quarta-feira, maio 29, 2019

Auto-stops ao contrário.

Se o fisco pode recrutar a GNR para fazer auto-stops de cobrança coerciva das dívidas ao Estado, os cidadãos também deviam poder, por maioria de razão e na justa medida, recrutar a mesmíssima força militar para cobrar coercivamente as dívidas do Estado.

Sim, a GNR também devia montar estaminés nas auto-estradas deste país, de radar alerta para a passagem dos topo de gama em que se deslocam veloz e confortavelmente os altos quadros das entidades públicas desta República, de forma a que:

a) Recebam imediatamente o produto das suas facturas as empresas e os empresários em nome individual que costumam receber do Estado dentro de prazos que desobedecem flagrantemente ao que é estipulado pela lei;

b) Sejam prontamente ressarcidos os contribuintes que andam há anos e anos a pagar a corrupção, a incompetência, a incontinência ética e a desonestidade escandalosa do sector bancário (público e privado); que andam há anos e anos a pagar a torpe avidez de ministros, consultores, advogados e outros muitos abutres do Estado; que andam há anos e anos a pagar as comissões nacionais para isto e para aquilo e que só servem para empregar militantes dos partidos do arco do regime; que andam há anos e anos a serem triturados pela burocracia dos serviços públicos, mal tratados pelo serviço nacional de saúde, injustiçados pelo aparelho judicial e espoliados pela máquina fiscal, a única inventada em toda a história de Portugal que de facto funciona tão bem ou melhor que um motor Mercedes.

c) Aufiram em tempo real de compensações fiduciárias os eleitores que, nas últimas 4 décadas, foram aliciados com vãs promessas de prosperidade e de competência e de responsabilidade e de sentido de estado e de amor à pátria e que, ao invés, foram apenas sujeitos à falácia, ao engano, à aldrabice, à ganância, à traição e à conjura da oligarquia que de facto reina sobre este miserável, lamentável, inexplicável país;

d) Encaixem já verbas indemnizatórias aqueles que foram penhorados sem apelo; aqueles que foram paralisados na possibilidade da iniciativa económica; aqueles que foram e são insanamente taxados, multados, controlados, manipulados; aqueles a quem o Estado português, essa grande e disfuncional indústria do clientelismo mais grosseiro, esse monstro retrógado e simplex de complicações, prejudicou em absoluto, material ou imaterialmente.

No dia em que o Estado for uma pessoa moral, pode fazer os auto-stops que quiser. Até lá, quem deve fazer parar esta merda toda somos nós, os portugueses que tentam viver com decência e com um mínimo de sentido ético, apesar da constante, intrusiva, cigana e maquiavélica presença do Estado em cada mínimo detalhe das nossas vidas.

terça-feira, maio 28, 2019

A ilha do dia da minha morte.

Há qualquer coisa de terminal no rock dos Island, que me arrepia um bocadinho. Estou nas primeiras audições destes jovens rapazes e ainda não tenho uma opinião completamente formada. Mas já sei o suficiente para dizer que bombam um rock clandestino, mas tradicionalista, que é sofrido e é histriónico, que é puro. Como uma ilha num mar defunto.



Island . The Day I Die

Much ado about nothing.

Políticos e jornalistas e comentadores de toda a selvagem espécie fizeram uma festa de arromba, a propósito das eleições para o Parlamento Europeu. Que esta inútil e impotente assembleia constitua apenas a prova provada que a União Europeia não é uma democracia, não lhes reduziu o ânimo lúdico. Que na verdade ninguém os estivesse a ouvir, também não lhes pareceu uma variável pertinente. São turbas festivaleiras, em negação. E fizeram o festival na mesma, como se nada fosse. Na altura de disparar o fogo de artifício, não pesou o pesado facto de que apenas 31,3% dos eleitores registados terem perdido um tempinho para ir votar no mais inútil dos organismos eleitos desde que Cícero entregou o Senado a Júlio César.

Uma república que vive com este nível de abstencionismo, é uma anedota, claro; uma trágica comédia de enganos. Se retirarmos os militantes dos partidos que foram a votos (só o PS registava até há bem pouco tempo 120.000), bem como os civis que vivem à conta dos partidos ou do regime, o que é a mesma coisa, chegamos rapidamente à conclusão que muito poucos cidadãos nacionais estavam interessados nesta eleição. E se subtrairmos ainda os que votaram em partidos anti-europeístas, concluímos com algum acerto matemático que os portugueses que acreditam seriamente na União Europeia, tão seriamente que perderam 15 minutos para ir votar, devem ser não mais que um milhão, num universo de 8,5 milhões de eleitores.

A ausência de uma ideia original que fosse também deve ter contribuído para desertificar as assembleias de voto. Dou um exemplo: o bom do Nuno Melo achou que o melhor slogan que podia colocar, para sublinhar a sua carinha laroca nos outdoors 8x3 que poluem loucamente o horizonte urbano nestas épocas eleitorais, foi "A Europa é Aqui". A sério? É mesmo aqui? Uau, é espectacular essa localização da Europa. E então? E não há um jornalista que pergunte ao bom do Nuno: ok, ok, a Europa é aqui, sim senhor. Mas de que Europa é que estás a falar? Da Europa de Angela Merkel ou da Europa de Helmut Kohl? Da Europa de fronteiras abertas ou fechadas ou mais ou menos? Da Europa fascista, censora, alienada, dividida? Da Europa das elites burocráticas que normalizam comportamentos, policiam o pensamento, alteram e adulteram as culturas nacionais? Da Europa que traz desenvolvimento infra-estrutural ou da Europa que legisla sem mandato? Da Europa que tem impedido a guerra ou da Europa que transformou Paris numa barricada?

O problema é que estas não são matérias apelativas para as luminárias do circo mediático e as oligarquias estadistas. O que pretendem descaradamente é despir tudo de significado e ficarmos só com a farra pela farra. O que interessa é fazer render a feira, manter o rei nú, mesmo que toda a gente já tenha percebido há muito tempo que sua majestade traz as partes à mostra. The show must go on.

O que não faria Shakespeare com este espectáculo decadente.

sexta-feira, maio 24, 2019

É por estas e por outras que a guitarra eléctrica

é uma das mais geniais invenções da história da humanidade.

Watch as Game Of Thrones creator Dan Weiss, Tom Morello of Audioslave/Rage Against The Machine, Scott Ian of Anthrax, Nuno Bettencourt of Extreme, Brad Paisley, and Game Of Thrones composer Ramin Djawadi shred on the all-new Sigil Collection Guitars from The Fender Custom Shop. 



The Game Of Thrones Theme Song | Custom Shop | Fender

quinta-feira, maio 23, 2019

Só para que fique claro:

Qualquer presidente de qualquer República deve estar preparado para fazer públicas as suas contribuições tributárias: Trump como Obama. Obama como Merkel. Merkel como Macron. Macron como Maduro e Maduro como Lula e Lula como Miguel Díaz-Canel e Miguel Díaz-Canel como Putin e Putin como Xi Jinping e Xi Jinping como Kim Jong-un e assim sucessivamente. Todos eles não podem nem devem ter grande coisa a esconder. E se têm algo a esconder, a opção pela política foi um erro técnico - que o tempo real não perdoa; e moral - que a história vai condenar. Desde a remota e gloriosa época de Sólon que a integridade contributiva é objectivamente essencial para um condutor de causas públicas. Se não tens essa virtude, não te é dado esse poder.
Faz sentido. Mas só se o bom princípio for aplicado, de igual forma, a toda a gente. Caso contrário, é o desastre. O decaimento para um novo fascismo.

quarta-feira, maio 22, 2019

Sobre a responsabilidade da síntese.

A canção é curta, mas é santa.
E a culpa é da Samantha:



James Veitch . I'll text you

Morreu um vencedor.

Niki Lauda morreu ontem. Perdemos o homem, o cavalheiro, o competidor, o perfeccionista intransigente, um dos melhores pilotos de corrida já inventados por deus e seguramente o mais corajoso de todos. Ficamos agora na posse do seu legado. É isso que ganhamos. É isso que devemos honrar.



