sexta-feira, setembro 14, 2012

Recordações escondidas na poeira bolorenta de um esquecido e velho baú, no sotão do meu bisavô.


POR ARTUR PAIXÃO

Pergaminho amarelado, de cantos que a rataria teria mordiscado, entre outros manuscritos embrulhados num laço cor-de-rosa desmaiado, conspurcados pela traça e humidade de muitos Invernos.

Permita-me, condessa, usar formalismos menos de acordo com a justeza da vossa nobre condição, omitindo títulos que possuis muito honrosa e justamente. Cinquenta anos após o meu afortunado encontro com vossa  senhoria nos jardins do Palácio Real, sob a bendita sombra dos plátanos, muito mudou nas gentes e nos costumes, envolvidos agora na incivilidade de novas ideias e hediondas maneiras, abjectas. Sou hoje um lamentável produto da chamada evolução, já sem as delicadas cortesias com que vos secava as lágrimas que haveis vertido por entre o perfume vosso e do roseiral e que vos podiam ter valido o cepo.
Não poderias amar-me, bem sei, cruelmente arrastado dos vossos gentis braços pela minha condição de moço de estrebaria, e vós entregue ao vosso conde, afraldado em berço de ouro, peça da corte e do Rei, tolhida pelos garrotes da política e de outras conveniências.
Ficou, porém, o nosso amor por mercê de Deus selado na morna doçura do palheiro e essa foi a única benção que me foi dada em vida. Recordo-vos agora, assalariado municipal, aboletado numa mísera arrecadação de Paris, escanzelado, famélico, subsistindo da memória desses dias em que jazia mimado entre o peito da minha adorável condensa.
Recordais-me?
É assim que me dobro a vossos pés, idolatrando-os, ousando suplicar-vos que me remeteis, sem descontentamento, antes como um gasto reflexo dessa paixão maior, alguns francos, de preferência, se possível, em cheque de dólares, que me permita sonhar com um brioche de antes de ontem e uma garrafita de absinto, que me reforce a recordação dos vossos braços e evoque o quente conforto dos vossos seios.

Apaixonadamente;

Pierre du Latan


quarta-feira, setembro 12, 2012

Humilde Ode Triunfal

"E. ainda há quem faça propaganda disto: 
a pátria onde Camões morreu de fome e onde todos enchem a barriga de Camões!"
Cena do Ódio | José de Almada Negreiros

Na minha humilde opinião, o Pessoa foi feliz.
Quero dizer: foi infeliz - miseravelmente infeliz - de moeda,
Porque mesmo no bolso onde trazia mais dinheiro,
O dinheiro que trazia era mísero.
Mas foi feliz - imensamente feliz - de talento,
Porque mesmo no poema que levava menos génio,
O génio que levava era imenso.


No meu pobre juízo, o Pessoa foi feliz.
Foi feliz sem sexo - o que não é dizer pouco,
Foi feliz sem prémios - o que é muito para cima
Dos cinco contos de reis que o António Ferro lhe arranjou de batota,
Porque A Mensagem, sendo poema suficiente para explicar Portugal,
Seria insuficiente para compreender as cem páginas de poesia
Exigidas no regulamento.

Na minha humilde opinião, o Pessoa foi feliz.
Quero dizer: foi infeliz - desgraçadamente infeliz - quando enfim
Lhe recusaram - ironia de Borges - o desgraçado emprego
Na biblioteca de Cascais.
Mas foi feliz, feliz como nenhum outro poeta, porque afinal
Não há na história e não há na literatura outro poeta assim sábio,
E ele sabia disso.

Na minha modesta ideia, o Pessoa foi feliz.
Ninguém consegue ser deprimido
após a consecução da Ode Triunfal.
E se alguém for capaz de inventar,
No tempo que se estende por uma só puta de vida,
Esta quantidade imaterial de personagens imortais,
Eu retiro o que agora escrevo e logo direi: 

Na minha humilde opinião, o Pessoa foi infeliz.
Quero dizer: foi infeliz - desgraçadamente infeliz - quando cedo
Lhe recusaram - por ser português - o desgraçado ingresso
Na universidade de Oxford.
E mais infeliz ainda, infeliz como nenhum outro português, porque também
Deu para ser eterno em Inglês 
Sem que ninguém desse por isso.

quarta-feira, setembro 05, 2012

Obama Toon Factory - Especial Eastwood



"I just want to say something to you, ladys and gentlemen, that I think is very important: you, we... we onwn this country. We own it. And i'ts you owning it and not the politicians ouwning it. Politicians are employees of ours. They just gonna come aroud and beg for votes every few years. (...) And when somebody just not do the job, we got to let him go."

Clint Eastwood

terça-feira, setembro 04, 2012

Derby.

Estou mesmo a ver:
De um lado da mesa está o Proust, 
Hirto e cordato e muito bem protegido contra os rigores da sua hipocondria, 
Por um casaco de peles de aristocrata
Que lhe custou 15 mil francos do dinheiro do pai.
Do outro lado está o Joyce, 
No conforto burguês de não estar minimamente vestido para aquilo.
Aquilo é um jantar que podia muito bem ser contado numa frase de seiscentas 
E setenta e duas palavras, maravilhosamente prosadas, do Tempo Perdido.
Aquilo é um jantar que não cabia entre os dias 15 e 16 de junho de 1904
Na verdade de Leopold Bloom.

O Proust pergunta-lhe se conhece o Visconde Disto e o Marquês Daquilo:
O Joyce dá-se, pela negativa, ao monossílabo.
É o jantar do não, não, não e não, não conheço esses.

Ainda assim - para escândalo das musas 
E indignação dos eruditos - é o sacana do irlandês, 
É o impertinente filho de comerciantes,
É o mal criado da literatura que se enfia na puerilidade do taxi fidalgo, 
Quando, no fim da equívoca soirée, o aborrecimento cede à curiosidade.
O Proust convida os amigos para a célebre ceia em sua casa,
Mas apela gentilmente ao taxista que prolongue a corrida
E leve o Joyce de volta até ao inferno de que é originário.
(O inferno é um sítio onde é impossível conhecer 
O Visconde Disto e o Marquês Daquilo).

Estou mesmo a ver:
O Joyce dormiu mal essa noite.
E o Proust, sempre tão atencioso com os outros, 
Sempre tão sensível, sempre tão interessado na vida dos outros,
Sempre tão preocupado em respeitar e alimentar
A zona de conforto dos outros;
Muito simplesmente, por uma vez,
Deve ter cagado no assunto.

Afinal, o Joyce até podia ser um modernista do escafandro;
Um imortal.
Mas por Deus, que fazer, que dizer, que conversar com alguém 
Que não conhece o Visconde Disto?
Que nunca privou com o Marquês Daquilo?

Estou mesmo a ver:
O Proust dormiu bem essa noite.

Ensaio Sobre a Cegueira.

O Travassos opera à velocidade espantosa de três cegos por hora.
São cegos curáveis, claro, com retinas disfuncionais e córneas destruídas.
São cegos com esperança. A pior espécie de cegos que há.
Andam de lá para cá, no labirinto da clínica, 
Com pensos nos olhos, com peso nos ombros, 
Com as pupilas dilatadas e com a alma encolhida;
Esperam, cabisbaixos; esperam, vulneráveis; esperam, religiosos;
Pelo exame, pela consulta, pela gloriosa e redentora faca hi-tec do Travassos.

