terça-feira, agosto 19, 2008

Da estupidez humana.

Acabei de ver a Naide Gomes, que é, para todos os efeitos, a melhor atleta mundial de salto em comprimento, falhar a qualificação para a final olímpica de uma maneira completamente imbecil e esta raiva, este nojo, esta naúsea que me assaltou perante o abismo da estupidez, deu-me ganas para vir aqui ao blog vomitar a vergonha de ser:

- Humano;
- Europeu;
- Português;
- Benfiquista.

Como é que, cabimentado dentro destas 4 categorias infames, um gajo consegue sobreviver?

terça-feira, agosto 05, 2008

Ilegal alienígena

Estou de fora, sou de nenhures
e nasci em conadunte.
Não dou as mãos a senhoras e senhores
sem que o criado as besunte

em caldo de bagaço.

Já não sou do clube e o partido
está abaixo de ranhoso.
Não sou daqui nem respondo ao pedido
do solidário manhoso,

espécie de palha d'aço.

Tirei a dentadura que me disfarça
o sorriso de cigano,
arrebentei com a danada da mordaça,
não sou daqui, sou marciano

de Shalimar, o palhaço.

Sem passaporte, sem visto de saída
e com uma certeza só:
a água de Marte é um valor de vida
para além da Terra e do pó

e da berraria que faço.

(E se puder passar para o lado de lá, passo).

quinta-feira, julho 31, 2008

Um monstro do sono.

Toda a gente que me conhece sabe que, se há uma danada característica que me distingue dos correntes mortais, é a maneira como durmo. Ou nadinha, ou muitíssimo e geralmente de dia. Não é invulgar que me apanhem no abismo dos dorminhocos profundos por volta das 16h00. Nem anormal que às 9h00 seja tempo de surgir em cena o meu bastante esquizofrénico e exclusivo João Pestana. Talvez por isso, me retrate a minha sobrinha Madalena querida assim desta maneira genial:


No contexto do magnífico boneco e do meu épico-trágico-sonoro abandono ao Senhor Morpheu, trago para aqui um poema que é tão antigo ou mais do que este blog, agora cozinhado numa panela sónica de aço inoxidável, ruído deveras desagradável, mais ou menos como o ressonar que eu não oiço (porque sou eu que ressono), ou a paz que não sinto, como quem entra em coma de absinto. Enfim, e apesar de tudo, uma barulheira enorme:

Ode Sorporífera 2.aif -

ODE SOPORÍFERA

Mesmo antes do primeiro bocejo,
vem do inferno o João Pestana
para me dar um beijo.
Traz no hálito o ópio da noite,
esse doce leito em que me deito,
esse incenso maldito que vomito.
E como quem parte rumo ao esquecimento,
durmo o abandono.
Não dou sinais de vida
nem arrais ao pensamento;
apenas ressono.
Mergulho numa tranquila inconsciência sem retorno,
um transe profundo e quieto,
um delírio de silêncios completo:
Morpheu é meu senhor e dono
e eu sou enfim um monstro em coma
no sarcófago do sono.

quarta-feira, julho 23, 2008

Outra vez a Volta de sempre.

Estou aqui a olhar para um conjunto de super heróis que pegam numas bicicletas e decidem discordar sobre quem chega primeiro aos Alpes. Vejo montanhas porreiras para alpinistas mas desumanas para quem vai de bicicleta. Vejo que as motas dos repórteres são mais lentas a descer por aquelas montanhas a baixo. Por amor de deus: deixem lá os tipos doparem-se à vontade. Os senhores que expulsam os super heróis da Volta à França por serem os super heróis da Volta à França deviam ir fumar uma ganza. Ou para o inferno. O meu último grande herói é o italiano Ricardo Riccò e quem tira prazer da Volta a França está de certeza de acordo comigo: vitaminado ou não, é bonito de ver. E, por favor, não me venham com a moral da história. Os desportos de alta competição não são, de qualquer forma, desportos. Isso eram coisas de aristocratas ingleses - aborrecidos com a vida. Vão lá perguntar aos clássicos - afinal, eram os sábios - se estavam preocupados com as dopaminas que o tipo da Maratona tomou para correr 42 quilómetros depressinha. Se na altura ele tivesse uma bicicleta e duas gramas de cocaína, teria sido um deus! Poupem-me lá ao puritanismo senão matam-me a corrida. O ano passado, cada infeliz que ganhava uma etapa ia de cana. Este ano, cada maravilha entre cobardes leva um pontapé no rabo. Porque tomaram isto ou aquilo. Ora, considerando que todos os infelizes que se obrigam a fazer a Volta à França não estarão, de todo, no domínio pleno do seu perfeito juízo, e dados os ambiciosos (muito ambiciosos) objectivos a que esta malta é submetida, agradeço que os senhores autoritários da Volta (que também tomam isto e aquilo só para se sentarem nas cadeiras do julgamento) pensem bem no que estão a fazer pela integridade da competição. Porque não é a França que é bonita. A corrida é que é.

domingo, julho 20, 2008



O bom do José Sócrates seria capaz, certamente, de beijar a ponta do pénis de Estaline, se fossem os dois contemporâneos e se o nosso PM objectivasse com isso uma pequenina que fosse vantagem comercial qualquer. Só não digo o mesmo de Hitler porque Sócrates consegue ainda assim ser fiel à sua miserável cartilha ideológica. Lula, Kadhafi, Chavez, Eduardo dos Santos: todos os facínoras da nova esquerda servem em nome dos negócios. Portugal é hoje um país que lava o dinheiro sujo destes bandidos todos. E que mais venham. O PM baixa as calcinhas e sorri em triunfo. É uma vergonha enorme, mas os portugueses, bem vistas as coisas, já estão habituados. E mais vale o dinheirinho que a vergonha na cara, não é?

domingo, julho 13, 2008


O veto da China e da Rússia à resolução do Conselho de Segurança que procurava castigar o inacreditável Mugabwe e mostrar assim que ainda resta um mínimo de decência à comunidade internacional, não surpreende, é verdade, mas é uma humilhação para toda a gente que tem vergonha na cara.
As Nações Unidas são - não me canso de escrever isto - uma das mais inúteis, nefastas, infames e fraudulentas artimanhas da história das organizações. Depois de décadas de cobardia, incapacidade, falabaratismo, despesismo e vilania, este miserável clube sobrevive apenas graças à hipocrisia dos diplomatas e aos ordenados milionários dos burocratas que lá trabalham.
Como é que um país que vai usar os Jogos Olímpicos como produto de cosmética pode ter uma atitude destas e sair ainda assim bem maquilhado, é um mistério para mim. Como é que um país completamente fascista e colaborativamente fascista pode ter assento em qualquer conselho de segurança internacional minimamente civilizado é coisa que me transcende.
Ò grandes senhores da política ocidental: fechem lá essa merda, pá. E com o dinheiro que poupam em cada dia apenas, contratem um atirador profissional que acerte muito simplesmente um tirinho de ouro no pirata do preto.

domingo, julho 06, 2008

Um blog numa frase só.

"Fátima é o nome de uma taberna de Lisboa onde às vezes… eu bebia aguardente."

Fernando Pessoa

domingo, junho 22, 2008

Sobre a morte certa.


Esta música tem origem num conteúdo lírico que publiquei aqui no blog e que desagradou bastante a algumas pessoas por ser mais ou menos sinistro. Ora, não há nada mais sinistro que a vida, pelo que a morte - neste contexto - mantém um director de marketing extremamente incompetente que não consege capitalizar as reais valias do produto e que deve ser despedido com apropriada celeridade. Atendendo à condição humana, à história das civilizações e ao actual estado do mundo, não se percebe porque é ainda há gente que tem medo de morrer.
Seja como for, e dado o teor gótico da letra (concedo), optei por uma composição musical não redundante, que procura referências no rock independente americano do princípio da década de 90. Espero que vos agrade, gentil plateia.

