domingo, outubro 23, 2005

Uma descoberta.

Descobri Gerrit Komrij ao acaso, na Bertrand do Chiado. Num dos escaparates, a caveira que a Assírio escolheu para a capa de "Contrabando" chamava por mim. Abri o livro e li:

"Subiu-te do peito um Excelso suspiro.
Eram-te as costelas aros cromados.
Ciclista-poeta, fugias à frente
De um milhão de belgas desenfreados."

Andei a tarde toda com o livro na mão, encantado com o escrevinhar insólito deste holandês inspirado e satírico, que me diverte e que me assusta. É muito bom, descobrir poesia assim. Sem receitas de crítico nem conselhos de amigo. Só com a ajuda de uma livraria onde uma pessoa pode de facto conviver com os livros.

quinta-feira, outubro 20, 2005

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Em cima, a primeira representação dos pelos púbicos da mulher na história da arte ocidental. Em baixo, uma réplica decente que Goya foi obrigado a executar, perante o escândalo que causou a nudez da senhora amante do Duque de Alcudia, que tinha encomendado o retrato ao Mestre, e que de pronto o recusou.
Muito sofreu Goya por causa da "Maia Nua". 15 anos depois de a ter concluído é chamado ao tribunal da Santa Inquisição para responder pela heresia e, por ela, perder o seu muito querido lugar de pintor da Corte espanhola.
A imortalidade sai sempre muito cara.

quinta-feira, outubro 13, 2005

O Prémio Nobel da Falta de Vergonha

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A atribuição do Prémio Nobel da Paz a Mohammed ElBaradei e à sua Agência Internacional de Energia Atómica é um daqueles gestos completamente abstrusos do Comité Nobel Norueguês (este prémio não é atribuído pelos suecos mas os noruegueses fazem o favor de se manterem coerentes com a tradicional imbecilidade dos seus vizinhos), que só vem comprovar a total degradação moral, filosófica e política da Instituição.
Aparentemente, os vencedores foram distinguidos pelos "esforços para impedir que energia nuclear seja usada para fins militares e garantir que a destinada a fins pacíficos seja usada da maneira mais segura possível". Ora, deixem-me recordar que passaram apenas dois anos desde que esta deplorável criatura agora laureada, em discurso ao Conselho de Segurança da ONU, insistia que o programa nuclear do Irão se destinava exclusivamente à produção de energia para consumo doméstico e industrial... Nessa altura escrevi eu no Ocidental Praia:

Mohamed ElBaradei e a sua hilariante Agência Internacional da Energia Atómica ainda acreditam que as instalações nucleares iranianas estão a ser desenvolvidas com um fim pacífico. A ingenuidade ou cumplicidade deste senhor não tem paralelo: O Irão, riqíssimo em petróleo e em carvão, não precisa de criar formas subsidiárias e comparativamente dispendiosas para acender a luz e é evidente que o regime iraniano - um dos mais perigosos, ferozes, fanáticos e totalitários do mapa político - pretende apenas aumentar a pressão nuclear sobre o Médio Oriente.

Hoje, que já toda a gente sabe ao que é que vem o programa nuclear iraniano, premeia-se este árabe tendencioso e inconsciente não por qualquer mérito ligado às suas competências (obviamente nulas), mas sobretudo porque chateou imenso os americanos a propósito das desaparecidas armas de destruição maciça no Iraque.
O problema da proliferação das armas nucleares é aliás de uma bizarria monstruosa. Certos países como a Coreia do Norte e o Irão e outros que tais, limitam-se a iniciar os seus programas pseudo-apocalípticos como forma de obterem posteriormente, como contrapartida da destruição desses programas, ajudas financeiras internacionais e benefícios comerciais.Tudo com a descarada conivência da infeliz agência dirigida por ElBaradei, que devia estar preso numa gruta qualquer de Guantanamo.
Hoje em dia, ser premiado Nobel - em letras ou em políticas - não é uma honra. É uma vergonha.
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Sim, estas duas obras foram pintadas pelo mesmo génio. Francisco Goya (1746/1828) foi um muito bem sucedido retratista de reis e cronista de cortes - e assim viveu grande parte da sua vida - até que a doença, a traição e o desespero lhe estragaram o olho idílico.
Depois de experimentar os horrores da Guerra da Península, de ser perseguido pelas obsessões e delírios de Fernando VII e da Santa Inquisição e de ficar progressivamente insano, cego e surdo - envenenado pelos pigmentos das tintas que usava - Francisco Goya enclausurou-se e começou a pintar a sério.
E, sendo um dos grandes pioneiros do aborrecido, bucólico e ingénuo Romantismo Europeu, Francisco Goya soube enlouquecer um bocado e viver o suficiente para inventar o Expressionismo.

sexta-feira, outubro 07, 2005

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Do discurso eleitoral.

Portugal deve ser o único país no mundo em que o marketing político teima em regredir de qualidade. E nem vale a pena falar dos casos óbvios, que poluem despudoradamente os cenários urbanos, quando crescem como cogumelos algumas verdadeiras pérolas da comunicação ideológica nos mais escondidos lugares da nação profunda. No lugar de Carne Assada (sim, Carne Assada, concelho de Mafra) está plantado um outdoor que diz assim: "A FREGUESIA AOS FREGUESES". Deuses da República, digam-me, a democracia é isto?

quinta-feira, outubro 06, 2005

O Relatório Kinsey não é o Diário de Bridget Jones.

