sexta-feira, setembro 24, 2004

A culpa é minha.

Cada dia que passa, é mais e mais evidente que este é, por agora, o pior governo da Terceira República. Caramba, parece até que estes senhores e estas senhoras ambicionam a idiotia suprema, o vexame público, a ignomínia e a desonra. Dá a sensação que desejam mesmo ser tratados por doutores em incompetência da grossa e mestres em disparate compulsivo. E digo-vos: trago comigo a suspeita de que Santana Lopes quer acabar com o País, ou vendê-lo aos espanhóis ou matar os portugueses de constrangimento, ou qualquer outra coisa vergonhosa do género.
Apesar disto, parece-me - no mínimo - draconiano crucificar a Ministra da Educação pelo escandaloso atraso mental e despudorado cinismo colectivo em que sobrevive uma generosa fatia do funcionalismo público nacional.
Os portugueses têm vindo pelos séculos a alimentar esta ideia de que o país é uma miséria por culpa das élites que detêm o poder político. Este modismo da psicologia social portuguesa tem muito que se lhe diga. Primeiro porque, a ser válida a tese, a sua antítese concluíria que os Ingleses creditam à brava a sua classe política pelo excelente país em que vivem. Não é, obviamente, o caso. Depois, se podemos responsabilizar quase exclusivamente D. Sebastião pelo desastre de Alcácer Quibir - e dos outros que se lhe seguiram em catadupa até à ocupação dos Filipes - não é legítimo que deixemos cair o megalítico fardo da derrocada moral, operacional e financeira do Estado Português nas almas que elegemos para tomar conta da Coisa: ao contrário dos despotismos, a democracia dá-nos a capacidade de governar, por interposição, a querida pátria.
Se os nossos políticos - já de si entidades reflexas da sociedade de que emergem - não prestam para nada, é porque andamos a escolher mal os nossos políticos. Mas da mesma forma, se as máquinas administrativas que servem a gestão política não funcionam (literalmente), não será tempo de perceber que essa responsabilidade também compete à performance profissional dos seus quadros?
Se Portugal é o caos, a culpa não será, enfim, dos portugueses?
Eu, por exemplo, sei bem que a culpa é minha. Sou preguiçoso e arrítmico. Tenho tiques disfuncionais e sofro de iliteracia em novas tecnologias. Para além do mais, pasme-se, tive a inconsciência brutal de votar no Dr. Santana Lopes para Presidente da Câmara da minha cidade, muito por culpa do Dr. Guterres, é verdade, mas ainda assim um crime de Lesa Pátria pelo qual devia ser punido pelo Dr. Bagão Felix, que - se o deixassem - viria logo muito pressuroso, cobrar-me, com juros e ameaça de penhoras, os benefícios fiscais que deduzi à colecta desde que sou um ente tributável.
Mas sim, eu sei, a culpa é minha. E quero aqui apresentar desde já as minhas mais sinceras desculpas aos alunos e seus respectivos encarregados de educação pelo abstruso facto de o ano lectivo não ter sido capaz de começar. E já agora, pela ignorância em que vivem mergulhados os filhos da nação. E só não me demito - acreditem - porque não exerço cargo público.

Fado Cacilheiro


Sou um velho cacilheiro
na doca seca a navegar.
A morte é um marinheiro
que se demora no mar.

Trago musas no porão,
antigas glórias do Tejo.
Sou uma velha embarcação
longe da maré que desejo.

Sou um velho cacilheiro
já sem carta de marear
estou perdido no novoeiro
da doca seca à praia-mar.

Trago as tágides na proa
e os dez cantos do Camões.
Sou um velho de Lisboa
com saudade das monções.

Sou um velho cacilheiro,
na doca seca a navegar.
Para quem é prisioneiro,
o tempo corre devagar.

Trago comigo essa glória
do Tejo desaguar pelo mundo.
Sou um velho sem memória
imerso em sono profundo.

Sou um velho cacilheiro,
não tenho pressa de chegar.
A morte é um marinheiro
que se demora no mar.

quinta-feira, setembro 16, 2004

Degenerescência.

Desgraçadamente, o Blogger não me permite dar resposta às opiniões que vão sendo colocadas no meu próprio blog! Mas porque não posso deixar passar em claro as observações que um senhor anónimo deixou a propósito do post sobre Mário Soares, transporto a polémica para fora do âmbito da caixa de comentários.
Para já, o que disse este senhor(a):

<<É natural que custe muito a algumas mentes "avançadas" ouvir o que diz hoje o Dr.Mário Soares e outros, como o prof. Adriano Moreira, o prof. Freitas, etc...
É natural que estas mentes "avançadas", e contudo tão decrépitas para a idade, não gostem de ver alguém a pôr em causa os tachitos, seus e dos amigos...
Mas, o que havemos de fazer? A verdade é mais forte que a mentira, não é?!>>

