Volto ao zero,
donde nunca saí, submisso.
Não cheguei a ser o que pensei que seria,
nem mostrei vero,
o que é omisso:
não há tabaco na tabacaria.
Regresso ao fracasso
e ao compromisso,
falido de futuro e falhado da fantasia.
Já fui duro como o aço,
mas deixei-me disso:
não há tabaco na tabacaria.
Decaio no abismo
com um pára-quedas postiço.
Apesar do medo, da vertigem e d'alergia,
recuso o alarmismo
e aceito o enguiço:
não há tabaco na tabacaria.
Volto pela estrada
que nunca fiz, ao serviço
de todos os campeões da vilania.
Não sou nada, nunca serei nada
e, à parte isso,
não há tabaco na tabacaria.
Não sou nada, nunca serei nada
e, à parte isso,
não há tabaco na tabacaria.
terça-feira, agosto 04, 2015
quarta-feira, julho 29, 2015
A Terceira Guerra Mundial, agora.
Neste incrível site da Norse é possível assistir, em tempo real, ao desenrolar de uma boa parte dos ataques informáticos que estão a acontecer na net. Como é fácil de ver, a China está a ganhar. E os americanos estão sempre a levar porrada. A imagem é um gif feito à pressa, porque o mapa não tem funcionalidade de partilha para o blog. Mas vale mesmo a pena visitar o site. Impressionante.
terça-feira, julho 28, 2015
Um bocadinho de caos.
O filme é assim-assim, mas a banda sonora, bom deus, vai aos limites. Uma abençoada concessão de Peter Gregson aos deuses da harmonia.
Jornal de Letras - Edição Especial - Inferno, de August Strindberg
| Crónica publicada a 21/05/15 |
É imperativo iniciar esta breve recensão com uma advertência: “Inferno” (Sistema Solar, 2015) será, muito provavelmente, um dos livros mais estranhos – e arrepiantes – alguma vez escritos. Não diga portanto o gentil leitor que não foi devidamente avisado. Daqui para a frente, está por sua conta e risco.
Dramaturgo, novelista, poeta, ensaísta, pintor, teósofo, químico, alquímico, botânico, telepata, espiritualista e feiticeiro, Johan August Strindberg (1849 – 1912) é um daqueles personagens da literatura que faz feliz qualquer biógrafo. Criativo errante e insano, multi-facetado e sobre-dotado, ateu e deísta, protestante e católico, blasfemo e devoto, romântico e naturalista, socialista e niilista, criatura avant-garde no sentido literal e lato, o célebre sueco é de tal forma um protagonista da sua própria literatura que até a demência que o afectou durante largos anos da sua existência é, por muitos críticos, considerada uma figura de estilo.
Apesar de tudo, Strindberg mantém a bom nível performativo a superstição científica, que lamentavelmente o caracteriza: tenta convencer-nos que a borboleta-caveira (Acherontia atropos) deve a sua imagética ao facto de se alimentar de «alcalóides vegetais aparentados com a morfina mas muito próximos de venenos cadavéricos.» A tese desenvolve o argumento espantoso que o insecto é atraído pelo cheiro a mortos e a decomposição, pelo que procura os cemitérios, as lixeiras e as imediações dos cadafalsos e das forcas, onde observa crânios humanos. Estas imagens tenebrosas actuam sobre os «nervos da borboleta», que é bastante impressionável e somatiza o horror numa representação biológica para-darwiniana que dá vontade de rir. Também é cómica – se não fosse trágico-cómica – a sugestão de que um touro que perdeu a cauda ao entalá-la na porta do estábulo poderá gerar uma raça bovina sem rabo.
Mas há mais ciência mística: o enxofre, por exemplo, tem forçosamente que integrar o carbono (e Strindberg afirma que o encontrou), mesmo depois de Lavoiser ter demonstrado, duzentos anos antes, que se trata de um elemento químico e não de um composto. O mesmo acontece com o ouro, que o autor acredita ser um composto de enxofre e ferro, contra tudo o que nos ensina a tabela periódica (o ouro nem sequer faz parte do mesmo grupo de metais que o enxofre). Também nesta circunstância o alquimista impenitente chega a acreditar que de facto fabricou a substância áurea, no seu laboratório de Panoramix.
Aliás, para Strindberg, incondicional amante do absinto, a realidade é transformista: vê perfeitamente duas mãos em prece no embrião codiforme de uma noz, gnomos e duendes nas pedras de carvão, divindades satânicas nos móveis do quarto e nas carcaças dos caranguejos. Zeus deita-se na sua cama e o travesseiro desenha gárgulas, monstros, dragões. Por seu lado, vá-se lá saber porquê, os cães raivosos assemelham-se a dinamarqueses. Mas não é só a realidade física que constantemente se transmuta em novos horrores. Como uma espécie de Ovídeo ao contrário, o narrador desdobra-se na mesma medida em alterações da metafísica: «Todos os antigos deuses se transformaram na época seguinte em diabos. Os habitantes de Olimpo transformaram-se em demónios: Odin, Thor, o diabo em pessoa. O Portaluz Prometeu-Lúcifer degenerou em Satanás. Cristo (…) ter-se-á transformado (…) em demónio.»
Neste caldo fundamental de deuses e diabos em metamorfose para todo o sempre, a vida – essa grande teoria da conspiração – é preenchida penta-dimensionalmente por premonições, pesadelos, visões, indícios, revelações, sinais e suspeitas. A própria bíblia é um oráculo na valsa da loucura e, uma simples vela que perde um simples pedaço de cera, anuncia logo e por certo uma morte na família. Quando, depois de várias semanas encobertas por um espesso manto de nuvens, surge um raio de sol que ilumina a sala, essa luz fortuita não se pode dever ao acaso: é um sinal, um milagre, um apelo do todo poderoso. O Eterno falou.
Em Paris ou em Lund, na taberna ou com a família, Srindberg está rodeado de inimigos. Russos, devotos, católicos, jesuítas, teósofos, druidas, médicos, demónios visíveis e invisíveis, fúrias, potências, espíritos, donos de hóteis, médicos, polícias e ladrões, transeuntes e estranhos, todos são suspeitos – e muito especialmente os electricistas. A electricidade, para o autor sueco, tem super-poderes; levanta facas e ameaças, possui sexualmente a alma, é um verdadeiro incubo, para o qual não há exorcismo conhecido. Seja como for, metade da população mundial quer assassinar o autor por acusações de feitiçaria e, a outra metade, por insinuações de magia negra. E não que o bardo sueco seja completamente inocente: segundo ele próprio admite, basta-lhe escrever uma carta a um astrónomo para que o desgraçado pereça uns dias depois.
O perspicaz leitor já percebeu de certeza que o auto-biografado sofre de desvios esquizóides como a mania da perseguição. De facto, Strindberg parece ser vítima de uma quantidade exuberante de patologias de ordem físico-química, reais e imaginárias. Nada mais nada menos que paranóia, neurastenia, esquizofrenia, hipocondria, electrofobia, insónia, angina de peito, enfisema e psoríase.
Apesar do seu delicado estado de saúde e da ainda mais periclitante condição financeira, não encontrando sequer consolação no reencontro com a sua família, o infeliz acaba até por ser expulso pela mãe, nestes termos lapidares: «Vai-te embora, meu filho, estou farta deste cheiro a Inferno.»
Sob o signo de Emmanuel Swedenborg, o «buda do norte», místico, cientista e teólogo do século XVII, será talvez possível a redenção, o remédio contra a demência, a claridade. Mas o grande turbilhão das divindades – e o vácuo que cria na consciência -, a miséria e o mistério aconselham à resignação. No fim, uma temporária conversão ao catolicismo e a vaga e impraticável hipótese de retiro num mosteiro belga, mesmo assumindo cristo como um falso profeta. No fim, a interminável espera por um cheque da Academia Sueca, que não vai chegar nunca. No fim, como no princípio: o abismo e as trevas.
Perante o inferno de Strindberg, até Dante parece um menino de escola.
O erro de Obama.
Segundo a ESA - Agência Espacial Europeia - que nestas coisas e até muito fora do seu mandato, costuma ser extremamente alarmista, o Ártico recuperou, em 2013, 41% do gelo que, segundo a mesma agência, tinha perdido entre 2010 e 2012.
Estes números, claro, não fazem e nunca fizeram sentido nenhum. As variações climáticas do planeta estão completamente fora do domínio deste género triste de aprendizes de feiticeiros, mas não deixa de ser curioso verificar que, mesmo quando os registos são "bons", dá-se-lhes logo o devido spin: esta notícia vem com a consideração esperta que o verão frio de 2013 só atrasou o degelo apocalíptico, que é inevitável. O degelo apocalíptico é inevitável desde os anos 70 do Século XX. Passam as décadas e quem está à espera de se suicidar através do degelo apocalíptico pode esperar sentado. Os filhos dos desgraçados que estão à espera do degelo apocalíptico para morrer também vão poder esperar sentados. Isto é tudo, na verdade, uma anedota sem graça.
O facto, quer queiram quer não, é que as temperaturas médias globais têm diminuído desde 1997 e que os mais recentes estudos sobre o impacto dos oceanos no clima revelam que estamos até a entrar numa época de "cooling down". O simples conceito de temperatura média global é altamente discutível e é claro que estas afirmações estatísticas também são vazias de significado, porque trinta anos na história do clima terráqueo querem dizer tanto como cem ou cinquenta mil e duzentos, ou seja: nadinha. A tese do aquecimento global é de tal forma disparatada que até a sua contestação decai para o ridículo.
