quinta-feira, junho 21, 2012
quarta-feira, junho 20, 2012
Joaninha voa voa.
Esta fotografia lindíssima aqui em cima foi tirada no Palácio de Versalhes, onde nenhuma mulher antes da Joana de Vasconcelos tinha exposto fosse o que fosse, porque os franceses são o que são.
A Joana é uma artista notável porque faz arte que tem a ver com ela e com o país dela e as suas obras entendem-se. Comunicam. Expressam uma identidade. Têm uma ou muitas razões de fundo. São belas, são inspiradas, são surpreendentes, mas partem de um laboratório do prosaico que as justifica e legitima. Onze, de zero a dez.
segunda-feira, junho 18, 2012
Um longo domingo de vitórias.
Ontem foi Domingo gordo, para o desporto nacional. Transcendendo o facto consolador do senhor Cristiano Ronaldo ter acordado para a vida (mais porque o filho fazia anos que por outra coisa qualquer), o espectacular Rui Costa, que já tinha ganho uma etapa da Volta à França no ano passado, venceu agora a Volta à Suíça, com assinalável limpeza. E Pedro Lamy levou o Corvette C6-ZR1 à vitória na categoria LMS GTE Am das 24 Horas de Le Mans, prova onde apresenta um currículo muito respeitável. Antes disto tudo, na Sexta-Feira, o Rali de Portugal foi confirmado no calendário do Mundial da especialidade para 2013.
Nada mau, para um cantinho deprimido.
Um Grande Bem-Hajam!!!
POR MIKE BRAMBLE
Um Grande Bem-Hajam ou, simplesmente, Parabéns! Dedicados às quinas que há umas horas não quinaram. E que remeteram dinamarqueses e holandeses à burocrática tarefa de fazer as malitas. Sobre o que escrevi aqui há uns dias, tenho a notar que Paulo Bento já ficou com historial nestas fases finais de Europeus ou Mundiais de Futebol.
Mas só a partir de hoje! Conseguiu o feito de sermos os únicos que quando chegaram a fases decisivas dos troféus maiores do futebolês da Velha Europa seguiram sempre em frente, para a fase dos jogos a eliminar. Para mais, vencendo e ajudando a eliminar um vice-campeão mundial em título. Para ele só conta esta edição, mas não desmereceu. Começa a ser currículo…
A selecção lusa perdeu com a Alemanha sem chama, ganhou à até aí surpreendente Dinamarca com denodo e alguma sorte, e certificou o carimbo com galhardia, ânimo e inteligência defronte dos holandeses. A selecção laranja, com arrancos atemorizantes, mas sem carburar na mecânica que já a tornou célebre, engasgou perante Cristiano Ronaldo.
Nesta altura de garbo lusitano, homenageio também um dos maiores da língua Pátria. Gil Vicente, para mais com um apelido apropriado à ocasião. Os holandeses não o devem conhecer. Disse o mestre do teatro português que “mais quero um asno que me carregue que um cavalo que me derrube”, na “Farsa de Inês Pereira”. Mais de cinco séculos passados, o cavalo, sem ofensas, é CR7; a derrubada é a Holanda. O asno que me carregue é uma pluraridade que me exige outro apontamento.
Meio País já assassinou Cristiano Ronaldo em tascas, cafés, ‘snacks’, cafetarias, escritórios, paragens de autocarro ou metropolitano quando não estão em greve, repartições públicas em reajustamento, praias inundadas de desempregados e festivais musicais repletos de filhos de beneficários do rendimento social de inserção. Até nos Passos Perdidos ou nos jardins de São Bento ou de Belém já se terá ventilado este assunto da máxima segurança nacional...
É normal; é o País que temos! Voltemos à bola, para aquilatar os tontos justificativos: que o CR 7 tem um ego do tamanho do Universo. Porque ganha rios de ouro e que tem namoradas bonitas em barda. E só joga à fartazana nos clubes; na selecção é para esquecer!
Ah!, infecta inveja deste rectângulo! Amanhã vão apregoar que sempre sabiam que ele nos iria salvar. Mas o pior não é aquela conversa balofa à esquina, com uma ‘mine’ na mão, uma patanisca na outra e um fumante mal amarfanhado pela bigodaça.
O pior, à séria, reside nesta cáfila de comentadores encartados, gravata encastrada no bócio, a enxamear os nossos écrãs televisivos e a afiar a faca. Agora, devem estar a reorientar o discurso, como está em voga fazer a ‘narrativa’ (!?), em jeito de mau pagador e incompetente profissional.
Pela minha parte, fui esperando que o Cristiano Ronaldo ‘explodisse’ em campo. E nunca vi um jogo dele que desmerecesse desde que se iniciou este Euro. Contra a Alemanha, tirando o Pepe e, talvez, o Nani, poucos da selecção nacional saíram da mediania como ele. Contra a Dinamarca, para mim, já foi um dos melhores. Falhou dois golos, mas deu muito a entreter aos colegas e a sofrer aos adversários, mesmo falhando dois golos de baliza praticamente escancarada. Penso que Nani vai à frente nesta despropositada contabilidade, mas nem por isso, mais uma vez no meu singelo entender, deixa o craque do Manchester United de ser um dos melhores da selecção portuguesa.
Ontem, a exibição de Cristiano Ronaldo pouca margem deu à crítica. Dois golos, dois ferros, duas ou três grandes defesas tiradas a Sketellenburg. O pânico em Krakiv. Ainda bem! Ele tem emprego bem pago pelo que faz como quase ninguém!
Há outros, a tal cáfila a que me referi e que deveria ser referenciada, nome a nome, que nunca mais se emenda. Ou lhes acertam o passo ou a choldra vai prosseguir…
Já agora, gostava eu de saber, se o editorial e um artigo/reportagem/gabinete de curiosidades, publicados na passada quinta-feira por uma revista dita no segmento das ‘news magazines’ nacionais, têm alguma ponta de verdade sobre o que diz passar-se e ter-se passado recentemente na selecção nacional de futebol? Se sim, é um escândalo! Se não, parece-me que há um outro tipo de responsabilidades a apurar junto dessa publicação. Que eu paguei, como alguns milhares de portugueses.
Um Grande Bem-Hajam ou, simplesmente, Parabéns! Dedicados às quinas que há umas horas não quinaram. E que remeteram dinamarqueses e holandeses à burocrática tarefa de fazer as malitas. Sobre o que escrevi aqui há uns dias, tenho a notar que Paulo Bento já ficou com historial nestas fases finais de Europeus ou Mundiais de Futebol.
Mas só a partir de hoje! Conseguiu o feito de sermos os únicos que quando chegaram a fases decisivas dos troféus maiores do futebolês da Velha Europa seguiram sempre em frente, para a fase dos jogos a eliminar. Para mais, vencendo e ajudando a eliminar um vice-campeão mundial em título. Para ele só conta esta edição, mas não desmereceu. Começa a ser currículo…
A selecção lusa perdeu com a Alemanha sem chama, ganhou à até aí surpreendente Dinamarca com denodo e alguma sorte, e certificou o carimbo com galhardia, ânimo e inteligência defronte dos holandeses. A selecção laranja, com arrancos atemorizantes, mas sem carburar na mecânica que já a tornou célebre, engasgou perante Cristiano Ronaldo.
Nesta altura de garbo lusitano, homenageio também um dos maiores da língua Pátria. Gil Vicente, para mais com um apelido apropriado à ocasião. Os holandeses não o devem conhecer. Disse o mestre do teatro português que “mais quero um asno que me carregue que um cavalo que me derrube”, na “Farsa de Inês Pereira”. Mais de cinco séculos passados, o cavalo, sem ofensas, é CR7; a derrubada é a Holanda. O asno que me carregue é uma pluraridade que me exige outro apontamento.
Meio País já assassinou Cristiano Ronaldo em tascas, cafés, ‘snacks’, cafetarias, escritórios, paragens de autocarro ou metropolitano quando não estão em greve, repartições públicas em reajustamento, praias inundadas de desempregados e festivais musicais repletos de filhos de beneficários do rendimento social de inserção. Até nos Passos Perdidos ou nos jardins de São Bento ou de Belém já se terá ventilado este assunto da máxima segurança nacional...
É normal; é o País que temos! Voltemos à bola, para aquilatar os tontos justificativos: que o CR 7 tem um ego do tamanho do Universo. Porque ganha rios de ouro e que tem namoradas bonitas em barda. E só joga à fartazana nos clubes; na selecção é para esquecer!
Ah!, infecta inveja deste rectângulo! Amanhã vão apregoar que sempre sabiam que ele nos iria salvar. Mas o pior não é aquela conversa balofa à esquina, com uma ‘mine’ na mão, uma patanisca na outra e um fumante mal amarfanhado pela bigodaça.