Bom, não sei se esta criatura me conhece pessoalmente (parece ter a pretensão de saber a minha idade), mas perdeu uma belíssima oportunidade para fazer silêncio sobre o seu infeliz delírio. Sempre trabalhei para empresas privadas (agências de publicidade) e - como é fácil adivinhar - em nenhuma situação fui recrutado pela minha visão política. Hoje trabalho por conta própria e só dependo de mim - e da paciência dos meus clientes, que, naturalmente, não se ralam nada com as minhas opiniões sobre o Dr. Mário Soares, o Papa Inocêncio V, o ministro Colbert ou as barbas de Maomé. Tenho tachos em casa, mas também não lhes dou uso, já que como gosto apenas de fazer aquilo em que sou minimamente competente, recuso-me a cozinhar. Quanto aos meus amigos, lamento imenso defraudar as expectativas deste senhor anónimo, mas não mantenho relações afectivas com ninguém que tenha subido (ou descido) na vida por ser deste ou daquele partido político.
De qualquer forma, este senhor parece ser ingénuo ao ponto macrocósmico de pensar que os amigos do Dr. Mário Soares - olha quem! - nunca arranjaram um empregozito na vida por causa disso mesmo: de serem amigos dele. É demais caramba!
Seja como for, eu percebo bem as patologias que consubstanciam o comentário esquizofrénico: não se pode dizer nada do sumo pontífice da esquerda nacional, que ficam logo muito ofendidos os camaradas, injuriando toda a gente com os mesmos dogmas pequenos que lhes preenchem a existência filosófica, içando imediatamente as bandeiras da verdade e da mentira como se fossem os donos de uma e de outra. Agora, como a malta não tem culpa nenhuma do deficit em inteligência e do desmaio da razão, peço-lhe encarecidamente que nos poupe, senhor anónimo. Seja económico no dislate e invista mais no psicólogo. Vai ver que compensa.

quarta-feira, setembro 15, 2004

Decadência.

Hoje vi e ouvi um dos grandes personagens da Europa do Século XX a dizer tantas barbaridades por minuto que até fiquei zangado por não haver censura. Faz agora muita falta ao Dr. Mário Soares o asilo do pudor. O homem lembra-me a Amália, já sem voz, perante a plateia repleta e em júbilo do Coliseu dos Recreios. Nem canta bem, nem engana o incauto, mas a malta levanta-se para aplaudir o mito. E se Mário Soares está na Sic Notícias a ser "entrevistado" por um tipo completamente subserviente, é só para continuar a ficar no boneco. E é realmente triste - triste como a Trova do Vento que Passa - vê-lo assim, tão decrépito.

quinta-feira, setembro 09, 2004

Os Sonetos da Cidade Fantasma - Canto III


Uma cidade assim calada de buzinas,
sem os escapes abertos das motoretas,
é terra sagrada para anjos e poetas,
santo silêncio para jograis e ardinas.

Até esse bairro chique de Alvalade
(sempre tão ufano, tão sofisticado),
ficou deserto, quase envergonhado,
do tempo em que suava de vaidade.

E o Largo do Município sem limusinas,
sem fato nem gravata, mudo e calado,
seria um triunfo para as varinas!

Por isso digo e repito: foi de esteta
a manhã em que acordei espantado,
para o espectro da cidade deserta.


terça-feira, setembro 07, 2004

Sobre o Horror.

I - O que se passou em Beslan, na Ossétia russa, ultrapassa, largamente, os limites do terror a que estamos habituados. Trata-se de crueldade em estado líquido, esse puro ópio da demência. Trata-se de homens que se obrigam a fuzilar crianças em fuga de um pesadelo que eles próprios engenhosamente criaram, de homens que colocam mil inocentes sem alternativa que a de ingerir a sua própria urina, de homens cuja interpretação de Deus envergonharia qualquer inquisidor da idade das trevas. Trata-se de gente que odeia muito para além da religião, da razão, da moral, da condição económica, do instinto de sobrevivência. Mais que a retórica da administração americana, estes é que são os actos que de facto abrem o contraste entre o bem e o mal.

2 - Mesmo assim, são as vozes contra Vladimir Putin - e não contra os terroristas - que mais se levantam na Europa. Quantas crianças é que vão ter que morrer nas escolas do mundo ocidental para que os seus pais estejam finalmente preparados para morrer no campo de batalha? Que mais tem que fazer Ben Laden - e outros muitos como ele - para ser perseguido como o inimigo fundamental?
O problema psico-social dos últimos 60 anos na Europa é que - ainda traumatizados pelos horrores da guerra - os seus povos não conseguem perceber que existem causas de civilização que superam o valor da vida individual. Em honra dos milhões que morreram defendendo essas causas nas costas da Normandia como nas fronteiras francesas do fim do século XVIII, nas prisões de Joanesburgo como na batalha de Gettysburg, em Álamo como em Dunquerque, na cruz de Pilatos como nos fornos de Auschwitz; em honra daqueles que sacrificámos durante séculos, é preciso entender que nos esperam novos sacrifícios. A liberdade sempre foi muito cara e o preço não baixou com a soma das eras. Dir-me-ão que esta é a lógica do terrorista. Eu direi: é precisamente pela natureza do inimigo que temos pela frente que devemos assumir o imperativo categórico. O mesmo aliás que no decorrer do Século XX, nos pareceu válido quando entricheirámos a morte para deixar vazio de poder o absolutismo habsburgo, para derrubar a loucura de Hitler ou para combater o imperialismo comunista.

