Entre Sintra e a Ericeira, surfando o asfalto, descobri a praia de S. Julião, que é uma coisa mesmo bonita à brava. E depois, andei perdido no nevoeiro.
domingo, novembro 29, 2020
sábado, novembro 28, 2020
A discoteca da minha vida #74: "Riot On An Empty Street", Kings of Convenience.
segunda-feira, novembro 23, 2020
O "Great Reset" já está em marcha.
Tendo em conta o estudo da Brookings sobre os ganhos e as perdas da micro-economia americana em 2020, percebemos bem que, à boleia do vírus chinês, a grande e revolucionária destruição do pequeno e médio tecido sócio-económico, perpetrada pelas grandes corporações de Silicon Valley, pelos media e pelas elites tecnocratas, já está em marcha. Senão vejamos (números desde março deste ano):
Amazon: lucros subiram mais de 100%
Walmart: lucros subiram 80%
Target: lucros subiram 80%
Lowe's: lucros subiram 74%
Microsoft, Facebook, Apple, Google: acções subiram a níveis recorde.
Pequenos negócios: 21% fecharam; receitas dos restantes diminuíram 30%.
Estes arrepiantes números dissipam qualquer dúvida sobre as motivações que estão por trás da tirania dos lockdowns e, para além de comprovarem aquilo que tinha escrito sobre este assunto em Julho, ilustram categoricamente o movimento totalitário de extinção da livre iniciativa, entre outras muitas liberdades, que está em curso à escala global. E como não há, nas esferas do poder, quem queira ou possa combatê-lo, estamos bem fodidos.
Mais números assustadores e mais evidências de que estamos a ser conduzidos ao ponto zero de tudo, na episódica contestação do contestatário de serviço, o bravo e lúcido Paul Joseph Watson:
domingo, novembro 22, 2020
segunda-feira, novembro 16, 2020
A discoteca da minha vida #73: "No More Loud Music", dEUS
Tom Barman e Klaas Janzoons superaram a infelicidade de serem belgas através da música e os dEUS têm uma qualificada carreira de 30 anos que abrange o folk, o rock experimental e o rock progressivo, entre opções mais próximas do meu gosto pessoal, que os levaram ao indie rock e ao risco de um certo easy listening que iria marcar parte substancial da primeira década do século XXI e de que falarei mais à frente. E é precisamente por causa do seu ecletismo que selecciono uma colectânea, talvez a única colectânea na discoteca da minha vida: "No More Loud Music", editado em 2001, reúne os singles dos primeiros dez anos de existência desta banda sólida, com forte carácter e inconfundível fulgor técnico e artístico.
Cardi B: eat your heart out.
domingo, novembro 15, 2020
O que é uma partícula?
Na verdade, verdadinha, ninguém sabe. Natalie Wolchover, numa reportagem para a Quanta, faz a muito básica pergunta a vários físicos e todos respondem de forma diferente, confusa, rebuscada e bastante evasiva. Uma partícula é o colapso de uma onda. É um campo electromagnético. É um padrão matemático. É um campo quântico excitado. É a irredutível representação de um grupo (!). É uma corda vibratória. É o que medimos nos detectores de partículas (?). É o que de repente lhes vem à cabeça, porque na verdade, verdadinha, esta gente não sabe definir sequer a natureza do constituinte fundamental da matéria.
Bom deus, tanta ignorância.
sexta-feira, novembro 13, 2020
Olha, mais um spot de raro brilhantismo.
Este não vai concerteza ser o melhor Natal da história da consola da Sony. A plataforma entra no mercado com escasso software disponível e as diferenças de performance vão encurtando na inversa proporção do número serial. O salto tecnológico que foi dado entre a PS1 e a PS2 não tem comparação com o estreito potencial da cibernética contemporânea, que está a comprovar falsa a famosa e exponencial Lei de Moore, mas verdadeira a previsão do seu autor, Gordon do mesmo Nome, que avisou que o cânone não podia durar para sempre.
Ainda assim, a plataforma promete coisas giras a médio prazo, sobretudo pelo potencial dos periféricos, que têm margem para estabelecer novos padrões de realidade virtual e aprofundar significativamente o interface com a realidade física.
