O estreito Ceixe contorce-se em curvas e contracurvas,
para se proteger do Atlântico.
O litoral é uma violência.
___
A prosa de Darwin
é a lírica de Deus.
___
O vento é o ar que corre rápido,
à procura da temperatura certa.
A enseada estremece, num vendaval termodinâmico.
___
A linha que estipula o sagrado divórcio entre os azuis do céu e do mar
é de uma exactidão artificial e perturbante.
O arquitecto esqueceu-se da régua, ali.
___
A virtude do poeta não está no poema
mas na sua impossibilidade.
___
Por muito que o homem se atreva com ela,
a máquina de Deus funciona que é uma maravilha.
quinta-feira, julho 25, 2019
Pela Estrada Fora #22
O segmento da N123 que liga Mértola a Castro Verde é um troço de estrada absolutamente monumental. O asfalto está impecável, a paisagem é de um minimalismo lindíssimo e o tráfego escasseia, porque Deus é grande. Arrisco, claro, o incoveniente de uma brigada da GNR. Mas que se lixe. Se não acelero aqui, acelero onde?
terça-feira, julho 23, 2019
O poema que se escreveu sozinho.
Junho passa frio sobre o calendário e o silêncio.
O poema escreve-se sozinho
quando te sentas desacompanhado numa vigia branca,
altaneira sobre a enseada.
Está tudo já redigido:
o desenho do rio é verso sábio e antigo;
as colinas erguem as suas rimas sagradas que vão fazer música
com as estrofes da maré atlântica.
As andorinhas riscam o céu claro com finas linhas negras
de impecável métrica alexandrina.
O gado pasta com a serena certeza da erva fresca
e a erva fresca, pastada, é um soneto eterno.
O dia ventoso zumbe uma canção de cavalaria
enquanto a aranha devora a vespa que lhe caiu na teia.
Tudo está bem.
O poema escreve-se sozinho
quando te sentas desacompanhado numa vigia branca,
altaneira sobre a enseada.
Está tudo já redigido:
o desenho do rio é verso sábio e antigo;
as colinas erguem as suas rimas sagradas que vão fazer música
com as estrofes da maré atlântica.
As andorinhas riscam o céu claro com finas linhas negras
de impecável métrica alexandrina.
O gado pasta com a serena certeza da erva fresca
e a erva fresca, pastada, é um soneto eterno.
O dia ventoso zumbe uma canção de cavalaria
enquanto a aranha devora a vespa que lhe caiu na teia.
Tudo está bem.
Um sueco elogio da miniatura.
Não consigo explicar porque raio gosto tanto, mas tanto, de coisas reduzidas na escala. Principalmente de coisas que são essencialmente brinquedos. Fico em pasmo e ponto final.
segunda-feira, julho 15, 2019
A guitarra como tempestade eléctrica.
Já não é a primeira vez que os Catfish And The Bottlemen mantêm relações sexuais com os meus tímpanos (salvo seja!). Mas o disco deste ano, The Balance, é uma coisa tão poderosa que até assusta. Interpretando uma espécie vitaminada de rock tempestuoso e electrizante, estes rapazes, que deveras me fazem lembrar os já paleolíticos e para sempre magníficos Strokes, conseguem transportar para o amplificador astronómicas e intensas quantidades de energia.
Vinte estrelas em cinco possíveis.
sexta-feira, julho 12, 2019
quinta-feira, julho 11, 2019
Boa sorte com esta ópera rock.
São doze minutos sagrados, para quem, alguma vez na vida, gostou de rock sinfónico.
Este Seteven Wilson mata-me completamente porque eu, que na excepção de Rush e de Marillion nunca gostei de rock sinfónico, acho isto pura e simplesmente sublime.
Devo informar os dois ou três malucos que vão mesmo ouvir a música até ao fim que vai valer a pena ser maluco, por uma vez.
Steven Wilson . Three Years Old . Wiltern Theater, Los Angeles
Este Seteven Wilson mata-me completamente porque eu, que na excepção de Rush e de Marillion nunca gostei de rock sinfónico, acho isto pura e simplesmente sublime.
Devo informar os dois ou três malucos que vão mesmo ouvir a música até ao fim que vai valer a pena ser maluco, por uma vez.
Steven Wilson . Three Years Old . Wiltern Theater, Los Angeles
quarta-feira, julho 10, 2019
Da poesia enquanto escrita com os pés.
A maior parte dos benfiquistas teima em considerar que a profissão de Jonas Gonçalves Oliveira tem sido a de jogador de futebol, mas eu, por acaso, sempre achei que o homem ganhou a vida como poeta.
Enquanto teve a gentileza de ser o vate do meu clube, assinou 137 versos imortais, concluiu com sucesso 4 epopeias e deixou incontáveis estrofes de génio, no seu mítico caderno de 4 linhas.
Dos alexandrinos pés deste escrivão-mor saíram, com regularidade clássica e em quantidade vanguardista, apoteóticos manifestos líricos, conquistas de Troia, regressos a Ítaca, géneses de Roma, viagens marítimas a Calcutá, descidas ao inferno, visitas ao purgatório e elogios do paraíso.
Ora, um poeta assim, capaz de produzir sonetos com os tornozelos, cantigas de amigo com os joelhos e elegias ao pontapé, nunca arruma as botas. Na verdade, as botas de Jonas vão ficar para sempre entretidas com os belos e intrincados tercetos do poema infinito a que costumamos chamar eternidade.
sábado, julho 06, 2019
Flightville #02 . Maldivas in the clear
Que o planeta Terra é lindo de morrer, parece que estamos todos de acordo. O que às vezes nos divide é a questão de ser mais ou menos lindo por causa da relação íntima que mantém com o Homo Sapiens. Pois eu acho que se não fosse essa relação cúmplice, não havia maneira - tecnológica ou sensível - de perceber o lindo que é este planeta.
As pessoas sortudas que conduzem aviões de 300 toneladas, com duzentas toneladas de carga lá dentro, para cá e para lá como se nada fosse e que comunicam loucamente através de uma linguagem fundada no Inglês mas codificada num alfanumérico indecifrável e belo como o Grego Clássico; estas pessoas fardadas e ligeiramente empertigadas e extremamente funcionais que convivem por profissão com as panorâmicas a que apenas os deuses deviam ter acesso, sabem bem do que estou a falar. Senão vejamos esta aproximação às Maldivas:
As pessoas sortudas que conduzem aviões de 300 toneladas, com duzentas toneladas de carga lá dentro, para cá e para lá como se nada fosse e que comunicam loucamente através de uma linguagem fundada no Inglês mas codificada num alfanumérico indecifrável e belo como o Grego Clássico; estas pessoas fardadas e ligeiramente empertigadas e extremamente funcionais que convivem por profissão com as panorâmicas a que apenas os deuses deviam ter acesso, sabem bem do que estou a falar. Senão vejamos esta aproximação às Maldivas:
Anti-Telejornal: candidados democratas fazem campanha no México.
Primeiro os links porque sem os links ninguém vai acreditar no que vou escrever a seguir:
Booker on the Border: Cory Takes Campaign to Mexico, Assists Asylum Seekers
Beto’ O’Rourke Campaigns in Mexico
Sim, o ridículo Beto O'Rourke e o insuportável Cory Booker estão a a fazer campanha, na condição de candidatos à nomeação pelo partido Democrata americano para as eleições presidenciais de 2020, no México. Sim, no México. E porquê no México? Porque o Partido Democrata defende hoje em dia a abolição de fronteiras, na expectativa - justificada mas completamente manhosa - de que a imigração sem regras vai contribuir substancialmente para uma alteração definitiva no domínio demográfico e logo, eleitoral, da Federação, principalmente em estados de fronteira que são, não por acaso, historicamente conservadores, como o Texas, a Flórida, o Arizona, a Georgia e Alabama.