3 - Por cá, a proverbial imbecilidade que domina a comunicação social portuguesa fez da morte um festim, da ignorância um banquete e do horror a especialidade da casa. Os monstros que perpetraram um dos mais tenebrosos factos da história moderna da humanidade, foram sujeitos à filologia do absurdo pelos jornalistas de serviço, que lhes chamaram “guerrilheiros”. Nem raptores, nem bandidos e muito menos terroristas, mas apenas um termo tão neutro que dá vómitos. Se eu fosse de esquerda, sentir-me-ia insultado pelo facto de nomearem estes homens com a mesma sintaxe que se tratava Che Guevara. Como não sou de esquerda, fico todo arrepiado, como quem vê o fim.
Em directo no Canal 1, José Rodrigues dos Santos mostrou uma evidente incredulidade, até mesmo indignação (muito mal disfarçada), quando o correspondente em Moscovo lhe disse que os russos perceberam e, na sua maioria difícil, aprovaram o comportamento governamental. Habituados a co-existir com estados imperiais, os russos sabem de história. Rodrigues dos Santos, vitima de seu país e de si mesmo, habituado somente a ler teleponto das oito às nove da noite, não sabe de coisa nenhuma.

Nota de rodapé: agora o homem está doente, mas quando recuperar gostaria que Bill Clinton explicasse melhor ao mundo porque raio andou sempre a moer o juízo de Putin a propósito da Tchechénia. Enquanto isso, ficarei com a suspeita de que não são só os republicanos a alimentar amizades inconvenientes no Médio Oriente.E, pelo sim, pelo não, vou enviar um email ao Michael Moore para saber se ele quer fazer um filme sobre isso.

quinta-feira, setembro 02, 2004

Manifesto.

Como ainda não falei da missão e dos valores deste blog, aqui fica o registo:

a) Este é um blog sem pretensão a blog. Já tive um desses que não me trouxe felicidades. Que me consumiu o tempo que não tenho para ser consumido.
b) Estou-me completamente nas tintas para o facto de ter apenasmente como leitores a minha santa mãe querida e mais dois ou três sujeitos da minha amizade. Não escrevo para que me leiam, escrevo porque o mundo me castiga com insultos.
c) Filosoficamente, este blog respeita a visão sobre a condição humana que toda a gente pode ler em melhor nas máximas de Schopenhauer, Nietzsche e Bachelard; nas páginas escritas por John Steinbeck, Stendhal, Àlvaro de Campos, Erico Veríssimo, Franz Kafka, Jorge Luís Borges, Marguerite Yourcenar, James Joyce, Seutónio, Edward Gibbon e Aldous Huxley; nas telas de Velasquez, Bosch, Francis Bacon, Edward Hopper, nas pautas torturadas por Wolfgang Amadeus Mozart, Ludwig Von Beethoven, Johann Sebastian Bach (que só compunha música para os ouvidos de Deus), Vivaldi (em vez de Verdi), Rossini e Strokes (por ausência de Tubes); nos olhos telescópicos de Lars Von Trier, Stanley Kubrick, David Fincher, Cecille B. de Mille, Hitchcock; no terror dos Czars e no desdém dos Habsburgos e no pragmatismo elegante dos Medicis e no saber intuitivo de Albert Einstein, Isaac Newton, Von Braun, Godel, Heisenberg, Kepler, Galileu, Stephen Hawking, Bartolomeu de Gusmão e - claro está - Homero, Platão, Cristo, Da Vinci, Kant, Winston Churchill e Júlio César.
d) Este blog é, assim, um manifesto contra o humanismo. Essa coisa horrível de gostar de pessoas porque são pessoas, como horrível será amar a vida só porque se está vivo.
e) Por isso, este blog só linka blogs de pessoas de quem gosto, raríssimas excepções que faço à regra, mais o blog do Pacheco Pereira (que é uma fraqueza minha).
f) Este blog não tem afinal valores, nem tão pouco uma missão. Tem só o esperma dos dias. A espuma do tempo. O desinteressado e desinteressante pasmo perante o abismo.