Vala Comum 2.aif -

Vala comum.
Nascem os homens apenas para a decomposição do futuro
e é somente justo que esta espada que seguro
sirva ao meu carrasco de guilhotina.
Tudo está certo neste mundo quando a vida termina
e não há tipo mais porreiro, que o meu amigo coveiro.

E não há tipo mais porreiro, que o meu amigo coveiro.

Enquanto há morte, há esperança - um sonho de redenção;
só faz sentido a vida enquanto dura o ramadão.

Os deuses, graças a deus, também sabem morrer danados,
esquecidos, banhados em sangue e humilhados,
incapazes de sobreviver à criação.
A imortalidade não tem mais que uns dias de duração
e caem que nem folhas como todos os trolhas.

Caem que nem folhas como todos os trolhas.

Ninguém quer viver para sempre, é uma chatice, uma ilusão;
só faz sentido a vida enquanto dura o ramadão.

Cometas, planetas, galáxias verdes e maduras
apodrecem outrossim em quânticas curvaturas.
Quanto mais curioso o telescópio mais defuntas as realidades:
o universo é um belo cemitério de eternidades
em decadência formal, até ao último funeral.

Até ao último funeral.

Enquanto há morte, há esperança - um sonho de redenção;
só faz sentido a vida enquanto dura o ramadão.

Ninguém quer viver para sempre, é uma chatice, uma ilusão;
só faz sentido a vida enquanto dura o ramadão.

E não há tipo mais porreiro, que o meu amigo coveiro.

quinta-feira, junho 19, 2008

Só mais uma pequena certeza absoluta.

Peço desculpa ao horrível futebol dos italianos. Os gregos, senhores, os gregos é que deviam ser condenados à eterna maratona, para que não tivessem tempo nem forças para dar sequer um único que fosse pontapé na desgraçada e infeliz bola, que maltratam como ninguém mais na Europa ousa maltratar.

quarta-feira, junho 18, 2008

Algumas pequenas e absolutas certezas.


A morte. A derrota de Portugal, amanhã, frente à Alemanha. A humilhação inevitável da ciência, face ao carácter incognoscível da realidade. A inexistência de deus. A inexistência do diabo (o mal não triunfa por estados diabólicos de alma, mas por disfunção e estupidez*). A virtude dos inúteis. A ideia de que o império romano se deveu essencialmente ao labor dos seus generais e ao sangue dos seus soldados. A consciência de que os italianos deviam ser proibidos de jogar à bola. A mediocridade de Manuela Ferreira Leite e de 98% das elites nacionais. A vaidade de Manuel alegre. O roubo perpetrado quotidianamente pela Galp. O erro fatal chamado Barak Obhama. A sobrevivência da força imoral dos talibans no Afeganistão e dos radicais islamitas por esse mundo fora. A incrível e impune afirmação do Irão como potência nuclear. A guerra devastadora, global, sem precedentes históricos, que nos espera a curto ou médio prazo. A suave inocência e encantadora rebeldia do meu cão, que me faz feliz. O desespero através dos dias.

*Vide "As Benovolentes" de Jonathan Littell

domingo, junho 08, 2008

A Quântica segundo Alberto Caeiro

Dizem os sábios d'agora que a luz
- A luz do sol que nos convida para o dia,
Que nos aquece concretamente o rosto encarquilhado -
É uma onda e uma partícula ao mesmo tempo
E ao mesmo tempo o fotão, ubíqua obra da imaginação laboratorialista,
Pode estar aqui e ali.

Digo eu: balelas!
Balelas porque a luz que me aquece o rosto
Está aqui e eu sinto-a nas rugas,
Não está, a mesma luz, nas rugas da Maria da Fonte.

E digo eu: Balelas!
Porque saber se a luz é onda ou partícula
Não é tarefa de gente; não faz ninguém feliz
Nem leva a criança embirrenta para a cama
Quando já são horas de terem os pais algum sossego;
Nem é por ser ou não ser ondulatória a energia,
Nem é por ser ou não ser imprevisível a matéria,
Que o castanheiro vai deixar de me oferecer a frescura da sesta,
Ou que os sinos da minha aldeia deixam de cantar o meio dia,
Por muito que me doam as badaladas nas orelhas da alma.
(Se preguiçasse o sacristão, seria eu mais grato a Heisenberg?).

E digo eu: Balelas!
O milho que cresce serenamente nos campos doirados,
Será um dia colhido e dele fará o Tio Joaquim da Felismina
Uma belíssima broa
E não há Princípio da Incerteza que nos valha:
A broa existe e é belíssima e é tudo.

Não sou crente nos conceitos, bastam-me as cousas naturais,
As cousas que observo e cheiro e sinto na pele dos sentidos
São já sublimes e metafísicas o bastante;
Para apreciar o vinho doce da D. Alice da Venda
Não preciso de saber nada sobre a fluidez espontânea do Bosão
E para que me dê prazer imenso a leitura do Cesário,
Não me faz falta nenhuma o conhecimento da exacta posição
Desse enigmático protão que circula na magia negra da órbita atómica
Num dado e misterioso momento cósmogónico.

A ciência é uma religião e a religião cansa-me excessivamente.

quinta-feira, maio 22, 2008

Morte aos feriados.

Estava eu aqui todo contente, numa unidade hoteleira perdida nos confins do Alentejo, a tentar passar uns dias em paz e sossego, quando chega o feriado (um feriado de utilidade misteriosa e causa incógnita) e com o feriado chega a confusão. Chega a classe média com tatuagens e crianças e roupas de feira e má educação e doenças de pele e automóveis de dez mil contos e o meter de conversa e o fim da tranquilidade. Não há subida das taxas de juro, inflação, recessão, desemprego que convença estas alminhas a ficar em casa; não há desgraça económica que lhes imponha o pudor e o recato. Não há como gente para estragar o ambiente. Enfio-me no quarto e preparo o regresso a Lisboa.

Sobre os preços do petróleo.



I - O falso problema das existências
Ao contrário do que poderás pensar, caro leitor, não há falta de jazidas petrolíferas. O que há é acrescidas dificuldades técnicas (técnicas e não tecnológicas) em chegar lá. Primeiro porque as vastas quantidades de ouro negro que se encontram - inexploradas - no subsolo do planeta, estão localizadas a maiores profundidades, o que encarece o investimento inicial da exploração (embora esse custo, num mercado a funcionar normalmente, incidisse no preço do barril de forma apenas marginal).
Depois porque a praga ambientalista, hoje já institucionalizada pelos estados e pelas grandes corporações, levanta dificuldades legais à exploração na maior parte das zonas do globo onde estas jazidas são mais abundantes (o mesmo acontece com a criação de refinarias que suportem as necessidades do mercado). O problema da inexistência de reservas petrolíferas é, portanto, um falso problema.

II - O problema da produção
Faz a ti mesmo esta pergunta, caro leitor: se em cada ano produzisses dez quilos de batatas e por cada quilo ganhasses dez milhões de dólares, serias facilmente convencido a cultivares vinte quilos de batatas de forma a ganhares cinco milhões de dólares por quilo? Claro que não. Ora o mesmo se passa com os produtores de crude a nível mundial. A OPEP recusa-se naturalmente a aumentar a produção simplesmente porque esse aumento não seria um bom negócio. O actual preço do barril está a enriquecer as elites dos países produtores a níveis absolutamente obscenos e ninguém que esteja a ganhar com a situação vai fazer seja o que for para alterar o status quo.
Quando a OPE atribui a subida dos preços à especulação dos mercados financeiros (que de facto existe) está a manifestar um cinismo recordista: se houvesse mais petróleo no mercado, a especulação diminuiria. Mas se a especulação diminuisse, os produtores ganhariam menos dinheiro. É caso para dizer que é preciso ter lata.