O Travassos não faz milagres, mas cura para cima de cem cegos por dia;
Os curáveis, claro, porque os cegos que são mesmo cegos são corridos com desprezo.
(Enquanto o Travassos perde tempo com os cegos incuráveis
Não pode curar os cegos curáveis à razão de três mil por mês).

O Travassos não gosta de se explicar aos cegos. 
Nem aos curáveis nem aos incuráveis.
Ele faz o que faz, os cegos curáveis passam a ver 
E os cegos incuráveis continuam invisuais
E é assim.

Como o Travassos é, na verdade, um bruto, as enfermeiras sentem a responsabilidade
De ser tão simpáticas, tão prestáveis, tão piedosas,
que tratam os cegos curáveis como se fossem cegos incuráveis,
O que causa alguma confusão aos que não são cegos 
- Aos que estão lá só para fazer companhia aos cegos -
Porque assim é impossível distinguir
Os cegos com esperança dos cegos desenganados.

Ao Travassos raramente lhe falha a faca:
É um homem com uma missão.
Já aos cegos, falha a coragem:
são como crianças sem pernas,
Que se arrastam de lá para cá, aflitos,
nos corredores do Centro Cirúrgico de Coimbra.

Jornal de Letras | Julho/Agosto 2012

O Grande Livro das Coisas Horríveis - A Crónica Definitiva das 100 Maiores Atrocidades da História - Matthew White - Difel
Já disse o mais que tinha a dizer sobre esta pérola aqui, quando ainda ia a meio do livro. Resta-me só lamentar que um autor norte-americano pense que os norte-americanos são culpados (sozinhos ou em boa companhia) por 90% das coisas horríveis que se passaram no mundo desde a Segunda Guerra Mundial. Mathew White, que tanto procura ser objectivo - e é de facto objectivo até ao século XX - espalha-se ao comprido por causa do aparente ódio que sente pelo seu país. 
À parte disso, O Grande Livro das Coisas Horríveis é um calhamaço espectacular, que se lê como um romance de aventuras (escrito por Edgar Allan Poe).

Isaac Newton - James Gleick - Casa das Letras
Escrever biografias é uma arte que não está ao alcance de todas as penas. Escrever a biografia de Newton é, mesmo para os que alcançam esse virtuosismo e na maior parte dos casos, uma pretensão apenas. James Gleick, que até é dono de um prosar irrepreensível, caiu nesta armadilha e acaba por escrever uma espécie de ensaio como quem está a tentar escrever uma biografia a sério. O resultado inevitável, para o leitor, é um extremo desapontamento. Não sou um especialista, claro, mas acho que tem que haver mais (muito, muito mais) para dizer sobre a vida do maior génio científico da história da humanidade.

A Paixão de Schopenhauer - Christoph Poschenrieder - Saída de Emergência
De um romance que pretende ter como protagonistas Schopenhauer, Byron e Goethe, espera-se, pelo menos, alguns momentos poderosos. Infelizmente, não acontecem. E é tudo.

Fernando Pessoa - Uma Quase-Autobiografia - José Paulo Cavalcanti Filho - Porto Editora
Já me fartei de escrever sobre esta caricatura de biografia aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.
No entretanto, tive direito a mais raw data completamente inútil, como por exemplo as receitas dos pratos favoritos do Fernandinho, como por exemplo as bebidas que preferia e as que o deixavam mais bêbado, como por exemplo a relação última e definitiva de todas as suas moradas, de todos os seus empregos e de todos os seus amigos. Como por exemplo qual era o lado para que o Fernandinho dormia melhor. Como por exemplo quais os personagens exibidos ou semi-ocultos na capa do Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band (!) e até mesmo os personagens que estavam para fazer parte dessa multidão, mas que acabaram por ficar fora do boneco.
Sobre a obra do Fernandinho, propriamente dita, em setecentas páginas de surreal estatística não se encontra uma análise, uma recensão, uma originalidade digna de ser mencionada. 
De qualquer forma, no meio desta salganhada de irrelevâncias, consegui divertir-me porque o Fernando Pessoa era um gajo divertido. Consegui emocionar-me, porque o Fernando Pessoa era um tipo emocionante. Consegui aprender porque o Fernando Pessoa foi um pedagogo do camandro. Consegui perder-me, porque o Fernando Pessoa é um labirinto com labirintos lá dentro que têm labirintos lá dentro. E, a propósito de labirintos, consegui ficar a saber que o grande Jorge Luís Borges se prontificou a ser mais um heterónimo - o argentino - do Fernandinho, através da edição de textos deste sob o nome daquele.
Uma última nota: todos os biógrafos de Pessoa (João Gaspar Simões, Robert Brechon e este Cavalcanti Filho) insistem que o Fernandinho era um alcoólico e um ocioso. Ora acontece que o Fernando Pessoa estudou, leu e escreveu, nos seus curtos 47 anos de existência, muito mais do que qualquer mortal com expectativa média de vida a rondar os 80 anos pode alguma vez imaginar, quanto mais realizar. Não me fodam. Os heterónimos - esses sim - beberam muito do absinto que o Fernandinho disse que bebia, lá nas tascas oníricas onde bebem os heterónimos. E os heterónimos - esses sim - tinham tempo para não fazer a ponta de um corno enquanto esperavam pela sua vez de brilhar. Porque não é simplesmente possível que a obra imensa que ficou para a posteridade seja produto de um bebedolas sem ética de trabalho.

Fernando Pessoa - Ensaio Interpretativo da Sua Pessoa e da Sua Obra - João Gaspar Simões - Texto Editores
Onze anos depois de ter escrito Vida e Obra de Fernando Pessoa, a primeira e referencial biografia do génio modernista, Gaspar Simões volta ao seu tema preferido e edita, em 1962, este ensaio brilhante, clarividente e profundo.
Como fundador da Presença, o biógrafo foi editor do biografado, para além de amigo e correspondente. Talvez por isso, mas não só por causa disso, aprende-se mais nestas 60 páginas de sensibilidade e erudição extremas, que nas incontáveis folhas de ponto do senhor Cavalcanti, Filho.

O Jovem Törless - Robert Musil - Círculo de Leitores
Romance psicológico por essência e definição - produto estereotípico da escola de Freud (Musil também era austríaco e distava cronologicamente de Freud uma geração apenas) - 
O Jovem Törless é um tesouro da literatura ocidental, que me escravizou o espírito durante os quatro ou cinco dias em que o estive a ler (não é só Basini - o desgraçado de serviço na novela - que é torturado - o leitor também é, num suave sado-masoquismo). 
A qualidade estratosférica desta obra não é de estranhar, já que o livro veio parar-me às mãos por gentileza deste senhor aqui
Proust não consegue muito melhor, num milhão e meio de palavras, que esta novela de  cento e cinquenta páginas. 
Este terá sido o meu campo de treino para O Homem Sem Qualidades, monumento literário que, escandalosamente, ainda não li.