Tudo o resto é devaneio - a suprema arte do século XXI.

terça-feira, agosto 31, 2004


Andei por terras da Costa Vicentina e por praias de Sagres - que não sendo geograficamente o ponto mais ocidental da Europa, é simbolicamente o ponto mais ocidental da Europa - e, em Agosto, não há ninguém. Chega-se à praia que não vos digo qual é e não está lá ninguém. E é uma da tarde. E é no Algarve. E é um orgasmo. Andei por terras habitadas pelo vento, vividas pelo tempo, povoadas pela espuma das ondas e desertas de gente. Sem fazer 30 horas de avião. Sem ter que falar línguas, beber café estrangeiro, comer comida sem sal ou vampirizar a miséria dos povos dos trópicos. É aqui mesmo a 250 quilómetros da minha rua e eu só espero é que não me liguem nenhuma e continuem a ir para a Indonésia, para o Brasil, para a ilha alcatraz de Cuba, o Cancun das luas de mel, as Caraíbas, as Seichelles, as Canárias, Ibiza, Madeira, Açores, Cabo Verde, Moçambique, Torre Molinos, Málaga, Saint Tropez, Capri, ou para o diabo que vos carregue! Portugal precisa de paz. Por isso no próximo Verão, façam-me o favor enorme que me fizeram agora e vão por esse mundo. E deixem Portugal só para mim, está bem? Combinado? Mil obrigados.


Má onda.

E se um barco - tipo “prossecutors on waves” -chegasse às águas territoriais portuguesas, com pavilhão inglês ou norte americano e ganas de promover a legalização da pena de morte? Teríamos mesmo assim 50 jornalistas portugueses a bordo? Prime time sobre as ondas? Humilhação da lei portuguesa e dos bons costumes em directo, de hora a hora, na SIC Notícias? Não é preciso ser contra ou a favor da despenalização do aborto para ficar enjoado com o presente balanço mediático do mar português.E, já agora, quem em nome do deus que não há, inventou esta coisa conceptualmente nazi do barco do aborto?

segunda-feira, agosto 30, 2004

Os Sonetos da Cidade Fantasma - Canto II


Do vazio da Baixa ao Bairro Alto
fui subindo a sós pelo Chiado:
não fui visto nem incomodado
pela gentinha em sobressalto.

Na Brasileira, estava o Pessoa
na esplanada do fim sentado,
com olhos de pedra e danado
por ter de morrer em Lisboa.

Mas, senhores, que sensação:
passear no Rossio abandonado,
sem a entropia da multidão!

E ver a Avenida da Liberdade
- outrora em fluxo saturado -
toda despida de humanidade!


segunda-feira, agosto 16, 2004

Os Jogos Olímpicos da Cabra Cega.


O eloquente Claque Quente já disse quase tudo o que havia para dizer sobre o fenómeno - e não é meu hábito escrever sobre assuntos já dissecados por blogues amigos - mas deu-me uma vontade grande de escrever isto: se os senhores do Comité Olímpico, na sua inteligência de hipópotamos endinheirados, acham que actividades alienígenas como a natação sincronizada(?) ou o softball(???) são dignas do torneio, então, que diabo, porque raio de critério abstruso não estão presentes modalidades veneradas por milhões como o Rugby, o Hóquei em Patins, o Futebol Americano ou o Cricket? E, por lógica inversa, porquê manter afastados da distinta competição desportos tão universais como o Jogo do Berlinde, o Jogo da Glória, o Jogo do Galo, o Master Mind, a Batalha Naval, o Toca e Foge, o Quarto Escuro, a Verdade e Consequência, o Bate Pé,os Quatro em Linha, a Luta de Bar, o Jogging, o Step e as Corridas em Carrinho de Esferas?
De quatro em quatro anos, estes sábios da razão desconcertante acrescentam mais um disparate à já longa e inóqua lista de modalidades olímpicas, misturando amadores com profissionais, o vale tudo da alta competição com o cavalheirismo de sobrecasaca, valores clássicos com ambições modernas, corrupção com puritanismo e universalismo com idiotia; até que, naturalmente, os jogos acabem por perder todo o seu significado.

domingo, agosto 15, 2004

Os Sonetos da Cidade Fantasma - Canto I


Acordei um dia na cidade deserta,
com Lisboa só para mim, calma,
tranquila, sem sinais de viv’alma,
nua de gente, ausente e aberta.

Das avenidas novas até à solidão,
só com semáforos por companhia.
Eis a silhueta da cidade vazia:
natureza morta em tela de betão.

Deitei-me no asfalto - à revelia;
fui voz única no eco dos viadutos.
fui enfim deus de mim por um dia.

Soltei gargalhadas nas praças,
fui mijando pelos aquedutos
e, juro-vos, fui feliz p'ra caraças!
 


quarta-feira, agosto 11, 2004

A importância de ser Artur.