Grande e antigo vendedor de mitos multi-apocaliptícos e campeão maluco das causas ecológicas (no sentido pueril e mediático do termo e talvez por falta evidente de outras que impliquem mais coragem e inteligência), o sr. Obama decidiu congratular-se e congratular hoje, através da sua excelsa presença no Facebook, o conglemerado de grandes empresas norte-americanas que decidiram desperdiçar 150 mil milhões de dólares no "combate às alterações climáticas".
A simples pretensão de que 126 mil milhões de dólares podem fazer uma mínima diferença em equílibrios geofísicos com idades mais antigas que a imaginação e que transcendem até o estrito âmbito do planeta (o clima na Terra é directamente influenciado por fenómenos que ocorrem no sistema solar), é demasiado pornográfica para parecer real. Mas a ingenuidade também choca. A Apple, a Microsoft, a Google, a General Motors, as duas coca-colas e o Bank of America, entre outros belos exemplos de máximo cinismo comercial, estão nisto de "reduzir a pegada de carbono no planeta" porque o negócio é bom. O negócio tem um potencial de poupança fiscal escandaloso e os consumidores já estão devidamente infectados com o medo do clima: ser verde vende à brava.
A boa notícia de que Obama fala na sua inominável página social é afinal que a América está a gastar muito dinheiro em marketing. A má notícia que o senhor não confessa, talvez até por ignorância de tudo, é que a América tem uma estratégia de marketing errada.
Estes números, claro, não fazem e nunca fizeram sentido nenhum. As variações climáticas do planeta estão completamente fora do domínio deste género triste de aprendizes de feiticeiros, mas não deixa de ser curioso verificar que, mesmo quando os registos são "bons", dá-se-lhes logo o devido spin: esta notícia vem com a consideração esperta que o verão frio de 2013 só atrasou o degelo apocalíptico, que é inevitável. O degelo apocalíptico é inevitável desde os anos 70 do Século XX. Passam as décadas e quem está à espera de se suicidar através do degelo apocalíptico pode esperar sentado. Os filhos dos desgraçados que estão à espera do degelo apocalíptico para morrer também vão poder esperar sentados. Isto é tudo, na verdade, uma anedota sem graça.
O facto, quer queiram quer não, é que as temperaturas médias globais têm diminuído desde 1997 e que os mais recentes estudos sobre o impacto dos oceanos no clima revelam que estamos até a entrar numa época de "cooling down". O simples conceito de temperatura média global é altamente discutível e é claro que estas afirmações estatísticas também são vazias de significado, porque trinta anos na história do clima terráqueo querem dizer tanto como cem ou cinquenta mil e duzentos, ou seja: nadinha. A tese do aquecimento global é de tal forma disparatada que até a sua contestação decai para o ridículo.
Grande e antigo vendedor de mitos multi-apocaliptícos e campeão maluco das causas ecológicas (no sentido pueril e mediático do termo e talvez por falta evidente de outras que impliquem mais coragem e inteligência), o sr. Obama decidiu congratular-se e congratular hoje, através da sua excelsa presença no Facebook, o conglemerado de grandes empresas norte-americanas que decidiram desperdiçar 150 mil milhões de dólares no "combate às alterações climáticas".
A simples pretensão de que 126 mil milhões de dólares podem fazer uma mínima diferença em equílibrios geofísicos com idades mais antigas que a imaginação e que transcendem até o estrito âmbito do planeta (o clima na Terra é directamente influenciado por fenómenos que ocorrem no sistema solar), é demasiado pornográfica para parecer real. Mas a ingenuidade também choca. A Apple, a Microsoft, a Google, a General Motors, as duas coca-colas e o Bank of America, entre outros belos exemplos de máximo cinismo comercial, estão nisto de "reduzir a pegada de carbono no planeta" porque o negócio é bom. O negócio tem um potencial de poupança fiscal escandaloso e os consumidores já estão devidamente infectados com o medo do clima: ser verde vende à brava.
A boa notícia de que Obama fala na sua inominável página social é afinal que a América está a gastar muito dinheiro em marketing. A má notícia que o senhor não confessa, talvez até por ignorância de tudo, é que a América tem uma estratégia de marketing errada.
segunda-feira, julho 27, 2015
Crónica do Tour.
Com 4 candidatos à vitória (Froome, Nibali, Quintana e Contador), esta Volta à França prometia mais do que realmente veio a oferecer. Logo na primeira etapa de montanha a sério, nos Pirinéus, Chris Froome deixou toda a gente para trás, somando à diferença que já tinha acumulado nas etapas anteriores tempo de sobra para pensar na meta em Paris com um sorriso e demonstrando um poder tal que nunca mais se livrou das costumeiras e imbecis acusações de doping. Aliás, os franceses demonstraram bem que género de povo vil são. O líder da Ski, de longe o melhor ciclista em prova, foi agredido com urina, com cuspo, com murros, com vitupérios e com insinuações que são muito dificeis de aceitar, sem que a organização fizesse fosse o que fosse para proteger o atleta.
É verdade que, nos Alpes, Quintana, Nibali, Contador e Valverde deram uma excelente luta ao camisola amarela, mas Valverde lutava apenas pelo seu primeiro podium na competição, Nibali estava já demasiado atrasado para ser uma ameaça, Contador, depois de ter ganho o Giro de Itália, já não tinha pernas para grandes aventuras e Quintana atacou tarde demais, vítima de uma estratégia muito pouco ambiciosa da Movistar, que nitidamente preferiu consolidar o segundo e o terceiro lugar na classificação geral. A vitória de Froome é, assim, incontestável. E até a camisola às bolinhas para o melhor montanhista da prova lhe cai às mil maravilhas, sendo que não é lá muito comum que o primeiro classificado do Tour seja também o vencedor do prémio da montanha.
Seja como for, o Tour é sempre um espectáculo fabuloso e, em 2015, não houve excepção à regra. Quando foi apanhado na confusão que levou à queda mais aparatosa da corrida e que vitimou também Rui Costa, Cancelara voava a 85 kms por hora (dados GPS). As velocidades máximas alcançadas, em plano e nas descidas, bem como as médias horárias da edição de 2015 foram, regra geral, absolutamente arrepiantes. O esforço dos atletas manteve o nível épico de sempre e nunca faltou emoção nas 21 etapas do evento. Heróis também não. Peter Sagan, o vencedor por pontos da competição, deu constante espectáculo e, apesar de se ter esforçado até aos limites físicos e anímicos da capacidade humana, não conseguiu ganhar uma etapa que fosse. Thibaut Pinot, terceiro classificado da edição transacta e uma das grandes desilusões das primeiras duas semanas da corrida deste ano, passou a última semana ao ataque, num esforço desenfreado e insano, que muitos criticaram, e que só na última etapa alpina, com chegada ao mítico Alpe d'Huez, deu frutos. Pinot cerrou os dentes e triunfou, apesar da ameaça de Quintana. Vicenzo Nibali, que ficou desde muito cedo sem nada a perder, mostrou porque é um grande campeão e porque é que o ciclismo de alta competição é uma modalidade apaixonante, garantindo o protagonismo em variadíssimas situações da corrida e atacando bravamente, quando outros, que tinham mais a ganhar, se acobardaram. Na ausência de Kittel, a Alemanha contou com a grande forma de André Greipel. O melhor velocista em prova ganhou 4 etapas com a eloquência de um puro sangue, deixando outros grandes sprinters como Cavendish, Kristoff e Coquard a sonhar com melhores dias.
Uma última nota para Rui Costa. Nas últimas duas edições do Tour, que coincidiram também com a circunstância de ser líder da Lampre, Rui Costa desistiu por alegadas razões de ordem física. A sua liderança na equipa, para voltas de 3 semanas, estará por certo comprometida. O que é uma pena. Mas não uma catástrofe. O Rui poderá sempre ser bem sucedido em clássicas, em provas de menor duração e em competições como os campeonatos do mundo ou os Jogos Olímpicos. Não terá talvez características de ordem física e psicológica para ser líder de uma equipa no Tour. E é bom que o atleta defina estrategicamente o que pretende fazer no futuro.
Ah, pois é.
Os automóveis do Século XXI são, na verdade, sistemas informáticos. O problema é que, como a maior parte dos sistemas informáticos contemporâneos, são muito frágeis no que respeita à protecção contra ataques de hackers. Assustadora reportagem, na Wired.
sexta-feira, julho 24, 2015
Poema do Gajo do Terceiro Anel
O gajo do terceiro anel senta-se sempre atrás da assembleia.
E se chega à praia com a maré cheia,
espera que fique vazia, para ter o espaço que é preciso
para ser dono das costas dos outros.
O gajo do terceiro anel é uma espécie de lanterna-vermelha-de-propósito,
prefere seguir na poeira derradeira a fazer parte do pelotão compósito.
O gajo do terceiro anel é claramente o mais insuportável dos arrogantes
e não se importa de apanhar com a merda dos elefantes,
desde que não siga com a coorte do marajá, desde que siga atrás do cortejo
e desde criança que sempre sentiu o desejo
de encostar a carteira simétrica
à parede final da sala, na aula de aritmética.
O gajo do terceiro anel já não vai ao cinema desde que acabaram
com o segundo-balcão
e nunca teve a infeliz ideia de comprar um bilhete para o peão.
O gajo do terceiro anel chega a ter pena
dos desgraçados que se sentam demasiado perto da arena.
O gajo do terceiro anel insiste no lugar lá atrás de todos os lugares atrasados,
mesmo quando o concerto está a meia casa
(o gajo do terceiro anel acha que não deve sofrer com os petardos
de suor que são projectados
pelo entusiasmo capilar do maestro).
O gajo do terceiro anel prefere estar sozinho quando devia seguir acompanhado
e é por isso que nunca vai dar um bom soldado.