Aufwiedersehen, Niki. Vielen dank.

Elogio da bateria.

Não sou um fã de automóveis eléctricos, nem pouco mais ou menos, mas este comercial da Audi consegue ser poderoso, mesmo para a minha sensibilidade de petrolhead.

À atenção do Sr. Papa.


Caro Senhor Papa Francisco: acredito completamente que sua sumidade não tenha sobre este secundário assunto a necessária informação, mas acontece neste preciso e contemporâneo momento que centenas de milhar de cristãos estão a ser afincadamente perseguidos, estão a ser injustamente aprisionados e estão a ser miseravelmente chacinados, por todo o lado do mundo. O meu caro senhor vive preocupado com outras serenas preocupações, como todo o penitente com uma conta de facebook sabe muito bem. Mas será talvez uma boa ideia, no sentido da sustentabilidade do pontífice disfarce, fingir que a perseguição e o aprisionamento e a chacina de cristãos, pelo simples facto de serem cristãos, constitui uma, mesmo que marginal, arrelia do Sr. Papa. E desejar fervorosamente que o Sr. Papa, em franciscana medida, diga publicamente duas ou três misericordiosas palavras em favor destes povos molestados, que são do seu rebanho e de sua última responsabilidade, não é pedir muito.

Pois não?

Sobre a complicação da palavra "parabéns" e da gratidão que provoca.

Sou um gajo completamente aéreo e até algo diletante, de tal forma que me esqueço frequentemente dos aniversários das pessoas que amo. Por isso, e por uma multitude de outras razões, fico invariavelmente constrangido quando recebo parabéns. Sejam os parabéns porque faço anos ou os parabéns porque ganhei uma campanha ou os parabéns porque fui, por uma vez, uma pessoa como deve ser ou os parabéns porque tive muita sorte com a mãe que me pariu e educou ou em ser escolhido pela mulher com que sou casado ou pela sobrinha que fica arrepiada com as minhas opiniões políticas, mas que sabe bem que tem um tio à séria até que ele morra, ou pelos amigos que têm paciência para me aturar (fui abençoado com alguns muitos). Pode parecer falsa modéstia - ou simetricamente uma presunção - mas dentro de mim há sempre um aviso de letras vermelhas que diz: "não tens que receber parabéns. Ainda não te mostraste digno de seres celebrado". E aos 52 anos, o aviso continua, teimoso e certo, a bombar loucamente nos meus tímpanos de razão pura.
Ainda assim, tenho que agradecer a todos os que se lembraram do dia remoto em que nasci (mesmo que tenha sido o Facebook a lembrar-se, porque tiveram a gentil diligência do recado - coisa que amiúde me falha).
Tenho que agradecer também ao José Luis Tamissa pelo carinho com que sempre me recebe, onde quer que esteja a trabalhar e, claro, ao grande senhor Américo Vinagre e a toda a gente no Derby Restaurante Bar: aceitem todos um abraço apertado, afectuoso e humilde de um amigo que, sendo aparentemente alienado, pretende cumprir a vida com lealdade e gratidão.
Hoje fui objecto de uma quantidade enorme de carinhos que nem sei, na verdade, se mereço. Muito e muito obrigado, malta.

terça-feira, maio 21, 2019

A ciência reduzida a cinzas.

Abaixo do ponto zero da arte, está em negativos o discurso científico contemporâneo. Sabemos realmente muito pouco sobre a natureza e a geografia da matéria, mas temos a certeza de duas coisas (e de mais nenhumas): Deus não existe. E a actividade humana, como objecto libertador de dióxido de carbono, vai conduzir a um muito rápido e sempre adiado extermínio zombie.
O patético Bill Nye faz de prova do que estou a escrever, no tribunal da razão prática:



A qualidade do discurso não é bem de ordem académica, pois não? O senhor até na verdade parece drogado ou stressado ou doente de alguma maneira. Ainda assim, esta delirante e meio ordinária figurinha apresenta-se mediaticamente como "The Science Guy".

Se isto é ciência, a ciência morreu.

quinta-feira, maio 16, 2019

Serviço de despertar.

Os Said The Whale, uma banda companheira deste blog, voltam a atacar com "Cascadia", que é uma espécie de despertador dos sentidos. Para ouvir enquanto fazemos o café da manhã.



Said The Whale . Wake Up

terça-feira, maio 14, 2019

Como é que o DNA se replica?

Graças ao Walter and Eliza Hall Institute e ao talento de Drew Berry, temos finalmente uma representação decente e rigorosa do mundo molecular. No momento em que marquei o início do vídeo assistimos ao processo de replicação do DNA: as proteínas organizam-se de forma supercomplexa para duplicar estruturas bio-químicas supercomplexas. Portanto, sem proteínas não são criadas mais proteínas e assim, de onde é que vieram as primeiras proteínas? Hum?

 

sexta-feira, maio 10, 2019

O horrível estado da arte no Século XXI.

A Bienal de Veneza, já de si uma espécie de feira de horrores, vai ser presenteada este ano, em nome de Portugal, com a presença equívoca da escultora/instaladora/decoradora de áreas cimentadas Leonor Antunes, a quem o Público dedicou recentemente meia capa da sua versão impressa (e depois queixam-se que não vendem jornais).

O Público fez isto mais porque Leonor Antunes é uma querida da imprensa por ter bombasticamente afirmado que não representaria Portugal em Veneza se o governo da República fosse de direita. A meia capa é política, claro, porque a arte da Leonor Antunes por si só, sem as suas opiniões políticas, não é mais que isto aqui:

Num país sério, não seria Leonor Antunes a estabelecer limites ao seu patriotismo, mas a pátria a negar-lhe qualquer procuração. Não que o trabalho desta autora seja completamente despido de interesse. Conseguimos ler uma componente gráfica interessante e trata-se de um esforço experimental que será talvez pertinente na disciplina da arquitectura de interiores. Mas não vale pela representação de um País numa feira de artes, porque desobedece a imensos critérios que utilizamos para identificar uma obra de arte. Não é belo nem promove a consolação. Não comunica transcendência. Não resistirá à crueldade do tempo. Não faz perguntas nem apresenta respostas. É uma estrutura que está ali e pronto:


As instalações de Leonor Antunes enquadram-se numa perversa e pós-moderna filosofia da arte que a desvaloriza ao ponto do absurdo. Desafio o paciente leitor a retirar de uma destas duas composições um qualquer significado. Um qualquer ensinamento. Um qualquer momento de génio, de espanto, de inspiração. Onde raio está a glória disto?

Jordan Peterson, com a sua eloquência de sempre, expõe lindamente, em apenas 7 saborosos minutos, a falácia do pós-modernismo e a destruição que criou e cria na cultura ocidental.


Lamentavelmente, a arte da segunda década do Século XXI permanece aprisionada à segunda década do século XX, quando o insustentável Marcel Duchamp fez isto e considerou que isto era a sua obra-prima:




Sendo uma das mais célebres provocações da epistemologia da arte, isto não é obra prima nenhuma, claro está. Isto é precisamente o oposto: é propaganda, é iconoclastia, é uma brincadeira de mau gosto, é um escatológico manifesto. Mas não nos leva a lado nenhum, no labirinto da existência, pois não? Esta latrina não faz de mim nem de si, caro leitor, pessoas mais sensíveis ou inteligentes. Não experimentamos os dois, estou certo, qualquer vestígio de êxtase: somos meramente submetidos a um exercício básico e pueril de disrupção. Não é através do recurso a este estranho ideal que se edifica a posteridade. O que é feio não tem nem nunca terá futuro. O que é banal não se imortaliza. E sem significado que lhe dê substância metalínguística, a produção pretensamente artística produz apenas objectos. Coisas inanimadas que perdem rapidamente a sua frívola e efémera função. A latrina de Duchamp, é verdade, resistirá na memória colectiva durante mais uns séculos. Mas menos como objecto artístico do que como anedota contada entre críticos.