Seja como for, a PlayStation 5 está à venda desde ontem nos grandes mercados e nos outros, como em Portugal, a partir de 19 de Novembro. E sendo que a publicidade é a disciplina de omitir as fragilidades e propagar as virtudes de um produto, este é o comercial perfeitinho. Gráfica, cinematográfica e sonoplasticamente está tudo lá no sítio certo. E a linha de copy é um poema.
Porque é que terminei a minha conta de Facebook.
Porque sim.
Porque não tenho paciência para imbecis.
Porque estava a dar dinheiro a ganhar ao pior dos imbecis; o imbecil Zuckerberg.
Porque fui censurado, lá.
Porque fui aviltado, lá.
Porque a conta não valia a pena o investimento.
Porque as pessoas preferem, de longe, uma fotografia paisagística
ao relato do fascismo a que estão a ser sujeitas.
Porque a minha conta de Facebook não contribuía nada para a minha
qualidade de vida.
Antes pelo contrário.
quinta-feira, novembro 12, 2020
A discoteca da minha vida #72: "Is This It", The Strokes

Verão de 2001. Está a passar na Voxx algo de novo. É eléctrico. É estridente. É ácido. É puro. E duro. É como o rock deve ser. É como o rock sempre foi. Mas é novo. E parece gravado numa garagem cuja acústica foi pensada para amplificar "O Grito" de Edvard Munch. Apuro o ouvido:
"Oh, people, they don't understand
No, girlfriends, they don't understand
In spaceships, they won't understand
And me, I ain't ever gonna understand"
Penso para mim mesmo: porra, quem são este gajos, pá? Que rocalhada baril-punk-maluca é esta? Por sorte, está um gajo dentro do sintonizador (Pedro Ramos, se bem me lembro), que me informa: The Strokes, "Is This It?" Vou a correr à Fnac e compro o sacana do disco. Passo semanas mergulhado na salganhada electrizante dos seus 11 temas. Sou conquistado. Juro eterna fidelidade.
Se o rock tem um Olimpo, os Strokes são o género de banda que terá lá o seu lugar-trono reservado, embora desconfie que vão passar uns anos largos para que seja ocupado, porque ainda no outro dia falava aqui da obra prima que é o último álbum desta super banda de Manhattan, "The New Abnormal". Julian Casablancas e companhia continuam a fazer música como os monstros que são, mas tenho de qualquer forma que eleger o primeiro disco. Porque é um marco, um triunfo, um pontapé no rabo do mundo, um raro momento de génio.
God Save The Strokes.
Num raro momento de lucidez, o candidato confessou.
"We have put together the most extensive and inclusive voter fraud organization in the history of American politics."
Joe Biden . Outubro 2020
quarta-feira, novembro 11, 2020
Aviso aos ingénuos.
Gentil leitor: podes pensar que é natural que Joe Biden, que passou uma campanha inteira enfiado na cave, tenha sido mais votado do que Barak Obama por 5 milhões de votos. Podes achar que é normal que sejam as cadeias de televisão a anunciar o vencedor das eleições, com centenas de milhões de votos por contar. Podes considerar comum que se vote por correio e que os mortos votem às centenas de milhar e que pessoas vestidas com merchandising eleitoral de um candidato contem os votos às escondidas de qualquer validação independente. Podes até admitir que milhares de lotes de votos em Joe Biden, e apenas em Joe Biden, tenham chegado às salas de escrutínio durante a madrugada da eleição. Podes viver bem com o facto das big tech, em conluio com noventa e nove por cento dos media, tenham escondido de toda a gente, com zelo acrescido pela importância do momento, o escândalo monumental de negociatas com ucranianos e chineses e toda a gente manhosa a este dos Urais que tivesse um lugar no conselho de administração para oferecer ao filho de um dos candidatos. Podes até aceitar que a censura faça parte dos instrumentos de moderação das redes sociais. E podes enfim conviver com as mentiras gritantes que te atiram para cima do jantar, durante o telejornal, sem grandes dramas.
O que não podes, porque isso seria já não revelador da tua complacência, mas sobretudo testemunho da tua ingenuidade, é pensar que a eleição de Joe Biden para presidente dos Estados Unidos da América é algo de positivo para o seu país em particular e para o mundo em geral.