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Eis o estado a que as coisas chegaram: na Áustria; um País tão politicamente correcto - ou tão reaccionário, não percebo bem - que até tem um Ministério dos Assuntos Femininos; o hino nacional vai ser corrigido de forma a não ofender a condição da Mulher. Assim, onde antes se cantava “coros irmãos”, cantar-se-á “coros alegres”; o verso que elevava os “grandiosos filhos da Nação” passará a elevar os “grandiosos filhos e filhas da Nação” e a palavra pátria (Vaterland), porque dá ênfase ao conceito patriarcal da república, será substituída por “Terra Lar”.
É claro que ninguém torna a vida mais fácil à difícil vida da mulher ocidental com este tipo de ridicularias. Nenhuma mulher inteligente pode achar que estes artigos de barata cosmética lhe devolvem a dignidade perdida, se é que ela acha que perdeu alguma.
Tais símbolismos abstrusos de baixa política, pelo contrário, rebaixam a condição da mulher, simplesmente porque conduzir o assunto da condição feminina como se de uma minoria étnica se tratasse, é de uma vilania inominável.
Em vez da discriminação positiva, da gramática revisionista e do moralismo abjecto e arcaico das comunas de Paris, o que se deve dar às mulheres, são direitos e oportunidades iguais. Ponto final. Tudo o mais é lamechice insuportável, ou pior ainda, tudo o mais é querer tranformá-las. É querer alterar a sua antropologia. Tudo o mais é que é ser paternalista, fascizóide, segregacionista. Tudo o mais é não perceber coisa nenhuma de biologia, é não saber aceitar que homem e mulher cumprem papeis diferentes no quadro da mecânica natural da sua espécie. É não conseguir compreender que o Homo Sapiens é um produto relativamente bem sucedido dessas diferenças simbióticas, dessa multiplicidade diversa, que também é responsável pelo género que têm as palavras, tanto como pela ordem semântica da linguagem. Tudo o mais é querer transformar mulheres em homens.
A Eva dos nossos dias - chamemos-lhe Bridget Jones - é o paradigma da mulher em falência de missão ontológica que a escolástica socialistóide dos estados europeus tem parido a torto e a direito. É uma tonta que não percebe qual o seu papel no enredo: a biologia diz-lhe uma coisa, as aspirações de animal moderno exigem outra. Sexualmente esquizofrénica, não sabe se deve seduzir ou ser seduzida, entregar-se ao casamento ou abandonar-se à luxúria, assumir-se predadora ou entregar-se presa fácil. Operacionalmente inepta, não sabe se há-de cozinhar ou sair em reportagem, seguir carreira ou construir família. É a confusão e a falta de senso, é a neura e a deselegância crónica. É o caos e o divórcio.
Desde a revolução sexual do século XX que a mulher ocidental anda metida numa batalha contra si própria, e tudo por causa de quem a quer salvar do seu destino trágico, não se percebendo bem que tragédia maluca aguarda Bridget, sabendo-se que é ela, em última análise, a fiel depositária do mistério da vida.
Curiosamente, o grande pioneiro desta revolução, sabia bem demais que as diferenças entre géneros na espécie humana eram não só evidentes como elementos causais da civilização. Quando Alfred Kinsey lançou em 1946 "O Comportamento Sexual do Homem" e depois, em 52, "O Comportamento Sexual da Mulher", produtos do primeiro estudo científico alguma vez realizado sobre a sexualidade humana, a dicotomia estava assumida.
Neste sentido, o Diário de Bridget Jones só é inspirado no Relatório de Kinsey por equívoco do argumentista.
Maravilhado desde sempre com a diversidade do reino biológico, naturalista fanático e metodologista radical, Kinsey acreditava que o comportamento sexual da espécie humana seria consistente com as idiossincrasias do indivíduo e do seu meio envolvente. E que toda a actividade sexual, da masturbação ao coito com animais, da homossexualidade aos sonhos húmidos, decorreria de um impulso natural, entendido como uma manifestação individual de cada ser vivo, em função do seu determinado contexto existencial.
Estudando, registando e catalogando uma imensidão estatística de depoimentos anónimos com base nas divergências morfológicas, sensoriais e culturais dos entrevistados, Kinsey propôs uma abordagem baseada não na uniformidade, mas antes num padrão multiforme de comportamentos, também sustentados pelas particularidades decorrentes do Género.
Lamentavelmente, o estudo foi entendido precisamente como um elo de convergência comportamental - e portanto “de natureza” - entre homens e mulheres, os desvios ao regime puritano foram colados na mesma caderneta unisexo do senso comum e daí o caudal de dislates politico-filosóficos que se seguiram.
Não por acaso, o segundo volume do estudo de Alfred “Prok” Kinsey foi a sua desgraça: a sociedade americana, que o tinha aclamado por trazer à consciência social a terrível verdade sobre o líbido masculino, não o perdoou por escarrapachar nos escaparates os segredos de alcova das mulheres americanas. O espírito proteccionista de ontem e de hoje é o mesmo e as mesmas bestas que não percebem as diferenças agora, também não as entendiam há 50 anos atrás.
Assim, Bridget, que não se soube decidir entre o soutien chamuscado e a cinta de ligas, vai sempre parecer uma coelhinha da playboy numa missa luterana. E enquanto entoa a canção pátria que já não é pátria, que é orfâ de pais para que não lhe ofendam a dignidade de plástico que comprou nas televendas dos editoriais e dos projectos-lei, Bridget Jones vai perdendo irremediavelmente a sua identidade de fêmea, de mamífero e de sapiens.

Voando Sobre um Ninho de Corvos


(Original de 1993 em cinco posts)
POST QUINTO

Lembro-me bem da vida lá fora. Lembro-me dos semáforos e dos centros comerciais, lembro-me das bocas de incêndio e das estações de metropolitano. Recordo-me bem da pressa com que se movimentam as gentes da cidade, agitando-se febris na expectativa do naufrágio.
Abandonei a vida lá fora porque sempre me cheiraram as ruas a morte. Foi exactamente por isso que me acolheram aqui, solícitos como comerciantes marroquinos, neste convento do silêncio e do espanto endémico. Cheiram-me as ruas a morte, doutor. A pássaro mortos. Na baixa é um cheirete insuportável a corvos putrefactos, o doutor sabe lá. E nas avenidas novas, parece que lá vão a morrer as gaivotas. Eu já não aguento mais a pestilência. Até em Alvalade, é um pivete a pombos em decomposição que tira o apetite a um homem que não come há três dias, doutor, verdade, verdadinha como eu estar a aqui a falar consigo.
Abandonei a vida lá fora porque o cheiro a morte não entra aqui dentro da gaiola. E mais a mais, sempre me deixam voar do trapézio para o refeitório (não me falta a alpista), do refeitório para a farmácia (não há escassez de barbitúricos) e da farmácia para a sala da televisão (não há falência de erotismo durante o telejornal). Voar até à sala da televisão é ser mais livre que um náufrago chapinhando a meio caminho entre dois oceanos.
Hoje, faz dez anos que aqui estou. E não tenho saudades nenhumas da vida lá fora. Talvez porque me lembre tão bem de ter que pagar a renda e fazer a barba. Talvez porque ainda sobrevivam nas narinas da memória, esses aromas da morte alada que sujam as ruas do Bairro Alto.

terça-feira, outubro 04, 2005

A propaganda do medo.