E se chega à praia com a maré cheia,
espera que fique vazia, para ter o espaço que é preciso
para ser dono das costas dos outros.
O gajo do terceiro anel é uma espécie de lanterna-vermelha-de-propósito,
prefere seguir na poeira derradeira a fazer parte do pelotão compósito.
O gajo do terceiro anel é claramente o mais insuportável dos arrogantes
e não se importa de apanhar com a merda dos elefantes,
desde que não siga com a coorte do marajá, desde que siga atrás do cortejo
e desde criança que sempre sentiu o desejo
de encostar a carteira simétrica
à parede final da sala, na aula de aritmética.
O gajo do terceiro anel já não vai ao cinema desde que acabaram
com o segundo-balcão
e nunca teve a infeliz ideia de comprar um bilhete para o peão.
O gajo do terceiro anel chega a ter pena
dos desgraçados que se sentam demasiado perto da arena.
O gajo do terceiro anel insiste no lugar lá atrás de todos os lugares atrasados,
mesmo quando o concerto está a meia casa
(o gajo do terceiro anel acha que não deve sofrer com os petardos
de suor que são projectados
pelo entusiasmo capilar do maestro).
O gajo do terceiro anel prefere estar sozinho quando devia seguir acompanhado
e é por isso que nunca vai dar um bom soldado.
terça-feira, julho 21, 2015
Nem ela, nem eu.
Alabama Shakes . Don't Wanna Fight
Brittany Howard, a grandiloquente protagonista dos Alabama Shakes, parece em definitivo não estar disposta a mais querelas. Já somos dois. E nesta concórdia, fica uma malha daquelas que vão ficar uns anos no ouvido. A bombar.
segunda-feira, julho 20, 2015
Jornal de Letras - Edição Especial - Antes do Destino, de Márcio Alves Candoso
| Crónica publicada a 19/06/15 |
“Antes do Destino” (Rui Costa Pinto Edições – 2015) é um exemplo especialmente gritante desta triste sina. Especialmente gritante porque o autor não merecia o anacrónico objecto gráfico de que foi vítima: este é o primeiro livro de poemas de Márcio Alves Candoso, mas até podia ser o último. Chama-se Antes do Destino, mas podia chamar-se Depois. O autor não é propriamente um rookie e a sua poesia, valente e sonora, substancial e épica, matura e pensada, a sua poesia massacrada por décadas de revisões e cortes e acréscimos e alterações de humor, a sua poesia heróica precisava de um outro palco de papel. Adiante.
É preciso dizer que Márcio Alves Candoso não está interessado no poema pelo poema. Cada estrofe tem não sei quantas significações de forma e de conteúdo. Recusando a elipse e o vácuo, os versos correm multidimensionalmente em linhas rectas como setas e em todas as direcções da sintaxe e da semântica, na corrente eléctrica de alta voltagem que alimenta um existencialismo reinventado a partir do tudo e do nada.
Mostraremos as mamas, sim, filha,
e dormiremos tempos vastos nos colchões gastos
com totobolas sem prémio.
O autor “descasca o pessegueiro” da lírica com uma má disposição carismática e sem medo de ninguém. Entre o poeta e os outros cria-se um elo maldito de desdém apaixonado, uma vontade de vomitar que chega com mais ou menos rapidez ao orgasmo redentor, onde o entendimento é possível, mas não a concórdia. Há aqui uma veemência que precisa de muitos anos de vida e de bastantes porradas para ser verdadeira – e há muita verdade nestas páginas.
Que cretinosa, malcheirosa pieguice
messiânica vai chegar para abater esta vontade
com que, rubros os campos, astralmente vamos
expandir látimos de glória onde se arregalam
olhos de colossal conquista?
Manifestando-se num eixo instável e incongruente que percorre o trajecto infinito que vai de Horácio a Ginsberg, “Antes do Destino” é um livro quase enciclopédico. Carregado até mais não de referências e cruzamentos de referências, excessivamente epigrafado, com citações e dedicatórias a cada passo (outro aspecto em que se nota a ausência de um trabalho editorial mais rigoroso), brilhantemente prefaciado por Bruno Oliveira Santos (cujo texto introdutório à poesia de Márcio Alves Candoso levará invariavelmente o crítico ao abismo da redundância), este é um trabalho violento e generoso, quase obsceno, porque exige do leitor uma honestidade insustentável e demanda, do mundo, uma obediência que transgride os mais tolerantes protocolos.
Pára os pseudónimos e os tolos fingimentos
que chegou o tempo de beijar-te as coxas!
Para Márcio Alves Candoso, o amor é um tempo de cólera. Uma demanda utópica. E o sexo transforma-se num conto de fadas para maiores de 18 anos.
Quando Carolina do Mónaco perdeu os três assim,
como outra qualquer,
Cinderela deixou de correr ansiosa ao toque da meia noite.
Raramente encontramos, nos escaparates contemporâneos, poesia que pese tanto: gorda sem gorduras, anafada de misérias, alegre de angústias, eloquente de singularidades lexicais, mostra de versos raivosos e meias histórias arrancadas a ferros da existência, essa tágide-meretriz-mãe que vai parir, inevitavelmente, estrofes sónicas para ler aos gritos e com lágrimas.
E vim do chão, do sol, para rasgar a cabeça
com navetes que nos estalam a porcaria dos nervos.
E vim bêbado e límpido por dentro atrás do novo quinhão de raiva
que é ser nada fora da poesia.
(…) Vós sois folhas mortas
Eu venho da raíz e rumo às copas
às cúpulas e às cópulas
que não entendereis nunca!
O som e o ritmo são importantes, urgentes, para o poeta (como em Europa, um poema que reinventa o usa da língua e o destino de um continente), mas são apenas um meio para um fim. E o fim é a literatura, claro. A poesia de Márcio Alves Candoso não nasceu para ser coroada de louros, elevada pelos críticos ou glorificada pela posteridade. A sua missão é ser escrita e ser lida. Tudo o mais é menos que o desejo de regressar à erudição do zero absoluto:
Ah, quem me dera ser analfabeto!
quinta-feira, julho 16, 2015
Plutão como ele é.
Já não precisamos de ilustradores para ter uma imagem decente de Plutão. Por enquanto, a NASA só divulgou estas duas fotografias, mas outras se hão-de seguir, por certo. Entretanto, a sonda New Horizons segue viagem, para os confins do Sistema Solar.
domingo, julho 12, 2015
Viagem aos limites do Sistema Solar.
Quando a New Horizon partiu da Terra, há dez anos atrás, Plutão ainda era considerado um planeta. Hoje já todos sabemos que foi despromovido à categoria de calhau, mas isso não retira nenhum interesse à missão da pequena sonda (tem o tamanho de um piano e o peso de um violoncelo): Plutão é o corpo celeste mais misterioso e tímido do Sistema Solar. Descoberto em 1930 por Clyde Tombaugh, ainda não deu uma volta inteira ao Sol nos 85 anos que entretanto decorreram. Nem os telescópios mais potentes conseguem uma imagem decente do planeta-anão e ainda não sabemos, muito simplesmente, quantos satélites tem. Plutão é tão distante da terra (5.763.920.000 kms) que a totalidade da informação recolhida pela New Horizon vai demorar um ano a fazer a viagem de regresso (embora as primeiras imagens fotográficas possam chegar quatro horas depois de serem tiradas). Mas nessa informação estão os segredos da jóia do Cinturão de Kuiper, e dos limites do Sistema Solar. Até porque a New Horizon continuará a sua viagem na direcção dos abismos do espaço.
A partir de terça-feira, há uma nova fronteira conquistada.
Mais coisas sobre esta viagem épica na Wired.
sábado, julho 11, 2015
Galáxia Zen
Eis a Via Láctea, em três frequências de cor, segundo o Spitzer Space Telescope. Dá vontade de sair daqui. Dá vontade de foguetões.
Algumas ideias básicas sobre a hipótese de uma invasão extraterrestre.
Parágrafo eloquente tirado de uma entrevista da Wired a Ernie Cline:
“[In movies] they just come down and begin to conduct a World War II-style ground invasion against us, with ship-to-ship combat, because it’s all really great and cinematic and a lot like Star Wars. But why would the aliens do that? They could just hurl a meteor at Earth if they wanted to exterminate us. Or why do they even come to Earth to begin with? The idea is always that Earth is this perfect, rare, blue world, but it’s perfect for us because we evolved to live here, but for any other alien they always have to terraform Earth. Well why not terraform a lifeless world that’s not inhabited by nuke-wielding monkey boys who are going to fight back? … And if an intelligent species has the technology to travel light years across interstellar space with these massive warships, then they’ve probably reached the Singularity, and they’d be beyond the need for anything that we have.”
“[In movies] they just come down and begin to conduct a World War II-style ground invasion against us, with ship-to-ship combat, because it’s all really great and cinematic and a lot like Star Wars. But why would the aliens do that? They could just hurl a meteor at Earth if they wanted to exterminate us. Or why do they even come to Earth to begin with? The idea is always that Earth is this perfect, rare, blue world, but it’s perfect for us because we evolved to live here, but for any other alien they always have to terraform Earth. Well why not terraform a lifeless world that’s not inhabited by nuke-wielding monkey boys who are going to fight back? … And if an intelligent species has the technology to travel light years across interstellar space with these massive warships, then they’ve probably reached the Singularity, and they’d be beyond the need for anything that we have.”
terça-feira, julho 07, 2015
I Don't Believe In The Sun: um poema de amor para alterar as leis da física.
| Crónica publicada a 04/05/15 |
"69 Love Songs is not remotely an album about love. It's an album about love songs, which are very far away from anything to do with love."