III - O problema político
Acresce que a OPEP é uma organização de bandidos, originária, na maior parte dos casos, de algumas das mais infames e bárbaras nações do planeta. Repara, prezado leitor, na lista dos malfeitores: Angola, Argélia, Líbia, Nigéria, Venezuela, Equador, Indonésia, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Irão, Iraque, Kuwait e Qatar. Tudo boa gente.
Os preços do petróleo estão a ser usados como uma arma contra o desenvolvimento das sociedades ocidentais e para controlo do poder e da riqueza por parte de oligarquias totalitárias, cujas estruturas regimentais são inspiradas em modelos muito próximos da idade média europeia. Os povos miseráveis destes países, claro, não verão nunca um tostão destas fortunas incalculáveis.

IV - O problema do modelo económico-industrial
É muito bonito e telegénico dizer que é necessário mudar o modelo energético, mas não te deixes enganar pela retórica fala-barateira. A dependência económica do petróleo não é uma teimosia irracional dos grandes capitalistas do ocidente, criminosos ambientais e outras personalidades imaginárias, caras à propaganda dos Blocos de Esquerda europeus.
As chamadas energias renováveis não têm capacidade instalada, nem vão ter nos próximos anos, para fazer face à procura actual e à tendência de aumento exponencial dessa procura. Os biocombustíveis, a serem massificados, elevariam os preços dos cereais para a alimentação a níveis que provocariam fomes inauditas e a "combustão" do hidrogénio, sendo de facto a única alternativa viável, reduziria as indústrias directa e indirectamente ligadas à produção e distribuição de combustíveis à insignificância económica, facto que provocaria certamente uma recessão de proporções nunca antes observadas. Não estou a ver a BP a investir num modelo energético que lhe reduziria as margens de negócio em 90%. O uso do hidrogénio como força energética viável teria assim que ser desenvolvido pelos estados (cenário de pesadelo), porque as empresas existem para enriquecer os seus accionistas. É muito simples.
Isto para não falar que um modelo energético "limpo" traria vagas de desemprego verdadeiramente devastadoras dos tecidos sociais a nível global.

V - Alegremente a caminho da guerra.
A OPEP vai roendo a corda à sua vontade, porque pode, enquanto o ocidente, sofrendo dos seus costumeiros e enjoativos problemas de consciência, paga caro nas estações de serviço e nos consultórios de psicanálise. Isto, claro, até certo ponto. A maior parte das grandes guerras da história universal da batatada começaram por motivos mais comezinhos dos que existem hoje para fazer uma e não é preciso ser um bandarra com doutoramento em Delfos para perceber que, depois de chegarmos aos 200 dólares por barril, as coisas vão começar a ficar feias, com Obama ou sem Obama (já agora: deus nos livre do preto).
Ora, em vez de chegarmos a esse triste climax, talvez fosse esperto que os países compradores de petróleo agissem como clientes em vez de procederem como reféns. Para já, castigando os fornecedores de todas as maneiras possíveis: rompendo com acordos comerciais, ajudas humanitárias (que nunca chegam a quem precisa, de qualquer forma), pressionando diplomaticamente, ameaçando com embargos, cortando investimentos, etc., etc. A União Europeia, por exemplo, poderia muito bem, se fosse uma organização lúcida, criar um mecanismo comum de exploração de novas jazidas. Os americanos poderiam simplesmente utilizar a CIA para aquilo que a CIA devia servir e acertar um tirinho certeiro em dois ou três tipos exemplares, entre os quais destaco desde já o distinto senhor Chavez que está mesmo a pedi-las.
A coisa só vai ser resolvida com alguma violência e é preferível utilizá-la com destreza cirúrgica do que depois ter que recorrer a métodos que saem mais caro em vidas, em recursos e em pachorra.

VI - O problema português
Em Portugal o problema, por enquanto, é essencialmente fiscal, como aliás todos os grandes problemas económicos nacionais o são. Os sucessivos e desgraçados governos que temos tido, têm usado o petróleo como um instrumento de receita fiscal por excelência e agora pouco se pode fazer, a não ser que se desista do controlo das contas públicas, o que também seria mais ou menos calamitoso. Uma coisa é certa: não é a pagar 300 paus por um litro de gasóleo que a economia vai crescer. E se tudo o que Sócrates pode fazer é subsidiar os passes sociais (porque valem votos, claro está), estamos todos bem sodomizados.

terça-feira, maio 20, 2008

Estacionário.

Não ter nada que fazer, coisa rara e preciosa. Prémio dos deuses. Terra prometida.
Ficar a ouvir os pássaros e fazer o possível por descobrir um quantum de silêncio na tagarelice alada da planície.
Sentir o tempo, espesso, a escorrer por entre os dedos da alma e isso valer por uma década de cansaços.
Imobilizar o cérebro, desconectar os neurónios toxicodependentes da química do pensamento e libertar-me da consciência dos afazeres. O único afazer efectivo é o de suspender efectivamente a vida.
Não ter nada que fazer, ser livre da dinâmica dos deveres! Ser ignorante da entropia das obrigações! Estar à parte da azáfama dos imperativos, das premências, das necessidades, das solicitações. Ser supra numerário, marginal de taberna, desempregado, desperdiçado, inútil! Não há estética para além da estática nem ética que desvalorize a inutilidade. O que de melhor podemos fazer pelo mundo é absolutamente nada.
Não ter nada que fazer, quimera de príncipes! Ter vagar para atingir o nirvana da produção zero, consumindo apenas algum oxigénio, libertando somente um poucochinho de carbono - ser verdadeiramente ambientalista, ambientalista a doer como só um cadáver pode ser, isto é: no sentido translato. Ah, não me venham com encomendas, tarefas, desafios, procissões, campanhas, contratos, avenças, promessas para o futuro! O futuro que se dane, o futuro pode ir rebentar de infernos para o século quarenta e três, quero lá saber. Sim, quero lá saber! Não tenho filhos nem esperança. Não sonho acordado nem tenho tempo para aspirações de conselho ecuménico. Se o sol se apagar amanhã, dormirei mesmo assim virado para o meu melhor lado, quieto, calado, ressonando talvez uma oração ao altar sagrado da futilidade da vida. Se o petróleo subir aos 150 dólares, hei-de fazer mais ou menos os mesmos quilómetros curtos que me separam de lado nenhum. É verdade: não quero ir a lado nenhum em especial.
Ah, não ter nada que fazer! E voltar a lembrar-me de mim.

segunda-feira, maio 19, 2008

Problema.

O recorde do mundo da corrida dos 100 metros baixou, num século, cerca de 1 segundo. Daqui a dez séculos, quanto tempo levará o recordista da especialidade a correr esta distância?

Uma criança de 7 anos sabe a resposta. O matemático profissional não faz a mais pequena ideia. Pois não?

terça-feira, maio 06, 2008

sexta-feira, abril 18, 2008

"A actividade social chamada comércio, por mal vista que esteja hoje pelos teoristas das sociedades impossíveis, é contudo um dos dois distintivos das sociedades chamadas civilizadas. O outro característico distintivo é o que se denomina cultura. Entre o comércio e a cultura houve sempre uma relação íntima, ainda não bem explicada, mas observada por muitos. É, com efeito, notável que as sociedades que mais proeminentemente se destacaram na criação de valores culturais são as que mais proeminentemente se destacaram no exercício assíduo do comércio. Comercial, eminentemente comercial, foi Florença. Comercial, eminentemente comercial, foi Florença.
A relação entre os dois fenómenos é ao mesmo tempo de paralelismo e de causa-e-efeito. Toda a vida é essencialmente relação, e a vida social, portanto, é essencialmente relação entre indivíduos, quando simples vida social; e entre povos, quando vida civilizacional. Ora, como os fenómenos da vida superior são de duas ordens - materiais e mentais -, devem ser materiais e mentais os fenómenos da vida superior civilizacional; e, como a vida é essencialmente relação, esses fenómenos devem ser de relação. Como o comércio é, por sua natureza, uma entrepenetração económica das sociedades, é no comércio que as relações materiais entre as sociedades atingem o seu máximo; e como a cultura é uma entrepenetração artística filosófica das sociedades, é na cultura que as relações mentais entre os povos conseguem o seu auge. Segue que uma sociedade com um alto grau de desenvolvimento material e mental e, portanto com um alto desenvolvimento da vida de relação, forçosamente será altamente comercial e altamente cultural, paralelamente.
(...) Mas entre os dois fenómenos - comércio e cultura - há, també,, uma relação de causa-e-efeito. A cultura ao aperfeiçoar-se, tende para a universalidade, isto é, para não excluir da curiosidade elemento algum estranho. Quanto mais fácil for o contacto com elementos estranhos, tanto mais essa curiosidade se animará, e a cultura permanecerá viva. Ora como o fenómeno material precede sempre o fenómeno mental, o meio mais seguro de se formarem contactos mentais é terem-se formado contactos materiais; e, como a cultura exige necessariamente um contacto demorado e pacífico, o contacto material, que a estimule, terá que ser demorado e pacífico - e é isto mesmo que, em contraposição à guerra, distingue a actividade social chamada comércio."