Hoje em dia pode ser doloroso passear por um museu de arte contemporânea, no Ocidente. Podemos sempre ser insultados por esses objectos inanimados que estão lá porque lá estão e é assim, como as instalações da Leonor Antunes, ou por coisas estética e eticamente deploráveis como a latrina de Duchamp ou esta impropriedade tirada do conjunto de disparates pavorosos a que o bandido Berardo decidiu chamar Colecção. É mais que visível, para quem não tem graves problemas oftalmológicos ou dependência ideológica extrema, que os outrora nobres ofícios da pintura, da escultura, da literatura, da música, do cinema, do teatro e da arquitectura apresentam um declínio arrepiante, ao ponto de podermos falar hoje em dia na extinção das artes, como as conhecíamos há cem anos atrás.

Diga-me, querida leitora, que obra-prima produzida neste século pode apresentar para contradizer esta minha impressão? Que grande génio escultor conhece, que lhe seja contemporâneo? Que edifícios vê nascer, na sua cidade, que prometam uma ideia utópica, que proponham um valor universal, que sejam capazes de permanecer vivos e belos sobre as gerações? De que pintor não perde uma exposição? Quando foi a última vez que sentiu o poder comunicacional, a força redentora, o brilho único de um artista do seu tempo? Fale-me por gentileza de um compositor nascido nos últimos 50 anos cuja obra será tocada nos salões eruditos do século vinte e sete? E tente eleger um filme que tenha sido realizado nos últimos dez anos para uma lista dos melhores cem filmes de sempre (lembro que Gran Torino, a sublime pièce de résistance de Eastwood, foi produzido em 2008, pelo que não faz parte do leque disponível).

Estas coisas não acontecem por acaso. Acontecem porque nós, os herdeiros da mais brilhante, da mais inspirada, da mais produtiva civilização da história universal dos símios, permite que assim aconteça. Já não há picassos porque ninguém está preocupado com a súbita ausência de picassos. Parece que, para além da religião, também passamos bem sem a arte.

Desenganem-se.

quinta-feira, maio 09, 2019

Infelizmente, a genialidade não é uma constante universal.

Bear's Den. Sou apaixonado por esta banda. Acontece que o último disco deles, "So That you Might Hear Me" é uma merda completa. Parte-se-me o coração em montes de acordes falhados de cada vez que oiço estas dez músicas inconseguidas. Mas não deixo de os amar por causa de uma obra menor. O génio é inconstante e a vida é comprida. E enquanto espero por uma próxima tentativa na senda da grandiosidade perdida, deixo aqui um clip de um tema menos mau - mínima consolação para um fã incondicional.



Bear's Den . Laurel Wreath

O fim de uma era, em Anfield Road.



Ontem, o Liverpool fez história. E nunca como ontem o refrão do famoso tema dos Gerry & the Pacemakers fez tanto sentido. Mais que o talento técnico ou a inspiração táctica, foi a vontade de ganhar, a disponibilidade para lutar, para correr, para recuperar, estruturada no ancestral sentido mítico do clube inglês e da sua massa adepta, que permitiu a remontada incrível.

A triste prestação do Barça, que não chega a uma final da Liga dos Campeões desde a época de 2014/15 e que já na temporada passada sofreu uma humilhante eliminação nos quartos de final (outra remontada: a Roma ganhou em casa 3-0 depois de ser goleada no Nou Camp por 4-1), é reveladora do fim de uma era. Messi está na conclusão da sua carreira e o famoso Tiki-Taka já não apresenta os mesmos resultados de há dez anos atrás.

E ainda bem. Sempre achei o futebol de cento e cinquenta passes por jogada super enfadonho. E não tenho mesmo simpatia nenhuma pelo clube Catalão, como não tenho simpatia nenhuma pela Catalunha e pelos seus insuportáveis habitantes.

O também inesperado resultado da outra meia final vai colocar frente a frente dois clubes ingleses no combate pelo título máximo do futebol de clubes, o que só aconteceu uma outra vez na história da competição (Man United vs Chelsea em 2007/2008). Esta é outra boa notícia, porque nos dias que correm, só mesmo o futebol inglês é que, aqui e ali, contraria a tendência para o aborrecimento e a corrupção generalizada.

Tenho só pena que o Ajax, a excepção à regra definida no anterior parágrafo, não tenha chegado à final. Os rapazes de Amsterdão jogam um futebol realmente enebriante.

quinta-feira, maio 02, 2019

Cuidados a ter com Immanuel Kant.



A editora Wilder não foi capaz de publicar a monumental obra crítica de Kant sem um intróito politicamente correcto que é das coisas mais ridículas que alguma vez li:

"This book is a product of its time and does not reflect the same values as it would if it were written today. Parents might wish to discuss with their children how views on race, gender, sexuality, ethnicity, and interpersonal relations have changed since this book was written before allowing them to read this classic work."

Há aqui tantos disparates que uma pessoa sem mais que fazer podia escrever uma outra Crítica da Razão Pura só a propósito deste curto parágrafo. Vou tentar resumi-los.

O primeiro disparate é que a editora Wilder parece acreditar que toda a gente contemporânea tem as mesmas e obtusas opiniões sobre raça, género, sexualidade, etnia e relações interpessoais, o que é de uma falsidade chocante. Eu, por exemplo, não partilho dos mesmos valores da editora Wilder. Nem pouco mais ou menos. O meu amigo José Abel Aguiar, que me alertou para esta obscenidade, e o redactor da Open Culture que expõe o cuidado ridículo da Wilder, também não. Já somos três. Devemos ser muitos milhões.

O segundo disparate é a ideia que a obra de Kant pode ser perniciosa para os seus estudiosos. A obra de Kant é uma das grandes conquistas intelectuais da história da humanidade. Na disciplina da filosofia só terá paralelo em Platão e em Nietzche. Não faz mal nenhum ler o génio de Königsberg, pelo contrário. E, que se saiba, nunca ninguém cometeu uma atrocidade em nome do seu monumental esforço crítico. Entre generais e terroristas, ditadores e genocidas, assassinos e traficantes de droga, polícias e ladrões, não há quem tenha utilizado o idealismo de Kant como justificação para a barbárie. E também desconfio que o Ku Klux Klan não refere os Prolegómenos a Toda a Metafísica Futura no seu manifesto de intenções.

O terceiro disparate é considerar que o jovem leitor de Kant deve ser sujeito a um aviso prévio dos seus pais sobre os perigos de semelhante literatura. Num ambiente cultural que oscila entre a pornografia e os heróis da Marvel, submeter um filho à prosa do filósofo alemão, sem uma conveniente lavagem cerebral, parece consubstanciar um risco inaceitável. Acresce que é precisamente este tipo de falsa protecção das criaturas infantes que tem produzido nas últimas décadas gerações de snowflakes, figurinhas hiper-sensíveis a tudo e a mais alguma coisa, radicalmente avessas à opinião discordante, completamente impreparadas para os conflitos da vida, as contradições da filosofia e as desgraças do destino.

O quarto disparate é julgar o discurso de Immanuel Kant à luz dos valores contemporâneos, sejam eles quais forem. Este é um síndroma recorrente nos malditos dias que correm e só é explicável pelo triunfo da imbecilidade endémica e da total ausência de sentido histórico que imperam um pouco por todo lado, nas universidades, nas redes sociais e na imprensa. Atrevo-me a considerar que, felizmente para Kant, os valores da sua época eram menos fascizantes do que são agora, caso contrário não tinha conseguido publicar uma linha que fosse.

O quinto disparate está na infeliz ideia de que os jovens devem ser poupados a escolas de pensamento que não reflectem o mainstream contemporâneo. Primeiro porque a escolástica contemporânea é de uma pobreza constrangedora (enumerem-me, por favor, cinco grandes filósofos do período 1945-2019), depois porque a aprendizagem da filosofia, como bem ensinava Sócrates, faz-se muito frequentemente através do exercício dialéctico e da exposição ao contraditório.

O sexto disparate consiste na pretensão de que os valores actuais mudaram substancialmente desde que Kant escreveu a sua monumental Crítica. No confortável edifício da sede da Wilder, na Virgínia, é capaz de ser certo que o quadro sistémico do século XVIII alemão esteja um bocado datado. Mas calculo que mais de um terço da humanidade viva hoje num ambiente cultural, económico e social que não faz justiça aos direitos, liberdades e garantias do iluminismo europeu. Basta registar que na Índia vivem 1.3 biliões de pessoas subjugadas ao niilismo genético das castas.