STEPHEN MERRITT
Ao contrário do que se pode suspeitar pelo texto anterior desta série, que contava a história, real e vivida, do tema "Reno Dakota", Stephen Merritt nunca acreditou que, para escrever de enfiada uma quantidade impensável de músicas de amor, seria preciso ao autor passar necessariamente pelo corredor de horrores de várias e diversas experiências românticas (graças a deus!). O projecto "69 Love Songs" não seria, afinal, um manifesto ontológico mas si antológico, ou seja, conceptual. Quase enciclopédico. O que interessava a Merritt não era o amor, mas o conceito da música de amor. E é por isso que, nos 69 temas deste grandioso exercício, encontramos trovas medievais e melodias folk, faixas pop ao jeito dos Beach Boys, trechos psicadélicos do género Grateful Dead, peças obsessivas-compulsivas que lembram Joy Division e toda uma panóplia de estilos e vocações que vão do A ao H da esquizofrenia harmónica e da patologia lírica.
Na
duração intransigente deste percurso estético, encontramos textos que
procuram explorar os limites criativos da comicidade, tanto como da
dramaticidade, inerentes ao amor passional. Trata-se, invariavelmente,
de um trabalho de abstracção; formalista, satírico, impiedoso. Reparem
no refrão de "A Chicken With Its Head Cut Off":
But my heart's running 'round like a chicken with its head cut off
All around the barnyard, falling in and out of love
The poor thing's blind as a bat, getting up, falling down, getting up
Who'd fall in love with a chicken with its head cut off?
All around the barnyard, falling in and out of love
The poor thing's blind as a bat, getting up, falling down, getting up
Who'd fall in love with a chicken with its head cut off?
Ou no apelo aliterante e folclórico em "Absolutely Cukoo":
Don't fall in love with me yet
We only recently met
True, I'm in love with you, but
You might decide I'm a nut
Give me a week or two to
Go absolutely cuckoo
Ou ainda na perdição romântica, de tom bíblico, em "Book Of Love":
The book of love is long and boring
and written very long ago
It's full of flowers and heart-shaped boxes
and things we're all too young to know
but I, I love it when you give me things
and you, you ought to give me wedding rings
and written very long ago
It's full of flowers and heart-shaped boxes
and things we're all too young to know
but I, I love it when you give me things
and you, you ought to give me wedding rings
Mas,
talvez, o exemplo mais brilhante da abordagem conceptual a que Setphen
Merritt submeteu os Magnetic Fields para a construção deste triplo albúm
é o tema "I Don't Believe in The Sun".
Aparentemente, trata-se de um poema que se inspira na prosaica
depressão que sempre acomete o amante quando o objecto da sua paixão
decide, desgraçadamente, abandonar o romance. Porém, na verdade, estamos
perante algo muito mais ambicioso. Merritt utiliza a tragédia ligeira
do desgosto de amor para uma revisão das leis da física, num exercício
estilístico que é em exclusivo a substância do poema. E eis que somos
chegados conclusivamente ao pressuposto formal de "69 Love Songs": a
paixão é, em si, desinteressante. A forma como a arte tira partido da
paixão para ganhar poder terratransformador é que tem valor a sério. Até
o sol passa de corpo celeste a acto de fé. Senão vejamos:
They say there's a sun in the sky
But me, I can't imagine why
There might have been one
Before you were gone
But now all I see is the night
So I don't believe in the sun
How could it shine down on everyone
And never shine on me
How could there be
Such cruelty
The only sun I ever knew
Was the beautiful one that was you
Since you went away
It's night time all day
And it's usually raining, too
So I don't believe in the sun
How could it shine down on everyone
And never shine on me
How could there be
Such cruelty
The only stars there really are
Were shining in your eyes
There is no sun except the one
That never shone on other guys
The moon to whom the poets croon
Has given up and died
Astronomy will have to be revised
I don't believe in the sun
How could it shine down on everyone
And never shine on me
How could there be
Such cruelty
But me, I can't imagine why
There might have been one
Before you were gone
But now all I see is the night
So I don't believe in the sun
How could it shine down on everyone
And never shine on me
How could there be
Such cruelty
The only sun I ever knew
Was the beautiful one that was you
Since you went away
It's night time all day
And it's usually raining, too
So I don't believe in the sun
How could it shine down on everyone
And never shine on me
How could there be
Such cruelty
The only stars there really are
Were shining in your eyes
There is no sun except the one
That never shone on other guys
The moon to whom the poets croon
Has given up and died
Astronomy will have to be revised
I don't believe in the sun
How could it shine down on everyone
And never shine on me
How could there be
Such cruelty
Dei Verbum
Procuro nas palavras o poema que nunca li nem vou escrever; o poema que resolve a história e o cosmos; o poema que está por trás de deus, que é antes das coisas; o poema cosmogonia, protogonos da literatura, pai e mãe do espaço-tempo; o poema que dá sentido à vida e que transcende a morte. Procuro nas palavras a lírica e a matemática da teoria de tudo; o verso em que a física dos astros faz as pazes com a física das partículas; a rima que reduz o círculo colidor do CERN à anacronia. Procuro no ruído das palavras uma solução silenciosa e eloquente, a resposta última para a primeira pergunta, a virtude do universo na síntese de uma estrofe, o pecado original num canto irrepetível.
segunda-feira, julho 06, 2015
O triunfo dos piratas.
Hoje, 60% dos gregos que foram votar puseram uma cruzinha na frase que, em boa verdade, dizia isto: queremos continuar a viver com o dinheiro dos outros. Para fazer a democracia funcionar realmente, neste contexto, será agora necessário realizar referendos em cada um dos países credores de forma a saber se os seus cidadãos estão disponíveis para continuar a pagar a vida dos gregos.
Do outro lado da barricada, porém, não está gente com espinha dorsal para fazer o que deve ser rapidamente feito, que é, agora a sério, correr com a Grécia do Euro. Do outro lado da barricada, do nosso lado da barricada, estão os junkers e os constâncios do costume. E receio bem que os senhores do Syriza levem avante o seu ideário de piratas.
Inacreditável.
sexta-feira, julho 03, 2015
Mais uma voltinha.
Os meus amigos globetrotters foram dar mais uma voltinha. Desta feita, o cú do mundo que elegeram foi o Canadá. E, como não podia deixar de ser, trouxeram de lá um clip mesmo giro.
quarta-feira, junho 24, 2015
sexta-feira, junho 19, 2015
Música de dança, por incrível que pareça.
Quem ouve esta versãozinha nerd de Too Much Time Together sem conhecer o original de estúdio pode pensar que eu estou a alucinar, mas, para mim, a melhor música de dança que se ouve actualmente é feita por fiéis intérpretes dos fundamentos do rock and roll. Como os San Cisco.
Este clip é dez vezes genial.
Música e nomenclatura.
The Slow Readers Club. Estes rapazes contribuem imenso para a minha velha e supersticiosa teoria de que as bandas podem ser escolhidas pelo nome. Como é que uns tipos chamados Slow Readers Club vão desiludir? Têm necessariamente que bombar. Imaginem, por exemplo, que alguém se lembrava de chamar The Toxic Airborne Event a uma formaçãozinha de rock e depois a música não estava à altura. Não cabe na cabeça de ninguém. Bandas com nomes inspirados e poéticos como Faded Paper Figures, Said The Whale, Electric Guest, Cloud Control, Steaming Satellites, The Hobbes Fan Club, The Soft White Sixties, The Pineapple Thief, Bombay Bicycle Club, The Pigeon Detectives, Death Cab For Cutie ou Broken Social Scene são obrigadas a bombar. Não há hipótese.
Nomes e malhas à parte, é pena que o clip seja tão manhoso. Esta músiquinha merecia bem mais.
Sobre a guerra.
A Guerra dos Tronos é a guerra da vida. Olhamos para aquilo e sabemos intimamente do que se trata. Quando Stannis Baratheon manda assar a sua própria filha, toda a gente percebe as razões por de trás do churrasco porque essas razões fazem parte do léxico histórico. Identificamo-nos com Tyrion Lannister, porque também no anão há uma humanidade frágil, corruptível, viciosa, mas onde, ainda assim, permanece um vestígio de dignidade. Tyron é alcoólico, promíscuo e parricida, mas todos queremos ser dignos como ele. Quando na verdade todos somos ferozes como Baratheon.
A Guerra dos Tronos é guerra pura - o estado natural do homem.
Eu não li o Livro do George R. R. Martin porque na altura de o ler pensava que era um género de Tolkien para vender nas estações de serviço. Estava equivocado e agora nem sei bem qual é a percentagem da história que está a ser aviltada pelos redactores da série. Parece-me, porém (e posso estar errado da pior maneira possível - a do ignorante), que o fundamental pessimismo sobre a condição humana deve resultar mais do espírito de Martin do que da vontade da HBO, por muito respeito que possa ter - e tenho algum - pela produtora americana. E é precisamente esse realismo céptico, essa maneira desassombrada de entender o homem e a história, que seduz e agarra o feliz espectador.
Esta série vai ficar para a história, ponto final.
terça-feira, junho 16, 2015
GT Academy 2015: no inferno de La Sarthe.
Este ano, os senhores da Polyphony renderam homenagem ao circuito de La Sarthe e a 4º etapa da GT Academy (a que conta para a classificação) aconteceu no célebre, infernal e alucinante trajecto que serve de palco às 24 horas de Le Mans, prova que decorreu concomitantemente.
O Nissan GT-R LM Nismo, que não se portou lá muito bem na competição real, foi o carro eleito para a competição virtual e, muito sinceramente, até no GT6 se percebia que o protótipo não podia ter muito sucesso. A travagem em curva, que em La Sarthe é determinante, neste GT-R é uma desgraça total e faltam-lhe cavalos para que possa competir ombro a ombro com as esquadras bestiais da Porsche, da Audi e da Toyota, na classe LPM1.