A Possibilidade de Uma ilha - Michel Houellebeq - D. Quixote
Já tinha lido a "Extensão do Domínio da Luta" e não tinha gostado nada. Mas dei mais uma hipótese a este francês que está na moda, muito provavelmente porque o meu amigo Bruno Oliveira Santos - que é para mim uma espécie de mentor - manifestou surpresa quando lhe disse que já tinha lido a "Extensão do Domínio da Luta" e não tinha gostado nada. 
Continuo com muitas dúvidas, depois desta leitura. Há aqui qualquer coisa de excessivo que me desagrada neste rapaz. Há aqui qualquer coisa de vulgar que me desagrada neste rapaz. Este rapaz escreve sexo muitas vezes por página. Deve ser por causa da impotência que demonstra em escrever literatura. É preciso ser um Henry Miller ou um aristocrata francês decadente para resumir tudo à pulsão sexual e mesmo assim fazer literatura. É muito difícil. E este rapaz facilita imenso. Salva-se o conceito distópico, que é mais ou menos aceitável, e algum esclarecimento político e social. O resto é punheta.

segunda-feira, agosto 20, 2012

Nem mais, nem menos.

"Quando se diz que o jornalismo é um sacerdócio, diz-se bem, mas o sentido não é o que se atribui à frase. O jornalismo é um sacerdócio porque tem a influência religiosa dum sacerdote; não é um sacerdócio no sentido moral, pois não há, nem pode haver moral no jornalismo."

Fernando Pessoa "Argumento do Jornalista"

segunda-feira, agosto 13, 2012

A grande novela portuguesa.


Hei-de acabar por morrer proscrito,
sem nunca ter escrito
a estória de tudo, o pan-policial.
E de cada vez que penso nela,
é com uma nova novela
que sonho afinal.

No meu épico calhamaço que jamais
terá mil páginas ou mais,
o Pessoa ganha enfim um
Primeiro-Prémio-Nóbel, oscarizado,
por ter concebido e acabado
romance nenhum.

Hei-de acabar por morrer sem escrever
a suprema razão de ser
de um assassino inspirado,
que mata por ordem aleatória
com um poema-dedicatória
nos cadáveres afixado.

No meu marítimo, ítimo, ítimo conto-cais
com mil páginas ou mais,
Almada vende a alma ao diabo
p’los painéis da gare e uns tostões
p'ra pagar um copo ao Camões,
na dobra do cabo.

Hei-de acabar por morrer sem ter escrito
o derradeiro opus maldito,
definitivo fado de Portugal.
E de cada vez que penso nela
mais impossível fica a novela,
mais longe do final.

domingo, agosto 12, 2012

Três fitas de cinco estrelas.


In Darkness | Agniezka Holland
Uma espécie de Underground, mas sem os artifícios, sem as fantasias, sem o folclore de Kusturica. Um filme nu e cru. Nem mais ou menos violento, nem mais ou menos intenso, nem mais ou menos cruel que a vida.


360 | Fernando Meirelles
No cruzamento de amores e desamores, de perdas e traições, passa gente que persegue o seu destino, colidindo com outros destinos, voando aleatoriamente entre cidades e línguas e desgraças e triunfos. 360 graus de um cinema criativo e fluente, que nos transporta pelos aeroportos do caos a que chamamos aldeia global.


Citizen Gangster | Nathan Morlando
Agora conduzo este autocarro. Ontem morria na trincheira. Agora sou Rudolfo Valentino, amanhã serei John Dillinger. Pratico a minha dança de morte no palco que é o assalto à mão armada. Represento o drama que sou eu. O crime não compensa. Nem o amor. 

quinta-feira, agosto 09, 2012

Até onde pode ir a curiosidade?


Esta é a primeira imagem decente tirada pelo robot Curiosity, 48 horas depois de aterrar em Marte. Apesar dos esforços destrutivos da Administração Obama e depois de 8 meses e meio de prego a fundo e sete minutos de terror (a Nasa tirou da cartola um complicadíssimo número de circo para fazer chegar o pobre robot, são e salvo, à superfície marciana), estamos agora em condições de obter mais dados científicos sobre Marte do que alguma vez foi possível. Se tudo correr bem, claro. Porque em matéria de exploração espacial, estamos ainda na idade em que fazer figas e rezar pais nossos faz todo o sentido.

terça-feira, julho 31, 2012

O gengibre agridoce plantado na esquina do tempo


POR MIKE BRAMBLE 


A capa, de uma beleza nostálgica e de uma oriental serenidade, não deixa de nos fazer soar uns alarmes pelos dizeres inscritos. “Um milhão de exemplares vendidos”, apregoam. O excerto da recensão apenso também não nos tranquiliza: “Um livro de que todos falarão e seguramente o melhor livro que lerá este ano”. Para mais, quando percebemos que foi lavrado no USA Today, não propriamente um dos templos da crítica literária.
Seguimos, porque se não se compram e leêm livros pelas capas, por maioria, também não se os deve abandonar por estas infelicidades. Debruçamo-nos sobre o título e o enigma visual do frontiscípio começa a cativar mais. “O Gosto Proibido do Gengibre”, autor Jamie Ford, bisneto de um imigrante de origem chinesa. Na versão brasileira, com a mesma capa, circula como “Um Hotel na Esquina do Tempo. Na versão original, de 2000, esta obra intitulou-se “Hotel on the Corner of Bitter and Sweet”.
É um exemplo raramente feliz de adaptação, para melhor, de um título para português. E as mais de 300 páginas que a edição da Porto Editora colocou em circulação desde Fevereiro deste ano não desmerecem o tempo que investimos na sua leitura, antes pelo contrário. Tradução atenta de Vasco Gato, acompanhada por uma revisão cuidada.
A história tem tanto de simples, como de sublime. Poesia em prosa. Tensão intimista. Retorno a um passado pouco conhecido, pouco ‘mediático’ da história dos Estados Unidos. Um fresco corajoso, sem pretensões panfletárias, das contradições recalcadas e xenofobias latentes de uma sociedade americana em plena II Guerra Mundial.
Na costa Leste, na Seattle do início dos anos 40 do século XX, cruzam-se nesta obra norte-americanos, brancos e negros. E os ‘amarelos’: os chineses, aliados; e os japoneses, ‘inimigos’. Não há guerra, mas há comportamento marcial em cada esquina, em cada bairro, em cada casa. E descriminação por cor, por língua e por raça. Choque de culturas e de civilizações. E a ironia de hoje, sete décadas decorridas, estar tudo virado do avesso, outra vez. O brinde suplementar que a paralaxe do tempo sempre devolve a quem está atento e tem memória.
E Jamie Ford tem isso tudo. E cria personagens de fibra, algumas delas com existência histórica, como uma das maiores glórias dos primórdios do ‘jazz’ da costa Leste dos Estados Unidos, Oscar Holden. E recria locais de encanto, que ainda hoje é possível visitar, como o Hotel Panama ou a Bud’s Jazz Records.
Numa cidade cercada pelo nevoeiro, pela humidade, pelas sirenes nas iminências dos ataques nipónicos. Uma Seattle que vai submergindo com a migração forçada de milhares de japoneses, aliás, americanos de segunda e terceira gerações, forçados a deslocar-se em massa das suas casas para construir os seus próprios campos de concentração no interior dos Estados Unidos, do Idaho ao Texas. Neste ambiente depressivo e repressivo, Jamie Ford engendra uma fortíssima história de amor e amizade, que termina em Nova Iorque, em 1986.
A voz ao autor: “esforcei-me ao máximo por recriar esta paisagem histórica, sem julgar as boas ou más intenções daqueles que na altura se viram envolvidos”. “A minha intenção não era criar uma peça de moralismo, onde a minha voz fosse a mais audível em palco, antes remeter para o sentido de justiça do leitor, acerca do bem e do mal, deixando que os factos falassem por si”, sublinha Jamie Ford.
Como leitor, agradeço. E palpita-me que devemos ter grande escritor para os próximos anos. A má consciência não tem deixado os americanos debater o papel do Estado e dos cidadãos ‘brancos’ em relação aos seus conterrâneos nipónicos durante os anos quentes da II Grande Guerra. Que não foi só no Pacífico ou na Europa…
Tal como em Portugal ainda estamos a gatinhar na reflexão que deve ser feita na literatura (e nas outras artes) sobre o que sucedeu na Guerra Colonial, na descolonização e no regresso dos ‘retornados’ à metrópole. E nos efeitos que essas ocorrências tiveram em nós como Nação.
Tanto para um caso, como para outro, permito-me deixar aqui duas sugestões de leitura. No primeiro, o notável “A neve caindo sobre os cedros”, de David Guterson, edição da Relógio d’Água. No segundo, o mais recente “O Retorno”, de Dulce Maria Cardoso, edição da Tinta da China.