E assim se prova que a lógica dos democratas não é de raiz humanista. Trata-se ao invés e apenasmente da manifestação de uma vontade de poder. Uma totalitária vontade de poder.
Booker on the Border: Cory Takes Campaign to Mexico, Assists Asylum Seekers
Beto’ O’Rourke Campaigns in Mexico
Sim, o ridículo Beto O'Rourke e o insuportável Cory Booker estão a a fazer campanha, na condição de candidatos à nomeação pelo partido Democrata americano para as eleições presidenciais de 2020, no México. Sim, no México. E porquê no México? Porque o Partido Democrata defende hoje em dia a abolição de fronteiras, na expectativa - justificada mas completamente manhosa - de que a imigração sem regras vai contribuir substancialmente para uma alteração definitiva no domínio demográfico e logo, eleitoral, da Federação, principalmente em estados de fronteira que são, não por acaso, historicamente conservadores, como o Texas, a Flórida, o Arizona, a Georgia e Alabama.
E assim se prova que a lógica dos democratas não é de raiz humanista. Trata-se ao invés e apenasmente da manifestação de uma vontade de poder. Uma totalitária vontade de poder.
sexta-feira, julho 05, 2019
Deus do Silêncio.
Cá em cima, na falésia falaz, consigo usar de alguma paz,
enquanto pescadores amadores, turistas banhistas e gaivotas,
que fazem barulho como motas
a voar,
gritam em uníssono alvoroço,
lá em baixo, no poço
da praia-mar.
Comandantes e capitães, veraneantes são mais que as mães;
toda a gente por atacado no quente e suado embrulho
que é o congestionado mês de julho;
ciclo do cio das gaivotas
que como motas
fazem barulho.
Cá em cima, fica mais corajoso o discreto deus silencioso,
que arma emboscadas sobre o ruído
como a mulher sobre o marido.
Mas lá em baixo no fosso,
crianças-gaivotas aceleram as motas
em uníssono alvoroço.
enquanto pescadores amadores, turistas banhistas e gaivotas,
que fazem barulho como motas
a voar,
gritam em uníssono alvoroço,
lá em baixo, no poço
da praia-mar.
Comandantes e capitães, veraneantes são mais que as mães;
toda a gente por atacado no quente e suado embrulho
que é o congestionado mês de julho;
ciclo do cio das gaivotas
que como motas
fazem barulho.
Cá em cima, fica mais corajoso o discreto deus silencioso,
que arma emboscadas sobre o ruído
como a mulher sobre o marido.
Mas lá em baixo no fosso,
crianças-gaivotas aceleram as motas
em uníssono alvoroço.
Flightville #01 . Leipzig in the dark
O voo BOX519 é um Boieng 777F que vem de Xangai e vai aterrar em Leipzig numa noite chuvosa, com condições de visibilidade um bocadinho assustadoras, de tal forma que o auto-piloto é desligado apenas uns poucos segundos antes da aterragem, quando a aeronave já se encontra a cerca de 90 metros do solo e as luzes da pista brilham finalmente sobre a escuridão e o vendaval alucinantes.
Há aqui uma cinematografia, entre a ficção científica e o horror, que me espanta os sentidos. Magnífica sequência, muito bem captada e editada pelos senhores da PilotsEye.tv.
Há aqui uma cinematografia, entre a ficção científica e o horror, que me espanta os sentidos. Magnífica sequência, muito bem captada e editada pelos senhores da PilotsEye.tv.
quarta-feira, julho 03, 2019
Mais uma corrida alucinante.
WTCR em Nurburgring, no passado 21 de junho. Quem gosta de corridas de automóveis deve prestar atenção a estes três operáticos minutos:
Para fazer estas coisas, a esta velocidade, é preciso mais que técnica. É preciso ter as esferas no sítio certo. Para ser o último a tirar o pé é preciso aceitar o risco, e é nessa aceitação que reside toda a glória do automobilismo.
Para fazer estas coisas, a esta velocidade, é preciso mais que técnica. É preciso ter as esferas no sítio certo. Para ser o último a tirar o pé é preciso aceitar o risco, e é nessa aceitação que reside toda a glória do automobilismo.
terça-feira, julho 02, 2019
Estou-me a passar com este fulano.
Steven Wilson, num disco de 2015 que é levado da breca: Hand. Cannot. Erase.
Às vezes parece Rush. Outras vezes parece Pink Floyd (!). E há momentos que me lembram Pearl Jam ou Alice in Chains ou assim qualquer coisa do género. Em cima disto, uma componente sinfónica que podia ter saído de um estúdio com os Marillion lá dentro. E as referências doidas nunca mais vão acabar de se cruzar, por isso o melhor é estar caladinho e deixar tocar o homem:
Às vezes parece Rush. Outras vezes parece Pink Floyd (!). E há momentos que me lembram Pearl Jam ou Alice in Chains ou assim qualquer coisa do género. Em cima disto, uma componente sinfónica que podia ter saído de um estúdio com os Marillion lá dentro. E as referências doidas nunca mais vão acabar de se cruzar, por isso o melhor é estar caladinho e deixar tocar o homem:
Assim é que devia ser sempre.
Verstappen parte muito mal e passa de segundo para sétimo em duas curvas. Ainda assim, ganha a corrida. Eis um Grande Prémio de Fórmula Um como deve ser:
domingo, junho 30, 2019
20 perguntas sem resposta.
Para acabar de vez com o mito da compatibilidade entre a civilização islâmica e a civilização ocidental, Paul Joseph Watson faz uma quantidade de perguntas de tal forma assertivas que ficam, inevitavelmente, sem resposta capaz, porque na verdade entre as duas civilizações há alguns séculos de diferença e contra essa distância não há correcções políticas e revisionismos históricos que sobrevivam.
sexta-feira, junho 28, 2019
Aparentemente, um homem transexual também pode engravidar, agora.
Ontem, no primeiro debate das primárias do Partido Democrata, o candidato Julián Castro, que, não por acaso, até foi secretário da administração Obama, afirmou que o Estado deve pagar abortos a transexuais sem sistema reprodutivo. Caso engravidem, os homens que mudam de sexo devem poder aceder ao serviço público do aborto. A isto chama Castro, pomposamente, "justiça reprodutiva".
Não acreditam em mim, pois não? Então vejam aqui:
Vale a pena dizer a este imbecil que os homens não podem objectivamente ter filhos, por muito maricas que sejam? É claro que não. Ele vai apenas ignorar o facto e argumentar assim: as pessoas que não acreditam que os homens podem ter filhos são homofóbicas. São machistas. Racistas. Nazis.
Bom deus.
Não acreditam em mim, pois não? Então vejam aqui:
Vale a pena dizer a este imbecil que os homens não podem objectivamente ter filhos, por muito maricas que sejam? É claro que não. Ele vai apenas ignorar o facto e argumentar assim: as pessoas que não acreditam que os homens podem ter filhos são homofóbicas. São machistas. Racistas. Nazis.
Bom deus.
quinta-feira, junho 27, 2019
Um radar para a imortalidade.
Tom Brady é um imortal. Essa é que é essa.
segunda-feira, junho 24, 2019
quinta-feira, junho 20, 2019
Pela Estrada Fora #21
Não sou propriamente um tipo viajado, pelo contrário, mas tenho a certeza religiosa que não há no planeta um lugar mais poético que Guerreiros do Rio. A aldeia propriamente dita tanto como os arredores ribeirinhos rebentam de versos imortais. Nem consigo explicar o que acontece comigo quando chego a este sítio. O Guadiana entra-me na corrente sanguínea como um opiáceo e fico completamente drogado, a olhar para a majestade lírica daquilo. Felicidade é parar cinco minutos neste apoteótico miradouro e ficar simplesmente a olhar para a majestade lírica daquilo.