Hoje tive o privilégio de jantar com um dos meus ídolos de infância. Chama-se Artur e foi outrora amado por milhares de verdadeiros adeptos do futebol verdadeiro que lhe chamavam "o russo". Artur, lateral esquerdo da Académica de Coimbra, do Benfica, do Sporting e da Selecção Nacional, fez nos anos 70 coisas que hoje nos são estranhas como por exemplo: limpar o seu corredor todo, durante 90 minutos, sem se dar por falta de um extremo; correr tanto que até doía (mas só a quem o estivesse a ver jogar); distribuir generosamente valentes dentadas, veementes puxões de orelhas, porradas de todo o género e pontapés na boca de quem canelasse no Eusébio ou, por desgraça, "fosse uma minhoca".
No decorrer do jantar reparei que o Artur é, como ser humano, aquilo que era como jogador da bola: 30 anos depois, somando tromboses, AVCês, cirroses e diabetes, já todo torto, o homem continua veemente, aguerrido, leal de peito alto, erguido para a vida.
O Artur falou-me de uma meia final da Taça de Portugal (Vitória de Guimarães - Académica de Coimbra) em que a camioneta do clube afogou três vezes e por três vezes os atletas da Académica empurraram o veículo para chegarem a Guimarães já em cima da hora, saindo a correr - e já equipados - directamente da carroça para o relvado. Falou-me de ser campeão sem derrotas (e eu lembro-me!) numa equipa de glórias conduzida por Jimmy Hagan, um genuíno sargento do império britânico, que deixava os assuntos marginais como a constituição do onze inicial para o capitão de equipa - na altura, Simões - preocupando-se sobretudo que os jogadores vomitassem de cansaço, evitassem as mulheres, não fizessem acompanhar o café do proverbial bagaço e se vissem privados dos vintes contos de prémio de jogo, quando venciam sem esforço. Falou-me de ganhar 5 a 1 ao Montijo no último jogo dessa época triunfal (72/73?) e partir logo - sem festas nem champanhe - para Saragoça, jogar um torneio que dava 16 mil dólares, porque o clube precisava do dinheiro. Este célebre Benfica, ainda com Eusébio, não se limitou a ganhar o torneio: contando com o jogo contra o Montijo, marcou em três partidas dezanove golos, sofrendo o Zé Henriques,apenasmente, três batatas.
O Artur falou-me ainda de sorrateiramente se escapulir da económica para a primeira classe de um voo da TAP, com o propósito de roubar uns pêssegos bonitos para o Toni, que adorava pêssegos.O Artur falou-me ainda de ganhar 34 contos por mês e falou-me, enfim, de gostar do balneário de Alvalade porque havia lá um corredor comprido com alcatifa, que servia bem para o aquecimento com chuteiras e até existia espaço para dar uns pontapés na bola, porque - por muito abstruso que isto possa parecer aos mais novos - na altura os jogadores não faziam o aquecimento no relvado.
Para ilustrar este post fui ao site do Benfica, à procura duma foto porreirinha deste enormíssimo atleta, benfiquista dos setenta e dois costados e homem com tudo em maísculas. Obviamente que procurei no capítulo das "grandes glórias" do clube. Grandes glórias como o Fernando Meira (ano e meio no SLB, zero títulos) estavam presentes. Artur, o russo, um dos melhores laterais que a puta da mãe natureza ofereceu ao futebol, campeão não sei quantas vezes, esforçado e valente cruzado da ordem da águia de ouro, não se encontra. Como hoje mesmo se viu na Luz, o Benfica contemporâneo é uma coisa tão estranha como um circo sem artistas. Mas seria menos doloroso tudo isto, se por inspiração de deus ou do diabo, ainda conseguíssemos respeitar um passado feito de homens assim, que iluminaram o percurso da história do desporto nacional com os valores da dignidade e da honradez entretanto desaparecidos. Vergonhosamente desaparecidos.
Oscar Wilde, ele também um desaparecido em combate, diria de Ernesto: "a presença de um homem só é urgente quando se torna necessária a aplicação do seu génio." Eu digo apenas: gostei à brava de jantar hoje com o Artur.

segunda-feira, agosto 09, 2004

Intermezzo


H. von Karajan - Amigo Leonard, tive esta conversa interessantíssima com Deus, que me garantiu ser eu o maior maestro da história da música!
L. Bernstein - Curioso, Herbert, não me lembro nada de ter tido essa conversa consigo.

quarta-feira, agosto 04, 2004

De que é as senhoras estão a falar?