Em relação ao ano passado, a minha classificação piorou ligeiramente, muito porque não dediquei ao evento tanto tempo como costumo, mas o 84º lugar nacional e o 2974º mundial não são vergonha nenhuma. Acho eu.
terça-feira, junho 09, 2015
Definição de malha.
We Are Bodies . Pressure Compressor
Não importa o clip inexistente. Os primeiros acordes de guitarra desta canção valem mais que mil imagens. Passo o cliché. Ou se calhar nem por isso. Este disquinho dos We Are Bodies também é um verdadeiro contentor cheinho de lugares comuns do rock and roll e não deixa por isso de ser pura e simplesmente brilhante.
segunda-feira, junho 01, 2015
A (boa) matemática dos mortos.
Feitas as contas dos horrores da II Guerra Mundial, o resultado é um pequeno mas pacificador momento de optimismo.
segunda-feira, maio 25, 2015
Da promessa e da conquista.
Toda a gente que me conhece sabe perfeitamente que o actual presidente do Sport Lisboa e Benfica não é propriamente um personagem que me seja simpático, mas, de facto, devo reconhecer que, com o tempo, o homem tem mostrado resultados, quer ao nível desportivo quer no que diz respeito à estrutura instalada. O meu querido amigo Nuno Miguel Silva faz a redenção por mim, num texto que recebi dele por SMS e que se refere a um muito pertinente artigo do Jornal i, da autoria de Rui Pedro Silva.
O SLB NÃO É UM CLUBE PARA TANSOS!
Há três anos, quando Luís Filipe Vieira se recandidatou à presidência do glorioso - o mandato acaba no final da época de 2016 - prometeu três campeonatos nacionais e uma final europeia para o futebol, e 50 títulos nas restantes modalidades. Na altura terá soado a bazófia ou mera loucura. Agora até parece fácil. O Benfica somou, desde 2012, 56 títulos nas modalidades e a terceira época ainda não acabou. Objectivo mais que superado. A equipa de futebol, esteve em duas finais europeias. Objectivo superado. E ganhou dois campeonatos, perdendo um à risca. Mas ainda falta um ano de mandato. Num país em que nenhum responsável cumpre o que promete, diria que é obra, não civil, mas civilizacional.
O Sport Lisboa e Benfica, com Luís Filipe Vieira, voltou a voar ao grande estilo da águia.
O SLB NÃO É UM CLUBE PARA TANSOS!
Há três anos, quando Luís Filipe Vieira se recandidatou à presidência do glorioso - o mandato acaba no final da época de 2016 - prometeu três campeonatos nacionais e uma final europeia para o futebol, e 50 títulos nas restantes modalidades. Na altura terá soado a bazófia ou mera loucura. Agora até parece fácil. O Benfica somou, desde 2012, 56 títulos nas modalidades e a terceira época ainda não acabou. Objectivo mais que superado. A equipa de futebol, esteve em duas finais europeias. Objectivo superado. E ganhou dois campeonatos, perdendo um à risca. Mas ainda falta um ano de mandato. Num país em que nenhum responsável cumpre o que promete, diria que é obra, não civil, mas civilizacional.
O Sport Lisboa e Benfica, com Luís Filipe Vieira, voltou a voar ao grande estilo da águia.
Uma banda que não engana.
The Charlatans. Sabemos sempre o que esperar destes senhores: grandes malhas. E o último disco, Modern Nature, está bem dentro das expectativas.
quinta-feira, maio 21, 2015
Poema do homem que não morre.
O homem que não morre fala mais alto que as palavras.
Rima com a vida enquanto versa em liberdade.
É maior que os plátanos, é mais alto que as sequóias porque
engana a morte.
O homem que não morre dá ordens em voz alta.
Diz assim aos deuses: "Vão para a puta que os pariu. Eu mando mais."
O homem que não morre anuncia o seu livro de poemas enquanto lhe estão
a substituir o fígado.
(A imortalidade é ter um gajo qualquer a ler poemas teus no momento em que
estás a mudar o filtro).
O homem que não morre dirije-se aos homens que morrem com voz grossa
e saudade de bebedeiras.
Há, no homem que se recusa a morrer, um regresso à coragem:
a vontade indomável de Prometeu.
Há, nesse insolente, uma fome insaciável de existir, uma sede irrecuperável
de versos furiosos, delicados, permanentes.
Sim, sim, puta que pariu os deuses.
Rima com a vida enquanto versa em liberdade.
É maior que os plátanos, é mais alto que as sequóias porque
engana a morte.
O homem que não morre dá ordens em voz alta.
Diz assim aos deuses: "Vão para a puta que os pariu. Eu mando mais."
O homem que não morre anuncia o seu livro de poemas enquanto lhe estão
a substituir o fígado.
(A imortalidade é ter um gajo qualquer a ler poemas teus no momento em que
estás a mudar o filtro).
O homem que não morre dirije-se aos homens que morrem com voz grossa
e saudade de bebedeiras.
Há, no homem que se recusa a morrer, um regresso à coragem:
a vontade indomável de Prometeu.
Há, nesse insolente, uma fome insaciável de existir, uma sede irrecuperável
de versos furiosos, delicados, permanentes.
Sim, sim, puta que pariu os deuses.
sexta-feira, maio 15, 2015
Davidoff Lights
Sou tão fútil.
Há um amigo meu que está a morrer porque ninguém confia o suficiente nele para lhe dar um fígado.
E eu, fútil, não tenho jeito para acompanhar a morte do meu amigo que está, impaciente, à espera de morrer por falta de um fígado.
Sou tão fútil.
Há um amigo meu que tem um ego difícil, não mais difícil que o meu ego, claro. Só que eu sou fútil e este meu amigo beija-me na boca à porta do café onde vai beber café todos os dias e isto é ser mais corajoso do que tu, querido leitor, alguma vez te atreverás.
Sou tão fútil.
A minha mãe, isto não é uma metáfora, caralho, a minha mãe acha que eu sou mesquinho e invejoso.
Tudo o que eu consigo achar sobre mim, por acaso, é que não sou nem uma coisa nem outra. Serei, gentil visitante deste miserável blog, um canalha ou um anjo, não interessa na verdade porque a única coisa que te posso prometer é que não sou mesquinho nem invejoso embora seja
Tão fútil
Que até enerva.
Tenho dois amigos em Guimarães que não acreditam em mim. A minha namorada não acredita em mim. A minha ex-mulher não acredita em mim. A rapariga que me fez mudar de cidade também não. O meu irmão mais novo desconfia e o mais velho não quer realmente saber. O meu pai está aqui está morto, a minha mãe está aqui está cega, e eu estou a fazer do blog uma espécie de facebook, bem sei, até porque eu
Sou tão fútil.
Mas tão fútil
Que dá nervos.
Tenho um amigo que chega grosso ao sítio onde era suposto engrossar-se. Mas eu sou tão fútil que não chego a perceber a razão fundamental que ele tem.
Sou tão fútil.
Mas tão fútil
Que as estrelas passam a pixeis.
Faço de conta que aprendo espanhol e que sou uma criatura funcional. Faço de conta que tenho uma profissão. Que tenho uma vida para além da fantasmática sucessão absurda das coisas. Faço de conta que escrevo uns textos interessantes para o deus me livro e a coisa mais importante que escrevi para o deus me livro foi um poema do Ary que o meu editor rejeitou. Faço de conta que sou esperto mas sou tão, mas tão
Fútil.
Tão mas tão
Estúpido.
Tão fútil, tão estúpido,
que fico fodido quando não consigo mostrar ao meu irmão mais novo
que até sou mais ou menos competente no Gran Turismo 6.
Sou tão fútil
Mas tão fútil
que até quando cito, com propriedade, o bom e o velho do Nietzsche
os meus amigos mais amigos meus acham que os insulto porque sei citar o bom e o velho e
Sou tão fútil,
Mas tão fútil, gentil e paciente leitor,
que devias na verdade evitar a missão de chegar a este ponto
final.
Há um amigo meu que está a morrer porque ninguém confia o suficiente nele para lhe dar um fígado.
E eu, fútil, não tenho jeito para acompanhar a morte do meu amigo que está, impaciente, à espera de morrer por falta de um fígado.
Sou tão fútil.
Há um amigo meu que tem um ego difícil, não mais difícil que o meu ego, claro. Só que eu sou fútil e este meu amigo beija-me na boca à porta do café onde vai beber café todos os dias e isto é ser mais corajoso do que tu, querido leitor, alguma vez te atreverás.
Sou tão fútil.
A minha mãe, isto não é uma metáfora, caralho, a minha mãe acha que eu sou mesquinho e invejoso.
Tudo o que eu consigo achar sobre mim, por acaso, é que não sou nem uma coisa nem outra. Serei, gentil visitante deste miserável blog, um canalha ou um anjo, não interessa na verdade porque a única coisa que te posso prometer é que não sou mesquinho nem invejoso embora seja
Tão fútil
Que até enerva.
Tenho dois amigos em Guimarães que não acreditam em mim. A minha namorada não acredita em mim. A minha ex-mulher não acredita em mim. A rapariga que me fez mudar de cidade também não. O meu irmão mais novo desconfia e o mais velho não quer realmente saber. O meu pai está aqui está morto, a minha mãe está aqui está cega, e eu estou a fazer do blog uma espécie de facebook, bem sei, até porque eu
Sou tão fútil.
Mas tão fútil
Que dá nervos.