As forças que propelam este movimento de captação de poder defendem a abolição da polícia, os confinamentos mais draconianos, a equalização social, a sobre-tributação, a normalização da opinião pública e respectiva instrumentalização da imprensa que seja instrumentável (e extinção daquela que recusa o condicionamento).
As forças que propelam este movimento de captação de poder não estão interessadas na classe média. Na verdade, detestam-na. Não estão interessadas na prosperidade do todo social, na felicidade individual ou no progresso da civilização ocidental, porque a desprezam.
As forças que propelam este movimento de captação de poder estão interessadas na implementação draconiana de um revisionismo histórico e antropológico profundamente fraudulento, que armadilha os conceitos de género, raça e cultura, de forma a aniquilar os valores e a identidade dos indivíduos e dos povos.
As forças que propelam este movimento de captação de poder investem as suas mais agressivas metodologias no cancelamento das dissidências, denegrindo reputações, extinguindo rendimentos económicos e vexando publicamente aqueles que ousam dissidir.
As forças que propelam este movimento de captação de poder estão interessadas em fortalecer laços comerciais e filosóficos com as ditaduras marxistas que ainda prosperam no mapa político, e subservem com especial fervor o imperialismo chinês.
As forças que propelam este movimento de captação de poder são belicosas e coniventes com o aparelho militar-industrial americano, que nos últimos 50 anos foi responsável por um conjunto alargado de conflitos espúrios, sem qualquer resultado efectivo para além do lucro inumerável, das incontáveis vidas perdidas, do caos social e económico e da disseminação do ódio e do ressentimento em regiões do globo já por si altamente voláteis.
As forças que propelam este movimento de captação de poder privilegiam a globalização e a mão de obra barata em desfavor do bom senso e da valorização profissional, o que é homogéneo sobre o que é humano, o que é uniforme acima do que é diverso, o que é correcto e não o que é verdadeiro, a corrupção sobre a integridade, o ócio em prejuízo do trabalho, a subsidiação do indivíduo mais que a afirmação do seu potencial. A dependência e o condicionamento em vez do livre arbítrio.
As forças que propelam este movimento de captação de poder trabalham pela instalação à escala planetária de um regime revolucionário, oligárquico, totalitário, em que as elites tecnocráticas serão finalmente libertas dos condicionalismos resultantes da vontade popular e do espírito constitucional das democracias ocidentais do século XX.
E acredita, gentil leitor, não é a vontade dessa gente que tu queres ver exercida sobre o futuro dos teus filhos.
terça-feira, novembro 10, 2020
A verdadeira tragédia.
Na carta aberta dos bastonários do sector da saúde à triste ministra, ficamos a saber que, por causa do Covid-19, o SNS abdicou de fazer:
. 5 milhões de consultas nos Centros de Saúde;
. 1 milhão de consultas hospitalares;
. 17 milhões de exames de diagnóstico e terapêutica;
. 100 mil cirurgias.
Como resultado, a verdadeira tragédia: Mais 7144 mortos não Covid, entre março e setembro, do que a média dos mesmos meses dos últimos cinco anos.
E mais quantos milhares nos próximos meses?
segunda-feira, novembro 09, 2020
domingo, novembro 08, 2020
segunda-feira, outubro 26, 2020
Violência solar.
Os Everything Everything já andam por aí a bombar loucamente há dez anos, mas este é o primeiro disco que oiço deles. Em boa hora, seja como for, porque os rapazes têm a intensidade de uma supernova com um ataque de nervos e veia criativa para dar, trocar, comprar e vender. Impressionante.
Everything Everything . Violent Sun
Um Giro português e espectacular.
Ontem, numa das etapas mais espectaculares do Giro e de toda a época ciclista, que acabou com os líderes Jai Hindley e Tao Geoghengan a terminarem com o mesmo tempo na classificação geral, a um dia do fim da prova (!), João Almeida mostrou quem é, atacou e terminou em quarto, ganhando 34 segundos aos seus directos concorrentes para o pódio, Kelderman e Bilbao.
Hoje, no contra-relógio que concluiu este alucinante Giro d'Itália, e onde Geoghengan fez a Sun Web pagar caro o erro de não ter obrigado Hindley a apoiar Kelderman - o líder da equipa e natural favorito à vitória - o João fez quarto na etapa e terminoui quarto na geral, ganhando os segundos necessários para ultrapassar Bilbao, o que é um feito extraordinário para o jovem ciclista português.