Ein Hopper für 92 Millionen | Monopol
“Whom did I meet? Nobody. I'd heard of Gertrude Stein, but I don't remember having heard of Picasso at all. I used to go to the cafés at night and sit and watch. I went to the theatre a little. Paris had no great or immediate impact on me.”
- Eward Hopper sobre a sua estadia em Paris, por volta de 1906 -

Este não é o meu quadro favorito do Hopper. É, apesar disso, o mais indisciplinado, razão suculenta para o trazer à conversa. Edward Hopper foi rei e senhor do império do subliminar e a sua obra estática enche-se de movimento na nossa inteligência. Foi o mago da geometria da alma na cidade vazia e as suas representações minimais tornam-se barrocas no nosso entendimento. Foi o realista supremo do silêncio e da inocuidade e as suas telas despidas, adornam-se de trajes ocultos no quarto de vestir da nossa sensibilidade. Este introspecto e circuspecto génio da arte moderna, vingança iluminada da gente vulgar, virtual campeão da classe média americana, ele mesmo, a antologia da banalidade, que viveu em Paris nos dias de triunfo dos modernistas sem nunca dar com eles nas ruas e nos cabarets onde os procurava; que passeou pelas urbanidades todas da arte europeia sem deixar esperma nem receber dentada; Edward Hopper, esse lado obscuro da lua numa noite de lua nova, nunca afirmou coisa nenhuma: deixou apenas vestígios. Pistas. Suposições. Adivinhas. Charadas. De que é que estas duas senhoras estão a falar? O que eu leio, no reclame do lado de fora da janela, é SEXO. Estas duas senhoras, de ar diletante e de sobremaneira entediadas pela intimidade comezinha do café de bairro, conversam sobre sexo. Não é que esteja lá escrito com todas as letras, não. Mas está-se mesmo a ver. E isso não é de um quadro de Edward Hopper, senhores, que o homem desleixou-se aqui, na sua missão estética de monstro enigmático.

terça-feira, agosto 03, 2004

O Poema da Malta das Naus

OU PORQUE É QUE EU GOSTO TANTO DO GEDEÃO

"Lancei ao mar um madeiro,
espetei-lhe um pau e um lençol.
Com palpite marinheiro
medi a altura do Sol.

Deu-me o vento de feição,
levou-me ao cabo do mundo.
pelote de vagabundo,
rebotalho de gibão.

Dormi no dorso das vagas,
pasmei na orla das prais
arreneguei, roguei pragas,
mordi peloiros e zagaias.

Chamusquei o pêlo hirsuto,
tive o corpo em chagas vivas,
estalaram-me a gengivas,
apodreci de escorbuto.

Com a mão esquerda benzi-me,
com a direita esganei.
Mil vezes no chão, bati-me,
outras mil me levantei.

Meu riso de dentes podres
ecoou nas sete partidas.
Fundei cidades e vidas,
rompi as arcas e os odres.

Tremi no escuro da selva,
alambique de suores.
Estendi na areia e na relva
mulheres de todas as cores.

Moldei as chaves do mundo
a que outros chamaram seu,
mas quem mergulhou no fundo
do sonho, esse, fui eu.

O meu sabor é diferente.
Provo-me e saibo-me a sal.
Não se nasce impunemente
nas praias de Portugal. "

António Gedeão - Movimento Perpétuo - 1956

quinta-feira, julho 29, 2004

A febre Scalex Tric: partida para a glória.


Lembro-me de mim adolescente petulante que lia Aldous Huxley entre duas corridas do campeonato de Fórmula 1 em carrinhos da Lego. Lembro-me de mim muito aflito quando a namorada entrava pelo quarto a dentro (nesses tempos, a minha casa oferecia a privacidade de um café central) e me encontrava empurrando carrinhos de um lado para o outro, repetidamente, concentradamente, até decidir, na última volta, quem venceria: Alain Prost ou Alan Jones. Lembro-me das ameaças do género: ou brincas ou namoras. Lembro-me de, a mais das vezes, preferir o ActionMan ou as profecias do Huxley. Lembro-me de desenhar, muito à pressa, o logotipo dos MotorHead na parede (as paredes do meu quarto eram aguarelas da puberdade), mesmo a tempo de terminar a batalha de Inglaterra com os kits da Revell, muito mal montados. Lembro-me desses stukas, desses spitfires e desses Messerschmitt como se fosse hoje que mergulhassem em ataque terminal pelos céus do escritório. Lembro-me de sair mais cedo das matinés dançantes no Rock Rendez-Vous e no Acapulco para ir brincar às escondidas com os Matchbox e os Corgytoys. Lembro-me de pensar com triste lucidez que já não tinha idade para inventar patifarias dignas de Butch Cassidy, para simular o palco sonoro dos disparos de Lone Ranger ou do relinchar de Silver, o seu nobre cavalo branco. Lembro-me de olhar para a minha pista (um oito miserável, mas com contador de voltas e tudo) e como quem arruma os brinquedos para nunca mais brincar, concluir com desesperada clarividência que já não tinha infância para construir, todas as tardes, um admirável mundo novo. (cont.)

terça-feira, julho 27, 2004

Tributo

Sobem pelo caminho das cinzas ao cimo da serra, descem ao inferno fornalha pela limalha da terra. Peritos em perigos, guerreiros operários; são profissionais e amadores, sapadores e voluntários. Como um bravo exército sem maneiras, combatem com machados e armados de mangueiras. E quando é a esperança que já arde, inundam de coragem a desgraça, antes que se faça tarde. Vencedores e carrascos sobre o fogo voraz, triunfam e caem carbonizados, os soldados da paz. Não acumulam fortunas, não se consomem em famas: são só heróis afinal de um Portugal em chamas.

segunda-feira, julho 26, 2004

O Super Homem anda de bicla.