sexta-feira, julho 20, 2012

Ao Miguel B.

POR MIKE BRAMBLE

Passou um ano e parece que foi ontem, depois de perderes o conhecimento num dia aziago. Estás sempre por perto; e é reconfortante. Passou um ano e parece que foi há séculos, antes de te conhecer num dia benfazejo. Onde andas, que estiolo com a ausência?
Um outro Miguel, o Esteves Cardoso, ditou:
“O tempo não passa pela amizade. Mas a amizade passa pelo tempo. É preciso segurá-la enquanto ela há. Somos amigos para sempre mas entre o dia de ficarmos amigos e o dia de morrermos vai uma distância tão grande como a vida”. 
É certo que o tempo não passou pela nossa amizade e a nossa amizade foi e vai passando pelo tempo. Quiçá, noutras dimensões para ti já corriqueiras e que eu ainda não percepciono na totalidade. Lá chegarei…
Somos amigos para sempre e para sempre nada extinguirá essa nossa corrente inquebrável. Por isso, no nosso caso de amizade maiúscula, não foi preciso segurá-la, porque cresceu assente em caboucos perenes e fraterno desfrute.
Por isso também, entre o dia de ficarmos amigos e o dia de morrermos tanto pode ir uma distância tão grande como a vida como uma vida tão grande como a distância.
Pode depender das nossas vidas, das nossas distâncias e das nossas perspectivas sobre cada um desses factores. Mas seguro que não vai depender da nossa amizade, porque essa permanecerá incólume, escorreita e leal.
Como sempre, Miguel!
Um Grande Abraço!  

terça-feira, julho 17, 2012

O aquecimento global no Império Romano.

Já é quase como bater no ceguinho, mas não resisto a aconselhar vivamente a leitura desta pequena notícia. Nela percebe-se que o planeta está a arrefecer, pelo menos, há cerca de dois mil anos. E está tanta coisa aqui escrita que eu já escrevi no blog há tantos anos atrás (da certeza de que a Idade Média foi, comparativamente à actualidade, verdadeiramente escaldante, à interpretação fraudulenta que se faz de variações climáticas em escalas de tempo risivelmente curtas), que me dá uma certa vontade de rir.
É claro que a notícia não deixa de ser um produto jornalístico, e nesse sentido, permanece deturpada pelos medos e pelas falácias que encobrem a verdade dos factos. Mas como, nos tempos que correm, as conclusões científicas - e subsequentes relatos noticiosos - que põem em causa a ortodoxia ambientalista são mais que muitos, a esta hora deve estar já o Al Gore todo irritado a amaldiçoar os seus spin doctors do aquecimento global e a pensar que vai ter que esconder na cave o ignóbil prémio nobel da paz que recebeu um dia e que só se compara na desvergonha a um outro mais recente, atribuído a um tipo que até esse momento (bolas, até este momento) foi capaz apenas de dizer que era capaz de fazer não se sabe bem o quê.
A estupidez humana é um abismo. E aí sim, no fundo desse abismo, é natural que a temperatura vá subindo gradualmente, na proporção exponencial dos estúpidos que caem lá dentro.