Feitas as tristes contas, o Furacão Katrina provocou 1033 mortos, contando os desaparecidos.
Então porquê a loucura dos 10.000 mortos projectados pela imprensa? É legítimo vender notícias assim?
É digno inventar vítimas para servir interesses? É aceitável agravar artificialmente as catástrofes por razões de ordem política e económica?
Cada dia que passa, os meios de comunicação social assumem com maior fanatismo a sua missão de instalar o medo, porque é o pânico global que faz o mundo rodar. E não há quem saiba ou possa contrariar esta perversa mania dos últimos dias que se instalou nas redacções, nos gabinetes editoriais e nos conselhos de administração. Toda a gente sonha com a manchete que traga a notícia do Fim e quanto maior a tragédia, mais profética a ficção.
A construção romanesca de ameaças biológicas e climátéricas, a transformação dos palcos de guerra em cenografias multimediáticas, a difusão de mitos apocalíticos, tudo serve para vender mais pomada para os calos da existência.
Os efeitos psico-sociais desta terrível tendência são devastadores. As pessoas vivem hoje sobrecarregadas com o fardo dos horrores do mundo e dos medos ciclópicos que trazem consigo e um suicídio em Sidney, um assalto em Los Angeles, um surto de Malária em Angola ou uma bomba em Bali bastam para preencher essa falsa expectativa da condenação eterna.
Para quando um poder que responsabilize este (quarto-primeiro) poder?

quarta-feira, setembro 28, 2005

Um imbecil chamado Ronald Koeman.

O Benfica perdeu ontem uma rara oportunidade de ganhar em Old Traford e a responsabilidade é inteirinha do débil mental que o Sr. Veiga (outro atrasado) achou por bem contratar para treinar os campeões nacionais. Ronald Koeman é, de longe, o pior treinador da história do clube, revelando uma estupidez absolutamente devastadora e um total desconhecimento da profissão que exerce. Vou ver se me lembro de não lhe perdoar a noite de 27 de Setembro de 2005 até ao fim dos meus dias.

segunda-feira, setembro 19, 2005

Max Stirner, o anti-cristo super-homem - I

Quando Max Stirner publica, em 1844, "O Único e a Sua Propriedade", a sociedade bem pensante da Europa deixa cair o queixo, num primeiro momento de espanto, para logo mostrar os dentes da censura, quando percebe que está em causa tudo o que de sagrado tinham escrito e dito até ali as mais brilhantes mentes liberais e socialistas, humanitaristas e revolucionárias, idealistas e conservadoras. Se Marx colocou Hegel de cabeça para baixo, Stirner dá-lhe, 20 anos antes, um pontapé no traseiro. Encostando os liberais triunfadores e vanguardistas às cordas da reacção, também desqualifica Proudhon, que chamava roubo ao exercício da propriedade, expropriando-o de qualquer tipo de pertinácia filosófica. Na altura em que o Estado de Direito dá os seus primeiros passos, o bravo Bávaro devolve-o ao útero da inutilidade ou à campa da imoralidade, o leitor decide. Com a morte de Deus ainda fresca, acabada de enunciar por Feuerbach, Stirner acusa os iluministas de devoção mística. Quando o niilismo era coisa de romancistas russos, já este valente da grande filosofia desacreditava valores morais, sociais e políticos a torto e a direito.
"O Único e a Sua Propriedade" é um dos grandes manuais de filosofia do século XIX, porque, fazendo tábua rasa do património intelectual, sensorial e empírico da Europa, num tom sardónico, rude e verdadeiramente inspirado, recentra a questão ontológica neste ponto: em última análise só poderei ser realmente proprietário do meu corpo, derradeira tangibilidade psicosomática e único valor a proteger. Assim, faz todo o sentido respeitar as prioridades que são as do meu sistema físico-químico e as da minha unicidade: rotinar o egotismo é viver com sensatez. Não reconhecer causas que transcendam a inevitabilidade de quem eu sou, é pois, uma obrigação moral, no sentido em que a moral é um instrumento de sobrevivência. Conceitos como a Religião, o Estado e a Nação são fraudes fiscais, no tribunal de contas da mãe natureza. Eu só posso ser soberano sobre mim e só de mim sou súbdito. E o único imperativo categórico digno de ser respeitado é o que decorre das necessidades da minha fisiologia. A individualidade, a singularidade, a consciência identitária de que só estou ao serviço de mim, esse sim, é o caminho para a redenção.
O livro foi, obviamente, proíbido e escondido e esquecido e amaldiçoado e ridicularizado e queimado nas fogueiras dos salões onde se reunia a gorda elite intelectual do velho continente. Gente ilustre que o leu, como Joyce, Pound Ou Miller, não falam dele nunca. Freud - que muito lhe deve - renega-o. Nietzsche que lhe deve quase tudo - esquece-se dele. Marx e Engels precisaram de 300 páginas de intenso fluxo invectivo para combater o pequeno rebelde. Darwinistas sociais e deterministas de toda a espécie fingiram que não sabiam da sua existência. Todos enfim se esforçaram por aniquilar a obra, e com tanto afinco o fizeram, que acabaram por imortalizá-la.
"O Único e a Sua Propriedade" é um tratado escrito e pensado em nome da liberdade do indivíduo. E foi por isso que incomodou tanto.
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Voando Sobre um Ninho de Corvos


(Original de 1993 em cinco posts)
POST QUARTO

Faço tudo o que é humanamente possível para que não me mandem embora. Seria absolutamente degradante falhar como doente mental e uma asneira das grandes voltar para o mundo lá fora. Aqui dentro, as regras são mais simples. Não é tão difícil viver. Não há grandes preocupações filosóficas nem dilemas existenciais. Digam-me, para que precisa um louco de Schopenhauer? Aqui, uma pessoa é alimentada, é drogada e deixa-se dormir. Tudo o resto é fazer por não perceber as palestras dos estagiários e os mandamentos dos consagrados.
Se o Fragoso andasse para aí a masturbar-se pela via pública era preso. Fechavam-no numa espelunca qualquer onde, com toda a certeza, não haveria televisão, nem pássaros, nem enfermeiras. Não está certo. Eu e o Fragoso não arredamos pé; aqui é que é bom. Temos gralhas na TV e já nos prometeram um rádio cheio de cucos. As corujas habitam o frigorífico de Verão e a lavandaria no Inverno. Tudo está no seu devido lugar.
Quando a milícia psiquiátrica desconfia que eu estou a recuperar (e eu apercebo-me da tolice sempre que olham para mim com o ar expectante do vendedor de gelados em Outubro), desato imediatamente num chinfrim acrobático de dislates de primeira categoria, babo-me, cago-me, parto a loiça, uivo bastante, esbracejo como um aflito, esperneio como um dançarino russo, coço as orelhas com os pés, canto a Internacional, exorciso os arcanjos todos que há no Inferno e dou dentadas que me farto. Depois disto, os doutores, desapontados com a terapia, envergonhados da incompetência, fecham-me a sete chaves e alimentam-me regularmente. Só de pensar que anda por aí tanta gente à procura de uns minutos de felicidade durante a vida inteira e só conseguem filhos, empregos de merda, cansaços muitos e uma morte estúpida, suja e desejada, vêem-me corvos aos olhos e acabo por adormecer na paz do nosso senhor Jesus Cristo, junkie de todas as ordens, dealer de todos os créditos, padroeiro de todos os loucos.
Sou um corvo fechado num celeiro. Enquanto houver milho para encher a barriga, não vale a pena sair.