O pior, à séria, reside nesta cáfila de comentadores encartados, gravata encastrada no bócio, a enxamear os nossos écrãs televisivos e a afiar a faca. Agora, devem estar a reorientar o discurso, como está em voga fazer a ‘narrativa’ (!?), em jeito de mau pagador e incompetente profissional.
Pela minha parte, fui esperando que o Cristiano Ronaldo ‘explodisse’ em campo. E nunca vi um jogo dele que desmerecesse desde que se iniciou este Euro. Contra a Alemanha, tirando o Pepe e, talvez, o Nani, poucos da selecção nacional saíram da mediania como ele. Contra a Dinamarca, para mim, já foi um dos melhores. Falhou dois golos, mas deu muito a entreter aos colegas e a sofrer aos adversários, mesmo falhando dois golos de baliza praticamente escancarada. Penso que Nani vai à frente nesta despropositada contabilidade, mas nem por isso, mais uma vez no meu singelo entender, deixa o craque do Manchester United de ser um dos melhores da selecção portuguesa.
Ontem, a exibição de Cristiano Ronaldo pouca margem deu à crítica. Dois golos, dois ferros, duas ou três grandes defesas tiradas a Sketellenburg. O pânico em Krakiv. Ainda bem! Ele tem emprego bem pago pelo que faz como quase ninguém!
Há outros, a tal cáfila a que me referi e que deveria ser referenciada, nome a nome, que nunca mais se emenda. Ou lhes acertam o passo ou a choldra vai prosseguir…
Já agora, gostava eu de saber, se o editorial e um artigo/reportagem/gabinete de curiosidades, publicados na passada quinta-feira por uma revista dita no segmento das ‘news magazines’ nacionais, têm alguma ponta de verdade sobre o que diz passar-se e ter-se passado recentemente na selecção nacional de futebol? Se sim, é um escândalo! Se não, parece-me que há um outro tipo de responsabilidades a apurar junto dessa publicação. Que eu paguei, como alguns milhares de portugueses.
sábado, junho 16, 2012
Ode a Vitor Baptista
Ah, que saudades dos artistas que eram papoilas benfiquistas
a laborar de sol a sol!
Em vez do Fábio milionário convoco o Pietra operário,
conservado em formol.
E prefiro o Vítor Baptista, com o seu brinco ametista,
que brilhava como um farol!
Já gostei mais de futebol.
Ah, do que Simões seria capaz enquanto o Nani finta um rapaz
no anúncio da Sumol.
Uma só perna do pai Veloso supera o inteiro filho vaidoso,
a passo de caracol.
Não sou nenhum marxista, mas preferia o Vítor Baptista
a todo este descontrole!
Já gostei mais de futebol.
O Toni, se não me engana, corria mais, tinha mais gana
que Cristiano Ronaldo,"O Espanhol".
E por não haver Eusébio o jogo não passa a provérbio
nem há herói que nos console.
Ah, que saudades dos artistas, d'esses todos Vitor Baptistas,
com barriguinha e colesterol!
Já gostei mais de futebol.
Já gostei mais de futebol.
a laborar de sol a sol!
Em vez do Fábio milionário convoco o Pietra operário,
conservado em formol.
E prefiro o Vítor Baptista, com o seu brinco ametista,
que brilhava como um farol!
Já gostei mais de futebol.
Ah, do que Simões seria capaz enquanto o Nani finta um rapaz
no anúncio da Sumol.
Uma só perna do pai Veloso supera o inteiro filho vaidoso,
a passo de caracol.
Não sou nenhum marxista, mas preferia o Vítor Baptista
a todo este descontrole!
Já gostei mais de futebol.
O Toni, se não me engana, corria mais, tinha mais gana
que Cristiano Ronaldo,"O Espanhol".
E por não haver Eusébio o jogo não passa a provérbio
nem há herói que nos console.
Ah, que saudades dos artistas, d'esses todos Vitor Baptistas,
com barriguinha e colesterol!
Já gostei mais de futebol.
Já gostei mais de futebol.
Irish blend
POR MIKE BRAMBLE
A Irlanda é uma realidade louvável. Como Cultura, como Nação. Há menos tempo, como Pátria.
Lawrence Sterne, George Bernard Shaw (antes de ensandecer), James Joyce, Oscar Wilde, Jonathan Swift, Samuel Beckett, Seamus Heaney. São excelentes ‘territórios’ a visitar. Ou a revisitar. Deixei para o fim, cônscio de ter falhado algures enormes proeminências do Eire, o inominável W. B. Yeats. Enorme entre estes grandes!
Posso estar errado, mas terei para aqui debitado qualquer coisa como quatro prémios Nobel da Literatura. Fascinante… O prólogo serve para tal. Ontem, estava a selecção de futebol irlandesa a levar quatro bolas secas da Espanha e os irlandeses entoavam cânticos belíssimos. E não se calaram… A tal ponto que o homem do jogo, “El Niño”, apregoam as fãs e os tontos jornalistas que encarreiram nestas tristes cenas, não conseguia ouvir as questões da ‘reportage’.
Os homens da lira compõem uma claque nos louros dos pergaminhos. Lembro-me de um belíssimo jogo em que Portugal recebeu no já demolido Estádio da Luz a República da Irlanda, na fase de apuramento para o Euro de 1996.
Os dois conjuntos estavam obrigados a ganhar, se quisessem ser apurados. Chovia, chovia… A Irlanda esteve em campo e Portugal foi marcando. Resultado: a Irlanda, levou com três bolázias, desta feita, bem molhadas e repompudas. Antes que o Alzheimer se apodere de mim, retive na memória o portento do Rui Costa, de fora da área.
O ânimo dos cânticos dos celtas foi sempre o mesmo. Como ontem. Na bela ressaca dessa partida também recordo com gratidão este episódio. Passadas uma horas, ainda São Pedro mandava das suas, um grupo de irlandeses entabulou conversa comigo. Mensagem a reter: “Nice game, mate. See you in Wembley, on the final”. O Euro foi em Inglaterra (nota-se sempre um certo azedume), mas eles tinham um obstáculo maior para lá chegar.
Portugal apurou-se directamente. Depois, Poborsky e Baía enterraram-nos, para não falar de A. Oliveira e seu irmão ‘muchacho’, J. Oliveira. A Irlanda não chegou lá, foi eliminada no ‘play off’ com a Holanda.
Na última tentativa para alcançar os palcos maiores dos Mundiais e dos Europeus da bola a onze, a Irlanda do digníssimo Trapatone foi impedida por um árbitro, contra a França, na fase de apuramento para o Mundial de 2010.
Ontem, a Irlanda saiu pela baixa em campo. Mas em grande alta nas bancadas. ‘Malt & Blend’! O futebol vale a pena assim, sem tácticas, com estratégia de pulso forte, animosa corda vocal e resiliente diafragma.
Vale um ‘whiskey’? Jameson, Bushmills, ‘you name it, mate’…
Agora, uma nota para dois lançamentos laterais. Dois grandes jogadores a resplandecer, que eu quero nomear aqui. Chevchenko. Fabulosos 35. Não é guarda-redes, continua a aterrorizá-los. Com golpes fatais.
E Andrea Pirlo. Também já tendo dobrado bem os trinta. Visão, precisão, desmarque, contenção. É a isto que os delirantes comentadores e opinadores desta faixa atlântica apelidam de ‘catenaccio”? Vá bene!
quinta-feira, junho 14, 2012
Rentes à Holanda
POR MIKE BRAMBLE
Depois de extintas as duas primeiras voltas dos dois grupos que entraram à frente nos campos da Polónia e da Ucrânia, há uma verdade insofismável neste Euro Futebol: há oito equipas que ainda podem seguir em frente. Para nós, que perdemos sem alma, nem técnica, também com aziaga sorte, no primeiro com a Alemanha; e que ganhámos com muito coração e empenho, ajudados pelos deuses, neste segundo com a Dinamarca; precisamos de algo mais para a terceira ronda, com a Holanda.
Socorro-me aqui de um escritor português ainda desmerecido... J. Rentes de Carvalho. Diz ele: “Há na língua holandesa uma expressão que constantemente se ouve: ‘de zakelijke aanpak’, a qual tem o significado literal de ‘à maneira do comércio’. Além de ser corrente e aceitável nas relações entre as pessoas, a frase justifica também que se tire o máximo proveito de tudo e todos, mesmo, e sobretudo, de quem não tem força ou ocasião para se defender” (“Com os Holandeses”, Quetzal).
Não foi escrito por encomenda para o jogo com os ‘laranjas’, que me parecem menos mecanizados que noutras épocas. Afigura-se-me um conselho relevante. J. Rentes de Carvalho, rijo transmontano, viveu nos Países Baixos a partir de 1956. É dessas primeiras décadas da segunda metade do vigésimo século D. C. que data esta assertividade. Será tolo desperdiçá-las?
