I – Tantas páginas em branco e tão pouco tempo.
Fernando Pessoa. Nascido a 13 de Junho de 1888, morrido a 30 de
Novembro de 1935. Tendo vivido, assim, 47 anos, 5 meses e 17 dias,
criou, nesse lapso, qualquer coisa como cerca de 130 autores fictícios
(1). Dezenas desses autores fictícios deixaram obra que chegue para
ocupar as academias de todo o mundo com séculos de pós-graduações,
mestrados e doutoramentos. A sua vasta, complexa e inspirada obra
heteronímica não tem paralelo na história da literatura universal, mas
apenas como hortónimo já é o poeta mais importante do século XX
português, rivalizando com Camões para o título nacional absoluto. A
obra que Pessoa construiu no breve percurso da sua existência não está
ainda, 80 anos depois da sua morte, inteiramente publicada. Inteiramente
estudada. Inteiramente lida. A célebre arca não parece ter um fundo e o
bom do
Virgem Negra, para além do poeta-milagre que foi,
também foi editor, dramaturgo, novelista, crítico literário, ensaísta,
filósofo, politólogo e economista, tendo deixado à posteridade
incontável obra sobre uma imensa pluralidade de temas, em português,
inglês e francês.
Para além desta carga de trabalhos, o poeta da “Mensagem” escrevia
cartas como se não houvesse amanhã. Correspondia-se com Mário de Sá
Carneiro, com Jorge Luís Borges, com Adolfo Casais Monteiro, com Gaspar
Simões (que viria a ser o seu primeiro editor e biógrafo), com António
Botto, com Jaime Cortesão, com José Régio, com Camilo Pessanha, com
Almada Negreiros, com Santa Rita Pintor, com os directores dos jornais
que o irritavam e com os directores dos jornais que não o irritavam, com
os seus professores de Durban, com astrólogos de Londres, com
psiquiatras de Paris, com editores em toda a parte, com a Ofélia
(correspondia-se imenso com a Ofélia!) e com mais uma quantidade
inquietante de gente, só para falar das cartas que enviou, porque
entretanto escreveu muitas que se esqueceu de levar aos serviços
postais. O Fernando era aquele tipo de sujeito educado que mandava uma
carta só para avisar que ia chegar meia hora atrasado (2).
A somar a esta quantidade devastadora de cartas assinadas com nome
próprio, também criou bastante correspondência em nome de autores
fictícios e heteronímicos. Umas vezes escreviam uns para os outros,
outras vezes escreviam para gente de carne e osso e, outras ainda,
escreviam para personagens imaginários, criados para efeitos meramente
cenográficos fora do âmbito da criação literária (talvez a mais
prodigiosa carta de amor jamais escrita na língua portuguesa é aquela
que a Corcunda escreve ao Serralheiro).
Como eminência parda do modernismo português e co-fundador da Orpheu,
Fernando Pessoa produzia com regularidade, em seu nome e em nome da
multidão que o habitava, uma variedade enorme de conteúdos para os media
da altura (manifestos, textos de intervenção política e social, poemas,
ensaios, etc., etc.) e, claro, sempre sobre os assuntos mais díspares
que podemos imaginar. Alguns destes textos são de grande fôlego
literário e dizem-nos muito sobre o Modernismo português em geral e o
pensamento do autor em particular. Só Álvaro de Campos escreveu dois dos
manifestos mais espectaculares já registados pela história da
literatura portuguesa:
Aviso por Causa da Moral e
Ultimatum.
Como a sua caligrafia, também a sua pena era perfeitamente
transversal. Até um roteiro de Lisboa em Inglês, o senhor se lembrou de
escrever (para ser editado apenas em 1992) (3).
Pessoa com costa Brochado, a beber... café.
II – Actividades curriculares e extra-curriculares
Pessoa era, também e por isso mesmo, um estudioso obsessivo. Erudito
em autores tão diversos como Shakespeare, Edgar Allan Poe, John Milton,
Lord Byron, John Keats, Percy Shelley, Alfred Tennyson, Baudelaire,
Camões, Cesário Verde, Padre António Vieira e… Bandarra; refundador do
mito do Quinto Império, zeloso leitor de filósofos clássicos e modernos,
astrólogo amador, filatelista até um certo ponto, ocultista perito e
conhecedor profundo das ciências e das artes do seu tempo, o santo homem
teve que ler por ele e, no mínimo, por mais uma mão cheia de tipos que
viajavam dentro dele (a sua biblioteca está cheia de edições assinadas
por autores fictícios e heteronímicos). Mais a mais, é imperativo
acrescentar a esta equação o deprimente facto de que Pessoa sempre
precisou de trabalhar para ganhar a vida. Com esse fim, foi
correspondente comercial a tempo inteiro, na maior parte da sua
existência adulta, e tradutor, jornalista e publicitário em
part-time.