O sétimo disparate é o acto censório que nem sequer é velado: a leitura de Kant implica um controlo parental que é, claro, de ordem eminentemente autoritária e que conduz inevitavelmente a um maniqueísmo assustador. Se o jovem académico precisa de autorização para ler Kant, precisará seguramente de preencher um formulário pidesco para ler todo o resto da filosofia ocidental. No momento em que Kant se torna perigoso, que classificação atribuir a Stirner, Proudhon, Marx, Nietzsche, Schopenhauer, Heidegger? E se desejarmos condicionar os nossos filhos às ideias sobre género, sexualidade, raça e etnia da editora Wilder, como é que podemos permitir que leiam os filósofos da antiguidade clássica?

A solução limpinha é proibir isso tudo. Incendiar as bibliotecas, porque não? A Amazon, que domina o mercado livreiro na América, já começou a trabalhar nesse sentido. E ainda há pouco tempo escrevi aqui no blog sobre outras intenções totalitárias e arrepiantes deste género.

Hoje em dia, toda a gente que não repete a tabuada moral das políticas de identidade será racista, sexista, fascista e - de uma maneira geral - uma má pessoa. Neste sentido, Kant é um gajo horrível.

Por amor de Deus.

sábado, abril 27, 2019

Poça, gosto disto.



Bryan Tyler é mais conhecido por compor temas épicos para os horríveis filmes da horrível Marvel, mas desta vez decidiu trabalhar para uma marca que me agrada mais: a Fórmula 1. E não está nada mal, não senhor. A inclusão, na secção de percussão, de uma bateria rock faz muita diferença e o tema transmite bem o poder dos motores e a vertigem da velocidade. Boa onda.

Clássicos de culto: o Hispano Suiza de 1915

No vídeo em baixo, o Jay Leno vai ter a gentileza de vos apresentar esta glória do engenho humano muito melhor do que eu poderia fazer, mas convém alertar a audiência para o facto deste automóvel ter o motor de um avião lá dentro. E é por isso que atingia 200 km/h, o que em 1915 era um patamar de ficção científica. É um produto da tecnologia de vanguarda da Primeira Guerra Mundial. Uma máquina maligna e bombástica e espampanante que soa a apocalipse. Uma aeronave para devorar ruidosamente a estrada como se a estrada não existisse amanhã. Em resumo: um sublime elogio da extravagância.




sexta-feira, abril 26, 2019

A silenciosa revolução das audiências.

Enquanto a CNN recolhe, em pleno prime time, não mais que 100.000 aborrecidos espectadores de entre os potenciais 500 milhões de americanos (0,06% do mercado), PewDiePie contabiliza cerca de 3 a 4 milhões de visualizações por vídeo. E Tim Pool, o pundit independente que tem 3 canais de comentário político e reportagem jornalística no Youtube, compete directamente com as audiências da gigante MSNBC.

É preciso fazer notar que o orçamento diário de operação de Tim Pool ou de Felix Kjellberg não deve exceder os cinco mil dólares, enquanto os análogos custos quotidianos das grandes operadoras mainstream superam as dezenas de milhões de dólares. E estou a pegar apenas em dois exemplos de youtubers bem sucedidos, mas podia trazer à conversa centenas de outros jornalistas, comentadores políticos, enterteiners e criadores com vastas audiências nas redes sociais. Não quero estar sempre a carregar na mesma tecla, mas basta ir até ao canal do Jordan Peterson para percebermos que até um filósofo tagarela consegue ter mais audiências que o desgraçado do Anderson Cooper. Só o épico conjunto de palestras de Peterson sobre a bíblia apresenta muitos milhões de visualizações.

No combate pela supremacia dos meios convencionais via cabo, a conservadora Fox News arrasa com a concorrência never trump, somando invariavelmente mais do dobro das audiências da CNN e da MSNBC juntas. Mas números ainda mais impressionantes são os dos jornais online: as publicações conservadoras esmagam completamente os títulos liberais, numa demonstração de que há muita gente de esquerda a consumir conteúdo político à direita, embora na verdade este facto seja claramente contraintuitivo.

O que este quadro não diz é que a esquerda tem os seus públicos divididos por um número maior de publicações liberais, mas ainda assim, é bem visível que a linha editorial conservadora parece resultar para os dois lados do espectro político, enquanto o mesmo não se passa nas redacções progressistas, que teimando na filosofia de guerra aberta e insana à actual presidência, vão desertificando os seus shares.

O próprio Tim Pool explica e documenta isto tudo muito bem, neste vídeo aqui:



Em Portugal, uma consultora descobriu recentemente que a SIC transmitia para zero espectadores, num determinado minuto da programação da tarde. Numa boa noite (em que outros canais não passem futebol ou guerras de tronos), o pomposo Rodrigo Guedes de Carvalho declama pomposamente o texto que ele acha que é de carácter noticioso (não é) para 50.000 pessoas em Portugal, se excluirmos cafés e tascas e centros comerciais e barbearias e cabeleireiros e centros comerciais (0,5% do mercado total). Desses 50.000, especulo que menos de 20.000 audientes estejam na chave demográfica entre os 25 e os 55 anos. Considerando ainda que, ao contrário das plataformas web, a televisão implica baixos índices de foco na mensagem e pode estar ligada horas sem que ninguém esteja a olhar para ela, o Rodrigo Guedes de Carvalho está praticamente a falar sozinho.

Na segunda década deste século, observamos um shift mediático que vai ser lembrado nos livros de história. No formato actual, a televisão está no seu fim. Já ninguém vê. Mas os seus actores de sempre continuam a fingir que são vistos e que são relevantes, num deprimente exercício de negação. Talvez por isso, mas não só por isso, esta revolucionária migração das audiências é muito pouco falada. Há um silêncio oficial sobre o assunto, um manto de vergonha e espanto: uma morte não anunciada.

segunda-feira, abril 22, 2019

Pela Estrada Fora #20

Estou perdido na Peninha, à procura dos velhos troços do Rally de Portugal.
O céu esconde-se entre o emaranhado véu da mata e nem parece que estou a 30 kms de Lisboa, porque acelero a sós por estas estradas sinuosas, românticas, divididas entre a luz solar e o fresco recortado das sombras. Vroom. Vroom.
A mais genial invenção da História Universal foi o automóvel de motor de combustão interna.









quinta-feira, abril 18, 2019

Assim fica mais fácil.

Tenho opiniões divergentes sobre o aborto, em função dos seus limites e contextos e consequências. Mas tudo se torna mais claro para mim, quando Stacey Abrams, a pundit democrata que perdeu recentemente as eleições para a governação do estado da Georgia, diz isto:

"Banning abortions is bad for bussiness."

Se o argumento da moda é que o aborto faz sentido porque contribui para a prosperidade das mulheres ou para a riqueza das nações, devo dizer que nesse caso sou completamente contra o aborto. Qualquer tipo de aborto.

Fonte: Tucker Carlson tonight . Mins. 47-48

segunda-feira, abril 15, 2019

Que banda do caraças.

Quanto mais oiço estes putos, mas viciado fico no som deles. É a estreia do ano de 2019, isso é certo.



Wallows . Are you Bored Yet?

E é assim.


Na Alemanha, enquanto metade dos imigrantes não sabe ler ou escrever alemão, o estado multa os pais nativos que se recusam a deixar que os seus filhos vão de visita de estudo a mesquitas. Em Barcelona, uma escola retirou cerca de 200 livros da biblioteca – um terço do total - porque transmitem valores "tóxicos" às crianças. Entre os livros banidos, encontra-se o Pinóquio, sim o Pinóquio, vá-se lá saber porquê, e a Bela Adormecida, porque nesta história o príncipe beija a heroína enquanto ela dorme, logo, sem consentimento. Nos Estados Unidos, a congressista Ilhan Omar afirmou recentemente que a comunidade muçulmana é vitimizada porque "umas pessoas fizeram uma coisa" (some people did something) a 11 de Setembro de 2001. Confrontada com a indignação geral, Ilhan - coadjuvada por uma grande parte dos congressistas democratas - acusa os críticos de racismo. Entretanto, uns cidadãos de Laguna Beach - Califórnia - dizem-se feridos na sua sensibilidade por verem a bandeira do seu país nas viaturas da Polícia. Em Portugal, os presos organizam festas, orgias de droga, combates de boxe e outros eventos do género, que divulgam alegremente nas redes sociais.