Contra tudo e contra todos Lance Armstrong tornou-se ontem o ciclista mais bem sucedido de sempre na Volta à França - um evento desportivo desenhado e organizado por sádicos - com 6 vitórias na prova. Este ano, a sua superioridade foi esmagadora, sobrando-lhe ainda energia para requintes de malvadez, que incluiram: a) 6 vitórias em etapas; b) 3 vitórias nos 3 contra-relógios da prova (dois individuais e um por equipas); c) Um sprint sobre-humano à chegada da 17º etapa (depois de 205 quilómetros e 5 contagens de montanha), em que nos últimos 300 metros recuperou uma desvantagem de 100 para o alemão Andreas Kloden que tinha, aparentemente, a vitória garantida. d) A humilhação a que submeteu Filippo Simeoni (a quem interpôs um processo judicial por difamação) na 18ª etapa, perseguindo-o, sem ajuda da US-Postal, na fuga que o italiano empreendeu e anulando assim o seu esforço. e) 9 minutos de diferença para o seu mais directo rival (e um grande ciclista): Jan Ullrich. José Azevedo, o número dois da US Postal, ficou em quinto, a segunda melhor marca de sempre de um ciclo-tuga. Se Armstrong não correr para o ano e Azevedo contar com a vontade política da equipa americana (e mais alguma ambição) arriscamo-nos todos a ver um português ganhar o Tour.

domingo, julho 25, 2004

sábado, julho 24, 2004

Arte contemporânea é Arte Nova?


Pelos vistos, também é. Senão vejamos: Fernando Aguiar expõe, numa salinha pequena do Museu Nacional do Traje, ilustrações que reflectem a tipologia estética de transição entre o século décimo nono e o vigésimo, submetidas a um genial trabalho de tipografia em que a letra deixa de ser semântica para ser exclusivamente, despreocupadamente, sintaxe. Quero eu dizer que a inquietação própria da epistemologia da arte actual encontra, neste cantinho, atitudes de lucidez artística. De insolência filológica. De impulso universalista. O autor chama-lhe Poesia Visual. Eu prefiro falar de Coragem Gráfica. Peço-vos encarecidamente, caros e necessariamente escassos visitadores deste blog: da próxima vez que passarem no Paço do Lumiar, façam uma pausa de 5 minutos, estacionem o automóvel (é logo à esquerda de quem entre pela Padre Cruz e tem um pequeno mas suficiente parque de estacionamento) e procurem pela exposição "A Poética e o Traje". Está patente até ao fim de Setembro e trata-se de uma mostra especialmente sedutora para designers gráficos, mas é importante para todos saber que a arte contemporânea também se reinventa aqui, no último país do Ocidente. Grande, enorme, impossivemente possível Fernando Aguiar!

quarta-feira, julho 21, 2004

A febre Scalex Tric: volta de aquecimento.


Lembro-me dos tempos paleolíticos em que era criança e construía longas rectas, só para atirar violentamente os carros contra a parede da varanda. Lembro-me de misturar o comboio eléctrico da Lego com a pista de automóveis, os soldadinhos da Timpo, os bonecos da Airfix, os castelos da Knex e o feltro do Subutteo. Lembro-me de não ter consciência de escala e preocupações de realismo. Lembro-me de me divertir à grande e a sós, no meu quarto de filho único, construíndo e destruíndo mais sonhos que apenas os meus (sim, destruindo também os sonhos dos outros). Todos contra todos, os meus brinquedos banhavam-se em gloriosa cosmogonia para meu deleite. Só para meu exclusivo prazer de deus ímpio, alegre e despreocupado, entornavam-se exércitos em rios de sangue, defrontavam-se grandes clubes do futebol europeu em chacinas de verde, amigavam-se mouros e peles vermelhas, cruzados e cowboys lutavam lado a lado contra o Afrik Corps, enquanto do quartel dos bombeiros da Lego Ville saía uma brigada para apagar o incêndio que teria deflagrado algures, na sala de jantar. Lembro-me de queimar - subtilmente - um dedo no motor de um carrinho de pista. Lembro-me de pensar que os motores de carrinhos de pista que aquecem ao ponto de me queimar - subtilmente - o dedo, são a coisa mais prodigiosa da criação toda. (cont.)

segunda-feira, julho 19, 2004

A vila da vergonha.