Por cima disto tudo, e para concluir esta muito extensa lista de
afazeres, sabe-se que era um tio dedicado e um daqueles solteirões que
têm um jeito meio irritante com as crianças, não regateando o tempo que
consumia com elas em brincadeiras, charadas e jogos mímicos (4).
Fernando Pessoa descendo o Chiado sem trocar o passo.
III – Velocidade furiosa.
Se o prezado leitor ficou enfartado com os dois primeiros tragos
deste ensaio, tem boas razões para isso. A vida e a obra de Fernando
Pessoa resultam necessariamente num ataque cardíaco, dada a azáfama
danada e exaustiva. Como é que o santo homem teve tempo para tudo isto?
É verdade que Pessoa é conhecido pelos seus episódios de criatividade
frenética e velocista,dos quais o mais conhecido – e lendário – é o da
Noite Triunfal
de 8 de Março de 1914, em que redige de uma assentada os 49 poemas que
cumprem “O Guardador de Rebanhos”, do mestre Caeiro (5). Mas ainda
assim, só um sujeito altamente disciplinado, fortemente determinado e
tendencialmente sóbrio é que consegue produzir toda esta quantidade
delirante de obras primas, entre outras papeladas.
Ora, é precisamente neste ponto que a versão oficial dos biógrafos do
insigne poeta não faz sentido nenhum. É que, de uma maneira geral, de
Robert Bréchon a Cavalcanti Filho, todos constroem a imagem de uma
figura diletante, melancólica e anémica, quase preguiçosa, que se
arrasta entre o Martinho e o Chiado, numa ociosidade ébria. Gaspar
Simões, que o conheceu muito bem em vida, é, curiosamente, o mais
prudente nas alegações sobre os hábitos de consumo de bebidas alcoólicas
do seu amigo (6), mas o alcoolismo é uma referência constante nos
estudos biográficos que lhe são dedicados. Cavalcanti Filho chega a
enumerar, na sua recente biografia-tipo-lista-de-compras, todos os
vinhos e espirituosos que Pessoa emborcava, segundo o autor brasileiro,
em quantidades industriais (7).
Pois bem, entre o copo de vinho aqui, a aguardente ali, a justa
ressaca, o namorar da Ofélia, o deambular parasita pelas ruas da Baixa e
o necessário cumprimento das obrigações profissionais, é pertinente
perguntar sobre o elefante verde que está sentado no sofá magenta desta
sala de espera: então e quando é que o Fernando Pessoa está a escrever,
afinal?
No Martinho da Arcada, entre amigos e cervejas.
IV – Da tasca ao opiário.
Como o Sócrates de Platão, o autor da Tabacaria nunca se dá por
bêbado. Segundo os seus biógrafos, aguenta bem o álcool. Bebe, bebe,
bebe, mas vai direitinho pela Rua do Carmo a baixo. Ninguém o vê trocar o
passo. Não se lhe conhece uma infâmia por mau vinho, nem uma gritaria
de taberna. Esta estoicidade do poeta perante a influência da bebida é
bastante conveniente para a sua reputação de seca adegas, embora na
verdade se saiba que os alcoólatras são os primeiros a cederem ao poder
etílico, na medida em que têm permanentemente um nível de álcool muito
elevado no sangue.
O Absinto é outro dos assuntos preferidos dos biógrafos e pseudo-biógrafos do génio da
Ode Triunfal.
É impossível saber se o paciente leitor tem ideia do que falamos quando
falamos de uma bebedeira de Absinto, mas é algo de muito pouco
recomendável. A bebida, destilada da planta medicinal que lhe dá o nome,
é altamente aditiva e tem poderes alucinogénios. É talvez a beberagem
alcoólica mais parecida com uma droga dura que podemos imaginar.
Para se perceber o poder destrutivo do absinto, basta revisitar as
aflições que do seu consumo resultaram em personagens como Charles
Baudelaire, Paul Verlaine, Arthur Rimbaud, Van Gogh, Oscar Wilde, Henri
de Toulouse-Lautrec e Edgar Allan Poe. Uma boa geração de
impressionistas da Belle Époque foram criativamente anulados pelo vício
do Absinto. Consumida em excesso, esta não é uma bebida que permita a
funcionalidade social ou intelectual e não se percebe, mais uma vez,
como é que Fernando Pessoa podia abusar regularmente do Absinto e manter
a proficiência lírica e ensaística no seu regular nível olímpico.