Quiçá, arte e engenho nos levem lá...
segunda-feira, junho 11, 2012
Maria, a terrível.

Num post de 2006, dizia eu que a bela Sharapova haveria de fazer história. Ontem, em Roland Garros, cumpriu-se a profecia. A terrível russa dominou completamente a final, venceu a italiana Errani por 6-3, 6-2 e entrou directamente para o restrito clube de dez raparigas que conseguiram triunfar nos quatro torneios do Grand Slam. A elegância e a determinação de Maria Sharapova - que tem ainda 25 anos e muitos títulos pela frente - constituem um excelente exemplo de profissionalismo em alta competição. E elevam o ténis feminino a uma outra, a uma nova, categoria estética.
Cristiano Ronaldo, rói-te de inveja:
Cessem do sábio Grego e do Troiano
As navegações grandes que fizeram;
Cale-se de Alexandro e de Trajano
A fama das vitórias que tiveram;
Que eu canto o peito ilustre Lusitano,
A quem Neptuno e Marte obedeceram:
Cesse tudo o que a Musa antígua canta,
Que outro valor mais alto se alevanta.
Luís Vaz de Camões - Os Lusíadas - Canto I
As navegações grandes que fizeram;
Cale-se de Alexandro e de Trajano
A fama das vitórias que tiveram;
Que eu canto o peito ilustre Lusitano,
A quem Neptuno e Marte obedeceram:
Cesse tudo o que a Musa antígua canta,
Que outro valor mais alto se alevanta.
Luís Vaz de Camões - Os Lusíadas - Canto I
domingo, junho 10, 2012
Camões à vela
POR MIKE BRAMBLE
Hoje é dia de Portugal. Do meu País. E que melhor do que levar os nossos sonhos para alto mar? Foi sempre o que gostámos de fazer. Com mestria e galhardice. Em Lisboa, acabou hoje a Volvo Ocean Race, antes conhecida como “Whitbread Round the World Race”.
É mais um caso tipificado da decadência nacional. Já não temos marinheiros? Conny van Rietschoten, ilustre ‘skipper’ holandês, já ganhou três vezes esta maravilhosa competição, duas vezes de enfiada. Isto lembra-me algo lá para o século XVI, noutras alterosas ondas…
Para quem não conhece, a regata parte habitualmente da Europa em Outubro, tem nove ou dez etapas, cruza o Globo. Percorre, em média, 72 mil quilómetros, prolongando-se por nove meses. Tal como um novo ser humano…
Para quem gosta de estatísticas e é dependente das audiências, acrescento que esta bela refrega em altos mares é seguida ao écrã por mais de dois mil milhões de seres humanos.
Tal como no futebol, cada um destes ‘botes’ tecnológicos, tem uma equipagem de 11 profissionais. Ganham bem, mas metem menos água que outras alegadas vedetas sobre a relva.
Rasgam o Cabo Horn (ou ‘Hornos’), o Pacífico, o Atlântico. Aguentam temperaturas dos 5º negativos aos 40º positivos (Celsius). Etapas há que demoram mais de 20 dias. E cada um deles só tem direito a uma muda de roupa por etapa. Não há comida fresca a bordo.
Tudo decidido ao pormenor. Por cada equipagem, há um construtor de velas com a agulha à espreita, dois marinheiros salitrados e avalizados por médicos, um engenheiro físico e, espantemo-nos, um responsável pela comunicação.
Luiz Vaz de Camões não teve direito a estas benesses. Mas tinha a Dinamene e uma bóia de salvação, em dez cantos. Continua a singrar nas ondas deste Mundo!
Melancolia
POR ARTUR PAIXÃO
Sem razão que aparentemente o justifique, acordei hoje melancolicamente voltado para uma remota viagem a imagens do tempo que me passou ao lado, dos anos perdidos em coisa nenhuma realmente substantiva, como se só sustentado pelo oxigénio que se respira ainda sem taxa. Magoado pelo peso das coisas perdidas, mas de momento iluminado pelo fulgurante raio de sol que me aquece a calva num canto da minha varanda, circundado numa doce explosão de tons vermelhos, amarelos na base dum verde discreto e, em fundo, o Sinatra, envolvendo o espaço, gemendo que as flores não morrem e se renovam por um curto espaço de tempo que medeia a morte duma paixão e logo desabrocham numa aurora de cor e perfume encontradas a cem metros na esquina seguinte da decepção de cem metros atrás.
Tenho metido o sombrio carão no espelho enquanto raspo tufos embranquecidos da barba, salientes e pesados os papos sob os olhos como que mortos e os sulcos cavados, terrosos, na queixada caída. Por onde paira o garboso jovem, de juba farta, o seu sorriso, a sua natural elegância a rebentar de solicitações, a afirmação duma personalidade sem compromissos, irradiante, de alegria de viver; o tipo macho latino, lustroso de corpo ardendo ao sabor dum lânguido tango na mansarda do velho Olímpia ou revolteando ao som das maviosas valsas do Maxime ou rumbando no saudoso Ritz? Os amores ganhos e perdidos na voragem do tempo? Talvez fantasma ainda hoje reflectido nas molduras douradas de espelhos velhos como eu.
O Sinatra murmura neste exacto momento que nada se perdeu. Só contam os ganhos. Resta-me sair para a rutilante luminosidade que beija as flores da minha varanda, navegando no sonho de encontrar na esquina que se desenha cem metros adiante uma rosa que não tenha ainda murchado. Alindei-me com um cravo rubro, flamejante, na lapela do meu fato novo. Quem sabe?
Antes de sair, parti a porcaria daquele espelho.
Viagens na minha terra
POR MIKE BRAMBLE
Como eu previa, a selecção nacional de futebol demonstrou do que
não é capaz. Apanhou uma Alemanha tibia e dali não conseguiu sair. Dia 12, a
Dinamarca, a equipa mais forte deste grupo, no meu parco entender, irá explicar-nos
muito bem o que é futebol com balizas. Ou jogamos a um nível estratosférico ou
começamos a fazer as malas. A selecção de Fernando Gomes e de Paulo Bento tem
vários equívocos em campo. Fora dele, não me avantajo a elaborar. Mas
questiono! O que é que adianta ou atrasa Miguel Veloso, só para início de
conversa?
Mas hoje não venho aqui para isto, até porque não me apetece ser
rifado em profeta da desgraça. O que é que me interessa? Tive dois
fins-de-semana maravilhosos. Seguidos, ainda por cima. E devo-os a muita gente.
Começando pelo Paulo Hasse Paixão e pela sua parceira de vida. E com um carinho
especial para a minha cara-metade, mais gira que eu, claro, a enorme Maria
João.
Este sábado, a convite de vários amigos, de que haverei de falar
noutra ocasião, habitei a “minha terra” lusitana. Com o Garrett, Almeida,
sempre na feliz lembrança.
Há uma semana deliciei-me em Freamunde, Guimarães e Amarante.
Delineámos um roteiro notável. De amizade, civilização e outros sinónimos, como
boa comida e boa bebida. Este sábado voltei ao Vale de Santarém, terra
magnífica, onde ainda se trabalha a sério. Nasci em Moçambique, onde não mais
voltei desde 1973, mas o meu território de preferência é certamente o Ribatejo.
E fico contente por que continue a ser frequentado por gente boa, que me atura,
que me entende, que me acolchoa. Com boas migas, de broa e grelos, com bom
azeite, digníssimo pão e valentes vinhos.
Gente que trabalha na terra e disso faz vida honesta. Pelo pujante
Ribatejo sempre pugnarei! Homens e mulheres para quem a propriedade
terratenente não é um roubo. E que, nas casas mais recomendáveis, mantém
negócio florescente desde o último quartel do século XIX. Sem pedir subsídios
ao Terreiro do Paço. Ou a Bruxelas…
Este é um exemplo de um País que resulta (obrigado, Paixão!) e que
não está à procura de desculpas tontas.
Perante esta oportuna realidade, a selecção nacional de futebol
deveria confessar-se às moscas…
sábado, junho 09, 2012
A ambição de cavalcanti, filho.
Fiquei louco, fiquei tonto,
Meus beijos foram sem conto,
Apartei-a contra mim,
Enlacei-a nos meus braços,
Embriaguei-me de abraços,
Fiquei louco e foi assim.
O senhor cavalcanti, filho, diz que esta primeira estrofe do primeiro poema que o Fernandinho escreveu para a Ofélia é má poesia. E como é que uma merda de um advogado do recife sabe o que é boa ou má poesia? Isso, o senhor cavalcanti, filho, não sabe dizer.