quinta-feira, setembro 15, 2005

Versões Katrina

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O furacão Katrina foi recebido globalmente como um cavaleiro do apocalipse, um evento paralógico cuja missão divina transcende as razões da física e da metereologia. E, assim sendo, a tragédia prestou-se ao dislate recordista.
Para os ambientalistas da ONU, se aconteceu o que aconteceu foi porque os americanos não quiseram assinar o protocolo de Quioto. Mais: é pelo mesmo motivo que os furacões hoje em dia são mais severos (facto desenterrado da enciclopédia do empirismo delirante, anedotário zero).
Para os génios da Internacional Socialista, a catástrofe em New Orleans deveu-se essencialmente ao facto dos americanos não terem um estado social, não se percebendo bem o que é que o cú do socialismo tem a ver com as calças de uma tempestade devastadora.
Para as mentes brilhantes do Bloco de Esquerda, a destruição deve-se antes que tudo ao racismo e à pobreza que grassa nos Estados Unidos. Não me parece que a ordem de evacuar o delta do Mississipi fosse dada apenas aos brancos, nem que as equipas de salvamento andassem a recolher aflitos por categorias de tom de pele. E quanto à pobreza dos americanos, que efeito teria este fenómeno climático se tivesse acontecido em Cuba?
Para o inteligente Rebelo de Sousa (mas ninguém cala este homem?) o terrível evento é prova rigorosa de que os americanos estão de tal forma preocupados com a segurança que já não ligam nenhuma aos furacões. A simplicidade mental desta iluminária não lhe permite entender que os mecanismos de emergência médica e protecção civil cumprem exactamente a mesma função e têm precisamente a mesma importância operacional caso as pessoas estejam a morrer afogadas por uma cheia ou queimadas por uma bomba. O argumento é arrepiantemente idiota.
Para os parasitocratas da União Europeia, o furacão serviu bem para demonstrar que os Estados Unidos têm insuficiências organizacionais, facto que com muito agrado registam, enquanto chafurdam no esterco da sua inoperância crónica e da mais exemplar disfunção orgânica da história das organizações europeias.
Para os anti-americanos primários, o estrago é, claro está, devido à presença dos Estados Unidos no Iraque.
Para os anti-americanos intelectuais, a tragédia deve-se ao facto de Bush, certa vez, ter passado férias em New Orleans.
Para os colunistas é um banquete.
Para os jornalistas, é uma orgia.
Para os cínicos, é bem feito.
Para os fanáticos, é a vingança de Alá.
Para os terroristas, é instrutivo.
E eu, que vivo num país realmente miserável; eu que vivo numa nação em que há pontes a cair com as primeiras chuvadas de Outono; eu que tenho uma pátria que arde descontroladamente, ritualmente, todos os verões desde que me lembro de existirem verões; eu que sou natural da terra onde se inventou a disfunção organizacional; eu cá gosto cada vez mais de americanos, cada vez menos de europeus e quanto aos portugueses, que se calem rapidamente, antes que chegue o Inverno e Portugal fique submerso porque alguém se esqueceu de limpar a sarjeta para onde corre a merda destas opiniões todas.

Nota de rodapé - A propósito de argumentos imbecis: Mário Soares justificou em França a anormalidade da sua candidatura às presidenciais porque Cavaco Silva não tem o perfil humanista necessário para ser Presidente da nossa pequenina República. Quer isto dizer objectivamente o quê? Nadinha, acho eu.

segunda-feira, setembro 12, 2005

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Uma das grandes fragilidades das democracias ocidentais é o carácter não evolutivo e dogmático da sua filosofia política. Muito particularmente na Europa, os regimes não se questionam: colocar a democracia socialista em causa é a heresia suprema do Século XXI. Na medida que o dogma se vai perpetuando, os cidadãos, entretidos com a tecnologia e alimentados pela indústria, mal criados, mal educados e mal habituados, vão adormecendo sobre a noite decadente e abre-se na Europa um vazio de poder: o poder das ideias. E enquanto o crescimento cancerígeno de uma comunicação social completamente livre e integralmente irresponsável vai aniquilando as lideranças políticas - normalizando comportamentos até á morte da individualidade - instala-se na administração pública um buraco negro: a ausência de homens de génio.
Em Portugal, a Terceira República esgotou o seu modelo e isso é tão evidente que dá raiva ver esta gente toda a assobiar para o lado. A candidatura de Soares resume bem toda a decadência das instituições políticas: um homem antigo (nem importa realmente que idade tem) e que é o símbolo de um regime velho, justifica a sua candidatura com a resignada apreciação de que esse regime geronte que fundou é incapaz de produzir candidaturas contemporâneas com um mínimo de credibilidade (Manuel Alegre era outro homem antigo, e sem credibilidade nenhuma). Caso vença, Soares levará para Belém o mais arcaico modelo ideológico dos modelos ideológicos actualmente residentes nos palácios presidenciais de toda a Europa.
É por isto, e por tudo o resto, que é preciso ter consciência da inadequação dos paradigmas filosóficos, políticos e económicos que nos governam a vida social, antes que isso implique a falência técnica e moral da nação. É preciso perceber porque é que ficámos entregues a uma classe de dirigentes sem espírito, sem dignidade e sem ideias para além das que lhes ensinaram na quarta-classe de Salazar e nos cafés de Paris; bonecos de anedotário, obcecados por um assento confortável na Presidência da Vaidade, no Ministério da Inveja ou na Caixa Geral das Ganâncias. E é preciso agir. É preciso, por exemplo, usar as armas destes senhores e destas senhoras contra eles próprios. É preciso ignorá-los na televisão, é preciso ignorá-los nas eleições. É preciso fundar modelos teóricos e experimentá-los em células sociais. É preciso procurar soluções de gestão pública que devolvam as responsabilidades cívicas às pessoas. É preciso retirar ao estado a sua opulência disfuncional e acabar com a terrível mentalidade paternalista sobre os povos. É preciso deixar de submeter os intérpretes da vida política, e os desígnios autênticos do país, ao inquérito de pasquim e à lógica de tablóide. É preciso saber que podemos e devemos reinventar a democracia. Ou inventar uma outra utopia qualquer.
É preciso saber edificar a Quarta República.

segunda-feira, setembro 05, 2005

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Voando Sobre um Ninho de Corvos