segunda-feira, julho 09, 2012

Uma sonata para HGWXX/7


POR MIKE BRAMBLE 

Florian Henckel von Donnersmarck. Por acaso puro, vi – e deleitei-me a ver – na passada quarta-feira um filme de um alemão. Pensado em alemão. Escrito em alemão. Falado em alemão. Com actores alemães. Não tinha essa necessidade, mas é também uma resposta a uma provocação do meu querido amigo Paulo Paixão, que sabe tão quanto eu o que gosto de alguns prodígios que a cultura produzida há vários séculos no actual território que se designa por Alemanha tem dado à degustação do Homo Sapiens.
Florian Henckel von Donnersmarck, portanto. Dirigiu e escreveu o guião, translúcido argumento de ‘Das Leben der Anderen’, traduzido para português em versão dual na tituleira: ‘A(s) vida(s) dos outros’. Saiu para as salas e anfiteatros em 2006, ano em que conseguiu ganhar em Hollywood o Óscar de melhor fime estrangeiro.
Não vou contar a história do filme. É tecnicamente impossível e seria um desperdício criminoso para os que tiverem a condescendência de me lerem.
Mas peço desculpa por tomar a ousadia de realçar alguns detalhes. Película em fotografia zincada a cinzento. Estamos em 1984, cinco anos antes da queda do muro de Berlim. O personagem principal Georg Dreyman (Sebastian Koch), dramaturgo, tem um amor intenso por uma actriz das luzes e da ribalta, Christa-Maria Sieland (Martina Gedeck). Na RDA de Honnecker, são perigosos desviantes. Logo, a Stasi, excelsa organização propedêutica da moral e dos bons costumes, decide intervir e capitalizar nos pecadilhos de cada um (tipo NKVD, Securitate, CIA, FBI ou PIDE, vá lá). Coloca-os sob vigilância severa.
Entra em cena Hauptmann (capitão) Gerd Wiesler (Ulrich Muhe). E o seu superior Oberstleutenant (tenente) Anton Grubitz (Ulrich Tukur). A história é fascinante, não só porque está bem construída, bem filmada e superiormente interpretada, mas porque, percebe-se, acima de tudo, que emanou de milhares, dezenas de milhar de casos similares, humanos, pungentes, todavia já votados ao esquecimento da História.
‘Das Leben der Anderen’ é um libelo contra o oblívio e a obliteração. No irrepreensível ‘Diário Volúvel’ (Assírio & Alvim), um dos craques actuais da literatura não encastrável e não castrada, Enrique Vila-Matas, dedica-lhe uma merecida nota.
Num país de 17 milhões de habitantes, dizia-se que a percentagem de ‘informadores’, ou espiões, ou escutas, ou bufos, terá oscilado entre 200 mil entes até um terço do universo demográfico daquela ficção dos Sovietes.
Florian Henckel von Donnersmarck coloca livros de Brecht nas mãos de um dos esbirros, por vontade própria do mesmo, funcionário da soviética RDA. Suprema ironia. E a mudança acelera. A personagem principal acaba por escrever um livro em homenagem do seu perseguidor. Uma “Sonata para um Homem Bom”. Há quem diga tratar-se de um dos livros, que apesar de nunca ter sido escrito, é dos mais desejados dos leitores…Pois, pudera! Arriscaria também, eu incluso, que há muitos invejosos que gostariam de ter escrito tal enredo oculto.
HGWXX/7 ficou gravado a fogo na minha memória! Muitos anos depois de me perder com Kafka e Orwell, fiquei ainda a perceber, quão relevante poderá ser uma nave de traço industrial munida de equipamentos e funcionários-autómatos para descolar, em série, a vapor, cartas interceptadas antes de chegar ao destino. Sem laivos de ficção, com personagens tão reais como a própria vida, ou até mais.
Jacques Bonnet, no incisivo e delicioso ‘Bibliotecas Cheias de Fantasmas’ (Quetzal), assume, convicto: “A personagem não envelheceu desde que o seu criador lhe deu vida, ficou sempre igual para a eternidade”. Sublinha, para não termos a veleidade de equívocos ou subterfúgios: “E ao pegar no (ou nos) texto(s) em que ela aparece ficamos na posse de tudo o que o seu autor quis que soubéssemos dos seus actos, das suas palavras e, por vezes, dos seus pensamentos”.
‘Danke’, Florian e Ulrich Muhe, entre os demais contribuintes desta obra primorosa. Além de serem o epítome desta máxima, também na designada vida real. Depois do filme entrar em exibição, foram processados - judicialmente, diga-se - pela ex-mulher do segundo. Segundo consta, essa honorável senhora entregou à ditosa Stassi um ‘dossier’ de centenas de páginas a incriminar o actor, amigo do realizador, mas não queria publicidade gratuita… Mais um acto repugnável que originou uma obra de arte louvável!
Termino com uma citação de Proust, no incomensurável “Em Busca do Tempo Perdido”, escrito um pouco antes (!) do filme em apreço: “o elemento desconhecido nas vidas dos outros é como o da natureza, que cada nova descoberta científica meramente reduz, sem o eliminar”.

‘Momento num café’, de Manuel Bandeira.


POR MIKE BRAMBLE

Foi, é um dos maiores escritores, prosadores e poetas, de língua portuguesa. Brasileiro. Manuel Bandeira, assinava. Gostava aqui de recordar “Um momento num café”. Só isto, sem necessidade de acordos ortográficos e de ressalvas daí derivadas.

“Quando o enterro passou
Os homens que se achavam no café
Tiraram o chapéu maquinalmente
Saudavam o morto distraídos
Estavam todos voltados para a vida
Absortos na vida
Confiantes na vida.

Um no entanto se descobriu num gesto largo e demorado
Olhando o esquife longamente
Este sabia que a vida é uma agitação feroz e sem finalidade
Que a vida é traição
E saudava a matéria que passava
Liberta para sempre da alma extinta”.

In “Manuel Bandeira, Poesia Completa e Prosa”, volume único, Editora Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1990 

sábado, julho 07, 2012

Breve momento de redenção.

Estou para aqui já fartinho de abominar o senhor cavalcanti, filho, mas acontece que, no seu equívoco esforço biográfico, ele acabou por ler um poema do Ricardo Reis que eu nunca tinha lido. Ou, até mais desgraçadamente, é muito provável que o tenha lido mas que não me tenha importado tanto com ele como, em magnífica hora, o inócuo biógrafo com ele se importou. O poema, que é o que afinal realmente interessa, reza supremo assim:

Sim, sei bem 
Que nunca serei alguém. 
Sei de sobra 
Que nunca terei uma obra. 
Sei, enfim, 
Que nunca saberei de mim. 
Sim, mas agora, 
Enquanto dura esta hora, 
Este luar, estes ramos, 
Esta paz em que estamos, 
Deixem-me crer 
O que nunca poderei ser.

Ricardo Reis. Odes.

Este é o texto que eu nasci para escrever e não escrevi porque afinal já estava escrito. Porque afinal eu não nasci para isto.
Uma das virtudes enormes do Pessoa é que ninguém consegue ser poeta em Portugal depois dele, a não ser que seja um grande poeta. Ao império do Fernandinho só sobrevivem os génios. E, ainda assim, sempre podemos contar com quatro ou cinco josés carlos ary dos santos, teixeiras de pascoaes, alexandres o'neill, eugénios de andrade e antónios gedeão.
Ora, eu por acaso até sou um fan, no sentido patético do termo, do José Mourinho. Mas não é o facto de Portugal ter parido quatro botas de ouro (ou bolas de ouro, ou lá o que é), que Portugal é uma nação como deve ser. Pelo menos, convenhamos, não será apenas por causa disso.
Camões e Pessoa no mesmo quilómetro quadrado deve querer dizer qualquer coisa. No sentido em que Einstein falava do espaço e do tempo, por exemplo, deve mesmo querer dizer qualquer coisa. E eu, quanto mais vivo, quanto mais sofro, quanto mais tenho pena de mim e quanto mais me lastimo por ser deste país; e eu, quanto mais odeio Einstein, quanto mais amo Fernando Pessoa, mais gosto de ser Português.

Horribilis.