Tenho um amigo que chega grosso ao sítio onde era suposto engrossar-se. Mas eu sou tão fútil que não chego a perceber a razão fundamental que ele tem.
Sou tão fútil.
Mas tão fútil
Que as estrelas passam a pixeis.
Faço de conta que aprendo espanhol e que sou uma criatura funcional. Faço de conta que tenho uma profissão. Que tenho uma vida para além da fantasmática sucessão absurda das coisas. Faço de conta que escrevo uns textos interessantes para o deus me livro e a coisa mais importante que escrevi para o deus me livro foi um poema do Ary que o meu editor rejeitou. Faço de conta que sou esperto mas sou tão, mas tão
Fútil.
Tão mas tão
Estúpido.
Tão fútil, tão estúpido,
que fico fodido quando não consigo mostrar ao meu irmão mais novo
que até sou mais ou menos competente no Gran Turismo 6.
Sou tão fútil
Mas tão fútil
que até quando cito, com propriedade, o bom e o velho do Nietzsche
os meus amigos mais amigos meus acham que os insulto porque sei citar o bom e o velho e
Sou tão fútil,
Mas tão fútil, gentil e paciente leitor,
que devias na verdade evitar a missão de chegar a este ponto
final.
quarta-feira, maio 13, 2015
segunda-feira, maio 11, 2015
quinta-feira, abril 30, 2015
Uma história gay.
1998. Stephin Merritt está às voltas com o mais que ambicioso projecto de se "apresentar ao mundo" com 100 músicas de amor. Um ano depois vão acabar por ser apenas 69 e esse maravilhoso e inspirado triplo CD ficará para sempre agarrado às paredes da posteridade ("69 Love Songs" estará no olimpo da música pop até que se calem as musas). Mas no entretanto, a vida vem em socorro do artista. Num bar gay de Nova York conhece Reno Dakota, por quem se apaixona compulsivamente. Reno, porém, parece responder às suas abordagens de forma fria e distante. Merritt aproveita a rejeição para a necessária e inevitável construção lírica:
Reno, Dakota
There's not an iotaOf kindness in you
You know you enthrall me
And yet you don't call me
It's making me blue
Pantone 292
Reno, Dakota
I'm reaching my quota
Of tears for the year
Alas and alack
You just don't call me back
You have just disappeared
It makes me drink beer
I know you're a recluse
You know that's no excuse
Reno, that's just a ruse
Do not play fast and loose
With my heart
Reno, Dakota
I'm no Nino Rota
I don't know the score
Have I annoyed you
Or is there a boy who
Well, he's just a whore
I've had him before
It makes me drink more
O
poema, cantado por Claudia Gonson, irá rebentar numa melodia folk
minimal, mas poderosa, que dura apenas um prodigioso minutinho, e é uma
das mais carismáticas faixas de "69 Love Songs".
E a história acabaria aqui, não fora o zelo inquiridor de Kerthy Fix e Gail O'Hara. No seu documentário de 2010 "Stange Powers - Stephin Merritt and The Magnetic Fields"
os realizadores acabam por descobrir o objecto da paixão de Merritt e
documentam a história, contada pelo lado de Reno. Este explica as razões
da sua indiferença, que não sendo politicamente correctas, não deixam
de ter a sua piada, num poema que é uma autêntica versão alternativa de
Reno Dakota:
Dear Stephin Merritt
please stop I can't bear it
Don't call anymore
My answer machine
will continue to scream
Though it's tired and sour
But you're not gonna score
Dear Stephin Merritt
you've dangled your carrot
in form of a song
That eponymous ditty
is bitting and witty
your message is strong
But you've got me all wrong
From up in my tower
I watch with a powerfull lust
for brown gold and rust
Boys of colour are just
what I must
So dear Setphin Merritt
just dump out that claret
try sleeping at night
I'm wishing you well
but that snow ball in hell
has the same sorry plight
And though we try as we might
we're both hopelessly white
A elegância meio despudorada e a mestria lírica com que Reno responde a
Stephin (reparem que o poema segue a estrutura sónica, métrica e
rimática da versão original, como se issso fosse fácil) leva-nos a
perceber, afinal, talvez, a razão pela qual o segundo se apaixonou
pelo primeiro. E, na verdade, esta história tem um final feliz: Merritt
conseguiu arrancar à vida uma música (mesmo contra as suas próprias
convicções, como veremos mais à frente, num outro artigo desta série). E
Dakota ganhou os seus 15 wharolianos minutos de fama.
Para quem se interessa pelas razões últimas da arte, porém, este não será exactamente um momento de elevação. Mas, pensando bem, que interesse realmente têm essas últimas razões? As primeiras são, regra geral, bem mais convicentes. E, claro, muito mais saborosas.
quarta-feira, abril 29, 2015
O Público mata-me.
Já há uns anos largos que não sou leitor desse orgão oficial do Bloco de Esquerda chamado "Público". Mas hoje, para mal do meu sistema nervoso, passei pela edição online e reparei numa caixinha que titulava assim os incidentes em Baltimore: "O caos chegou a Baltimore, onde a indignação se juntou à probreza".
Ora, parece que a indignação e a pobreza justificam, para a miserável redacção do Público, o vandalismo e o crime. Para que se incendeie, com impunidade e, até, legitimidade moral, um automóvel da polícia, basta estar indignado. E se o gentil leitor pertence, como eu, a uma classe sócio-económica mais desfavorecida, temos os dois bons motivos para combinar um assalto à Worten. Em desespero de causa, podemos até ferir mortalmente, a tiros de pistola, dois ou três agentes da lei.
Esta mentalidade cheguevarista que distorce a moral até ao nível da anarquia absoluta e que é muito própria da esquerda radical contemporânea será, em última análise, autofágica. A desvalorização da ordem social, é, claro, extremamente infantil e, por isso, muito perigosa, mas prejudicará toda a gente por igual. O Público não é produto de uma civilização que justifica e aceita os desvios deliquentes da turba enraivecida. Pelo contrário. E o Público deixaria de existir muito rapidamente, se os ideiais do seu conselho de redacção imperassem na sociedade onde se insere.
terça-feira, abril 28, 2015
terça-feira, abril 21, 2015
A culpa e os afogados.
Há já umas boas décadas para cá que o Mediterrâneo afoga homens e sonhos com uma voracidade arrepiante. Desgraçados do Magreb, refugiados do Médio Oriente, expoliados do Sudeste Africano e infelizes de toda a parte acabam por sucumbir ao falso pacifismo deste mar intestino e denso, carregado de ódios. Metem-se aos magotes em jangadas impensáveis e em porões sobrelotados na vaga expectativa de uma promessa de liberdade e prosperidade que a Europa, lamentavelmente, já não está em condições de cumprir.
Mas este facto - o do velho continente não ter condições materiais nem políticas nem sociais para receber esta gente inúmera de braços abertos - não pode servir para transferir a responsabilidade da tragédia para os ombros do Ocidente, como têm estado a fazer certos imbecis como Loris De Filippi ou António Guterres.
Não, por Deus, a culpa não é nossa. Se os desgraçados, os refugiados, os expoliados, os perseguidos, os esfomeados e os infelizes de toda a parte naufragam abundantemente nas rotas de Ulisses, a culpa só pode ser originária dos países vilões e das organizações bandidas que os desgraçam, que os expoliam, que os perseguem, que os deixam à fome e que os fazem infelizes ao ponto de preferirem morrer afogados do que permanecerem nas suas terras.
A Europa não tem culpa que os senhores do Estados Islâmico façam aquilo que fazem. A Europa não tem culpa que os rapazes do Boko Haram façam aquilo que fazem. A Europa não tem culpa da guerra na Síria, na Líbia, na Somália, na Eritreia. A Europa não tem culpa da miséria no Mali, da fome no Sudão, do caos na Algéria e da corrupção no Egipto. A Europa não tem culpa que estados disfuncionais e draconianos atirem com os seus cidadãos para a morte certa. Não, não, não. Não somos nós os culpados.
Mas este facto - o do velho continente não ter condições materiais nem políticas nem sociais para receber esta gente inúmera de braços abertos - não pode servir para transferir a responsabilidade da tragédia para os ombros do Ocidente, como têm estado a fazer certos imbecis como Loris De Filippi ou António Guterres.
Não, por Deus, a culpa não é nossa. Se os desgraçados, os refugiados, os expoliados, os perseguidos, os esfomeados e os infelizes de toda a parte naufragam abundantemente nas rotas de Ulisses, a culpa só pode ser originária dos países vilões e das organizações bandidas que os desgraçam, que os expoliam, que os perseguem, que os deixam à fome e que os fazem infelizes ao ponto de preferirem morrer afogados do que permanecerem nas suas terras.
A Europa não tem culpa que os senhores do Estados Islâmico façam aquilo que fazem. A Europa não tem culpa que os rapazes do Boko Haram façam aquilo que fazem. A Europa não tem culpa da guerra na Síria, na Líbia, na Somália, na Eritreia. A Europa não tem culpa da miséria no Mali, da fome no Sudão, do caos na Algéria e da corrupção no Egipto. A Europa não tem culpa que estados disfuncionais e draconianos atirem com os seus cidadãos para a morte certa. Não, não, não. Não somos nós os culpados.
quarta-feira, abril 15, 2015
terça-feira, abril 14, 2015
Tristes loucos furiosos. Ou talvez não.
Handsome Furs . What About Us
Os primeiros segundos são algo deprimentes, mas ao terceiro minuto acontece algo de belo.
Tóxicos como sempre, inspirados como nunca.