"A Essência do Comércio e Outros Textos de Teoria Económica", de Fernando Pessoa | Editorial Nova Ática

sábado, abril 12, 2008

Esses deprimentes e aborrecidos lamentos têm mesmo que acabar.


Esta é a hora do grande bardo. Direitinho das ruelas de Stratford-upon-Avon para a avenida da eternidade, o falecido senhor Shakespeare rebentou com a escala da glória e estes versos, retirados de "Much Ado about Nothing", são dos meus preferidos, não só porque me agrada o tom paternalista e reaccionário, mas também porque é um texto que tem muita música pop lá dentro. Senão reparem:

Sigh no more, ladies, sigh nor more;
Men were deceivers ever;
One foot in sea and one on shore,
To one thing constant never;
Then sigh not so,
But let them go,
And be you blithe and bonny;
Converting all your sounds of woe
Into. Hey nonny, nonny.
Sing no more ditties, sing no mo,
Or dumps so dull and heavy;
The fraud of men was ever so,
Since summer first was leavy.
Then sigh not so,
But let them go,
And be you blithe and bonny,
Converting all your sounds of woe
Into. Hey, nonny, nonny.


Quando comecei a brincar com o Garage Band, veio-me à ideia criar um tema que acompanhasse estas sábias palavras, mas numa versão em Português. Trata-se, repito, de uma versão e não de uma tradução, tarefa que transcende largamente as minhas capacidades.

Não, senhoras, não suspirem mais;
Os homens sempre foram diletantes;
Um pé no mar, outro no cais,
Nunca por coisa alguma constantes.
Chega enfim de suspirar,
É deixá-los andar
E manter a graça no entretém;
Convertendo os vossos sons de pasmar
Num sim querido, tudo bem.
Nem mais cantem esse lamento;
Tão deprimente e aborrecido;
O homem sempre foi fraudulento
Desde que o Verão primou florido.
Chega enfim de suspirar,
É deixá-los andar
E aproveitar o vai e vem;
Convertendo esses sons de arrepiar
Num sim querido, tudo bem.


Por fim, o tema musical para a versão em português surgiu quando consegui meter mão nuns loops porreirinhos de cravo, que, aqui entre nós, era o que a coisa estava mesmo a pedir. Lamento, mas teve que entrar a cana rachada outra vez.
Espero que me compreendam a paixão pelo velho William e já agora, que não sejam sensíveis à ousadia.

quinta-feira, abril 10, 2008

Quadratura do Círculo (fim da terceira época).

Quem não viu hoje, perdeu um dos mais bonitos momentos de televisão - e de verdade - da história contemporânea de Portugal.

Do tempo perdido.

Tenho andado para aqui metido comigo e com os afazeres da escravidão que é a vida e infectado de infernos profissionais variadíssimos (o Diabo é prolixo de passatempos) e aflito em azáfamas múltiplas e, de todo em todo, inerte.
Tenho andado para aqui metido em enredos e labores e lavores e merdinhas que não interessam para nada, senão para castigar a paciência e tudo porque decidi que não podia continuar a trabalhar sózinho quando o que devo sempre fazer, para sanidade minha e do mundo do trabalho, é precisamente continuar aqui enfiado em casa a esgalhar comunicação a solo para clientes felizes. Não consigo ter clientes infelizes, por muito que isso doa à minha conta bancária. E não consigo aturar já pecadilhos que eu próprio cometi. Gostava que a geração abaixo fosse um bocadinho mais original nos desaires e um pouco menos efusiva nos sucessos. Até porque hoje em dia, em Portugal, ninguém é realmente bem sucedido. Tenho andado para aqui metido em porradas com gente que não sabe dar porrada nem levar porrada (o que é grave) porque é gente mais nova, que, basicamente, se está a cagar no assunto, seja ele qual for, e com toda a razão.
Tenho andado para aqui metido comigo e com o Proust, que é um frívolo filho da puta (180 páginas para o primeiro salão nos Guermantes é obra) e que cada vez me dá mais prazer. Prazer sexual, prazer religioso, prazer estético, prazer, prazer, prazer. Quanto mais chego ao fim do Tempo Perdido, mais recordo o antigo fracasso moderno de Sartre. Querendo virar Proust de pernas para o ar sem ter a necessária elegância e desprovido de despreocupação moral, o tristemente célebre estrábico mais não fez que enjoar o público para toda a eternidade (que é dele, sim senhor). A Náusea devia fazer o pino para ser outra vez literatura.
Tenho andado para aqui razoavelmente insatisfeito comigo por causa dos outros o que não é conveniente para mim nem para os outros e estou lentamente a tranformar-me num apetitoso exemplo clínico do meu filósofo favorito. Ao contrário do que nos lembra Max Stirner, esqueço-me frequentemente que só sou dono de mim e que ninguém mais é de mim dono e às vezes dá-me um vontade assassina de desistir de ser preocupado.
Tenho andado para aqui resignado até para com certos comentários que ainda me vão deixando neste blog crepuscular, comentários sobranceiros que me ensinam que a wikipedia não é um enciclopédia, que me ensinam a ética do link (maravilhoso princípio que falhou à razão pura de Kant) como se eu desconhecesse o científico maneirismo iluminista, como se eu andasse para aí a baixar direitos de autor, como se eu não tivesse a quarta classe que tive - não a do meu pai, que era para doutores - mas a minha e como se eu não tivesse ido à escola mais do que isso nem soubesse nada de nada. Estes meus parceiros de blogosfera dão-se ao trabalho de visitar e comentar um blog que é escrito pelo mais ignorante dos ingénuos do universo dos simples de espírito. Bravo, bravo e os meus agradecimentos pelo fornecimento da electricidade espiritual de que tanto pareço carecer.
Tenho andado para aqui metido em irritações e nevralgias por causa de pivots de telejornal, chefes de redacção, opinion makers, think tank boys, fiscalistas, constitucionalistas, grevistas, criativistas, filipe vieiristas e outros filhos do grande esgoto da infâmia como os senhores da OPEP, os párocos de Barak Obama, os xiitas do quarto mundo ou os homens que engravidam porque já foram mulheres um dia. Os homens que engravidam porque já foram mulheres um dia são obscenos como a ausência de Homero.
Tenho andado para aqui metido em silêncio no buraco dos dias e tenho-me embebedado de vez em quando, o que é bom quando Mozart toca, o que é bera quando oiço Bach.

É claro que escrevi isto só para me aliviar do stress de ter um blog vazio de conteúdo. Quando, caramba, tudo o que precisava de fazer era passar um youtube qualquer com um puto de 16 anos a ir ao cú da stora na sala de convívio do liceu de sempre em Portugal. É o que a televisão faz à hora de jantar, e quem sou eu?

sexta-feira, março 28, 2008

GT5 - Prologue: já cá corre.


Como podem constatar, estou bastante ocupado. A carga de trabalhos e a introdução ao GT5 obrigam-me a manter o blog à míngua. Em Abril compenso. No entretanto, vroom, vrooooom em imagem (quase) real.

sábado, março 22, 2008

A vantagem de ter um blog que não dá nas vistas:

É a de poder insultar os filhos da puta sem que nenhum filho da puta dê por isso.