Este foi um Giro de sonho para as cores pátrias, já que o enorme Ruben Guerreiro, um atleta que faz completa justiça ao seu nome, garantiu a vitória na montanha, sendo o primeiro português na história a ganhar esta categoria em qualquer uma das três grandes voltas.
Mas independentemente do comportamento brilhante dos nossos valentes compatriotas, recomendo a toda a gente e principalmente àqueles que partilham comigo a paixão pela modalidade, que vejam a penúltima etapa desta edição do Giro d'Italia . É que foi uma espécie de verso homérico, poça.
terça-feira, outubro 20, 2020
A discoteca da minha vida #71: "Black Market Music", Placebo
"It's your fault that God's in crisis"
Se a minha lista de discos fabulosos fosse minimamente justa, os Placebo já tinham subido ao palco no século XX, só que o objectivo desta humilde iniciativa não é a justiça, mas o egocentrismo, e o disco fundamental desta banda, no contexto da minha vidinha, é o terceiro: "Black Market Music", lançado no redondo ano de 2000.
Os Placebo configuram um género de fenómeno poltergeist, mas ao contrário: sendo que a intenção de Brian Molko é inevitavelmente a de assustar a audiência com uma visão do mundo e da existência humana que deixaria Jean Paul Sartre meio envergonhado, a verdade é que o resultado final, muito por culpa dos acordes de Stefan Olsdal, é contraditoriamente elevado e inspirador. Da cave berço de todos os pesadelos, somos rápida e energicamente transportados pelo elevador da glória ao terraço de todas as possibilidades. A música desta malta é só aparentemente um elogio da eutanásia. Quando os ouvimos melhor, quando entramos neste universo denso e difícil e picaresco, percebemos que afinal se trata de um processo de redenção. "Black Market Music" não foi feito para incentivar o suicida, foi feito para o convencer a permanecer vivo. Sim, a vida é fodida. Sim, vais ter que aprender a lidar com o sofrimento. Sim, vais aparecer com um olho negro na entrevista para o emprego mais importante da tua vida. Sim, vais levar com um valente par de cornos, ou dois. Sim, os teus pais isto e aquilo. Sim, às vezes dá a sensação que há qualquer coisa de profundamente errado contigo. Sim e ainda assim: continua. Passivo-agressivo, deprimido-coitado, desperdício ontológico na sarjeta do inferno. Continua. Até que os deuses te obriguem a devolver os átomos que pediste emprestado ao universo, pega numa guitarra e continua.
Placebo. Estes rapazes não são bem uma banda. São o diabo de um monumento ao rock.
segunda-feira, outubro 19, 2020
O herói improvável.
Na etapa de ontem, a mais difícil do Giro até ao momento, João Almeida perdeu tempo para o seu mais directo adversário, Wilco Kelderman, mas, ao conservar a liderança da prova num esforço solitário e hercúleo pela cruel subida de Piancavallo acima, deixando gente consagrada como Nibali e Majka e Bilbau para trás, provou em definitivo que é um voltista e que, nos próximos anos, vamos ter um português a bater-se com os melhores profissionais do circuito internacional de ciclismo. Se o João tivesse nem que fosse um só companheiro de equipa com ele nesta derradeira subida, as coisas teriam sido muito diferentes e eu estaria aqui a prever uma vitória portuguesa no Giro. Mas a Quick Step, sendo a equipa mais vitoriosa da primeira divisão do ciclismo mundial, não está programada para ganhar competições de 3 semanas e não trouxe escaladores que acompanhem a pedalada necessária, até porque ninguém esperava que o puto de 22 anos das Caldas da Rainha tivesse pernas e condição anímica para liderar a prova, à entrada para o seu último terço.
domingo, outubro 18, 2020
A discoteca da minha vida #70: "The Hour Of Bewilderbeast", Badly Drawn Boy
E o primeiro longa duração deste século por acaso até é um daqueles que amo muito, muito especialmente: "The Hour Of Bewilderbeast", da inspirada autoria do Rapaz Mal Desenhado.