E é pela EM 507, que liga a Foz de Odeleite a Alcoutim, que lá se chega. Uma estrada sinuosa e tecnicamente exigente, que se esforça sem total sucesso por perseguir o fluído curso navegável do Guadiana. Acelero um bocadinho, claro, mas aqui e ali há um ou outro buraco partidor de jantes e estou demasiado extasiado para me concentrar completamente na condução.
Não se houve mais que a carícia da água nos canaviais e o GTI a rosnar. Ninguém habita este bocadinho de paraíso. Não há turistas e os escassos nativos não se aborrecem pelas curvas que conhecem de cor. Estou sozinho no sonho, sozinho no mundo. No lugar mais poético da galáxia.
Portugal ainda tem muita estrada sem semáforos. Muitos quilómetros sem trânsito. Muito espaço para estacionar. Muitos caminhos para testar o modo Sport. Muito silêncio para rasgar com o barulho da combustão interna. Muita liberdade para tirar prazer da condução, da paisagem, da vida.
quarta-feira, junho 19, 2019
É mesmo caso para dizer: brutal.
Brutalism. É assim que se chama o último disco dos The Drums que, não sendo propriamente uns brutos, pelo contrário, têm por hábito feliz a criação de malhas que dão pancada a sério no frágil e incipiente mainstream contemporâneo. Conforme figura em anexo.
The Drums . Body Chemistry
The Drums . Body Chemistry
quinta-feira, junho 06, 2019
Chernobil ou a natureza apocalíptica dos regimes totalitários.
Crise dos Mísseis de Cuba à parte, o momento em que a espécie humana esteve mais perto do apocalipse foi a 26 de Abril de 1986, quando os procedimentos relativos a um teste de segurança que simulava um corte na fonte eléctrica levou à explosão do reactor nº 4 da Central Nuclear de Chernobil, na República Soviética da Ucrânia.
A mini-série de cinco episódios que a HBO produziu recentemente sobre este acidente catastrófico - e cuja emissão foi concluída na segunda-feira passada - é uma obra-prima do produto televisivo.
Criada, redigida e produzida pelo surpreendende Craig Mazin (que até aqui era conhecido por "A Ressaca", "Os Anjos de Charlie" e outros lamentáveis subprodutos do género), e magnificamente interpretada por Jared Harris (o contabilista suicida de Mad Man), Stellan Skarsgård e Emily Watson, a série expõe, com admirável sobriedade narrativa e superior mestria cinemática, a cadeia de erros humanos e técnicos que levaram à explosão do reactor, bem como as mentiras e incompetências do estado soviético que provocaram directa e indirectamente a morte de mais de 90.000 pessoas.
Apesar de não se tratar de todo de um objecto propagandístico, a reconstituição histórica dos ambientes materiais e imateriais da era dos sovietes e dos seus autismos vários e das suas tirânicas volições e dos seus tiques atávicos e da tendência invariável para a supressão da verdade factual, fazem de Chernobyl um documento que levanta o véu sobre as fragilidades dos regimes totalitários e que demonstra com eloquência como a realidade supera largamente as ambições da ficção.
A suprema ironia desta história é que foi precisamente o poder esmagador dos burocratas do Politburo, aquela espécie de poder niilista que envia homens para a morte certa sem a sujeição a um qualquer e humanista argumento contraditório, que permitiu levar a cabo as tardias operações de evacuação da área urbana de Pripyat e de contenção do acidente. Voluntários ou conscritos, centenas de homens, entre técnicos da central nuclear, bombeiros, mineiros e soldados sacrificaram as suas vidas para evitar que Chernobil se transformasse numa catástrofe global. A mini-série da HBO honra-os. E funciona como uma espécie de aviso para futuras aventuras de inspiração fascista: um aparelho regimental fundado na mentira pode resultar a curto prazo. Mas acabará sempre em desastre.
Mikhail Gorbatchev afirmou um dia que Chernobil foi o primeiro motor da queda do império soviético. Considerando a dimensão do desastre e a exposição internacional das misérias tecnológicas, operacionais e filosóficas do aparelho comunista, o último secretário geral do Politburo é capaz de ter alguma razão.
Melhor série de 2019. De longe.
segunda-feira, junho 03, 2019
Malha anti-psicótica do dia.
Não há patologia mental que resista à boa disposição e à energia dos Telekinesis, uma banda que é de companhia deste blog já há uns anos valentes. Do último disco, Effluxion, saem dois minutos e quarenta segundos de prozac em acordes. Dá vontade de pular.
Telekinesis . A Place In The Sun
Telekinesis . A Place In The Sun
quarta-feira, maio 29, 2019
Auto-stops ao contrário.
Sim, a GNR também devia montar estaminés nas auto-estradas deste país, de radar alerta para a passagem dos topo de gama em que se deslocam veloz e confortavelmente os altos quadros das entidades públicas desta República, de forma a que:
a) Recebam imediatamente o produto das suas facturas as empresas e os empresários em nome individual que costumam receber do Estado dentro de prazos que desobedecem flagrantemente ao que é estipulado pela lei;
b) Sejam prontamente ressarcidos os contribuintes que andam há anos e anos a pagar a corrupção, a incompetência, a incontinência ética e a desonestidade escandalosa do sector bancário (público e privado); que andam há anos e anos a pagar a torpe avidez de ministros, consultores, advogados e outros muitos abutres do Estado; que andam há anos e anos a pagar as comissões nacionais para isto e para aquilo e que só servem para empregar militantes dos partidos do arco do regime; que andam há anos e anos a serem triturados pela burocracia dos serviços públicos, mal tratados pelo serviço nacional de saúde, injustiçados pelo aparelho judicial e espoliados pela máquina fiscal, a única inventada em toda a história de Portugal que de facto funciona tão bem ou melhor que um motor Mercedes.
c) Aufiram em tempo real de compensações fiduciárias os eleitores que, nas últimas 4 décadas, foram aliciados com vãs promessas de prosperidade e de competência e de responsabilidade e de sentido de estado e de amor à pátria e que, ao invés, foram apenas sujeitos à falácia, ao engano, à aldrabice, à ganância, à traição e à conjura da oligarquia que de facto reina sobre este miserável, lamentável, inexplicável país;
d) Encaixem já verbas indemnizatórias aqueles que foram penhorados sem apelo; aqueles que foram paralisados na possibilidade da iniciativa económica; aqueles que foram e são insanamente taxados, multados, controlados, manipulados; aqueles a quem o Estado português, essa grande e disfuncional indústria do clientelismo mais grosseiro, esse monstro retrógado e simplex de complicações, prejudicou em absoluto, material ou imaterialmente.
terça-feira, maio 28, 2019
A ilha do dia da minha morte.
Há qualquer coisa de terminal no rock dos Island, que me arrepia um bocadinho. Estou nas primeiras audições destes jovens rapazes e ainda não tenho uma opinião completamente formada. Mas já sei o suficiente para dizer que bombam um rock clandestino, mas tradicionalista, que é sofrido e é histriónico, que é puro. Como uma ilha num mar defunto.
Island . The Day I Die
Island . The Day I Die
Much ado about nothing.
Políticos e jornalistas e comentadores de toda a selvagem espécie fizeram uma festa de arromba, a propósito das eleições para o Parlamento Europeu. Que esta inútil e impotente assembleia constitua apenas a prova provada que a União Europeia não é uma democracia, não lhes reduziu o ânimo lúdico. Que na verdade ninguém os estivesse a ouvir, também não lhes pareceu uma variável pertinente. São turbas festivaleiras, em negação. E fizeram o festival na mesma, como se nada fosse. Na altura de disparar o fogo de artifício, não pesou o pesado facto de que apenas 31,3% dos eleitores registados terem perdido um tempinho para ir votar no mais inútil dos organismos eleitos desde que Cícero entregou o Senado a Júlio César.