Desde o seu primeiro disco, de 2008, que Mike Jollet e os insubordinados The Airborne Toxic Event têm contribuído pela medida grande para acreditarmos que é muito difícil assassinar o rock. Até os mass murderers que distribuem, com a displicência dos incautos e a arrogância dos duros de ouvido, grammys para isto e EMAs para aquilo, não têm hipótese nenhuma na sua intenção genocida, pelo menos enquanto deixarem gente assim à solta, com liberdade para a explosão criativa.
Mas mesmo os génios têm direito a momentos menores. Such Hot Blood,
o último trabalho que estes rapazinhos de Los Feliz - LA tinham
editado, em 2013, constituiu uma desilusão do tamanho deste mundo e do
outro. A vingança serve-se, porém, com dois anos de frigorífico: este Dope Machines
(Epic Records - 2015) não é apenas um grande disco. É uma afirmação de talento, coragem e resiliência.
É a prova de que a reinvenção compensa, por muito trabalho que isso nos
dê e por muito desagradável que se apresente o clima, quando saímos
para fora da zona de conforto. Muito apropriadamente, Jollet parece
bastante inseguro e quase consegue ser humilde (o que é uma novidade
nele) logo à entrada, no grandiloquente tema bandeira de Dope Machines - Wrong:
I see the look in your eyes
Am I trying too hard?
Am I doing this right?
(...)
I believe I was wrong
Probably most of my life
Or I'm just hearing it wrong
I’m just watching the fire light
Am I trying too hard?
Am I doing this right?
(...)
I believe I was wrong
Probably most of my life
Or I'm just hearing it wrong
I’m just watching the fire light
O
disco varia loucamente entre o puritanismo electro-pop e a vocação
épica que está no DNA da banda. De tal forma que, em certos momentos,
como em "California", parece que alguém convenceu o Bruce Springsteen a
embebedar-se com os New Order. E, por esquizofrénica que pareça a
mistura, a verdade é que resulta (dores de cabeça incluídas). As
guitarras berram tão alto como os sintetizadores, Jollet
consegue fazer barulho sobre isso tudo e há um constante desiquilibrio
emocional que consegue ser tocante, mesmo quando a intenção não é essa.
Até porque esta terra não é para lamechas. Só os heróis conseguem chegar
até aqui.
Por exemplo, em "The Thing About Dreams",
um tema que tem o efeito de um prozac ao pequeno-almoço, a atitude já é
mais apropriadamente confiante:
And the hell with the rest,
You gave them your best.
You gave them your best.
E está tudo dito. Ou talvez não, porque, para compensar os fãs pela descompensação
psicótica e o brilhantismo histérico que percorre quase integralmente a
duração de Dope Machines, os Airborne Toxic Event oferecem, em anexo,
uma coisa completamente diferente: "Songs of God and Whiskey"
reúne 10 temas acústicos de tom biblíco, que são, por si só, uma
verdadeira opereta do Oeste; um western inteiro de aventuras e
desventuras.
Duas sínteses pelo preço de uma antítese. Eis a definição de um bom negócio, segundo os impagáveis The Airborne Toxic Event.
Jornal de Letras | Janeiro/Março 2015
Jerusalém - Gonçalo M. Tavares - Caminho
A segunda obra que leio deste rapaz, é também outra obra-prima. Jerusalém é um romance intrincado, mas parcimonioso, multi-dimensional mas construído por vozes interiores; discreto mas febril, que se desenvolve quase no domínio do inconsciente, sem perder uma contenção essencial que preside ao ritmo dos parágrafos. As personagens vivem sobrepostas numa falsa oposição, que se dilui no sentido de um anti-climax que é previsível sem ser vulgar. Está tudo muito bem calibrado, nesta novela. Muito bem medido. Muito bem escrito.
Responsabilidade e Juízo - Hanna Arendt - Dom Quixote
Edição que reúne vários ensaios e conferências da uma das figuras maiores do pensamento do pós-guerra, e cujo perfil já tracei (mais ou menos) aqui. A análise de Arendt à temática do mal, e como lidar filosófica e juridicamente com a sua presença imanente no decurso da hitória, continua absolutamente contemporânea e deve ser revisitada.
Se há mania literária que tem perdurado dentro e fora da sua geografia, essa mania é o realismo mágico. E esta primeira novela de Andréa Zamorano, brasileira de origem, portuguesa de estado civil, tem quanto baste desse infindável filão: uma ditadura militar, um patriarca poderoso que oscila entre a loucura e a vilania, um fiel e nobre jardineiro, um poeta que irá ser personagem do Roberto Bolano, uma heroína que fala com saguis. E a morte, como elemento estruturante da narrativa.
História da Filosofia, Os filósofos e os Textos - 3º Volume: Filosofia Contemporânea - Edições 70
Terminei finalmente a minha terceira (ou quarta?) ronda por esta história da filosofia. Este é, claro, o volume mais difícil dos 3, porque os filósofos contemporâneos não facilitam nada no que respeita à densidade das doutrinas, embora fiquem, regra geral, a milhas dos seus predecessores. Vou enconstar estes 3 volumes por uns anos na respectiva estante, até porque entretanto já descobri uma história da filosofia bem mais interessante - a de Will Durant - de que darei testemunho mais à frente no tempo.
Alejo Carpentier - Concerto Barroco - Antígona
Um exemplo acabado de como um escritor com talento para dar e vender (basta ler as primeiras duas ou três páginas do romance para percebermos isso) se deixa estatelar, rapidamente, com estrondo e espalhafato, no asfalto gorduroso e fatal de uma espécie de manifesto marxista sem pés nem cabeça, na pior tradição da literatura cubana arregimentada a um castrismo vulgar e entediante. A crítica diz que Alexandro Carpentier é um percursor do realismo mágico. O autor disse que esta obra era a sua "suma teológica". Eu desisti a meio, o que é muito raro e - por isso - muito significativo.
As Leis Fundamentais da Estupidez Humana - Carlo Cipolla - Padrões Culturais Editora
Brilhante e sintético tratado que explica lindamente o que é um estúpido e porque é que existem tantos e como é quase impossível às pessoas que não são estúpidas viverem sem o perigoso e altamente destrutivo impacto das que o são. O ensaio, que assume algum rigor científico (dentro daquilo que é possível em ciências sociais) demonstra e postula cinco leis fundamentais, a saber:
1 - Cada um de nós subestima sempre e inevitavelmente o número de indivíduos estúpidos em circulação.
2 - A probabilidade de uma pessoa ser estúpida é independente de qualquer outra característica dessa mesma pessoa.
3 - Uma pessoa estúpida é aquela que causa dano a outra pessoa ou grupo de pessoas, sem que disso resulte alguma vantagem para si, ou podendo até vir a sofrer um prejuízo.
4 - As pessoas não estúpidas desvalorizam sempre o potencial nocivo das pessoas estúpidas. Em particular, os não estúpidos esquecem-se constantemente que, em qualqer momento, lugar e situação, tratar e / ou associar-se com indivíduos estúpidos revela-se infalivelmente um erro que se paga muito caro.
5 - A pessoa estúpida é o tipo de pessoa mais perigosa que existe.
Os Filósofos e o Amor - Aude Lancelin e Marie Lemonnier - Tinta da China
"O amor é o mal."
O amor é o tema maldito da filosofia. Com raras excepções, os filósofos têm achado, nos dois mil e quinhentos anos que já conta a arte do pensamento especulativo, que a razão pela qual as mulheres e os homens se entregam passional e espalhafatosamente uns aos outros constitui um assunto menor. Vá-se lá saber porquê. Não fora a intensidade dessa volúpia, tudo seria bastante diferente do que é (inclusivamente a demografia), mas, de Tales de Mileto a Ludwig Wittgenstein, é díficil encontrar obra que se deixe sensibilizar pelas regras da atracção humana.
Deprimente e banal conto escrito em hora de inspiração zero por um dos mais carismáticos novelistas americanos do século XX. O protagonista é um palhaço em busca de um sentido para a vida. Se soubesse o que sei hoje, não tinha pegado nisto. A edição da Padrões Culturais é ainda por cima aviltada por umas ilustrações muito horríveis de Frederico Rocha, que são a cereja em cima de um bolo impróprio para consumo. BAH!
A segunda obra que leio deste rapaz, é também outra obra-prima. Jerusalém é um romance intrincado, mas parcimonioso, multi-dimensional mas construído por vozes interiores; discreto mas febril, que se desenvolve quase no domínio do inconsciente, sem perder uma contenção essencial que preside ao ritmo dos parágrafos. As personagens vivem sobrepostas numa falsa oposição, que se dilui no sentido de um anti-climax que é previsível sem ser vulgar. Está tudo muito bem calibrado, nesta novela. Muito bem medido. Muito bem escrito.
Responsabilidade e Juízo - Hanna Arendt - Dom Quixote
Edição que reúne vários ensaios e conferências da uma das figuras maiores do pensamento do pós-guerra, e cujo perfil já tracei (mais ou menos) aqui. A análise de Arendt à temática do mal, e como lidar filosófica e juridicamente com a sua presença imanente no decurso da hitória, continua absolutamente contemporânea e deve ser revisitada.
A Casa das Rosas - de Andréa Zamorano - Quetzal
Se há mania literária que tem perdurado dentro e fora da sua geografia, essa mania é o realismo mágico. E esta primeira novela de Andréa Zamorano, brasileira de origem, portuguesa de estado civil, tem quanto baste desse infindável filão: uma ditadura militar, um patriarca poderoso que oscila entre a loucura e a vilania, um fiel e nobre jardineiro, um poeta que irá ser personagem do Roberto Bolano, uma heroína que fala com saguis. E a morte, como elemento estruturante da narrativa.