Há tanta coisa, há tantas músicas que adoro neste disco que nem sei como começar. Damon Michael Gough, aka Badly Drawn Boy, é o género de músico e compositor que nasceu para fornecer generosas doses de contentamento e consolação àqueles como eu, que gostam de canções bem dispostas, bem ritmadas, criadas para fazer as pazes com a vida enquanto testamos a agilidade das articulações, porque ninguém consegue ficar mal disposto, ou estático, enquanto ouve "Once Aroud The Block", por exemplo.
O disco, que por acaso até é o primeiro deste simpatiquíssimo autor, vale por uma embalagem extra-grande de Prozac. Vale por não sei quantas curas para a ressaca. E o bom do Damon há-de ter um lugar já reservado no paraíso, por ter feito, com a sua jovial veia, tanta gente feliz.
A discoteca da minha vida #69: "Jesus Life for Children Under 12 Inches", Kid Loco
quarta-feira, outubro 14, 2020
Bach. Como deve ser tocado.
Xaver Varnus plays Toccata and Fugue in D minor on the great Sauer Organ of the Berliner Dom. Recorded live on the Opening Night of the "Berliner Internationaler Orgelsommer 2013".
terça-feira, outubro 13, 2020
Epitáfio
fui parido a tantos do tal,
serei enterrado no prazo normal.
Vivi a mais sinóptica das biografias,
história sem memória e voz sem audiência.
Nunca exerci poder ou trafiquei influência
e já dentro da idade foi a mediocridade
que me conservou a inocência.
Não fiz filhos por cautela
e evitei sarilhos como a febre amarela;
não sofri torturas nem conjurei vilanias.
A minha vida são dois dias
mas com uma noite apenas:
aquela em que cai cansado, enrolado enfim
no colchão das penas
que tenho de mim.
A minha vida são dois dias:
aquele em que fui nado,
aquele em que serei terminado.
Não provei doce glória ou exagerei alegrias
e às tragédias fui poupado.
Amei esporadicamente e esporadicamente fui amado;
dança de um só passo que no silêncio deste espaço
não há tango nem fado.
Deixo a mais sintética das biografias:
não fui senhor, não fui criado,
nasci em Portugal e em Portugal serei sepultado.
A minha vida são dois dias
de horas céleres e vazias;
nunca me aconteceu nada de especial,
foi discreto o meu astral
e morrerei de um qualquer mal.
A minha vida são dois dias
mas com uma noite apenas:
aquela em que adormeci ferido
na mais doce das arenas
e sonhei romano com o ser humano
que podia ter sido.
Que raça de coisa gira é esta?
O último disco dos Neighbourhood é de difícil entendimento para a inteligência dos ouvidos. Ainda não percebi bem se é um fracasso ou um triunfo. Tenho que ouvir mais vezes. Mas esta música aqui, que explica bem o carácter híbrido de "Chip Chrome And The Mono-Tones", mata-me completamente.
The Neighbourhood . Lost In Translation
A Scotland Yard como polícia política.
Numa entrevista à BBC, o youtuber Darren Grimes disse que escravatura não é o mesmo que genocídio. Vai daí, a Scotland Yard abriu uma investigação sobre o rapaz, por alegada intenção de fomentar o ódio racial.
Podemos concordar com Grimes ou não. Eu por acaso não concordo. Concordo porém com o direito que ele tem de pensar assim ou assado e de dizer o que lhe apetecer. Ao direito que temos de pensar assim ou assado e de dizer o que nos apetecer chamamos livre arbítrio (ou liberdade de expressão, se quiserem). E o livre arbítrio é, em muitos casos, protegido constitucionalmente pela nações ocidentais.
O problema é que a constituição inglesa é consuetudinária (fundamenta-se no costume e não no formalismo de um documento escrito), o que sempre foi um ponto de honra para os bifes, enquanto o mundo vivia tempos normais. Como vivemos na mais absurda anormalidade, faz agora falta aos bifes um documento constitucional que proteja malucos como Darren Grimes. Porque chegarmos ao ponto em que a polícia abre investigações sobre cidadãos por causa da opinião que têm sobre isto ou aquilo parece-me, no mínimo e para não estar para aqui a irritar-me com as minha próprias palavras, preocupante.