Eis um parágrafo que não precisa de adjectivos. Não precisa de análises. Não precisa de comentários. É este o estado da civilização ocidental, ponto.

quarta-feira, abril 10, 2019

Um buraco na imagem.


Não estou completamente convencido da validade científica desta imagem, mas não deixa de ser um assunto bastante cool. O Event Horizon Telescope conseguiu finalmente cumprir a missão para que foi criado e tirou a primeira foto àquilo que parece ser, que poderá ser, que alegadamente é um buraco negro. A coisa situa-se na galáxia Messier 87, à maluca distância de 55 milhões de anos luz do nosso planeta e será 6,7 biliões de vezes mais massiva que o Sol.
Partindo do princípio, para mim duvidoso, que os buracos negros existem, surge a óbvia dificuldade de dar por eles na escuridão imensa do cosmos porque devoram tudo à sua volta, inclusivamente os fotões, que são precisamente as partículas que dão luz ao universo. E se não há luz, dificilmente haverá imagem. Porém, tanto as simulações criadas por computador como os cálculos do modelo standard da física indiciavam que a matéria, ao ser arrastada pela monstruosa força gravítica para dentro do buraco, poderia apresentar alguma incandescência, dadas as escaldantes temperaturas a que decorrem estes singulares processos de dissolução universal, bem como o caos que advém da colisão entre os corpos que são selvaticamente arrastados. E é precisamente isso que, se calhar, com mediano grau de probabilidade e outro de cepticismo, vemos nesta pobre e desfocada imagem que tanto alarido está a criar na imprensa.
A mim, parece-me a coisa demasiado parecida com aquilo que se estava à espera que fosse, para ser completamente credível. Olho para a imagem e especulo: também pode ser uma supernova. E como estou com uma directa em cima, porque a minha vida não é isto, guardo o assunto para futuras e mais concretas conjecturas.
Seja como for, é giro pensar que conseguimos uma imagem de um buraco negro. Mesmo que não seja buraco negro nenhum.

Com a pica toda.

Esta não é, de todo, o melhor tema do disco de estreia dos Wallows, uns putos bastante vitaminados, com um som intenso e difícil de definir, que está algures entre o pop e o punk. Mas a canção bomba na mesma e à falta de melhor...



Wallows . Scrawny

Pewdie, outra vez.

Bem sei que estou a repetir conteúdo, mas o Felix merece. Esta letra é algo de extraordinário e tem mesmo que ficar registada aqui no blog. As partes que sublinhei são magníficos tiros certeiros, entre o humor satírico e a razão pura. O clip de "Congratulations" marca neste momento 67 milhões de visualizações. Cinco milhões e meio de gostos. Deuses.



T-Series! (Yeah!)
It’s your big day! (Woo!)
Incredible job!
I know we had our differences, but today
I just wanna tell you


Ay, congratulations, it’s a celebration
Party all day, I know you’ve been waiting (Here we go!)
Ay, congratulations (Woo!), it’s a celebration
I just wanna tell you that I think that you’re amazing

Ay, congratulations to your corporation
Guess to beat one Swedish boy you need a billion Asians
Yeah you did it very nice, and all it took
Was a massive corporate entity with every song in Bollywood

 

Now you’re at number one
Hope you did nothing wrong
Like starting your business by selling pirated songs

Oops! Didn’t think we’d see?
It’s right there on Wikipedia
Get used to your past being held against you by the media

 

I’m sure right now there’s nothing that you’re doing that’s illegal, yeah
I’m certain that you haven’t had collusions with the mafia

For legal reasons, that’s a joke
For legal reasons, that’s a joke
For serious Indian mafia, please don’t kill me that’s a joke
 

India, I’m sorry about the memes, you’re the best
I love my Indian bros, from Bombay to Bangladesh*
I’ll take on all the world for you, I’m a heavy hitter
‘Bout to cause a genocide so you can call me Hitler**

 

Ay, congratulations
It’s a celebration
Party all day, I know you’ve been waiting
Ay, congratulations
It’s a celebration
I just wanna tell you that I think that you’re amazing
Congratulations
Congratulations (It’s a big day)
Congratulations
Congratulations (Such a big day)

I got a letter in the post
Hmm what is this?
T-Series saying cease and desist
Had a problem with me telling them to “hold their defecation”
But, let me educate you silly, that’s not defamation (Woo)
T-Series can eat on this! (Still not defamation)
Suck my f**king Swedish meatballs! (Still not defamation)
Did you know that Indians are poo-poo in their brains?
That’s a blatant racist lie
Yeah, but still not defamation!

 

India got YouTube figured out, that’s sick son
How ‘bout next you figure how to fix the caste system? (Oof)***

Maybe all those ads will solve your crippling poverty but
Looking at T-Series’ past, I’m guessing not probably

But never mind the poor people, we just here to party
Just hit up, pop some bottles with the nine year-old army
Non-alcoholic ‘cause I had a real problem
But we still out there, live it like we ‘bout to kamikaze

So this is it, thanks for sticking with my channel
Ever since I was a nobody, screaming at barrels
Yeah, this is it, it’s been an adventure
It’s the end of the reign of Felix Arvid Ulf Kjellberg
Through all the change and controversy
You’ve been by my side
There’s no army in the world
I would rather give me watch time
It’s been a wild ride, so while I can still be heard
Here’s one last brofist from the number one
In the world

Ay, congratulations
It’s a celebration
Party all day, I know you’ve been waiting
Ay, congratulations
It’s a celebration
I just wanna tell you that I think that you’re amazing

Congratulations (Skrattar du)
Congratulations (It’s your big day)
Congratulations (I’m f**king lit)
Congratulations (Such a big day)

Congratulations, T-Series
You did it
Yatta desu ne
Hope that “#metoo” stuff doesn’t severely affect your bottom line



*O Bangladesh não faz parte da Índia e há um velho conflito latente entre a Índia e o Paquistão por causa deste território.
** O Felix não canta a palavra Hitler e nas legendas aparece apenas o termo "Hi-"
*** Dave Paul Brown refere-se aqui ao sistema de castas, que impossibilita a mobilidade social na Índia.


Music & Lyrics: David Paul Brown, Joel Gustaf “Roomie” Berghult, Felix Arvid Ulf Kjellberg

Subscribe to Pewdiepie

terça-feira, abril 09, 2019

O ponto (ridículo) a que chegámos.

Uma rapariga esperta observa que esta colecção de patinhos doces é racista. Denuncia na sua conta de Twitter a colecção de patinhos doces. Apesar da sua conta no Twitter não ter mais que 122 seguidores, a loja que vende os patinhos doces pede desculpa e retira-os. É verdade. E é o testemunho derradeiro do ponto a que chegámos. Se isto não é absurdo, redefinam a palavra, por favor.

sábado, abril 06, 2019

A incrível e triunfante história de Felix Arvid Ulf Kjellberg.