Muito sinceramente, acho que a ambição do senhor cavalcanti, filho, é o de apequenar a grandeza de Fernando Pessoa, porque lá no Brasil não têm nenhum poeta destes, imortal. É claro que a ambição do senhor cavalcanti, filho, é uma pretensão e um equívoco porque não é concerteza uma besta destas que vai agora fazer estragos na glória do Fernandinho. E por isso, continuo a leitura. Quero ver até que ponto da infâmia, da ignorância e da estupidez é que este senhor é capaz de chegar. E quero continuar a aprender coisas interessantes como estas: a misteriosa loura que encantara o Fernandinho não podia ser uma morena. Olga escreve-se com O de Ofélia. Ofélia pertencia à classe média-baixa porque o avô era funileiro.
Meus beijos foram sem conto,
Apartei-a contra mim,
Enlacei-a nos meus braços,
Embriaguei-me de abraços,
Fiquei louco e foi assim.
O senhor cavalcanti, filho, diz que esta primeira estrofe do primeiro poema que o Fernandinho escreveu para a Ofélia é má poesia. E como é que uma merda de um advogado do recife sabe o que é boa ou má poesia? Isso, o senhor cavalcanti, filho, não sabe dizer.
Muito sinceramente, acho que a ambição do senhor cavalcanti, filho, é o de apequenar a grandeza de Fernando Pessoa, porque lá no Brasil não têm nenhum poeta destes, imortal. É claro que a ambição do senhor cavalcanti, filho, é uma pretensão e um equívoco porque não é concerteza uma besta destas que vai agora fazer estragos na glória do Fernandinho. E por isso, continuo a leitura. Quero ver até que ponto da infâmia, da ignorância e da estupidez é que este senhor é capaz de chegar. E quero continuar a aprender coisas interessantes como estas: a misteriosa loura que encantara o Fernandinho não podia ser uma morena. Olga escreve-se com O de Ofélia. Ofélia pertencia à classe média-baixa porque o avô era funileiro.
Russendisko
POR MIKE BRAMBLE
Vladimir Kaminer estará certamente feliz. Eu idem. Vi um jogo de futebol supimpa. A Rússia já merece os meus encómios. Velocidade, técnica, fantasia, sentido de baliza. Uma grande orquestra a debitar, alto e bom som. Arshavin até esteve discreto.
Já anda muita gente a decorar os nomes que campeiam naquela equipa.
Isto servirá também para percebermos uma outra realidade, não despicienda. Tal como os checos não são salvos pelo excelente guarda-redes, Petr Cech, que hoje encaixou quatro molotvs, também as nossas quinas não poderão dormir à sombra da bananeira, tecendo preces para que Cristiano Ronaldo decida tudo.
Retornemos a Vladimir: escreveu vários livros fantásticos, já traduzidos para português. Na Cavalo de Ferro e na Tinta da China, duas casas editoriais de que nos devemos orgulhar.
A música, a literatura, arte na relva. Um bom início de Europeu. Amanhã voltarei.
Mais informações espertas, prestadas diligentemente pelo senhor cavalcanti, filho.
O António Botto tinha uma pilinha pequenina e se calhar foi por isso que deu em paneleiro.
O Álvaro de Campos era paneleiro, talvez, mas o Caeiro era paneleiro de certeza porque escreveu um verso sobre o arrependimento de nunca ter levado no cu.
O Fernandinho (para grande desapontamento do biógrafo) é capaz de não ter sido paneleiro.
A madame da casa de putas que o Fernandinho não frequentava chamava-se Carriço.
A casa de putas da Madame Carriço ficava na Rua do Ferragial de Baixo, num edifício igual aos outros.
O Fernandinho, certa vez, olhou demoradamente para uma rapariga de dezassete anos, dezassete.
Ou então foi ela que olhou demoradamente para o Fernandinho, não se percebe bem.
O Fernandinho dirigia muitos bilhetes a mulheres casadas.
O biógrafo do Fernandinho é uma besta.
O Álvaro de Campos era paneleiro, talvez, mas o Caeiro era paneleiro de certeza porque escreveu um verso sobre o arrependimento de nunca ter levado no cu.
O Fernandinho (para grande desapontamento do biógrafo) é capaz de não ter sido paneleiro.
A madame da casa de putas que o Fernandinho não frequentava chamava-se Carriço.
A casa de putas da Madame Carriço ficava na Rua do Ferragial de Baixo, num edifício igual aos outros.
O Fernandinho, certa vez, olhou demoradamente para uma rapariga de dezassete anos, dezassete.
Ou então foi ela que olhou demoradamente para o Fernandinho, não se percebe bem.
O Fernandinho dirigia muitos bilhetes a mulheres casadas.
O biógrafo do Fernandinho é uma besta.
A bela e o monstro.
Federer é o aristocrata. Um cavalheiro e um estilista que parece de facto mais interessado em ser belo do que em sair vencedor. Djokovic é o operário. Dá a impressão que preferiria o ring ao court. Dá a impressão que não está completamente satisfeito com a sua posição de plebeu número um do atp. Joga como quem quer subir na vida.
Os dois realizaram ontem, na poeira solar do court central de Roland Garros, uma espécie de revolução francesa, para entertenimento de alguns milhões de estetas.
O resultado de 6-4, 7-5 e 6-3 - que transporta Djokovic para a sua primeira final de Roland Garros - pode dar a ideia de um encontro dominado pelo Sérvio. Mas os momentos de génio destas meias-finais foram todos do suíço, um autêntico cisne, que vai cantando a sua última canção.
sexta-feira, junho 08, 2012
Polska Circus MMXII
POR MIKE BRAMBLE
O senhor Manuel
José, das inebriantes profundezas da Primavera árabe que já experienciou no
Egipto, surgiu avantajado no alcance a desmoronar a já débil consistência da
selecção nacional de futebol.
Daí derivou um
enormíssimo bruá num país de ineptos, ainda por cima secundado (é o termo
correcto, desculpem-me) por Carlos Queiroz e outros andarilhos do sistema
nacional do futebolês. Porque teve uma reacção ‘inflamada’, tem repetido à
exaustão um jornalista do serviço público pago por todos nós.
Tudo porquê?
Porque o ‘seleccionador’, que nunca o foi nem o será, meteu a faca na ferida.
Sentido de oportunidade não é atributo que se lhe reconheça. Mas daí a
invectivarem o homem, pelo que disse de peito aberto, já me parece desajustado.
Dias antes, ouvi eu um senhor de fato axadrezado-listado a elaborar
libertariamente sobre este mesmo tema. Que o senhor seleccionador actual
deveria tirar o Miguel Veloso e colocar em campo o senhor Custódio. Homessa!
Nessa penada ninguém se importunou... Poderá servir este intróito para as
mentes mais incautas...
Vejo futebol nos
estádios desde a década de 80. Quando chega a este ponto terminal, de decidir o
futuro do rumo da selecção entre o Miguel Veloso e o Custódio, serão,
certamente, as palavras pouco necessárias. À volta será tudo cancerígeno...
Mas eu tenho a
teimosia e a pretensão de insistir. Já alguém se questionou de onde veio, o que
é que fez e o que é que realmente pretende cada um destes excelsos senhores
que, segundo nos apregoam, comandam a selecção nacional? Por exemplo, Fernando
Gomes, presidente da Federação Portuguesa de Futebol, ou o ‘mister’
seleccionador Paulo Bento? Entre outras abencerragens que por ali deambulam há
mais de 25 anos e que nunca são levados à responsabilidade!
Eu sei, estas são
questões que nunca serão respondidas. Até Humberto Coelho, primoroso defesa
central, já entrou na sua zona de conforto. E agora apregoa, disfarçando o
despau-tério, que até gosta de estar “com gente rica”. Deveria mencionar os
‘sponsors’, até por uma questão simples de gratidão. Será que nestes tempos da
ira encoberta já custa dizer patrocinadores?
E acrescenta
Humberto Coelho que sobre a selecção mais cara do Europeu (não são os
contratos, são mesmo a estadia e as alcavalas), é preciso respeito. E que nada
desta alarvidade retira um cêntimo ao bolso dos portugueses. Sim senhor, com esta defesa, vamos longe! E se nos devolvessem, e se
retribuíssem?
Os meus
certíssimos críticos podem acantonar-me num beco sem saída. Que é que isto tem
a ver com futebol? Precisamente nada! Ora aí está: exactamente o que a selecção
tem feito. Ou seja, nada de bola. De bola, dentro da baliza, remato eu! E é aí
que persiste, como diria um extraterrestre avisado, o busílis.