Uma polícia que fiscaliza aquilo que as pessoas pensam e dizem é, necessariamente, uma polícia política. E só existem polícias políticas em estados totalitários. Logo, esta inacreditável decisão da Scotland Yard, que vem no seguimento de outras do género, coloca em questão a natureza do estado e do regime britânico.
Isto vai de mal a pior.
segunda-feira, outubro 12, 2020
A discoteca da minha vida #68: "Californication", Red Hot Chili Peppers
Da glória dos atletas à infâmia dos jornalistas.
Ontem aconteceu um fenómeno poltergeist, no Giro d'Italia. No cimo do Roccaraso, Ruben Guerreiro ultrapassou Castroviejo para ser o segundo português de sempre a ganhar uma etapa no Giro, somando à vitória os pontos que são suficientes para passar a ser o novo proprietário da camisola Azzurri (líder da montanha). Para ajudar à festa, o espectacular João Almeida, que como já tinha avisado aqui, é um ciclista com grande futuro e que está a fazer um Giro absolutamente fenomenal (já lidera a prova desde a terceira etapa) resistiu a mais um jornada de alto nível de dificuldade, perdendo uns poucos segundos para alguns dos favoritos, mas garantindo a camisola Rosa (e a Bianca também, porque é o melhor classificado entre os sub 23) por mais uns dias, e ainda com uma vantagem mais ou menos confortável, de 30 segundos, sobre o segundo classificado, Wilco Kelderman, e de 1 minuto sobre Vincenzo Nibali, o favorito entre os favoritos. E se considerarmos que a etapa mais decisiva da próxima semana será provavelmente o contrarrelógio, que pode favorecer o ciclista português, é bem possível que João Almeida chegue às altitudes alpinas da terceira semana do Giro com uma vantagem um pouquinho mais expressiva. A ver vamos.
Seja como for, para quem gosta de ciclismo, o dia 11 de Outubro de 2020 vai ficar bem na gravado na memória como um dos episódios mais importantes da história do desporto nacional. E devo confessar que vivi momentos de intensa emoção e pura alegria. Primeiro com o Ruben, depois com o João. Numa etapa só. Que pinta.
Resta uma nota sobre a merda de jornalismo que temos: no site da Bola, não há um destaque para o que aconteceu ontem. No site do Record é para aí a sétima notícia. No Público, é a nona notícia na página de desporto, porque na homepage, nada. No Observador, a homepage destaca este dia inesquecível depois de cinco notícias sobre o miserável jogo de futebol entre Portugal e a França, que eu não vi mas tenho a certeza que foi miserável como são todos os jogos de futebol da selecção nacional desde que é comandada pelo homem-depressão, rei do empata, grão duque da mediocridade, carrasco de qualquer hipótese de espectáculo, mais conhecido por Fernando Santos.
No caso do Observador, sempre recordista da imbecilidade e da infâmia, o triunfo de Nadal no Roland Garros tem mais destaque do que aquele timidamente oferecido aos feitos dos dois portugueses.
Entre um mau jogo de futebol, que termina num empate sem golos, o rotineiro triunfo de um tenista espanhol (deve ser para aí a décima terceira vez que Nadal ganha este torneio) e a glória dos dois ciclistas portugueses, os jornais optam pelo absurdo.
Mas seria de esperar outra coisa?
quarta-feira, outubro 07, 2020
A discoteca da minha vida #67: "Gran Turismo", The Cardigans
"Gran Turismo", o quarto dos 6 trabalhos de estúdio, é um daqueles discos encantados, abençoados por deus e lindíssimos por natureza, concebidos num máximo momento de inspiração e que vivem, por isso, para sempre. O que não é fácil, considerando que se trata de um trabalho de grande simplicidade, sem pretensões nenhumas nem gorduras de ambição desmedida. "Gran Turismo" é exactamente e apenas aquilo que quer ser: um descomprometido - mas eloquente - exercício de música popular.
E a prova da abismal competência dos The Cardigans é que podemos ouvi-los 22 anos depois sem correr o risco da decepção: continuam tão contemporâneos como eram. E elegantes como sempre foram.