Ainda assim, há qualquer coisa de insólito neste breve romance. Há qualquer coisa
que não é Laura Esquivel nem Isabel Allende nem nada que se pareça. Que
prende e arrepia. Há aqui, nestas páginas, qualquer coisa de sinistro, que dá comichão e levanta o cabelo.
É
que Andréa Zamorano vai buscar a Córtazar e a Borges, mais que a outros
mestres, mais óbvios, da literatura sul-americana, as referências para
uma arquitectura elíptica e surpreendente, onde encontra a sua
identidade de contadora de histórias. A essa virtude, soma a autora um
óbvio talento para discursos interiores mais ou menos caledescópicos,
mais ou menos fantasmagóricos, que exercem sobre o leitor uma espécie de
exorcismo.
E se podemos, aqui e ali, questionar a direcção em que
somos movidos por Andréa Zamorano, a verdade é que as últimas 20
páginas do seu iniciático romance são verdadeiramente alucinantes e dão
direito à revelação de um cadáver emparedado e à antecipação do grande
terramoto da Cidade do México.
Não está nada mal, para começar.História da Filosofia, Os filósofos e os Textos - 3º Volume: Filosofia Contemporânea - Edições 70
Terminei finalmente a minha terceira (ou quarta?) ronda por esta história da filosofia. Este é, claro, o volume mais difícil dos 3, porque os filósofos contemporâneos não facilitam nada no que respeita à densidade das doutrinas, embora fiquem, regra geral, a milhas dos seus predecessores. Vou enconstar estes 3 volumes por uns anos na respectiva estante, até porque entretanto já descobri uma história da filosofia bem mais interessante - a de Will Durant - de que darei testemunho mais à frente no tempo.
Alejo Carpentier - Concerto Barroco - Antígona
Um exemplo acabado de como um escritor com talento para dar e vender (basta ler as primeiras duas ou três páginas do romance para percebermos isso) se deixa estatelar, rapidamente, com estrondo e espalhafato, no asfalto gorduroso e fatal de uma espécie de manifesto marxista sem pés nem cabeça, na pior tradição da literatura cubana arregimentada a um castrismo vulgar e entediante. A crítica diz que Alexandro Carpentier é um percursor do realismo mágico. O autor disse que esta obra era a sua "suma teológica". Eu desisti a meio, o que é muito raro e - por isso - muito significativo.
As Leis Fundamentais da Estupidez Humana - Carlo Cipolla - Padrões Culturais Editora
Brilhante e sintético tratado que explica lindamente o que é um estúpido e porque é que existem tantos e como é quase impossível às pessoas que não são estúpidas viverem sem o perigoso e altamente destrutivo impacto das que o são. O ensaio, que assume algum rigor científico (dentro daquilo que é possível em ciências sociais) demonstra e postula cinco leis fundamentais, a saber:
1 - Cada um de nós subestima sempre e inevitavelmente o número de indivíduos estúpidos em circulação.
2 - A probabilidade de uma pessoa ser estúpida é independente de qualquer outra característica dessa mesma pessoa.
3 - Uma pessoa estúpida é aquela que causa dano a outra pessoa ou grupo de pessoas, sem que disso resulte alguma vantagem para si, ou podendo até vir a sofrer um prejuízo.
4 - As pessoas não estúpidas desvalorizam sempre o potencial nocivo das pessoas estúpidas. Em particular, os não estúpidos esquecem-se constantemente que, em qualqer momento, lugar e situação, tratar e / ou associar-se com indivíduos estúpidos revela-se infalivelmente um erro que se paga muito caro.
5 - A pessoa estúpida é o tipo de pessoa mais perigosa que existe.
Os Filósofos e o Amor - Aude Lancelin e Marie Lemonnier - Tinta da China
"O amor é o mal."
Arthur Schopenhauer
"Um filósofo casado pertence à comédia."
Friederich Nietzsche
O amor é o tema maldito da filosofia. Com raras excepções, os filósofos têm achado, nos dois mil e quinhentos anos que já conta a arte do pensamento especulativo, que a razão pela qual as mulheres e os homens se entregam passional e espalhafatosamente uns aos outros constitui um assunto menor. Vá-se lá saber porquê. Não fora a intensidade dessa volúpia, tudo seria bastante diferente do que é (inclusivamente a demografia), mas, de Tales de Mileto a Ludwig Wittgenstein, é díficil encontrar obra que se deixe sensibilizar pelas regras da atracção humana.
Apesar deste triste
facto - ou até por causa dele - Aude Lancelin e Marie Lemmonnier
tiveram a ousadia de ir à procura do amor na filosofia, e - é preciso
dizê-lo - fizeram-no com brilhantismo e erudição.
"Os Filósofos e o Amor", uma edição de 2015 da Tinta da China
com tradução (excelente) de Carlos Vaz Marques e prefácio de Eduardo
Lourenço, é um livrinho fascinante. Fascinante, para já, por causa do
registo filológico adoptado pelas autoras. Não é todos os dias que lemos
textos dedicados à filosofia que utilizem uma nomenclatura assim
desassombrada: enquanto Nietzsche é um "astronauta do espírito",
Schopenhauer é um "lobisomem do líbido". Kirkegaard tem um "esqueleto
semi-marreco" e é um "verdadeiro anti-viagra". Montaigne é "felpudo como um macaco e careca como um ovo" e ficamos
sem saber o que fazer à informação de que o seu pénis não era
especialmente longo. Nem especialmente grosso. Há muitas páginas de
autêntica comédia neste seríssimo tratado, que fazem da sua leitura uma
entretida mistura de sabedoria e cuscovilhice.
As
autoras são,
como era expectável, vítimas do escasso espólio existente, pela razão
apontada no primeiro parágrafo, mas não se atrapalham: se os filósofos
eleitos dedicaram ao amor menos páginas do que seria conveniente, as
suas aventuras e desventuras amorosas, as suas miseráveis, patéticas e
gloriosas vidas, dão pano para mangas. Acresce que a erudição das duas
académicas francesas, devidamente complementada por um irreverente
trabalho de pesquisa bibliográfica, acabam por contornar as dificuldades
iniciais de forma a que o leitor se depare com um trabalho enxuto, mas
repleto de substância; e de originalidade inquestionável.
O
ensaio selecciona dez filósofos (na verdade são treze, porque Platão
implica Sócrates, Heidegger traz Arendt pelo braço e Sartre não passa
sem Beauvoir), cujas biografias são cruzadas com aquilo que escreveram
sobre o tema, mesmo - outra vez - quando escreveram pouco, embora o
critério esteja longe de ser aleatório: os heróis escolhidos são talvez
aqueles que mais valorizaram - ou desvalorizaram - o amor. E aqui surge
uma nova dificuldade. É que, muitos destes filósofos, e principalmente
Lucrécio, Mantaigne, Schopenhauer, Kierkegaard e, claro, Niietzsche,
apresentam, na obra e na vida, uma concepção mais ou menos terrorista do
amor romântico. Nalguns casos, são verdadeiros nemessis do envolvimento
passional, noutros, autênticos campeões do líbido pelo líbido. E se, em
Platão, o amor é uma espécie de elevador da glória que nos transporta
para o belo absoluto e a eternidade das ideias, já em Montaigne lemos um
indisfarçável libertinismo suportado eticamente por uma abordagem
céptica do romance, em Schopenhauer surpreende-nos o nojo existencial
pelo coito e e em Kirkegaard a insuportável recusa da felicidade amorosa.
Assim, quando chegamos a Nietzsche, já estamos psicologicamente
preparados para o espectáculo circense que nos é oferecido: o niilista
rei de todos os cépticos-anti-românticos da história universal cai com
estrondo no rídiculo de se apaixonar louca e platonicamente por uma
rapariguinha de dezoito anos.
Isto
já para não falar no desafio tremendo que é incluir Immanuel Kant num
ensaio sobre o amor. Kant amava, talvez, o campanário da vila de Königsberg,
a biblioteca local e um ideário iniciático e puritano que fosse
determinar o comportamento moral dos homens para toda a posteridade. Mas pouco mais. Em
certo sentido, é um homem sem biografia. Ainda assim, as duas detectives
que nos guiam por este contínuo do espaço-tempo venusiano conseguem
encontrar na obra e na vida do austero idealista alemão alguns detalhes
surpreendentes e alguns vestígios de paixão mundana, missão que qualquer
pessoa de bom senso consideraria - à partida - absolutamente
impossível.
A
propósito de milagres, há um outro nestas páginas: o que salva Jean
Paul Sartre da sua impenitente infelidade. E Simone de Beauvoir da sua
triste sina.
Encontramos enfim alguma redenção para esta
intensa e divertida torrente de factos biográficos e confissões mais ou
menos folclóricas, finalmente libertos do pudor de uns e do cinismo de
outros, na conclusão partilhada por Stendhal, Proust e Sartre, de que o
amor é mais que o amor, é também essa célebre "vontade de poder", de
que falam todos os filósofos desde Nietzche: "O amor não pode resumir-se ao simples facto de se possuir uma mulher,
mas visa, através da mulher, a conquista do mundo inteiro".
Convenhamos:
é difícil terminar de forma mais coerente, universalista e...
romântica. Afinal, o amor e a filosofia deviam dar-se melhor. É através
de um que se resolve a outra.
O Sorriso Aos Pés da Escada - Henry Miller - Padrões Culturais Editora Deprimente e banal conto escrito em hora de inspiração zero por um dos mais carismáticos novelistas americanos do século XX. O protagonista é um palhaço em busca de um sentido para a vida. Se soubesse o que sei hoje, não tinha pegado nisto. A edição da Padrões Culturais é ainda por cima aviltada por umas ilustrações muito horríveis de Frederico Rocha, que são a cereja em cima de um bolo impróprio para consumo. BAH!
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