois mil e doze, ano dos Zoilos de Bocage, dos invejosos de Zeus, dos que gritam Zapata! Dois mil e doze, inferno zen, greve de zelo no cosmos, posfácio-epitáfio de Zenão, última letra zê do alfabeto-zodíaco, último número-zé-ninguém do infinito abaixo de zero; dois mil e doze dos Zoavos, que é porrada-que-ferve: zás, trás, pás! Dois mil e doze zeribando, és vingança de Zaratrusta na comédia do fim.