Para piorar ainda mais as coisas, nas últimas décadas tem pegado
muito a conversa de que Pessoa se dedicava ao consumo do ópio. Esta tese
é ainda mais radical, já que o ópio é uma droga que exige e implica
largos períodos de letargia, agravando ainda mais a escassez de tempo
dedicado à escrita na agenda do poeta. Sim é verdade: Pessoa escreveu
que “tomava” ópio. Sim, é verdade: escreveu que o vinho é o melhor da
vida. Mas estamos a falar do mais fingidor dos poetas alguma vez
paridos. Álvaro de Campos, por exemplo, projectava navios enquanto se
embriagava, se drogava loucamente e fazia sexo com máquinas. Lá no mundo
imaginário de Álvaro de Campos, claro. Ricardo Reis deliciou-se com as
prostitutas de Lisboa e Bernardo Soares era um amante impetuoso,
lascivo e competente, que deixava a balzaquiana Olga exaurida de
prazeres (8). Apesar disto, há muita gente mais ou menos respeitável que
acredita que Fernando Pessoa morreu virgem (4,7).
Sim, é verdade: o homem visitava tabernas, casas de pasto, botequins.
Sim, bebia uns copos sózinho ou na companhia boémia dos modernistas com
que se dava. Sim, embriagava-se normalmente, como convinha aos
personagens da sua ficção íntima e do ecossistema social que habitava.
Mas há uma diferença grande, que toda a gente compreende bem, entre a
episódica copofonia e a constante alcoolemia. Uma diferença tão grande
como entre a ficção e a realidade.
Em flagrante delitro no Abel Pereira da Fonseca.
V – Entre o namoro e a morte, um epílogo.
Um dos fenómenos mais tristes do mito de Fernando Pessoa é o que foi
montado à volta da sua morte, tantas e tantas vezes erradamente
atribuída a uma “cólica hepática” associada à cirrose. É necessário
afirmar que este diagnóstico é falso. Fernando Pessoa foi vítima de uma
pancreatite aguda e não evidenciou à altura da sua morte quaisquer
sinais distintivos de cirrose hepática (9).
Esta persistente falácia ilustra com rigor a qualidade do modelo
argumentativo da tese do alcoolismo, que é realmente fraquinha em
factos, mas nem seria preciso mencioná-la. Ou o
Virgem Negra
era imune aos efeitos destrutivos da embriaguez crónica – o mais
funcional dos alcoólatras desde que Baco organizou a primeira orgia – ou
simplesmente não bebia tanto como toda a gente que é perita nele afirma
que ele bebia. A vastidão assombrosa e múltipla da obra que desenvolveu
não deixa muita margem de manobra para uma vida de vício. E, no belo,
pungente e extenso relato que Ofélia Queiroz partilhou com a sua
sobrinha-neta Maria da Graça Queiroz (10), a única menção que o grande
amor de Fernando Pessoa faz a este assunto refere-se ao famoso retrato
do poeta a beber vinho no Abel Pereira da Fonseca (com a legenda:
“Fernando Pessoa em flagrante delitro”), que lhe foi parar às mãos
através do seu sobrinho Carlos Queiroz e que deu lugar a um reatar do
namoro, 9 anos depois da sua primeira conclusão. De resto, nada,
rigorosamente nenhuma referência ao que Pessoa bebia, muito ou pouco. Se
Ofélia Queiroz algum dia o viu embriagado, não quis deixar essa memória
para a posteridade. Isto embora a ilustre senhora não mostre a mesma
parcimónia sobre outras excentricidades, manias e fraquezas do namorado.
E para concluir, uma perguntinha só: se Pessoa era um amante assim
desvairado do vinho, porque diabo é que o bom do Almada Negreiros o
imortalizou a beber café?
—
1 – Jerónimo Pizarro e Patricio Ferrari – Fernando Pessoa – Eu sou uma Antologia – 136 Autores Fictícios, Tinta da
China, Lisboa 2013
2 – Fernando Pessoa, Correspondência (1905-1922), Relógio d’Água; Fernando Pessoa, Correspondência (1923-
1935), Assírio & Alvim
3 – arquivopessoa.net
4 – Robert Bréchon, Estranho Estrangeiro, Quetzal, Lisboa, 1996
5 – casafernandopessoa.cm-lisboa.pt
6 – João Gaspar Simões, Vida e Obra de Fernando Pessoa – História duma Geração, Bertrand, Lisboa, 1950
7 – José Paulo Cavalcanti Filho, Fernando Pessoa, Uma Quase Autobiografia, Porto, 2012
8- Salomó Dori, A Vida Sexual de Fernando Pessoa, Palimpsesto, 2009
9 – Francisco Fonseca Ferreira, A Penumbra do Génio, Livros Horizonte, Lisboa, 2002
10 – O Fernando e eu, Relato da Ex.mª Senhora Dona Ophélia Queiroz, destinatária destas Cartas de Fernando