Temos três jogos
para ganhar no circo da Polónia. Numa semana, passámos de 5º para 10º no
‘ranking’ da FIFA, seja o que isso for... Se a selecção nacional é um circo, o
público que tem enchido os estádios, só pode ser um colectivo palhaçóide...
No fim, podemos
sempre [figura de estilo], os 23 da selecção, mais os demais acom-
panhantes, vir de charrete e jantar na Fundação Champalimaud. É o estilo decadente, mas com grande sainete lusitano. Mas, se isto não correr bem, teremos, sempre, pena.
panhantes, vir de charrete e jantar na Fundação Champalimaud. É o estilo decadente, mas com grande sainete lusitano. Mas, se isto não correr bem, teremos, sempre, pena.
Repegando numa
ideia agora divulgava por Carlos Queiroz, poderemos, desta feita, pedir aos
‘sponsors’ que, para a próxima, sorteiem, não só o 23º jogador, mas todos eles,
juntando o selecionador e o presidente da Federação Portuguesa de Futebol.
Pois, que é certo: o sortilégio tem, por voltas, cobertura para proteger os
incompetentes.
Voltarei aqui,
porque esta gente não me dá repouso...
À descoberta do Mestre Delirante de Guimarães.
O Museu Alberto Sampaio, em Guimarães, apresenta por estes dias uma exposição absolutamente bela: "Angelorum. Anjos em Portugal" na qual se contam quase mil anos da representação do anjo na arte pátria. A exposição é muito bem complementada pela expressão contemporânea de Paulo Neves e Catarina Machado. E foi assim, no Sábado à noite (acho que nunca tinha estado num museu depois de jantar - adorei), que a minha ignorância foi um pouco aliviada pelo alegre convívio com o génio do Mestre Delirante de Guimarães. Há um Portugal que resulta, aqui.
quinta-feira, junho 07, 2012
O Estado a que a NASA chegou.
Este post podia muito bem entrar na rubrica Obama Toon Factory. Senão vejamos: desde que a actual administração democrata iniciou o seu desastroso percurso, a NASA tem sido sucessivamente destituída de competências e de financiamento. O encerramento do programa Space Shuttle sem qualquer alternativa em agenda, o despedimento de milhares de funcionários, a irresponsável condução da exploração espacial para o sector privado, a infame politização da actividade da agência, criaram um vazio miserável que trai e corrompe em grande medida o sonho americano.
Aqui há uns dias soube-se que a NRO (National Reconnaissance Office) colocou à disposição da NASA dois telescópios-espiões que são tecnicamente muito superiores ao Hubble e até de manutenção menos onerosa. A Nasa agradeceu a oferta mas fez saber que, pelo menos até 2024 (!), não terá, muito simplesmente, recursos técnicos e financeiros para os recondicionar de forma a que possam servir fins científicos.
Esta é a herança de Barak Obama: um estado gastador, marxista, igualitarista (literalmente anti-americano), mas sem glória, sem ambição, sem a vertente onírica que sempre orientou e inspirou a federação.
Como é que foi possível eleger este homem? E como é que é possível que se considere a sua re-eleição?
Nunca pensei viver o suficiente para testemunhar isto: o império americano em autofagia.
terça-feira, junho 05, 2012
segunda-feira, junho 04, 2012
Jornal de Letras | Janeiro/Junho 2012
Inicio aqui, com 35 anos de atraso, o resgisto das minhas leituras. Como esta nova rubrica não tem compromissos retroactivos (a lista dos livros da minha vida até 2007 pode ser encontrada aqui, aqui e aqui), eis o que li entre Janeiro e Maio deste triste ano de 2012.
A Rainha Vitória - Jacques de Langlade - Publicações Europa América
Uma biografia pobre no estilo e discreta no conteúdo. Levei-a até ao fim porque vinha lançado pela leitura de "Os Três Imperadores" de Miranda Carter, a suculenta história dos três netos de Vitória (Eduardo VII, Guilherme II e Nicolau II) cujas desavenças levaram à eclosão da Primeira Grande Guerra.
No Coração Desta Terra - J. M Coetzee - Publicações Dom Quixote
Relato poderoso, na primeira pessoa, de uma fazendeira sul africana, solitária e sensível, que acaba por assassinar o pai. A critica tratou logo de estabelecer uma relação metafórica entre a protagonista e os negros colonizados e entre o pai dela e os brancos colonizadores, (o fardo do homem branco vem sempre a propósito), mas este romance vai muito para além da idiotia politicamente correcta.
O Corpo Enquanto Arte - Don DeLillo - Relógio d'Água
O meu primeiro livro de Don DeLillo. Não gostei nada. Mas, ainda assim, acredito que o homem tem mais do que isto para oferecer e tenho mais dois ou três romances dele na prateleira das leituras prioritárias.
A Viagem do Elefante - José Saramago - Caminho
Não é o melhor de Saramago, mas a crónica da viagem entre Lisboa e Viena empreendida pelo elefante que D. João III ofereceu ao Arquiduque Maximiliano da Áustria é uma muito simples maravilha.
História da Filosofia - 1º Volume - Dos Pré-Socráticos à Idade Média - Juan Manuel Navarro Cordon e Tomas Calvo Martinez - Edições 70
É a terceira vez que leio esta obra, que revisito desde os tempos de liceu, para combater o esquecimento. Faz-me sempre bem ler filosofia.
O Retorno - Dulce Maria Cardoso - Tinta da Cinha
Bibliotecas Cheias de Fantasmas - Jacques Bonnet - Quetzal
Um livro para quem gosta de livros e tem muitos. A logística das bibliotecas e o labirinto da literatura. Muito bom.
História Natural da Destruição - W. G. Sebald - Teorema
Ainda embalado pelo romance de Vonnegut, deparo-me com este grave conjunto de ensaios de Sebald. No original alemão o livro chama-se Luftkrieg und Literatur (Guerra Aérea e Literatura), título que é eloquente por si só. Sebald dedica-se à tarefa ingrata de se perguntar porque raio é que a literatura germânica do pós-guerra é tão silenciosa no que diz respeito aos bombardeamentos massivos a que foram sujeitas as cidades alemãs no fim da guerra (Dresden, Colónia, Hamburgo, Berlim, etc.). Um livrinho bastante deprimente, que dá que pensar.
A Rainha Vitória - Jacques de Langlade - Publicações Europa América
Uma biografia pobre no estilo e discreta no conteúdo. Levei-a até ao fim porque vinha lançado pela leitura de "Os Três Imperadores" de Miranda Carter, a suculenta história dos três netos de Vitória (Eduardo VII, Guilherme II e Nicolau II) cujas desavenças levaram à eclosão da Primeira Grande Guerra.
No Coração Desta Terra - J. M Coetzee - Publicações Dom Quixote
Relato poderoso, na primeira pessoa, de uma fazendeira sul africana, solitária e sensível, que acaba por assassinar o pai. A critica tratou logo de estabelecer uma relação metafórica entre a protagonista e os negros colonizados e entre o pai dela e os brancos colonizadores, (o fardo do homem branco vem sempre a propósito), mas este romance vai muito para além da idiotia politicamente correcta.
O Corpo Enquanto Arte - Don DeLillo - Relógio d'Água
O meu primeiro livro de Don DeLillo. Não gostei nada. Mas, ainda assim, acredito que o homem tem mais do que isto para oferecer e tenho mais dois ou três romances dele na prateleira das leituras prioritárias.
A Viagem do Elefante - José Saramago - Caminho
Não é o melhor de Saramago, mas a crónica da viagem entre Lisboa e Viena empreendida pelo elefante que D. João III ofereceu ao Arquiduque Maximiliano da Áustria é uma muito simples maravilha.
História da Filosofia - 1º Volume - Dos Pré-Socráticos à Idade Média - Juan Manuel Navarro Cordon e Tomas Calvo Martinez - Edições 70
É a terceira vez que leio esta obra, que revisito desde os tempos de liceu, para combater o esquecimento. Faz-me sempre bem ler filosofia.
O Retorno - Dulce Maria Cardoso - Tinta da Cinha
Uma arrepiante narrativa sobre um tema tabu da Terceira República: o regresso a Portugal, forçado e caótico e humilhante, de meio milhão de portugueses, decorrente do processo de descolonização que se seguiu ao 25 de Abril. O melhor romance em língua portuguesa que li nos últimos anos. Inspirador.
Matadouro Cinco - Kurt Vonnegut - Bertrand Editora
A genial historieta de Billy Pilgrim, testemunha do pesadelo de Dresden, cobaia de extraterrestres e próspero optometrista. Um romance num milhão.Matadouro Cinco - Kurt Vonnegut - Bertrand Editora
Bibliotecas Cheias de Fantasmas - Jacques Bonnet - Quetzal
Um livro para quem gosta de livros e tem muitos. A logística das bibliotecas e o labirinto da literatura. Muito bom.