Leio hoje no Diário Económico de Quinta-Feira que um cabrão qualquer que dá pelo nome de manuel vicente e que deve ter chegado a presidente da sonangol pelos mais vis desígnios (é assim que se sobe na vida em angola), teve a ousadia de afirmar isto: a abertura ao investimento Português em Angola depende da abertura ao investimento da Aonangol em Portugal. Ò sr. dr manuel vicente: e se fosse para o caralho com a sua suja hipocrisia de novo rico e com o seu dinheiro sujo e, já agora, com o seu país também muito pouco higiénico, manhoso, mafioso, bárbaro, corrupto, imoral sobre todos os países imorais? E se fosse, para sua decência utópica e inimaginável dignidade, exigir as mesmas contrapartidas ao estado francês que lhe ofereceu o seu jacto privado, a sua quinta em Cannes, o seu falso tesão ontológico, as suas putas ranhosas de 500 dólares, a sua gravata de costureiro italiano, mas não, infeliz canalha, a sua língua, a sua cultura, a sua hipótese de transcender a mísera condição tribal, a sua oportunidade (perdida) de ser um tipo civilizado?
Angola. Que país de filhos da puta.

sexta-feira, março 14, 2008

A enciclopédica da mediocridade.

Pesquisando "Ciência Ambiental" no Google, chega-se a esta pedra preciosa na Wikipedia:

"A ciência ambiental é caracterizada pela importância do meio ambiente em nosso meio. Sem vida ambiental seria impossível realizar as modernas tecnologias que hoje é possível. As árvores desempenham um papel indispensável na vida terrestre; por meio delas há o equilíbrio climático.
Se elas estão ausentes em algum lugar, ocorre algum tipo de desequilíbrio.
Seria bom que houvesse uma consciencialização das pessoas mediante esse assunto, pois existe uma influência grande da parte das autoridades que abusam de seu poder e acabam destruindo reservas ambientais, importantíssimas para o meio ambiente. Como no deserto. Há poucas árvores, por isso o clima é tão quente."


Desculpa, Manuel, mas isto é inaceitável. O índice de entradas da Wiki é inversamente proporcional ao seu valor qualitativo. É uma evidência, amigo.

sexta-feira, março 07, 2008

Máquinas: tão estúpidas como o homem.

À semelhança da criação divina, a inventiva humana reflecte bem a estupidez do criador. Senão, vejamos:

"Selo os anéis são ajustados fabris nos seus fins em forma de encrespamento. O tubo de sistema é inserido no pressão ajuste como longe como a distância de inserção premarcada e especificada. A união é criada usando o instrumento urgente. As seções longitudinais por demonstração de pressão ajuste comprimida o ajustado de forma e conexão de tubo ao comprido não-positiva [as figuras 1 e 2]. A prensagem tem um impacto em dois níveis. Ao nível 1, a força da conexão é realizada. Ao nível 2, o selo deforme toca o juízo."

Eis o poético mas desastroso resultado que obtive, quando tentei usar este tradutor.
É por estas e por outras maquinetas da grande disfunção universal que acho sinceramente que os engenheiros deste mundo deviam ter mais 30 dias de férias do que os restantes mortais. Mais que frívola, esta hiper-actividade inócua é absolutamente irritante.

sexta-feira, fevereiro 29, 2008

Um outro homem acidente.


Peter Griffin, o gorduchinho e lastimável chefe de família da Fox, é o meu herói do momento. O Greg House (que na verdade só precisa de levar alguém para a cama) não tem hipótese e o Homer Simpson pode ir dar banho ao cão: Family Guy rules!

quinta-feira, fevereiro 28, 2008

Terreiro do Paço

É um pouco estranho, eu sei, mas na verdade esta música deve-se a umas fotos que tirei na Praça do Comércio, em 2005, a propósito de um seminário sobre cidadania que ocorreu em Palmela e para o qual fiz o design gráfico de promoção. Como gostei das fotos, esgalhei umas rimas muito aliteradas para acompanharem a inserção de algumas das imagens no blog. Mais tarde, quando comecei a brincar com o Garage Band lembrei-me que a estrutura métrica do poema se adaptava bem a uma musiquinha pop e pronto, está a história contada.
Esta é a única música, até agora, em que tento realmente cantar. Pela falta de vergonha - e de talento - peço desde já mil desculpas à gentil audiência. É que, decididamente, não nasci para isto. E, como muito bem diz uma querida amiga minha, preciso urgentemente de um vocalista.
Uma última nota: não gosto de efemérides (nem da palavra) e deixei passar em branco a que assinalava o regicídio, um dos mais tristes, canalhas e cobardes episódios da história de Portugal. Sendo, apesar de tudo, um republicano mais ou menos convicto, fiquei com remorsos de não ter editado fosse o que fosse sobre o assunto aqui no blog. Por isso, aproveitei o tema desta canção para colocar no clip algumas gravuras do atentado terrorista que vitimou um dos mais decentes monarcas da nação (e não foram muitos) mas não me sinto lá muito redimido por isso, pelo que, um destes dias - talvez amanhã, talvez em Outubro de 2014 - voltarei à carga.



Terreiro do Paço - One :kubrik

Levo a vida passo a passo:
gasto as solas ao compasso
da cidade que pulsa e arde.
Da cidade que pulsa e arde.
O Paço que passeio é um terraço,
o chão que piso é de ferro e aço
e vibra e brilha ao sol da tarde.
E vibra e brilha ao sol da tarde.

Terreiro do Paço. Terreiro do Paço.
Terreiro do Paço, já não sei o que faço.

Paro e tiro um cigarro do maço:
transitam transeuntes em cansaço
com a pressa que levam na boa.
Com a pressa que levam na boa.
Vão d’ombros caídos pelo Paço,
o destino é um cheirinho de bagaço
e de sonhos traídos à toa.
E de sonhos traídos à toa.

Terreiro do Paço. Terreiro do Paço.
Terreiro do Paço, já não sei o que faço.

Este é o movimento escasso,
é a praça que devagar devasso,
são as ruas do tempo que voa.
São as ruas do tempo que voa.
O futuro é um buraco no espaço,
esta é a distância que eu abraço
e roubo aos deuses de Lisboa.
E roubo aos deuses de Lisboa.

O Paço que passeio é um terraço,
o chão que piso é de ferro e aço:
Terreiro do Paço, Terreiro do Paço,
Terreiro do Paço, já não sei o que faço.

Já não sei o que faço.

terça-feira, fevereiro 26, 2008


Acabei hoje a leitura de sabor indescritível de "A Essência do Comércio e Outros Textos de Teoria Económica", um livrinho lamentavelmente pequeno da Editorial Nova Ática, que reúne alguns artigos de macro e micro economia que Fernando Pessoa escreveu para a Revista do Comércio e Contabilidade, no ano de 1926. Não preciso de estar para aqui com floreados sobre o génio monstruoso que o homem era e sobre a abrangência inacreditável da sua prosápia, mas a clarividência, a actualidade e a coragem liberal destes textos deixou-me de pantanas, como sempre me deixam de pantanas as palavras do Fernandinho. Este será o primeiro post de 4, em que vos ofereço uns pequenos excertos desta grande maravilha (desculpem lá ò rapaziada da Ática). Começo por roubar um bocadinho do primeiro texto - "A Essência do Comércio" - que deixa uma excelente lição aos marketeers e publicitários de todo o mundo: conheçam o vosso mercado.