A discoteca da minha vida #66: "The K&D Sessions", Kruder & Dorfmeister
Os 21 temas desta obra de patinagem artística numa selva tropical constituem um cânone pós-moderno que noutras artes raras vezes encontrarás, porque o pós-modernismo é mais um movimento de destruição do que de invenção. Acontece que os Kruder & Dorfmeister conseguem fazer da destruição, uma invenção. Entre ressureições de temas pop, dissertações dub e viagens ao Brasil, "The K&D Sessions", de 1998, é um paraíso perdido. Como todos os paraísos.
Se está alguém desse lado que não conheça este disco, rogo que invista uns minutos de acuidade auditiva na versão genial de "Useless", dos Depeche Mode, que deixo em baixo. É, ou não é, um perfeito exercício de ritmo? É, ou não é, um sacana de um manifesto estético?
Kruder & Dorfmeister. Até o raio dos apelidos soam bem.
Nota: Como o Blogger tornou a edição vídeo num pesadelo, a apresentação da discoteca da minha vida teve que sofrer alterações e agora vai ser disco a disco, o que se calhar até é mais justo para os artistas.
sábado, outubro 03, 2020
Get woke, go broke: a queda da NBA.
A NBA é talvez o exemplo máximo deste irritante e fraudulento fenómeno. Os multimilionários e super privilegiados profissionais da liga tentam desesperadamente passar por vítimas de racismo e de sexismo, amaldiçoando as virtudes da democracia que os enriqueceu e privilegiou enquanto pactuam desavergonhadamente com o totalitarismo do regime chinês (o dinheiro continua a poder mais que a ética, principalmente quando a ética é falsificada). Nos tempos que correm, é impossível vermos um jogo de basquetebol sem apelo à revolução. Os jogadores ajoelham-se durante o hino, em sinal de protesto contra sabe-se lá que ameaça terrível, usam camisolas com dizeres caricatos e frequentemente fundados em fantasias de extrema-esquerda, choram baba e ranho nas redes sociais de cada vez que a polícia prende ou mata um criminoso (desde que o criminoso seja negro, claro), cancelam jogos por não se sentirem seguros (como se eles próprios e a NBA não gastassem fortunas todos os dias em aparatos securitários que envergonham os serviços secretos destacados para a Casa Branca), enfim, a fantochada total levada ao máximo nível circense. E tudo isto entusiasticamente suportado pela própria organização da liga, que é mais papista que o papa e obriga os franchises a todo o tipo de iniciativas absurdas, desde a inserção no recinto de palavras de ordem que envergonhariam o Bloco de Esquerda, à imposição de normas linguísticas, o que corresponde, na prática, à censura de toda a opinião divergente da ortodoxia marxista barra justiceira social barra igualitária barra politicamente correcta. Para piorar um bocadinho mais este cenário orwelliano, os jornalistas e as estações televisivas que acompanham, relatam e transmitem a modalidade transformaram-se numa espécie de dois em um, dedicando-se afincadamente a misturar o comentário desportivo com o comentário político, sendo este último invariavelmente condicionado à opinião da liga e dos seus infelizes intérpretes. É muito possível, embora pareça impossível, ouvirmos um comentador da ESPN elogiar agora um afundanço de Lebron "Zedung" James e depois, como se a propósito, largar uma crítica à administração Trump.
Acontece que este movimento "woke" é descendente em termos de rentabilidade dos negócios. Há uma grande fatia da audiência que não está para ser aviltada por mensagens radicais, altamente divisivas e que nada têm a ver com o desporto. E o resultado está à vista: o primeiro jogo das finais da NBA deste ano foi o que teve a mais baixa audiência televisiva de sempre, na história da liga. Em relação às finais do ano passado, que também já tinham registado um gordo decréscimo, a queda foi de 44%. O jogo foi visto por sete milhões de pessoas, e se pensares, caro leitor, que sete milhões de pessoas é muita gente, posso-te dizer que há gamers no Youtube, como Pewdiepie, que têm maior audiência em cada vídeo que publicam. Nem é preciso dizer mais nada.
Felizes entre as ruínas.
sexta-feira, outubro 02, 2020
The Epic Split ou a raridade de um bom spot publicitário.
quarta-feira, setembro 30, 2020
sábado, setembro 26, 2020
Haikus da Lagoa Mar.