História Natural da Destruição - W. G. Sebald - Teorema
Ainda embalado pelo romance de Vonnegut, deparo-me com este grave conjunto de ensaios de Sebald. No original alemão o livro chama-se Luftkrieg und Literatur (Guerra Aérea e Literatura), título que é eloquente por si só. Sebald dedica-se à tarefa ingrata de se perguntar porque raio é que a literatura germânica do pós-guerra é tão silenciosa no que diz respeito aos bombardeamentos massivos a que foram sujeitas as cidades alemãs no fim da guerra (Dresden, Colónia, Hamburgo, Berlim, etc.). Um livrinho bastante deprimente, que dá que pensar.
quinta-feira, maio 31, 2012
Não há pai para o cavalcanti, filho.
Estou a ler uma biografia, outra, do Fernando Pessoa. É escrita por um brasileiro, o que é pena, mas o homem até tem a decência de não ter um estilo. É uma espécie de ghost writer porque tem, ao invés, a pretensão de estar a escrever uma auto-biografia, com aspas por todo o lado. Ora se o Fernandinho não escreveu uma foi porque não quis (de certeza que não foi por preguiça). Portanto, o senhor autor brasileiro cavalcanti, que está sempre aflitinho para apequenar Portugal na sua biografia que - ele acha - podia ter sido escrita pelo biografado, devia estar quieto ou escrever a biografia de um poeta brasileiro, ou angolano, ou cabo verdiano ou madeirense ou assim. O senhor cavalcanti, filho, devia abster-se de ter pretensões, mas - apesar de tudo - sigo com a leitura para a frente. E estou a aprender algumas coisas - é verdade. Estou a aprender que o Fernandinho tinha medo de trovoadas e só vestia no melhor alfaiate do Chiado, a 200 escudos o fato. Estou a aprender que o Fernandinho fumava deveras e encenava brincadeiras, com as sobrinhas. Estou a aprender que o Fernandinho tinha para cima de 300 selos, em colecção. Estou a aprender que o Fernandinho usava lentes finas, quando a miopia exigia fundos de garrafa, porque era um vaidoso dos olhos. Estou a aprender que o Fernandinho era muitíssimo educado, um cavalheiro, até. Estou a aprender uma série exaustiva de detalhes importantes e impressionantes sobre o Fernandinho. Deve ser por causa deste rol interminável de informações luminosas e profundas sobre a vida e a essência ontológica do imortal poeta que o senhor josé carlos de vasconcelos vai ao ponto de escrever em prefácio que esta é uma obra literária (por oposição a uma lista de compras) monumental absolutamente extraordinária invulgar original consistente e apaixonada.
Agora sou eu que sei perfeitamente o que diria o Fernandinho perante a obra literária do senhor cavalcanti, filho, consultor da Unesco e do Banco Mundial, ex-ministro e reputadíssimo homem de leis no Recife: "ora bolas para a gente ter que aturar isto!"
terça-feira, maio 29, 2012
Adeus Doutor.
Esperto como o raio, por ideias e actos
És o Ulisses do corpo humano;
O campeão da verdade dos factos
No hospital catedral do engano.
És o tipo de gajo que é capaz
De contar anedotas num velório.
E enquanto desdenhas da morte voraz,
Desafias Deus no bloco operatório.
Toda a gente mente mas tu acertas, tu não recuas.
Adeus Doutor, vou ter saudades tuas.
Adeus Doutor, vou ter saudades tuas.
És são de cabeça, não desiludes o diabo
Nem hesitas perante os dilemas da ética:
Limitas-te a escolher entre a tv por cabo
E a ressonância magnética.
Curas à distância, tratas à bengalada
E resolves a dor com drogas duras.
És o coxo mais elegante na manada
Do romance de aventuras.
Foste até de cana não por uma estadia, mas por duas.
Adeus Doutor, vou ter saudades tuas.
Adeus Doutor, vou ter saudades tuas.
Tens um amigo só, e é ofício de monge
Aturar o Wilson por cento e oitenta episódios.
Devo-te dizer que prefiro de longe
Às tua amizades, os teus ódios.
Gostas de putas e de rock sinfónico,
Tocas piano e falas mandarim.
És mais sofista que platónico
E encontras agora, por hora, o teu fim.
Motard do apocalipse, mestre zen de capicuas.
Adeus Doutor, vou ter saudades tuas.
Adeus Doutor, vou ter saudades tuas.
Monster trucks, boxe e pornografia,
Um diagnóstico diferencial por semana.
E coragem para tirar uma ecografia
Às profundezas da alma humana.
Gostas de tele-novelas e de rock sinfónico,
Tocas guitarra e arranhas japonês.
A tua prática heroica é um santo tónico
que alivia as dores da estupidez.
Sê fiel a ti próprio que no Inferno há gajas nuas.
Adeus Doutor, vou ter saudades tuas.
Adeus Doutor, vou ter saudades tuas.
Esperto como o raio, lúcido como Pilatos,
És um Hipócrates de laboratório;
O campeão da verdade dos factos
No hospital-catedral do teu consultório.
És um género de génio sem causa
uma espécie de rebelde no purgatório.
Mas enquanto Deus faz uma pausa,
salvas vidas no bloco operatório.
Toda a gente mente, mas é à verdade que nos habituas.
Adeus Doutor, vou ter saudades tuas.
Foste dentro e não por uma vez, maluco, mas por duas.
Adeus Doutor, vou ter saudades tuas.
Motard intoxicado pelo desenho estupefaciente das ruas.
Adeus Doutor, vou ter saudades tuas.
Uma coisa é certa: no inferno há gajas nuas.
Adeus Doutor, vou ter saudades tuas.
Adeus Doutor, vou ter saudades tuas.
Adeus Doutor, vou ter saudades tuas.
segunda-feira, maio 21, 2012
45 rotações por minuto.
Dou voltas e voltas ao sol,
já são quarenta e cinco, com esta.
Não deixo rasto nem prole,
dou voltas e voltas ao sol,
numa órbita funesta.
Giro e viro e rodo rotativo
sobre mim mesmo, em elipse.
Repito o trajecto de ser vivo,
giro e viro e rodo rotativo
até ao virar do apocalipse.
Dou voltas e voltas ao sol
já são quarenta e cinco, redondas.
Nesta espiral sem controle,
dou voltas e voltas ao sol,
e oscilo no vórtice das ondas.
Giro e viro e rodo repetitivo
mais uma vez e outra vez ainda.
Volto ao movimento cativo,
giro e viro e rodo repetitivo,
numa órbita desavinda.
Dou voltas e voltas ao sol,
já são quarenta e cinco, com esta.
Não deixo marca nem prole,
mas rodarei em volta do sol
pelo tempo que me resta.
Giro e viro e rodo rotativo
sobre o eixo da luz e do eclipse.
Repito o movimento primitivo,
giro e viro e rodo e vivo
até ao virar do apocalipse.
sexta-feira, maio 18, 2012
Para o que lhe havia de dar.
quinta-feira, maio 17, 2012
Arquitectura Instantânea: 30 pisos em 15 dias.
Não estou geralmente do lado da indústria chinesa, mas isto aqui agrada-me deveras: com engenho, arte, módulos pré-fabricados e gente a trabalhar 24 horas por dia, a empresa chinesa Broad Group levantou um prédio de 30 pisos em duas semaninhas apenas.
O hotel, construído na província de Hunan, na China, no passado mês de Dezembro, tem 17 mil metros quadrados e, segundo a Academia Chinesa de Investigação em Edifícios, o imóvel está preparado para resistir a terramotos de magnitude 9 na escala de Richter, proeza conseguida graças à estrutura diagonal, baixo peso e construção em aço.
E é assim, como diria Kurt Vonnegut, que se percebe a vitalidade tecnológica e económica de uma nação. E é assim que o Ocidente vai perdendo a corrida das civilizações. Enquanto os gregos votam para ir à falência, os franceses fingem que têm pena dos gregos, os alemães tentam desastradamente segurar o que sobra da economia europeia, os americanos discutem o casamento dos homossexuais e os portugueses (alguns) assinam manifestos pela justiça social e pelo retorno da boa vida sem esforço, os chineses constroem arranha-céus ao minuto.
30 andares em 15 dias. E é assim.
sexta-feira, maio 04, 2012
Uma fita no labirinto.
Para que a vida de um pacato proprietário de uma loja de ferragens em Buenos Aires faça algum sentido, terá que cair uma vaca do céu, algures na China. Atrevo-me a supor que "Un Cuento Chino", de Sebastián Borensztein, é um filme de que Jorge Luis Borges gostaria bastante. Pela minha parte, posso dizer apenas que é um prodigioso bocadinho de cinema.