"Um comerciante, qualquer que seja, não é mais que um servidor do público, ou de um público; e recebe uma paga, a que chama o seu “lucro”, pela prestação desse serviço. Ora toda a gente que serve deve, parece-nos, buscar agradar a quem serve. Para isso é preciso estudar a quem se serve - mas estudá-lo sem preconceitos nem antecipações; partindo, não do princípio de que os outros pensam como nós, ou devem pensar como nós - porque em geral não pensam como nós -, mas do princípio de que, se queremos servir aos outros (para lucrar com isso ou não), nós é que devemos pensar como eles: o que temos que ver é como é que eles efectivamente pensam, e não como é que nos seria agradável ou conveniente que eles pensassem.
Nada revela mais uma incapacidade fundamental para o exercício do comércio que o hábito de concluir o que os outros querem sem estudar os outros, fechando-nos no gabinete da nossa própria cabeça, e esquecendo que os olhos e os ouvidos - os sentidos, enfim - é que fornecem os elementos que o nosso cérebro há de elaborar, para com essa elaboração formar a nossa experiência.
(...)
A maneira de fabricar, de apresentar, de distribuir e de reclamar um artigo varia conforme a índole geral dos indivíduos que compõem o mercado onde se pretende vendê–lo. Num meio de gente educada as condições são diferentes, para todos estes casos que num meio de analfabetos. Um meio provinciano – educado ou não – tem uma psicologia distinta da de um meio de cidade.
(...)
O modo de encarar a vida, ou, pelo menos, certos aspectos da vida, varia de país para país, de região para região. A humanidade, sem dúvida, é a mesma em toda a parte. Sucede, porém, que em toda a parte é diferente. É a mesma nas coisas essenciais, nos sentimentos fundamentais; mas, as mais das vezes, não são as coisas realmente essenciais que a preocupam como fundamentais. Em todos os tempos, em todas as terras, é o local, o superficial, o ocasional, o que mais tem preocupado a humanidade. Ora, é ao que mais preocupa a humanidade, e constitui portanto as suas necessidades, que o comércio essencialmente se dirige. E é por isso que o comerciante, que deveras o seja, tem para consigo mesmo o dever de estudar psicologicamente, e um a um, os agrupamentos humanos a que destina os seus artigos.
(...)
Em resumo: o comerciante é um servidor público; tem que estudar esse público, e as diferenças de público para público se o artigo que vende ou explora não é limitado a um mercado só. O comerciante não pode ter opiniões como comerciante, nem deve fazer comercialmente qualquer coisa que leve a crer que as tem. Um comerciante português que faça um rótulo encarnado e verde, ou azul e branco, comete um erro comercial: quem segue a política das cores do rótulo não lhe compra o produto por isso, e quem segue a política oposta deixa muitas vezes de o comprar. Por um lado, não ganha, por outro o perde. Mais incisivamente ainda: o comerciante não tem personalidade, tem comércio; a sua personalidade deve estar subordinada como comerciante, ao seu comércio; e o seu comércio está fatalmente subordinado ao seu mercado, isto é, ao público que o fará comércio e não brincadeira de criança com escritório e escrita."

quarta-feira, fevereiro 20, 2008

Joana Trama ou a propriedade da culpa.


A próxima música celebra, ao meu desajeitado jeito, o vigésimo quinto aniversário da edição do álbum mais vendido na história - Thriller, de Michael Jackson.
Aqui há uns tempos decidi-me não a uma tradução de Billie Jean (missão impossível por causa do extremo pop dos versos e da sua métrica alucinada), mas à construção de uma versão em português. Como achei alguma piada ao resultado quis encontrar um registo sonoro de balada arrastada e trágica, que acompanhasse os versos num código inverso à orgia dançante do tema original. A minha pobre vocalização prosada, o protagonismo do piano e a percussão de registo orquestral acabaram por cumprir com a antítese desejada. É que sendo o personagem Jackson da ordem dos grandes nojentos, a sua arte sempre escapa (acontece isto com vários génios) e só a linha de baixo de Billie Jean merece uma vida de vénias: era óbvio que não valeria a pena tentar fazer qualquer coisa de parecido.
Apresento-vos, portanto, Joana Trama, grande grávida do mais temido dos equívocos.



Joana Trama - One :kubrik

Ela era do tipo miss malveira, bela fiteira
Eu disse tudo bem mas nem penses que eu sou o tal
que vai dançar e rodar pelo chão
Ela disse que eu sou o tal que vai dançar e rodar pelo chão

Disse que se chamava Joana Trama e fez um drama
p'ra todos verem que podem sonhar ser o tal
que vai dançar e rodar pelo chão

Sempre me disseram p’ra ter cuidado com o que faço
não andar por aí a destruir corações às miúdas
A minha mãe sempre me disse p’ra ter cuidado com quem amo
p’ra ter cuidado com o que faço, porque mentir é um embaraço

A joana não é minha amante
ela é que pensa que o culpado sou eu
mas o puto não é meu.
Ela diz que o pai sou eu, mas o filho não é meu

Dias e dias e a noite é bela com a lei do lado dela
Já não se atura a criatura cheia de cenas e planos
só porque dançámos e rodámos pelo chão
Por isso ouve meu irmão, pensa duas vezes nesta canção
(Pensa duas vezes)

Contou à outra que dançámos até às três, olhou de revés
e mostrou a foto: a outra passou-se porque o puto tem os meus olhos
Vais dançar e rodar pelo chão

Sempre me disseram p’ra ter cuidado com o que faço
não andar por aí a destruir corações às miúdas
Mas ela apareceu a meu lado toda doce e perfumada
isto aconteceu de madrugada e ela deu-me uma morada

A joana não é minha amante
ela é que pensa que eu sou um tal de romeu
mas o puto não é meu

A joana não é minha amante
ela é que pensa que o culpado sou eu
mas o puto não é meu

Ela diz que o pai sou eu, mas o filho não é meu

A joana não é minha amante
A joana não é minha amante
A joana não é minha amante
A joana não é minha amante

quarta-feira, fevereiro 13, 2008

Sobre a Entropia.


Esta musiquinha fala de uma raça mais arrepiante que os extraterrestres da outra: os deuses da desgraça. Não sei se vos acontece, mas, às vezes, parece-me que a minha vida é por demais acidentada. E alguém deve ser responsável por isso.



"Homem Acidente" - One :Kubrik

Só há uma árvore no caminho. Mas é sempre ali que saio da estrada.
Crash. É o desastre de repente.
Se as coisas estão a correr mal, o normal é correram pior daqui a nada.
Nem a lei de Murphy é assim contundente.
Sou o homem acidente,
sou o homem acidente.

As sete pragas do nilo cairam sobre esta minha vida desgraçada
esta minha existência decadente:
as horas que morrem seguem e correm em entropia danada,
da desordem total para a disfunção permanente.
Sou o homem acidente,
sou o homem acidente.

E sempre que a borboleta do Japão levanta a sua vaidade alada
num esvoaçar alheado e inocente,
o caos que se cria acerta em cheio no dia desta agenda azarada
Sou eu que me afogo por nadar contra a corrente.
Sou o homem acidente,
sou o homem acidente.

E sempre que lá no alto do Olimpo há um deus senhor da madrugada
que se aborrece ou cai doente,
quem sai prejudicado é este vosso criado aqui estendido na estrada;
crash, sou o homem acidente,
sou o homem acidente.

Só há uma árvore no caminho. Mas é sempre ali que saio da estrada.
Crash, sou o homem acidente,
sou o homem acidente.

As sete pragas do nilo cairam sobre esta minha vida desgraçada
esta minha existência decadente:
Sou o homem acidente,
sou o homem acidente.

Portugal urbano, segundo o engenheiro José Sócrates.

Em baixo seguem apenas alguns dos projectos cuja autoria envaidece o Senhor Primeiro Ministro desta República Portuguesa. Traduzem bem o ponto zero a que chegámos: triunfam na política e nos negócios, na cultura e nas universidades, estes rasquinhas rasteiros, sem inteligência e sem sensibilidade, sem coragem ou virtude; ocupam os lugares que deviam ser de gente decente com os seus gordos rabos de gente média e média baixa. É pavoroso.







Um pedido de desculpas à República da Indonésia.

Perante a selvajaria e a estupidez crónica dos timorenses, acho que os portugueses devem um pedido de desculpas à Indonésia. Afinal, Suharto sempre tinha razão e há povos que não se sabem comportar sem o aviso do chicote. A solução para o problema destes macaquinhos é retirar-lhes a soberania sobre o petróleo e deixá-los em paz na idade da pedra. Cada vez que esta república das bananas é notícia é pelos piores motivos e é uma vergonha enorme. Se era para isto que queriam a independência, não valia a pena o incómodo.