POR ARTUR PAIXÃO


Quedava-se um espécime da insectologia do género insexual, esfregando as asinhas na margem do ribeirinho para saciar a sede quando se lhe aproxima, insidiosamente, um escaravelho e o traga de um só golpe. Nada de muito relevante visto que o insecto insexual não reproduz e assim não faz qualquer falta ao sistema ecológico. Ainda babado da degustação, aproxima-se, serpenteante, uma lagartixa XXL que os remove para o nunca satisfeito gástrico e logo depois um sardão que a seguia, rastejante, engole-os por um direito inquestionável da sua natureza, por imposição de sobrevivência.
Foi assim que o coelhinho que ferrava os dentitos ainda de leite nas suas primeiras cenouras arduamente escavadas na terra dura se sumiu, num ápice, nas entranhas da raposa; que um velho lobo descido da serrania, mastigou a raposa, o coelhito, e a título de fresca sobremesa, se banqueteou com as frescas cenouras. E é assim que a ciclópica fauna animal de dentuça assanhada se alimenta indiscriminadamente e sobrevive sem culpa formada. Trata-se, meramente, da primária razão de subsistir - sem regras ou condicionamentos estabelecidos - à saciedade geral, como nos casos em que machos e fêmeas adultos chacinam crias ainda em fase de aleitamento, por carência de bolsas alimentares mais à mão.
Também ao humano não repugna desmembrar, na Bairrada e não só, leitões bebés tostados a gosto, sem outras reticências que não seja a sua textura e churrasco de excelência. Aliás o canibalismo humano não tem nada de novo, tendo sido, frequentemente, primeira página, referindo dramáticas situações limite, abocando-se, nessas macabras situações, pais e mães e canídeos na desesperada ausência de alternativas, por pura e simples e aceitável questão de sobreviver a todo o custo e acima de todos os valores consagrados no ABC da civilidade e daquele humanismo mais rendido aos prazeres do bom bife de novilho mal passado, animado dum alegrete de alho fresco e um vinhão de casta.
Logo tudo o que aparentemente nasce, desde que seja mastigável, é para morrer sob a cruel degustação. É humanamente imperioso sacrificar a sogra, mas há que aproveitar-lhe os ossos para um caldinho com rabanete fatiado e um pé de hortelã, segundo receita que apanhei recentemente num livreco intitulado “Compêndio de Segredos Sombrios e Factos Arrepiantes” dum tal J. Ferrabota, edição do Bulhosa.
Registe-se, talqualmente, em regime de sobrevivência, o canibalismo politico, de todos o que marca uma espantosa e não menos obscura odisseia, menos ilustrada por trilho de desatada sangueira, mas ainda assim destruidor, já que triturados são muitos personagens de fatinho azul e lacinho verde salpicado de bolinhas numa bacanal gastronómica oculta, sob uma mão cheia de digestivos, sem receita. (Creio que o Pulido Valente, embrulhado num meio sorriso cínico apreciaria este naco).
Há a excepção de calhaus não comestíveis (no meu caso também de brócolos) dos fundos das montanhas do Colorado, do aço da Ponte 25 de Abril,  de algum tipo de arame farpado e outros materiais não deglutíveis de pesquisa massuda. De resto, para sintetizar, nada escapa à gulosa trincadeira que move o rato ao elefante, o macho à fêmea, ou pelo contrário.
Convém referir que estes comentários mal dispostos, dum azedo notório, decorrem do facto da minha médica de família me ter projectado, no máximo, três meses de vida e nem mais um fim de semana, em nítido prejuízo do que tinha calendarizado para Outubro próximo em Pocinhos. Que sou um cadáver adiado notável, próprio para um estudo aturado para os sabichões da morgue mais próxima. E é inevitável que no Alto de S. João, se ainda por lá houver um buraco disponível e os senhores carniceiros encartados me deixarem uns restos de cartilagem e alguns pedacinhos do saco testicular, que os vermes se vão banquetear com o que restar, pouco.
A importância da sobrevivência.

sexta-feira, julho 06, 2012

O ócio que salva.

O ócio é uma publicação electrónica de raíz colaborativa que trata e retrata a cultura, no contexto da experiência vimaranense deste ano de 2012. O desenho editorial é muito bom e se todos escreverem como este escriba aqui, que escreve para lá, estamos conversados.
Guimarães é prova disto: há, de facto, um Portugal que resulta.

Early Day Miners: consolação em dó maior.


Ao contrário dos senhores do CERN, estes rapazinhos aqui dão-me qualquer coisa de absoluto. Pop a valer, sem incertezas.

4 de Julho de 2012. O dia em que ficámos na mesma.


Tudo indica que, se calhar, talvez seja quase certo, senão muito provável, que os senhores do CERN tenham finalmente, eventualmente, detectado o sacaninha do bosão de Higgs, mas nunca se sabe. Aliás, se de facto foi detectado, o seu surpreendente peso revela que temos que fazer mais e novas contas, porque é capaz de haver muitos mais bosões de Higgs, ou pior ainda, o universo subatómico pode muito bem ter a propriedade supersimétrica, que significa só isto: cada partícula tem um gémeo. Uma imagem no espelho que também faz parte do tecido constituinte da matéria.
É verdade que, se o bosão de Higgs nunca chegasse a ser encontrado em tempo real, a comunidade científica ficaria a necessitar de mais psiquiatras do que aqueles que já existem e já existem bastantes. Mas ainda assim, somos levados à suspeição de que o CERN gastou uma imensa fortuna na sua pista de fórmula 1 para fazer colidir carrinhos pequeninos só para informar a humanidade sobre o estado da sua ignorância. Ora, caramba, isso faço eu aqui no blog, de borla, desde 2004.
Conclusão, se é que se pode tirar alguma: Deus joga aos dados com o homem. Os dados estão viciados. E o homem continua a ir a jogo, para sua ruína.

quinta-feira, junho 28, 2012

E mesmo a propósito:



Juan Manuel Fangio mostra como é que se faz num circuito - Modena - que parece um eixo rodoviário sob a manutenção da Estradas de Portugal, E. P.

Não sou nenhum Fangio, não.

Mas a coisa até não correu mal, na GT Academy deste ano. Considerando que a competição contou com mais de um milhão de participantes a nível global, a minha classificação mundial (3678º) parece-me aceitável. Fiquei um bocado triste por ficar fora dos 100 primeiros portugueses (116º), mas para o ano há mais!



quarta-feira, junho 27, 2012

Lindinho, manhoso e cobardolas.




















Aqui este sujeito é excelente no anúncio contra a comichão no couro cabeludo e muito jeitoso no Real Madrid. Mas, por amor de Deus, é uma vergonha na Selecção. Mais: um cobardolas que se esconde de um desempate por grandes penalidades nas meias finais de um campeonato europeu não pode ser considerado o melhor jogador do mundo.
E o espectáculo de hoje (usar a palavra espectáculo já é de uma ousadia imensa) foi de um miserabilismo escandaloso. Portugueses e espanhóis proporcionaram um dos jogos de futebol mais horríveis que já tive a má ideia de assistir.
Que saudades da NFL...

Pequenas discórdias.

Desde que Mike Bramble, meu grande amigo e ilustre contribuinte deste blog, começou a lavrar os seus magníficos posts, fui registando, aqui e ali, alguns pontos de divergência que vale talvez a pena resumir, nem que seja para polemizar um bocadinho só.

1 - Aconteça o que acontecer hoje, o CR7 portou-se muito mal no jogo contra a Dinamarca e deve ser criticado por isso. 
Eu não tenho a opinião, como o meu amigo, de que os jogadores da selecção devam ser poupados à crítica. Pelo contrário. O futebol é um desporto que se consubstancia no erro humano e os profissionais da bola devem viver com a crítica como um osso do ofício. Aguentem-se. E aguentem-se principalmente quando se exibem a um nível quase ofensivo. O Cristiano Ronaldo, no jogo contra a Dinamarca, exibiu-se a um nível quase ofensivo. E deve ser quase ofendido, também.