Uma república que vive com este nível de abstencionismo, é uma anedota, claro; uma trágica comédia de enganos. Se retirarmos os militantes dos partidos que foram a votos (só o PS registava até há bem pouco tempo 120.000), bem como os civis que vivem à conta dos partidos ou do regime, o que é a mesma coisa, chegamos rapidamente à conclusão que muito poucos cidadãos nacionais estavam interessados nesta eleição. E se subtrairmos ainda os que votaram em partidos anti-europeístas, concluímos com algum acerto matemático que os portugueses que acreditam seriamente na União Europeia, tão seriamente que perderam 15 minutos para ir votar, devem ser não mais que um milhão, num universo de 8,5 milhões de eleitores.
A ausência de uma ideia original que fosse também deve ter contribuído para desertificar as assembleias de voto. Dou um exemplo: o bom do Nuno Melo achou que o melhor slogan que podia colocar, para sublinhar a sua carinha laroca nos outdoors 8x3 que poluem loucamente o horizonte urbano nestas épocas eleitorais, foi "A Europa é Aqui". A sério? É mesmo aqui? Uau, é espectacular essa localização da Europa. E então? E não há um jornalista que pergunte ao bom do Nuno: ok, ok, a Europa é aqui, sim senhor. Mas de que Europa é que estás a falar? Da Europa de Angela Merkel ou da Europa de Helmut Kohl? Da Europa de fronteiras abertas ou fechadas ou mais ou menos? Da Europa fascista, censora, alienada, dividida? Da Europa das elites burocráticas que normalizam comportamentos, policiam o pensamento, alteram e adulteram as culturas nacionais? Da Europa que traz desenvolvimento infra-estrutural ou da Europa que legisla sem mandato? Da Europa que tem impedido a guerra ou da Europa que transformou Paris numa barricada?
O problema é que estas não são matérias apelativas para as luminárias do circo mediático e as oligarquias estadistas. O que pretendem descaradamente é despir tudo de significado e ficarmos só com a farra pela farra. O que interessa é fazer render a feira, manter o rei nú, mesmo que toda a gente já tenha percebido há muito tempo que sua majestade traz as partes à mostra. The show must go on.
O que não faria Shakespeare com este espectáculo decadente.
Uma república que vive com este nível de abstencionismo, é uma anedota, claro; uma trágica comédia de enganos. Se retirarmos os militantes dos partidos que foram a votos (só o PS registava até há bem pouco tempo 120.000), bem como os civis que vivem à conta dos partidos ou do regime, o que é a mesma coisa, chegamos rapidamente à conclusão que muito poucos cidadãos nacionais estavam interessados nesta eleição. E se subtrairmos ainda os que votaram em partidos anti-europeístas, concluímos com algum acerto matemático que os portugueses que acreditam seriamente na União Europeia, tão seriamente que perderam 15 minutos para ir votar, devem ser não mais que um milhão, num universo de 8,5 milhões de eleitores.
A ausência de uma ideia original que fosse também deve ter contribuído para desertificar as assembleias de voto. Dou um exemplo: o bom do Nuno Melo achou que o melhor slogan que podia colocar, para sublinhar a sua carinha laroca nos outdoors 8x3 que poluem loucamente o horizonte urbano nestas épocas eleitorais, foi "A Europa é Aqui". A sério? É mesmo aqui? Uau, é espectacular essa localização da Europa. E então? E não há um jornalista que pergunte ao bom do Nuno: ok, ok, a Europa é aqui, sim senhor. Mas de que Europa é que estás a falar? Da Europa de Angela Merkel ou da Europa de Helmut Kohl? Da Europa de fronteiras abertas ou fechadas ou mais ou menos? Da Europa fascista, censora, alienada, dividida? Da Europa das elites burocráticas que normalizam comportamentos, policiam o pensamento, alteram e adulteram as culturas nacionais? Da Europa que traz desenvolvimento infra-estrutural ou da Europa que legisla sem mandato? Da Europa que tem impedido a guerra ou da Europa que transformou Paris numa barricada?
O problema é que estas não são matérias apelativas para as luminárias do circo mediático e as oligarquias estadistas. O que pretendem descaradamente é despir tudo de significado e ficarmos só com a farra pela farra. O que interessa é fazer render a feira, manter o rei nú, mesmo que toda a gente já tenha percebido há muito tempo que sua majestade traz as partes à mostra. The show must go on.
O que não faria Shakespeare com este espectáculo decadente.
sexta-feira, maio 24, 2019
É por estas e por outras que a guitarra eléctrica
é uma das mais geniais invenções da história da humanidade.
Watch as Game Of Thrones creator Dan Weiss, Tom Morello of Audioslave/Rage Against The Machine, Scott Ian of Anthrax, Nuno Bettencourt of Extreme, Brad Paisley, and Game Of Thrones composer Ramin Djawadi shred on the all-new Sigil Collection Guitars from The Fender Custom Shop.
The Game Of Thrones Theme Song | Custom Shop | Fender
Watch as Game Of Thrones creator Dan Weiss, Tom Morello of Audioslave/Rage Against The Machine, Scott Ian of Anthrax, Nuno Bettencourt of Extreme, Brad Paisley, and Game Of Thrones composer Ramin Djawadi shred on the all-new Sigil Collection Guitars from The Fender Custom Shop.
The Game Of Thrones Theme Song | Custom Shop | Fender
quinta-feira, maio 23, 2019
Só para que fique claro:
Qualquer presidente de qualquer República deve estar preparado para fazer públicas as suas contribuições tributárias: Trump como Obama. Obama como Merkel. Merkel como Macron. Macron como Maduro e Maduro como Lula e Lula como Miguel Díaz-Canel e Miguel Díaz-Canel como Putin e Putin como Xi Jinping e Xi Jinping como Kim Jong-un e assim sucessivamente. Todos eles não podem nem devem ter grande coisa a esconder. E se têm algo a esconder, a opção pela política foi um erro técnico - que o tempo real não perdoa; e moral - que a história vai condenar. Desde a remota e gloriosa época de Sólon que a integridade contributiva é objectivamente essencial para um condutor de causas públicas. Se não tens essa virtude, não te é dado esse poder.
Faz sentido. Mas só se o bom princípio for aplicado, de igual forma, a toda a gente. Caso contrário, é o desastre. O decaimento para um novo fascismo.
Faz sentido. Mas só se o bom princípio for aplicado, de igual forma, a toda a gente. Caso contrário, é o desastre. O decaimento para um novo fascismo.
quarta-feira, maio 22, 2019
Sobre a responsabilidade da síntese.
A canção é curta, mas é santa.
E a culpa é da Samantha:
James Veitch . I'll text you
E a culpa é da Samantha:
James Veitch . I'll text you
Morreu um vencedor.
Niki Lauda morreu ontem. Perdemos o homem, o cavalheiro, o competidor, o perfeccionista intransigente, um dos melhores pilotos de corrida já inventados por deus e seguramente o mais corajoso de todos. Ficamos agora na posse do seu legado. É isso que ganhamos. É isso que devemos honrar.
Aufwiedersehen, Niki. Vielen dank.
Aufwiedersehen, Niki. Vielen dank.
Elogio da bateria.
Não sou um fã de automóveis eléctricos, nem pouco mais ou menos, mas este comercial da Audi consegue ser poderoso, mesmo para a minha sensibilidade de petrolhead.
À atenção do Sr. Papa.