Todos contra todos.
"The condition of man is a condition of war of everyone against everyone."
Thomas Hobbes, Leviathan - 1651
Enquanto tentava enfiar as subtilezas da cultura helénica
Na cabeçorra de Alexandre (tarefa ingrata e esforço monumental),
Aristóteles saiu-se com esta máxima de retalho:
"O homem é um ser eminentemente social."
Eminentemente social, o caralho!
Tenho até a certeza que o velho mestre de Estagira
Não desejaria ficar preso à posteridade por uma nota de rodapé
Na folha digital de Mark Zuckerberg do século quarenta e um.
Convenhamos, os gregos não bebiam café
E na altura em que disse o que disse Aristóteles precisava dum.
Quanto ao lamechas do Rosseau, o homem só nasce bom na imaginação
Deste palerma, de resto é nado condenado ao inferno da sua intestina inquietude
E ao inverno que faz cá fora.
E se é a sociedade que corrompe no individuo a sua genética virtude,
Não me parece sã solução guilhotinar dez aristocratas por hora.
E que dizer de Voltaire, que já sabia muito bem que não vivemos
No melhor dos mundos possíveis e muito pelo contrário
(Anexo o terramoto de Lisboa e respectivas tabelas de mortandade),
E mesmo assim era um fraco, era um ordinário,
E mesmo assim era um parvo pela humanidade.
Por estas e por outras é que ficou a sociologia infectada
De filhos da puta como Marx e Proudhon,
Tão preocupados com o bem estar de operários e carpinteiros
Que se esqueceram do que o capitalismo tem de bom:
Tampões para as senhoras e mercedes para os cavalheiros.
Eu cá prefiro o pensamento do grande Thomas Hobbes,
Que postulou: o homem é o lobo do homem e este é o império do medo.
Por isso, o melhor é preparar o monarca para o conservatório
Da tirania esclarecida, porque mais tarde ou mais cedo
A revolução cairá nas mãos de um Robespierre aleatório.
Eu cá prefiro, mas de longe, a prosápia do Max Stirner,
Que mandou o socialismo para as urtigas
E que escreveu em vez disso,
Com o espírito de quem despede certezas antigas,
Que o homem tem na propriedade do eu o seu único compromisso.
E mais não digo, que tudo o que sei é produto
Da ignorância que se levanta.
Mas uma certeza tenho, ainda que na verdade não acerte:
A vida é uma guerra santa
De todos contra todos enquanto o diabo se diverte.
sexta-feira, abril 27, 2012
segunda-feira, abril 23, 2012
Titanic
Em caso de emergência, há que aceitar o caos.
É esquecer os heróis que não há e arranjar rapidamente um lugar na barca dos maus
Da fita.
Na ausência do colete salva-vidas, conhaque há-de servir muito bem
E não adianta chamar pela mãe
Que ficou em Londres, meia orgulhosa, meia aflita.
Mais cedo ou mais tarde, o naufrágio sempre acontece
E precisamente quando não há maneira de emitir uma merda de um SOS,
Que a sorte é maldita.
O melhor é ir preparado com um poema do Álvaro de Campos e uma camisola
De lã. Não vale a pena ir para o inferno com ideias de esmola
E cara bonita.
Em caso de emergência, há que aceitar o longe e a distância,
E, sobretudo, renegar a ambulância,
Não vá o barulho das sirenes acordar o diabo, que dormita.
No próximo icebergue saimos para as vantagens de um mergulho em pelo:
Nem o whisky precisa de gelo,
Nem o Willy se arrebita.
Acima de tudo, evitar o fútil pânico: se o bote mete água por todo o lado,
Não há remédio senão atravessar a nado
O Atlântico que se agita.
É esquecer os heróis que não há e arranjar rapidamente um lugar na barca dos maus
Da fita.
Na ausência do colete salva-vidas, conhaque há-de servir muito bem
E não adianta chamar pela mãe
Que ficou em Londres, meia orgulhosa, meia aflita.
Mais cedo ou mais tarde, o naufrágio sempre acontece
E precisamente quando não há maneira de emitir uma merda de um SOS,
Que a sorte é maldita.
O melhor é ir preparado com um poema do Álvaro de Campos e uma camisola
De lã. Não vale a pena ir para o inferno com ideias de esmola
E cara bonita.
Em caso de emergência, há que aceitar o longe e a distância,
E, sobretudo, renegar a ambulância,
Não vá o barulho das sirenes acordar o diabo, que dormita.
No próximo icebergue saimos para as vantagens de um mergulho em pelo:
Nem o whisky precisa de gelo,
Nem o Willy se arrebita.
Acima de tudo, evitar o fútil pânico: se o bote mete água por todo o lado,
Não há remédio senão atravessar a nado
O Atlântico que se agita.
domingo, abril 08, 2012
sábado, abril 07, 2012
Do fundo do tempo, sai um poema.
Vamos morrer esta noite.
Nós, os impotentes, os alienados, os marginais da cidade utópica, vamos morrer esta noite.
Nós, os ousados da poesia, os intrépidos da filosofia, os protagonistas dos pesadelos dos outros; nós, os alquimistas do ferro e do fogo, vamos, em gloriosa senda suicida, morrer como morrem os deuses, serenamente, esta noite.
Nós, os corsários ontológicos do cosmos, os astronautas do lodo psicológico do homem, nós, os únicos filhos da puta verdadeiramente salvos perante os céus, vamos ébrios, vamos nus, de pila ao léu e saltitante, em escândalo e escárnio, morrer esta noite.
Nós, os bandidos da literatura, os carrascos da utopia, os coveiros da inocência, os inventores da discórdia; nós, os infames, os indignos, os loucos furiosos, os perversos, vamos morrer esta noite.
Nós, os anti-cristos, os zaratustras, os super-homens ao contrário, os larápios da calúnia, os escroques da inteligência, os impiedosos profetas da desgraça; nós, os intelectuais do esgoto; nós, os vampiros do sangue das palavras, nós, os que queimamos bandeiras com o lança chamas da mais absoluta descrença, vamos cansados, vamos vencidos, morrer de ódio esta noite.
Antes que a bruma do tempo nos devore os ideais zero e que os uivos da populaça nos calem o grito vácuo, antes que a sirene do Apocalipse cumpra o seu serviço de cinzas e nos roube a determinação de cessar por cessar, vamos, sem medo e sem esperança, sem hinos e sem fados, morrer esta noite.
Nós, os que vamos velozes pela estrada sem fim do des-sentido; nós, os que não temos medo da próxima curva; nós, que forçamos as esporas no lombo do cavalo de Satanás; nós, os mais rápidos pederastas do universo e os chulos da insanidade à velocidade da luz; nós, os príncipes valentes do reino da má vontade, vamos morrer esta noite na maior praça da cidade.
- 1985 -
Nós, os impotentes, os alienados, os marginais da cidade utópica, vamos morrer esta noite.
Nós, os ousados da poesia, os intrépidos da filosofia, os protagonistas dos pesadelos dos outros; nós, os alquimistas do ferro e do fogo, vamos, em gloriosa senda suicida, morrer como morrem os deuses, serenamente, esta noite.
Nós, os corsários ontológicos do cosmos, os astronautas do lodo psicológico do homem, nós, os únicos filhos da puta verdadeiramente salvos perante os céus, vamos ébrios, vamos nus, de pila ao léu e saltitante, em escândalo e escárnio, morrer esta noite.
Nós, os bandidos da literatura, os carrascos da utopia, os coveiros da inocência, os inventores da discórdia; nós, os infames, os indignos, os loucos furiosos, os perversos, vamos morrer esta noite.
Nós, os anti-cristos, os zaratustras, os super-homens ao contrário, os larápios da calúnia, os escroques da inteligência, os impiedosos profetas da desgraça; nós, os intelectuais do esgoto; nós, os vampiros do sangue das palavras, nós, os que queimamos bandeiras com o lança chamas da mais absoluta descrença, vamos cansados, vamos vencidos, morrer de ódio esta noite.
Antes que a bruma do tempo nos devore os ideais zero e que os uivos da populaça nos calem o grito vácuo, antes que a sirene do Apocalipse cumpra o seu serviço de cinzas e nos roube a determinação de cessar por cessar, vamos, sem medo e sem esperança, sem hinos e sem fados, morrer esta noite.
Nós, os que vamos velozes pela estrada sem fim do des-sentido; nós, os que não temos medo da próxima curva; nós, que forçamos as esporas no lombo do cavalo de Satanás; nós, os mais rápidos pederastas do universo e os chulos da insanidade à velocidade da luz; nós, os príncipes valentes do reino da má vontade, vamos morrer esta noite na maior praça da cidade.