Dogville [2003] : CineShots
Lars Von Trier está para o cinema como Arthur Schopenhauer para a filosofia: cientistas do colapso da alma humana, ambos assumiram com determinação implacável a ambiciosa missão de erradicar da consciência qualquer vestígio de esperança. E se, quanto à boa prossecução deste propósito, podemos apontar uns poucos equívocos e outras escassas ineficiências à sabedoria de Arthur, o certo é que Lars parece muito mais competente. Se alguém ainda tem dúvidas sobre a condenação última da humanidade à mais miserável condição moral, Dogville é a obra lapidar. Um manual de normas para reduzir a cinzas a vaidade do Homem. E só para testemunhar o desempenho de Nicole Kidman no papel de Jesus Cristo vale a pena ver o filme dez vezes.

Rise of the machines

Watch The 10 Senses That Will Make Robots More Human ...
Este mês, a wired presta o devido tributo ao andróide, esse grande protagonista do imaginário sci-fi, esse belo monstro que a tecnologia há-de parir para extermínio funcional da raça humana. Ou para sua suprema felicidade. Da visão de Isaac Asimov, ao Gigolo Joe de Kubrik/Spielberg, a Wired trata o tema com impulso enciclopedista. Um número a não perder para amantes da ficção científica. As 3 leis de Asimov (1940): [ 1 ] A robot may not injure a human being, or, through inaction, allow a human being to come to harm. [ 2 ] A robot must obey orders given it by human beings except where such orders conflict with the First Law. [ 3 ] A robot must protect its own existence as long as such protection does not conflict with the First or Second Law.

Porque é que eu gosto tanto do Régio?

"Vem por aqui - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha mãe

(...)

Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!"

José Régio - Cântico Negro

domingo, julho 18, 2004

Fidalgos do Século XXI

Mesmo com critérios de selecção ao nível do recrutamento de soldados praças, Santana Lopes viu-se e desejou-se para conseguir formar governo. Na verdade, ninguém quer governar Portugal. As elites nacionais têm pelos ministérios a aversão que a fidalguia do século XV tinha pelas artes do comércio: é coisa suja. É ofício indigno de gente sábia que prefere os prazeres almofadados dos conselhos de administração de instituições - essas sim veneráveis - como A PT, a Brisa, a TAP, a RTP, a EDP e outras que tais que oferecem bons ordenados, Audis A6 de dois em dois anos e a segurança barriguda de serem participadas pelo estado. Nestes casos, naturalmente, já não se importam estes novos aristocratas com a sujidade da coisa pública.
Sempre defendi que os políticos deviam ganhar muito melhor e é de uma demagogia verdadeiramente imbecil - com efeitos dramáticos sobre a cultura de gestão do estado - continuar a pagar tuta e meia aos dirigentes da nação (como defendeu recentemente o próprio Santana Tiro no Pé a propósito do célebre salário do Director Geral dos Impostos). Mas ainda assim, começa a enevar-me sobremaneira este nojo com que a nata da tecnocracia lusitana trata a República.

Azul de Raiva.

Blue Sun - Nasa by LigaLiteraria on DeviantArt
De olho ultra-violeta apontado para o Sol, o observatório heliosférico Soho ensina-nos que somos vizinhos de um corpo celeste de terrível temperamento, câmara de combustão enraivecida pela solidão do universo, aqui captada em plena tormenta magnética, cuspindo flares e plasma em jactos que alcançam facilmente a altura de dez perímetros terrestres. Afinal, o sol é a substância do caos, a forma da fúria, a essência da entropia. Afinal, é um astro de maus fígados, um discóbolo deus fulminante, um pesadelo térmico em convulsão megalítica que nos ilumina o sofrido caminho pela homérica curvatura da terra.

sexta-feira, julho 16, 2004

As razões da felicidade ou a Oitava Sinfonia

Quem ouve a Oitava Sinfonia de Beethoven chega facilmente à conclusão que a obra foi escrita por um homem feliz. Tchaikovsky - ele mesmo, tão egoísta em elogios - escreveu sobre esta obra prima o seguinte: "It is the last bright smile, the last response, given by the poet of human sorrow and hopeless despair to the voice of gladness". Acontece porém que, à época da sua composição, o Mestre vivia, como sempre viveu, em fúria e dor e danação. Atirado para a casa do seu irmão Johann em Linz, com o propósito de curar uma feroz intoxicação alimentar, cedo descobre que o desgraçado se perde em delícias e volúpias com a criada de quarto. Beethoven desaprova o desagravo social com unhas e dentes: faz tudo o que lhe é possível para exterminar a relação bastarda, incluindo queixas à polícia e protestos no bispado. Contrariando a austera vigência moral do seu irmão mais velho, Johann arranja maneira de casar com a criada da noite para o dia, e é por isso que rebenta a Oitava Sinfonia.