(Original de 1993 em cinco posts)
POST TERCEIRO

O caso não é para menos, diz-me a enfermeira Saudade, gaguejando um pouco nos últimos pedaços gordurosos da sanduíche verde fungo. Eu entretenho-me a discordar. A opinião do louco Marques sobre a higiene íntima da enfermeira Saudade não tem qualquer significado pela razão simplória de que os loucos não têm opiniões; são opiniões. Péssimas opiniões, fedorentas e equívocas opiniões. Miseráveis, andrajosas, infames e dolorosas opiniões. Os loucos são essas opiniões envergonhadas dos doutores e dos sábios, dos ministros e dos profetas, dos construtores de civilização, dos professores, dos bastonários, dos juízes, dos serviços de emergência médica e dos génios da psicologia e da psiquiatria e do diabo que os carregue. Disfarçando o arroto carbónico da laranjada, a enfermeira Saudade perde-se no abismo e objecta com despeito: mas se o menino é louco, a sua opinião também não tem significado. Sim, sim, o caso não é para menos. Vou apresentar queixa do Marques. Isto não pode continuar. É uma indignidade. Saudade, que me trata por menino com a condescendência de um inquisidor espanhol, não percebe que me calou com Euclíades, o cretense mentiroso que dizia a verdade. Todos os loucos são mentirosos. Eu que o digo, sou Louco. E porque sou louco, sou mentiroso. Logo, nenhum louco é mentiroso. Se fosse um corvo, voava para Creta.

sexta-feira, setembro 02, 2005

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Os estudos laboratoriais que levaram à descoberta e industrialização da vacina contra a Poliomielite implicaram a morte de 3,6 milhões de chimpanzés.

Todos os anos milhões de animais são mortos, envenenados, torturados, queimados e gaseados em laboratórios de produtos cosméticos.
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Trova do Narciso Triste

Era uma vez um gajo que estava sózinho num quadrado e em guerra com toda a gente porque o mundo não lhe fazia a vontade e ele achava simplesmente irritante que ninguém percebesse do seu génio político até porque não há génio político que se lhe compare ou poeta que lhe transtorne os imaculados calcanhares.
Era uma vez Narciso Triste, candidato imbatível às presidenciais da inconsciência, distraído de espelhos como despido de humildade, velha glória da terceira república que agora morre e mesmo assim o senhor da nova política e da alternativa credível. Antifascista de suspensórios, senador na assembleia de si mesmo e todo ufano e todo ofendido, eis que discursa com pose de estadista encornado para a audiência de tasca que o aplaude, circunspecta.
Era uma vez a paciência.

sexta-feira, agosto 26, 2005

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Volta à Vergonha.

O que os franceses e os alemães estão a fazer com o Lance Armstrong é bem o exemplo da decadência moral da Europa. O homem deve ser para aí o atleta mais controlado pela polícia do doping de todos os tempos e o ciclismo deve ser para aí o desporto mais dopado da história universal. A Volta à França foi, até 1998, um retiro seguro para os dopers mais radicais e, nos últimos 40 anos, o único grande atleta que a venceu sem o empurrão da droga deve ter sido precisamente Lance Armstrong. O homem ganhou a Volta a França 7 vezes seguidas, fazendo chichi para a proveta dia sim, dia não. Não pode existir qualquer dúvida sobre a sua superioridade atlética e desportiva e é preciso não ter vergonha nenhuma para fazer uma coisa destas. É preciso ser-se francês ou alemão, é preciso ser-se baixote e pequenino, ser-se invejoso e traumatizado, mal formado e mal amado para conceber uma armadilha destas. Bem armada, para não dar lugar a contra-análises. Bem temporizada, para ser fabricada às escondidas do atleta. Bem promovida, para convencer os incautos. Que tristeza.

Voando Sobre um Ninho de Corvos


(Original de 1993 em cinco posts)
POST SEGUNDO

Também temos televisão. É importante termos televisão, muita televisão. Acho que guardam pássaros lá dentro. Quando me deixam sair da cela, o que acontece com uma curiosa e assimétrica raridade, é para a saleta da televisão que eu vou. O Fragoso está lá sempre à espreita dos pássaros, segurando o inseparável bacio como quem arma uma caçadeira de canos curtos. O Fragoso já cá mora há que tempos. Foi por causa de uma constipação, diz ele, daquelas que alteram a constituição metafísica do universo?, pergunto eu. Está sempre a escarrar para o penico e de vez em quando lá se masturba um bocadinho na saleta, à conta de certas gralhas do horário nobre. Os enfermeiros dão-lhe imensos chutos nos tomates, para ver se ele perde o vício, mas é debalde. Seja como for é um sujeito às direitas, o Fragoso; sempre com bons modos para os médicos, como se lhes entendesse a linguagem. Deve ser por isso que o deixam andar por todo o lado, ele e o seu querido escarrador de esmalte. Uma vez contou-me que cuspiu na cara de um sargento, quando esteve a cumprir o serviço militar nos Açores. Perguntei-lhe porque carga de água mas ele já nem se lembrava. Tem má memória, o Fragoso, mas é católico e volta não volta sai-se com umas rábulas sobre deus e o diabo e os arcanjos todos juntos para a festa do fim dos tempos. Nunca consegui acreditar no deus do Papa; a minha mitologia é outra: Zeus todo poderoso joga Black Jack no casino celestial. Aposta com vidas humanas e a banca ganha sempre. Pássaros. Olho para o telejornal e só vejo pássaros.

segunda-feira, agosto 22, 2005

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"Tudo menos importar-se com a humanidade! 
Tudo menos ceder ao humanitarismo! "
- Álvaro de Campos -

Tenho uma amiga que se considera "humanista". Que acha simplesmente impossível ser-se de outro modo. Ora eu, que acho até mais que possível; eu, que acho até muitíssimo aconselhável evitar um afecto apriorístico, generalista e piegas pelas pessoas todas; eu que acho até higiénico desconfiar da mole humana; tenho o prazer de discordar. Elevado este assunto a post do Elsinore, não tenho outro dever que a exposição de um breve argumentário.