Era uma vez um puto sueco que desistiu da faculdade para criar um canal no YouTube. No princípio, era um canal como os outros milhões de canais no Youtube: um maluquinho dos vídeo-jogos a jogar todo o género insano de vídeo-jogos. Porém, a pouco e pouco, ano após ano, Felix Kjellberg foi ganhando audiências. Talvez por ser um puto bonitinho. Talvez por ser um puto educado. Talvez por ser um puto com piada. Talvez por ter uns quantos neurónios a funcionar convenientemente. Com o boost de audiências começou a cair sobre ele o dinheiro e a fama. A rodos. Mas, ainda assim, o puto continuava como sempre. Educado. Genuíno. Humilde. Inteligente. Já não assistíamos apenas a um canal para gamers feito por um gamer. Já percebíamos que estava ali um criador de conteúdos bem sucedido e bem humorado, competente mas sem se levar muito a sério, com consciência da sua responsabilidade como comunicador tanto como da influência que tinha junto do seu público. Às páginas tantas, Felix, o youtuber que conhecemos hoje por Pewdipie, deu por si como o produtor de conteúdo vídeo número 1 no mundo. A jogar vídeo-jogos, a fazer reviews de memes, a relatar notícias da web na personagem de Gloria Borger, a gozar à brava com figurinhas ridículas como o Dr. Phill e a recusar sempre, mas sempre, o fascismo politicamente correcto das grandes techs de Silicon Valley e as susceptibilidades idiotas da sua geração.

Apesar do discurso polido e ideologicamente moderado que constitui a sua imagem de marca, foi anunciado como um novo Hitler, acusado de ser supremacista, racista, sexista, vilipendiado pela imprensa e, claro, adorado por milhões e milhões de fans em todo o mundo. Imune ao histerismo da esquerda radical e aos milhões de dólares que ganha com o seu trabalho árduo, Felix manteve o registo descomprometido de gajo honestamente feliz e corajosamente libertário e foi somando subscrições. Aqui há dois ou três anos atrás, quando chegou aos 50 milhões de subscritores, percebeu que tinha no seu encalço, na competição pela liderança de audiências no Youtube, um peso pesado da indústria musical: T-Series, o monstro pop de Bollyhood. Decidido a combater a gigantesca corporação com as mesmas armas, fez isto:



Este clip teve até agora a espantosa quantidade de 178 milhões de visualizações e 8 milhões de gostos, batendo todos os recordes da história do Youtube. E iniciou uma gigantesca e militante campanha de subscrição do canal Pewdiepie que não tem paralelo na breve existência da Internet. Com milhares de canais envolvidos e iniciativas promocionais de carácter voluntarista a explodir por todos os lados da web e do mundo real, o número de subscritores do canal Pewdiepie aumentou na ordem das dezenas de milhões, sempre seguido de perto, nesse ritmo exponencial, pelo canal indiano.

A disputa pela liderança mundial de audiências (nenhum canal televisivo contemporâneo apresenta números que se comparem), subiu à categoria de combate épico entre um jovem metido num pequeno estúdio a rir-se do mundo e dele próprio (o humor de Felix é quase sempre meta-linguístico) e uma corporação poderosa e omnipotente, que lidera de forma praticamente monopolista o seu mercado nativo, constituído por um bilião e trezentos milhões de pessoas. Esta moderna rábula de David e Golias não podia acabar bem como a narrativa bíblica, e toda a gente percebia que, dado o contraste das forças em presença, era uma questão de tempo até que a multinacional indiana assumisse a liderança no Youtube. Já há muito tempo plenamente consciente deste facto, Felix guardou uns trunfos na manga e, em Dezembro passado, gravou esta obra prima da sátira contemporânea (recomendo que activem as legendas, porque vale mesmo a pena prestar atenção à letra):



Para além do excelente trabalho de composição (realizado com David Paul Brown e “Roomie” Berghult, presentes no clip), que resulta num hit pop/rap impressionante, a mensagem multi-dimensional e socialmente empenhada nos lyrics de "Congratulations" é absolutamente genial. Felix revela, pela primeira vez, as pressões que sofreu por parte dos advogados da T-Series, expõe o perfil pouco recomendável desta organização mafiosa e questiona até a moral de uma indústria que prospera num sistema económico fundamentado na miséria de centenas de milhões de pessoas, socialmente estratificadas por castas. É, de todo em todo, um manifesto poderoso, enfiado numa canção muito bem construída.

O clip só foi postado a semana passada, quando pareceu a Felix que a batalha estava perdida, em definitivo (atá aí o canal indiano já tinha chegado à liderança várias vezes, mas sempre por pouco tempo). Acontece que dois dias depois do clip ir para o ar, Pewdipie recuperou de novo o lugar primeiro, e é, no momento em que escrevo estas linhas, um líder relativamente confortável, com 93 milhões de subscritores e uma vantagem de meio milhão sobre o rival do indico. Há muito tempo que a divergência estatística não era tão grande.

Afinal, David ainda tinha uma palavra a dizer, Golias parece agora um animal bastante menos ameaçador e o puto sueco que só queria jogar vídeo-jogos continua a explodir com a lógica das audiências a nível global, enquanto defende a liberdade de expressão e os valores da cultura em que foi criado. Na verdade, e pensando bem, Felix Arvid Ulf Kjellberg é o último grande herói da civilização ocidental.


Subscribe to Pewdiepie.

quinta-feira, abril 04, 2019

Fé na pop.

Não sou um homem de fé, infelizmente. Mas acredito cegamente na pop alternativa dos dias que correm. E estes dois senhores - Ben Moorhouse e Leo Duncan, mais conhecidos por Ten Fé - dão-me boas razões para continuar a acreditar. Que grande malha.



Ten Fé . Won't Happe

domingo, março 31, 2019

Clássicos de culto: o Ferrari 250 GT Berlinetta SWB de 1961.

A Ferrari só sabe construir clássicos, claro, mas este 250 GT é um dos meus preferidos. Já não se desenham automóveis assim. Ninguém tem a ousadia necessária a esta aventura estética.
Um dos mais notáveis carros de corrida do seu tempo, o 250 GT era uma verdadeira máquina de devorar asfalto: o chassis leve, a curta distância entre eixos, a baixa altura ao solo e os 240 cavalos do motor de 12 cilindros garantiam performances assustadoras. Tudo o resto garantia classe.
Se o diabo fosse um automóvel, seria um 250 GT Berlineta SWB.


segunda-feira, março 25, 2019

quarta-feira, março 20, 2019

Vivaldi metálico.

Ainda a propósito de boa música metalizada, os Sinfonity, que vão estar em Portugal no fim deste mês, arranham um intempestivo Vivaldi, com ganas de electrificar o mundo:



Sinfonity plays Vivaldi . Four Seasons . Storm

terça-feira, março 19, 2019

E agora algo completamente diferente.

Deafheaven. Uma banda de Black Metal que este meu querido amigo fez o favor de me apresentar e que tem muito que se lhe diga. Eu já não ouvia metal há décadas, bem entendido, mas fiquei super agradado com esta opereta aqui:



Deafheaven . You Without End

Jornal de Letras - 2016/2018 - #03

Maquiavel e a Dama . Somerset Maugham . Livros do Brasil
Uma obra meio biográfica, meio ficcional, que relata uma paixoneta que Maquiavel entretém em Imola, enquanto procura desesperadamente convencer César Bórgia a não incluir Florença nos seus planos de conquista. Sendo escrito por quem é, um dos grandes mestres da novela, não admira que o leitor esteja perante um bocado magistral de literatura. Acresce que a tradução desta edição dos anos cinquenta é assinada por Erico Veríssimo, o que transforma este livrinho numa rara e preciosa jóia. Cinco estrelas.


Fanny Owen . Augustina Bessa-Luís . Guimarães Editores
Nunca tinha lido nada da Augustina e pensava que isso era uma lacuna grave. Depois de ler este enfadonho romance, percebi que fiz muitíssimo bem em ingorá-la durante tantos anos. Até Camilo Castelo Branco, um dos protagonista da rábula e que seria a todos os títulos um personagem literário de grande potencial, se torna um chato irrecuperável. Sendo que a obra, se assim lhe podemos chamar, tem como génese uma encomenda do Manuel de Oliveira para o seu filme "Francisca", não é de estranhar que se trate de uma estopada das antigas, mas ainda assim acho que não vou repetir o erro de voltar a pegar num livro escrito por esta senhora.