2 - Eu acho que os alemães são boa gente. E jogam à bola que se fartam.
Ao contrário de Mike Bramble, eu gosto da Alemanha. Gosto da nação, do povo e das respectivas glórias. A Alemanha é uma potência fundadora da civilização ocidental por causa dos filósofos, dos poetas, dos romancistas, dos músicos, dos físicos, dos engenheiros e, sim, dos futebolistas que tem conseguido parir em quantidade e qualidade durante os últimos, digamos, seis séculos.
Nem estou nada interessado em pactuar com a actual onda anti-germânica - fenómeno simultaneamente pueril e perigoso, que é resultado básico de uma visão mesquinha e cheguevarista da história, da sociedade e da economia.
O meu querido Mike Brumble pode escrever aqui as elegias e os elogios que quiser sobre russos e ucranianos, gregos e croatas, irlandeses e italianos, mas a verdade é esta: nunca a Alemanha ganhou um título europeu ou mundial (e ganhou muitos) a jogar feio. Gregos e italianos e franceses, por exemplo, já foram Campeões da Europa com um futebol miserável. O alemães jogam sempre a alto nível. São profissionais sérios, são muito fortes psicologicamente, são organizados e agressivos e não costumam trancar-se na defesa. É difícil encontrar na história do desporto uma equipa germânica que não jogue invariavelmente para ganhar. E isso, considerando a realidade do futebol contemporâneo, não é dizer pouco.
A Alemanha é a melhor selecção deste Euro 2012 e vai somar mais um título. Não é a que joga mais bonito - os alemães deixam essa honra para nós, portugueses - mas também não é nada aborrecido de ver, convenhamos.

3 - Não estou certo quanto à qualidade da sua sociologia, mas eu sou um grande apreciador das crónicas do Alberto Gonçalves.
Aqui é que o meu amigo Mike Bramble e eu estamos realmente nos antípodas. Eu acho que o Alberto Gonçalves é grande. A coluna dele deve ser, neste momento, a única coisa que vou seguindo com algum entusiasmo na imprensa nacional. O homem é desassombrado à brava e é necessário que alguém diga aquilo que ele costuma ter para dizer. E quanto à qualidade da prosa, é verdade que o sociólogo não vai ganhar nenhum Pulitzer, mas não me parece que mereça assim tantas críticas. Principalmente no contexto da falência discursiva que é dominante em revistas como a Sábado ou a Visão.

E, quanto a discórdias, é tudo. Até porque eu e o Mike Bramble estamos geralmente em sintonia sobre uma multiplicidade de assuntos, alguns dos quais têm vindo inclusos nos seus posts. E, para felicidade minha e elevação deste blog, ele tem escrito bastantes.

Obama Toon Factory #7

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Sociologia de algibeira

POR MIKE BRUMBLE

“A vitória de Portugal”, é assim que este arauto deliberou escrevinhar sobre a selecção portuguesa de futebol. Sobre o Euro em curso e, supostamente, sobre o fenómeno popular e mediático que tudo isto arrasta. Assina Alberto Gonçalves e diz-se sociólogo. Acompanha-se, semana a semana, com uma foto ao estilo marialva, de mãos nos bolsos.
Conhecia mangas de alpaca, filosofia de alcova, chistes de pacotilha. Mas agora há um novo género a bombar: a sociologia de algibeira.
O sociólogo em causa tem notórios problemas de contas. E, o que não é menos, de letras. O texto foi publicado a 21 de Junho, numa revista que dá pelo nome de ‘Sábado’, mas vai para as bancas à quinta. Modernices…
Diz o senhor que consultou os dados das audiências televisivas e que no desafio entre Portugal e a Holanda verificou que três milhões e seiscentos mil viram o jogo. Conclusão do douto: “seis milhões e tal de portugueses estão comigo”.
E estar com o senhor Alberto Gonçalves a como soa? “Contra Portugal, “Portugal” perdeu de goleada. Vamos celebrar?”.
Bom, não passa de uma opinião. Se bem que, com isto preferir “destacar os quase dois terços de cidadãos” que teriam manifestado o seu “desprezo pelo patriotismo em chuteiras”, algo que o incha de orgulho, parece-me deslocado.
As consultas de audiências televisivas em Portugal andam pela ruas da amargura. O senhor sociólogo deveria sabê-lo. Ou é mal intencionado.
E depois, senhor, não se escreve desta forma carroceira: “Ainda assim, no dia seguinte consultei os números das audiências: 3 milhões e 600 mil viram a partida, valores capazes de elevar a partida [outra vez?] a programa mais visto do ano e de deprimir o cidadão menos contaminado pela histeria colectiva”.
E logo a seguir: “Desde logo, porque a histeria colectiva [mais uma dobradinha?] é largamente imaginária”.
Presunção minha – não seria melhor que o senhor Alberto Gonçalves, sociólogo de cadastro, mantivesse as mãos nos bolsos quando escreve sobre uma profissão em que os pés – e a cabeça - dão melhor resultado?
Um último pedido ao director da Sábado, Miguel Pinheiro. Nesta revista paga por mim a três euros por semana, quando é que me reembolsam destas parvoadas?

terça-feira, junho 26, 2012

Ronaldo Cyborg


POR MIKE BRAMBLE


“A política é a arte do previsível. Do imprevisível deveria encarregar-se a natureza e Cristiano Ronaldo”. Ou assim: “Portugal desperdiçou meia hora antes de estabelecer a sua esmagadora autoridade, personificada em Cristiano Ronaldo, que ofereceu o melhor do seu repertório”, a propósito do jogo ganho pelos lusos contra os checos.
Quem escreveu isto, é espanhol. Muito recomendável. Santiago Segurola, de seu nome, adjunto do director do jornal castelhano ‘Marca’. Publicado no Diário de Notícias.
“Cristiano Ronaldo é no futebol o que LeBron James representa no basquetebol ou Usain Bolt no atletismo. Estão à frente no seu tempo, cyborgs que combinam destreza, velocidade e potência em doses desconhecidas até agora”, acrescenta Santiago Segurola.
Dá gozo ler textos de quem percebe da poda. Mais uns trechos: “imaginemos que o futebol estará cheio de Ronaldos em 2050, mas actualmente é uma raridade maravilhosa que surpreende porque não existe comparação”.
“Quando Cristiano Ronaldo entrou em combustão, a República Checa desapareceu do mapa”. Por mim reproduziria aqui o texto integral de Segurola, a lembrar o brilhantismo de Jorge Valdano com a pena.
Para remate certeiro, deixo isto: “pouco a pouco, Cristiano Ronaldo começa a exercer no Europeu o domínio que mostrou Maradona no Mundial ’86. Entrou em estado de graça. Só falta que a equipa o ajude nesta aventura”.
Nem mais, nem menos. LeBron ganhou um título da NBA poucas horas depois de este ter texto ter vindo à luz do dia. O jamaicano ainda tem umas semanas para preparar a aceleração sideral que o caracteriza no hectómetro. Para Cristiano, o tempo é mais curto. Vamos a ver…   