Para já, para já: não sou um humanista porque tenho a consciência de que a humanidade é um virús. Se retirarmos o homem do universo, obtemos uma constante cósmica - um pleno de perfeição. O Chimpanzé, amigos, faz sentido. A Formiga Vermelha, a Mosca da Fruta, O Colibri e o Rinoceronte fazem sentido. Estas sim, são criaturas Sapiens, na medida em que têm a sabedoria campeã para qualquer locatário do Planeta Terra. Sobrevivem com competência e sentido estético, não fazem perguntas, não precisam de deus, não têm moral e não desfeiam a paisagem. Já o homem, caramba, o homem não faz sentido ontológico absolutamente nenhum porque precisa de transcendência e é uma bactéria religiosa, científica, civilizacional, complexa e, claro está, destrambelhada! Se a mãe natureza é um logaritmo imperfeito é apenas porque se deixou penetrar pelo Lambda irritante da alma humana! O homem é este animal que persegue ambições delirantes como o saber fenomenológico da origem das coisas, o mastigar constante da ideia do divino, o devaneio arrogante de pensar que existem conceitos penta-essenciais como a Verdade, o Conhecimento, a Imortalidade. Conceitos diletantes como o bem e o mal, o pecado e a redenção. É que o homem exige a redenção e o caminho para a redenção do homem é o humanismo. Digam-me: Algum golfinho seria insensato o que baste para ser um golfista? Só mesmo um homem para ser um humanista. Para acreditar em si próprio como alguém que merece a complacência de deus e o reconhecimento do espírito santo (entidades que - mesmo a propósito - ele próprio criou).
Henry George escreveu: "Homens e gaviões alimentam-se de frangos. Se aumenta a população de gaviões, diminui a de frangos. Mas se aumenta a população de homens, a população de frangos cresce também." A humanidade é um artificialismo, uma doença, uma disfunção endémica e imperialista, um problema na equação das coisas.

Depois: não sou um humanista porque as pessoas incomodam-me. Incomodam-me na praia e na estrada. Incomodam-me no cinema e na rua, incomodam-me no Verão e no Inverno, de manhã e à noite, incomodam-me mesmo e especialmente quando eu não quero ser incomodado. Incomodam-me os vizinhos, os carteiros, os técnicos de telemarketing, os arrumadores, os que passeiam, os que estão à espera, os que compram, os que vendem, os que trabalham, os que roubam, os que matam, os que esfolam; incomodam-me os que cravam, os que choram, os que perdem, os que ganham, os gordos e os magros, os mártires, os heróis, os que vão à pesca, os que vão para a festa e os que vêm da festa e os que jantam no mesmo restaurante que eu escolhi para não ser incomodado! Incomodam-me as filas de gente e os supermercados e as manifestações e os encontros de motards e as eleições autárquicas e a feira popular e as excursões e os espectáculos de circo com as criancinhas aos berros e os festivais de rock e os festivais de jazz e os festivais de loucura e os festivais de morte e os festivais de estupidez e o barulho estrondo que fazem dentro da minha cabeça!
Não há lugar de sonho no mundo que não passe rapidamente a pesadelo depois de ter sido infectado por pessoas. Não há sossego, se há pessoas. Não há paz, claro que não pode haver paz, quando há gente no cenário.
Schopenhauer escreveu: "Não se pode atribuir outra finalidade à nossa existência, senão a de nos ensinar que, para nós, seria melhor não existir".

A seguir: não sou um humanista porque o humanismo sempre levou certos incompetentes a pensarem que estavam à altura de tomar conta dos outros incompetentes todos. Um erro cujas consequências foram muitas vezes devastadoras para a... humanidade. Mais a mais, é por causa das derivações do humanismo em ismos diversos que as pessoas acreditam que podem ser donas do seu destino, como se isso quisesse dizer alguma coisa ou tivesse alguma importância gloriosa na estrutura fundamental do universo. Gaetano Mosca escreveu: "A igualdade absoluta nunca existiu nas sociedades humanas. O poder político nunca foi e nunca será fundado sobre o consentimento explícito das maiorias. Foi e será sempre exercido por minorias organizadas que tiveram e terão os meios, variáveis consoante o tempo, para impor a sua supremacia sobre as multidões".
Não é acreditando na santidade olímpica de um predador cruel e facínora, que se governa o animal. Assim, é-se apenas vítima dos seus piores instintos.

Mais: o humanismo é um tique egotista para nos sentirmos bem com a mediocridade e a ferocidade e a ignorância alheias. É uma maneira de, desculpando os outros, aliviarmos a nossa própria culpa. Só que o homem é o único e o derradeiro culpado. Camus escreveu: "Não podemos afirmar a inocência de ninguém, ao passo que podemos afirmar com segurança a culpabilidade de todos".

Acresce que: o humanismo é uma assumpção de filósofo caloiro. Herbert Spencer escreveu: "Ninguém pode ser perfeitamente livre até que todos sejam livres; ninguém pode ser perfeitamente moral até que todos sejam morais, ninguém pode ser perfeitamente feliz até que todos sejam felizes". Ora, se todos fossemos perfeitamente livres e perfeitamente morais e perfeitamente felizes, seríamos ainda assim capazes de discernir o que é isso da perfeição? Seríamos ainda assim vítimas de um pensamento humanista? Se o infeliz axioma existe é precisamente porque decorre da condição imperfeita, maliciosa, corruptora, degradante, vexatória e pestilenta do bicho homem. É porque sabemos que não prestamos para nada, que somos uns brutos e que estamos indefesos, que nos obrigamos à auto-comiseração.

Para terminar: não sou um humanista porque gosto apenas das pessoas de quem gosto. Não tenho amor por estranhos nem ternura por desconhecidos. Muito por causa disso não faço minhas as causas da multidão. Nem pretendo que sejam colectivas as minhas convicções individuais. Max Stirner escreveu: "Há tanta coisa a querer a ser a minha causa! A começar pela boa causa, depois a causa de Deus, a causa da humanidade, da verdade, da liberdade, do humanitarismo, da justiça; para além disso, a causa do meu povo, do meu príncipe, da minha pátria, e finalmente até a causa do espírito e milhares de outras. A única coisa que não está prevista é que a minha causa seja a causa de mim mesmo!"
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quinta-feira, agosto 18, 2005

Voando Sobre um Ninho de Corvos


(Original de 1993 em cinco posts)
POST PRIMEIRO

De súbito abrem a porta. Não é o pequeno-almoço, é mais um psiquiatra. Novato. Não há melhores e mais prestáveis cobaias no mundo clínico que os loucos e, entre os loucos, os furiosos. Os que rasgam cortinas e partem as cadeiras e berram como lobos ao luar e trepam pelas paredes; os que mordem a sério e cospem a valer e agridem os gorilas da segurança; os que espumam da boca e pontapeiam as enfermeiras na boca e são enfiados em camisas de forças antes que um corvo alcance a maturidade. Os loucos furiosos que são enfiados em camisas de forças antes que um corvo alcance a maturidade são o Santo Graal dos laboratórios de investigação psiquiátrica.
O tipo diz-me qualquer coisa que não percebo, repete-se com insistência e eu insistentemente continuo desentendido: nunca cheguei a ser fluente no idioma destes gajos. Fazem perguntas cretinas e querem saber tudo para escarrapachar nos seus mestrados e nas suas pós-graduações para impressionar catedráticos tão ignorantes como eles, mas mais velhos. Generalizando, acho que são extremamente bisbilhoteiros. Bisbilhoteiros e ininteligíveis, autênticos marcianos formados em medicina, criaturas de um pesadelo em BD. Quero o meu pequeno almoço. É inadmissível doutor, até os loucos - sobretudo os loucos - têm o direito inalienável à primeira refeição do dia. A insanidade não se alimenta assim, a pão e água e jejuns forçados. Se querem as sintomatologias, façam favor de contribuirem com as vitaminas!
O rapazote tenta comunicar algo, é um facto. Vá lá saber-se o quê. Primeiro a paparoca, depois a charada. É o meu lema, é o meu tema, é a fome - a mais negra de todas as carências, a mais apertada de todas as necessidades. Mesmo um doido sabe isso. Doutor, seja sensato, traga-me ovos mexidos, torta de ananás, sumo de laranja, pão de noz, Mozart, mulatas de seios vermelhos; traga-me batatas fritas e o conduto da metafísica, traga-me crocodilos em conserva, enfermeiras em calda, salsichas às rodelas, torradas com compota de foca e antes do banquete, traga-me o aperitivo de ser livre e por fim traga-me um belo Bairrada tinto para regar esta infelicidade de ter um vazio enorme no estômago e um psiquiatra de Marte na cela do hospício mais infecto de todos os infectos hospícios do universo. (cont.)