A propósito de desculpas e da natureza humana, o mea culpa do governo australiano pelos supostos crimes do homem branco contra os aborígenes é completamente imbecil. Estes aborígenes, que vivem hoje mais limpinhos e saudáveis e gordinhos do que alguma vez na história da sua raça, são homens e como outros quaisquer seriam capazes das maiores infâmias - se surgisse a oportunidade. O que nos ensina o passado da espécie humana (e o presente também) é que aqueles que agora são vítimas, serão depois os carrascos. Os que estão hoje inocentes, culpados serão de qualquer crime arrepiante, um dia destes. Os cordeiros passam a lobos num instante e vice versa e não vale mesmo a pena estar para aqui com cuidados humanistas. O Homem é um animal bárbaro, um produto infectado de várias raivas que não presta para nada e ponto final.

sábado, fevereiro 09, 2008

Eis, finalmente, o meu lado :K


Depois de muitos esforços e cambalhotas lá consegui arranjar maneira tecnológica de partilhar com a ilustre e escassa audiência umas cançõezinhas de minha lavra. O projecto fanaticamente individual chama-se :Kubrik e, até indicação em contrário, os próximos posts dedicados a este assunto apresentam temas cuja letra, música, voz (falada) e video são da minha autoria (direitos de imagem à parte), com a ajuda do GarageBand e do IMovie HD. Os poemas já foram editados algures no tempo, aqui no blog, mas como sofreram alterações voltam a entrar ao barulho, literalmente.
Boa sorte, querido ouvinte.



"Eles andam aí" - One:Kubrik

Vêm lá dos confins do espaço
em busca dos desertos americanos.
Aconchegados em discos de aço
vão chegando os marcianos.

Olhos espirais, antenas telepatas
e espertas orelhas pontiagudas:
são assim p'ró feinho os piratas
do Triângulo das Bermudas.

Uns vêm e deixam saudades,
outros por fome de carne humana.
Contra todas as probabilidades
visitam-nos uma vez por semana.

Eles andam aí.
Alienígenas indígenas
de planetários corsários,
Eles andam aí.

Não há como negar o facto:
eles andam aí e são apanhados
a construir aeroportos no mato
e a ceifar o trigo dos prados.

Arriscam-se à bestial pestilência
dos encontros de grau terceiro.
Amiúde, deixam descendência,
são fornicadores em passeio.

Habitam há que tempos a História,
deixaram-nos príncipes e faraós,
(as pirâmides são prova e memória
de que nunca estivemos sós).

Eles andam aí.
Marcianos bacanos,
Extraterráqueos batráquios,
Eles andam aí.

Escreveram tábuas e pautas
para mitos, cultos e religiões:
são os deuses astronautas
que aterram aos trambolhões.

Podem até ser sapiens em férias,
do século D.C. quarenta e tal.
Tiram fotografias, trocam pilhérias,
vêem em safari temporal.

Na verdade nem me interessa
de onde vêem e para onde vão.
Gosto é de os ver assim com pressa
em imagens de baixa resolução.

Eles andam aí.
Répteis com projecteis
Psicopatas de três patas,
Eles andam aí.

Eles andam aí.
Alienígenas indígenas
de planetários corsários,
Eles andam aí.

Eles andam aí.

segunda-feira, fevereiro 04, 2008

sexta-feira, fevereiro 01, 2008

Objecção

Morrem cedo quem os deuses amam? Treta.
Que o diga o velho cegueta
de Buenos Aires, bibliotecário do universo:
os deuses amavam-no e vice-verso.

É até lamentável que Rimbaud só tenha bebido
uma cerveja no inferno.
Com mais tempo para ser sofrido
reinventava o poema moderno.

O paneleirão do Proust foi-se aos cinquenta
mas deve ter ido contrariado.
Para chegar à página 35.480
até a mãe tinha traficado.

Ser-se jovem não é o mesmo que ser-se capaz.
Homero nunca foi rapaz
e é por isso que a literatura é feliz.
Já Joyce, se chegou a avô, foi porque quis!

Por isso, tu desculpa, Fernando, a contradição
e Mário - descansa em paz pela eternidade,
mas não estou em crer nessa religião
dos deuses da puberdade.

O teu querido Camões não se pode queixar.
Para quem andou com putas, piratas e reis
não foi nada mau sobrar
até aos cinquenta e seis.

Nem te serve de exemplo o Almada, cujo tesão
lhe durou mais que a memória.
Viveu o suficiente para aparecer na televisão
e isso é que é ficar para a história!

Tu próprio não sobreviveste por ai além
mas isso não é argumento, pensando bem
só talvez o Ricardo Reis tenha morrido de velhice
(a rábula do Saramago é uma aldrabice).

Acaso achas que te amaram os deuses especialmente
por causa dessa cirrose terminal?
"Encara a realidade de frente":
não foi a beber que chegaste a imortal.

E que outros monstros lindos sairiam da tua penada
se fosse mais fraco o absinto da Arcada?
Não te tinham feito mal nenhum ou prejudicado
mais uns anos de devaneio pelo Chiado.

Mais a mais o que é a morte
senão um momento de sorte?
Ninguém tem mérito nisso.

E a obra adolescente é como um dente postiço.

quinta-feira, janeiro 31, 2008

"If man is five...



...Then the Devil is six
And if the Devil is six
Then God is seven
This monkey's gone to heaven"

Pixies, ao vivo, no David Lettermann Late Show da CBS. 2007 d.C.
Muita lindo.

Darwin segundo Dilbert.

"Primeiro, existiam algumas amibas. As amibas mutantes adaptaram-se melhor ao ambiente, pelo que se transformaram em macacos. Depois, surgiu a gestão da qualidade total."
Scott Adams - O Princípio de Dilbert

terça-feira, janeiro 15, 2008

Sobre a lei do tabaco.

Nunca, depois de 33 anos de terceira república e 40 de existência, uma lei fodeu assim a minha maneira de estar vivo. Nunca. Incluo aqui toda a legislação que sustenta o fascismo tributário a que sou sujeito e a escumalha demente que tem, durante a duração deste durar, governado o meu país. Nunca, como agora, me senti assim desprezado, vilipendiado, posto à parte, submetido, amordaçado, combatido, marginalizado, compelido e traído.
Para além de todo o ridículo de uma lei mal nascida, mal pensada, mal escrita e mal feita, está o seu espírito: humilhar, isolar, submeter o cidadão fumador a um jugo infame que, em última análise, o obrigue a deixar de fumar.
E toda esta política de Francis Dracon, e toda esta ciência de Nicolau Maquiavel apenas para diminuir as despesas do serviço público de saúde em pobres e curtos pontos percentuais, dois ou três se quisermos sonhar quimeras. Ah, desgraçado serviço público de saúde cujo orçamento, em grandessíssima parte, serve para pagar às pessoas que lá trabalham. Cujo orçamento, em significativa fatia, já deve ser pago pelos impostos que os fumadores pagam para fumarem! Ah, infeliz a condição do contribuinte castrado!

Onde é que eu vou poder estar a jantar com os meus amigos? Ou perguntado de outra maneira: vivo em democracia quando sou impedido da sociabilidade, sou um homem livre quando me impõem a chantagem do chicote?

Estou finalmente a pensar em abrir um clube de combate. Por enquanto, fica só o hino pró-tabagista do momento, com o poema mais certo de todos os assertivos poemas que foram, ou virão a ser escritos sobre este assunto (é garantido).



"Say goodbye to everyone
You have ever known
You are not gonna see them ever again

I can't shake this feeling I've got
My dirty hands, have I been in the wars?
The saddest thing that I'd ever seen
Were smokers outside the hospital doors"

domingo, janeiro 13, 2008

Turismo Infinito

"Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir."