Caro Senhor Papa Francisco: acredito completamente que sua sumidade não tenha sobre este secundário assunto a necessária informação, mas acontece neste preciso e contemporâneo momento que centenas de milhar de cristãos estão a ser afincadamente perseguidos, estão a ser injustamente aprisionados e estão a ser miseravelmente chacinados, por todo o lado do mundo. O meu caro senhor vive preocupado com outras serenas preocupações, como todo o penitente com uma conta de facebook sabe muito bem. Mas será talvez uma boa ideia, no sentido da sustentabilidade do pontífice disfarce, fingir que a perseguição e o aprisionamento e a chacina de cristãos, pelo simples facto de serem cristãos, constitui uma, mesmo que marginal, arrelia do Sr. Papa. E desejar fervorosamente que o Sr. Papa, em franciscana medida, diga publicamente duas ou três misericordiosas palavras em favor destes povos molestados, que são do seu rebanho e de sua última responsabilidade, não é pedir muito.
Pois não?
Sobre a complicação da palavra "parabéns" e da gratidão que provoca.
Sou um gajo completamente aéreo e até algo diletante, de tal forma que
me esqueço frequentemente dos aniversários das pessoas que amo. Por
isso, e por uma multitude de outras razões, fico invariavelmente
constrangido quando recebo parabéns. Sejam os parabéns porque faço anos
ou os parabéns porque ganhei uma campanha ou os parabéns porque fui, por
uma vez, uma pessoa como deve ser ou os parabéns porque tive muita
sorte com a mãe que me pariu e educou ou em ser escolhido pela mulher
com que sou casado ou pela sobrinha que fica arrepiada com as minhas
opiniões políticas, mas que sabe bem que tem um tio à séria até que ele
morra, ou pelos amigos que têm paciência para me aturar (fui abençoado
com alguns muitos). Pode parecer falsa modéstia - ou simetricamente uma
presunção - mas dentro de mim há sempre um aviso de letras vermelhas que
diz: "não tens que receber parabéns. Ainda não te mostraste digno de
seres celebrado". E aos 52 anos, o aviso continua, teimoso e certo, a
bombar loucamente nos meus tímpanos de razão pura.
Ainda assim, tenho que agradecer a todos os que se lembraram do dia remoto em que nasci (mesmo que tenha sido o Facebook a lembrar-se, porque tiveram a gentil diligência do recado - coisa que amiúde me falha).
Tenho que agradecer também ao José Luis Tamissa pelo carinho com que sempre me recebe, onde quer que esteja a trabalhar e, claro, ao grande senhor Américo Vinagre e a toda a gente no Derby Restaurante Bar: aceitem todos um abraço apertado, afectuoso e humilde de um amigo que, sendo aparentemente alienado, pretende cumprir a vida com lealdade e gratidão.
Hoje fui objecto de uma quantidade enorme de carinhos que nem sei, na verdade, se mereço. Muito e muito obrigado, malta.
Ainda assim, tenho que agradecer a todos os que se lembraram do dia remoto em que nasci (mesmo que tenha sido o Facebook a lembrar-se, porque tiveram a gentil diligência do recado - coisa que amiúde me falha).
Tenho que agradecer também ao José Luis Tamissa pelo carinho com que sempre me recebe, onde quer que esteja a trabalhar e, claro, ao grande senhor Américo Vinagre e a toda a gente no Derby Restaurante Bar: aceitem todos um abraço apertado, afectuoso e humilde de um amigo que, sendo aparentemente alienado, pretende cumprir a vida com lealdade e gratidão.
Hoje fui objecto de uma quantidade enorme de carinhos que nem sei, na verdade, se mereço. Muito e muito obrigado, malta.
terça-feira, maio 21, 2019
A ciência reduzida a cinzas.
Abaixo do ponto zero da arte, está em negativos o discurso científico contemporâneo. Sabemos realmente muito pouco sobre a natureza e a geografia da matéria, mas temos a certeza de duas coisas (e de mais nenhumas): Deus não existe. E a actividade humana, como objecto libertador de dióxido de carbono, vai conduzir a um muito rápido e sempre adiado extermínio zombie.
O patético Bill Nye faz de prova do que estou a escrever, no tribunal da razão prática:
A qualidade do discurso não é bem de ordem académica, pois não? O senhor até na verdade parece drogado ou stressado ou doente de alguma maneira. Ainda assim, esta delirante e meio ordinária figurinha apresenta-se mediaticamente como "The Science Guy".
Se isto é ciência, a ciência morreu.
O patético Bill Nye faz de prova do que estou a escrever, no tribunal da razão prática:
A qualidade do discurso não é bem de ordem académica, pois não? O senhor até na verdade parece drogado ou stressado ou doente de alguma maneira. Ainda assim, esta delirante e meio ordinária figurinha apresenta-se mediaticamente como "The Science Guy".
Se isto é ciência, a ciência morreu.
quinta-feira, maio 16, 2019
Serviço de despertar.
Os Said The Whale, uma banda companheira deste blog, voltam a atacar com "Cascadia", que é uma espécie de despertador dos sentidos. Para ouvir enquanto fazemos o café da manhã.
Said The Whale . Wake Up
Said The Whale . Wake Up
terça-feira, maio 14, 2019
Como é que o DNA se replica?
Graças ao Walter and Eliza Hall Institute e ao talento de Drew Berry, temos finalmente uma representação decente e rigorosa do mundo molecular. No momento em que marquei o início do vídeo assistimos ao processo de replicação do DNA: as proteínas organizam-se de forma supercomplexa para duplicar estruturas bio-químicas supercomplexas. Portanto, sem proteínas não são criadas mais proteínas e assim, de onde é que vieram as primeiras proteínas? Hum?
sexta-feira, maio 10, 2019
O horrível estado da arte no Século XXI.
A Bienal de Veneza, já de si uma espécie de feira de horrores, vai ser presenteada este ano, em nome de Portugal, com a presença equívoca da escultora/instaladora/decoradora de áreas cimentadas Leonor Antunes, a quem o Público dedicou recentemente meia capa da sua versão impressa (e depois queixam-se que não vendem jornais).
O Público fez isto mais porque Leonor Antunes é uma querida da imprensa por ter bombasticamente afirmado que não representaria Portugal em Veneza se o governo da República fosse de direita. A meia capa é política, claro, porque a arte da Leonor Antunes por si só, sem as suas opiniões políticas, não é mais que isto aqui:
Num país sério, não seria Leonor Antunes a estabelecer limites ao seu patriotismo, mas a pátria a negar-lhe qualquer procuração. Não que o trabalho desta autora seja completamente despido de interesse. Conseguimos ler uma componente gráfica interessante e trata-se de um esforço experimental que será talvez pertinente na disciplina da arquitectura de interiores. Mas não vale pela representação de um País numa feira de artes, porque desobedece a imensos critérios que utilizamos para identificar uma obra de arte. Não é belo nem promove a consolação. Não comunica transcendência. Não resistirá à crueldade do tempo. Não faz perguntas nem apresenta respostas. É uma estrutura que está ali e pronto:
As instalações de Leonor Antunes enquadram-se numa perversa e pós-moderna filosofia da arte que a desvaloriza ao ponto do absurdo. Desafio o paciente leitor a retirar de uma destas duas composições um qualquer significado. Um qualquer ensinamento. Um qualquer momento de génio, de espanto, de inspiração. Onde raio está a glória disto?
Jordan Peterson, com a sua eloquência de sempre, expõe lindamente, em apenas 7 saborosos minutos, a falácia do pós-modernismo e a destruição que criou e cria na cultura ocidental.