sábado, junho 23, 2012

Platini, o candongueiro da UEFA


POR MIKE BRAMBLE


Platini, o Mafioso encartado. Já como futebolista só ficou acima da média, mas nada de excepcional. Do delírio dos Deuses, permanecerão Di Stefano, Puskas, Maradona, Pélé, Eusébio, Beckenbauer, Cruiff e uns tantos outros. Esses estão na galeria de honra do futebol. Este senhor, que agora é o dono da UEFA na secretaria manhosa, terá um lugar num balcão, afastado do palco.
Mas, já se sabe como são os franceses. Com o rei na barriga e a rainha no cadafalso. Veio Platini dizer que apostava numa final entre a Alemanha e a Espanha. E que a Espanha jogava o melhor futebol deste Euro. Opinião é livre. Só a dá quem a tem e só a ouve ou lê quem quer. Mas, e a responsabilidade dos cargos? A ‘boutade’ do (p)residente da UEFA pode explicar-se por vários motivos. Sem conseguir lutar contra as apostas clandestinas que grassam no futebol europeu, decidiu fazer-se à vida e lançou a sua própria baiúca de jogo oficial. Não morre de amores pelo seleccionador francês e pela equipa do seu país e vingou-se. Tem uma aversão congénita a portugueses, ingleses, italianos e a outras nacionalidades que já não estão na prova. Ou é mais esperto que inteligente, para disfarçar a parvoíce pegada. Se calhar é um ‘pot pourri’ de tudo isto, com muita corrupção à mistura.
Houvesse honra e dignidade e todas as outras equipas se teriam retirado da contenda. Mas, não, que nestes tempos há outros valores (faciais, de moeda), mais altos, que se levantam. Hélas!
Este cão grande ladra e a pequena e submissa caravana vai passando. Perseverando em campo, na quinta-feira, Cristiano & os amigos deram-nos uma grande alegria, mas também uma envenenada prenda de aniversário a ‘monsieur’ Platini.
Para líder máximo da ‘religião’ da UEFA, estas declarações não são uma mera aposta, são uma apostasia. Aposto: é azia!

Espanholitos borraditos

POR MIKE BRAMBLE

Estou há uma semana no Algarve, a escassos quilómetros da fronteira com Espanha. O belo Guadiana à vista. O Sol é imperador, mas têm vindo maus ventos de Espanha. Até no centro da Europa, no último jogo com a Croácia, a ‘roja’ balbuciou e esteve em palpos de aranha para não perder.
Começaram os pupilos de Del Bosque com aquele soporífero esquema de passe interminável – ‘tiki-taka’, que bosta de apodo. E de jogo sem prazer. Tudo entre cinco e dez metros. No rectângulo televisivo desaparecem do campo as linhas da grande área. Outra versão do futebol sem balizas.
Enfim, a Croácia lá foi mostrando que tinha mais poder letal, mas há dias assim. E há árbitros muito convenientes para certas manigâncias. ‘Nuestros hermanos’ borraram-se todos, mas continuam ufanos e soberbos. De que ‘no hay dos sin tres’.
Pois, pois… Bilic esteve quase a dar-lhes o chá que merecem. Os poucos milhares de espanhóis que por aqui ainda sirigaitam exsudavam: medo, apenas. Depois de um penalty não assinalado, de uma expulsão não assumida e de um dos golos mais polémicos do Euro, tudo bate com uma arbitragem miserável de um alemão. Estes germânicos estão cada vez piores a liderar qualquer coisa sem o poder militar do seu lado- Com estes ‘regalos’, os espanholitos ‘borraditos’ já estão a discutir qual é que é a melhor equipa para defrontarem nos quartos-de-final. E nas meias-finais. E na final. Enfim, a má vizinhança e os maus ventos são uma sina que nos cerca há quase um milénio.
Ao invés, por cá vai-se discutindo quem dos jogadores não canta o hino nacional. Um debate impossível aqui ao lado. Têm um hino sem letra. Porquê? Para não ferir as susceptibilidades autonómicas. Em África, chama-se a isto etnias. O politicamente correcto já tem vasta experiência curricular em certos lados da Península Ibérica.
Estamos a horas do embate de Espanha com a França. E já sabemos de bandeja: vermelho contra azul, dá Portugal a querer e ter de ajustar contas na próxima quarta-feira!

O Silêncio

Quando a ternura
parece já do seu ofício fatigada,

e o sono, a mais incerta barca,
inda demora,

quando azuis irrompem
os teus olhos

e procuram
nos meus navegação segura,

é que eu te falo das palavras
desamparadas e desertas,

pelo silêncio fascinadas.


Eugénio de Andrade

Monty Python falharam Gdansk



POR MIKE BRAMBLE


Os Monty Python não foram hoje a Gdansk. Mas há mais de 20 anos, produziram uma peça de humor inolvidável, glosando uma partida virtual, mas titânica entre os grandes filósofos das selecções alemã e grega. Confúcio apitava, com uma ampulheta, coadjuvado por Santo Agostinho e São Tomás de Aquino. O jogo era no Estádio Olímpico de Munique e a Alemanha perdeu em casa, porque a um minuto do fim Arquimedes teve uma ideia – Eureka! – e decidiu pegar na bola em direcção à baliza.
Diversão pura, com muita inteligência impregnada. Também nisto, os saudosos Monty foram visionários. O jogo de hoje foi muito menos divertido. A Alemanha, ganhou 4-2 à Grécia, liderada pelo português Fernando Santos. Teve menos ideias em discussão. Mais golos, é certo.
A inominável Merkel esteve na bancada a esbracejar catatonicamente, vestida que nem um horror. Despida, será certamente pior, como em tempos alvitrou Berlusconi. A Angela – chamar-lhe-ia ogre, se não tivesse um grande carinho pelo Shrek – foi muito apaparicada pelo presidente da UEFA.
O mafioso Platini já apostou que a Alemanha vai à final com a Espanha, conjunto este que teria o melhor futebol do Euro. Nojo, puro nojo, dedico a estes dirigentes europeus, políticos, futebolísticos, empresariais… A diferença é sempre tentar perceber quem pior e mais rápido faz que o outro!
No desafio conceptualizado pela equipa de John Cleese e parceiros, a Alemanha tinha chegado à final depois de eliminar a Inglaterra de Locke, Russell e Hobbes. Talvez agora, nas meias-finais, o resultado dê alguma justiça aos britânicos Monty Python.

quinta-feira, junho 21, 2012

Queres fazer o favor de te calares?


Mario Balotelli. Que espécie incrível de imbecil. Se isto é uma estrela eu vou ali e já venho. Depois de ter falhado com infantilidade, grosseria e displicência um golo feito frente à Croácia, o atrasado mental não gostou de ter sido colocado no banco no jogo seguinte. E em vez de ficar grato por - mesmo assim - ter sido lançado na segunda parte contra a Irlanda, ainda tem a lata de desatar a insultar toda a gente, só porque marcou uma batata, nem por isso decisiva. Sinceramente, rapazinho, por que não te calas?

Um recado para o senhor cavalcanti, filho.

Se depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
Não há nada mais simples
Tem só duas datas — a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra cousa todos os dias são meus.

Sou fácil de definir.
Vi como um danado.
Amei as cousas sem sentimentalidade nenhuma.
Nunca tive um desejo que não pudesse realizar, porque nunca ceguei.
Mesmo ouvir nunca foi para mim senão um acompanhamento de ver.
Compreendi que as cousas são reais e todas diferentes umas das outras;
Compreendi isto com os olhos, nunca com o pensamento.
Compreender isto com o pensamento seria achá-las todas iguais.

Um dia deu-me o sono como a qualquer criança.
Fechei os olhos e dormi.
Além disso, fui o único poeta da Natureza.


Alberto Caeiro