"É-se feliz na Austrália, desde que lá se não vá."
Álvaro de Campos

De certa forma, podemos dizer que a obra de Fernando Pessoa é uma viagem. Uma viagem por dentro dele e para fora do mundo concreto. Uma viagem multi-dimensional e para-geográfica sem serviço de fronteiras nem medos de jet lag. Uma viagem que não tem partida, nem regresso, nem destino, nem roteiro, porque a poesia não precisa de acumular milhas. Uma viagem ao derradeiro abismo que é o do mistério da existência.
Até 26 de Janeiro, a Sala Garrett do Teatro Nacional D. Maria II encerra e sintetiza o safari metafísico de Álvaro de Campos, Bernardo Soares, Fernando Pessoa - o ortónimo - e Alberto Caeiro numa encenação eficaz de Ricardo Pais, sobre o excelente dispositivo cénico de Manuel Aires Mateus. Podemos discutir a selecção dos textos, podemos objectar isto e aquilo sobre o Álvaro de Campos de João Reis, mas quando as palavras de Pessoa começam a ecoar no palco, quando as magníficas, grandiloquentes, alquímicas, penta-essenciais palavras do mais genial poeta do século XX (é dizer pouco) começam a tomar conta da sala, tudo se resume a um máximo denominador comum: a infinita odisseia da literatura.
Façam o favor de ir, portanto, ao teatro.

quarta-feira, janeiro 09, 2008

Ciência económica de ginásio.

José Sócrates, muito provavelmente na companhia do seu mais querido ministro - a besta das finanças - esteve a pensar, a pensar e a pensar e decidiu que, de todos os sectores da economia nacional, o que deve ser aliviado do jugo tributário é o sector dos ginásios, baixando significativamente o IVA a que estavam até agora sujeitos. Com esta genial iniciativa, que acresce harmoniosamente aos recentes fascismos decorrentes da sua visão asséptica da vida, pretende o Primeiro Ministro que os portugueses façam mais desporto, deixem de fumar, comam cozido à portuguesa devidamente plastificado e bebam não mais que um copo de vinho à refeição (condescendendo aqui um pouco com os portugueses que não conduzem, sendo que estes poderão beber, talvez, dois copos).
Qualquer dia, José Sócrates vai legislar sobre quantas vezes por mês é que os portugueses devem foder, quantas gargalhadas lhes serão permitidas por dia, qual a melhor estratégia que devem seguir para, quando limpam o rabo, não gastarem muito papel, que livros é que devem ler, que discos é que devem ouvir, qual a quantidade mínima de haxixe por ano que podem fumar, em que banco é que devem colocar o seu dinheiro (no BCP, obviamente, agora que foi nacionalizado), quantos quilómetros é que podem fazer com os automóveis que compraram a preços exorbitantes para pagar a disfunção do Estado, a que horas é que podem ligar o aquecimento, em que bolso do casaco é que devem guardar a carteira, como é que devem andar vestidos, com que mão é que podem masturbar-se, etc., etc., etc.
Ora, parece-me a mim, não querendo de forma alguma fazer a apologia de Salazar, personagem que me é absolutamente antipático, que nem este tiranete se atreveria a tanto. E comparativamente, no que concerne à política financeira (sacar cada vez mais, dar cada vez menos), o velho de Santa Comba Dão, convenhamos, era um aprendiz de feiticeiro.

Uma última nota sobre o post anterior, respeitante ao infeliz discurso de ano novo de Cavaco Silva: a Brisa, empresa de capitais públicos que custa milhões de euros por ano em indemnizações e subvenções pagas pelo estado, tem, para 1800 empregados, uma frota de 800 automóveis. E uma média de custos com combustível de 10.000 euros por ano, por funcionário. Mas é com os ordenados das empresas privadas que o PR se preocupa. Ora, com o devido respeito, vá V. Exa. bardamerda.

quinta-feira, janeiro 03, 2008

Ciência económica de sacristia.

"Devo à providência a graça de ser pobre."

António de Oliveira Salazar

Por curiosidade mórbida - ou falta de inspiração - fui à procura do que tinha escrito aqui nos anteriores janeiros. Acontece que, no de 2005, tive o desplante de prosar umas opiniões muito simpáticas sobre o Dr. Aníbal Cavaco Silva, por ocasião da oposição divertida que fazia a certas pretensões inconscientes do Dr. Santana Lopes, na circunstância e desgraçadamente primeiro ministro da minha pátria. Agora que temos um outro desgraçado primeiro ministro e o Dr. Aníbal como Chefe de Estado, estou deveras envergonhado do que escrevi. Em Portugal, estamos sempre pior a cada dia que passa. É mais ou menos como o S. L. e Benfica: nunca mais conseguimos chegar ao ponto zero.
Vem esta conversa sobretudo a propósito do discurso de ano novo com que o Sr. Presidente da República decidiu presentear a infeliz plateia. Tive o privilégio de não assistir à missa, mas já percebi que algures por entre a liturgia sugeriu o Dr. Cavaco Silva que os ordenados dos administradores e altos executivos das grandes empresas privadas lhe incomodam o débil sistema moral. Se calhar, o Dr. Cavaco Silva estava a falar na qualidade de accionista destas empresas, mas se foi esse o caso não creio que a utilização do seu outro emprego para canalizar estas preocupações de algibeira seja correcta. Quando muito, que mandasse como agente plenipotenciário o chefe de gabinete da Presidência da República às assembleias gerais do psi 20. Já não dava tanto nas vistas. O problema é que o dr. Aníbal não falou como accionista, mas como Presidente da República e, assim, o dislate é realmente grave. O Chefe de Estado de um dos estados mais imorais do mundo civilizado não tem legitimidade absolutamente nenhuma para comentar o que se ganha ou deixa de ganhar nas empresas privadas, grandes ou pequenas, generosas ou avaras. O Chefe de Estado deve antes estar grato pela missão patriótica que é administrar uma empresa em Portugal e reconhecido pela contribuição draconiana a que são sujeitas estas empresas que lhe pagam a luxúria do cargo e a babilónia toda de que é máximo representante. O Dr. Aníbal Cavaco Silva devia ter vergonha na cara e protestar ao invés com os ordenados astronómicos do infeliz governador do Banco de Portugal, dos administradores da Caixa Geral de Depósitos e restantes máfias de outras empresas públicas que vivem à custa de roubar os portugueses que trabalham... em empresas privadas. O Dr. Aníbal Cavaco Silva deveria fazer o favor de se meter na sua vidinha anódina de enfatuadinho de Boliqueime e ficar calado que é assim que serve os interesses da nação e da decência.
Eu, que não sou patrão nem accionista nem administrador de coisa alguma, para além da minha alegre barriguinha, eu, que não ganho ordenado nem terei algum dia direito a subsídios, eu que não custo nada a ninguém e que hei-de morrer falido mas nem por isso vergado à indigência, estou muito à vontade para dizer isto: o meu país não gosta de ricos. Não gosta de empresários bem sucedidos e desconfia dos investidores. O meu país roi-se de inveja quando vê dinheiro em alguém, ignorando ou escondendo a verdade que é só uma: são os detentores do capital aqueles que mais capacidade têm para gerar riqueza e prosperidade para todos.
Portugal é uma nação de invejosos, e mesmo os que chegam a ricos da pior maneira possível (através do tributo medieval sobre um povo de tesos), continuam a invejar os ricos, inclusivamente aqueles que enriqueceram de formas muito mais civilizadas, como por exemplo, investindo os seus ganhos e trabalhando a sério e criando riqueza e originando empregos. Cavaco Silva, como a maior parte dos seus súbditos, acredita que é mais fácil a um elefante passar por entre o buraco da agulha que a um rico aceder ao reino dos céus. Assim, há-de esta eminência contribuir, mesmo que ao seu pequeno jeito, para um país cadáver. E eu desejo-lhe, para 2008, que caia do banco a baixo, como o outro conhecido sacristão que, ao contrário do que muitos teimam em pensar, também não gostava nada que se ganhasse muito dinheiro em Portugal.

sábado, dezembro 29, 2007

quinta-feira, dezembro 20, 2007