Lamentavelmente, a arte da segunda década do Século XXI permanece aprisionada à segunda década do século XX, quando o insustentável Marcel Duchamp fez isto e considerou que isto era a sua obra-prima:
Sendo uma das mais célebres provocações da epistemologia da arte, isto não é obra prima nenhuma, claro está. Isto é precisamente o oposto: é propaganda, é iconoclastia, é uma brincadeira de mau gosto, é um escatológico manifesto. Mas não nos leva a lado nenhum, no labirinto da existência, pois não? Esta latrina não faz de mim nem de si, caro leitor, pessoas mais sensíveis ou inteligentes. Não experimentamos os dois, estou certo, qualquer vestígio de êxtase: somos meramente submetidos a um exercício básico e pueril de disrupção. Não é através do recurso a este estranho ideal que se edifica a posteridade. O que é feio não tem nem nunca terá futuro. O que é banal não se imortaliza. E sem significado que lhe dê substância metalínguística, a produção pretensamente artística produz apenas objectos. Coisas inanimadas que perdem rapidamente a sua frívola e efémera função. A latrina de Duchamp, é verdade, resistirá na memória colectiva durante mais uns séculos. Mas menos como objecto artístico do que como anedota contada entre críticos.
Hoje em dia pode ser doloroso passear por um museu de arte contemporânea, no Ocidente. Podemos sempre ser insultados por esses objectos inanimados que estão lá porque lá estão e é assim, como as instalações da Leonor Antunes, ou por coisas estética e eticamente deploráveis como a latrina de Duchamp ou esta impropriedade tirada do conjunto de disparates pavorosos a que o bandido Berardo decidiu chamar Colecção. É mais que visível, para quem não tem graves problemas oftalmológicos ou dependência ideológica extrema, que os outrora nobres ofícios da pintura, da escultura, da literatura, da música, do cinema, do teatro e da arquitectura apresentam um declínio arrepiante, ao ponto de podermos falar hoje em dia na extinção das artes, como as conhecíamos há cem anos atrás.
Diga-me, querida leitora, que obra-prima produzida neste século pode apresentar para contradizer esta minha impressão? Que grande génio escultor conhece, que lhe seja contemporâneo? Que edifícios vê nascer, na sua cidade, que prometam uma ideia utópica, que proponham um valor universal, que sejam capazes de permanecer vivos e belos sobre as gerações? De que pintor não perde uma exposição? Quando foi a última vez que sentiu o poder comunicacional, a força redentora, o brilho único de um artista do seu tempo? Fale-me por gentileza de um compositor nascido nos últimos 50 anos cuja obra será tocada nos salões eruditos do século vinte e sete? E tente eleger um filme que tenha sido realizado nos últimos dez anos para uma lista dos melhores cem filmes de sempre (lembro que Gran Torino, a sublime pièce de résistance de Eastwood, foi produzido em 2008, pelo que não faz parte do leque disponível).
Estas coisas não acontecem por acaso. Acontecem porque nós, os herdeiros da mais brilhante, da mais inspirada, da mais produtiva civilização da história universal dos símios, permite que assim aconteça. Já não há picassos porque ninguém está preocupado com a súbita ausência de picassos. Parece que, para além da religião, também passamos bem sem a arte.
Desenganem-se.
O Público fez isto mais porque Leonor Antunes é uma querida da imprensa por ter bombasticamente afirmado que não representaria Portugal em Veneza se o governo da República fosse de direita. A meia capa é política, claro, porque a arte da Leonor Antunes por si só, sem as suas opiniões políticas, não é mais que isto aqui:
Num país sério, não seria Leonor Antunes a estabelecer limites ao seu patriotismo, mas a pátria a negar-lhe qualquer procuração. Não que o trabalho desta autora seja completamente despido de interesse. Conseguimos ler uma componente gráfica interessante e trata-se de um esforço experimental que será talvez pertinente na disciplina da arquitectura de interiores. Mas não vale pela representação de um País numa feira de artes, porque desobedece a imensos critérios que utilizamos para identificar uma obra de arte. Não é belo nem promove a consolação. Não comunica transcendência. Não resistirá à crueldade do tempo. Não faz perguntas nem apresenta respostas. É uma estrutura que está ali e pronto:
As instalações de Leonor Antunes enquadram-se numa perversa e pós-moderna filosofia da arte que a desvaloriza ao ponto do absurdo. Desafio o paciente leitor a retirar de uma destas duas composições um qualquer significado. Um qualquer ensinamento. Um qualquer momento de génio, de espanto, de inspiração. Onde raio está a glória disto?
Jordan Peterson, com a sua eloquência de sempre, expõe lindamente, em apenas 7 saborosos minutos, a falácia do pós-modernismo e a destruição que criou e cria na cultura ocidental.
Lamentavelmente, a arte da segunda década do Século XXI permanece aprisionada à segunda década do século XX, quando o insustentável Marcel Duchamp fez isto e considerou que isto era a sua obra-prima:
Sendo uma das mais célebres provocações da epistemologia da arte, isto não é obra prima nenhuma, claro está. Isto é precisamente o oposto: é propaganda, é iconoclastia, é uma brincadeira de mau gosto, é um escatológico manifesto. Mas não nos leva a lado nenhum, no labirinto da existência, pois não? Esta latrina não faz de mim nem de si, caro leitor, pessoas mais sensíveis ou inteligentes. Não experimentamos os dois, estou certo, qualquer vestígio de êxtase: somos meramente submetidos a um exercício básico e pueril de disrupção. Não é através do recurso a este estranho ideal que se edifica a posteridade. O que é feio não tem nem nunca terá futuro. O que é banal não se imortaliza. E sem significado que lhe dê substância metalínguística, a produção pretensamente artística produz apenas objectos. Coisas inanimadas que perdem rapidamente a sua frívola e efémera função. A latrina de Duchamp, é verdade, resistirá na memória colectiva durante mais uns séculos. Mas menos como objecto artístico do que como anedota contada entre críticos.
Hoje em dia pode ser doloroso passear por um museu de arte contemporânea, no Ocidente. Podemos sempre ser insultados por esses objectos inanimados que estão lá porque lá estão e é assim, como as instalações da Leonor Antunes, ou por coisas estética e eticamente deploráveis como a latrina de Duchamp ou esta impropriedade tirada do conjunto de disparates pavorosos a que o bandido Berardo decidiu chamar Colecção. É mais que visível, para quem não tem graves problemas oftalmológicos ou dependência ideológica extrema, que os outrora nobres ofícios da pintura, da escultura, da literatura, da música, do cinema, do teatro e da arquitectura apresentam um declínio arrepiante, ao ponto de podermos falar hoje em dia na extinção das artes, como as conhecíamos há cem anos atrás.
Diga-me, querida leitora, que obra-prima produzida neste século pode apresentar para contradizer esta minha impressão? Que grande génio escultor conhece, que lhe seja contemporâneo? Que edifícios vê nascer, na sua cidade, que prometam uma ideia utópica, que proponham um valor universal, que sejam capazes de permanecer vivos e belos sobre as gerações? De que pintor não perde uma exposição? Quando foi a última vez que sentiu o poder comunicacional, a força redentora, o brilho único de um artista do seu tempo? Fale-me por gentileza de um compositor nascido nos últimos 50 anos cuja obra será tocada nos salões eruditos do século vinte e sete? E tente eleger um filme que tenha sido realizado nos últimos dez anos para uma lista dos melhores cem filmes de sempre (lembro que Gran Torino, a sublime pièce de résistance de Eastwood, foi produzido em 2008, pelo que não faz parte do leque disponível).
Estas coisas não acontecem por acaso. Acontecem porque nós, os herdeiros da mais brilhante, da mais inspirada, da mais produtiva civilização da história universal dos símios, permite que assim aconteça. Já não há picassos porque ninguém está preocupado com a súbita ausência de picassos. Parece que, para além da religião, também passamos bem sem a arte.