domingo, agosto 14, 2005

Este é grande.

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Gosto à brava deste aventureiro marinheiro. Casado com uma mulher nobre e fiel, sabe que pode partir para a viagem sem perigos de desonra. É esperto e é romântico (rara alquímica!). Gosto do Ulisses porque o homem não usa a cabeça só porque dá jeito ao elmo, tem presença de espírito e é assertivo e é pertinaz e resolve problemas e segue o seu caminho à procura não se sabe bem do quê. Isto, claro está, para além de estar sempre a querer regressar a casa (um gajo que percorre todo o mundo antigo para conseguir chegar a casa desperta-me uma ternura imensa). Gosto deveras deste construtor de barcos e de cavalos, deste engenheiro da aventura que - protegido por Atena, a Deusa dos Olhos Garços - se faz um herói como deve ser. E até mais que um mito grego, solidifica-se num deus católico e irlandês. Não é de se meter em brigas, mas vence a barbárie da violência, com violência se necessário for, com astúcia se proveito de superior qualidade lhe trouxer a inteligência. É corajoso mas não é parvo, e passa montes de tempo na proa, a perscrutar o horizonte mediterrânico, na senda da origem das coisas. Gosto dele.

Este é pequeno.

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Não gosto nada deste guerreiro interesseiro. Não gosto deste gajo que faz birras na presença de reis, que é invejoso de escravos e, mais cruel que valente, mais mercenário que soldado, permanece um enormíssimo maricas (afinal, quem é que alguma vez morreu com uma seta enfiada no tornozelo?). Armado em parvo e armado aos cucos, amantiado com um primo imberbe (e péssimo esgrimista), esmagando exércitos com a sua magnífica Excalibur de calibre helénico 3000 AC, Aquiles é, mesmo assim, um frouxo. É um frouxo porque faz tudo pelas razões erradas. Até quando entrega a Príamo o corpo morto e violentado do seu filho, o cavaleiro não é nobre porque fica pequenino de remorsos. Depois de ter cavalgado as sete colinas de Tróia com o cadáver de Heitor de rojo pelo mato, insultando de tragédia e ignomínia a alma troiana, corrompendo rituais sagrados e retirando ao seu adversário a glória da morte em combate, Aquiles é seguramente o bandido palhaço que vai ter remorsos. Não gosto dele.
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sábado, agosto 13, 2005

Ode ao Coentro

O mar das ameijoas sabe-me a seara lavrada:
bebo depois a sopa açorda - água de um moínho,
salpicada pelo tempero de um pico daninho.

Dizes-me coisas que voam pelo fluir da enseada
e confias em mim para me perder no caminho.
Essas aves são as palavras que bebo como vinho.

Conforta-me o gosto bravio da erva cozinhada
e o filete de pata roxa tem uma pitada de cominho.
É do teu lado da planície que a garça faz o ninho.

E quando se fecha a tarde no abraço da nortada,
é o aroma da flor que me chama, e eu entro
na tasquinha do Sr. António onde impera o coentro.
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quarta-feira, agosto 10, 2005

mixed feelings

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Estou exultante porque chegaram os valentes astronautas à boa e velha terra sãos e salvos (e com eles talvez todo um programa espacial). É o regresso do velho mito grego do retorno, agora com redenção da tecnologia humana, em directo na CNN e com um final feliz ainda por cima.
Estou triste porque não vivo ainda e não viverei nunca a idade matura da conquista espacial; que é o mesmo que dizer: da expansão verdadeiramente endémica do Virús Sapiens-Sapiens. Não consegui encontrar o link para a notícia de 5 de Agosto do DN mas acreditem em mim: um dos utensílios que o astronauta reparador levou consigo para consertar a estrutura cerâmica que impede o veículo espacial de se volatilizar quando entra na atmosfera terreste foi... fita adesiva. Sim, ou o Diário de Notícias está a abusar da minha credulidade ou a malta da NASA achou de facto pertinente apetrechar o seu mecânico estelar com a alquímica ferramenta que nós, cá em baixo, usamos para os mais prosaicos fins quotidianos, como selar uma encomenda postal ou isolar a corrente eléctrica. É verdade que o santo homem só precisou mesmo de alguma habilidade manual para executar a inédita tarefa, mas, por deus, a fita adesiva ia servir para quê?
O pomar da História está a apodrecer de provas: não é o estado que lança a humanidade para o mistério do porvir. É, sobretudo, a iniciativa individual - ou a ganância coorporativa - que movimenta com eficácia o homem na incessante viagem que faz do passado para o presente. A NASA está já fora do seu tempo. É corpo morto. Porque o tempo da conquista espacial é agora, o das empresas privadas.

Um Verão do Lado de Swan.