- 1985 -
domingo, março 18, 2012
O Fogo de Santo Anselmo ou Sunset Limited.
"Logo existe, sem dúvida, no entendimento e na realidade, algo maior do que o qual nada se pode pensar."
Santo Anselmo (1033/34-1109). Conclusão do Argumento Ontológico. Proslogion, c. II
Jantava ontem na companhia de, entre outros ilustres, alguns comensais de formação em ciências, quando um destes cavalheiros se sai com o seu definitivo argumento ontológico em favor da inexistência de Deus: se Ele existisse como entidade omnipotente, facilmente cairia na armadilha de produzir algo superior às suas forças, digamos, um calhau de tal forma imenso que Ele próprio não o poderia suportar. Perdido assim o super-poder da omnipotência (deixou Deus de ser potente sobre o calhau), está também perdido por simples cálculo de lógica o estatuto divino, sobrando o trono cósmico para algo superior a Ele, digamos, o calhau imenso.
Estava eu muito divertido a apreciar o espírito deste companheiro, quando me lembro de Anselmo de Cantuária, o grande pioneiro e fundador dos argumentos ontológicos. Empenhado em demonstrar racionalmente a existência de Deus, o bom e velho santo postulou assim: Deus existe porque não conseguimos imaginar nada superior a Deus. Se conseguíssemos pensar em algo superior a Deus, essa nova realidade intelectual seria por definição a entidade divina e assim sucessivamente. Ora, se isto se passa no entendimento é possível, apenas possível, que se passe também na realidade. Escusado será dizer então que Deus existe para manter o campo de possibilidades dentro de uma constante estável, de tal forma que a realidade não entre em parafuso.
Convenhamos que isto está carregadinho de bruxaria quântica por todo o lado e não é por acaso que o célebre arcebispo de Cantuária era um pensador da escola de Santo Agostinho e que este era um platónico dos quatro costados e que Heisenberg afirmou um dia que as conclusões da física contemporânea se aproximam mais dos postulados de Platão de que dos cálculos de Aristóteles (o que é bastante assustador).
Nem é por mera coincidência que Kurt Gödel - provavelmente o mais genial matemático do Século XX - tenha dedicado uma boa parte da sua vida a tentar demonstrar a impossibilidade de uma explicação plausível da realidade que não leve Deus em conta.
Os argumentos ontológicos constituem quase sempre excelentes refeições para físicos e matemáticos e é por isso que o ateu de espírito, professor emérito, estimado comensal que na mesa onde me sentava divertia a sua plateia burguesa, usa precisamente a mesma aritmética radical de Santo Anselmo, para estar em desacordo com ele.
Nem é por mera coincidência que Kurt Gödel - provavelmente o mais genial matemático do Século XX - tenha dedicado uma boa parte da sua vida a tentar demonstrar a impossibilidade de uma explicação plausível da realidade que não leve Deus em conta.
Os argumentos ontológicos constituem quase sempre excelentes refeições para físicos e matemáticos e é por isso que o ateu de espírito, professor emérito, estimado comensal que na mesa onde me sentava divertia a sua plateia burguesa, usa precisamente a mesma aritmética radical de Santo Anselmo, para estar em desacordo com ele.
Porém, parece-me claramente escandaloso que nenhum dos ilustres acima referidos se aperceba do elefante cor de rosa que está sentado com jeitos de buda no brilhante salão desta conversa: Deus existe, claro que sim e muito simplesmente porque não é possível ao homem suportar o peso da Sua inexistência.
Deus existe no intelecto humano - é um facto - e deriva exclusivamente da ignorância manifesta pelo homem perante os mistérios naturais e perante o abismo filosófico que está montado na sua consciência.
Mas para que Deus seja real, não pode ser apenas um conceito mental, ou um reflexo intuitivo. Terá que ser imanente na realidade e transcendente sobre as teologias. Deus, a existir, é imune a tratados escolásticos, teoremas da incompletude, metáforas de restaurante e dialécticas de sacristia. E, assim sendo, parece-me muito provável que se esteja completamente nas tintas para o dramalhão que é a história da humanidade e para os dilemas metafísicos da alma. Quero eu dizer, a existir Deus, a sua imanência não nos servirá rigorosamente para nada. Não há qualquer evidência na história ou na natureza que demonstre que somos os filhos eleitos seja de quem for e, a sermos filhos de alguém, é apenas sensato dizer que o criador não parece estar muito preocupado com o destino dos criados.
Em conclusão, podemos afirmar com alguma segurança que Deus existe como objecto intelectual de consolação. Afirmar mais do que isto torna-se um jogo muito perigoso, para crentes tanto como para ateus. Um jogo que estamos condenados a perder, mesmo com um poker de sábios - ou de santos - na mão.
Nesta cena épica, escrita por Cormac Mccarthy e interpretada por Tommy Lee Jones e Samuel Jackson, o ateu procura arrasar a fé do crente com uma explosão de argumentos ontológicos. A sua Crítica da Razão Prática é eloquente. Mas a Razão Pura não lhe deixa alternativas para além do suicídio. O crente, por outro lado, abraça as dores da vida com sentido de missão e continuará lá amanhã, na estação ferroviária da esperança, pronto para salvar uma outra alma perdida das garras locomotoras do Sunset Limited. Mas sofrerá na mesma a indignidade da existência. E será igualmente vítima da solidão extrema a que o condenou Jesus Cristo.
The Sunset Limited - Dir.: Tommy Lee Jones
Nesta cena épica, escrita por Cormac Mccarthy e interpretada por Tommy Lee Jones e Samuel Jackson, o ateu procura arrasar a fé do crente com uma explosão de argumentos ontológicos. A sua Crítica da Razão Prática é eloquente. Mas a Razão Pura não lhe deixa alternativas para além do suicídio. O crente, por outro lado, abraça as dores da vida com sentido de missão e continuará lá amanhã, na estação ferroviária da esperança, pronto para salvar uma outra alma perdida das garras locomotoras do Sunset Limited. Mas sofrerá na mesma a indignidade da existência. E será igualmente vítima da solidão extrema a que o condenou Jesus Cristo.
The Sunset Limited - Dir.: Tommy Lee Jones
sexta-feira, março 02, 2012
The New Stuttgart City Library - Germany
"I have always imagined that Paradise will be a kind of library."
Jorge Luis Borges
Korean architect Eun Young Yi’s proposal was selected in 1999 from 235 competition entries as the plan for the new central library of the City of Stuttgart.
The building of the 80-million Euro (about $108 mil. US) Stadtbibliothek am Mailänder Platz began three years ago and the opening ceremonies took place last month.
Yi has created a monolithic cube with two floors underground and nine above. Essentially all of the building, both inside and out is white. The main library floors circle an open-plan with the levels connected by open staircases. Books line the outer walls of each floor.
As a cool nod to the fact that the building is a storehouse of words, the word “library” is installed in four languages on the outside walls. On the North wall in German (the local language), West in English (lingua franca), South in Arabic (the language of ancient knowledge and of Stuttgart’s sister city, Cairo) and East in Korean (Yi’s native language).
Yi’s company, Yi Architects is based in Cologne and Seoul. Its work includes public projects ranging from museums and universities to offices and city plans.
Fonte: The Cool Hunter
Jorge Luis Borges
Korean architect Eun Young Yi’s proposal was selected in 1999 from 235 competition entries as the plan for the new central library of the City of Stuttgart.
The building of the 80-million Euro (about $108 mil. US) Stadtbibliothek am Mailänder Platz began three years ago and the opening ceremonies took place last month.
Yi has created a monolithic cube with two floors underground and nine above. Essentially all of the building, both inside and out is white. The main library floors circle an open-plan with the levels connected by open staircases. Books line the outer walls of each floor.
As a cool nod to the fact that the building is a storehouse of words, the word “library” is installed in four languages on the outside walls. On the North wall in German (the local language), West in English (lingua franca), South in Arabic (the language of ancient knowledge and of Stuttgart’s sister city, Cairo) and East in Korean (Yi’s native language).
Yi’s company, Yi Architects is based in Cologne and Seoul. Its work includes public projects ranging from museums and universities to offices and city plans.
Fonte: The Cool Hunter
terça-feira, fevereiro 28, 2012
sábado, fevereiro 25, 2012
Tintin meets Indiana Jones ou o Segredo do Licorne segundo Steven Spielberg.
O génio de Hergé sempre foi muito mal tratado pela indústria audiovisual, e eu nem sou, à partida, um fan incondicional de filmes de animação, mas esta malha do mestre Spielberg deixou-me completamente siderado. Um fita de aventuras a sério, para a posteridade. Como é para a posteridade quase tudo o que faz Steven Spielberg.
Subscrever:
Mensagens (Atom)





