Desenganem-se.
quinta-feira, maio 09, 2019
Infelizmente, a genialidade não é uma constante universal.
Bear's Den. Sou apaixonado por esta banda. Acontece que o último disco deles, "So That you Might Hear Me" é uma merda completa. Parte-se-me o coração em montes de acordes falhados de cada vez que oiço estas dez músicas inconseguidas. Mas não deixo de os amar por causa de uma obra menor. O génio é inconstante e a vida é comprida. E enquanto espero por uma próxima tentativa na senda da grandiosidade perdida, deixo aqui um clip de um tema menos mau - mínima consolação para um fã incondicional.
Bear's Den . Laurel Wreath
Bear's Den . Laurel Wreath
O fim de uma era, em Anfield Road.
Ontem, o Liverpool fez história. E nunca como ontem o refrão do famoso tema dos Gerry & the Pacemakers fez tanto sentido. Mais que o talento técnico ou a inspiração táctica, foi a vontade de ganhar, a disponibilidade para lutar, para correr, para recuperar, estruturada no ancestral sentido mítico do clube inglês e da sua massa adepta, que permitiu a remontada incrível.
A triste prestação do Barça, que não chega a uma final da Liga dos Campeões desde a época de 2014/15 e que já na temporada passada sofreu uma humilhante eliminação nos quartos de final (outra remontada: a Roma ganhou em casa 3-0 depois de ser goleada no Nou Camp por 4-1), é reveladora do fim de uma era. Messi está na conclusão da sua carreira e o famoso Tiki-Taka já não apresenta os mesmos resultados de há dez anos atrás.
E ainda bem. Sempre achei o futebol de cento e cinquenta passes por jogada super enfadonho. E não tenho mesmo simpatia nenhuma pelo clube Catalão, como não tenho simpatia nenhuma pela Catalunha e pelos seus insuportáveis habitantes.
O também inesperado resultado da outra meia final vai colocar frente a frente dois clubes ingleses no combate pelo título máximo do futebol de clubes, o que só aconteceu uma outra vez na história da competição (Man United vs Chelsea em 2007/2008). Esta é outra boa notícia, porque nos dias que correm, só mesmo o futebol inglês é que, aqui e ali, contraria a tendência para o aborrecimento e a corrupção generalizada.
Tenho só pena que o Ajax, a excepção à regra definida no anterior parágrafo, não tenha chegado à final. Os rapazes de Amsterdão jogam um futebol realmente enebriante.
quinta-feira, maio 02, 2019
Cuidados a ter com Immanuel Kant.
A editora Wilder não foi capaz de publicar a monumental obra crítica de Kant sem um intróito politicamente correcto que é das coisas mais ridículas que alguma vez li:
"This book is a product of its time and does not reflect the same values as it would if it were written today. Parents might wish to discuss with their children how views on race, gender, sexuality, ethnicity, and interpersonal relations have changed since this book was written before allowing them to read this classic work."
Há aqui tantos disparates que uma pessoa sem mais que fazer podia escrever uma outra Crítica da Razão Pura só a propósito deste curto parágrafo. Vou tentar resumi-los.
O primeiro disparate é que a editora Wilder parece acreditar que toda a gente contemporânea tem as mesmas e obtusas opiniões sobre raça, género, sexualidade, etnia e relações interpessoais, o que é de uma falsidade chocante. Eu, por exemplo, não partilho dos mesmos valores da editora Wilder. Nem pouco mais ou menos. O meu amigo José Abel Aguiar, que me alertou para esta obscenidade, e o redactor da Open Culture que expõe o cuidado ridículo da Wilder, também não. Já somos três. Devemos ser muitos milhões.
O segundo disparate é a ideia que a obra de Kant pode ser perniciosa para os seus estudiosos. A obra de Kant é uma das grandes conquistas intelectuais da história da humanidade. Na disciplina da filosofia só terá paralelo em Platão e em Nietzche. Não faz mal nenhum ler o génio de Königsberg, pelo contrário. E, que se saiba, nunca ninguém cometeu uma atrocidade em nome do seu monumental esforço crítico. Entre generais e terroristas, ditadores e genocidas, assassinos e traficantes de droga, polícias e ladrões, não há quem tenha utilizado o idealismo de Kant como justificação para a barbárie. E também desconfio que o Ku Klux Klan não refere os Prolegómenos a Toda a Metafísica Futura no seu manifesto de intenções.
O terceiro disparate é considerar que o jovem leitor de Kant deve ser sujeito a um aviso prévio dos seus pais sobre os perigos de semelhante literatura. Num ambiente cultural que oscila entre a pornografia e os heróis da Marvel, submeter um filho à prosa do filósofo alemão, sem uma conveniente lavagem cerebral, parece consubstanciar um risco inaceitável. Acresce que é precisamente este tipo de falsa protecção das criaturas infantes que tem produzido nas últimas décadas gerações de snowflakes, figurinhas hiper-sensíveis a tudo e a mais alguma coisa, radicalmente avessas à opinião discordante, completamente impreparadas para os conflitos da vida, as contradições da filosofia e as desgraças do destino.
O quarto disparate é julgar o discurso de Immanuel Kant à luz dos valores contemporâneos, sejam eles quais forem. Este é um síndroma recorrente nos malditos dias que correm e só é explicável pelo triunfo da imbecilidade endémica e da total ausência de sentido histórico que imperam um pouco por todo lado, nas universidades, nas redes sociais e na imprensa. Atrevo-me a considerar que, felizmente para Kant, os valores da sua época eram menos fascizantes do que são agora, caso contrário não tinha conseguido publicar uma linha que fosse.
O quinto disparate está na infeliz ideia de que os jovens devem ser poupados a escolas de pensamento que não reflectem o mainstream contemporâneo. Primeiro porque a escolástica contemporânea é de uma pobreza constrangedora (enumerem-me, por favor, cinco grandes filósofos do período 1945-2019), depois porque a aprendizagem da filosofia, como bem ensinava Sócrates, faz-se muito frequentemente através do exercício dialéctico e da exposição ao contraditório.
O sexto disparate consiste na pretensão de que os valores actuais mudaram substancialmente desde que Kant escreveu a sua monumental Crítica. No confortável edifício da sede da Wilder, na Virgínia, é capaz de ser certo que o quadro sistémico do século XVIII alemão esteja um bocado datado. Mas calculo que mais de um terço da humanidade viva hoje num ambiente cultural, económico e social que não faz justiça aos direitos, liberdades e garantias do iluminismo europeu. Basta registar que na Índia vivem 1.3 biliões de pessoas subjugadas ao niilismo genético das castas.
O sétimo disparate é o acto censório que nem sequer é velado: a leitura de Kant implica um controlo parental que é, claro, de ordem eminentemente autoritária e que conduz inevitavelmente a um maniqueísmo assustador. Se o jovem académico precisa de autorização para ler Kant, precisará seguramente de preencher um formulário pidesco para ler todo o resto da filosofia ocidental. No momento em que Kant se torna perigoso, que classificação atribuir a Stirner, Proudhon, Marx, Nietzsche, Schopenhauer, Heidegger? E se desejarmos condicionar os nossos filhos às ideias sobre género, sexualidade, raça e etnia da editora Wilder, como é que podemos permitir que leiam os filósofos da antiguidade clássica?
A solução limpinha é proibir isso tudo. Incendiar as bibliotecas, porque não? A Amazon, que domina o mercado livreiro na América, já começou a trabalhar nesse sentido. E ainda há pouco tempo escrevi aqui no blog sobre outras intenções totalitárias e arrepiantes deste género.