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O Guadiana Internacional; que vibra com as marés oceânicas e que, por isso, mantém este caudal majestático sobre o deserto acidentado do Sudeste Alentejano; é uma nação de memórias, um país líquido e prenhe de castros antigos e ódios ancestrais, de margens abrutas e ventosas com chilrreantes canaviais que de noite competem com o silêncio ensurdecedor das estrelas objectivamente falaciosas em cada pulsar. Combray, o idílio de Proust - esse anjo monocórdico que me fala por santas metáforas (que me fala de aristocratas que limpam o monóculo como quem muda um penso), Combray, o verdadeiro paraíso perdido, não tem o Guadiana de grande caudal salgado, agreste e venerável, falso de correntes, perigo fluvial e amigo de marinheiros, que lhe dê banho à literatura! Combray, por todo o amor que Proust tem pelos nomes, não ganha em glória nem em sonoplastia a Guerreiros do Rio, Guerreiros do Rio, caramba, um nome de uma terra como devem ser os nomes das terras que marcam a presença funesta dos homens!; um etimologismo grandioso e quizilento onde se encerra a paz que há no mundo e a insuficiência que há no homem. Combray, claro está, é um terreno para construtores de utopias: não dá lugar às realidades comesinhas da história ou da geografia e envolve Swan no primeiro mistério da existência, ele que é sujeito primordial do sindroma de Adão. Odette, o segundo patamar metafísico, substitui o pecado por culpa e, talvez por isso, lembra-me não o Guadiana mas antes o Cardeal inverso deste Alentejo que me liberta, e nele uma boca de sarjeta aberta sobre o tecido aldeão da Zambujeira, cuspindo a céu aberto e fechada rua o mijo que eu deitei por fora na casa de banho de um bar cujo nome obsceno suicidaria de pronto o bom do Marcel. Sem preocupações com a MTV, Proust passa ao lado do Festival do Sudoeste e vinga-se em Swan que se perde dentro da leitura que faço dele, uma espécie de rapto trans-material (beem him up, Scotty), para o transportar até ao reino da luz oblíqua, principado da razão pura. Passam as horas e esquecem-se os anos e as palavras permanecem estáticas, perfeitas, pérfidas e divinas. Swan deambula pelos corredores dramáticos do amor à procura em Vermeer de uma saída para o tédio, afinal fingindo e fugindo como eu da multidão que suja a bela paisagem flamenga da Costa Vicentina. Swan, o indisposto e indolente, o autómato da emoção, sem um rumo e expoliado de destinos, reverso inverso de um sentido para a vida - como um escravo regularmente sodomizado por deus - irmão gémeo de um nado morto, abandonado no ventre imenso de uma história que vive para além da cronologia relojoeira do Sapiens, nobre sobre a tragédia que o humilha, lembra-me outro amigo de Verão: Bach, ele mesmo maior que os deuses, compondo música celestial para adormecer um simples príncipe ou anunciando gloriosamente a entrada física e abjecta de um reles aristocrata na Câmara da Liga; Bach desperdiçando o talento extra-terrestre em merdas, como Swan ao sol negro do amor anti-cristão pela Senhora de Cressy.
Neste Verão, houve um certo paragrafar de Proust, um certo frasear de Bach, um certo conversar no Oceano, uma certa paixão que nasce quando amamos subitamente pessoas que conhecemos de súbito, outra certa perdição que nasce quando amamos para sempre alguém que sempre amámos, um certo amigo que acorda e sorri - e que só por isso nos faz felizes -, um sereno mergulhar no abismo de uma certa Praia, uma específica e romanesca sabedoria de um certo Rio, um determinado ladrar grato de um cão que amamos. Neste Verão houve consubstância ontológica. Afinal, é bom ter férias.

Dramaturgia do crime (ou a má criação)

Downtown Los Angeles, quarto de hotel manhoso.
O cadáver estende-se horroroso
num disparate de fragmentos coagulados
sobre a colcha, a alcatifa e os cortinados.
Philip Marlowe apaga o cigarro na poça de sangue mais à mão,
coça o nariz e diz fodasse, que puta de confusão.
Agatha Christie ruburiza numa vitoriana censura da sintaxe
enquanto Sherlock Holmes enfia a lupa nos invólucros usados do tampax.
Chega entretanto Colombo, coxeando da perna boa e de gabardine infecta
desconfia logo de um incógnito penetra;
atrás vem Ventoinha, o inspector que detecta
a arma do crime: uma escova de dentes de afiadas cunhas
com que Perry Mason se entretém a tirar o sebo da unhas.
Crime disse ela, Miss Marple que entra em cena,
já bolorenta de atrites e demais maleitas de madalena,
procurando o amparo de Hercule Poirot que em dieta de emoções
vai cofiando o bigode como quem coça os colhões.
Todos contra todos, decidem-se a resolver o mistério
para redenção da hotelaria e salvação do império.
Até que Marlowe se chateia e vai de boleia,
até que Agatha se irrita e desabita,
até que Sherlock se aborrece e desaparece,
até que Colombo se mira e retira,
até que Ventoinha se perde e despede,
Até que Mason se corta e sai pela porta,
Até que a velha tralha se espalha,
até que Hercule se basta e leva a pasta,
para não ficar ninguém no quarto manhoso
a não ser o cadáver horroroso
que se suicidou às postas
(por um negócio de apostas
em cavalos doentes),
com uma escova de dentes.

sexta-feira, julho 08, 2005

O terror vencedor.

Nas últimas quarenta e oito horas, eu vi: um gajo esquizofrénico na Escócia, de capacete, bandeira greenpeace e farda para o combate, arremessar pedregulhos contra polícias que iam fugindo como podiam. E homens e mulheres (cujo pecado capital será dirigirem-se para o emprego que têm em Londres) assassinados, decepados, feridos, aviltados, aterrorizados por um outro esquizofrénico, que, se tivesse livre acesso ao tecido multicolor, também gritava Quioto. Só me faltou o bom do Geldorf, que devia organizar um concerto a favor das vítimas da paz.
O mundo, como roda hoje, dá vontade de vomitar.

O Inverno de Vivaldi.

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É natural que escape ao ouvido, mas não pode fugir ao escrutínio de quem quer saber: Antonio Vivaldi foi ordenado sacerdote aos 25 anos (1703) e em 1737 (34 anos depois) é acusado pela igreja de, muito simplesmente, nunca ter celebrado missa. Quem se dá ao delírio de ouvir repetidamente o Alegro non molto do Inverno deste mestre, percebe bem que não existe Deus nenhum na alma do homem. Nas palavras de Vivaldi (e em sua própria defesa numa carta endereçada ao Marquês de Montivoglio): "Posso sair para passear depois do jantar, mas nunca vou a pé. Esta é a razão pela qual nunca celebro missa." E, na mesma carta, de forma ainda mais lapidar: "Estive em Roma três vezes para estrear uma ópera em tempo de Carnaval, mas nunca celebrei lá missa."
Este bom, velho, nobre, hipocondríaco e virtuoso bocado de ser humano soube fazer sempre o exercício necessário para ganhar o seu lugar na história da humanidade. E - como é claro - nada disto está directamente relacionado com um Deus estúpido que - para além de não existir - é imerecedor de uma caminhada. E indigno de um concerto em Roma. Mesmo em tempo de Carnavaladas.
Vivaldi, treinado e orquestrado para ser devoto, mandou a igreja para o diabo que a pudesse em boa hora carregar. E, perdendo nenhum tempo com coisas insubstantivas como dizer a missa, dedicou-se alegremente a compor a música que, 3 bons séculos depois, ainda diviniza as quatro mutações da natureza.