Mistérios de Lisboa . Camilo Castelo Branco . 3 vols . Parceria A. M. Ferreira Lda.
A propósito do Camilo, desde que descobri que tinha na cave as obras completas desta figura monumental (a propriedade da colecção é do meu sogro), tenho procurado ler alguma coisa para além d'O Judeu e da Queda de um Anjo, que já tinha lido há muitos anos, embora, claro está, tenha perfeita consciência que morrerei sem consumir nem um terço da coisa, porque o homem escreveu muito para lá daquilo que é admissível dar conta. Comecei por esta trilogia, que é deliciosa: um vasto conjunto de pequenas novelas sobre os intestinos emocionais, psicológicos e sociais da Lisboa do Século XIX, naquele registo ultra-romântico e meio decadente que caracteriza o imortal autor. Adorei, para dizer a verdade.


A Lógica do Dinheiro . Niall Ferguson . Temas e Debates
Este é um autor que sigo com zelo de discípulo porque se trata claramente de um dos mais brilhantes intelectuais ingleses da sua geração. Fiz a recensão crítica do seu "Colosso" aqui há uns três anos atrás, para o Deus Me Livro, e esta obra também merecia semelhante dedicação, para a qual não tenho vagar neste momento. Fica em vez disso - e se calhar melhor do que isso - um documentário poderoso que Ferguson realizou em 2016 sobre o tema do dinheiro. E uma nota só: alguma vez te passou pela cabeça, gentil leitor, que o dinheiro é o único elo de confiança verdadeiramente unânime que é possível estabelecer entre todos os povos da Terra? Sobre o dinheiro, e o seu valor não nominal, parecemos estar todos de acordo. É, na verdade, a única coisa sobre a qual todos concordamos no correr da história universal.




O Pátio Maldito . Ivo Andric . Cavalo de Ferro
Ivo Andric é um dos poucos Nobel que de facto mereceram o prémio nos últimos 70 anos. É claro que este Pátio Maldito não está no patamar olímpico de Uma Ponte Sobre o Drina, mas não deixa de ser uma novela intensa, saborosa e multi-dimensional sobre um monge cristão que é enfiado, por erro judicial, na pior prisão de Instambul. Excelente bocadinho de literatura.


O Arquipélago Gulag . Aleksandr Soljenítsin . Sextante Editora 
Sempre tive uma enorme admiração por Soljenítsin, depois de ter lido O Pavilhão dos Cancerosos na adolescência. Mas, tendo absorvido posteriormente muita informação sobre a vida e a obra deste grande herói russo, este enorme guerreiro da liberdade, nunca mais li nada escrito por ele. Isso aconteceu só agora com este monumental documento que constitui factualmente um dos mais importantes contributos para a queda do Império Soviético.
Soljenítsin relata, com fôlego enciclopédico e coragem épica, todo o indiscriminado e absoluto horror dos campos de trabalho do regime dos sovietes. E fá-lo graças à recolha de milhares de casos concretos, de pessoas reais apanhadas na teia da mais sinistra aranha do século XX: a do totalitarismo comunista.
Testemunho impressionante da brutalidade e do niilismo a que chegou o poder soviético, O Arquipélago Gulag devia ser leitura obrigatória para os millenials deste mundo (e outros parvos mais velhos), que encaram o socialismo como uma receita plausível para os males da civilização.

Jordan B. Peterson redigiu o prefácio para uma recente edição em Inglês desta obra imortal. Aqui fica esse prefácio, lido por ele mesmo:




Curvas Ideais, Relações Desconhecidas e Outras Histórias da Matemática . Jorge Buescu . Gradiva
O meu estimado amigo Jorge Buesco é sem qualquer dúvida o grande divulgador da Matemática e da Física no nosso país e já aqui muito escrevi a propósito dos volumes que o emérito professor da FCUL tem editado pela Gradiva. Este novo conjunto de ensaios não foge à boa regra de ensinar ciência a leigos através do recurso às histórias que estão por trás das descobertas, dos cálculos e dos teoremas. Das ondas gravitacionais (e respectivas hesitações de Einstein) aos problemas do tráfego automóvel, da geometria de Almada Negreiros ao Bitcoin, mergulhamos com o Professor num universo de charadas e enigmas, de falhanços e de glórias, de ideias terra-transformadoras e episódios recambulescos para ficarmos um bocadinho mais sábios.
Se gostas de ler sobre ciência, gentil leitor, compra e lê todos os livros do Professor Buescu.


Cem Provérbios Chineses . Recolha e comentários de Fan Wixin . Instituto cultural de Macau
Os proverbios chineses não são bem um equivalente dos provérbios como os entendemos em Portugal. Os nossos provérbios têm origem na sabedoria popular. Os provérbios chieneses tâm origem na erudição histórica. O que os torna bem mais interessantes.
Por exemplo, para dizer que não se deve julgar ninguém de forma definitiva, sem ter em conta a sua capacidade de evoluir no tempo, um chinês recorre ao seguinte provérbio: "ao fim de três dias sem ser visto, um homem deve ser olhado com outros olhos". A máxima tem origem numa história que decorre entre os anos 20 e 80 da nossa era, no chamado Período dos Três Reinos. Um general analfabeto, Lu Mong, valente mas intelectualmente desconsiderado, é destacado pelo seu rei para um palco operacional de grande complexidade. Três anos depois é visitado por Lu Su, o Ministro da Guerra, que verifica, espantado, que Lu Mong tinha resolvido os problemas militares com mestria táctica, inovando sobre a doutrina da guerra. Perante o pasmo do ministro, Lu Mong contrapõe a frase proverbial, que fica para a posteridade.
Este livro é uma verdadeira montanha de sabedoria e erudição oriental, cuja leitura me deu um prazer enorme.

quarta-feira, março 13, 2019

A contratação mais baratinha da história universal do pontapé na bola.



Há um ano atrás, Cristiano Ronaldo demonstrou claramente, neste mesmo palco de Turim, que a diferença estava nele e em mais ninguém e o Real Madrid eliminou a Juventus. Hoje, voltou a provar o seu ponto: quem tem o CR7 costuma seguir em frente na mais exigente competição de futebol já inventada. E a Juventus suplantou um outro grande de Espanha.
A miserável quantia que os italianos pagaram ao rival ibérico por este marciano, talvez o melhor jogador de futebol de sempre, já está, claro, mais que paga e mais que rentabilizada. Este foi, muito provavelmente, o melhor negócio já feito por um clube desde que alguém numa universidade inglesa decidiu que a bola devia ser redonda e jogada preferencialmente com os pés.
Nesta altura da sua carreira, Ronaldo faz história de cada vez que entra em campo. Às vezes, como aconteceu hoje, faz mais que isso. Faz posteridade.

domingo, março 10, 2019

Convém ler o dr. Gonçalves:

O PS (o PS dos boatos sobre Sá Carneiro, o PS do livro censurado de Rui Mateus, o PS da Casa Pia, o PS das inúmeras habilidades do “eng.” Sócrates, o PS dos telefonemas irados ou doces aos directores de informação, o PS que manda na linha editorial dos jornais a ponto de os tornar irrelevantes ou extintos, o PS que deu à Lusa uma credibilidade idêntica à do saudoso “O Crime”, o PS que inventou a ERC, o PS dos resgates à banca e dos saques ao contribuinte, o PS das negociatas disfarçadas de “desígnios”, o PS sem vergonha da vergonha dos incêndios de 2017, o PS das austeridades viradas na retórica e agravadas na prática, o PS do blogue Câmara Corporativa, do sr. Abrantes e de incontáveis jagunços que saltitam nas “redes sociais” e nos espaços de “opinião pública”, o PS da propaganda descarada, o PS dos paquistaneses travestidos de militantes, o PS que branqueia o rosto do líder como branqueia cada embrulhada em que se mete, o PS das prosperidades que terminam em bancarrota, o PS dos srs. Centeno, Ferro e César, o PS que mais do que qualquer outro partido se confunde com o sinistro “aparelho de Estado”, o PS enfim que, há dias, criou a agência espacial portuguesa) quer acabar com as “fake news”.

Primeiro parágrafo da crónica de ontem de Alberto Gonçalves, no Observador. Convém ler o resto.