Hoje em dia, toda a gente que não repete a tabuada moral das políticas de identidade será racista, sexista, fascista e - de uma maneira geral - uma má pessoa. Neste sentido, Kant é um gajo horrível.
Por amor de Deus.
sábado, abril 27, 2019
Poça, gosto disto.
Bryan Tyler é mais conhecido por compor temas épicos para os horríveis filmes da horrível Marvel, mas desta vez decidiu trabalhar para uma marca que me agrada mais: a Fórmula 1. E não está nada mal, não senhor. A inclusão, na secção de percussão, de uma bateria rock faz muita diferença e o tema transmite bem o poder dos motores e a vertigem da velocidade. Boa onda.
Clássicos de culto: o Hispano Suiza de 1915
No vídeo em baixo, o Jay Leno vai ter a gentileza de vos apresentar esta glória do engenho humano muito melhor do que eu poderia fazer, mas convém alertar a audiência para o facto deste automóvel ter o motor de um avião lá dentro. E é por isso que atingia 200 km/h, o que em 1915 era um patamar de ficção científica. É um produto da tecnologia de vanguarda da Primeira Guerra Mundial. Uma máquina maligna e bombástica e espampanante que soa a apocalipse. Uma aeronave para devorar ruidosamente a estrada como se a estrada não existisse amanhã. Em resumo: um sublime elogio da extravagância.
sexta-feira, abril 26, 2019
A silenciosa revolução das audiências.
Enquanto a CNN recolhe, em pleno prime time, não mais que 100.000 aborrecidos espectadores de entre os potenciais 500 milhões de americanos (0,06% do mercado), PewDiePie contabiliza cerca de 3 a 4 milhões de visualizações por vídeo. E Tim Pool, o pundit independente que tem 3 canais de comentário político e reportagem jornalística no Youtube, compete directamente com as audiências da gigante MSNBC.
É preciso fazer notar que o orçamento diário de operação de Tim Pool ou de Felix Kjellberg não deve exceder os cinco mil dólares, enquanto os análogos custos quotidianos das grandes operadoras mainstream superam as dezenas de milhões de dólares. E estou a pegar apenas em dois exemplos de youtubers bem sucedidos, mas podia trazer à conversa centenas de outros jornalistas, comentadores políticos, enterteiners e criadores com vastas audiências nas redes sociais. Não quero estar sempre a carregar na mesma tecla, mas basta ir até ao canal do Jordan Peterson para percebermos que até um filósofo tagarela consegue ter mais audiências que o desgraçado do Anderson Cooper. Só o épico conjunto de palestras de Peterson sobre a bíblia apresenta muitos milhões de visualizações.
No combate pela supremacia dos meios convencionais via cabo, a conservadora Fox News arrasa com a concorrência never trump, somando invariavelmente mais do dobro das audiências da CNN e da MSNBC juntas. Mas números ainda mais impressionantes são os dos jornais online: as publicações conservadoras esmagam completamente os títulos liberais, numa demonstração de que há muita gente de esquerda a consumir conteúdo político à direita, embora na verdade este facto seja claramente contraintuitivo.
O que este quadro não diz é que a esquerda tem os seus públicos divididos por um número maior de publicações liberais, mas ainda assim, é bem visível que a linha editorial conservadora parece resultar para os dois lados do espectro político, enquanto o mesmo não se passa nas redacções progressistas, que teimando na filosofia de guerra aberta e insana à actual presidência, vão desertificando os seus shares.
O próprio Tim Pool explica e documenta isto tudo muito bem, neste vídeo aqui:
Em Portugal, uma consultora descobriu recentemente que a SIC transmitia para zero espectadores, num determinado minuto da programação da tarde. Numa boa noite (em que outros canais não passem futebol ou guerras de tronos), o pomposo Rodrigo Guedes de Carvalho declama pomposamente o texto que ele acha que é de carácter noticioso (não é) para 50.000 pessoas em Portugal, se excluirmos cafés e tascas e centros comerciais e barbearias e cabeleireiros e centros comerciais (0,5% do mercado total). Desses 50.000, especulo que menos de 20.000 audientes estejam na chave demográfica entre os 25 e os 55 anos. Considerando ainda que, ao contrário das plataformas web, a televisão implica baixos índices de foco na mensagem e pode estar ligada horas sem que ninguém esteja a olhar para ela, o Rodrigo Guedes de Carvalho está praticamente a falar sozinho.
Na segunda década deste século, observamos um shift mediático que vai ser lembrado nos livros de história. No formato actual, a televisão está no seu fim. Já ninguém vê. Mas os seus actores de sempre continuam a fingir que são vistos e que são relevantes, num deprimente exercício de negação. Talvez por isso, mas não só por isso, esta revolucionária migração das audiências é muito pouco falada. Há um silêncio oficial sobre o assunto, um manto de vergonha e espanto: uma morte não anunciada.
É preciso fazer notar que o orçamento diário de operação de Tim Pool ou de Felix Kjellberg não deve exceder os cinco mil dólares, enquanto os análogos custos quotidianos das grandes operadoras mainstream superam as dezenas de milhões de dólares. E estou a pegar apenas em dois exemplos de youtubers bem sucedidos, mas podia trazer à conversa centenas de outros jornalistas, comentadores políticos, enterteiners e criadores com vastas audiências nas redes sociais. Não quero estar sempre a carregar na mesma tecla, mas basta ir até ao canal do Jordan Peterson para percebermos que até um filósofo tagarela consegue ter mais audiências que o desgraçado do Anderson Cooper. Só o épico conjunto de palestras de Peterson sobre a bíblia apresenta muitos milhões de visualizações.
No combate pela supremacia dos meios convencionais via cabo, a conservadora Fox News arrasa com a concorrência never trump, somando invariavelmente mais do dobro das audiências da CNN e da MSNBC juntas. Mas números ainda mais impressionantes são os dos jornais online: as publicações conservadoras esmagam completamente os títulos liberais, numa demonstração de que há muita gente de esquerda a consumir conteúdo político à direita, embora na verdade este facto seja claramente contraintuitivo.
O que este quadro não diz é que a esquerda tem os seus públicos divididos por um número maior de publicações liberais, mas ainda assim, é bem visível que a linha editorial conservadora parece resultar para os dois lados do espectro político, enquanto o mesmo não se passa nas redacções progressistas, que teimando na filosofia de guerra aberta e insana à actual presidência, vão desertificando os seus shares.
O próprio Tim Pool explica e documenta isto tudo muito bem, neste vídeo aqui:
Em Portugal, uma consultora descobriu recentemente que a SIC transmitia para zero espectadores, num determinado minuto da programação da tarde. Numa boa noite (em que outros canais não passem futebol ou guerras de tronos), o pomposo Rodrigo Guedes de Carvalho declama pomposamente o texto que ele acha que é de carácter noticioso (não é) para 50.000 pessoas em Portugal, se excluirmos cafés e tascas e centros comerciais e barbearias e cabeleireiros e centros comerciais (0,5% do mercado total). Desses 50.000, especulo que menos de 20.000 audientes estejam na chave demográfica entre os 25 e os 55 anos. Considerando ainda que, ao contrário das plataformas web, a televisão implica baixos índices de foco na mensagem e pode estar ligada horas sem que ninguém esteja a olhar para ela, o Rodrigo Guedes de Carvalho está praticamente a falar sozinho.
Na segunda década deste século, observamos um shift mediático que vai ser lembrado nos livros de história. No formato actual, a televisão está no seu fim. Já ninguém vê. Mas os seus actores de sempre continuam a fingir que são vistos e que são relevantes, num deprimente exercício de negação. Talvez por isso, mas não só por isso, esta revolucionária migração das audiências é muito pouco falada. Há um silêncio oficial sobre o assunto, um manto de vergonha e espanto: uma morte não anunciada.
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