Onde é que acaba a lagoa
e começa o oceano?
__
Nas dunas,
estás noutro planeta.
Passa um turista.
__
O Atlântico bate na praia
como um pai violento
e embriagado.
__
Ruge e roga pragas
o oceano zangado.
Para quando a paz?
__
Até os meus cães sabem
que esta terra
não é deles.
A paisagem pede versos
e eu estou a ficar
sem tinta.
__
No coração do Atlântico Norte
nasceu a onda que agora rebenta
nos meus tímpanos.
__
Outubro e
os flamingos rumam a sul.
Não são parvos nenhuns.
__
Podes ser amado pelos deuses,
mas no café és maltratado
como toda a gente.
__
O haiku já está escrito.
Eu limito-me a procurar por ele
entre as dunas.
Durante a madrugada
rolam tractores na praia.
O Atlântico faz mais barulho.
__
Às vezes sinto a presença de Deus.
Mas é raro.
__
50 quilómetros de praia virgem
sem 50 horas de aviação.
__
As ondas hoje estão simpáticas.
Para quem não vai
ao banho.
__
Há pessoas que gostam de levar porrada.
Das ondas.
A sós com a natureza.
Borro-me de medo.
__
Insectos.
Ataques de mau feitio
da Mãe Natureza.
__
A rã coaxa. O grilo canta. O mar protesta.
O silêncio vence.
__
O mundo podia cair em apocalipse
que eu aqui
nem dava por ela.
__
Esqueci-me do casaco em Lisboa.
Nortada.
Tremo e vibro e vou com a maré
na Praia da Costa
de Santo André.
quinta-feira, setembro 24, 2020
Como é óbvio.
terça-feira, setembro 22, 2020
Tugas no topo.
A propósito de momentos épicos, Filipe Albuquerque ganhou a categoria LMP2 nas 24 Horas de Le Mans, ao volante do Oreca nº 22 da United Autosports. E António Felix da Costa fez segundo, na mesma categoria. Dois portugueses num pódio de muito difícil acesso. Parabéns aos pilotos e viva Portugal, caraças.
50 minutos para a história.
sexta-feira, setembro 18, 2020
Soneto da Praia da Armona.
A ilha-língua estende-se em pitagórica bissectriz
Sobre os limites do horizonte e a orla do oceano.
O universo abre via verde e sorri solarengo o céu sano
Que mostra a sua virtude, longitude e matriz.
Faz uma tarde perfeita e na esplanada-imperatriz
Ameijoas e vinhos saúdam o queijo e a azeitona.
Erguem-se bravos os copos entre as dunas da Armona
E corremos atrás do barco que abordamos por um triz.
A ria vibra, a vida brilha, o sol perdura
e a dada altura levanta-se um sapiens que diz:
Até o caixote do lixo está feliz.
Percorremos livres o Portugal pequeno
de seno a cosseno e na tangente o sobrinho diz:
Até o caixote do lixo está feliz.
quinta-feira, setembro 17, 2020
A verdade que vem do frio.
Esta notícia é daquelas oportunidades que tenho para deixar de ser o prego e passar a ser o martelo. Não a posso perder.
Primeiro: alguém vai ser já despedido, no Diário de Notícias. Publicar a verdade neste jornal (como nos outros todos, mas muito especialmente neste) é algo de imperdoável e terá consequências sérias. Isso é certo.
Depois: tenho que chatear um bocadinho a malta que me partiu a cabeça, aqui no Facebook e noutros lugares, nos meses de março e abril e junho e julho e agosto (vocês sabem quem são). Sim, vocês malta adepta de confinamentos e entusiasticamente concordante com a retirada dos direitos mais básicos da civilização ocidental, terão alguma coisinha de pertinente a dizer sobre este muito incómodo e inconveniente facto sueco?
E a outra malta, a malta que desgraçadamente elegemos para tomar apenas as piores decisões, no exacto momento em precisávamos das melhores, reconhecerá porventura o imenso, histórico e, tudo indica, criminoso erro?
Claro que não.
quarta-feira, setembro 16, 2020
My name is joe Biden and I forgot this message #n
Eis o mundo como uma conspiração de estúpidos.


