Pela Estrada Fora #19

O segmento da Nacional 9-1, que sobe da Penha Longa para a Malveira da Serra, é um monumento ao asfalto. A estrada é sinuosa tanto como é rápida, e transita de forma espectacular da cenografia fechada da floresta para um palco panorâmico e exuberante sobre o Atlântico. Além disso, oferece várias entradas para troços absolutamente lindos - e desertos - do velho Rally de Portugal. Pode parecer incrível, mas Sintra ainda tem algumas estradas secretas (assunto para um próximo post).






sexta-feira, março 08, 2019

Com o Twitter à mostra.

Da primeira vez que Joe Rogan entrevistou Jack Dorsey, o criador e actual CEO do Twitter, a coisa não correu muito bem, porque Rogan não estava nitidamente num dia bom e poupou imenso o entrevistado, principalmente nas questões ligadas à censura e aos constantes atentados à livre expressão por parte do gigante americano. Mas sendo Joe Rogan o tipo decente que é, percebeu bem a avalanche de críticas e decidiu gravar outro programa dedicado ao assunto. Voltou a convidar Dorsey, que veio acompanhado pela sua directora de moderação - Vijaya Gadde, mas agora optou por convidar também o tremendo Tim Pool, para que os executivos da rede social do canário fossem confrontados por um adversário à altura. E Tim Pool é um desses.

Nem vale a pena dizer que este podcast resultou bem melhor do que o anterior, tanto mais que dá para perceber perfeitamente que o Tweeter não é uma plataforma ideologicamente neutra. A conversa é sempre elevada e extremamente interessante; tanto Dorsey como Gadde mostram uma atitude dialéctica, positiva e até humilde, que é de assinalar, mas não conseguem na verdade disfarçar o preconceito ideológico, que começa logo por estar presente nas regras impostas aos utilizadores. E acaba num problema central, reconhecido por Dorsey: o pensamento de esquerda é dominante nas grandes techs de S. Francisco e dessa generalizada inclinação resultam plataformas preconceituosas, imparciais e, frequentemente, censórias. Marquei o início do vídeo para um momento que é bem explícito, mas todo o talkshow é eloquente nessa revelação. E das duas uma: ou o Twitter corrige a sua actuação doutrinária ou vai ter que perder os benefícios fiscais de que usufrui por não ter estatuto editorial. É preciso ter em conta que estamos a falar da mais poderosa máquina de fazer política dos tempos que correm.

De qualquer forma, estas 3 horas de formidável debate mostram que a América ainda conserva as suas velhas virtudes: liberdade de pensamento e de discurso, idealismo e capacidade de gerar massa crítica, material e cultural, para mudar o mundo.



Eu sei bem que em Portugal há muita gente que nem sequer se apercebe do que está acontecer com as grandes empresas tecnológicas americanas, que se transformaram em poderosas máquinas de convergência ideológica e, logo, de censura aberta e massiva. Infelizmente, desconfio que, mais tarde ou mais cedo, vamos todos sofrer os efeitos dessa tirania, independentemente até do espectro político em que nos localizamos. Mas por essa altura, o fenómeno será muito mais difícil de travar. Esse é, aliás, um dos problemas históricos do fascismo. É sempre diagnosticado tarde demais.

quarta-feira, março 06, 2019

Se usas os teus neurónios - e não o tom da tua pele - para teres opinião própria,

 estás fodido:



É difícil pensar que ainda vivemos dentro dos parâmetros da democracia clássica ocidental, quando as pessoas são publicamente castigadas por terem uma opinião que é apenas diferente.

terça-feira, março 05, 2019

If I Were The Devil.



Paul Harvey . 1965

The Leftovers: uma redefinição conceptual do produto televisivo.

Para não estragar nada a quem ainda não viu esta série, mostro apenas o impecável opening title da segunda temporada de "The Leftovers", uma produção da HBO que está a mexer imenso com o esqueleto da minha sensibilidade.



A série foi produzida entre 2015 e 2017, mas só agora decidi investir nisto e foi em boa hora, porque se trata de um produto televisivo que é capaz, como poucos, de terra-transformar radicalmente a geografia emocional do espectador.

The Leftovers desenrola-se sob um pressuposto inicial que parece de modesta intensidade dramática: a narrativa começa 4 anos depois de um evento sobrenatural ter feito desaparecer 2% da população humana global. Só que a forma como Damon Lindelof e Tom Perrotta trabalham sobre este pressuposto é densa e tentacular e transcende qualquer tipo de cliché apocalíptico. As consequências do desaparecimento de 2 pessoas em 100 não se revelam tanto no sofrimento directo daqueles que perderam os seus familiares e amigos, mas sim na angústia existencial que se abate sobre toda a sociedade. Na dificuldade de entendimento físico e metafísico do fenómeno, que leva a um surto de esquizofrenia individual e colectiva e religiosa que é verdadeiramente aterrador.

Os personagens desta série  são  sujeitos a um percurso desesperante de caos e inquietude, de contrariedades e arrependimentos, de solidão e niilismo, de tal forma que são incapazes de se apresentar como heróis ou vilões: são apenas gente de quem temos pena, ou por quem nutrimos simpatia. São pessoas normais, frágeis e complexas, apanhadas numa tempestade desenhada por Schopenhauer.

Estou agora a terminar a segunda temporada e desconfio que, como já fez em "Lost",  Lindelof não vai explicar todas as anomalias ontológicas a que submete a interpretação do audiente, mas, ainda assim, não tenho motivos para descrer que a terceira temporada não consolide a genialidade toda do projecto.

Da irreverência vanguardista da banda sonora ao classicismo temático do guião, que se inspira na tragédia grega tanto como nas escrituras judaico-cristãs, este é, sem dúvida alguma, um contributo sério para a redefinição do que deve ser a televisão no século XXI. E, por uma vez, trata-se de um produto não politizado. O que, nos tempos que correm, não é dizer pouco. Cinco estrelas.

segunda-feira, março 04, 2019

Capitalismo versus Socialismo

Um lúcido contributo de Andy Puzder para a dialéctica da moda:

A lógica do ódio e como vencê-la.


Aqui há duas semanas atrás, Hayden Williams, um jovem activista conservador, foi violentamente agredido no Campus de Berkeley, apenas porque manifestava o seu apoio a Trump. As imagens são chocantes.



Dez dias depois, a polícia de Richmond lá conseguiu identificar o agressor, Zacckary Greenberg, que vai ser certamente poupado pelo sistema judicial californiano, embora dificilmente consiga escapar a uma pena onerosa no processo civil que concerteza se seguirá.

Este episódio é bem demonstrativo do fascismo que impera na academia americana, e das dificuldades relativas à liberdade de expressão que os estudantes conservadores experimentam actualmente nos Estados Unidos, no Canadá e na Europa.

Se repararem bem no áudio do vídeo, os meliantes acusam Hayden de incentivar o ódio pela razão de usar um boné MAGA (Make America Great Again) e apresentam como solução o espancamento do rapaz. A lógica aqui é totalitária: se a tua voz incomoda, a violência é a melhor forma de repor o silêncio.

Provavelmente naquele que é o momento mais importante - e vibrante - do seu discurso interminável no CPAC deste ano, Donald Trump chama Hayden Williams ao púlpito para celebrrar a sua coragem, incentivar o seu zelo e prometer aos americanos que vai castigar financeiramente as universidades que não respeitem a Primeira Emenda da Constituição Americana, que garante a liberdade religiosa, a liberdade da imprensa e a liberdade de expressão e de manifestação pública da opinião. O momento, está aqui documentado e é, a todos os títulos, de enorme relevância política:



Digam o que disserem de Trump, e eu próprio já disse horrores dele, parece-me cada dia mais claro que o actual Presidente dos Estados Unidos está uns furos acima, em classe e razão ética e sabedoria política, dos seus adversários do Partido Democrata, e a anos luz de distância da turba marxista que domina os media e as universidades. À violência gratuita e totalitária, contrapõe ordens executivas que fazem sentido, que são razoáveis e que defendem a moral da constituição que prometeu respeitar.
A ideia é eficaz, legal e leal. Não recorre a métodos de supressão pela violência ou pela proibição. Limita-se a usar o poder do dinheiro - e o poder da lei - para fazer justiça.

É assim que se combate o fascismo.